Apostas

Até que ponto podemos apostar em algo, num projeto que não vinga, numa escolha amorosa equivocada?

Quem entende de matemática (o que não me inclui) costuma dizer que ganhar na loteria é tão improvável que os sorteios só sobrevivem graças à ignorância dela. Bom, esse é o caso da maioria das religiões: rebeldes à comprovação, os fiéis insistem em acreditar no impossível. A visita a uma agência lotérica é um ato profano de fé, tanto que costumamos dizer que estamos “fazendo uma fezinha”, rezamos por uma vitória da esperança sobre a realidade. Aliás, se o otimismo dependesse dos fatos estaria extinto.

Por uns quarenta dos seus oitenta anos de vida, minha avó apostou no mesmo número de loteria, comprava o bilhete junto com um parente mais jovem. Quando ela se foi, ele seguiu com esse hábito até seus últimos dias. Confrontado com a decisão de parar ou continuar com o que já era uma birra paterna, seu filho, mesmo amedrontado, parou de comprar o número. O temor que os movia era que no mesmo dia em que resolvessem abandoná-lo ele sairia, como se existisse uma memória vingativa entre uma rodada e outra de apostas. Não sei se afinal o endemoniado prêmio saiu para esse número, tenho receio de investigar.

Temos esse hábito em relação a apostas menos lúdicas e levianas do que um bilhete de loteria. Quantas vezes nos pegamos insistindo num relacionamento fracassado, num negócio falido, numa escolha equivocada? Esses investimentos amorosos ignoram os dados da realidade, apegam-se às mínimas amostras de que vale a pena persistir. Eles se baseiam no mesmo temor da minha avó, de que outro, menos “merecedor”, ganhe a aposta. Junto de outro par aquela pessoa de quem já não estamos gostando pode se revelar exatamente o que queríamos que ela fosse. Tememos que se embeleze, torne-se mais romântica, responsável, bem sucedida, sensível, corajosa, criativa. Alheia aos nossos investimentos, ela prosperará assim que deixarmos de apostar. O mesmo vale para negócios e outras escolhas infelizes. Então o erro não estava no amado, no negócio, no projeto, o erro éramos nós?

Nesse caso, insistir no erro não é somente burrice, é uma espécie de aposta delirante no nosso desejo. É difícil acreditar que o destino, essa entidade que governa o acaso, seja tão rebelde à nossa vontade. Afinal, esse não era o segredo – como dizem algumas fórmulas de auto-ajuda – querer muito e persistentemente?

A admiração que sentimos por aqueles que levaram seus desejos às últimas consequências é coerente. Os perseverantes revelam que não basta querer, é preciso trabalhar em prol do que se almeja. Por outro lado, a obstinação supersticiosa em acreditar na supremacia da nossa vontade sobre o destino é aprisionante. Muitas vezes o segredo está em desistir, escolher outro número na vida no qual apostar. Esse ato em geral requer muita coragem e o mais difícil: a sinceridade consigo mesmo de admitir que também fazemos escolhas erradas, e que nossa vontade pode não fazer a mínima diferença.

(publicado na Revista Vida Simples de junho 2015)

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