Adultos vorazes
sobre o livro-filme “Jogos Vorazes”e o interesse dos jovens pelo tema do totalitarismo
Crianças, no futuro toda essa selva será sua! Não parece atraente, mas é o patrimônio que temos a oferecer aos jovens. O lado de fora do lar é sempre a perigosa floresta, já alertavam os contos de fadas. A vida social é uma arena e os jovens são como gladiadores, cuja vida e prestígio pedem um sacrifício à sociedade do espetáculo. Esses elementos encontraram uma ótima síntese em “Jogos Vorazes”, primeiro volume da trilogia juvenil de Suzanne Collins (Ed. Rocco), agora no cinema. O livro re-atualiza o mito do Minotauro, colocando jovens a serem entregues à morte, como tributos. Desta vez, são sacrificados a outro tipo de monstro: a voracidade do público de um Reality Show.
Na maior parte do Ocidente vivemos num clima democrático e escarnecemos das primitivas ditaduras remanescentes. É fato, mas os jovens e suas fantasias prediletas insistem no tema do totalitarismo: os magos perversos de Tolkien, os Comensais da Morte de Harry Potter, a repressão em V de Vingança, entre tantos outros. Aqui isso se repete, por que será?
Nessa série, em um mundo distópico, um poder central, situado na “Capital”, submete 12 distritos à miséria e controle absolutos. Uma rebelião ocorrida no passado é lembrada anualmente com uma punição exemplar: cada um dos distritos deve oferecer dois jovens (um casal) todo ano para disputar uma luta terminal, que ocorre numa floresta, da qual somente um dos 24 pode sair vivo. Claro, câmeras espalhadas mostram a carnificina em detalhes. Um deles, Katniss, a personagem principal, vai construir sua trajetória heróica em confronto com o poder da Capital. Ela já era uma caçadora clandestina, independente, mas responsável. Nos jogos, torna-se guerreira.
Os jovens cultivam essas histórias porque não se deixam enganar pela paz aparente. A luta por poder e prestígio, a fogueira das vaidades, segue fazendo vítimas. Não há lugar no mundo para todos e nessa dança das cadeiras sobram muitos de pé, eliminados. Mesmo sem guerras para mandá-los, das quais voltarão vitoriosos ou mortos, eles continuam sendo selecionados. Por isso crescem armados, desconfiados e preparados para a vida na selva. Hoje como ontem, não lhes perdoamos o viço que os mais velhos já perdemos, a necessidade que eles têm de revolta, a independência que precisa nos derrubar. Como pais, exigimos tributos pelo que lhes demos, reverência às nossas conquistas e crenças. No fundo, adultos sempre serão totalitários, crescer sempre será uma guerra e o mundo uma selva. Nossa parentalidade culposa, gagejante e omissa não os engana. O adulto é o lobo do jovem.
Filhos da máquina de sonhos
Sobre o filme “A invenção de Hugo Cabret” e a herança enquanto um enigma.
Por que na ficção os mestres se expressam por enigmas? Quando Harry Potter está com a vida a prêmio, o prof. Dumbledore em vez de dizer o que ele tem que fazer, lança uma charada que deve ser decifrada em meio às correrias. Mas por que não ajudar os meninos, não vê o velho mestre que a situação está preta?
Só que o enigma é o encanto da aventura! Decifrar a frase misteriosa faz com que eles cresçam com a missão. Tornados detetives acabam entendendo no que estão metidos e seu papel na trama. Do contrário, seriam como soldados no front, a quem cabem estreitos heroísmos. Hoje não admiramos a alienação, a obediência; o engajamento deve ser ativo, original, inteligente.
Cada um de nós é, de certa forma, portador de um enigma. Afinal, não teríamos vindo ao mundo à toa. Carecemos imaginar uma sofisticada engrenagem da qual supomos ser peça imprescindível. Esse é o raciocínio do menino Hugo, protagonista do filme “A invenção de Hugo Cabret” de Scorsese. Somos parte de um mecanismo, pensa ele, cada um tem utilidade peculiar. Cabe-nos desvendar o mistério de seu funcionamento, consertar seus estragos.
Ele é aprendiz de relojoeiro, trabalhava com o pai nesse ofício até a morte trágica deste. Ambos dedicavam-se ao conserto de uma espécie de boneco robot, que havia sido encontrado abandonado. Hugo, que já havia perdido a mãe, torna-se órfão e é levado por um tio imprestável a habitar os corredores internos, as entranhas, da estação de trem, onde fazia a manutenção dos relógios. Abandonado ali, vivia clandestino, tendo por companhia apenas o boneco estragado. Se descoberto, seria colocado num orfanato, mas preservava sua liberdade para viver consagrado à tarefa de completar a obra do pai. Estava convicto de que esse boneco, ao funcionar, revelaria alguma mensagem paterna, dando um sentido à perda e à sua vida. Enquanto esgueira-se e realiza pequenos roubos, principalmente das peças necessárias para refazer o robô, seu destino se cruza com o de um velho senhor que se torna parte da charada.
A descoberta final de Hugo é surpreendente: mais que fatos, verdades, há sonhos que são sempre enigmáticos. A herança que recebemos é composta das fantasias dos que nos precederam. Crescer é terminar e recriar o boneco que os pais sonharam. Apesar do valor que nossos ancestrais possam ter provado, seu maior legado foram seus devaneios. Por isso o filme é uma homenagem aos fundadores do cinema, aos artistas, trabalhadores da fantasia. Somos, afinal, uma engrenagem da incansável máquina de sonhos dos homens. Espero que imprescindível.
Camaleões
Sobre o “A pele que habito”, de Almodovar. O amante, o cirurgião e quão longe podemos ir ao nos transformarmos pelo olhar daqueles que nos amam.
Minha tia ligou. É uma mulher sensível, gosta de cinema e sabe o que sente. Ela me pedia algo muito simples: posso matar o Almodovar? Ponderei que não valia a pena, afinal, ele nos deu tanto. Ela estava inconformada, saíra do filme “A pele que habito” muito inquieta. Não é que o filme seja ruim, dizia, é que “ele não tinha direito de fazer aquilo conosco”. Aplaquei sua ira com um argumento baixo, nem sei se verdadeiro: graças a ele temos Antonio Banderas. Ela amoleceu.
O filme de Almodovar trabalha na vertente persuasiva do horror, parte de premissas absurdas, inaceitáveis e as faz parecer viáveis. É a magia do cinema, mas a literatura consegue o mesmo com menos orçamento, pois o combustível do encantamento é nossa empatia, fonte dos melhores efeitos especiais. Nesta obra, um cirugião plástico transforma alguém em uma criatura construída à imagem de suas obsessões. Ele aprisiona e intervém nesse ser tornando-o outra coisa, seu belo monstro. É possível que alguém torne-se algo tão diferente do que seria normalmente só porque outro quis assim? É muito mais comum do que parece.
Os pais, amigos e parentes assistem a isso rotineiramente. Eis que alguém com quem sempre convivemos se apaixona e fica irreconhecível. Por força desse amor, vai se modificando de tal forma que sua identidade mais se parece com a fantasia que compartilha com seu atual parceiro. Se for um amor construtivo isso ocorre suavemente, nos parece natural e não produz grandes resistências.
Mas o chocante nisso é nossa suscetibilidade, a maleabilidade da imagem e da identidade, como se não tivéssemos uma essência. Entregues, em breve não conseguiremos mais diferenciar o que éramos daquilo que nos tornamos por amor. Encarnamos as fantasias daqueles que amamos com assustadora facilidade. Tão plásticos e influenciáveis, quem somos afinal?
Minha tia tem razão, Almodovar não precisava ter sido tão duro, isso dói. A pele que habitamos é um órgão sensível, uma superfície modificável pelo amor. Vai tomando a forma dos seus olhos. É assim que ocorre com todos os filhos, que se constituem inspirados pelo afeto e desejos de seus pais, por isso os filhos adotivos se assemelham aos pais não biológicos. Esse fenômeno segue vida afora e a cirugia plástica, com seus poderes de transformação, algum dia acabaria herdando a sina desse feitiço e desse horror. O bisturi é o instrumento mágico que representa o fato e a fantasia de que nos transformamos pelo olhar dos outros. Se um artista é aquele que melhor desvela as fantasias, só podemos por isso agradecer ao Almodovar. Além do Banderas.
Memórias de um tempo não tão distante
sobre o seriado “Mad men”e os costumes da época (anos sessenta)
Quando eu era pequena, há menos de meio século atrás, o chão era o melhor lugar para o lixo, fumava-se em qualquer ambiente, inclusive hospitais, aviões e o quarto das crianças. Negros e brancos vivam em mundos distintos, gays habitavam o armário e as mulheres, quando tomavam algumas liberdades eram chamadas de prostitutas. Caçador era herói, tinha-se armas em casa, poluição era decorrência natural do progresso. Sexo antes do casamento até acontecia, mas a união estável era destino certo. Não lembro de muitas mulheres sozinhas, fora as viúvas. Ecologia era um delírio de poucas vozes excêntricas.
Na minha adolescência, década de 70, apesar das conquistas da revolução de costumes, não lembro de gays assumidos no colégio. Apesar de ter estudado sempre escolas públicas, raramente tive colegas negros. Na faculdade isso tudo melhorou um pouco, mas ainda estávamos longe das liberdades e da tolerância com as diferenças que hoje começam a ser consideradas itens não opcionais.
Lembro quando comentavam que alguém era tão idoso “que viveu no tempo da escravidão”. Pois é, começo a me sentir tão idosa que venho do tempo da discriminação desavergonhada, de uma cultura de depredadores do planeta.
Tudo isso ficou muito claro ao assistir ao seriado Mad Man, (que arrasou no Emmy deste ano) no qual ando viciada. O que me mesmeriza na série vai além da dramaturgia e elenco, é a reconstituição histórica, retrato cruel da época em que cresci, essa que descrevo acima. A história centra-se no cotidiano de uma agência de publicidade em Nova York nos anos de ascensão de Kennedy, da guerra fria. Na vida das personagens, os homens mais velhos traziam memórias da Guerra Mundial e da Coréia (Vietnã estava a caminho), a prosperidade não escondia a barbárie e as mulheres viviam a realidade descrita por Betty Friedan em A Mística Feminina. Apesar da psicologia e a psicanálise já terem alguma popularidade, as crianças nunca eram escutadas.
O “Dever da Memória” costuma estar associado a heróis e vítimas de tempos difíceis. Inclui desde os necessários tributos aos que souberam se posicionar com coragem, até o julgamento dos que foram indignos, criminosos. Mas os tempos duros não se restringem a guerras, ditaduras e extermínio. A vida privada também deve ser lembrada, pois na intimidade igualmente se produzem injustiças, discriminações e infortúnios e nesse sentido o passado quase sempre nos condena. É bom lembrar das conquistas, mas também do que não nos orgulha, e contar tudo isso aos mais jovens é uma tarefa que nunca deverá ter fim.
A vaca, dez anos depois
Sobre o filme “Um conto chinês”e os dez anos do 11/09.
Coisas impossíveis acontecem: na China uma vaca caiu do céu sobre um barco. Isso não é fantasia, foi um fato. Assim como quando, há dez anos atrás, dois aviões de passageiros se estraçalharam sobre as torres gêmeas, destruindo um ícone da confiança do império americano.
Eu estava no consultório, na mensagem da secretária eletrônica meu marido avisava que caso alguém me contasse tal estapafúrdia notícia, não pensasse em internar o relator por insanidade: ocorrera, de fato, um atentado terrorista, macabro espetáculo filmado em tempo real. A vaca voadora e o desastre americano eram igualmente improváveis. O imprevisível nos deixa inquietos. É sobre essa base que se estrutura o delicado filme argentino “Um conto chinês”. Em espanhol, a expressão “cuento chino” define a lorota, história improvável, embuste. Serve também para descrever essas situações absurdas nas quais alguém morre quando estava tão vivo, tão seguro, nas quais tendemos a dizer: “não pode ser”.
Roberto, o dono da loja de ferragens, personagem do filme argentino vivido por Ricardo Darin, levava uma vida previsível, obsessivamente estruturada. Mas seu lazer apontava para o avesso: colecionava notícias de jornal com eventos que provavam a força do imprevisível, principalmente em seu aspecto trágico. Histórias como a da vaca que caiu do céu eram sua fonte de fantasia. Na vida real cultivava certezas, dormia sempre à mesma hora, comia o mesmo cardápio, visitava o túmulo dos pais aos domingos, seus cenários e personagens mudavam o mínimo possível. Até que irrompeu em sua vida um chinês perdido, vítima de um assalto, que não falava uma palavra de espanhol, do qual se compadeceu. A jornada do personagem do filme é na direção da vitalidade: desafiado pela presença em sua casa do estrangeiro desamparado vai perdendo a rigidez. Paro por aqui para não estragar o prazer da história.
Para quem perdeu um ser querido é muito difícil acreditar que aquela pessoa simplesmente sumiu. Tantas coisas que se diria, ou mesmo se silenciaria num pacto de conivência mútua, ficarão para sempre suspensas. A morte sempre vem incompreensível, incontrolável como uma vaca ou uma torre que caem e não existe defesa. É impossível fugir da catástrofe final: evitar vínculos, apostas, antecipar fracassos, só amortece a aventura de viver. Essa conduta não deixa de ser outra forma de morte, pois quem tanto tenta controlar o destino acaba minimizando a própria existência.
Também faz dez anos que escrevo neste espaço (Jornal Zero Hora, Segundo Caderno), inaugurado com uma reflexão sobre o pânico do atentado. Sobrevivemos, veja só.
Tempo sem glamour
sobre “Meia noite em Paris” e nostalgia
O tempo presente é o primo pobre da nossa imaginação. Com os olhos voltados para o futuro esperamos dele curas, invenções, prazeres, liberdades e outras maravilhas. Viver muito, testemunhar e aproveitar ao máximo o que virá, é o nosso lema. Os jovens encarnam o espírito de nosso tempo como ninguém, a vida adulta está associada à mediocridade e a velhice nos apavora. Mas há um tipo de passado que ainda reverenciamos: é a crença de que os grandes homens pereceram outrora, quando revoluções, guerras e diásporas desacomodavam a humanidade. Idealizamos os tempos de vida dura dos nossos antepassados. Frente a eles colocamo-nos como descendentes indignos, fracos, sem protagonismo, amolecidos pelas comodidades e pela paz. Resta-nos o sentimento de não ser autênticos, de nada ter de genuíno ou empolgante para relatar.
Septuagenário, Woody Allen está acertando as contas com alguns dos seus antepassados artísticos, hoje ícones culturais. Seu ultimo filme, “Meia noite em Paris”, é similar à “Rosa Púrpura do Cairo”, no sentido de uma passagem mágica a uma fantasia do protagonista. Gil, o alter ego de Allen da vez, é um americano, escritor de roteiros comerciais, fascinado pela cidade luz. Está em visita à capital francesa com uma noiva fútil, mas afasta-se dela em busca de inspiração artística e acaba encontrando-a em surpreendentes visitas a um passado fantástico. Noite após noite, ele embarca numa viagem mágica aos anos 20, quando uma legião de artistas estrangeiros, como Hemingway, Picasso, Cole Porter, Buñuel, Dali, Gertrude Stein, Zelda e Scott Fitzgerald, entre outros, exilaram-se em Paris para beber, amar e criar. Para Gil o presente é um tempo errado, no qual nada acontece, nem se produz algo memorável.
Convivendo e discutindo com esses autores-personagens, no momento em que suas obras nasciam, descobre que o gênio não se sabe tal enquanto cria. Até para eles o presente era trivial, enredado em amores, ambições e conflitos e só o tempo dirá o que se tornará perene. Nas viagens mágicas, Gil reconhece que no presente deles, seus heróis tampouco sabiam que sua obra e época valiam a pena, por isso sai delas capaz de legitimar seus sonhos. O filme revela nossa necessidade de buscar patriarcas, antepassados a quem possamos atribuir a filiação dos nossos empreendimentos. Para isso servem histórias de um passado idealizado, as Eras de Ouro. Fantasias são portais onde entramos para encontrar nossos desejos e segredos. Com ou sem elas, Woody Allen, acha que com certa sabedoria é possível aceitar a própria realidade e ainda achar graça disso.
Mães de pequenas misses
sobre a relação mãe-filha, revelada em seu excesso nos programas sobre concursos de beleza infantil
Semana passada, nos Estados Unidos, uma mãe perdeu a guarda da filha por ter declarado num programa de televisão que fazia aplicações de Botox na sua pequena de 8 anos, visando suprimir rugas (sic). Como se vê, a paranóia do envelhecimento exige ações cada vez mais precoces! O objetivo da senhora era tornar a menina competitiva em concursos de beleza infantis. Esse tipo de mulher protagoniza um popular programa de tevê a cabo “Pequenas misses” (Discovery Home&Health), um reality show que acompanha a trajetória obstinada de mães para transformar crianças em versões da Barbie, com maquiagem pesada, penteados improváveis, manicure e até depilação.
As entrevistadas quase sempre são mães obesas, que apresentam visíveis sinais de abandono pessoal. Elas organizam sua vida em torno dos tais certames, onde suas bonecas de corda as representam, pequenos avatares, marionetes a serviço da frustração materna. É fácil indignar-se e ficar contente com a merecida punição de uma delas, pois é explícita no programa a monstruosidade dessas destruidoras de infância. Partilho desses sentimentos. Porém, em sua coluna da Folha de São Paulo, corajosamente Rosely Sayão se pergunta: “será que os pais do programa são muito diferentes daqueles que enchem a agenda dos filhos com aulas de todos os tipos? Dos que procuram definir o futuro dos filhos do modo como eles arquitetam?”. É diferente, conclui, mas sabemos que é evocativo.
A seu modo, essas senhoras cujo próprio corpo abandonou a cena, são abusadoras. Possuem com suas fantasias o corpo das filhas como um pedófilo que goza em preencher com seus desejos sexuais o vazio da criança que ainda desconhece os dela. Em ambos casos temos o adulto reinando absoluto, e a infância transformada em objeto passivo.
Mas por que esse circo de horrores tem audiência garantida? Horroriza e fascina essa cena de submissão infantil porque de algum modo nos identificamos com seus protagonistas. Na verdade sabemos que é inevitável na criação de um filho que os pais acabem projetando sobre ele seus desejos e frustrações. Não há nada anormal nisso, ele precisa confrontar-se com essas forças, mas apenas enquanto os parâmetros que usará para construir seus próprios ideais. Assistimos aliviados, pois nos salvamos dessa! Frente a essas mães totalitárias a nossa é um exemplo de democracia! Mas também nos hipnotiza, pois quem não desejou tornar-se a encarnação das fantasias da mamãe? Assim teríamos a garantia do seu amor? A mãe da pequena miss representa nossos piores pesadelos e inadmissíveis desejos.
É sempre virtual
Sobre o filme Mary & Max
Durante a adolescência, invejava os amigos que mantinham correspondência regular com alguma pessoa em outra parte do mundo, com a qual geralmente nunca se encontravam, e ainda em inglês ou francês, muito chique. Apesar do amigo por correspondência ser um hábito antigo, quando começou a grande onda da internet havia muita inquietude, por parte dos não usuários, relativa aos diálogos virtuais com objetivo de amor, amizade e divertimento. Continue lendo…
O Profeta
Crítica do filme
O Profeta, filme dirigido por Jacques Audiard, é uma produção francesa, da história de Malik, um rapaz de origem árabe, que amadurece dentro de uma cadeia, sendo que passa boa parte do tempo ligado à máfia da córsega. Filme falado em três línguas, transcorrido entre as grades quase todo o tempo, violento, com gente nada bonita, sujo e…belo. A fotografia é imperdível, grandes planos de rosto, como nos filmes de Van Sant. Filme confuso, onde se mistura o objetivo com o subjetivo de forma muito sutil, e tocante. Mas o importante mesmo é que é um romance de formação: o garoto entra no lugar como órfão, parece ser um transgressor renitente, apesar de que não ficamos sabendo muito bem o que ele fez, nem isso tem importância.
Ao longo de seus anos de cadeia vai aprendendo, é adotado e escorraçado por um líder corso, obrigam-no a matar, encontra quem o incentive a estudar. Entra menino e sai homem, construído a partir de uma colcha de retalhos de experiências e identificações, feito de atos ousados, de rompimentos, de escolhas. No final, de um modo muito enviesado é ao mesmo tempo árabe, mafioso, instruído. É possível isso?
Afinal, o sistema carcerário e as más companhias não fabricam somente indivíduos
toscos, assassinos, psicopatas, gente que só pensa em rapinar e satisfazer-se? Como é fácil pensar assim, ficamos nós aqui e eles lá e o mundo devidamente compartimentado. Mas não é o caso, no presídio, como na vida, a formação de um indivíduo é complexa e pode levar a muitos destinos. Entre os psicopatas que moram nas cadeias, os garotos que crescem em reformatórios, como Malik, há um trabalho de fazer-se a si mesmo onde se colhe experiências, planta-se atos e das conseqüências disso resultam indivíduos diferentes, de destino imprevisível e subjetividade complexa.
Talvez essa seja uma importante lição para que possamos aprender a lidar com a população carcerária, foco de gastos públicos, desprezo e temor coletivos e símbolo da desesperança. Cada uma daquelas pessoas tem uma trajetória de vida e faz com ela o que consegue, compreende-la e coloca-la em questão deve ser um complemento necessário da reclusão. Por que alguém seguiu, se aliou ou identificou com determinadas pessoas? Na resposta a essas perguntas está a história de uma vida, de Malik e de tantos outros com os quais não queremos nos encontrar numa esquina escura.
Publicado no blog “Terra do Nunca” em 31 de julho de 2010
O homem visível
Sobre imagem
O homem visível está no cartaz, ele é bidimensional. Dias atrás, passando por uma vitrine de perfumes, vi o cartaz de um homem visível: lindo, másculo, jovem, enigmático. Perguntei às pessoas que estavam comigo de qual filme era aquele ator, ninguém lembrou. Quando estávamos nos afastando, uma voz forte respondeu: – “É do Homem Aranha”. Levamos um pequeno susto, não tínhamos notado mais ninguém. Foi então que vimos um segurança parado ao lado da vitrine. Ele ria para nós e de nós, notou que nos assustamos. Era o Homem Invisível, um herói anônimo, fortemente paramentado para nos proteger caso necessário. É pena, mas o Homem Aranha está tão ocupado com sua carreira artística que já não aparece para nos salvar, nem ao menos nos leva para voar no seu cipó aracnídeo. Continue lendo…

Diana Lichtenstein Corso é Psicanalista Membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formada em psicologia pela UFRGS, trabalhou com crianças e no campo dos problemas de desenvolvimento infantil junto ao Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e em várias outras instituições. Atualmente atende jovens e adultos. É colunista desde 2001 do Segundo Caderno, suplemento cultural do jornal Zero Hora, da Revista Vida Simples, além de participações em várias antologias e revistas. Publicou o livro Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010, ambos pela Ed. Artmed, escritos em parceria com seu marido Mário Corso. 



