Comportamento
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A alma Hooligan e o crepúsculo do macho

No torcedor fanático, resiste a imagem do macho tradicional.

Existe uma personagem oculta na Eurocopa 2012: a polícia. De uns anos para cá, ela tanto se sofisticou em prevenir os conflitos entre torcedores fanáticos que eles estão minimizados. Não foram os hooligans que perderam a força, é a repressão que os mantêm na linha. Quase todos os países europeus tem problemas com eles, mas foram trocando experiências e criando políticas coercitivas até que se chegou a um equilíbrio de controle.

O estado os combate, mas nunca entendeu seus motivos. Creio que tampouco a intelectualidade européia se debruçou o suficiente sobre eles para saber qual é a bússola que usam (se é que a tem), as razões da sua fúria besta, seu amor desmesurado por uma bandeira clubística e, ocasionalmente, por sua seleção. Afinal, quem são esses brigões da pequena causa? O que querem esses rebeldes de uma causa tão rebaixada? Por que jovens trabalhadores europeus, vários com empregos razoáveis, remuneração idem, preenchem sua vida com futebol, brigas e álcool? Por que essa violência gratuita e sem sentido os cativa?

A questão é complexa, multifacetada, mas creio que uma das chaves para entendê-los passa por pensar nos deslocamentos da identidade masculina do século XX. E, é claro, simetricamente, no novo papel da mulher. O mundo industrial já fez do trabalhador peça de uma engrenagem que o transcende. Há uma alienação básica, mas ao menos ele era homem, entre outras coisas, por que ia para rua trabalhar, cabia-lhe trazer o pão para casa. Ser homem estava ligado a esse lugar social e familiar, a mulher estava em casa nos seus afazeres domésticos e subordinada ao marido. Socialmente o homem tinha o papel principal, mesmo que algum indivíduo fosse sem valor, ele seguia superior à metade da humanidade. Por sorte, isso mudou drasticamente: a mulher conquistou um lugar no espaço público, saiu da tutela do homem e hoje ganha para seu sustento. Dentro do casamento, outrora berço da tirania masculina, ocorreu o mesmo, não existe mais a assimetria onde a mulher era submissa, não autorizada a pensar e ter opiniões. Enfim, o trabalho já não ajuda a definir o que é ser homem. Ganhar dinheiro tampouco, mandar na mulher também não, o que é ser homem então?

O século XX foi, infelizmente, pródigo em guerras. As guerras convocam o homem para um dos arquétipos da condição masculina, o guerreiro. A primeira e a segunda guerra, depois a guerra fria e as lutas anti-coloniais, apesar do cataclismo humano, forneciam um lenitivo para a identidade masculina. O varão seguia nesse ponto útil, indispensável, um peça valiosa da engrenagem bélica. A economia e os valores da modernidade esvaziavam a representação da figura clássica masculina, como provedor e mestre, mas a guerra lhe contrabalançava o prestígio como soldado. O que fazer agora que a Europa se pacificou?

Observamos no século passado o declínio de todas as formas de filiação, daquilo que nos faz pertencer a um grupo. Todas tornaram-se mais frágeis, elas já não amarram uma identificação como antes. Ser inglês, francês ou alemão numa Europa que usa a mesma moeda e tem fronteiras abertas já não define claramente alguém. A cultura de massas avançou sobre as culturas locais e tradicionais, dando vida a novas personagens de identificação para sonhar, a globalização da cultura dilui fronteiras, vários povos cultivam os mesmos heróis e vilões. Os ofícios tampouco lembram as antigas guildas e corporações, com seus códigos e costumes, além disso os homens trocam de profissão, e mesmo as diferenças entre os ofícios não são claras. O que vale é ter dinheiro e não como se o obtém. Poucas profissões ainda devolvem uma imagem que sirva como âncora identificatória.

Da parte das religiões o quadro não é diferente, o mundo desencantou, e o papel das crenças ficou secundário, pouco definidor, apenas funciona para os poucos que se tornam radicais em tentar fazer valer o mundo antigo da religiosidade perdida. Ser católico, anglicano, ou protestante tanto faz, talvez o judaísmo e o islamismo ainda costurem um sentido peculiar, que não se confunda com o establishment convencional. Os grandes partidos políticos também são uma sombra do que foram, especialmente no sentido de uma escolha política definir uma identidade que dê sentido a uma vida. Não existem mais brigas por causas, talvez a ecologia seja a exceção, mas essa é, ou deveria ser, de todos. Enfim, vivemos a falência das formas tradicionais de identificação, das ideologias e das filiações, portanto cada vez é mais difícil saber quem se é e a que grupo pertencemos.

O homem de hoje segue trabalhando, com mais exigências de desempenho, e sem as regalias antigas, ainda que ilusórias, de seu gênero. Vê a mulher seguir seus passos e muitas vezes o ultrapassar; não sabe como ser amado e admirado por elas, antes bastava ser homem, hoje ele não sabe o que elas querem. O homem está solto, avulso no plano das idéias. Sem nada em volta que lhe devolva uma imagem do que ele é como cidadão e tampouco uma consistência viril, outrora refúgio das certezas. Resta-lhe o futebol, a paixão por um time, a violência da rua, essa inequivocamente, um lugar de machos. O Hooligan é o homem que não conta com uma guerra, então a inventa; não tem mais uma nação, uma causa, porém achou um clube para incondicionalmente e irracionalmente amar. O totem clubístico vem no lugar do pai decaído, da nação diluída, o time é a única tribo que consegue amar. O time não lhe pede nada e lhe diz atrás de que cores ele poderá vibrar para se sentir parte de algo.

Outro fato intrigante dessa questão é que os valores do individualismo cruzaram o século em alta e a tendência é seguir nessa direção, por que então um comportamento de massa, onde o indivíduo se funde no anonimato, consegue adeptos tão entusiastas? Talvez o Hooligan seja também uma denúncia de mal-estar na individualidade, um protesto em ato. Ali alguém deixa de ser ele mesmo para pertencer a uma multidão, imerge no mar do não ser, aceita a vontade coletiva, quer estar num rebanho que economiza a reflexão.

O comportamento Hooligan é a subversão das demandas por ser em nome próprio, de carregar o peso de ser original e ímpar, é a vontade de ser massa e descansar a cabeça das exigências abstratas, intangíveis, que são colocadas ao homem de hoje. Os Hooligans são uma resposta fácil, barata, ingênua e bruta dirigida à esfinge que pergunta ao homem o que ele é. Ao invés de olhar para frente, ele olha para trás, junta os farrapos dos uniformes dos avós e faz uma bandeira anacrônica e sem sentido, que já não honra ninguém. Encena uma caricatura de soldado num simulacro de guerra. Só extrai sentido social nessa cruzada patética contra a polícia e contra outros, tão perdidos como ele. Bebe junto com a cerveja a última gota de uma imagem masculina que já não se sustenta. É a imagem do ocaso do macho tradicional.

Publicado no Caderno Cultura do jornal Zero Hora, em 01/07/2012

01/07/12 |
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A falta que faz um louco

Sobre a importância do jogador insano para um time de futebol

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A seleção de Dunga está cheia de bons jogadores, alguns craques como Kaká e Robinho, mas falta o louco.

O louco é a carta essencial do Tarô para o time brilhar. Não é um jogador comum, mas o imprevisível, que pode sair driblando cinco e fintar uma muralha com cisco de calcanhar.

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18/04/10 |
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A invasão zumbi

Zumbi, você ainda vai ser um… na melhor das hipóteses.

Uma dinastia pode estar chegando ao fim. Depois de reinar absoluta durante todo o século XX a primazia dos vampiros no uso da ficção de terror encontrou um adversário à altura: os zumbis chegaram. O começo foi tímido, na década de 30, quando nasceram no Haiti, e seguiram obscuros até os filmes de Romero nos anos 60, mas depois disso ganharam um impulso irresistível e crescem sem parar. Hoje o zumbi é o personagem mais usado para filmes, séries de terror e para imaginar cenários pós apocalípticos. Mas ele é muito mais do que isso, sua marca ganhou nossa imaginação: o zumbi está em games, quadrinhos, existem as “marchas zumbis” em inúmeras cidades, recentemente ganhou uma excelente revista digital: ZumbiGo! Acreditem, até comédia romântica com eles já temos (Meu namorado é um zumbi), ou seja, nenhum cenário de Halloween estará completo sem sua presença. De qualquer forma, a comparação com o vampiro não é sem interesse, afinal, sai um morto-vivo para entrar outro.

Os fanáticos por zumbis vão odiar que eu misture os passivos escravos que eles foram quando nasceram no Haiti, apenas mortos que voltavam à vida pela magia de um feiticeiro para serem usados como força de trabalho barata, aos misteriosos e organizados Caminhantes Brancos de Guerra dos Tronos. Mas estou mais interessado neste momento em suas semelhanças do que nas nuanças que os categorizam. Pois uma questão é comum, e é dessa que quero falar: eles estão mortos mas vivem, e isso partilham em comum com os vampiros.

A questão que devemos nos fazer é o que esses mortos-vivos dizem de nós? Se estão tão em voga, talvez sejam eco de recônditas questões que não nos atrevemos a pensar, e por isso elas abrem espaço na nossa consciência via fantasia.

A morte perdeu espaço na modernidade, sua antiga forma pública foi encerrada dentro de hospitais. Da mesma forma, falamos menos da finitude, e tememos o envelhecimento como crianças temem o bicho papão. Espichamos o tempo de vida, mas encolhemos a reflexão sobre a existência. Portamo-nos de forma ambígua: nos cuidamos para durar mais, mas não encaramos o fim como natural. Desprendida das antigas convenções tradicionais e sem acreditar numa transcendência, a modernidade nos confinou na hipertrofia do presente, por isso a reflexão sobre a morte não prospera. Porém somos, ainda que contra vontade, seres para a morte, a condição humana passa por isso. Se não houver reflexão sobre o tema, ele voltará para nós como sonho e pesadelo. Esses zumbis somos nós, em uma forma lúdica e rebaixada de filosofar sobre nosso destino.

O zumbi fala não só da morte como de sua fronteira: a temida velhice. Os zumbis também representam os velhos, sua incomoda lentidão, seus passos pesados, seus movimentos em câmera lenta. Se a morte nos aguarda, na melhor das hipóteses esse pesadelo vem junto com outro: ficar velho, com o corpo corrompido pelos anos. A contaminação é inevitável, todos seremos zumbis.

Qualquer plataforma mítica comporta múltiplos significados, justamente seu sucesso demostra essas camadas de possibilidades. O corpo decaído é a marca zumbi por excelência. Ora, nosso tempo nos pede um cuidado exaustivo com o corpo. Ele deve ser modelado, malhado, adequado a padrões exigentes. A forma zumbi expressa nosso cansaço com essa demanda de mimar um corpo que inevitavelmente vai decair. É como se disséssemos: vamos ser feios de uma vez, chega de privações e de trabalho forçado, essa casca de pele não vale o esforço exigido! Nesse sentido o corpo zumbi é a recusa do corpo disciplinado e diz que seguimos vivos se não o temos. O zumbi é  o protesto contra nossa vaidade excessiva e o culto a saúde.

Um fato difere categoricamente os vampiro dos zumbis: os primeiros são aristocratas e os segundos são plebeus. Certamente outro fato que o zumbi expressa é a massa. O vampiro está no topo da cadeia alimentar, literalmente se alimenta de todos e ninguém se alimenta dele. O fenômeno zumbi é a revolução francesa no território da ficção, a plebe angariando fatias de prestígio. Nossa ideologia prega a individualidade, devemos ser únicos, afinal, ser confundidos com a massa, ser ninguém, é o grande horror. O fenômeno zumbi sugere um cansaço também com essa ideologia individualista, nos aponta a luta inglória e sem sentido para despontar na multidão, como também a força dos excluídos. O mundo dos vampiros é para eleitos, o mundo zumbi é a verdadeira democracia, aceita a todos, todos seremos zumbis.

Porém a forma pejorativa de ser massa também se expressa no zumbi. Ele começou como escravo e ainda tem muito dele. Um ser sem vontade e sem cérebro, talvez por isso goste tanto de comê-lo, quem sabe ingerindo comece a ter algo dele. A civilização mecânica e burocrática, onde o pensar não tem vez e consumir é a meta, nos faz zumbis. Embora pareça na contramão de qualquer organização social, a toxicomania na sua forma mais acentuada nos deixa zumbis. Drogados são seres para os quais o mundo se esvaziou de sentido, afinal, só se interessam pelo seu objeto, sua substância mortífera. Ou alguém tem dúvida que as cracolândias não são habitadas por zumbis? O zumbi expressa tanto a obsessão nociva da droga como a anorexia do desejo, essa apatia tão comum, mas que corriqueiramente se confunde com depressão.

Zumbi rima com apocalipse, geralmente ele aparece em cenários distópicos. O mundo zumbi é inóspito. Mais por sorte do que por mérito, apenas uma família e amigos se salvam, o resto é inimigo. O olhar político nesses casos beira o simplório: nosso mundo não tem conserto nem esperança, só resta seguir vivendo numa pequena comunidade que se cuida e evitando todos os outros, já que o mundo é, de fato, muito perigoso.

Enfim, o zumbi chegou e terá uma longa vida pois possibilita expressar inúmeras ideias soltas e pensamentos que buscam uma forma. Nada nos mostra que caminhamos na direção de uma convivência mais pacífica e harmoniosa com a morte e com nosso corpo. O pensamento burocrático impera, a crença em objetos mágicos (químicos) que nos adormecerão a vontade também. O mundo nos aparece como mais perigoso e violento. O horizonte político não entusiasma. As condições são propícias para aparições zumbirescas e outras assombrações. E pior, se um zumbi não morder você, um dia teu próprio espelho o fará.

A maconha e o demônio

confrontando teses paranóicas de que um jornal só se posicionaria pela descriminalização por interesses comerciais.

Se você não acredita em meu Deus deve acreditar em meu demônio. Em síntese, essa é a lógica  binária e pueril que infelizmente domina hoje muitas discussões, negando que o mundo tem muitos outros tons.

Fiquei contente com a posição da Zero Hora sobre a maconha porque rompe com esse simplismo. Ela coloca-se como muitos clínicos que também enfrentam esse problema: não endossando o consumo, mas sendo favorável a liberação. O que queremos é tirar o problemas da sombra do delito para melhor enfrentá-lo. Sabemos dos perigos da legalização mas conhecemos muito bem os graves tormentos da ilegalidade.

A repressão nunca conseguiu diminuir o consumo da maconha e as ações educativas, num ambientes de proibição, tendem apenas envolvê-la numa bruma que exagera seu perigo e a torna atraente por ser pretensamente transgressiva. Acreditamos que jogar às claras e desmistifica-la é o melhor caminho.

Essa posição, que aliás é uma tendência mundial, parte de um fato simples: existe um contingente enorme de consumidores que não estão dispostos a abrir mão de seu hábito e agem com desdém aos conselhos dos profissionais de saúde. Resta-nos muda nossa abordagem para estar perto deles. Se quisermos nos aproximar desse contingente, a primeira coisa é sair da posição de verdade, da postura arrogante de quem se julga com o monopólio do saber sobre o que é bom para os outros. Essa clínica que só consegue apontar a abstinência como estratégia não funciona mais. Não podemos seguir infantilizando e subestimamos o consumidor. E mais, qualquer droga, quando afunda alguém, nunca é só ela. Ela apenas é um atalho para o pior, mas é um sofrimento, uma desesperança, uma tristeza uma depressão que realmente levam a isso.

O campo da clínica é duro porque é sempre perpassado por dúvidas, raramente somos taxativos. Mas quando vejo nossos colegas, adversários dessa posição de maior tolerância, ao invés de argumentos, sacar teorias conspiratórias, reduzindo o complexo problema das drogas à futuros lucros publicitários, disso tiro uma certeza: o que está em questão é o esgotamento teórico do paradigma repressivo.

(publicado em Zero Hora em 12/03/2015)

A outra história de Noé

Crescer é suportar a humanidade dos pais.

Noé salva o mundo outra vez, agora nas telas do cinema, no filme de Darren Aronofsky com Russell Crowe. Gosto desse herói, mas menos pela história do dilúvio e sim por uma trama secundária após a catástrofe.

Assim que as águas baixaram, Noé começou o esforço para reconstruir o mundo, as plantações inclusive e as videiras em particular. Ele não só plantava uva como produzia e bebia vinho. Certo dia, não sabemos se para comemorar ou para esquecer, tomou todas. Com sempre que se abusa, deu vexame. Tirou a roupa, fez discurso, essas coisas de bêbado.

Lembrem que Noé foi escolhido por Deus para salvar a humanidade por ser uma figura exemplar e incorruptível. E é aqui que começa a parte que nos interessa: apesar de herói era humano. As reações dos filhos frente à fraqueza do pai foram distintas. Enquanto Cam zombou de Noé e chamou os irmãos para verem o espetáculo de sua vergonha –ele estava nu – Sem e Jafé o cobriram, protegendo-o.

Os  mitos duram porque contam histórias atemporais, dramas que afligiram nossos antepassados e seguem nos fazendo questão. Nesse caso, o tema é como posicionar-se frente aos erros e fraquezas de nossos pais. Afinal, isso mais dia menos dia aparece e é uma grande provação para todos. Inevitavelmente nos defrontaremos com um momento em que nosso pai estará de alguma forma nu. Ele parecerá frágil ou vexado, errando ou administrando uma má decisão, sem força para os desafios que a vida não cessa de nos colocar.

Esse é o capítulo decisivo do fim da infância: como agir frente ao pai decaído. É um momento feito um dilúvio, quando as águas do tempo levam nossas ilusões, entre elas a de que nossos pais são mais sábios e mais retos que a maioria. Crescer é descobrir que eles são como todos, uma soma ímpar de virtudes e defeitos. Mesmo quando são grandes heróis não são deuses, e portanto, são falíveis.

Como no mito, existem duas reações possíveis. Podemos ser como Sem e Jafé que cobrem o pai, sendo naquele momento, o pai do pai. Estendendo a mão na hora certa, de forma que ele não se sinta humilhado pela ajuda. Mas também é possível agir como Cam, reclamar que ele não é mais grandioso como os pais são só na cabeça das crianças.

Insistir em apontar os erros dos pais é de certa forma seguir sendo filho, recusando-se a crescer e deparar-se com o pouco que somos. Crescer é entender a limitação que atinge a todos, é saber que a condição humana é falha, que um dia nós é que tropeçaremos. Crescer é sair da sombra cômoda e ilusória de um pai que seria sábio e protetor ontem, hoje e sempre. Crescer é prescindir dos pais, vê-los e aceitá-los como são, nem heróis nem anjos: humanos apenas.

23/04/14 |
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A pergunta errada

Texto a respeito do suicídio

Uma das razões para o silêncio em torno do tema do suicídio é por que tememos a pergunta radical que é colocada pelos que desistem: por que mesmo vale a pena viver? Agimos como se soubéssemos muita bem a resposta, mas engasgamos se nos perguntam isso a queima-roupa. Nunca houve uma resposta fácil, se assim fosse, as religiões não teriam ameaçado tanto os suicidas com o pior dos castigos quando chegassem no outro lado.

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26/05/08 |
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Ações do Forte Apache

O tesouro da infância só vale se passado adiante.

Eu entendo o Eike Batista, sei do seu sofrimento. Como ele, já fui muito rico e perdi propriedades. Era negócio de família, eu e meu irmão. Possuíamos um Forte Apache, uma tribo de uma nação indígena (Sioux), uma granja e uma pequena vila. Vocês não imaginam o que dava de trabalho para gerenciar essa gente toda. Tínhamos ainda um conflito étnico, a maioria dos índios era comprada e colorida, mas havia os que vinham de brinde nas embalagens de Toddy que eram monocromáticos. Houve problemas de aceitação, foi um desafio assimilá-los. Acrescente a isso o desequilíbrio nas proporções sexuais, praticamente uma mulher para cem homens. Gastávamos muita energia para deixar essa engrenagem social funcionando.

Éramos felizes, afortunados, mas não ricos. Um dia a sorte grande chegou. Um vizinho arranjou uma namorada e resolveu queimar as pontes com sua infância. Para nosso benefício fomos brindados com mais um Forte Apache e um novo contingente indígena (Navajo). Graças a nossa experiência administrativa conseguimos assentar os novos imigrantes sem aumentar o território. Nossos pais, insensíveis ao problema, não disponibilizaram um quarto extra.

Dois fortes e duas nações indígenas multiplicaram os arranjos bélicos. Foram muitos massacres, mas ao contrário da história, como em nosso quarto tentávamos equilibrar o mundo, os indígenas levavam a melhor e havia um acordo de poupar os cavalos. A reconstrução era trabalhosa, mas uma nova configuração política sempre rebrotava dos escombros.

O tempo passa e novas ocupações nos tiraram do foco dessa empreitada. Para o bem desse povo resolvemos passar o domínio a um primo. Inacreditavelmente, sozinho ele deu conta. Anos depois o conjunto retorna. Minha tia diligentemente guardou tudo e devolveu quando minhas filhas eram pequenas. Descobri, junto com as meninas, que o plástico tem vida curta. Soldados calejados que passaram por tudo agora perdiam a perna apenas montando a cavalo. Sem tiros de canhões os corpos se despedaçavam, nada parava em pé. Com tristeza despachamos para reciclagem, mas os soldados e os índios entenderam que a sua missão fora cumprida.

Conto a história com um propósito: façam uma limpeza em suas casas, desentoquem os velhos brinquedos. A missão de um brinquedo é ser destruído, ele só será feliz se for usado à exaustão, se uma criança lhe tirar o suco. Infeliz do brinquedo guardado intocados na caixa original. Lembre-se: pode estar ao seu alcance fazer uma criança ser milionária.

06/04/14 |
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Apressados

Se não sabes onde vais, por que teimas em correr?

Quando estou apressado lembro de um conselho de meu avô: “estás com pressa? Então faz devagar, pois só farás uma vez!” O conselho é bom, tentando ser rápidos atropelamos as maneiras corretas de proceder e o preço é refazer ou desgastar a experiência. Premidos pelo horário engolimos a comida. Como fica sem gosto, comemos em dobro. Correndo não vemos a paisagem nem o carrossel de pedestres. Afobados não escutamos os outros. Mesmo os ruídos internos são abafados, nos distanciamos até de nós mesmos. A pressa é angustia maquiada.

A marca da nossa época é a velocidade. A indústria revolucionou a maneira de fazer objetos e a forma de encarar o tempo. A ordem é: mais produção em menos tempo. O trem, o automóvel e o avião encurtaram o mundo e a internet o fez ainda mais próximo. Isso tudo é bem-vindo, mas é bom lembrar que esse é o modo de funcionar da máquina, não o nosso. Intimamente nada mudou, para pensar e sentir ainda somos os mesmos. Para aprender e assimilar os golpes da vida, o tempo cobra o mesmo preço. O mundo nos exige a velocidade da máquina, mas às vezes somos nós que nos espelhamos em nossa criação e queremos ser como ela: rápida, eficiente e sem sentimentos.

Existe um fado onde Amália Rodrigues canta: “se não sabes onde vais, porque teimas em correr.” A sutileza do verso capta outra dimensão da pressa: ela coloca sentido onde não há. Quem não sabe para onde vai, corre a modo de formatar o caminho. O apressado parece ocupado, sério, um trabalhador orgulhoso de sua missão. Nove entre dez vezes, é apenas um desorganizado, atabalhoado, querendo nos fazer crer o contrário. Mascara com velocidade o vazio de sua missão, quando não, dele mesmo.

O novo DSM-5, a bíblia da psiquiatra americana, recém saído do forno, estipula em duas semanas o prazo para avaliar a passagem do luto normal ao patológico. Veja só, uma vida inteira ao lado de alguém e ficar arrasados por mais de quinze dias nos deixa sob suspeita. A dor de perder os pais, um filho, um amigo, agora funciona na lógica da legislação trabalhista. Pelo jeito a pressa, contingência de nossa época, subproduto da ordem industrial de conceber o mundo, virou parâmetro de normalidade. Pessoalmente creio que nos pedem um coração de lata, só assim para se despedir tão rápido.

13/06/13 |
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As mãos e os pés

No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho.
No mundo do avesso do futebol, são os pés que mandam!

Quem quiser saber por que o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta terá que rebolar. Certamente a causa é multifatorial, mas arrisco uma teoria: o futebol é o reverso do mundo do trabalho. É o território do ócio, do esforço não produtivo, da competição brincalhona. No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho. Não dizemos: mão de obra, dar uma mão, botar a mão na graxa? A mão é produção e nobreza. É ela que escreve, opera máquinas e aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes, estão a serviço das artes das mãos.

No mundo do avesso são os pés que mandam, são eles que dançam, que jogam bola. No campo a mão não vale, não entra no jogo, a não ser a de Deus, como naquele dia em que, entre tantos dos seus nomes, Ele resolveu usar Diego. Pudessem tirá-la, os demais jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia à corrida. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante do futebol. Quem pode usá-las é o goleiro, mas ele é a exceção e é o masoquista do time. Ele é o mediador entre esses mundos, é o único que não pode correr pelo campo, está fixo como um trabalhador no seu setor. Brinca mas não tanto, está no pior lugar. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.

No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento eles são valorizados e podem mostrar sua força, sua pontaria, sua destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés nunca é treinada. Mão é cultura, pé é natureza. Poderíamos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia. Já no futebol, é a inteligência motora dos pés que vale. O pé, como parte mais baixa do corpo, está ligado à terra, e recebe seus encantos pela sua condição animal, sua força indomada. No campo os pés estão livres para chutar, para correr, driblar, mostrar ao mundo e às mãos seu valor.

As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, não basta trabalharem são elas que afagam, que selam pactos. São elas que deslizam pelo corpo do ser amado. Os pés querem sua parte, seu quinhão de importância, para isso ganharam os gramados de domingo.

A cabeça encontra razão motora apenas no futebol, na vida não damos cabeçadas. Usamos a cabeça para pensar a vida, mas ela fica quieta sobre os ombros e no máximo segura um chapéu e ganha um afago. Só no futebol ela pode ser animal e desferir um golpe fatal no inimigo. Com o futebol, e o uso lúdico dos pés e da cabeça, a democracia corporal se estabelece, o corpo se integra e vive a felicidade de um feriado com sol.

19/06/14 |
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Barbie: usos e abusos

Na Boneca Barbie brinca-se com a ilusão de que existiria um jeito certo de ser mulher.

Estima-se que a população de Barbies já chegaria a um bilhão. Perde apenas para a população da China e da India, e, com esse número, poderia pleitear um assento no conselho de segurança permanente da ONU. Esse grande número, e uma cultura, ainda que não profunda mas vasta, não intimidou Fernanda Roveri em sua incursão ao mundo da Barbie. Saiu recentemente seu livro Barbie na educação das meninas: do rosa ao choque. (Annablume editora, 2012). O trabalho é sobre a boneca, em primeiro plano, mas se abre para o questionar o sexismo radical dos brinquedos que estão em oferta para nossos pequenos.

A autora nos fornece um panorama da origem e evolução desse brinquedo, desde os impasses de sua criação, até as estratégias de venda que a tornaram a mais importante boneca já concebida. Na apreensão do problema a autora não se restringe aos efeitos culturais: vasculha dados sobre sua produção, a toxidade dos materiais, os chineses quase escravos que as fabricam, além das brigas nos tribunais, em inúmeras querelas jurídicas. Revela os bastidores da indústria de brinquedos, a qual nada têm nada da magia que seu produto final tenta encarnar. É a mesma estratégia agressiva dos outros setores, com seus golpes abaixo da cintura, mas que nos é vendida como ousadia, criatividade e competitividade. Depois do livro é difícil ver a Barbie com os mesmos olhos: com a lupa que o livro nos empresta, o brinquedo da Mattel ganha uma aura sinistra.

Quanto à alma do produto, pois os brinquedos nos chegam hoje acompanhados de um universo simbólico, como nos lembra a autora, mais que uma boneca, Barbie é um modelo de feminilidade. Porém trata-se de uma versão rebaixada, estereotipada, uma boneca do século XX com personalidade do século XIX. Ela não entende de matemática e gasta quase todo seu cérebro para vestir-se e adquirir acessórios. Bom, na verdade, seria extraordinário se não fosse assim, a Mattel não é uma escola nem tem finalidades educativas, apenas re-transmite os valores contemporâneos mais tradicionais.

Tendo a discordar do livro apenas em um ponto: quanto à maneira como concebe a transmissão dos valores sociais para as crianças, como se fosse sem mediação. Ou seja, como se um objeto falasse por si e a criança reproduzisse esse discurso ou o tomasse sem filtros. Na verdade, mesmo que esteja carregado de significados e mensagens, nenhum objeto em si tem tanto poder. As crianças têm muito a nos ensinar sobre a relação com os objetos, pelo menos aquelas que são saudáveis o suficiente para brincar no sentido pleno da palavra. Brincar é criar, é corromper o brinquedo ao sabor de sua imaginação. Somente crianças muito isoladas, com parcos recursos intelectuais, e ou com transtornos de saúde mental, tomam os brinquedos e mensagens culturais de forma direta.

Entre a criança e o brinquedo existem muitos mediadores e os pais são fundamentais nesse cálculo. As crianças não têm orçamento próprio, há sempre um adulto entre ela e seu brinquedo. Portanto, mesmo que o pedido venha do pequeno consumidor, a compra é um aval para que esse objeto faça parte da vida da criança. A pergunta que se impõe nesse caso é: como podemos dar tal boneca às nossas filhas? Será que desejamos que elas tenham horizontes tão estreitos? É uma aposta em sua futilidade? Revela nossa visão verdadeiramente retrógrada da condição feminina?

A resposta não é difícil: a boneca Barbie pode servir para estabelecer parâmetros externos sobre aparência das mulheres, portanto transmite valores estéticos, que servem para calar as inquietações dos pais a respeito da formação da identidade de gênero. Embora hoje os gêneros estejam entrelaçados como nunca, tanto no papel desempenhado no mundo, quanto na aparência, ainda nos sentimos muito inquietos relativo a isso. Existe um apego aos indícios que caracterizam um gênero ou outro, já que nos restam tão poucas certezas sobre a identidade que queremos, podemos e devemos ter. Parecer mulher ou homem é ainda um valor fácil de adquirir e ostentar. Os pais contemporâneos sentem-se inseguros de conseguir transmitir aos filhos o suficiente para que eles sejam “maravilhosos” e “vencedores”, tão perfeitos na realidade quanto na sua fantasia. Se os filhos se parecerem em gênero ao sexo em que nasceram, os pais se tranqüilizam, missão cumprida, pelo menos nesse quesito.

Os brinquedos marcadamente femininos ou masculinos (ou seja, a maioria deles) cumprem essa função de assegurar aos pais do destino “correto” de seus filhos. A tolerância às ambiguidades sexuais, quando ela existe, funciona com os filhos dos outros. Quanto aos próprios, só os extremos bem marcados são bem vindos, por isso os pais são cúmplices da industria de brinquedos. Pais que compram Barbie sabem o que fazem, e pagam, concordando ou não se importando, com o efeito colateral de uma identidade feminina superficial e vazia que acompanha o brinquedo. A Mattel trafica valores discutíveis, é uma indústria carente de qualquer de ética, concordo. Porém, o consumidor, assim como a criança, não é tão tolo: pagamos caro pela ilusão de uma certeza, a de que existiria um jeito certo de ser mulher.

Por sorte, as mulheres, com suas inúmeras revoltas e conquistas, apesar de brincarem com bonecas tão fúteis, estão cada vez menos Barbies.

Publicado na Revista Carta Fundamental – Edição de maio de 2012