Comportamento
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Por que tantos peregrinaram ao ônibus da história “Na natureza selvagem”?

Qual o fascínio para os adolescentes da jornada de Chris ao Alaska?

O ônibus de “Na natureza selvagem” não está mais na natureza selvagem.
Recentemente, um helicóptero da Guarda Nacional do Exército do Alasca removeu o lendário ônibus onde Christopher McCandless encontrou o triste fim da sua jornada de filosofias e aventuras. O local tornara-se meca de perigosas peregrinações, de pessoas identificadas com sua história. Foram tantos os extraviados, resgatados com dificuldade, tendo havido inclusive casos de óbito, que as autoridades tiveram que remover esse “monumento”. O que foram tantos procurar em meio à inóspita paisagem alasquiana? Em nosso livro, “Adolescência em cartaz” dedicamos um capítulo a esse personagem, que existiu na realidade e tornou-se uma das grandes fantasias sobre a juventude. Abaixo, alguns excertos:

“Os alasquianos habitam um território no extremo dos Estados Unidos que, pela sua beleza e natureza hostil, desperta a imaginação de pessoas de outras regiões. Eles estão habituados à aparição de peregrinos e Christopher McCandless, um rapaz de 24 anos, oriundo de uma família classe média alta de Annandale, Virginia, foi mais um deles. Eles os vêm com certo desprezo, como assombrações que insistem em passar por ali, impulsionados por fantasias a respeito de si e do lugar e assim os descrevem: ‘jovens idealistas, cheios de energia, que se superestimaram, subestimaram a região e acabaram em dificuldade (…) há um bocado desses tipos perambulando pelo estado, tão parecidos que são quase um clichê coletivo.’”(…)

A região atrai todo tipo de aventureiro, em geral jovens, submetendo-se à rudeza da experiência como rito de passagem. A fibra necessária para enfrentar tal provação, os sofrimentos físicos e a superação dos medos, a solidão em que em geral essas viagens são feitas, se justificam na expectativa de consolidar uma identidade e de corroborar um valor que eles próprios possam acreditar que têm. (…)

“Vale questionar-se sobre as razões de por que a trajetória desse rapaz tenha se tornado livro, filme, motivo de debates acalorados, assim como inspirador de identificação entre aqueles que sequer gostam de aventuras na natureza radicais na natureza. Apesar de seus desejos eremitas, o autonomeado Alex era um entusiasta contador de sua própria história e de seus ideais, deixou suas andanças documentadas, além de comentários sobre as fontes literárias em que fundamentava suas crenças. A última aventura, por ser desastrada e dramática, tomou o centro da narrativa e o ângulo pelo qual o enxergamos, mas ele foi muito mais do que isso. Sua morte trágica, por inanição no Alasca, nos legou uma coleção de enigmas. Enigmais e pistas a respeito de como teria sido o encontro do jovem com a natureza e a morte. Sua tragédia real, fortemente inspirada na literatura avizinhou-se da poesia. Por isso os escritor Krakauer, o cineasta Sean Pen e neste momento nós também, assim como tantos outros, seguimos ocupando-nos dessa história, que se tornou mítica.
São poucos os que têm coragem de fazer a experiência radical de largar a vida comum e sair ao encontro da aventura, principalmente hoje, em que há uma enorme adesão a uma vida reclusa onde pode-se viver experiências meramente virtuais. Muitos desses jovens acomodados sonham com os verdadeiros riscos e as genuínas vivências de quem abriu mão de todas as comodidades e da segurança por opção, e não em nome de uma causa ou missão, ou ainda por ter sido convocado.
O sucesso do livro não é outra coisa que combustível para essa fantasia – e isso nos revela o desejo de fuga como uma das dimensões da adolescência. Na prática pode ser a migração para outra geografia, para outra cultura, mas, em muitos casos, como neste, para fora da cultura propriamente dita, como se a natureza o fosse purificar da sua história, como se ela fosse a única alteridade respeitável. Esta é a dramática história de um jovem buscando refundar-se com o mínimo apoio possível, longe de tudo e de todos.” (…)
“O interessante em estar na estrada é viver sem rumo, o que importa é o meio não o fim, não se vai a lugar algum, apenas se vai. Talvez possa ser lido como uma colocação em ato de uma das grandes questões dessa fase: como não sabem para onde ir, o caminho se faz ao andar. Assim vivem um eterno presente, esquivando-se da pergunta que ronda: o que vais fazer da tua vida? A pergunta é simples, singela, mas para muitos ela abre uma porta de pavor, sentem-se incapazes de responder e, imaturos demais para as exigências do mundo. Fogem da questão e de quem eles supõe que a fariam.
A tarefa de tornar-se alguém começa com uma incontornável alienação à história familiar, mesmo que os pais tentem ser democráticos. Subjetivação e sujeição se confundem, parecem o mesmo movimento. Tomar nas próprias mãos o resultado do que fizeram conosco e fazer algo peculiar, é a tarefa que cabe à adolescência desde que o individualismo tornou-se dominante. A revolta contra essa marca primeira de dependência, que tinge-se de uma espécie de mágoa por ter sido submetido a eles, volta com toda força nessa idade. Na verdade, eis a fonte daquilo que os adultos estão sempre denunciando como uma ingratidão dos mais jovens: deveriam reconhecer que quando eram desamparados seus cuidadores lhes dispensaram tudo o que precisaram para crescer. Porém, infelizmente, a gratidão nesse caso viria com o preço de continuar preso dentro de casa, agora pagando a conta. É por isso que os adolescentes não sentem como legítimos os pilares em que se sustentam, precisam relativizá-los, questioná-los e fantasiar uma espécie de auto-fundação.
Sua questão é como trocar os próprios fundamentos sem que a casa venha abaixo. É uma operação complexa, que exige livrar-se dos pais da infância, na tentativa de abafar suas reais ou supostas exigências. É preciso matá-los simbolicamente e sair vivo da empreitada. Fugir de casa ou partir e deixar de dar e receber notícias é uma das tantas maneiras de desfazer-se dos pais. Essa é a escolha de Alex. Por isso, no caso dele, como no de tantas outras fugas de casa, o sofrimento dos pais não é considerado. É quase como se eles nunca tivessem existido, o propósito é exatamente esse. Com a maior parte das pessoas que Alex interage durante suas andanças repete o ciclo, encontra, faz um vínculo forte e parte sem dar adeus, sem que o outro possa proferir sequer uma palavra de despedida. Mais que ir embora, ele sumia, essa era sua marca.”(…)
“Antes de pensar o que o pôs a correr de seu habitat de origem, convém entendermos melhor em que direção apontava seu desejo. O andarilho Alex foi admirado não somente pela ousadia do seu desprendimento, mas sim pelo fato de que durante aqueles dois anos construiu uma existência coerente com seu pensamento romântico radical e morreu em consequência disso. Ele é visto como se fosse o herói de uma guerra pessoal, capaz de sacrificar-se pela sua crença.
Mas examinemos seu pensamento, de modo em que ele revele o que haveria de admirável para aqueles que leram sobre sua história: afinal o que um jovem buscaria na natureza? Percebemos que ela representa para ele uma alteridade radical, algo a ser conquistado, vencido. Mas por que a experiência frente a seus rigores seria capaz de funcionar como uma prova convincente? E de que valor? E para quem?
Os pais podem até ser muito generosos, mas querem ser recompensados pelos seus investimentos amorosos. Ser filho de alguém é carregar o peso da aposta que se fez em nosso nome. De alguma forma sempre vem a mensagem de que devemos pagar pelo lugar simbólico que ocupamos em uma linhagem. A força das marcas familiares que fundaram o sujeito é sentida particularmente na adolescência, é o fim do jantar e o momento de receber a conta. A cultura dos pais, seus sonhos e projetos, seus erros e acertos vão impor-se ao ser que eles criaram, querem que ele se realize nos termos dos seus valores. Muitas vezes o desejo parental pode não ser de continuidade, não é nada incomum que seja até de rompimento: vá além, faça o que não consegui, enfrente o que me derrotou, escolha melhor do que eu fiz. Outras, é de mera continuidade, mas não importa o tom, sempre soará opressivo e, quanto maiores os recursos psíquicos do jovem, menos pesada será a consciência e a desilusão de concluir que o amor dos pais nunca foi incondicional.
Já a natureza, embora na prática suas exigências possam ser cruéis, parece ser equânime e desinteressada. Estar sozinho em lugares extremos pode produzir momentos de euforia, numa comunhão íntima com a beleza da paisagem, muitos dos quais foram relatados por Alex. Isso se você estiver disposto às agruras necessárias para chegar e permanecer ali. Os que conseguem sentem-se vitoriosos, mas trata-se de uma conquista em que não se cedeu ao desejo de ninguém, não exigiu troca de favores, não se negociaram crenças nem houve medições de prestígio. As exigências de uma montanha, um deserto, uma grande onda, a imensidão do oceano, de uma floresta cheia de ciladas, serão iguais para todos os que ingressarem nelas. O que muda são os recursos com os quais cada um entra na cena. Por isso era fundamental para Alex não possuir nada que diminuísse os riscos, que amenizasse as exigências do lugar, era uma forma de aumentar a magnitude de uma experiência que ele considerava pura e essencial.
Acreditamos que, pela semelhança das experiências a que se lançaram o “personagem” McCandless e o escritor Krakauer (autor do livro responsável pelo resgate do personagem), podemos tomá-los, para efeito de reflexão, como duas vozes de pensamentos similares. A pesquisa do jornalista o levou a citar trechos dos autores preferidos do seu personagem e, entre eles, temos a seguinte passagem de Caninos Brancos, publicado em 1906 por Jack London:
“A própria terra era uma desolação sem vida, sem movimento, tão solitária e fria que seu espírito não era nem mesmo o da tristeza. (…) Era a imperiosa e incomunicável sabedoria da eternidade rindo da futilidade da vida e do esforço de viver. Era a Natureza, a selvagem, a de coração gélido, a Natureza das Terras do Norte.”
O livro de London contrasta o heroísmo natural das criaturas selvagens, assim como do valor intrínseco da beleza da paisagem do Alasca, com a mesquinhez, a incompreensão dos homens corrompidos em nome do ouro. Estes últimos, segundo as críticas que Chris dirigia a seus pais e seu modo de vida, são representantes do sistema de valores erguido em torno do dinheiro. Seus pais se sacrificaram muito para subir na vida e, como acontece em todas as famílias, não deixavam de adular o valor de suas conquistas, no caso em termos de poder aquisitivo. O filho negou-se a ganhar dinheiro, insistia em que o ouro não media nem provava o valor de ninguém. Já a natureza, esta sim pareceria uma juíza legítima e a ela ele se entregou.”

O tempo e o pó

O tempo se traduz em poeira

De onde surge o pó? Casa fechada, sem ninguém dentro, nada se moveu, de onde vem tanto pó? Voltamos de viagem e é poeira sobre as superfícies, novelinhos translúcidos crescendo nos cantos da casa. Seriam rastros de fantasmas? Seriam restos de uma festa de fadas domésticas que aproveitaram-se da nossa ausência para um baile?
Não acredito nestas magias, creio que a origem é mais prosaica. Estou convencido que o culpado é o tempo fazendo-se notar. Sendo invisível, come as beiradas de tudo para marcar presença. O pó é o suor do tempo em sua missão de desfazer o mundo. Seus dentes minúsculos não dão descanso à matéria. Sua língua áspera e seca enferruja, desbota, lasca, esfarela, tira o brilho e produz o pó. O tempo não é um relógio, o tempo é um hálito ácido, um nevoeiro invisível que a tudo envolve e corrói.
A Bíblia diz que viemos do pó e a ele voltaremos. Nada mais sábio. Mas não só nós. A gula do tempo não deixa nada de fora. Morde incansavelmente a tudo. Sua imaterialidade inveja as formas e as cores, por isso as lima.
Limpar a casa é uma tarefa infinita pois o pó brota ao virarmos as costas. A sujeira poeirenta nos desgosta por remeter intuitivamente ao decaimento da matéria, ao caos. Nosso inconsciente sabe que poeira carrega algo de morte. Talvez limpar seja algo socialmente rebaixado por esta conexão, queremos evitar contágio.
Nos cenários de filmes de terror o pó está sempre presente acompanhado da teia de aranha, sua companheira de apontar abandono, para criar a atmosfera sinistra e ressaltar a decadência. A poeira sinaliza que os monstros estão por perto. O pó é o símbolo da morte homeopática, cada dia um pouco. Os monstros da morte rápida, pois agem de um só golpe. Nos filmes de terror trabalham juntos.
Chronos, deus do tempo na cosmologia grega, é embaralhado a Cronos, o titã que engolia seus filhos. Normal, o tempo é aquele que tudo devora. Em algumas mitologias o fim do mundo é precedido de um monstro que abocanha o sol e a lua, não raro é um lobo. Como os astros são nossos relógios naturais, por marcar os ciclos, no apocalipse faz sentido serem mastigados por um monstro. E outra vez estamos na esfera da boca, o tempo de fato tem dentes.
Capitão Gancho é continuamente perseguido por um crocodilo, que além da sua mão engoliu um relógio. Peter Pan ainda não está na fase da vida em que se escuta medrosamente o tic-tac vindo da barriga do réptil, por isso o velho pirata o odeia.
Quando nos apaziguamos com a voracidade do tempo percebemos que, ao contrário de Cronos, são os filhos que engolem os pais. Vamos ao pó para seguir vivendo em suas memórias. Assim como nós carregamos na lembrança os que já se foram. Sozinhos não podemos nada, juntos, aceitando ser o elo de uma cadeia maior, derrotamos o tempo e o pó.

19/04/20 |
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Quando eu me aposentar

Os amanhãs da nossa vida, começam sempre hoje.

Quando me aposentar lerei todos os livros que acumulei. Viajarei para inúmeros lugares. Aprenderei a tocar um instrumento. Estudarei uma língua nova. Vou me dedicar à família, aos amigos, a uma associação protetora de sei lá o que.
Quantas vezes vocês já escutaram as frases do parágrafo acima, dito por inúmeras pessoas? O espírito destas falas é: o tempo livre da aposentadoria será a redenção da vida tediosa que levamos. O sacrifício é agora, mas lá na frente será minha vez.
Estas são as promessas, mas como é na prática? Vi muita gente conseguir inaugurar algo novo em sua vida na maturidade. Mas para cada um dos que se reinventaram, vejo dez deprimidos na frente da TV, sem conseguir fazer nada do que prometeram a si mesmos. Como só sabem trabalhar no seu ofício estão sem missão, vagam avulsos procurando um encaixe impossível. Como adquiriam significação apenas da identidade profissional, sentem-se esvaziados, já não sabem quem são.
Entre aqueles que alcançaram seu sonho e os que não, a diferença costuma ser simples: quem começou antes, quem preparou-se-se para o porvir é que chega lá. Aqueles que acreditaram que o “paraíso” da aposentadoria era automático, bastava sair das obrigações e da rotina, se dão mal.
Vejamos os leitores do futuro. É óbvio que depois de anos afunilando o cérebro lendo Twitter e texto de Facebook, ninguém consegue ler um livro. Depois que o cano do entendimento estreitou, não passa nada complexo. Para suportar a arquitetura de um romance, de um ensaio, é preciso a musculação semiótica de toda uma vida. Não se aprende a ler de um dia para o outro, e se pode desaprender caso não haja treino.
O mesmo com as viagens, se você não sai de casa perde o espírito de aventura, a curiosidade, a coragem. Viajar é uma ciência de difícil doma. Vamos nos desafiando cada vez mais, indo mais longe, suportando choques culturais maiores. Quem postergar as peripécias só conseguirá passear no óbvio, junto a pessoas ainda mais óbvias.
Quem deixar para cultivar amigos e aumentar o leque de vínculos quando tiver tempo dará com a cara no muro. A vida social não é fácil. É a arte de decifrar olhares, de perceber as mil sutilezas, de sacar os subentendidos, que aperfeiçoamos a cada dia, e mesmo assim damos mancadas. Imagina quem começar tarde, a inépcia sabotará todas as abordagens.
Caríssimos, se há algo descobri nessa existência é que o futuro começa agora. Quando chegar esse momento de maior liberdade é preciso estar treinado. Não jogue seus anseios para uma hipotética vida futura, construa este amanhã desde já. Sonhos precisam de adubo, de cuidados. Nada florescerá se não for cotidianamente regado.

14/07/19 |
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o crime de Woody Allen

Na leitura crítica e na fuição estética, vale a obra e não a biografia… mas algumas biografias acabam dando o que pensar, a de Allen é uma.

Nenhuma editora quer publicar a autobiografia de Woody Allen. Este é mais um capítulo de um processo de isolamento do diretor. Ele está em litígio com a Amazon, por esta ter encomendado um trabalho e desistido após as acusações de sua filha voltarem aos noticiários. De qualquer forma, tampouco algum ator iria quer trabalhar com ele. O cerco se fechou.
Para quem não lembra, o diretor foi denunciado por abusar da filha em 1992, quando ela tinha apenas sete anos. Na época, dois processos de investigação paralelos foram abertos e ambos desacreditaram a denúncia. Na idade adulta Dylan Farrow volta a acusar o pai, sem efeitos legais, apenas morais, e conseguiu derrubá-lo.
A melhor versão sobre o caso é do filho Moses Farrow. Adulto, tornou-se terapeuta e por isso consegue descrever com mais riqueza os dramas de uma família dividida e com ódios não cicatrizados. Ele foi testemunha contra o pai e, quando adulto, conta suas razões: como foi coagido pela mãe a mentir.
Mas então, se não houve abuso, segundo vários peritos e segundo Moses, que insiste na impossibilidade de isso ter acontecido – ele estava lá na ocasião da alegado abuso – como alguém leva Dylan a sério? A questão é que ela acredita e isso a torna convincente. Ela alucinou um abuso e a vida dela marcha como se fosse real, sendo os efeitos quase tão danosos quanto se tivesse acontecido.
Mas por que ela fantasiou, e por que tantos acreditam nisso, passando por cima das evidências? A razão é simples: Woody Allen casou com a irmã dela, filha adotiva da sua mãe, do relacionamento anterior. Tecnicamente não há incesto, mas simbolicamente sim. Houve um embaralhamento das gerações e dos laços de parentesco.
A questão clínica que coloco: Dylan teria fantasiado a cena de abuso, com essa certeza psicótica, sem o relacionamento de Allen com Soon-Yi? Estamos no território da ficção, mas eu apostaria que não. Imaginem a cabeça de uma criança: ele transou com a minha irmã, por que não faria isso comigo?
E no pensamento das pessoas que hoje o condenam, será que o execrariam se não tivesse casado com a enteada? Ora, se ele não respeitou esta regra basilar, ele poderia não respeitar outras, então o abuso seria possível. Para meu juízo, ele está sendo condenado, não pelo motivo alegado, mas pela trama criada.
Legalmente falando, Allen é inocente, mas foi moralmente incestuoso. Mia, como qualquer mãe que casa-se novamente, tendo filhos do relacionamento anterior, precisa confiar em que o padrasto veja as enteadas com as mesmas reservas que um pai tem para com seus filhos.
Um dos dramas do gênios é acreditarem-se acima da lei. Já fomos mais tolerantes com estas faltas, Allen está tendo que lidar com novos tempos. Agora, boicotar sua obra, parece um castigo mais para nós do que para ele.

Frozen Gay

A princesa do filme Frozen, por emprestar novos horizontes às meninas, sofre difamações que seriam cômicas se não fossem perniciosas.

A última da sinistra Damares, aliás, ministra, é um vídeo onde ela nos alerta que a princesa Elsa, do filme Frozen, seria gay. Ela viveria em um mundo gelado, de onde espera sair para dar um beijo na Bela Adormecida.
O que há de novo na princesa Elsa é que ela prescinde de um príncipe para ser quem é, essa é a sua revolução. Os príncipes do filme não ajudam, um é um pateta, outro um traidor interesseiro. Creio que aqui está a pedra no sapato de quem quer um mundo tradicional, como nos velhos tempo, quando as mulheres só existiam socialmente com aval masculino. Como assim, os machos não serem protagonistas na vida de uma mulher?
Mas o passo a mais, a questão gay, só existe na cabeça torta de quem enxerga rastro do diabo em cada manifestação que não seja os estereótipos de gênero. Elsa é apenas uma heroína, bem feminina aliás, que resolve os problemas de sua saga sem um príncipe. Isso não nos diz quem ela vai amar, ou como vai desejar. A mensagem é: meninas, não esperem um homem para resolver sua vida, vá e faça, vocês têm poder.
O que sim existe é um pedido dos fãs que sugeriram, na anunciada continuação do filme, que Elsa assumisse ser gay. Seria então a primeira princesa nessa condição. Se os estúdios Disney darão esse passo é pura especulação. Não há nada no filme tenda a isso. O certo é que a mera possibilidade já desperta desconforto. E se ela viesse a ser gay, qual o problema?
Para Damares, uma personagem gay, instalaria na cabeça das crianças uma espera para que ela também pudesse se comportar assim. A questão é que vir a ser homossexual é uma questão complexa que ninguém descobriu como se dá. Envolve genética, o que a família projetou para o bebê, o acaso de suas experiências de vida, a oscilação hormonal durante a depois da gestação, enfim, é multicausal, portanto sem gatilho único. O que já sabemos é não ser da ordem da escolha.
Passei dez anos, junto com a minha esposa, estudando os mecanismos de eficácia dos contos de fada e das histórias infantis, disto resultaram dois livros. Estou acostumado aos argumentos, que não se sustentam, do suposto perigo das histórias infantis como indutoras de “maus” comportamentos. As histórias infantis são uteis, dilatam a imaginação, dão contornos e nomes para sensações que assaltam as crianças, ajudam a representar sentimentos íntimos que elas pensam ser as únicas a ter, proporcionam um ensaio emocional para o mundo adulto, é uma das portas para a diversidade da cultura humana, mas elas não conseguem, e nem se quiséssemos torcê-las para tanto, modelar a sexualidade de ninguém.
Uma eventual personagem gay, no mundo das histórias infantis, só faria a alguém que já pressente em si algo assim, embora na infância isso muitas vezes nem esteja decidido, a não se sentir tão diferente.

Quem merece presente de aniversário?

Talvez o dia da mãe devesse ser também o do nosso aniversário…

Nunca entendi a tradição dos presentes de aniversário. Claro que gosto de ganhá-los. Aprecio mesmo, fico deveras feliz. Acredito que estou sendo reconhecido. Aproveito para agradecer todos os presentes que já ganhei e que venha a ganhar.

Afinal, é o dia da minha fundação – meu dia portanto. O dia de ser centro do universo e tudo mais. O dia do porre narcísico autorizado e registrado em cartório. Sei que mereço festa, sei que todos a merecem.

O bom ou mau humor com que atravessamos nosso aniversário não depende do conceito que temos dele, se respeitamos – ou não – essa data, mas sim por como acreditamos ter sido recebidos por nossos pais. Revivemos nessa ocasião o cenário imaginário da nossa chegada na família. É um renascimento, é viver outra vez a vontade, a benção e o milagre que nos pôs no mundo. O aniversário celebra a força do desejo que nos fez existir.

Aniversário, portanto, nunca é pouca coisa. Como poderia não ser, se é a expressão do mito que nos funda? Por isso, queiramos ou não, o aniversário é um vórtice emocional. Por isso têm quem não goste nem consiga celebrar. Por isso os desejos mancos fazem aniversários aos tropeços.

Mas voltando a pergunta anterior, quem merece presente? A vida já é um presente. Nos foi dado o privilégio de sair do nada e abrir uma janela para o cosmo. Devemos ganhar mais um presente, ou retribuir a quem nos deu o mais importante?

Quem deveria ganhar um presente no nosso aniversário é nossa mãe. Aposto que tem um pai levantando a mão no fundo da sala dizendo: – e eu? Sim, você faz parte da equação, mas não foi teu corpo que abrigou um alien mal-educado e inconveniente. Não foi teu corpo, estufado até o limite, que um dia quase se rasgou para parir um ser birrento e chorão.

Winnicott falava que as mães passam por uma “loucura necessária” para nos ter. Depois de lhes exaurir fisicamente, psiquicamente as levamos ao portão do desatino. Tenho mais vontade de mandar flores para minha mãe no dia do meu aniversário do que no dia das mães.

12/05/18 |
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O tudologista e o churrasco

Uma das versões do chato, aquele que nos brinda com sua absoluta sapiência sobre o irrelevante.

Para quem ainda não sabe, o tudologista é o especialista em tudo. Se você perguntar: tudo, mas como assim? Em qual área? Já são sinais que não entendeu o conceito, tudo é tudo mesmo. O verdadeiro tudologista tem resposta ou opinião sobre qualquer assunto.

Existem duas classes de tudologistas, os práticos e os filosóficos. Embora os dois dominem os segredos do cosmo, os práticos são mais atentos aos detalhes do cotidiano, de como chegar ao cerne da sabedoria e de tudo mais através do banal. Encontramos com mais frequência este primeiro exemplar de pedagogo obstinado, que nos ensina a fazer melhor todas as rotinas da vida. Já o tudologista filosófico está consertando o mundo na internet.

Esses dias tive a felicidade de ter um tudologista ao meu lado, na churrasqueira. Ele me ensinou a essência do processo do cozimento da carne, e a transcendência dos meus pequenos gestos. Foi preciso humildade e calma, ainda mais tendo uma faca de carne na mão, pois o mestre me apontou falhas imperdoáveis na condução do preparo da refeição.

A primeira coisa que descobri foi que fiz o fogo errado. Não que não fosse fogo, mas ele me apontou como desperdicei tempo e energia não propiciando o melhor rendimento térmico. Para salgar a carne outra lição de fisiologia e química aplicada à culinária. O tempo e a quantidade usadas estavam errados em vários itens. Senti que não cozinhava, apenas desperdiçava recursos úteis ao planeta. A filosofia de fundo é que existem mil maneiras de fazer algo, mas só uma é a certa: no caso a dele.

Pelo menos o desperdício não era tão grande, pois, como ele me explicou, a carne comprada não era grande coisa, nem adequada para a ocasião. Pelo aspecto, aroma, cor, textura, precisão do corte e outros quesitos tais, era um bagulho que um espertalhão passou para um trouxa, no caso eu, que não entende nada do assunto.

Ao espetar a carne mais uma revelação. Não deveria ser nem tão rente, nem da maneira que fiz. Decididamente não sei nada sobre feixes de fibras e a penetração do calor na carne. Nem como, nem quanto e muito menos por onde a gordura deveria escorrer. Não adianta dizer: então você espeta! Acontece que o tudologista não faz, ele ensina, esse é seu papel no mundo.

O tudologista é um missionário de seu saber, um professor nato que brinda os outros com sua sapiência. O tudologista sabe que o caminho da boa pedagogia é a paciência, ele pode te repetir a explicação mil vezes, e se chegar uma nova pessoa no recinto ele recomeça do princípio. Os tudologistas não cansam, a verdade lhes dá uma energia infinita. Por isso um conselho: não contrarie um tudologista.

Fiz o churrasco enquanto ele explicava para as mulheres a alquimia da verdadeira maionese. Só escutava, ao longe, como os colóides são sensíveis ao ritmo do fouet e os riscos da acidez elevada dos óleos de oliva.

Mas existe uma generosidade extra do tudologista que se expressa na prática: por mais que a comida seja errada do começo ao fim, ele, com seu apetite, redime o cozinheiro das críticas.

Como forma de respeito, apesar do meu fracasso como assador e anfitrião, ele comeu muito. Também, dentro desse mesmo espírito construtivo e apoiador, bebeu bastante da cerveja. Embora já tivesse ressaltado que ela não harmonizava com essa carne, nem a com a temperatura do dia, nem estava na temperatura certa e que tampouco é correto tomá-la nessa estação. O estômago do tudologista abençoa nossos esforços e perdoa nossos erros. Em seu âmago, ele só deseja nosso bem.

O peso da morte

Um peso insuportável, mas dá-se jeito de carregar.

Eu sempre me senti afortunado por ter convivido com todos os meus avós e alguns bisavós. É bom saber de onde saímos e sentir-se um fio de um rio mais largo, perceber-se a somatória de sonhos, encontros, acertos e erros dos nossos antepassados.

A parte chata são as despedidas. Foram muitos enterros, chorei em muitos velórios, mas até perder meu avô paterno nunca tinha carregado um caixão. Herdei meu nome desse avô, acreditava por isso que nossa ligação era, de alguma forma, especial. Na hora de pegar na alça, dei uma curva no meu pai e cheguei primeiro. Escolhi a do meio, de tal forma que pudesse pegar com a mão direita.

Meu avô penou muito nos seus últimos dias e perdeu muito peso. Estava feito um passarinho quando se foi. Pensava que levá-lo seria fácil. Que nada, parecia um caixão ao avesso, alças de madeira e estrutura em bronze. Tirei de rio canoas alagadas mais leves do que aquilo. Ajudei a içar fusca atolado com menos dificuldade. Era mesmo meu avô, ou pegamos por equívoco o féretro de Buda?

Fora eu e meu primo Jones, do outro lado, também ao centro, os outros voluntários eram contemporâneos do falecido e a idade somada creio que ultrapassava a do Brasil. Um dos amigos saíra do hospital especialmente para ir prestar as honras. Ele estava na minha frente e, apesar de pensar que segurava a alça, na verdade a usava de bengala. Isso é o que eu enxergava, vá saber como era o resto da quadrilha.

Solene mas desengonçado, o cortejo me fazia sentir dentro de uma missão do exército Brancaleone. O pequeno trecho entre a capela onde era velado e a igreja de Dois Lajeados para missa de corpo presente parecia intransponível. Os cem metros viraram quilômetros. A escadaria da igreja foi o teste final. Já imaginava o vexame de rolar escada abaixo com o caixão, meu avô e seus amigos.

Foi uma missa tocante para todos e sinistra para mim. Não é fácil ouvir uma cerimônia em que se lembram as virtudes do finado Mário Corso. Quando levamos o nome do falecido, a cerimônia parece um ensaio para a nossa vez. Finda a missa, restava levar o ataúde ao cemitério.

Quando terminei a tarefa, exaurido, comentei com meu primo nossa empreitada e reclamei do peso. Ele estava tão exausto quanto eu. Um senhor de idade, que ouviu de soslaio a nossa conversa, se dirigiu a nós com a autoridade de quem já segurou muitas alças:

– Mas vocês não entendem nada mesmo. É sempre assim, é o peso da morte. Não existe caixão leve!

11/06/16 |
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Reengenharia emocional

A linguagem de negócios, adaptada às emoções e afetos, cria situações cômicas.

A crise chegou. É hora de enxugar despesas. Mas cortar onde? Hoje vamos citar uma fonte enorme de gastos: os amigos. A amizade é cara em termos de tempo e dinheiro. Todos temos amigos supérfluos, sempre dá para cortar alguns mantendo a mesma produtividade afetiva.

Imagine o que vai economizar com presentes de Natal, Páscoa, aniversários, casamentos, flores. Sem contar as saídas para chope, almoço, happy hour. Some a conta com o táxi, as gorjetas, e as roupas que somos obrigados a comprar para enfrentar a vida social. Enfim, amigos são certeza de despesa. Fazer um downsizing na cota de amigos é fundamental.

É um erro dizer que amigo é um capital, pois amigos não se podem vender e quanto mais camaradas, mais despesa. Amigos são na verdade um anticapital.

Vale mais privilegiar as redes sociais: por muitíssimo menos investimento temos muito mais amigos. Três emoticons grátis te resolvem um aniversário. Pense nisso.

Porém ainda não é hábito demitir os amigos. Mesmo que possamos oferecer boas cartas de referência, ou dar bons retornos dizendo que eles certamente acharão outras pessoas que saberão usar melhor sua expertise como amigos, o melhor é fazer com que voluntariamente eles se afastem.

Lembre-se: isso é uma medida altruísta pois eles também vão fazer uma boa economia. Você está apenas tomando uma atitude proativa para o saneamento da gestão doméstica de ambos. Medidas singelas podem ajudar nesse reescalonamento afetivo.

No caso da amizade ser com uma mulher é simples: diga que ela está gorda. Se ela perdeu peso diga que esse emagrecimento lhe envelheceu. Insista no tema e vai ser menos uma. Se tiveres dificuldade para falar, no próximo aniversário lhe dê uma roupa com um número bem maior. Te asseguro que é um gasto que não vai se repetir.

Com amigo homem é mais complexo. Sei de quem convidou vários para um churrasco e serviu só cerveja sem álcool. Conseguiu de um golpe se livrar de vários. E se ainda assim algum deles insistir, convide-o para jogar futebol na tua turma e deixe-o no banco até faltarem três minutos de jogo. Quando ele entrar diga: - vai lá e arrasa. Se ainda assim ele não entender, comece a lhe pedir o carro emprestado. Devolva com o tanque vazio e reclame muito de que droga de carro é esse.

Para os muito resilientes, de ambos os sexos, sempre se pode dizer: - como o teu (tua) ex tinha razão, você é mesmo teimoso(a). Na falta de ex: - tua mãe está muito certa no que ela diz de ti.

Na próxima semana dicas de cortando despesas na família. Será que o totó já não viveu o suficiente? Plano de saúde para o vovô se ele já está tão velho? Ainda vale fazer universidade? Estudar inglês agora que existe o google translate?

Mobbing

Retratamos a natureza à nossa (pior) imagem e semelhança.

Nas madrugadas insones assisto documentários sobre vida selvagem. Creio que seja herança da coleção Os Bichos da Editora Abril. Os programas me relançam na mesma magia que era receber os fascículos durante a infância, reavivam o entusiasmo com a diversidade da vida animal.

Passeio na savanas africanas, nos desertos da Mongólia, no gelo da Groelândia. Aprendo superficialmente sobre focas, mustelídeos, formigas carnívoras. Eu sei o que é um Ocapi, algo entre a zebra e a girafa, e você o conhece? Assisto pequenos dramas animais de sobrevivência, a briga dura pela comida da cada dia, o perigo que espreita em cada passo. Enfim, é coisa para corações fortes, destemidos.

Esses programas estão mais para romantismo naturalista do que para biologia. De qualquer forma, mesmo com toda essa plêiade de animais e seus comportamentos, é raro trazerem episódios de mobbing, tanto mais por que andando nos campos e nas nossas estradas gaúchas, é o que eu mais vejo. Já explico: trata-se de um termo da etologia, proveniente da ornitologia, por ser onde mais se verifica, mas que é usado para todos os animais. Diz-se de quando animais menores se unem para atacar animais maiores, geralmente seus predadores. Seres menos preparados para o embate, fazem valer seu número ou destreza para atacar, cercar, intimidar e afastar adversários mais fortes.

Aqui no sul é comum ver falconídeos serem bicados por pássaros que têm nem metade do seu tamanho. Qualquer vaqueano acostumado às lides do campo conhece esse mecanismo de sindicalismo animal. Nem precisa ser um gado nelore, mais tinhoso, mesmo as raças flor de mansas podem pregar peças em quem entra em seus domínios desavisado, a pé, ou sem um cachorro ativo. O gado encara e pode vir a cercar o invasor, especialmente se houver cria.

Mas voltando aos programas de TV, porque comportamentos de mobbing aparecem tão pouco? Geralmente vemos felinos caçar suas presas, águias capturando coelhos, o bote da cobra no sapo, e é claro, isso é a natureza, mas isso não é toda a natureza. A natureza é seca, selvagem, o encanto está só nos nossos olhos, mas nós a fazemos falar se editarmos as cenas. Creio que esses documentários dizem mais da nossa sociedade, onde o pequeno e o fraco não tem vez, do que da natureza em si.

Nos identificamos e fascinamos com os predadores porque assim procedemos com a natureza: somos o lobo do homem e do planeta. Assistimos aos programas para nos convencer e justificar que esse é o inevitável ciclo da vida e que não haveria escolha. Bom, se fosse para isso, não teria sido necessário descer das árvores, seguiríamos como macacos. Se fizemos uma civilização, certamente não foi para incensar os predadores, mas é o que mais temos visto.