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Jesus Cristo ressuscita e dá entrevista exclusiva

se Jesus Cristo pudesse opinar sobre a atualidade…

Rolo Compressor: Obrigado pela entrevista por mail, sabemos de sua agenda ocupadíssima.
Jesus: Imagina!

Rolo Compressor: Muito cansado por ressuscitar?
Jesus: Na verdade já peguei prática, todo ano é a mesma coisa. Vamos ver se o pessoal da produção pensa algo diferente para o ano que vem.

Rolo Compressor: O senhor confirma os boatos sobre o fim do mundo.
Jesus: Não sabemos como essa informação vazou. De certa forma isso é pensado faz um bom tempo. Modéstia a parte eu é que seguro a barra de vocês. O Véio faz tempo que tá P da cara com vocês.

Rolo Compressor: Algum motivo especial?
Jesus: Todos, vocês não se emendam…  Nelson Rodrigues que tinha razão, “a humanidade não deu certo”.

Rolo Compressor: Não tem nada que a gente faça que ele goste?
Jesus: Até tem, mas na matemática, nos números, vocês dão prejuízo para a Glória de Deus.

Rolo Compressor: Podemos ter esperança?
Jesus: Quem sabe, nessa última copa Ele se divertiu bastante.

Rolo Compressor: Deus assiste futebol?
Jesus: Ele não gosta que se fale, mas não perde copa, Eurocopa, Libertadores, campeonato espanhol, o italiano. Mas quando está chateado até serie B do Irã ele assiste. Nesse sábado eu estressado com a função de Páscoa e ele vendo Corinthians e Oeste. Dá para acreditar?

Rolo Compressor: Mas ele assiste outras coisas? Noticiário?
Jesus: Que nada, só futebol. Olimpíadas ele só assiste a abertura e o encerramento. Ele dorme vendo esporte individual. Insônia ele resolve com tênis. Antes do primeiro set e ele já está roncando. E noticiário é bobagem, ele é onisciente, lembra?

Rolo Compressor: Mas as grandes coisas? A paz na terra? A degradação do planeta? Quando Deus se ocupa disso?
Jesus: Sim, mas isso é trabalho e o Veio faz isso rapidinho. Ele tem prática e hoje está tudo computadorizado. O futebol, nem sei bem por que, é o que ele mais gosta do que vocês fazem. Claro que ele gosta de arte, mas é ele inspira e vocês só fazem, então é meio sacal, é só conferir se fizeram direitinho. Programa sobre a natureza idem, é só para lembrar, as vezes ele diz: putz, tinha me esquecido dessa samambaia! Deveria ter caprichado mais no camelo. Mas não chega a se empolgar.

Rolo Compressor: Será que Deus não acabou o mundo por causa do futebol?
Jesus: Eu não falei isso, vocês que tão dizendo. Eu disse que ele gosta, acha divertido, passa o tempo.

Rolo Compressor: Ele torce? Como poderíamos dizer, Ele inclina os resultados para seus favoritos?
Jesus: Muito raro. Deus ama a todos por igual e Ele tem uma reputação, já o Diabo…

Rolo Compressor: O Diabo o que mesmo?
Jesus: O Diabo compra almas com resultados e olha que tem muita gente que vende. Sabe como é, bebe e depois quando chega aqui esqueceu e acha que nós esquecemos. Que nada, vai para o quinto dos infernos. O que Deus as vezes faz, isso eu já vi, é mandar um gol contra quem perde muito gol. Sabe aquilo de quem não faz leva, isso é o dedo Dele. Mas vamos combinar, para quem leva o peso do universo nas costas, não vamos condena-Lo por uma bobagenzinha dessas. Não é mesmo?

Rolo Compressor: Obrigado pela entrevista.
Jesus: Obrigado digo eu, e manda um recado aí para a galera: diz que eu não volto! Nem quero lembrar o que passei. Daqui para frente, o apocalipse e seus quatro cavaleiros, é tudo com Ele.

27/04/11 |
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A alma Hooligan e o crepúsculo do macho

No torcedor fanático, resiste a imagem do macho tradicional.

Existe uma personagem oculta na Eurocopa 2012: a polícia. De uns anos para cá, ela tanto se sofisticou em prevenir os conflitos entre torcedores fanáticos que eles estão minimizados. Não foram os hooligans que perderam a força, é a repressão que os mantêm na linha. Quase todos os países europeus tem problemas com eles, mas foram trocando experiências e criando políticas coercitivas até que se chegou a um equilíbrio de controle.

O estado os combate, mas nunca entendeu seus motivos. Creio que tampouco a intelectualidade européia se debruçou o suficiente sobre eles para saber qual é a bússola que usam (se é que a tem), as razões da sua fúria besta, seu amor desmesurado por uma bandeira clubística e, ocasionalmente, por sua seleção. Afinal, quem são esses brigões da pequena causa? O que querem esses rebeldes de uma causa tão rebaixada? Por que jovens trabalhadores europeus, vários com empregos razoáveis, remuneração idem, preenchem sua vida com futebol, brigas e álcool? Por que essa violência gratuita e sem sentido os cativa?

A questão é complexa, multifacetada, mas creio que uma das chaves para entendê-los passa por pensar nos deslocamentos da identidade masculina do século XX. E, é claro, simetricamente, no novo papel da mulher. O mundo industrial já fez do trabalhador peça de uma engrenagem que o transcende. Há uma alienação básica, mas ao menos ele era homem, entre outras coisas, por que ia para rua trabalhar, cabia-lhe trazer o pão para casa. Ser homem estava ligado a esse lugar social e familiar, a mulher estava em casa nos seus afazeres domésticos e subordinada ao marido. Socialmente o homem tinha o papel principal, mesmo que algum indivíduo fosse sem valor, ele seguia superior à metade da humanidade. Por sorte, isso mudou drasticamente: a mulher conquistou um lugar no espaço público, saiu da tutela do homem e hoje ganha para seu sustento. Dentro do casamento, outrora berço da tirania masculina, ocorreu o mesmo, não existe mais a assimetria onde a mulher era submissa, não autorizada a pensar e ter opiniões. Enfim, o trabalho já não ajuda a definir o que é ser homem. Ganhar dinheiro tampouco, mandar na mulher também não, o que é ser homem então?

O século XX foi, infelizmente, pródigo em guerras. As guerras convocam o homem para um dos arquétipos da condição masculina, o guerreiro. A primeira e a segunda guerra, depois a guerra fria e as lutas anti-coloniais, apesar do cataclismo humano, forneciam um lenitivo para a identidade masculina. O varão seguia nesse ponto útil, indispensável, um peça valiosa da engrenagem bélica. A economia e os valores da modernidade esvaziavam a representação da figura clássica masculina, como provedor e mestre, mas a guerra lhe contrabalançava o prestígio como soldado. O que fazer agora que a Europa se pacificou?

Observamos no século passado o declínio de todas as formas de filiação, daquilo que nos faz pertencer a um grupo. Todas tornaram-se mais frágeis, elas já não amarram uma identificação como antes. Ser inglês, francês ou alemão numa Europa que usa a mesma moeda e tem fronteiras abertas já não define claramente alguém. A cultura de massas avançou sobre as culturas locais e tradicionais, dando vida a novas personagens de identificação para sonhar, a globalização da cultura dilui fronteiras, vários povos cultivam os mesmos heróis e vilões. Os ofícios tampouco lembram as antigas guildas e corporações, com seus códigos e costumes, além disso os homens trocam de profissão, e mesmo as diferenças entre os ofícios não são claras. O que vale é ter dinheiro e não como se o obtém. Poucas profissões ainda devolvem uma imagem que sirva como âncora identificatória.

Da parte das religiões o quadro não é diferente, o mundo desencantou, e o papel das crenças ficou secundário, pouco definidor, apenas funciona para os poucos que se tornam radicais em tentar fazer valer o mundo antigo da religiosidade perdida. Ser católico, anglicano, ou protestante tanto faz, talvez o judaísmo e o islamismo ainda costurem um sentido peculiar, que não se confunda com o establishment convencional. Os grandes partidos políticos também são uma sombra do que foram, especialmente no sentido de uma escolha política definir uma identidade que dê sentido a uma vida. Não existem mais brigas por causas, talvez a ecologia seja a exceção, mas essa é, ou deveria ser, de todos. Enfim, vivemos a falência das formas tradicionais de identificação, das ideologias e das filiações, portanto cada vez é mais difícil saber quem se é e a que grupo pertencemos.

O homem de hoje segue trabalhando, com mais exigências de desempenho, e sem as regalias antigas, ainda que ilusórias, de seu gênero. Vê a mulher seguir seus passos e muitas vezes o ultrapassar; não sabe como ser amado e admirado por elas, antes bastava ser homem, hoje ele não sabe o que elas querem. O homem está solto, avulso no plano das idéias. Sem nada em volta que lhe devolva uma imagem do que ele é como cidadão e tampouco uma consistência viril, outrora refúgio das certezas. Resta-lhe o futebol, a paixão por um time, a violência da rua, essa inequivocamente, um lugar de machos. O Hooligan é o homem que não conta com uma guerra, então a inventa; não tem mais uma nação, uma causa, porém achou um clube para incondicionalmente e irracionalmente amar. O totem clubístico vem no lugar do pai decaído, da nação diluída, o time é a única tribo que consegue amar. O time não lhe pede nada e lhe diz atrás de que cores ele poderá vibrar para se sentir parte de algo.

Outro fato intrigante dessa questão é que os valores do individualismo cruzaram o século em alta e a tendência é seguir nessa direção, por que então um comportamento de massa, onde o indivíduo se funde no anonimato, consegue adeptos tão entusiastas? Talvez o Hooligan seja também uma denúncia de mal-estar na individualidade, um protesto em ato. Ali alguém deixa de ser ele mesmo para pertencer a uma multidão, imerge no mar do não ser, aceita a vontade coletiva, quer estar num rebanho que economiza a reflexão.

O comportamento Hooligan é a subversão das demandas por ser em nome próprio, de carregar o peso de ser original e ímpar, é a vontade de ser massa e descansar a cabeça das exigências abstratas, intangíveis, que são colocadas ao homem de hoje. Os Hooligans são uma resposta fácil, barata, ingênua e bruta dirigida à esfinge que pergunta ao homem o que ele é. Ao invés de olhar para frente, ele olha para trás, junta os farrapos dos uniformes dos avós e faz uma bandeira anacrônica e sem sentido, que já não honra ninguém. Encena uma caricatura de soldado num simulacro de guerra. Só extrai sentido social nessa cruzada patética contra a polícia e contra outros, tão perdidos como ele. Bebe junto com a cerveja a última gota de uma imagem masculina que já não se sustenta. É a imagem do ocaso do macho tradicional.

Publicado no Caderno Cultura do jornal Zero Hora, em 01/07/2012

01/07/12 |
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A bombacha e o kilt

No mundo moderno o mito adquiriu uma forma de congelar a história para não pensar. Portanto, o mito do gaudério nos distancia de nós mesmos.

A história não poderia ser mais triste. No distante século XIII, o príncipe Llywelyn sai de casa e deixa seu filho pequeno sozinho. Por sorte seu cachorro Gelert cuida da casa. Voltando não encontra o filho. Apavorado observa que o cachorro está com a boca, o focinho e o pelo empapados de sangue. Num impulso de raiva mato o cão assassino. Pouco depois encontra o filho que estava escondido e, a seguir, um lobo morto. Desolado se dá conta que entendeu tudo ao avesso. Matou o fiel cão que salvara a vida de seu filho. Cheio de remorsos, enterrou com honras o cão para reparar seu erro. Quem visita o condado de Caernarvon no País de Gales ainda pode ver o marco funerário.

A história é boa, nos ensina a pensar sempre com calma, não se deixar levar pelas aparências. O único problema dessa história é que, com pequenas variações, é conhecida por

vários povos do mundo todo, e claro, sempre contada como verdadeira, com local e personagens definidos. Essa coincidência nos coloca uma pulga sobre a autenticidade do relato. De fato, a placa existe, mas a história é mito. A lápide foi feita por um hoteleiro proprietário do Royal Goat Hotel em Beddgelert e dizem que a lenda (adaptada) também seria de sua autoria. Os turistas adoraram a história que ganhou até um poema famoso onde se conta o incidente. Esse fato diz muito de nós, sempre tendemos a acreditar mais nos mitos, que são mais ricos, mais sábios, mais elevados, do que na triste e pálida história. Entre o mito e a histórias tendemos a preferimos o mito.

Creio que qualquer pessoa medianamente informada já sabe que ontem, dia 20 de setembro, a data gaúcha por excelência, celebramos um mito que inventamos para nosso deleite. Saudamos uma revolução que não foi revolução, cantamos uma vitória que foi uma derrota (forçando muito, um empate em casa), e assim por diante. Criamos uma mitologia gaudéria com elementos díspares, geralmente com pouco contato com a realidade vivida. Mas qual seria o problema? Afinal, tantos povos fazem isso, o folclore é sempre uma criação a posteriori que edita para melhor nas nossas mazelas históricas.

E existem micos maiores, Eric Hobsbawm no seu livro A Invenção da Tradição demostra, com exaustiva pesquisa histórica, que o Kilt, o saiote escocês que é o símbolo da identidade escocesa, nunca fora usado antes de ser “descoberto” como o traje típico. Toda aquela arenga de cada tecido (tartan) lembrando um clã é pura farofa. Portanto, o que perderíamos cultivando a nossa pequena pátria imaginária, que pelo menos usa bombacha para tapar as pernas? Há quem vá mais longe nesse argumento do mal menor, ou do fato inofensivo, quando lembra do imaginário caipira atual do interior de São Paulo. Lá se copia o pior dos cowboy texanos. Logo, dizem, poderíamos estar pior, tendo que aturar rodeio com chapéu de vaqueiro americano. Isso sim seria o fim da picada.

Portanto, mito por mito, melhor contar com algo feito em casa, certo? O problema é que a questão é um pouco mais complexa. Não vivemos sem um relato histórico, tanto que se não o temos, inventamos. Precisamos de origem, de pais fundadores, de raízes que não nos deixem soltos no rio da história. Aqui entra o gaúcho, como nosso ancestral primitivo, simples, franco, rude, mas leal e honrado.

Na sociedade tradicional o mito era o horizonte do pensamento. Mais do que uma coleção de histórias, como hoje nos chega, o mito era uma forma de interpretar o mundo, portanto uma forma de pensar e de processar informações. No mundo moderno o mito adquiriu a função oposta: ele é uma forma de congelar a história para não pensar. Portanto, o mito do gaudério nos distancia de nós mesmos. Impede que possamos ver o nosso passado diferente das formas fixas que os tradicionalistas elegeram.

Se o mito fosse só para dias festivos não haveria problema algum. Assim é o Carnaval e o20 de setembro tem algo dele, mas aqui com a fantasia única e regrada. Não uso Carnaval como metáfora, mas como conceito mesmo: como um tempo em que se suspende o presente para que se possa viver uma fantasia, e que se dilua, ao longo de seus festejos, a hierarquia social. No Carnaval cada um vive seu personagem e adquire o valor que imagina que tem ou que gostaria de ter. Um tempo de exceção para sonhar em voz alta e esquecer a estreita e pálida realidade.

O problema, no nosso caso, é que nossa fantasia de origem gaudéria se desborda para o ano inteiro. O que seria uma festa, um mito fundador, torna-se ideologia. Usamos o mito para criar auto-estima, mas também para pensar os fatos que se nos apresentam hoje. Mas fica a questão: como uma fantasia pastoril do século XX, idealizando o XIX, pode nos fornecer chaves para entender a complexidade do XXI? Tentamos, mas o fato de usar bombacha e idealizar nosso passado não nos poupa dos dilemas do nosso tempo. A aceleração da história nos coloca desafios constantes, o novo nos invade e pede que o decifremos para não sermos engolidos. Não temos opção de não viver nossa época. Todos esses movimentos de criação de identidades regionais fazem parte duma tentativa de barrar a globalização, de se defender do novo. São reafirmações do local frente ao global, e do passado frente ao presente.

A questão não é abrir as portas do Rio Grande ao que vem de fora de modo a perder a identidade regional. Penso o contrário: em como fazermos nossa própria versão de modo a responder ao que a ocasião nos pede. Nesse sentido, a ideologia gaudéria não soma, na verdade nos deixa mais frágeis. Como todo mito, ideologia ou religião, seu aparato conceitual faz uma leitura simplória do mundo. Oferece boas soluções para um mundo que já desapareceu e não ajuda a enxergar melhor o presente multifacetado que é o nosso verdadeiro desafio.

O gaúcho pilchado e a cavalo faz uma figura elegante, o pala o protege do minuano, mas não dos ventos inclementes da história atual. Essa ideologia não nos ajuda, serve apenas como barreira imaginária ao que vem de fora, e nos fornece apenas armas ilusórias para uma batalha real, que é fazer desse estado um lugar realmente melhor.

A cena primária do psicanalista

Hipótese sobre se existiria uma cena primária que predisporia alguém a ser um analista

O que faz alguém querer ser psicanalista? Essa sempre foi uma pergunta difícil, e certamente sem uma resposta padrão, provavelmente teríamos que tomar a questão de forma individual, um a um. Mas uma pergunta que poderíamos nos colocar é: existiria algum fator especial que predisporia alguém, além duma neurose tenaz é claro, a ser psicanalista?

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18/03/05 |
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A criança na via pública

Sobre meninos de rua, viver na rua

Uma abordagem do discurso sobre os meninos de rua e seus reflexos em quem a eles se dedica
 

 

O conhecimento que tenho desses meninos não difere do comum, ou seja, na medida em que topamos com eles na rua, em cada semáforo, em cada esquina. Mas ouvi-los, infelizmente muito pouco. No entanto eles tem posto tantos a falar, que é essa fala que me interessa neste trabalho, e a quem se ocupa de falar deles que prioritariamente me endereço.

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30/04/94 |
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A falta que faz um louco

Sobre a importância do jogador insano para um time de futebol

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A seleção de Dunga está cheia de bons jogadores, alguns craques como Kaká e Robinho, mas falta o louco.

O louco é a carta essencial do Tarô para o time brilhar. Não é um jogador comum, mas o imprevisível, que pode sair driblando cinco e fintar uma muralha com cisco de calcanhar.

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18/04/10 |
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A força das palavras de um pai

Resenha do livro O Conto do Amor de Contardo Calligaris

Contardo Calligaris estréia na ficção: lançou, pela Companhia das Letras, O Conto do Amor (128 páginas, R$34,00). Já estamos acostumados aos seus artigos semanais na Folha, onde consegue, em tão exíguo espaço, a proeza de fazer um pequeno ensaio. De qualquer assunto, sempre extrai um novo sentido, nos surpreende com uma ou duas voltas a mais no raciocínio que já temos.    

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24/05/08 |
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A invasão zumbi

Zumbi, você ainda vai ser um… na melhor das hipóteses.

Uma dinastia pode estar chegando ao fim. Depois de reinar absoluta durante todo o século XX a primazia dos vampiros no uso da ficção de terror encontrou um adversário à altura: os zumbis chegaram. O começo foi tímido, na década de 30, quando nasceram no Haiti, e seguiram obscuros até os filmes de Romero nos anos 60, mas depois disso ganharam um impulso irresistível e crescem sem parar. Hoje o zumbi é o personagem mais usado para filmes, séries de terror e para imaginar cenários pós apocalípticos. Mas ele é muito mais do que isso, sua marca ganhou nossa imaginação: o zumbi está em games, quadrinhos, existem as “marchas zumbis” em inúmeras cidades, recentemente ganhou uma excelente revista digital: ZumbiGo! Acreditem, até comédia romântica com eles já temos (Meu namorado é um zumbi), ou seja, nenhum cenário de Halloween estará completo sem sua presença. De qualquer forma, a comparação com o vampiro não é sem interesse, afinal, sai um morto-vivo para entrar outro.

Os fanáticos por zumbis vão odiar que eu misture os passivos escravos que eles foram quando nasceram no Haiti, apenas mortos que voltavam à vida pela magia de um feiticeiro para serem usados como força de trabalho barata, aos misteriosos e organizados Caminhantes Brancos de Guerra dos Tronos. Mas estou mais interessado neste momento em suas semelhanças do que nas nuanças que os categorizam. Pois uma questão é comum, e é dessa que quero falar: eles estão mortos mas vivem, e isso partilham em comum com os vampiros.

A questão que devemos nos fazer é o que esses mortos-vivos dizem de nós? Se estão tão em voga, talvez sejam eco de recônditas questões que não nos atrevemos a pensar, e por isso elas abrem espaço na nossa consciência via fantasia.

A morte perdeu espaço na modernidade, sua antiga forma pública foi encerrada dentro de hospitais. Da mesma forma, falamos menos da finitude, e tememos o envelhecimento como crianças temem o bicho papão. Espichamos o tempo de vida, mas encolhemos a reflexão sobre a existência. Portamo-nos de forma ambígua: nos cuidamos para durar mais, mas não encaramos o fim como natural. Desprendida das antigas convenções tradicionais e sem acreditar numa transcendência, a modernidade nos confinou na hipertrofia do presente, por isso a reflexão sobre a morte não prospera. Porém somos, ainda que contra vontade, seres para a morte, a condição humana passa por isso. Se não houver reflexão sobre o tema, ele voltará para nós como sonho e pesadelo. Esses zumbis somos nós, em uma forma lúdica e rebaixada de filosofar sobre nosso destino.

O zumbi fala não só da morte como de sua fronteira: a temida velhice. Os zumbis também representam os velhos, sua incomoda lentidão, seus passos pesados, seus movimentos em câmera lenta. Se a morte nos aguarda, na melhor das hipóteses esse pesadelo vem junto com outro: ficar velho, com o corpo corrompido pelos anos. A contaminação é inevitável, todos seremos zumbis.

Qualquer plataforma mítica comporta múltiplos significados, justamente seu sucesso demostra essas camadas de possibilidades. O corpo decaído é a marca zumbi por excelência. Ora, nosso tempo nos pede um cuidado exaustivo com o corpo. Ele deve ser modelado, malhado, adequado a padrões exigentes. A forma zumbi expressa nosso cansaço com essa demanda de mimar um corpo que inevitavelmente vai decair. É como se disséssemos: vamos ser feios de uma vez, chega de privações e de trabalho forçado, essa casca de pele não vale o esforço exigido! Nesse sentido o corpo zumbi é a recusa do corpo disciplinado e diz que seguimos vivos se não o temos. O zumbi é  o protesto contra nossa vaidade excessiva e o culto a saúde.

Um fato difere categoricamente os vampiro dos zumbis: os primeiros são aristocratas e os segundos são plebeus. Certamente outro fato que o zumbi expressa é a massa. O vampiro está no topo da cadeia alimentar, literalmente se alimenta de todos e ninguém se alimenta dele. O fenômeno zumbi é a revolução francesa no território da ficção, a plebe angariando fatias de prestígio. Nossa ideologia prega a individualidade, devemos ser únicos, afinal, ser confundidos com a massa, ser ninguém, é o grande horror. O fenômeno zumbi sugere um cansaço também com essa ideologia individualista, nos aponta a luta inglória e sem sentido para despontar na multidão, como também a força dos excluídos. O mundo dos vampiros é para eleitos, o mundo zumbi é a verdadeira democracia, aceita a todos, todos seremos zumbis.

Porém a forma pejorativa de ser massa também se expressa no zumbi. Ele começou como escravo e ainda tem muito dele. Um ser sem vontade e sem cérebro, talvez por isso goste tanto de comê-lo, quem sabe ingerindo comece a ter algo dele. A civilização mecânica e burocrática, onde o pensar não tem vez e consumir é a meta, nos faz zumbis. Embora pareça na contramão de qualquer organização social, a toxicomania na sua forma mais acentuada nos deixa zumbis. Drogados são seres para os quais o mundo se esvaziou de sentido, afinal, só se interessam pelo seu objeto, sua substância mortífera. Ou alguém tem dúvida que as cracolândias não são habitadas por zumbis? O zumbi expressa tanto a obsessão nociva da droga como a anorexia do desejo, essa apatia tão comum, mas que corriqueiramente se confunde com depressão.

Zumbi rima com apocalipse, geralmente ele aparece em cenários distópicos. O mundo zumbi é inóspito. Mais por sorte do que por mérito, apenas uma família e amigos se salvam, o resto é inimigo. O olhar político nesses casos beira o simplório: nosso mundo não tem conserto nem esperança, só resta seguir vivendo numa pequena comunidade que se cuida e evitando todos os outros, já que o mundo é, de fato, muito perigoso.

Enfim, o zumbi chegou e terá uma longa vida pois possibilita expressar inúmeras ideias soltas e pensamentos que buscam uma forma. Nada nos mostra que caminhamos na direção de uma convivência mais pacífica e harmoniosa com a morte e com nosso corpo. O pensamento burocrático impera, a crença em objetos mágicos (químicos) que nos adormecerão a vontade também. O mundo nos aparece como mais perigoso e violento. O horizonte político não entusiasma. As condições são propícias para aparições zumbirescas e outras assombrações. E pior, se um zumbi não morder você, um dia teu próprio espelho o fará.

A maconha e o demônio

confrontando teses paranóicas de que um jornal só se posicionaria pela descriminalização por interesses comerciais.

Se você não acredita em meu Deus deve acreditar em meu demônio. Em síntese, essa é a lógica  binária e pueril que infelizmente domina hoje muitas discussões, negando que o mundo tem muitos outros tons.

Fiquei contente com a posição da Zero Hora sobre a maconha porque rompe com esse simplismo. Ela coloca-se como muitos clínicos que também enfrentam esse problema: não endossando o consumo, mas sendo favorável a liberação. O que queremos é tirar o problemas da sombra do delito para melhor enfrentá-lo. Sabemos dos perigos da legalização mas conhecemos muito bem os graves tormentos da ilegalidade.

A repressão nunca conseguiu diminuir o consumo da maconha e as ações educativas, num ambientes de proibição, tendem apenas envolvê-la numa bruma que exagera seu perigo e a torna atraente por ser pretensamente transgressiva. Acreditamos que jogar às claras e desmistifica-la é o melhor caminho.

Essa posição, que aliás é uma tendência mundial, parte de um fato simples: existe um contingente enorme de consumidores que não estão dispostos a abrir mão de seu hábito e agem com desdém aos conselhos dos profissionais de saúde. Resta-nos muda nossa abordagem para estar perto deles. Se quisermos nos aproximar desse contingente, a primeira coisa é sair da posição de verdade, da postura arrogante de quem se julga com o monopólio do saber sobre o que é bom para os outros. Essa clínica que só consegue apontar a abstinência como estratégia não funciona mais. Não podemos seguir infantilizando e subestimamos o consumidor. E mais, qualquer droga, quando afunda alguém, nunca é só ela. Ela apenas é um atalho para o pior, mas é um sofrimento, uma desesperança, uma tristeza uma depressão que realmente levam a isso.

O campo da clínica é duro porque é sempre perpassado por dúvidas, raramente somos taxativos. Mas quando vejo nossos colegas, adversários dessa posição de maior tolerância, ao invés de argumentos, sacar teorias conspiratórias, reduzindo o complexo problema das drogas à futuros lucros publicitários, disso tiro uma certeza: o que está em questão é o esgotamento teórico do paradigma repressivo.

(publicado em Zero Hora em 12/03/2015)

A outra história de Noé

Crescer é suportar a humanidade dos pais.

Noé salva o mundo outra vez, agora nas telas do cinema, no filme de Darren Aronofsky com Russell Crowe. Gosto desse herói, mas menos pela história do dilúvio e sim por uma trama secundária após a catástrofe.

Assim que as águas baixaram, Noé começou o esforço para reconstruir o mundo, as plantações inclusive e as videiras em particular. Ele não só plantava uva como produzia e bebia vinho. Certo dia, não sabemos se para comemorar ou para esquecer, tomou todas. Com sempre que se abusa, deu vexame. Tirou a roupa, fez discurso, essas coisas de bêbado.

Lembrem que Noé foi escolhido por Deus para salvar a humanidade por ser uma figura exemplar e incorruptível. E é aqui que começa a parte que nos interessa: apesar de herói era humano. As reações dos filhos frente à fraqueza do pai foram distintas. Enquanto Cam zombou de Noé e chamou os irmãos para verem o espetáculo de sua vergonha –ele estava nu – Sem e Jafé o cobriram, protegendo-o.

Os  mitos duram porque contam histórias atemporais, dramas que afligiram nossos antepassados e seguem nos fazendo questão. Nesse caso, o tema é como posicionar-se frente aos erros e fraquezas de nossos pais. Afinal, isso mais dia menos dia aparece e é uma grande provação para todos. Inevitavelmente nos defrontaremos com um momento em que nosso pai estará de alguma forma nu. Ele parecerá frágil ou vexado, errando ou administrando uma má decisão, sem força para os desafios que a vida não cessa de nos colocar.

Esse é o capítulo decisivo do fim da infância: como agir frente ao pai decaído. É um momento feito um dilúvio, quando as águas do tempo levam nossas ilusões, entre elas a de que nossos pais são mais sábios e mais retos que a maioria. Crescer é descobrir que eles são como todos, uma soma ímpar de virtudes e defeitos. Mesmo quando são grandes heróis não são deuses, e portanto, são falíveis.

Como no mito, existem duas reações possíveis. Podemos ser como Sem e Jafé que cobrem o pai, sendo naquele momento, o pai do pai. Estendendo a mão na hora certa, de forma que ele não se sinta humilhado pela ajuda. Mas também é possível agir como Cam, reclamar que ele não é mais grandioso como os pais são só na cabeça das crianças.

Insistir em apontar os erros dos pais é de certa forma seguir sendo filho, recusando-se a crescer e deparar-se com o pouco que somos. Crescer é entender a limitação que atinge a todos, é saber que a condição humana é falha, que um dia nós é que tropeçaremos. Crescer é sair da sombra cômoda e ilusória de um pai que seria sábio e protetor ontem, hoje e sempre. Crescer é prescindir dos pais, vê-los e aceitá-los como são, nem heróis nem anjos: humanos apenas.

23/04/14 |
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