Zero Hora
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“Fazer um câncer”

Sobre as causas psicológicas das doenças orgânicas

Woody Allen escreveu certa vez sobre as palavras mais maravilhosas que ele já escutou: “É benigno”. A Zero Hora tem publicado histórias de mulheres que foram informadas do contrário, descobriram estar com câncer de mama. Com diversos graus de proximidade, muitos de nós vivemos histórias como as delas. 

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28/11/07 |
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20 anos sem Cortázar

Sobre o aniversário da morte do escritor

Dia 12 de fevereiro fizeram vinte anos da morte do escritor argentino, radicado na França, Júlio Cortázar. Sua morada estrangeira não o impediu de fazer da língua espanhola um instrumento onde bem executar sua sinfonia de palavras. Foram anos politicamente muito duros, nos quais os mais sensíveis poetas e escritores latino americanos viviam vários tipos de exílio. O de Júlio foi político, mas também pessoal, ele encontrou em Paris sua melhor tradução. Quanto a mim, em minha juventude encontrei em seus textos o mesmo que a cidade luz lhe ofereceu.

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24/03/04 |
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@ Laerte

na arte e na vida, autor@ de imagens intrigantes, sou fã

Tenho várias tiras do Laerte Coutinho coladas numa parede em meu consultório, são como enigmas que seguem me interrogando. Mais do que um cartunista, ele escreve poesia e filosofia com imagens. Suas tiras são abismos de múltiplos significados nos quais me perco. Todas as recomendações são poucas para que o leitor conheça sua obra. Ele é certamente um dos artistas mais importantes do Brasil.

Quando já o admirava, ele passou a dedicar sua vida a um tema nada prosaico: a identidade sexual. Começou a vestir-se de mulher, frequentava o “Brazilian Crossdresser Club”, discretamente, sob o nome de Sônia. Aos poucos, o prazer de usar a indumentária do sexo oposto deixou a clandestinidade. A Revista Piauí de abril (n. 79) dedica-lhe várias páginas, numa reportagem na qual é tratado por vezes com pronomes femininos, por outras masculinos. Sua coragem desnuda a todos, quer usemos cuecas ou calcinhas. Na vida, como na arte, ele produz uma imagem intrigante.

A formação da identidade sexual é pura incerteza. Apesar disso, ao crescer cruzamos com duas perguntas: o queremos e o que seremos, ou seja, a quem desejamos e como nos pareceremos. Além da questão de gênero, o desejo aponta muitas variações, preferiremos velhos ou moços, miúdos ou graúdos, humildes ou opulentos, pessoas vistosas ou alguém cuja beleza brilha somente aos nossos olhos, e assim por diante. Porém, uma definição bifurca os tipos de objetos de desejo: do nosso sexo ou do oposto. Não falta quem lembre ingenuamente que a anatomia nos condena à complementaridade fecunda do macho e da fêmea. Quanto ao que nos parecemos, há roupas para deixar isso bem claro, convém que as usemos conforme o corpo com que chegamos ao mundo. Os militantes dessas certezas fecham a questão.

Os jovens contemporâneos a abrem e têm praticado a ambiguidade com uma liberdade inédita. A androginia das roupas e adereços, assim como a bissexualidade das escolhas amorosas, inquietam as gerações anteriores e as almas frágeis. Mas eles não fazem mais do que externar incertezas que todos guardamos no armário. Nunca seremos suficientemente convincentes como homens ou como mulheres aos nossos próprios olhos, da mesma forma, tampouco somos imunes à atração por pessoas de ambos os sexos. Forjamos em nós certezas, as gritamos para acalmar as dúvidas que nos sussurram aos ouvidos. Criamos mitos religiosos e até científicos para dizer que existe uma definição clara dessa fronteira.

Antigamente, quando queríamos dirigir uma mensagem a homens e mulheres dizíamos assim: “prezado (a)”, ou seja, se você for mulher, também será contemplada, em segunda opção. A luta feminista está tirando as mulheres desse segundo plano, hoje diríamos assim: “prezad@”. Com o fim da divisão dos mundos que acompanhava a separação dos sexos, a identidade sexual entrou em questão. Estamos banindo mais do que a opressão das mulheres, trata-se agora da derrocada dos clichês sobre as características definidas de cada gênero. Laerte, diz ser “uma mulher em caráter experimental”, eu te compreendo querida, eu também sou.

A “boa”morte

Tenho mais medo de morrer do que da morte: sobre Testamento Vital.

Perdi uma amiga, partiu antes de ficar velha. Ela deixa marcas importantes em sua área profissional, uma legião de amigos órfãos de sua presença, uma vida plena, interrompida por um câncer fulminante. Mal teve tempo de passar pelas torturas da doença, viveu seus últimos tempos ignorante do mal que implacavelmente a corroía. Graças a isso, viajou, estudou no exterior e se divertiu. Sentia vagos mal-estares estomacais, que atribuía à alimentação. Quando seu trágico destino foi revelado, já era tarde para qualquer providência, que, se tomada antes, tampouco seria diferente. Ela teve uma, sempre indesejável, boa morte. Se é possível desejar algo nesse território, também gostaria de partir assim, tendo tido o direito de viver plenamente até o fim, como ela.

Nesse sentido, celebro a resolução do Conselho Federal de Medicina, que se pronunciou sobre os termos do “Testamento Vital”. Trata-se do direito de deixar estabelecidos os limites a respeito dos procedimentos aos quais não desejamos ser submetidos na fase terminal. A morte deveria pertencer a seu protagonista, mas infelizmente, não existe momento de maior entrega.

Duvido que exista alguém que não tenha fantasiado sobre seu enterro. Quem não gostaria de ser uma mosca para assistir à própria despedida? Na derradeira celebração, estaríamos em condições de avaliar a veracidade das lágrimas, estimar nossa importância para os outros. É também oportunidade de, por que não, deixá-los culpados, se por acaso isso nos satisfaz. Dizem que a mãe judia vai mandar gravar em sua lápide: “eu disse que não estava me sentindo bem”. No enterro, nosso epitáfio está na boca de todos, cada presente oferece uma frase que nos definia, ou uma memória marcante do convívio, dirá em que lhe faremos falta. Enfim, parece o momento em que nossas maiores perguntas estarão por fim respondidas e não estaremos lá para ouvir. Pena.

O problema é que até esse momento, em que nosso ser transforma-se nas palavras dos que permanecem vivos, precisamos passar pela dura transição de morrer. Morrer costuma doer. Dói sentir-se esvair, é absurdamente triste ver-se partir, dói o corpo que colapsa. Tenho mais medo de morrer do que da morte.Talvez, se minha amiga tivesse tido tempo de escrever seu testamento vital, não escolheria outros termos para sua partida.

Há pouco o mundo assistiu chocado ao suicídio do diretor de cinema Tony Scott, que pulou de uma ponte, dizem que após constatar que possuía uma doença incurável. Abisma-me semelhante ousadia, não só relativa ao ato em si, mas também de assumir essa posição frente aos seres queridos. Morrer é como sair de uma festa, cedo é constrangedor, tarde é melancólico, buscamos a hora certa e sempre ficamos com a sensação de ter errado o momento. Nunca faria um ato como o de Scott pois o efeito dramático sobre os que ficam é avassalador, também é preciso zelar pela dor deles. Quando chegar a hora, só peço que me poupem de torturas desnecessárias e me deixem partir. Essa é minha vontade e creio que a de tantos.

A amizade na terra do nunca

Sobre o seriado de televisão Friends

Há 8 anos um grupo de amigos vem fazendo parte da vida de muita gente que os freqüenta virtualmente. Trata-se do seriado Friends, transmitido diariamente no Brasil pelo canal da Warner. Continue lendo…

05/02/03 |
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A bela adormecida tamponada

Uma mulher indisponível, nem pornográfica, nele erótica, é uma imagem sinistra…

Nas imagens pornográficas as mulheres aparecem explicitamente ofertadas ao olhar e ao acesso dos interessados. Estes, ao menos imaginariamente, podem dispor delas para seu prazer. Quanto mais pornográfica e menos erótica for a representação, mais visíveis serão os orifícios “disponíveis”. A transformação de alguém em uma imagem incumbida de encenar fantasias alheias, sem levar em conta as que ele próprio possa ter, é o cerne da pornografia e o avesso do erotismo. As pessoas que consomem esse gênero não são egoístas ou pervertidas. São apenas neuróticos triviais que utilizam representações anônimas daquilo que imaginaram para atingir o gozo sexual.

É necessário que o outro seja passivo? Sem problemas. Dominante? OK. Cai bem que esteja encontrando prazer nas mãos de alguém do sexo oposto que não seja eu? Tudo bem. Preciso ver duas pessoas do mesmo sexo se desejando? OK.. Vários participantes, todos desejando uma só mulher? Para tudo há uma solução: a indústria pornográfica arregimenta pessoas capazes de praticar os contorcionismos necessários, a serviço de um Kama Sutra comercial pouco encontrável numa real cena de sexo.

Agora imagine uma dessas mulheres, linda e loira, colocada em posições clássicas da pornografia mas com todos os orifícios de seu corpo tamponados. Olhos, boca, nariz, ouvidos, vagina, ânus, cobertos com uma massa branca que a impede de qualquer relacionamento, ativo ou passivo, com o mundo. Numa urna de vidro, ao lado das fotos, estão os tampões, modelados em seu corpo.

No espaço de exposições do Santander, em Porto Alegre, entre outras instalações instigantes, os artistas Laura Cattani e Munir Klamt propõe essas fotos, da mulher tamponada, nem pornográfica nem erótica: sinistra.

Eles chamaram o conjunto das obras expostas de “Aporia”, traduzível por “impasse”, “beco sem saída”. Esse é o efeito desse corpo indefeso e inacessível. A anti-bela-adormecida dos retratos não está à espera nem de um príncipe que a beije, nem de um voyeur que a contemple. Ela tem seu corpo fechado, mas permanece em poses de disponibilidade, representando um paradoxo de passividade interditada.

No local, travei um diálogo com uma moça que trabalhava ali. Perguntei de quem era a obra. Ela entendia que eu indagava quem era a moça e dizia não saber informar a identidade da modelo. Insisti e ela também. Após o reiterado mal-entendido, compreendi que ela não aceitava o anonimato da retratada. Afinal, se era seu corpo, por que não seria ela identificada? Ficamos nessa conversa de surdos porque ambas nos angustiamos frente às fotos. Uma mulher cheia de rolhas é um doloroso retrato da passividade feminina. Ele nos mostra que fomos educadas para estar sempre alheias ao mundo e disponíveis para o uso.

A casa das pessoas estranhas

Sobre uma exposição de artes plásticas no Hospital Psiquiátrico São Pedro

A  Bienal, nas performances realizadas nas antigas dependências do Hospital Psiquiátrico São Pedro, levou muita gente a um lugar que preferimos desconhecer. A ocupação daqueles  prédios centenários pela intervenção artística foi uma boa idéia mas  nos deixou da loucura a pior imagem. As performances sentiram-se convocadas a dialogar com os fantasmas que passeiam nas dependências do velho prédio, porém estes eram os dos pacientes cronificados pela reclusão, não necessariamente dos loucos. 

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16/11/03 |
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A Chave do Tamanho

Sobre ser pequeno, achar o mundo imenso. Sobre achar-se grande coisa e filosofias da boneca Emilia.

Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinqüentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?

Impossível não evocar “A chave do tamanho” de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a “Casa das Chaves”, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.

Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima idéia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.

10/05/12 |
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A comilança

Sobre os banquetes natalinos

Desde que o homem é homem comunga em torno do alimento, mas não basta que comamos juntos, a refeição deve oferecer uma fartura que garanta a saciedade e deve haver sobra. Uma boa mesa de celebração deve causar nos comensais a sensação de que eles são muito poucos para dar conta da quantidade e ou variedade oferecida. É esperado que os convivas aleguem estar mais que satisfeitos, devem se declarar totalmente incapazes de ingerir um bocado a mais que seja.   

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24/12/03 |
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A cortesia amorosa do cafezinho

Regras da cortesia amorosa: ao contrário do que dizem, não vivemos uma época de vale-tudo no sexo e vale pouco no amor.

Para os mais apocalípticos vivemos tempos selvagens, onde o sexo tornou-se um açougue e a intimidade afetiva está extinta. A relação sexual casual, impessoal, sem palavras, teria afogado em gozo as verdadeiras trocas. De fato, por vezes é assim e não significa nada grave para os envolvidos. Mas, só para complicar esse raciocínio alarmista, temos uma instituição, representante do recato e da civilidade: o cafezinho, um encontro curto e marcante, como a bebida que o nomeia.

Suponhamos que duas pessoas se conhecem, pode ser na internet, num jantar de amigos comuns, na aula de inglês, na academia, trocaram telefones na parada de ônibus, num sarau, num encontro de meditação ou entre as estantes do supermercado. Podem ter havido alguns beijos ou até uma transa na saída de uma festa, talvez meio alterados pelo álcool. Porém, nada nesses encontros prévios, nem mesmo o sexo, significou qualquer autorização para a intimidade, nem para ilusões ou expectativas sobre a relação. Até que se tome um cafezinho.

Ele será marcado em um lugar público, na impessoalidade do shopping ou em um lugar mais simpático. Essa proposta já diz algo dos envolvidos. Aí começam as pistas, a partir das disponibilidade de horários, das partes da cidade com as quais se tem intimidade, do meio de locomoção. Para muitos casais que se iniciaram virtualmente há o desafio de ver-se pela primeira vez e, principalmente, do efeito causado pela presença do outro.

O desejo erótico responde a variáveis muito peculiares, lapidadas com nossa identidade. Chegar de bicicleta ou num carrão, ter uma aparência certinha ou desalinhada, frágil ou possante, são dados que podem ou não coincidir com a cartilha que regra a excitação de cada um. A sociedade é cheia de clichês sobre a sedução, mas os desejos não são assim tão estereotipados. Ainda bem. Aliás é bem comum que alguém se surpreenda supondo que seria lógico gostar de uma pessoa assim, mas só consegue sentir desejo sexual por pessoas assado.

Então, nossa dupla de candidatos ao amor se encontrará para o dito cafezinho. Um café pode resultar em amor, amizade ou na conclusão de que não há o que fazer juntos. Nesse último caso, em geral partem sem ressentimentos, pois o cafezinho é uma aposta mínima, não será uma saída vexatória. É diferente de um convite para jantar ou para ir um cinema, que são um passo adiante.

Na mesa do cafezinho, o destino está depositado em tudo aquilo que dizem ter desaparecido: as palavras, os olhares, as delicadas sutilezas do encontro e da erótica. Seguimos tendo nossos métodos de cortesia amorosa. A liberdade sexual é contemporânea do cafezinho.