Comportamento
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Quando eu me aposentar

Os amanhãs da nossa vida, começam sempre hoje.

Quando me aposentar lerei todos os livros que acumulei. Viajarei para inúmeros lugares. Aprenderei a tocar um instrumento. Estudarei uma língua nova. Vou me dedicar à família, aos amigos, a uma associação protetora de sei lá o que.
Quantas vezes vocês já escutaram as frases do parágrafo acima, dito por inúmeras pessoas? O espírito destas falas é: o tempo livre da aposentadoria será a redenção da vida tediosa que levamos. O sacrifício é agora, mas lá na frente será minha vez.
Estas são as promessas, mas como é na prática? Vi muita gente conseguir inaugurar algo novo em sua vida na maturidade. Mas para cada um dos que se reinventaram, vejo dez deprimidos na frente da TV, sem conseguir fazer nada do que prometeram a si mesmos. Como só sabem trabalhar no seu ofício estão sem missão, vagam avulsos procurando um encaixe impossível. Como adquiriam significação apenas da identidade profissional, sentem-se esvaziados, já não sabem quem são.
Entre aqueles que alcançaram seu sonho e os que não, a diferença costuma ser simples: quem começou antes, quem preparou-se-se para o porvir é que chega lá. Aqueles que acreditaram que o “paraíso” da aposentadoria era automático, bastava sair das obrigações e da rotina, se dão mal.
Vejamos os leitores do futuro. É óbvio que depois de anos afunilando o cérebro lendo Twitter e texto de Facebook, ninguém consegue ler um livro. Depois que o cano do entendimento estreitou, não passa nada complexo. Para suportar a arquitetura de um romance, de um ensaio, é preciso a musculação semiótica de toda uma vida. Não se aprende a ler de um dia para o outro, e se pode desaprender caso não haja treino.
O mesmo com as viagens, se você não sai de casa perde o espírito de aventura, a curiosidade, a coragem. Viajar é uma ciência de difícil doma. Vamos nos desafiando cada vez mais, indo mais longe, suportando choques culturais maiores. Quem postergar as peripécias só conseguirá passear no óbvio, junto a pessoas ainda mais óbvias.
Quem deixar para cultivar amigos e aumentar o leque de vínculos quando tiver tempo dará com a cara no muro. A vida social não é fácil. É a arte de decifrar olhares, de perceber as mil sutilezas, de sacar os subentendidos, que aperfeiçoamos a cada dia, e mesmo assim damos mancadas. Imagina quem começar tarde, a inépcia sabotará todas as abordagens.
Caríssimos, se há algo descobri nessa existência é que o futuro começa agora. Quando chegar esse momento de maior liberdade é preciso estar treinado. Não jogue seus anseios para uma hipotética vida futura, construa este amanhã desde já. Sonhos precisam de adubo, de cuidados. Nada florescerá se não for cotidianamente regado.

14/07/19 |
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o crime de Woody Allen

Na leitura crítica e na fuição estética, vale a obra e não a biografia… mas algumas biografias acabam dando o que pensar, a de Allen é uma.

Nenhuma editora quer publicar a autobiografia de Woody Allen. Este é mais um capítulo de um processo de isolamento do diretor. Ele está em litígio com a Amazon, por esta ter encomendado um trabalho e desistido após as acusações de sua filha voltarem aos noticiários. De qualquer forma, tampouco algum ator iria quer trabalhar com ele. O cerco se fechou.
Para quem não lembra, o diretor foi denunciado por abusar da filha em 1992, quando ela tinha apenas sete anos. Na época, dois processos de investigação paralelos foram abertos e ambos desacreditaram a denúncia. Na idade adulta Dylan Farrow volta a acusar o pai, sem efeitos legais, apenas morais, e conseguiu derrubá-lo.
A melhor versão sobre o caso é do filho Moses Farrow. Adulto, tornou-se terapeuta e por isso consegue descrever com mais riqueza os dramas de uma família dividida e com ódios não cicatrizados. Ele foi testemunha contra o pai e, quando adulto, conta suas razões: como foi coagido pela mãe a mentir.
Mas então, se não houve abuso, segundo vários peritos e segundo Moses, que insiste na impossibilidade de isso ter acontecido – ele estava lá na ocasião da alegado abuso – como alguém leva Dylan a sério? A questão é que ela acredita e isso a torna convincente. Ela alucinou um abuso e a vida dela marcha como se fosse real, sendo os efeitos quase tão danosos quanto se tivesse acontecido.
Mas por que ela fantasiou, e por que tantos acreditam nisso, passando por cima das evidências? A razão é simples: Woody Allen casou com a irmã dela, filha adotiva da sua mãe, do relacionamento anterior. Tecnicamente não há incesto, mas simbolicamente sim. Houve um embaralhamento das gerações e dos laços de parentesco.
A questão clínica que coloco: Dylan teria fantasiado a cena de abuso, com essa certeza psicótica, sem o relacionamento de Allen com Soon-Yi? Estamos no território da ficção, mas eu apostaria que não. Imaginem a cabeça de uma criança: ele transou com a minha irmã, por que não faria isso comigo?
E no pensamento das pessoas que hoje o condenam, será que o execrariam se não tivesse casado com a enteada? Ora, se ele não respeitou esta regra basilar, ele poderia não respeitar outras, então o abuso seria possível. Para meu juízo, ele está sendo condenado, não pelo motivo alegado, mas pela trama criada.
Legalmente falando, Allen é inocente, mas foi moralmente incestuoso. Mia, como qualquer mãe que casa-se novamente, tendo filhos do relacionamento anterior, precisa confiar em que o padrasto veja as enteadas com as mesmas reservas que um pai tem para com seus filhos.
Um dos dramas do gênios é acreditarem-se acima da lei. Já fomos mais tolerantes com estas faltas, Allen está tendo que lidar com novos tempos. Agora, boicotar sua obra, parece um castigo mais para nós do que para ele.

Frozen Gay

A princesa do filme Frozen, por emprestar novos horizontes às meninas, sofre difamações que seriam cômicas se não fossem perniciosas.

A última da sinistra Damares, aliás, ministra, é um vídeo onde ela nos alerta que a princesa Elsa, do filme Frozen, seria gay. Ela viveria em um mundo gelado, de onde espera sair para dar um beijo na Bela Adormecida.
O que há de novo na princesa Elsa é que ela prescinde de um príncipe para ser quem é, essa é a sua revolução. Os príncipes do filme não ajudam, um é um pateta, outro um traidor interesseiro. Creio que aqui está a pedra no sapato de quem quer um mundo tradicional, como nos velhos tempo, quando as mulheres só existiam socialmente com aval masculino. Como assim, os machos não serem protagonistas na vida de uma mulher?
Mas o passo a mais, a questão gay, só existe na cabeça torta de quem enxerga rastro do diabo em cada manifestação que não seja os estereótipos de gênero. Elsa é apenas uma heroína, bem feminina aliás, que resolve os problemas de sua saga sem um príncipe. Isso não nos diz quem ela vai amar, ou como vai desejar. A mensagem é: meninas, não esperem um homem para resolver sua vida, vá e faça, vocês têm poder.
O que sim existe é um pedido dos fãs que sugeriram, na anunciada continuação do filme, que Elsa assumisse ser gay. Seria então a primeira princesa nessa condição. Se os estúdios Disney darão esse passo é pura especulação. Não há nada no filme tenda a isso. O certo é que a mera possibilidade já desperta desconforto. E se ela viesse a ser gay, qual o problema?
Para Damares, uma personagem gay, instalaria na cabeça das crianças uma espera para que ela também pudesse se comportar assim. A questão é que vir a ser homossexual é uma questão complexa que ninguém descobriu como se dá. Envolve genética, o que a família projetou para o bebê, o acaso de suas experiências de vida, a oscilação hormonal durante a depois da gestação, enfim, é multicausal, portanto sem gatilho único. O que já sabemos é não ser da ordem da escolha.
Passei dez anos, junto com a minha esposa, estudando os mecanismos de eficácia dos contos de fada e das histórias infantis, disto resultaram dois livros. Estou acostumado aos argumentos, que não se sustentam, do suposto perigo das histórias infantis como indutoras de “maus” comportamentos. As histórias infantis são uteis, dilatam a imaginação, dão contornos e nomes para sensações que assaltam as crianças, ajudam a representar sentimentos íntimos que elas pensam ser as únicas a ter, proporcionam um ensaio emocional para o mundo adulto, é uma das portas para a diversidade da cultura humana, mas elas não conseguem, e nem se quiséssemos torcê-las para tanto, modelar a sexualidade de ninguém.
Uma eventual personagem gay, no mundo das histórias infantis, só faria a alguém que já pressente em si algo assim, embora na infância isso muitas vezes nem esteja decidido, a não se sentir tão diferente.

Quem merece presente de aniversário?

Talvez o dia da mãe devesse ser também o do nosso aniversário…

Nunca entendi a tradição dos presentes de aniversário. Claro que gosto de ganhá-los. Aprecio mesmo, fico deveras feliz. Acredito que estou sendo reconhecido. Aproveito para agradecer todos os presentes que já ganhei e que venha a ganhar.

Afinal, é o dia da minha fundação – meu dia portanto. O dia de ser centro do universo e tudo mais. O dia do porre narcísico autorizado e registrado em cartório. Sei que mereço festa, sei que todos a merecem.

O bom ou mau humor com que atravessamos nosso aniversário não depende do conceito que temos dele, se respeitamos – ou não – essa data, mas sim por como acreditamos ter sido recebidos por nossos pais. Revivemos nessa ocasião o cenário imaginário da nossa chegada na família. É um renascimento, é viver outra vez a vontade, a benção e o milagre que nos pôs no mundo. O aniversário celebra a força do desejo que nos fez existir.

Aniversário, portanto, nunca é pouca coisa. Como poderia não ser, se é a expressão do mito que nos funda? Por isso, queiramos ou não, o aniversário é um vórtice emocional. Por isso têm quem não goste nem consiga celebrar. Por isso os desejos mancos fazem aniversários aos tropeços.

Mas voltando a pergunta anterior, quem merece presente? A vida já é um presente. Nos foi dado o privilégio de sair do nada e abrir uma janela para o cosmo. Devemos ganhar mais um presente, ou retribuir a quem nos deu o mais importante?

Quem deveria ganhar um presente no nosso aniversário é nossa mãe. Aposto que tem um pai levantando a mão no fundo da sala dizendo: – e eu? Sim, você faz parte da equação, mas não foi teu corpo que abrigou um alien mal-educado e inconveniente. Não foi teu corpo, estufado até o limite, que um dia quase se rasgou para parir um ser birrento e chorão.

Winnicott falava que as mães passam por uma “loucura necessária” para nos ter. Depois de lhes exaurir fisicamente, psiquicamente as levamos ao portão do desatino. Tenho mais vontade de mandar flores para minha mãe no dia do meu aniversário do que no dia das mães.

12/05/18 |
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O tudologista e o churrasco

Uma das versões do chato, aquele que nos brinda com sua absoluta sapiência sobre o irrelevante.

Para quem ainda não sabe, o tudologista é o especialista em tudo. Se você perguntar: tudo, mas como assim? Em qual área? Já são sinais que não entendeu o conceito, tudo é tudo mesmo. O verdadeiro tudologista tem resposta ou opinião sobre qualquer assunto.

Existem duas classes de tudologistas, os práticos e os filosóficos. Embora os dois dominem os segredos do cosmo, os práticos são mais atentos aos detalhes do cotidiano, de como chegar ao cerne da sabedoria e de tudo mais através do banal. Encontramos com mais frequência este primeiro exemplar de pedagogo obstinado, que nos ensina a fazer melhor todas as rotinas da vida. Já o tudologista filosófico está consertando o mundo na internet.

Esses dias tive a felicidade de ter um tudologista ao meu lado, na churrasqueira. Ele me ensinou a essência do processo do cozimento da carne, e a transcendência dos meus pequenos gestos. Foi preciso humildade e calma, ainda mais tendo uma faca de carne na mão, pois o mestre me apontou falhas imperdoáveis na condução do preparo da refeição.

A primeira coisa que descobri foi que fiz o fogo errado. Não que não fosse fogo, mas ele me apontou como desperdicei tempo e energia não propiciando o melhor rendimento térmico. Para salgar a carne outra lição de fisiologia e química aplicada à culinária. O tempo e a quantidade usadas estavam errados em vários itens. Senti que não cozinhava, apenas desperdiçava recursos úteis ao planeta. A filosofia de fundo é que existem mil maneiras de fazer algo, mas só uma é a certa: no caso a dele.

Pelo menos o desperdício não era tão grande, pois, como ele me explicou, a carne comprada não era grande coisa, nem adequada para a ocasião. Pelo aspecto, aroma, cor, textura, precisão do corte e outros quesitos tais, era um bagulho que um espertalhão passou para um trouxa, no caso eu, que não entende nada do assunto.

Ao espetar a carne mais uma revelação. Não deveria ser nem tão rente, nem da maneira que fiz. Decididamente não sei nada sobre feixes de fibras e a penetração do calor na carne. Nem como, nem quanto e muito menos por onde a gordura deveria escorrer. Não adianta dizer: então você espeta! Acontece que o tudologista não faz, ele ensina, esse é seu papel no mundo.

O tudologista é um missionário de seu saber, um professor nato que brinda os outros com sua sapiência. O tudologista sabe que o caminho da boa pedagogia é a paciência, ele pode te repetir a explicação mil vezes, e se chegar uma nova pessoa no recinto ele recomeça do princípio. Os tudologistas não cansam, a verdade lhes dá uma energia infinita. Por isso um conselho: não contrarie um tudologista.

Fiz o churrasco enquanto ele explicava para as mulheres a alquimia da verdadeira maionese. Só escutava, ao longe, como os colóides são sensíveis ao ritmo do fouet e os riscos da acidez elevada dos óleos de oliva.

Mas existe uma generosidade extra do tudologista que se expressa na prática: por mais que a comida seja errada do começo ao fim, ele, com seu apetite, redime o cozinheiro das críticas.

Como forma de respeito, apesar do meu fracasso como assador e anfitrião, ele comeu muito. Também, dentro desse mesmo espírito construtivo e apoiador, bebeu bastante da cerveja. Embora já tivesse ressaltado que ela não harmonizava com essa carne, nem a com a temperatura do dia, nem estava na temperatura certa e que tampouco é correto tomá-la nessa estação. O estômago do tudologista abençoa nossos esforços e perdoa nossos erros. Em seu âmago, ele só deseja nosso bem.

O peso da morte

Um peso insuportável, mas dá-se jeito de carregar.

Eu sempre me senti afortunado por ter convivido com todos os meus avós e alguns bisavós. É bom saber de onde saímos e sentir-se um fio de um rio mais largo, perceber-se a somatória de sonhos, encontros, acertos e erros dos nossos antepassados.

A parte chata são as despedidas. Foram muitos enterros, chorei em muitos velórios, mas até perder meu avô paterno nunca tinha carregado um caixão. Herdei meu nome desse avô, acreditava por isso que nossa ligação era, de alguma forma, especial. Na hora de pegar na alça, dei uma curva no meu pai e cheguei primeiro. Escolhi a do meio, de tal forma que pudesse pegar com a mão direita.

Meu avô penou muito nos seus últimos dias e perdeu muito peso. Estava feito um passarinho quando se foi. Pensava que levá-lo seria fácil. Que nada, parecia um caixão ao avesso, alças de madeira e estrutura em bronze. Tirei de rio canoas alagadas mais leves do que aquilo. Ajudei a içar fusca atolado com menos dificuldade. Era mesmo meu avô, ou pegamos por equívoco o féretro de Buda?

Fora eu e meu primo Jones, do outro lado, também ao centro, os outros voluntários eram contemporâneos do falecido e a idade somada creio que ultrapassava a do Brasil. Um dos amigos saíra do hospital especialmente para ir prestar as honras. Ele estava na minha frente e, apesar de pensar que segurava a alça, na verdade a usava de bengala. Isso é o que eu enxergava, vá saber como era o resto da quadrilha.

Solene mas desengonçado, o cortejo me fazia sentir dentro de uma missão do exército Brancaleone. O pequeno trecho entre a capela onde era velado e a igreja de Dois Lajeados para missa de corpo presente parecia intransponível. Os cem metros viraram quilômetros. A escadaria da igreja foi o teste final. Já imaginava o vexame de rolar escada abaixo com o caixão, meu avô e seus amigos.

Foi uma missa tocante para todos e sinistra para mim. Não é fácil ouvir uma cerimônia em que se lembram as virtudes do finado Mário Corso. Quando levamos o nome do falecido, a cerimônia parece um ensaio para a nossa vez. Finda a missa, restava levar o ataúde ao cemitério.

Quando terminei a tarefa, exaurido, comentei com meu primo nossa empreitada e reclamei do peso. Ele estava tão exausto quanto eu. Um senhor de idade, que ouviu de soslaio a nossa conversa, se dirigiu a nós com a autoridade de quem já segurou muitas alças:

– Mas vocês não entendem nada mesmo. É sempre assim, é o peso da morte. Não existe caixão leve!

11/06/16 |
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Reengenharia emocional

A linguagem de negócios, adaptada às emoções e afetos, cria situações cômicas.

A crise chegou. É hora de enxugar despesas. Mas cortar onde? Hoje vamos citar uma fonte enorme de gastos: os amigos. A amizade é cara em termos de tempo e dinheiro. Todos temos amigos supérfluos, sempre dá para cortar alguns mantendo a mesma produtividade afetiva.

Imagine o que vai economizar com presentes de Natal, Páscoa, aniversários, casamentos, flores. Sem contar as saídas para chope, almoço, happy hour. Some a conta com o táxi, as gorjetas, e as roupas que somos obrigados a comprar para enfrentar a vida social. Enfim, amigos são certeza de despesa. Fazer um downsizing na cota de amigos é fundamental.

É um erro dizer que amigo é um capital, pois amigos não se podem vender e quanto mais camaradas, mais despesa. Amigos são na verdade um anticapital.

Vale mais privilegiar as redes sociais: por muitíssimo menos investimento temos muito mais amigos. Três emoticons grátis te resolvem um aniversário. Pense nisso.

Porém ainda não é hábito demitir os amigos. Mesmo que possamos oferecer boas cartas de referência, ou dar bons retornos dizendo que eles certamente acharão outras pessoas que saberão usar melhor sua expertise como amigos, o melhor é fazer com que voluntariamente eles se afastem.

Lembre-se: isso é uma medida altruísta pois eles também vão fazer uma boa economia. Você está apenas tomando uma atitude proativa para o saneamento da gestão doméstica de ambos. Medidas singelas podem ajudar nesse reescalonamento afetivo.

No caso da amizade ser com uma mulher é simples: diga que ela está gorda. Se ela perdeu peso diga que esse emagrecimento lhe envelheceu. Insista no tema e vai ser menos uma. Se tiveres dificuldade para falar, no próximo aniversário lhe dê uma roupa com um número bem maior. Te asseguro que é um gasto que não vai se repetir.

Com amigo homem é mais complexo. Sei de quem convidou vários para um churrasco e serviu só cerveja sem álcool. Conseguiu de um golpe se livrar de vários. E se ainda assim algum deles insistir, convide-o para jogar futebol na tua turma e deixe-o no banco até faltarem três minutos de jogo. Quando ele entrar diga: - vai lá e arrasa. Se ainda assim ele não entender, comece a lhe pedir o carro emprestado. Devolva com o tanque vazio e reclame muito de que droga de carro é esse.

Para os muito resilientes, de ambos os sexos, sempre se pode dizer: - como o teu (tua) ex tinha razão, você é mesmo teimoso(a). Na falta de ex: - tua mãe está muito certa no que ela diz de ti.

Na próxima semana dicas de cortando despesas na família. Será que o totó já não viveu o suficiente? Plano de saúde para o vovô se ele já está tão velho? Ainda vale fazer universidade? Estudar inglês agora que existe o google translate?

Mobbing

Retratamos a natureza à nossa (pior) imagem e semelhança.

Nas madrugadas insones assisto documentários sobre vida selvagem. Creio que seja herança da coleção Os Bichos da Editora Abril. Os programas me relançam na mesma magia que era receber os fascículos durante a infância, reavivam o entusiasmo com a diversidade da vida animal.

Passeio na savanas africanas, nos desertos da Mongólia, no gelo da Groelândia. Aprendo superficialmente sobre focas, mustelídeos, formigas carnívoras. Eu sei o que é um Ocapi, algo entre a zebra e a girafa, e você o conhece? Assisto pequenos dramas animais de sobrevivência, a briga dura pela comida da cada dia, o perigo que espreita em cada passo. Enfim, é coisa para corações fortes, destemidos.

Esses programas estão mais para romantismo naturalista do que para biologia. De qualquer forma, mesmo com toda essa plêiade de animais e seus comportamentos, é raro trazerem episódios de mobbing, tanto mais por que andando nos campos e nas nossas estradas gaúchas, é o que eu mais vejo. Já explico: trata-se de um termo da etologia, proveniente da ornitologia, por ser onde mais se verifica, mas que é usado para todos os animais. Diz-se de quando animais menores se unem para atacar animais maiores, geralmente seus predadores. Seres menos preparados para o embate, fazem valer seu número ou destreza para atacar, cercar, intimidar e afastar adversários mais fortes.

Aqui no sul é comum ver falconídeos serem bicados por pássaros que têm nem metade do seu tamanho. Qualquer vaqueano acostumado às lides do campo conhece esse mecanismo de sindicalismo animal. Nem precisa ser um gado nelore, mais tinhoso, mesmo as raças flor de mansas podem pregar peças em quem entra em seus domínios desavisado, a pé, ou sem um cachorro ativo. O gado encara e pode vir a cercar o invasor, especialmente se houver cria.

Mas voltando aos programas de TV, porque comportamentos de mobbing aparecem tão pouco? Geralmente vemos felinos caçar suas presas, águias capturando coelhos, o bote da cobra no sapo, e é claro, isso é a natureza, mas isso não é toda a natureza. A natureza é seca, selvagem, o encanto está só nos nossos olhos, mas nós a fazemos falar se editarmos as cenas. Creio que esses documentários dizem mais da nossa sociedade, onde o pequeno e o fraco não tem vez, do que da natureza em si.

Nos identificamos e fascinamos com os predadores porque assim procedemos com a natureza: somos o lobo do homem e do planeta. Assistimos aos programas para nos convencer e justificar que esse é o inevitável ciclo da vida e que não haveria escolha. Bom, se fosse para isso, não teria sido necessário descer das árvores, seguiríamos como macacos. Se fizemos uma civilização, certamente não foi para incensar os predadores, mas é o que mais temos visto.

Cabeça aberta

Quem defende a legalização não é ingênuo quanto ao efeito nocivo das drogas.

Uma das dificuldades de quem luta pela descriminalização das drogas é o raciocínio simplista do outro lado, que nos acusa de desconhecer o poder mortífero, a capacidade de desagregação, que elas podem causar. Infelizmente, conheço e de todas as formas: profissionalmente em maior grau, mas também por problemas com amigos e desastres nas famílias. Os raios caem em todos os lugares. Quem defende a descriminalização não é ingênuo, apenas quer a luz do dia para tratar um problema que habita a sombra, enriquece o crime organizado e mantém quem precisa de ajuda longe dos serviços de saúde.

Esses dias o jornalista Paulo Germano fez o que me parece a atitude mais correta e corajosa para desestimular a glamourização que a maconha anda recebendo agora que se pensa em sua legalização. Ele nos conta sobre sua trajetória de usuário que, se não é tão típica, tampouco é incomum. Para ele, tudo começou muito bem, uma explosão de criatividade e energia, mas logo desenvolveu uma ideação paranoide, acreditava que todos o observavam. Depois disso foi inundado por uma apatia e lentidão de pensamento que durou algum tempo. Em resumo, travou sua vida.

Como qualquer droga, legal e ilegal, o efeito da maconha corresponde a um espectro, não existe uma maneira única do corpo recebê-la. Uma minoria desenvolve essa paranoia tão bem contada por Paulo, mas na maior parte dos casos ela funciona como ansiolítico, por isso seu uso é tão popular. Também é típico o desenvolvimento de quadros de síndrome do pânico ou até o desencadeamento de graves crises psicóticas. Atenção, ela não cria uma psicose, a fragilidade já estava ali, apenas a droga solta os tênues fios que mantinham o sujeito ligado à terra. O que se produz já provem de nós, apenas encontra frestas mais abertas para sair e nos desestruturar.

O que realmente prende a maioria dos usuários à maconha é seu poder de baixar a ansiedade, pois ela relaxa. Quem não quer ser acalmado, baixar o giro da angústia de viver? Há adultos que mantiveram seu uso desde a juventude para fins recreativos e quando isso é feito ocasionalmente não traz prejuízo mensurável, já quando o uso é diário e contínuo, paralisa a vida. A questão é simples: a ansiedade nos perturba, nos desacomoda, mas ao mesmo tempo ela pode ser o motor de mudanças, nem toda ansiedade é ruim. Quando usamos uma droga que corta a chave geral da angústia, ela suprime também a inquietude de onde provém a força necessária para ir adiante. Por isso a maconha estaciona o sujeito. Essa parada pode ser de uns dias, uns meses, uns anos, décadas… A menos que alguém acredite que essa fuga do mundo é a melhor forma de existência. A situação não é muito diferente do uso legalizado e compulsivo de medicamentos calmantes, tristemente comum hoje em dia.

Mas existe outro modo insidioso da maconha prejudicar, que é quando atinge a cognição. A droga age como se devolvesse o olhar infantil de assombro que perdemos: uma certa aura de magia que só as crianças encontram no mundo. Como ela rebaixa a cognição para estágios anteriores, infantis, sentimo-nos inteligentes em perceber como “realmente” as coisas funcionam. A maconha permite grandes sacações do óbvio, e graças a esses insights “geniais”, parecemos, aos nossos próprios olhos, como mais espertos do que antes. Que alguém possa divertir-se com essa condição tudo bem, mas achar que está fazendo uma viagem descobridora e brilhante é outro passo. Basta ver as anotações feitas durante o barato, no outro dia se revelam pueris.

A criatividade é algo extremante valorizado e alguns usuários defendem que o uso os deixa com a cabeça aberta para pensar o novo. De fato, ela faz com que abandonemos a lógica habitual e possamos trilhar uma via associativa. Para inventar esse seria o bom caminho. Porém, com o uso contínuo essa forma de pensamento torna-se o próprio modo de pensar. O raciocínio afetado pela maconha, em certos momentos, faz ligações meramente associativas como se fossem conexões lógicas, e as toma como parte integrante de um fio de sentido.          Nada tenho contra a associação, é exatamente isso o que peço para meus pacientes fazerem  no divã, porém na expectativa de que eles estejam com a mente desperta para colher os resultados dessa viagem. Já para entender o mundo, elaborar as relações entre as pessoas, o pensamento associativo não passa de errância mental. Quando o uso é abusivo a maconha emburrece. Ela induz a um déficit de atenção em pessoas que não padecem dele e quem já tem dificuldades nesse campo fica mais atrapalhado. A criatividade é fruto de grande esforço, perseverança, trabalho e não de grandes ideias que surgem repentinamente na cabeça, mas esse é um mito difícil de desmontar.

O prazer que se ganha com a vida em ordem e o dever cumprido é ralo. Há uma espécie de lógica de loteria que cerca os mistérios da felicidade. O usuário de droga intui isso, ele quer esse “a mais” que supõe que a droga lhe daria, ele disporia de um atalho para um gozo maior. A droga fornece esse brinde da vida que é a felicidade, mas só no começo. A longo prazo essa é uma promessa que não se cumpre e deixa os usuários nos desvãos, ignorantes do rumo da vida.

Um dos motes do texto do Paulo foi o anúncio da pop star Rihanna orgulhando-se de lançar sua futura marca de maconha. Uma celebridade ligada a esse produto me lembra as antigas propagandas de cigarro totalmente sem noção: “Mais Médicos fumam Camel do que outro cigarro”. Mas fazer o que, vivemos numa sociedade que permite propaganda de cerveja, que ainda por cima é sexista. Só o tempo vai nos permitir ver que estrago faz associar figuras de prestígio ao proselitismo do uso de drogas, lícitas e ilícitas.

Se você quer abrir sua cabeça não tente a maconha, tente estudar, uma leitura, ouvir uma música, conversar com gente que pensa diferente… Cabeça aberta é cabeça desperta.

14/12/15 |
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Quem criou a selfie?

Isso de prestar contas de tudo o que se faz, não pode ser coisa de gente grande…

Conversava com minha filha sobre as modas das selfies (a foto de autorretrato) e essas outras fotos que estão na moda, como, por exemplo, fotografar o que se come. As fotos antes disso supunham um olhar sobre nós, ou seja, alguém parou para nos registrar. Nas de agora, o olhar externo é posterior. De certa forma essas fotos são o pedido de um olhar.

Dizia a ela que isso era uma forma de egolatria desenfreada. Mas Júlia propôs outra abordagem. O problema, diz ela, é que não fazemos as perguntas certas: quem realmente se interessa pelo teu sorriso? Quem quer saber com qual roupa estás, se é bem abrigada e decente para a ocasião, se estás penteado ou despenteado? Quem quer saber com quem estás saindo e se são boas pessoas? Quem quer saber o que estás comendo? Especialmente isso, pensa bem, quem mais se interessaria pelo que tem no teu prato?

Acho que o leitor agora já começa a perceber a resposta que eu também pensei: mamãe! Sim, só ela sempre tem olhos para nós e nossas gracinhas. Quem mais neste planeta vai querer ver se tem ou não brócolis no prato fotografado? Se ele é equilibrado ou estamos comendo porcarias?
Definitivamente, essas fotos foram criadas e desenvolvidas para discretamente alimentar as mães de informação. Elas não comentam para que você se iluda de que elas não sabem. Algumas até têm um discurso de que não dominam a tecnologia e depois são flagradas manejando laptos e tablets de última geração, com arquivos bem classificados com todas as fotos por dia e local.

A verdadeira questão é saber qual foi a organização materna que lançou e desenvolveu a ideia das selfies para poder melhor exercer seu controle. Sei que muitos de vocês estão pensando que só pode ser coisa do setor de inteligência das Iidiches Mames, as mães judias organizadas. Elas estão na primeira linha das suspeitas. Mas não esqueçam da força e organização da Mamma Mia, a associação secreta das mães italianas, a única instituição na Itália que até a máfia respeita. Ela é séria candidata a ter sido o cérebro.

Como a tecnologia é americana, fica a suspeita se não seria algo da Mother Hen, ligada à CIA, ou da Helicopter Mom, mais próxima do FBI. Por outro lado, desde que a Merkel chegou ao poder, a DGM (Deutschen Glucken-Mütter) ganhou muita força política, pode ser dela. Há quem diga que é coisa maior, da OMU, braço secreto da ONU que congrega as mães do mundo inteiro.

* Mário Corso substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias em 05.11.2015.