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Frankenstein: o filho queixoso

2018 encerrou, ano estranho, não por acaso ano do centenário da publicação da primeira versão de Frankenstein, escrito por uma das primeiras crias do feminismo, a jovem escritora Mary Shelley. Essa história ainda nos diz muito. Neste momento em que tantos exigem de uma figura paterna o que ela nunca pôde dar, em que tantos tomam decisões em nome dos mesmos ressentimentos que moveram o monstro, talvez seja hora de reler esse mito literário. Aqui, trechos do nosso livro “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia”, publicado em 2010.

“Lembra-te de que fui criado por ti;
eu devia ser teu Adão,
porém sou mais o anjo caído. ”

O nascimento de Frankenstein

Tão popular como um monstro do folclore, Frankenstein nasceu na literatura, no livro Frankenstein ou o Moderno Prometeu, de autoria de Mary Shelley, uma jovem inglesa de 18 anos. O fato é que decorridos quase dois séculos, todos ainda sabem quem ele é. Podem não saber exatamente detalhes da história original, pois esse personagem ultrapassou muito as páginas do romance de Shelley, mas algo de sua essência continua reverberando em uma época tão distinta daquela que o viu surgir. Isso faz dele um dos mitos literários da era individualista, ao lado de Fausto, Robinson Crusoe, Dom Juan e Dom Quixote; ou seja, são personagens que nasceram em livros, mas já habitam a imaginação popular.
Essa novela nasceu de um desafio literário realizado por um grupo de amigos: isolados pelo mau tempo durante umas férias, Mary Godwin Shelley, seu marido Percy Shelley, junto com os amigos Lord Byron e John William Polidori, lançaram-se a escrever histórias de horror para divertir uns aos outros. Dos convivas, foi a jovem Mary a que mais seriamente cumpriu a tarefa. O primeiro livro saiu em 1818, mas em na sua terceira revisão, em 1831, é que se estabelece o texto clássico tal qual foi traduzido em várias línguas.
Como era comum na literatura da época, principalmente entre aqueles romances que caíram em gosto popular, a história lança mão do recurso das cartas, misturadas ao relato em primeira pessoa do protagonista: Dr. Victor Frankenstein, estudioso de ciências naturais, o homem que descobriu como dar vida à matéria morta.
A novela começa pelas cartas do capitão de um navio que rumava para o Polo Norte para sua irmã, contando uma estranha aventura que lhe acontecera. Nessa paisagem inóspita ele se deparou com o Dr. Frankenstein, e o recolheu em seu navio mais morto do que vivo. Ele lhe contou a triste história da fabricação de um monstro e sua missão de persegui-lo e destruí-lo. Como o trajeto do navio lhe convinha e estava fraco para continuar a caçada sozinho, o doutor segue a bordo e morre após terminar seu relato. A maior parte do livro consiste nessa história, transcrita pelo capitão, do nascimento do monstro, o destino trágico de criador e criatura, finalizando com um pedido de Frankenstein de que, em caso de sua morte, alguém se incumbisse de eliminá-lo. Na cena derradeira, Walton ainda tem um encontro com a criatura que subiu ao navio para o último adeus ao seu criador. O monstro parte, prometendo dar fim à sua própria existência.
Frankenstein teria decidido revelar sua triste sina para que o navegante não se deixasse destruir pela sua ambição de atingir o Polo, como ocorrera com ele anteriormente. No derradeiro fim, aquele que, como veremos, não conseguiu ser pai para ninguém, que perdeu tudo e todos, restando só o maior dos seus erros, entra em nossa história em uma posição paterna: a do sábio que aconselha o aventureiro, tentando ensinar-lhe a viver. Enfim, como nunca antes, ele consegue fazer um derradeiro gesto de cunho paterno. A história do monstro e do seu criador, ambos conhecidos pelo mesmo nome de Frankenstein é a história do quanto esse homem sofreu para que esse simples diálogo pudesse ocorrer, nem que fosse apenas à porta da morte.
Depois de escutar Frankenstein, o capitão desiste de sua obsessão por atingir o Polo Norte. A conquista do polo, feita quase um século depois desse livro, em 1909, já era meta de aventureiros que queriam marcar seu nome na história, indo até onde nenhum homem ainda chegara. O Polo Norte tem uma mística própria, serve de símbolo do fim do mundo, de ponto de orientação, pois é para lá que a bússola aponta. Talvez seja essa mesma lógica que faz do Polo a moradia de Papai Noel, um lugar extremo e ao mesmo tempo central, orientador. Se boa parte da queixa que perpassa o livro é a de que vivemos desorientados, que não existem referências paternas sólidas, de que o pai nunca fornece um norte, não deixa de ser irônico que seja justamente próximo desse eixo do mundo que ocorra o encontro entre Frankenstein, seu monstro e o viajante que se tornará o porta-voz de sua história.
Conforme seu relato, Victor Frankenstein foi primogênito de uma importante família genebrina e aos 17 anos, quando se preparava para sair de casa e frequentar a universidade, perdeu sua mãe. Junto da família vivia Elisabeth, adotada pela família quando ambos tinham cinco anos e eles se tratavam como primos. Porém, apesar do vínculo familiar que o ligava à moça, a mãe pede em seu leito de morte que eles se casem, e é a essa noiva que o coração do rapaz estava entregue. A perda da mãe, embora já não fosse uma criança, o deixa desconsolado, com muitas questões sobre a morte e pouco disposto a aceitá-la. Victor já possuia curiosidades científicas, e uma vez na universidade em Ingolstadt, volta-se para as ciências naturais, mas com uma ênfase muito particular: seus estudos são norteados pela obsessão à qual vai dedicar a vida, que é vencer a morte. Essa sua inclinação particular o afasta dos seus pares, por isso acaba conduzindo sozinho as pesquisas mórbidas a que se entrega. Ele estuda os mecanismos da morte, a putrefação e norteia-se pela sua crença de que poderia revertê-la ou impedi-la.
Na história escrita por Mary Shelley não há detalhes sobre a fabricação da criatura, a maior parte deles foi acrescentada pelas versões posteriores, principalmente as cinematográficas, que relançaram a história em novas inflexões. Shelley apenas cerca a gênese de mistérios e de discursos filosóficos, nos faz crer que o Dr. Frankenstein domina a ciência moderna, mas não dispensa a tradição alquimista antiga. Após o frenesi que domina sua vida através de anos de pesquisas, ocorre o esperado “nascimento” de um corpo de mais de dois metros, composto a partir de restos de cadáveres. Mas o ser por ele criado, desde o momento em que abre os olhos, desafia seu criador como algo bem maior do que um experimento científico.
Paradoxalmente, ao invés de comemorar a vitória da ciência sobre a morte que ali se consagrava, a conquista do objetivo que consumira suas forças até ali, o cientista ficou tomado pelo horror. Ele considera que a origem do pavor que sentiu emana dos olhos mortiços do espantalho que acabara de animar. Após realizar os procedimentos necessarios para a animação do corpo que construira, viu “abrir-se o baço olho amarelo da criatura (…) seus olhos desmaiados, quase da mesma cor acinzentada das órbitas onde se cravavam”, descreve ele. A partir daí, o cientista caiu imediatamente em uma mistura de sono e desmaio, na qual sonhou que estava beijando Elisabeth, mas ela se transformava no cadáver decomposto de sua mãe.
Após esse sonho, acorda apenas para ver a criatura que já estava em pé, ao lado de sua cama, contemplando-o: “seus olhos, se é que assim podiam ser chamados, estavam fixados em mim”. Em uma inversão de papéis, desta vez é o criador que desperta e encontra sobre si o olhar do “cadáver demoníaco ao qual tão desgraçadamente eu havia dado a vida. Nenhum mortal seria capaz de suportar o horror daquele rosto. Uma múmia revivida não seria tão horrorosa quanto aquele destroço. Eu o contemplara antes de terminar meu trabalho; ele era feio, porém, quando aqueles músculos e articulações passaram a se mover, ele se tornou uma coisa que nem Dante poderia ter concebido”. O horror do cientista parece ser um fato naturalmente inspirado pela sinistra imagem de sua criação, cabe a nós compreender a fonte desses desencontros de olhares.
Assim que pôde, Frankenstein fugiu do local, abandonando o monstro à própria sorte, e nos dias em que se seguiram caiu enfermo, em estado de inconsciência, sendo amparado pelo seu melhor amigo que justo chegou para encontrá-lo. Por isso, a formação da criatura que vai progressivamente aprendendo a compreender o mundo, a pensar, a falar e até a ler se dará em total isolamento, de forma indireta, isenta de qualquer tipo de olhar que lhe dê suporte e reconhecimento. O monstro tudo vê, mas nunca pousaram sobre ele quaisquer olhos que não o quisessem matar. Para ele, que era um corpo inerte, abrir os olhos equivale ao nascimento, significou estar vivo. Porém, no princípio de sua existência ele provocou o desejo de que ela não tivesse acontecido. Isso é ainda pior do que ser rejeitado ao nascer, a criatura invoca no criador o horror, o impulso de negar esse fato. Victor Frankenstein renega o que fez, arrepende-se.
Desde a primeira centelha da vida de sua criatura, o cientista não lhe desejou mais que a morte. Pior, pois matá-lo talvez não fosse tão difícil, desejou que seu experimento não tivesse dado certo. Mais do que matar o monstro,Victor gostaria de eliminar sua obra, mas isso era impossível. Mesmo que a criatura tivesse sido destruida ao despertar, o cientista continuaria perseguido pelo seu feito. O rastro de violência que segue o monstro é somente a encarnação dessa culpa pela descoberta da reversão da morte. Após este ato de negação da morte, o Dr. Frankenstein não faz mais do que reencontrá-la. Aliás, a morte o persegue, encarnada no monstro, que elimina todos seus seres queridos. Enquanto isso progride, Victor não consegue matar seu monstro, em uma mistura de impotência com vacilações, como se a destruição só pudesse se alastrar após semelhante experiência.
Mas de onde vem essa mudança de rumo tão brusca? Uma pista pode ser o pesadelo que Dr. Frankenstein teve depois do “nascimento” do monstro: “… tive a impressão que segurava em meus braços o cadáver da minha mãe; um sudário envolvia-lhe o corpo, e eu via os vermes rastejando pelas dobras do pano”. Esse sonho não seria tão revelador se não estivesse ligado ao que acontece imediatamente, ele desperta e o monstro o está contemplando, tentando falar e tocá-lo. Ele se desespera e foge. Na sequência do texto há uma continuidade entre a monstruosidade do corpo da mãe, por estar morta, e a do monstro, passando de um horror a outro, e é o horror da morte que está no fundo. Em outros momentos da história já intuíamos que obsessão do cientista por vencer a morte era fruto do luto malsucedido da perda de sua mãe, e aqui é a visão da mãe morta que retorna em sonhos quando ele finalmente “vence” a morte.

A educação do monstro

Depois de ser abandonado por Frankenstein, o monstro deixa o laboratório e aprende a alimentar-se, abrigar-se e a decodificar suas percepções. Solitário e sorrateiro, sobrevive às intempéries isolado dos seres humanos, que sempre que lhe pousam os olhos gritam, fogem ou o apedrejam. Em uma ocasião, ocupa um esconderijo ligado à casa de uma família constituída por um ancião cego, seu filho e filha. Eles acolhem uma estrangeira, noiva do rapaz, e lhe dispensam uma série de ensinamentos, desde a língua e as letras, até literatura, ciência, política, filosofia. Em segredo, escondido e espiando por uma fresta, o monstro apropria-se das lições e torna-se letrado e pensante. Grato pelo que indiretamente aprendia, ele lhes dispensava pequenos favores sempre oculto pelas sombras.
Quando se sente suficientemente forte, sai de seu esconderijo e apresenta-se ao cego, seu professor involuntário, para demonstrar-lhe sua gratidão, esperando ser aceito pelo grupo. A conversação com o velho vai bem, mas se interrompe quando o filho entra no recinto, o vê, e o costumeiro comportamento de agressões e fuga se repete. Só que desta vez a criatura, que se sentia muito ligada aos seus benfeitores indiretos, sofre e se vinga, colocando fogo na casa que eles haviam deixado para trás em sua fuga.
Entre as roupas que saíra vestindo do laboratório de Frankenstein, o monstro descobre em um bolso o diário do cientista, onde se encontra narrada em detalhes a aventura de sua origem. Lê com horror: “neles está relatado tudo o que se refere à minha origem maldita. [...] Encontrei minuciosa descrição de minha odiosa figura. [...] Maldito o dia em que recebi a vida! Exclamei cheio de agonia. Maldito criador! Por que você me fez um monstro tão horroroso que até mesmo você foge de mim repugnado?” Mary Shelley criou nesse monstro um ser filosófico que em sua reclusão havia feito várias leituras, entre elas O Paraíso Perdido, de Milton. Portanto, ele já se comparara com Adão, ao qual invejava a proteção recebida pelo seu criador. A epígrafe do livro contém uma citação de Milton: “Pedi eu, ó meu criador, que do barro me fizesses homem? Pedi para que me arrancasses das trevas?”.
A revolta contra o criador principia-se aí, quando reflete sobre os motivos de seu desamparo e solidão. Para o monstro, ele não estava à altura do gesto de originar a uma vida e no decorrer da história o fará pagar caro por isso. A intenção de dar-lhe origem, como fica claro nessa epígrafe, partiu do criador, portanto ele precisa responsabilizar-se por ela, pois o monstro, como um filho qualquer, não pediu para nascer. Inicialmente a mágoa não mostra o potencial destrutivo que assume quando ele tem a desilusão com essa família do pai cego, pois mais uma vez é rejeitado por aqueles de quem esperava alguma filiação. Trata-se de uma renovada experiência de frustração, na qual novamente aquele de quem espera uma adoção não pode olhar para ele.
Parte então em busca do criador, a quem culpa pela sua desgraça. Tendo localizado, através do diário, a cidade onde residia a família Frankenstein, ele se dirige para lá em busca de vingança. Assim que teve oportunidade, estrangulou o irmão menor de Victor e colocou a correntinha do falecido no bolso de uma criada da família, que foi enforcada injustamente, considerada culpada pelo assassinato.
Após esse crime, ocorre um encontro entre Frankenstein e o monstro no qual este lhe conta sua história e reclama do abandono. Em troca de deixá-lo em paz, exige que lhe seja fabricada uma companheira, sua Eva. No início, o cientista chantageado, aceita, mas quando a está concluindo e se vê frente a mais uma obra sinistra, se apavora e a desmancha em pedaços, o que deixa o monstro ainda mais furioso. Mais adiante, ele também matará o melhor amigo e a amada do criador, em plena noite de núpcias. O monstro não se contenta em destruir Frankenstein, quer secar-lhe a linhagem, salgar sua terra, fazer dele alguém tão solitário e ímpar como ele próprio. No final, voltamos ao ponto de partida do romance, onde criador e criatura vão aos extremos do mundo um no encalço do outro, sem conseguir eliminar-se mutuamente. “Tu, meu criador, me detestas e me abominas, a mim que sou criatura tua, a quem te achas ligado por laços só dissolúveis pelo aniquilamento de um de nós. Pretendes matar-me. Como ousas brincar assim com a vida? Cumpre teu dever para comigo, e eu cumprirei o meu para contigo e o resto da humanidade.”
A demanda não poderia ser mais clara, é uma mágoa contra seu pai, exigindo-o a assumir a responsabilidade sobre sua presença no mundo. São centenas de páginas de exortação para que o cientista se responsabilize, de alguma forma pague pelo abandono e rejeição da sua criatura. O monstro é um filho que acredita ter direito à acolhida e orientação por parte daquele que considera seu pai: “eu aprendera pelos seus papéis que você era meu pai, meu criador. A que outra pessoa poderia eu recorrer senão a você, que me dera a vida?”
A condição irreversível da paternidade é um dos pesadelos da função. Para a mãe, o uso de seu corpo por parte do feto já se incumbiu desse trabalho de convencimento de que o filho passará a ocupar espaço para sempre na sua vida. Já o pai, irá descobrindo isso aos poucos, convencendo-se, muitas vezes de forma dolorosa, de que seu destino passou a ser inseparável daquele que gerou. Observamos que quanto mais paranoide o homem for em relação a isso, mais seu filho tenderá a tornar-se um pesadelo, um perseguidor, exatamente como ocorreu com a criatura de Frankenstein. A paternidade dita biológica, não assumida espontaneamente, comprovada por exame genético, é a versão jurídica desse pesadelo. Nesse caso, um homem se descobre eternamente ligado a um filho que ignorava, renegou ou nunca desejou.
Nas inúmeras adaptações da obra que se seguiram, inicialmente no teatro e depois nas telas, a criatura de Shelley perdeu o direito à palavra. Os longos discursos de ressentimento e cobrança deram lugar a um monstro tosco, abrutalhado e balbuciante. Mas em quase todas perdurou esse impasse inicial, no qual o cientista se horroriza frente à sua obra, desfalece e abandona-o. O monstro vaga solitário, incompreendido e acaba reagindo a tanto desamparo com raiva e sede de vingança. O cerne do mito, portanto, pode ser entendido a partir da criação e abandono de um filho, que por isso torna-se monstruoso; mas também o pânico causado pelo ato de originar um ser é uma das fontes do horror contidas nesse mito literário que atravessa os tempos.

As mutações do monstro

Mary Shelley teve um encontro feliz com uma ideia que sintetizou um feixe de fantasias muito úteis a seus contemporâneos e a muitos que ainda estavam por nascer. Assim que ela publicou seu livro, ele foi transposto para o teatro, com imenso sucesso de público. A partir dessas adaptações teatrais algumas novidades somam-se e modificam a história original. A história dessas versões demonstra, conforme Hitchcock, que “certos elementos permaneciam constantes: um ser criado horroroso e de estatura desmedida, a presença de raios e eletricidade nos acontecimentos da história e a relação psicológica íntima entre criador e criatura. Ao mesmo tempo a história já começara a agregar novos elementos, estranhos à versão de Mary Shelley, muitos dos quais vinculados tão fortemente que sempre aparecem desde essa época: um monstro incapaz de articular palavras, um assistente de laboratório desastrado, uma multidão irada em busca do monstro e um final cataclísmico no qual a criatura e o criador perecem juntos. O público devorava avidamente essa história de monstro, contada e recontada, remodelando-a muitas vezes”. Essa descaracterização tanto da solidão e isolamento do cientista, quanto, e principalmente, da criatura, que no romance é tão discursiva, não irritou a autora. Pelo contrário, ela ficou sensibilizada pela comoção da plateia, que parecia entender o espírito de sua obra. A partir de então, o livro original, que segue nas prateleiras após quase dois séculos, assim como a personagem emudecida pela sua versão dramática firmaram-se enquanto um mito literário.
Um mito não tem autor, ele pretende estabelecer a história da origem das pessoas, do mundo, dos objetos e extrai sua veracidade da provável fonte sobrenatural da narrativa. Seu uso busca amalgamar o máximo de elementos possíveis, pois ele não existe para gerar interrogações, mas sim para dar explicações, para fechar questões. Para tanto, um mito engloba em seu interior todos os elementos úteis que puder angariar: referências históricas, fantasias comuns, elementos do cotidiano de cada época. O mito é uma tentativa de dar explicações através de histórias para o que é frequentemente inexplicável, e se não se ocupasse das fronteiras do nosso conhecimento, não seria necessário recorrer a argumentos fantasiosos para dar conta do assunto. Já os mitos literários são assinados, sua fonte é humana e claramente estabelecida, porém eles possuem a mesma característica de imantar elementos de um momento histórico, da forma como se estrutura a sociedade e a intimidade dessa época, e combiná-los com fantasias atemporais, gerando uma trama que pode ser transposta a outros lugares e outras épocas. Uma história se torna mito quando ela se transforma, permanecendo ela mesma, em um aparente paradoxo.
Mitos literários, portanto, são histórias que transcendem esse ponto de partida claramente autoral, para caírem em outras mãos, porque o público consome versões que vão transformando-a a seu gosto, ele se apropria delas para fins de elaboração de suas questões e as vai transformando sutilmente. Mais do que a corrupção de um original, se estabelece uma harmonia entre um cerne essencial da narrativa que se conserva, enquanto cenários e personagens se modificam, que é justamente o que nos autoriza a pensar que estamos lidando com algo maior do que o livro de um autor.
O monstro é órfão de mãe, e filho da relação de um homem com a ciência, é a criatura incompreendida e abominada por todos, que persegue seu pai-criador até o fim da vida de ambos, essa é sua essência. Embora ele tenha sido privado das palavras que usava para acusar Frankenstein, sua imagem continua angariando pena e horror ao mesmo tempo, pois ele é a encarnação de um erro, além do retrato do abandono.
O horror provém do ato monstruoso que parece ter sido a própria criação e o desafio à morte que ela pressupõe, nisso estão igualados o cientista e seu monstro, enquanto o feito de um e seu produto resultante que é o outro. Por isso, em todas as versões joga-se com a alternância das duas personagens que, para efeitos populares, acabaram atendendo pelo mesmo nome, criador e criatura, já que o monstro fica identificado à loucura onipotente que lhe deu origem. Por outro lado, a fuga do cientista que deixa a despreparada criatura à mercê de um mundo nada acolhedor produz uma empatia inesperada no público, que acaba penalizando-se daquele que tem tudo para ser apenas rejeitado.
O livro recorre a um arrazoado filosófico, que associa o monstro ao bom selvagem, um ser ávido de receber acolhida e uma formação, ao qual a rejeição transformou em obstinadamente mau. Na obra de Shelley a empatia com a criatura é racional, discursiva: escutamos dele todos os esforços que fez para parecer-se com os humanos, que ele observava de longe e escondido, assim como seu anseio por ser admitido entre eles e o sofrimento cada vez que era reduzido a ser a abominável representação de um ato inaceitável. Ele queria ser humano, mas os maus-tratos o lembravam de que não passava de uma forma artificial de vida infundida a pedaços mortos, assustador como um fantasma. Ele buscava compreensão e só encontrava exorcismo. Já no teatro, ao ver substituídos por rudimentares balbucios, gestos e olhares os complexos raciocínios com que defendia sua essência originalmente boa, que ele acusava de ter sido corrompida pelos homens, só lhe resta a identificação com uma criança que ninguém aceita como filho, que sequer é admitida como alguém da nossa espécie, para obter a simpatia e a compaixão do público.
A imagem corporal de alguém composto de pedaços costurados, cujo resultado tem aparência monstruosa, tem precedentes na teratologia. Conforme Warner, “a monstruosidade participa do desajeitamento da irregularidade, de suas classificações e harmonias imperfeitas, e encena a aberração por não conseguir permanecer consistente nem mesmo consigo próprio”.
A falta de um olhar materno que unifique as partes desconexas da criatura é o que empresta um caráter monstruoso à sua imagem. Em menor escala, observamos inúmeras distorções na imagem corporal de sujeitos que se enxergam como disformes, abjectos, com partes que devem ser ocultadas ou corrigidas. Em geral, nesses casos trata-se de pessoas em cujas vidas ocorreu algum desencontro radical ou uma importante falta de sintonia com a mãe. Mas a dismorfofobia aparece muito frequentemente na adolescência quando um outro olhar, agora como corpo sexuado, o desafia, portanto sua causa pode estar na confirmação desse corpo que o olhar materno colou.
O livro Frankenstein foi escrito por uma órfã de mãe. Talvez por isso não surprende que a história seja a de um filho, que contando apenas com a figura paterna, só possa oferecer ao olhar alheio a imagem da falta de harmonia de seu conjunto. Mais uma vez, vemos aqui retratadas as limitações que atribuímos à Função Paterna. O pai pode nomear, mas carece do poder do olhar que unifica. Criador e criatura, portanto, fecham os olhos um para o outro.
A sobrevivência dessa história, e sua transformação em mito, está ligada ao fascínio gerado por esse ato profano de criação, que já alimentava a popularidade das histórias sobre o Golem. É uma instigante fantasia sobre a prepotência de um homem que tentou negar a morte, descobrindo um método para impingir vida à matéria inerte, que quis superar deus, a ciência de seu tempo e prescindir das mulheres para dar origem a um ser vivo. Filho de tanta pretensão masculina e de nenhuma mulher, essa criatura involuntariamente acaba representando a bancarrota da onipotência de um pai, de quem o desmaio, a fuga e o arrependimento mostram a fragilidade. Esse homem que quis tanto, negando a própria morte com seus atos, é tão mítico quanto seu enorme filho desamparado. Na verdade, um não existe sem o outro, por isso eles partilham o nome. Ele quis tudo e ficou com nada, por isso foi, no livro, totalmente destruído.
Frankenstein também é o protótipo do “cientista louco”, personagem que ganhou espaço a partir dessa época. Desde então tentamos saber o que resta da sabedoria, já que a igreja e a tradição não mais respondem por ela. Através dessa figura do cientista louco nos mostramos nostálgicos, negamos a ele a totalidade de saber e o castigamos pela ousadia. A ciência é a herdeira imediata da expectativas que depositávamos na religião: que seja fonte de segurança, antídoto contra o desamparo. Se até mesmo a fé, com toda a sua convicção, foi abandonada, por que a ciência, com suas certezas sempre transitórias, teria nossa adesão garantida?
A personagem do cientista louco, marginal em relação aos seus pares e capaz de superar o conhecimento de seu tempo, reflete nossa ambivalência. Confiamos que sua genialidade ultrapassará as fronteiras do que já se sabe, mas como a condição transgressora e revolucionária de suas descobertas é punida, é como se, ao mesmo tempo, déssemos também um voto de desconfiança. Supomos que suas invenções, que o desgarram do já estabelecido, vão produzir algum tipo de desequilíbrio: ele ficará transtornado, ou sua obra será de alguma forma perigosa, ou ainda trará algum tipo de alteração no mundo cujos efeitos serão nocivos. No caso de Frankenstein ocorreram essas três consequências de sua descoberta.
Em seguida ao surgimento do livro, e ao longo de um século, as peças de teatro foram dando contornos novos ao monstro, até que, em 1910, a criatura de Shelley encontrou um novo meio para expandir sua influência. A Edison Film Company, pioneira na história do cinema, o recrutou entre as primeiras personagens do recém-nascido cinema mudo, com direito a inéditos efeitos especiais. Mas foi a versão cinematográfica de 1931, com direção de James Whale, o momento crucial para a difusão de Frankenstein e a sua posterior transformação em mito. A imagem que vem à cabeça de todos, de um ser de cabeça quadrada com eletrodos no pescoço, cheio de cicatrizes mal costuradas, usando roupas pequenas para seu tamanho, é a do ator Boris Karloff maquiado para esse filme.
Whale estabeleceu o cânone estético e muitos dos aspectos que hoje consideramos intrínsecos à criatura. Como já era de hábito, seu monstro se limita a grunhir e movimenta-se como um grande bebê, já que o ator usava ferros nas pernas e pesos nos pés para que seu andar ficasse vacilante. Os olhos profundos e negros de Karloff, com a maquiagem pesada nas pálpebras eram frequentemente enfocados, fazendo do monstro um rosto triste a ser olhado para angariar nosso afeto. Se para o cientista, na narrativa de Shelley, o olhar de sua criatura o apavorou por serem olhos mortiços, no cinema isso foi substituído por uma expressividade que redunda no contrário: é desamparo que constatamos nos olhos caídos de uma criatura que clama por adoção. Whale também retoma a tradição teatral do ajudante corcunda e sinistro, e coloca grande ênfase no roubo de cadáveres, o que no original é apenas uma alusão.
A temporalidade indefinida em que a novela é tecida está bem ilustrada nesse caso e ajuda aos contornos míticos que a personagem ganhou posteriormente. No filme, tudo se passa em uma aldeia genérica europeia onde o passado e o presente, o arcaico e o moderno se confundem. Embora sofra as influências de seu tempo, ele é um romance não datado e mistura um saber científico de ponta com alquimia medieval. O laboratório do Dr. Frankenstein, um lugar que congrega todos os instrumentos científicos da época de Shelley, situando-os dentro de uma torre gótica, é uma boa imagem dessa síntese. Aliás, o cânone dessa imagem foi estabelecido pelo filme de Whale, mais de um século depois, pois no livro, o laboratório é apenas é um lugar sinistro.
Embora nos forneça imagens definitivas, o filme simplifica a trama. Temos no início o Dr. Frankenstein obcecado pelas suas investigações sobre a fronteira entre a vida e a morte. Ele rouba cadáveres para prosseguir suas investigações solitárias, afinal a academia não iria tão longe como suas experiências. Um erro que ele não se dá conta vai ser fatal para sua criação: enviado ao necrotério para obter uma parte fundamental da criatura, seu ajudante trapalhão rouba o cérebro errado, não de uma pessoa normal, mas de um psicopata.
Depois da criação, o ansiado resultado da pesquisa científica a que havia se entregue com tanto entusiasmo é como sempre renegado pelo criador horrorizado que adoece. Enquanto isso, o novo ser é deixado preso, aos cuidados do ajudante corcunda que o chicoteava impiedosamente. Acossada pelos maus-tratos, a criatura devolve-lhe a brutalidade e o mata. Como o monstro já nasce então fadado ao fracasso pelo seu cérebro doente, neste caso pouco se espera dele a não ser uma carreira criminosa, portanto, não há dúvidas de que ele deva ser eliminado. Quando fica consciente do seu erro, o Dr. Frankenstein e seu professor, que curioso do resultado havia comparecido para observar a experiência, concordam que ele deva ser destruído. O criador é resgatado por sua família que o recupera da saúde abalada pelos anos de esforço dedicados à ciência, enquanto se prepara o esperado casamento com Elisabeth. Enquanto isso, o professor fica no laboratório incumbido de eliminar o monstro, que já revelara sua natureza criminosa. Porém, a ciência é como uma sereia cujo canto enfeitiça o bom senso, e ele não resiste em fazer algumas últimas experiências no corpo anestesiado da criatura. Óbvio, para o bom andamento da trama, que ela acorda, mata seu algoz e foge.
Na sua escapada comete mais um crime, mata uma menina que encontrou ao acaso no caminho e brincou com ele. Desta vez, como da anterior, não há maldade: ele é inexperiente, tosco, incapaz de entender a lógica da brincadeira e comete um erro fatal: a menina jogava flores na água para que boiassem e convida-o para fazer isso com ele; entusiasmado com a brincadeira, ele atira a menina na água, para que ela também boie como as flores, e ela se afoga.
O cérebro do psicopata utilizado na construção do monstro, que supostamente teria desencadeado toda maldade não é convincente, sua carreira de assassino mais parece uma sucessão de trapalhadas do que de maldades. O monstro mata da primeira vez porque é brutalmente maltratado. Sua segunda investida é praticamente em legítima defesa, pois iria ser sacrificado e se salva matando o professor. Quanto à menina, trata-se de um mal-entendido lógico, do tipo que fazem as crianças pequenas. Elas colocam-se em risco em função da combinação perigosa de curiosidade com ignorância, tal como a que teve a criatura, que quis experimentar se a menina boiaria como uma flor. Quando a vê afundar, desespera-se e tenta retirá-la das águas de forma atrapalhada e inútil, resgatando apenas seu corpinho sem vida. O monstro porta-se como um bebê gigante, sem saber falar, sem entender direito o mundo, andando desajeitado, vaga mais perdido e digno de pena do que evocando terror.
O pai da menina leva a filha morta para a aldeia, que estava em festa, reunida para comemorar o casamento do Dr. Frankenstein. A cena da chegada do cadáver da criança, nos braços do pai desesperado, que vai estragando a festa por onde passa e transformando os aldeões em uma multidão de linchadores, é antológica da história do cinema. Quando ele chega lá todos compreendem o que aconteceu e saem à caça do monstro.
Trata-se de cinema para as grandes massas e essa história trágica precisa terminar bem: o monstro tem que ser eliminado, pois ele é um equívoco científico e o casal de protagonistas, o cientista e sua noiva, deve dirigir-se para um final feliz. As intermináveis conversas e encontros entre o monstro e o Dr. Frankenstein, que fazem o núcleo do romance de Shelley, estão eliminados. Além disso, agora ele se limita a uma visita a Elisabeth, sendo que nesse encontro, ao invés de ser assassinada apenas desmaia. Antes do cerco final, a criatura encontra seu criador e após uma luta ele carrega-o consigo para um moinho, mas o cientista escapa. O desfecho é previsível. O monstro acaba acuado em um velho moinho, em cujo interior ele é queimado vivo. Trata-se de um bem-sucedido exorcismo coletivo. Mas que demônio se expurga nessa cena?

Qual mito?

Se Frankenstein é um mito, a pergunta é qual seria, no sentido de sua filiação, ou então ele seria um mito novo? É claro que podemos ver traços de outros mitos nele, como o de Doutor Fausto, por exemplo. Afinal vemos uma equivalente paixão pelo conhecimento no Dr. Victor, já o monstro de Shelley lembra Mefisto pela eloquência, mas por certo essas comparações não dão conta da totalidade do tema, são pedaços de um todo mais complexo. A própria autora tenta nos convencer que se trata de um Prometeu moderno, isso está inclusive no título da novela. Provavelmente no sentido de uma insubmissão ao estabelecido, pelo roubo dos poderes e saberes celestes, e do castigo por tal ousadia, ou ainda de uma revolta contra uma autoridade despótica. Mas nada disso dá uma explicação da totalidade, apenas acrescenta aspectos. Nem a ideia de um Pigmalião sinistro, como já foi lembrado, nos traz muita luz, é apenas uma referência.
Certas interpretações colocam Frankenstein na categoria do Duplo. Parecem certas, pois não faltam elementos que apontem nessa direção: a criatura, como não tem nome, acabou sendo conhecida então com o nome de seu criador. De certa maneira, eles compartilham o significante, sugerindo que redundem no mesmo significado que se desliza entre eles, se completa. O monstro não tem infância, ele nasce adulto, possui quase a mesma idade de seu criador, não há uma geração que os separe e o fim de ambos é desaparecer no Polo Norte.
A criatura só se reporta ao seu criador, suas conversas são o centro do drama. Só o Dr. Frankenstein praticamente vê seu monstro. Cada um à sua maneira, os dois estão fora do sistema, ele não é aceito pela comunidade científica, por suas crenças, enquanto a criatura é fora de tudo, de uma genealogia, de um lugar no mundo. Os dois têm sérios problemas com a alteridade que o sexo coloca, são celibatários, os casamentos não se consumam, pois um mata a noiva do outro. Existe a espera de uma mulher, mas ela nunca chega de fato. Ou seja, nada de sexo, nem para nascer nem para nada. Os dois acabam ilhados em si mesmos, um fixado na destruição do outro.
Se de fato essa história pode nos dar então uma radiografia dos dilemas de uma alma partida, ela nos deixa sem respostas a uma questão central do romance: tanto a criatura pede o tempo todo que seu criador seja um pai para ele, que lhe dê um lugar e lhe diga por que o fez, quanto Dr. Victor foge várias vezes por não se mostrar à altura dessa empreitada. Nesse quesito a questão do duplo nos deixa sem respostas, não faz sentido ver apenas um homem acusando a si mesmo por não conseguir encontrar sozinho respostas para suas inquietudes. Como alguém pode acusar-se de abandonar a si próprio, de não ter cuidado de sua infância e educação? Existe uma reiterada denúncia da falta de ascendência, da falta de transmissão de uma educação efetiva. O monstro pede um lugar e pede para ser amado, é por ter esses direitos negados, dos quais ele se julga merecedor, pois não pediu para nascer, que se torna malvado.
Mas o que a criatura pede a Dr. Victor? Sem nome para se fazer valer, em outras palavras, sem origem ou, ainda, sem um passado para reivindicar, o monstro é um sujeito pós-revolução francesa. Filho da ciência nascente, ele é mais um herói do individualismo, afinal ele é único e ilhado, não tem pares, é inédito, desenraizado e intelectualmente muito lúcido.
As interpretações em que lançamos a ideia do duplo são onde o drama se desenvolve quando a um aspecto da personalidade não é permitido aceder à consciência do sujeito. É a cisão da personalidade que cria o duplo, ou seja, uma parte não quer saber da outra, o duplo é o outro de si mesmo. Como no caso clássico de Dr. Jekyll e seu duplo, o monstro Mr. Hyde, o qual, como diz seu nome, é a encarnação da face escondida do médico. Ou ainda como temos em Oscar Wilde no Retrato de Dorian Gray onde apenas no retrato a face narcisista da personagem envelhece. O que ele não suporta da alteração que o tempo faz a seu corpo está jogado para fora, não é reconhecido. Essa questão de uma suposta cisão da personalidade não é o aspecto mais relevante em Frankenstein, embora de fato caiba ao seu monstro o trabalho sujo do mal. Entender o monstro como a parte recalcada de uma suposta agressividade homicida, ou a personificação da sua melancolia renitente, ou ainda uma tendência antissocial é uma possibilidade, embora não abarque todo o sentido da obra.
A nosso ver, o aspecto central de Frankenstein é a procura por um pai, no sentido de alguém que forneça um lugar na sociedade e na genealogia, pois justamente estava-se em um momento histórico em que o lugar de onde provem a autoridade paterna sofria profundas mudanças. Na época do nascimento desse mito, início do século XIX, a Europa assiste ainda aos desdobramentos imediatos das revoluções industrial e francesa, à queda de várias monarquias, enquanto a autoridade da igreja começa a sofrer fissuras. Além disso, a autora, Mary Woollstonecraft Godwin Shelley, é filha de dois importantes pensadores dessa época, sendo que sua mãe, falecida em consequência de seu nascimento, foi uma das primeira feministas da história. Educada por seu pai com uma liberalidade inédita para seu tempo, sem uma mãe para identificar-se, a jovem escritora tinha todos os motivos para compreender os sofrimentos de uma criatura ímpar, inédita e sem referências palpáveis no mundo em que vivia.
Ora, o pai, ou melhor, sua função na estruturação de cada indivíduo, também é marcado por isso. Em um tempo de tantos rompimentos, apenas ser filho de alguém já não possui o sentido de antes. O sujeito da modernidade não se faz mais pelo nascimento, por quem seria seu pai, mas pela sua trajetória, pelas suas escolhas, pelo que ele consegue fazer de sua vida. Somente no seguinte sentido poderíamos compreender pai e filho como duplos um do outro: irmanados no desamparo, eles se repetem no sofrimento do pai que se sente órfão do próprio pai, do filho que acredita ter um pai insuficiente, no desencontro entre o desejo e a realidade que caracteriza a função paterna.
Há uma lição que é repetida inúmeras vezes nos mitos: um homem não pode fazer o que é atributo dos deuses. Criar um ser do nada, fazer algo vivo da matéria inanimada ou ressuscitar mortos é atributo divino, se os homens assim procederem, com certeza farão isso de modo imperfeito e seus resultados serão monstruosos e se voltarão contra o criador. Temos com Frankenstein uma versão agora científica deste mito de criar ou prolongar a vida. Frankenstein é o mito da onipotência da ciência, transposta para uma suposta onipotência paterna. É o fracasso atribuido àqueles que hoje responsabilizamos por apontar a direção que devemos tomar. Em seu encalço caminharemos até o Polo Norte.

O que quer um homem?

O feminismo não combate os homens, pelo contrário. Ele traz para ambos os sexos uma consciência do peso dos clichês, aos quais nenhum de nós nunca se ajusta. Portanto, o feminismo liberta os homens.

Bicha, boiola, maricas, frutinha, boneca, fresco, veado, não faltam palavras para os que fogem, mesmo que por detalhes, dos clichês da macheza. É tão vasta a riqueza de nomes para definir esses “desviantes”, como é para nomear uma mulher que não seja recatada e do lar. Só isso já nos dá uma pista de que os privilégios masculinos custam caro demais.
Imagine se os homens não precisassem viver provando sua virilidade. Se pudessem libertar-se da frigidez emocional, sentir, chorar. Se não tivessem sua sensualidade restrita ao pênis. Se fizessem o exorcismo da sina da ereção eterna. Seria a libertação de uma cultura que os obriga a viver presos em uma carapaça pesada e inútil.
Na mesma fogueira destinada aos sutiãs, eles jogariam anabolizantes, alteres, viagras, ternos duros e gravatas sufocantes. Os que foram discriminados pela falta de simpatia pela bola, iriam incinerar as camisetas do time que nunca conseguiram amar. Nunca houve uma grande queima ritual de sutiãs, é uma referência simbólica. Foi nossa imaginação histórica, que associa mulheres com bruxas, que a recriou.
Tais militantes homens da causa, sofreriam o peso da condenação social, como ocorre até hoje com as mulheres que não são virginais e submissas. As que polemizam ainda são vistas como vadias, frígidas, mal amadas, movidas pela inveja do pênis e recalques variados.
Ao nascer você recebe um nome e é encaixado em uma das duas categorias. Ao contrário das perguntas que possamos fazer-nos sobre como ser, no que acreditar, em nome do que existir, a masculinidade e a feminilidade estão fadadas a ser o paraíso da previsibilidade. Desde nossa certidão de nascimento até o atestado de óbito, vai ser preciso marcar com um X o sexo ao qual pertencemos. Aferramo-nos a essa divisão binaria porque duvidar cansa, dá medo.
Estudando história, descobrimos como as certezas científicas e morais sobre as características do homem e da mulher podiam virar até o oposto do que se acreditava antes. Comicamente, continuaram sendo apresentadas como verdades eternas, naturais e universais.
Quantos meninos foram rejeitados pela família ou desprezados pelo pai? Quantos foram fisicamente agredidos, até abusados? Quantos tiram a própria vida por isso? Quanta solidão, por medo de ser considerados próximos das mulheres? Quanto ódio para nunca serem taxados de fracos e submissos?
A guerra dos sexos está na origem da epidemia de femicídios e cobra sua cota de vidas dos dois lados das trincheiras. A violência masculina faz vítimas em suas próprias hostes.
Eles passam dizendo que não sabem o que uma mulher quer, as acusam de eternas insatisfeitas. É que, com suas lutas, elas aprenderam a colocar isso em questão. Sonho com o dia em que também um homem possa duvidar do que, afinal, ele quer.

Tempos de virada

Aproveitar a longevidade é uma aventura.

Ele tinha vinte e sete anos quando chegou ao meu consultório, decretando ser essa a idade de tornar-se adulto. Explicou que eram quase trinta, mas ainda havia tempo de tomar algumas decisões antes do momento que considerava “fatal”. Também avisou-me que uma pessoa pode chegar a ter “umas sete grandes viradas” ao longo da vida. Chamava assim os momentos em que se precisa repensar tudo, colocar em questão as próprias bases.
Na época, ele fez jus à sua ideia das viradas. Saiu de um casamento precoce e infeliz, encontrou a companheira de seus sonhos e especializou-se em algo que tinha tudo a ver com ele, não por acaso, a simulação. Esse é um ramo em que, por exemplo, tenta-se prever os efeitos de uma alteração sobre a linha de produção de uma fábrica. Portanto, modificar para melhorar é sua paixão. Esses dias, com menos cabelo e quase duas décadas a mais, reapareceu para reavaliar novamente sua vida. Brincamos entre nós de que ainda lhe faltavam umas três viradas.
O aumento da expectativa de vida trouxe um impasse interessante: as decisões que implicam em mudanças de destino na vida de pessoas já maduras. Quando um adulto contemporâneo chega próximo à idade na qual seus antepassados estavam encaminhando-se para o fim, ainda pode dar-se ao luxo pensar ao que irá dedicar-se. É possível que possa viver ainda algumas décadas, o que fazer com elas? A possibilidade de passar todo esse tempo em frente à televisão esperando a morte chegar não é atraente. Como nem só de trabalho somos feitos, os pactos amorosos também são questionados, revisados ou revogados. Para alguns é inclusive época de viver amores nunca tentados. O velho fim é um novo começo.
As tais viradas, as sete que meu jovem paciente apaixonado por números havia anunciado, podem ser pensadas em termos de decisões de grande impacto, mas também em um sentido mais sutil. Por vezes significam meras mudanças de ritmo, de ponto de vista. Para os mais ousados, é tempo de abrir os olhos para o que acreditávamos que fosse impossível desejar. A novidade é que temos mais ocasiões e mais prazo para tentar, o que não é o mesmo que simular.
Na indústria pode-se prever os efeitos de cada inovação. Já na vida é preciso ousar sem o expediente tranquilizante de simular resultados. Reavaliar-se demanda uma escuta fina e destravada de si mesmo, só assim para descobrir o que estamos querendo de forma enviesada, inconfessa, canhota. Somos estranhos ao que expulsamos da nossa consciência, por isso mudar dá tanto medo.
Os antigos vivam menos, trabalhavam na mesma firma, no mesmo ramo e casavam para sempre. A experiência mais de uma vida em uma única existência é uma conquista, mas aproveitar essa longevidade é uma aventura.

Amigos para não conversar

Uma amizade, um encontro de empatias,uma escuta profissional, são diferentes níveis de compreensão, que não implicam em uma escala de falas mais ou menos profundas. Por vezes amigos precisam calar e desconhecidos acabam se dizendo tudo. Profissionais ajudam a pensar, mas viabilizam um encontro amistoso consigo mesmo.

Quando ficamos abalados, seja por motivos graves ou apenas pelas maluquices costumeiras, nem sempre precisamos de um bom papo. Um amigo para não conversar, junto de quem possamos ficar em silêncio pode ser o maior tesouro. Nem tudo consegue ser dito: discorrer sobre nossas tristezas e angústias é sempre bom, mas só quando chega a hora de fazê-lo, o que às vezes demora. Às vezes falar dói tanto, que demoramos para ter coragem, como a hora de dar o puxão definitivo no curativo que temos que retirar.
Amigos de verdade são sensíveis para perceber quando andamos perturbados, mas conseguem abster-se de cobrar respostas. Cabe-lhes esperar, quando estamos fechados para balanço, que as portas voltem a abrir. Até as pessoas que costumam narrar sua vida em voz alta vão silenciar a respeito do relevante. Estas apenas preenchem o espaço sonoro para evitar ser interpeladas pelo próprio silêncio.
Os amigos precisam ser capazes de perdoar-nos pela inépcia, quando estamos sem condições de explicitar os motivos de um estado de espírito sombrio. Quem não suporta a falta de explicação para a dor, não banca nosso sofrimento, só quer tirar nossa tristeza do caminho e vangloriar-se pela presença salvadora. As vezes é necessário sangrar um tanto, sem recorrer a um consolo que nos coagule. Amar alguém é conviver com a própria impotência para fazê-lo feliz. Isso vale para todo tipo de vínculo: fraterno, erótico, familiar.
Acontece até que seja mais fácil explicitar nosso mal estar para alguém quase desconhecido, por ter percebido que a pessoa passa por situação similar. Fala-se a mesma língua de dores. Lembro de uma amiga que perdeu um bebê e encerrou-se em lágrimas e silêncio. Certo dia, soube de uma conhecida que sofria pelo mesmo e, mesmo que não tivessem maiores intimidades, descobriu-se contando a ela em detalhes sua jornada de padecimentos físicos, raiva, tristeza e vazio. Somente ao lado de outra mulher íntima àquele específico sofrimento foi possível deixar-se falar: uma disse à outra o que não haviam ousado enunciar nem a si próprias e choraram juntas. Depois, cada uma seguiu seu caminho. Não foi o começo de uma grande amizade, só um encontro de empatias.
Um terapeuta ou analista não substitui o amigo. Vamos em busca de uma escuta profissional quando estamos desconfiando de que há alguma coisa mal contada naquilo que traz infelicidade. Será que estou fazendo/entendendo algo errado? Também quando admitimos a necessidade de dar sentido a dores que parecem de tamanho errado ou fora de lugar. Já a orelha amiga está simplesmente a postos para acolher o frio na alma e ninguém gosta de cobertores tagarelas. Profissionais até podem cumprir essa função, em momentos de profundo desamparo do paciente, mas para os amigos a capacidade de caminhar em silêncio ao nosso lado é um atributo essencial.
(Publicado na Vida Simples em 2016)

O mágico resgate dos botões perdidos

Uma história de encontros e reparações.

Em uma data qualquer, ela chegou com um presente daqueles que mostram uma conexão mágica entre duas pessoas. Mesmo que nos encontremos pouco, sempre tive muita empatia com Elza, que é tia do meu marido. Ela viu em uma vitrine uma bola de isopor recoberta de botões antigos e, sem saber por que, decidiu que aquilo tinha que ser meu. Muitos, variados e coloridos, estavam distribuídos com arte, de modo que ao girar a bola era possível apreciar como era rico o mundo dos botões de roupa. Eles eram essenciais e reinavam quase absolutos até a popularização do zíper.
A compra da tal bola foi uma aventura à parte, pois ela não estava à venda, era decoração da vitrine. Para piorar as coisas, a proprietária do estabelecimento alegava que havia sido feita a partir da coleção de botões que herdara de sua avó, portanto, impossível cedê-la. Não tenho ideia como conseguiu convencê-la, mas Elza acredita que venceu graças à sua determinação. Sabia que devia levá-la para mim, embora não compreendesse o motivo.
Ao receber aquela estranha bola, quase desmaiei. Perguntei-lhe se alguma vez havia lhe dito da falta que sentia da “meia de botões” da minha avó. Eu não tinha registro dessa conversa, nem ela. Mas, sabe-se lá, vai ver que ambas esquecemos, já somos meio velhuscas. O fato é que existia uma maravilhosa meia velha, recheada dos mais variados e incríveis tipos de botões, que morava em uma gaveta da máquina de costura da minha avó. Era um desses carpins masculinos, agora encardido, um envoltório feioso que guardava seu tesouro multicor.
Quando criança, fazia qualquer coisa com aqueles botões: composições, classificações, personagens, eles eram bons companheiros da minha imaginação. Posteriormente, quando minhas filhas chegaram à idade de aprender a costurar, usamos alguns deles para fazer olhos e roupas de bonecas de pano. Um belo dia, a meia desapareceu e minha mãe admitiu tê-la posto fora em um arroubo de limpeza. Admito que meus pensamentos foram matricidas, mas fiquem tranquilos, ela sobreviveu.
Quando Elza se obsedou pela bola, pensou: “a Diana é psicanalista, escuta o que as pessoas só falam com seus botões”. O que ela não sabia conscientemente era que, no meu caso, os botões eram literalmente memórias de infância perdidas, que ela resgatou. Telepatia entre duas pessoas que se gostam? Memória de um diálogo esquecido?
O fato é que hoje a bola mora no meu consultório (e não está à venda).
Ela me lembra o tempo todo que ninguém perde definitivamente seus botões. Eles voltam de algum jeito, através das mãos daqueles que realmente nos escutam. Afinal, os assuntos sobre os quais “falamos com nossos botões” costumam girar em torno dos nossos “botões perdidos”.

Faz-se carreto

como mudar – de lugar, de vida – sem ficar desamparado?

Mudança é um caminhão carregando e descarregando pesados móveis, colchões, caixas de livros, panelas e brinquedos, malas de roupa, quadros. Ver o passeio desses objetos pela calçada é um pouco constrangedor e instiga a curiosidade. É como olhar dentro da intimidade daqueles moradores, condenada a desfilar em público, carregada em braços desconhecidos.
As caixas têm dizeres, garranchos, títulos, são como um mapa para que seus donos amenizem a perda de referências. Os primeiros volumes a serem embalados costumam guardar uma lógica, códigos precisos. Por fim, roupas, papéis e objetos viajarão juntos, revelando a desestrutura da alma, verdadeiro estado daquele que precisa desmontar sua vida. Partimos de um lugar que costuma ser tão familiar como nosso próprio corpo, tanto que podemos percorrê-lo na escuridão sem medo. Embarcamos rumo a outro que parece que nunca chegará a ser tão pessoal e íntimo quanto o anterior.
Num primeiro momento, quando faz-se necessária a separação do que vai conosco, tropeçamos com o que tornou-se obsoleto. O balanço acaba sendo feito quando mexemos nas gavetas, no fundo dos armários. Esbarramos em caquinhos de memória que ficaram escondidos em algum canto, quietinhos, mensagens do passado escapando do descarte porque ainda tinham algo a dizer. Cada um desses restos pede uma despedida. Irão fora ingressos e passagens usados, contas que suamos para pagar, enigmáticas despesas insignificantes, bilhetes recebidos ou nunca enviados, fotografias sem álbum, roupas que já não servem, objetos quebrados esperando um conserto que nunca virá. Perdemo-nos em devaneios, caímos no labirinto em que cada uma dessas pontas soltas nos lança. Uma simples gaveta pode ter mil ganchos de memórias.
É preciso finalizar cada uma dessas pendências, descartando, classificando. Nossa vida encaixotada parece menor do que foi. Escolhas implicam em perdas, principalmente das ilusões. Vai fora o que ainda fantasiávamos que éramos e que tínhamos. Acondicionar também é descobrir quais partes nossas são mais frágeis, precisamos seguir com elas, mas sempre ameaçam não chegar inteiras. Levamos conosco também o que nunca foi nem será firme e forte. Também precisamos escolher o que nos é imprescindível, pois muitas caixas demorarão para ser abertas.
Ao chegar, ficamos acampados, rodeados pela desordem, estranhando os barulhos da noite, sem saber para que lado da cama colocar os pés ao acordar. Para mudar, tivemos que encarar o medo da perda de identidade, o risco de sentir-nos exilados, sem pouso. Não somos caracóis, sem casa não derreteremos ao sol e ao sal. Na verdade nossa capacidade de mudança é sempre maior do que apostamos. Com o tempo, nossa mobília interior vai tornando-se embutida, sob medida e parte conosco, sabemos o que em nós é objeto frágil e carregamos com maior cuidado, já descartamos muitas coisas e descobrimos que é possível viver sem elas. Se pudermos sentir-nos em casa dentro de nós mesmos, novos lugares sempre poderão ser um lar.

(publicado originalmente na Vida Simples de setembro 2016)

18/09/18 |
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O insuportável do corpo feminino

Com quantos tabus não se faz um corpo feminino?

Por muitos séculos perdurou a ideia de um sexo único e a mulher seria um homem com órgãos sexuais internalizados, o que a tornava incompleta, inferior.
É espantoso o tempo que a ciência e a medicina demoraram para descobrir como funcionava a reprodução humana. As especulações sobre o ainda misterioso prazer sexual das mulheres e as teorias delirantes sobre o tema perduraram por séculos.
O corpo feminino está cercado de tabus; há muito nele que não se sabe e muito que não se quer saber. Por que? A psicanalista Diana Corso nos conduz a uma reflexão do que pode ser “o insuportável do corpo feminino”, programa da série: “A sexualidade como ela é” de curadoria de Fabricio Carpinejar.
Café filosófico CPFL
Publicado a 04/12/2016
para assistir, copie e cole este link:

https://www.youtube.com/watch?v=oHiLo8nTyT0&t=2s

25/11/17 |
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Cada tempo com a presença de que se precisa

Será que um dia a comunicação digital fará parte naturalmente de setting analítico?

A importância do atendimento presencial para a psicanálise é o tema deste artigo produzido pela psicóloga Diana Lichtenstein Corso especialmente para a EntreLinhas, revista do Conselho Regional de Paicologia.

A psicanálise é um encontro estranho, que viola todas as regras convencionais da etiqueta do convívio, mas ainda acima de tudo é um encontro. Os interlocutores falam muitas vezes sem olhar-se nos olhos, os silêncios são parte do diálogo, momentos em que alguém pode parar para pensar na presença do outro sem que isso gere maiores incômodos. Em um encontro social, se ficamos em silêncio, impactados pelo que dissemos ou escutamos, isso é no mínimo constrangedor, já em uma sessão analítica os momentos quietos fazem parte do ritmo do diálogo.
Esses momentos quietos não são tão comuns como se imagina no anedotário da psicanálise, onde se repre-
senta um analista mudo, olhando no relógio e tomando notas e um paciente falando meio sozinho. Embora não sejam a maior parte de uma psicanálise, faz parte poder estar juntos, escutando o ritmo da respiração e os barulhinhos do ambiente. É por isso que, mesmo quando uma psicanálise não está passando pelos seus momentos mais eloquentes, continua sendo um encontro, onde se suporta tanto o ritmo no qual um paciente consegue se expressar, quando o tempo necessário para que o analista diga algo que seja realmente interessante.
Nesses encontros, o simples fato de estar juntos, acompanhando-se, testemunhando-se, sentindo o aconchego da rotina dos encontros, já produz efeitos terapêuticos. Por isso, acredito que o atendimento virtual, quer seja via imagem, para os pacientes que trabalham “cara a cara”, ou telefônica, para os trabalhos “de divã”, é viável apenas como uma continuidade do trabalho presencial, quando seu uso se faz necessário.
Sei que há colegas que já empreendem atendimentos que são quase totalmente virtuais, ou mesmo total- mente virtuais, mas não posso depor sobre isso por falta de vivência. Jamais comecei um trabalho assim, sem nun- ca ter me encontrado com o paciente em termos físicos, reais, só me ocorreu de empreender esse tipo de trabalho quando algum paciente precisa que nos encontremos e isso não é possível pela distância e algum impedimento para que ele se desloque. Já ocorreu por períodos da vida de algum paciente, que passou a morar longe ou que mora longe e não está conseguindo viajar, ou mesmo de forma alternada, também com pacientes e supervisionandos que a distância física nos barra o encontro regular.
Outra modalidade de recurso à comunicação virtual é com os adolescentes que já estão em atendimento e que por vezes se atrapalham com os horários ou estão com dificuldades para sair de casa, nesses casos é preciso que a montanha vá até Maomé, buscando os meios possíveis, quer por telefonemas, com imagem ou sem, quer via mensagens trocadas com agilidade, para presentificar-se dentro do que eles estão podendo suportar. Não é raro que com os adultos, em determinadas fases ou momentos isso também
aconteça, às vezes uma sessão vira uma troca de mensagens.
Como sinto limitações nesses momentos, tanto para respirar o mesmo silêncio nos telefonemas ou sessões virtuais com imagens, quanto para fazer essas trocas de mensagem surtirem um efeito mais significativo, acabo considerando esses encontros virtuais um pouco menores do que os presenciais. Mas penso que aqui há algo de geração, em que me sinto em processo de ser talvez superada.
Houve épocas em que uma análise ocorria todos os dias, os pacientes de Freud mudavam-se para Viena e dedicavam-se às suas análises que eram mais curtas e intensas. Hoje um processo prolonga-se ao longo de mais tempo, numa rotina mais pausada, com intervalos maiores entre as sessões, não mais se suspende uma vida para pensá-la, agora vamos vivendo e tentando elaborar o que está nos ocorrendo ao mesmo tempo.
Se a experiência psicanalítica pôde modificar-se tanto assim, considerando também que para as novas gerações o espaço virtual não é sentido como algo assim tão diferente do presencial, não vejo por que considerar que a absorção do virtual ao setting analítico não acabaria sendo incorporada. É um exercício de futurologia, pensando na psicanálise sendo exercida entre gente nascida já em sua vigência, que sente -se mais cômoda no ambiente virtual do que eu. Para mim é algo menor, mas para estas novas gerações que têm seus telefones e computadores como espaços genuínos de encontro, veremos como será.

Um olhar infantil sobre o diferente

A intolerância será tanto mais forte e, portanto, violenta, quanto mais restritas forem as possibilidades de criar, cooperar e dialogar. Quanto maior a pobreza de espírito de um grupo social, tanto menores seus recursos simbólicos, portanto, vai ter que utilizar-se de uma gramática binária para se descrever: eu, bom, não eu, ruim.

IHU on line – Revista do Instituto Humanitas Unisinos
EDIÇÃO 491 | 22 AGOSTO 2016
Entrevista concedida a João Vitor Santos

Diana Corso observa como as crianças apreendem a ideia de diferente, em uma perspectiva que não exclui e que busca um crescimento emocional e cultural para absorver a “variabilidade de modos de ser, viver e pensar”
“Quando nos associamos para brincar ou criar, as diferenças entre nós são úteis, interessantes, diversificam o que estamos fazendo. Já quando somos passivos, como os alunos de uma escola tradicional, ou só ficamos brincando sozinhos e observando os outros, tornamo-nos competitivos e não suportamos as diferenças”. A elaboração é da psicanalista Diana Lichtenstein Corso acerca da relação tolerância/intolerância sobre o diferente, o que não é igual a mim. Ela observa essa relação a partir das experiências infantis. “As crianças não notam diferenças de forma estereotipada, elas observam o que a cultura as treina para ver”, aponta. Assim, a ideia do diferente para os pequenos é algo muito volátil em meio ao seu mundo de descobertas e transformações. “As diferenças que estereotipamos em nossa sociedade, de gênero, cor da pele, status social, são variáveis mínimas em relação a essa polissemia da infância”, explica Diana, ao lembrar que as crianças se atêm tanto a essas diferenças quanto às de tamanho, de altura, por exemplo.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, a psicanalista analisa como a criança pode ser tomada como uma terra sem formas, portanto aceitando qualquer moldura para ver o outro. Para Diana, muito mais interessante é oferecer para crianças o acesso a um crescimento emocional através do contato com os diferentes. Isso permitirá que ela desenvolva um verdadeiro olhar sobre o outro para além dos preconceitos forjados nos estereótipos e convenções sociais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em que medida a intolerância é inerente ao ser humano e em que medida surge na relação com o meio em que se vive?
Diana Lichtenstein Corso – Vamos situar o aparecimento da agressividade entre os bebês, aqueles um pouco maiorzinhos, que conseguem brincar perto uns dos outros. Veja bem, não estou me referindo a crianças que brincam juntas, mas apenas por perto, reparando no que o outro faz e por vezes trocando, oferecendo e disputando objetos. São criaturinhas ainda em fase de construção da sua capacidade de representação simbólica, já conseguem “papar” [alimentar-se] e dormir de brincadeira, esconder-se do olhar do outro e reaparecer com júbilo, por exemplo, mas não bolar em conjunto com outra criança uma trama para partilhar, criar uma fantasia em conjunto, contracenar com personagens, ou mesmo seguir regras grupais de uma brincadeira. Estamos falando, então, de rudimentos de sociabilidade.
Nesse contexto, surgem as maiores disputas, por brinquedos, pela atenção dos adultos, por entrar em certo lugar. Onde o outro está, o que a outra criança estiver fazendo, torna-se objeto de cobiça. Quanto menores, mais as crianças funcionam em espelho, pois ainda estão definindo seus próprios contornos, como se houvesse um só lugar, aquele que acabam de descobrir observando o outro e ali querem estar.
Bom, conto essa história de bebês porque a agressividade, a intolerância em nossa sociedade tem justamente a ver com a solidez da imagem que cada um tem de si. Por exemplo, se alguém vale somente por ter um smartphone, por ter um carro, uma roupa com etiqueta tal, não vai suportar que todo mundo possa ter. É preciso dividir o mundo entre os que, para usar o código das crianças pequenas, estão no balanço e os outros que ficam olhando de fora. É diferente quando numa sociedade consegue-se trocas mais simbólicas, que passem pela palavra, por um olhar capaz de perceber a beleza ou de despertar a curiosidade de forma mais complexa do que códigos rudimentares de ter ou não ter um número restrito de objetos que vão dizer quem é alguém — está no balanço — e quem não — ficará olhando.
Essa possibilidade de associar-se para criar, que é a brincadeira infantil propriamente dita, está no coração de tudo o que fazemos de criativo, desde a arte propriamente dita, até uma equipe científica ou que desempenha determinada tarefa prática conjuntamente de modo eficiente e colaborativo. Quando nos associamos para brincar ou criar, as diferenças entre nós são úteis, interessantes, diversificam o que estamos fazendo. Já quando somos passivos, como os alunos de uma escola tradicional, ou só ficamos brincando sozinhos e observando os outros, tornamo-nos competitivos e não suportamos as diferenças, pois precisamos do outro como espelho e contraponto.

IHU On-Line – Como o sentimento de intolerância aparece na infância? Como é elaborado pelos pequenos e como perceber a necessidade de intervenção? De que forma as crianças veem o diferente? O quanto podem ter essa perspectiva alterada pela ação dos adultos que a cercam?
Diana Lichtenstein Corso – As crianças não notam diferenças de forma estereotipada, elas observam o que a cultura as treina para ver. Até é interessante ressaltar que a infância é muito variada em termos de formatos, tamanhos e capacidades. O ritmo de crescimento é muito, muito variado. Há crianças de três a dez anos de todo tipo de tamanho, há os que têm complexão física mais encorpada e os quebradiços, os que crescem como pipoca estourando e os que demoram muito, passam a infância inteira estilo mignon, os atléticos, os capazes de concentrar-se, os líderes, os tímidos, eles são variados entre si e também em relação a si próprios. É comum o amiguinho voltar das férias todo diferente, cresceu ou mudou de jeito.
Nesse sentido, as diferenças que estereotipamos em nossa sociedade, de gênero, cor da pele, status social, são variáveis mínimas em relação a essa polissemia da infância. Se não for instruída para isso, uma criança não observará a cor da pele do amigo, mas sim sua altura, seu jeito de falar ou de calar, enfim, ela escolherá os critérios do que é mais importante para ela. Ater-se aos nossos padrões de preconceito adulto é para as crianças um treinamento recebido dos adultos.

Associações e exclusões: sofrimentos normais
Situações radicais de exclusão e bullying na infância ocorrerão principalmente se elas se organizarem em grupos passivos, com padrões restritos e pouco colaborativos. Aí vale a lógica dos pequenos, dos que têm poucos recursos simbólicos. Por outro lado, entre as crianças temos alguns dramas de associação: as panelinhas, os grupos de três, organizados para deixar um de fora, os clichês que organizam uma turma de colégio entre populares, nerds, gays, e tantas outras categorias. Esses são recursos de trocas amorosas, em geral do homoerotismo básico que aparece muito forte na pré-puberdade, quando as questões de quem vale o que para ser desejado ou admirado pelos outros tornam-se muito importantes.
São sofrimentos normais, que, se o “sucesso social” não for uma obsessão para a família, serão encarados com mais leveza e até um certo humor pelas crianças. Porém, se a criança estiver inserida em um contexto em que o prestígio no grupo e a capacidade de liderança, que tomam como prova do potencial para o exercício do poder, forem um grande valor, acima dos de solidariedade, tolerância e companheirismo, esses jogos grupais serão fonte de grandes dramas e péssimos para a construção de uma identidade mais definida. A criança tenderá a diluir-se na massa, obedecendo às regras mais rudimentares de comportamento e formas de ser, estabelecidas por um senso comum que nunca deixa de ser pobre de espírito.

IHU On-Line – Há um limite entre a intolerância e a violência? Quando a intolerância se perfaz em força e violência, essencialmente na infância?
Diana Lichtenstein Corso – A intolerância será tanto mais forte e, portanto, violenta, quanto mais restritas forem as possibilidades de criar, cooperar e dialogar. Quanto maior a pobreza de espírito de um grupo social, tanto menores seus recursos simbólicos, portanto, vai ter que utilizar-se de uma gramática binária para se descrever: eu, bom, não eu, ruim.

IHU On-Line – Qual o papel das fábulas e dos clássicos infantis no desenvolvimento das crianças? Em que medida essas histórias solidificam convenções sociais e fecham perspectivas e em que medida abrem um horizonte para o novo e aceitação para o diferente?
Diana Lichtenstein Corso – As histórias que a infância de cada época adota para si não cria o modo de ser das crianças, é esse modo que edita a ficção de cada época. Por isso, em nossos livros escritos sobre o assunto, com o Mário Corso , tomamos as histórias como reveladoras de um modo de ser, de estar no mundo, dos gêneros se definirem, das famílias se organizarem, dos valores, enfim do tecido social que nos organiza.
Os contos ditos tradicionais, ou seja, que vêm acompanhando várias gerações, guardam apenas um núcleo da trama idêntico uma geração após outra. Alguns, como é o caso da Rapunzel após Enrolados , da Bela Adormecida após Malévola , da Branca de Neve após Branca de Neve e o Caçador , ou mesmo João e Maria caçadores de bruxas , estão tão recheadas de novas referências de gênero que estão se tornando muito diversos de suas versões mais consagradas no passado. Mas, se formos olhar, essas mesmas versões que tomamos como clássicos já são radicalmente modificadas das suas fontes da tradição oral, que por sua vez passaram por várias modificações antes de chegar às crianças, como as versões picarescas ou cheias de maneirismos voltadas ao público adulto impressas, recompiladas e recontadas por vários autores. A ficção, quanto mais atrás pudermos encontrar alguns traços de constância em determinada história, mais ela irá contando das nossas transformações históricas.
Histórias são verdadeiros documentos de história social, reveladoras da subjetividade dos habitantes de cada tempo e lugar e do que eles partilhavam de comum naquelas coordenadas específicas. Essas questões da multiplicidade de identidades possíveis, principalmente no que diz respeito a gênero, onde masculinidade e feminilidade, antes drasticamente diferenciadas agora se embaralham, assim como da diluição das hierarquias familiares, que tendem à horizontalidade, estão fortemente representadas na ficção infantil. O cinema é o modo de expressão artística que mais rapidamente absorve e difunde essas novidades, ele visa grandes públicos, então tenta traduzir-lhe os desejos. Não podemos dizer que ele cria uma tendência cultural, ele é criado por ela e, por sua vez, ajuda a consolidá-la.

IHU On-Line – Hoje, é comum perceber que crianças não têm mais medo e aceitam criaturas como bruxas, lobos e monstros não como manifestações do mal. Ao mesmo tempo, veem-se princesas, príncipes, reis e rainhas não mais como figuras tão cândidas e bondosas. Como observa esses movimentos? Quais as questões de fundo que suscitam?
Diana Lichtenstein Corso – O medo é importante na infância, ele ajuda a delimitar os lugares e as pessoas seguras: se meu quarto não é a floresta, o papai não é o lobo mau e a mamãe não é a bruxa, portanto, posso dormir em paz. Só que para que haja todas essas exclusões, a floresta, o lobo e a bruxa têm que estar rondando do lado de fora, para garantir o aconchego do interior.
Além disso, como todos temos dentro de nós fantasias que são representadas pela maldade e pelos perigos desses cenários e personagens aterrorizantes, deixá-los de fora, mas de certa forma acessíveis, garante que nossas coisas ruins e pensamentos assustadores fiquem depositados neles. Outrora, outros temores, de um mundo mais mágico, pelas crendices e pela religião rivalizavam com a ficção. Hoje, isso empalideceu e por isso, embora as crianças e adolescentes não “acreditem” na veracidade dessas histórias, eles morrem de medo igual, ou seja, mantêm esse hábito de outorgar seus medos e fantasias a personagens que os encarnem e ajudem a dar conta deles.
A arte dá conta dos nossos conteúdos mais difíceis de elaborar, e isso vale igual para o que é oferecido às crianças, pela literatura, televisão, quadrinhos, cinema, teatro, games. Nesse sentido, como dizia antes, agora as personagens não são tão estereotipadas: gêneros, padrões de beleza e comportamento, vêm se modificando. Depois do Shrek , de Valente , Frozen e tantas recriações dos contos de fadas, temos claro que as crianças maiorzinhas não querem ser tratadas como bobas com personagens simplórios. Ainda gostam de um final feliz, mas adoram as nuances, como a transformação da princesa do Shrek em ogra, o oposto da tradição.
Já os bem pequenos ainda precisam lidar com menos variáveis, por isso gostam de personagens um pouco mais planas, mas apreciam que elas tenham seus perrengues e suas inquietudes. Crianças, como povos, quanto mais acesso tiverem a um crescimento emocional e cultural, menos simplórios serão seus raciocínios e, portanto, melhor poderão absorver nossa maravilhosa variabilidade de modos de ser, viver e pensar.■

Marcas de nascença

Além de um nome, ao nascer recebemos uma pequena vinheta, que frequentemente será nosso mito de origem particular. Cabe a nós fazer disso uma sina ou o simples começo de uma história.

Minha mãe conta que nasci invertida, de parto normal, o que já em si é uma temeridade. Jura que convenceu aos doutores desatentos de que estava em trabalho de parto mostrando-lhes meus pezinhos, que chegavam antes da cabeça. Comecei a vida colocando os pés pelas mãos. Deve ser por isso que até hoje sou um tanto impulsiva.
Como psicanalista, conheço muitas histórias sobre o nascimento. Elas são atribuídas a cada recém chegado como um mito de origem. Funciona como um signo, explicam por que somos assim ou assado, só que é um horóscopo particular. Algumas delas são narrativas familiares, mas há a variante privada: é o momento que consideramos paradigmático do que nos tornamos. Todos temos uma vinheta do passado como uma espécie de mito particular de estimação.
Por vezes essas histórias dizem respeito ao parto, como a minha, por outras dão conta de seu modo de ser enquanto bebê. Também existem aquelas que atribuem o sentido de uma vida a um trauma, um susto, uma doença, morte ou frustração. Teu berço era uma caixinha de sapatos; ele era o gêmeo menor, o outro comia tudo; eras um bebê enorme, guloso, tua mãe virou um fiapo; choravas o tempo todo; dormias tão tranquilo que nos esquecíamos de ti. Quantas histórias, parecidas com essa, você conhece a seu respeito ou dos outros?
É difícil dizer o que nos determina. Os astros alinhados na hora em que saímos do corpo materno? A genética, guardando o tesouro dos nossos humores, doenças e dons? A sociedade que nos abriga? O status dos nossos familiares? Talvez a ordem em que nascemos: primogênitos, do meio, caçulas? Parte de uma prole extensa ou únicos? Seria o nome recebido, síntese da prescrição de desejos paternos?
As variáveis são muitas e sempre há alguém que coloque a ênfase, ou acredite, na exclusividade de uma ou outra. Mais fácil é rastrear as histórias familiares que se enlaçam com nossa chegada, nossos primórdios. Em geral temos uma ou mais, e quase todas são um pouco bizarras, excêntricas. É inegável que somos determinados pela biologia e pelo contexto, mas sobre isso monta-se uma versão: é a narrativa familiar que nos torna peculiares.
A história de cada um de nós é como um jogo de xadrez: o desenlace é influenciado pela jogada de abertura. A vantagem é que, embora sejamos um jogo de cartas marcadas, muitas delas são coringa. Em resumo, há jogo de corpo, mobilidade, plasticidade: podemos variar o ponto de vista, o tom da narrativa, o estilo. Cada humano nasce como uma trama a ser editada e continuada.
Você já lembrou qual a sua história? Feito isso, tente descobrir como conversou com ela ao longo da vida, se fez dela um xeque mate ou uma abertura de jogo. Talvez tenha se empenhado para confirmar as predestinações, ou para contradizê-las. Bem, como eu cheguei atravessada, talvez seja por isso que decidi dedicar-me à psicanálise, a arte do imprevisto, do indizível. O inconsciente é essa razão oculta que determina um sentido e uma verdade ao que parece enviesado, estranho e impulsivo.