Cinema e TV
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Criados no cativeiro

Há algo de podre no reino das famílias “normais”….

Todos sabemos que as aparências escondem muita coisa, mas tendemos a alinhar os que são convencionais com o que é certo e os desviantes com o errado. É difícil acreditar que entre os pais de família heterossexuais e religiosos, entre os esportistas saudáveis e populares, entre bons estudantes, maridos e esposas monogâmicos, funcionários e professores esforçados, boas donas de casa, gente trabalhadora e dita normal, pode haver algo de perverso, demoníaco e assustador.

O clã é um filme argentino, dirigido por Pablo Trapero, que nos confronta com esse paradoxo das aparências. Conta a história real de uma família de classe média, cinco filhos entre os quais um prestigiado jogador de rúgbi. Eles têm uma vida trivial, os mais jovens fazem temas e a mãe, professora, reúne a prole à mesa do jantar onde conversam agradavelmente. São donos de uma rotisseria, pequeno negócio de bairro, atendido pessoalmente pela família. Os pais são zelosos, o cotidiano é de uma família amorosa.

O detalhe é que Arquimedes Puccio, o pai, é um psicopata de livro. Ele trabalhava no serviço de inteligência durante a ditadura, o que na época equivalia à prática impune de sequestros e assassinatos. Com a chegada dos primeiros ventos da democracia, ficou ocioso de seu ofício de executor dos negócios escusos do governo. Foi quando ocorreu a Puccio começar a praticar sequestros, assassinatos e extorsões em benefício próprio e não teve pruridos em fazer disso um negócio familiar.

Eles eram acima de qualquer suspeita: a participação ativa dos filhos homens mais velhos, a conivência da esposa e das filhas, e a imagem respeitável permitiu que o clã dos Puccio mantivesse as vítimas em cativeiro na própria residência. Entre os companheiros de esporte do filho havia vários jovens abastados, assim como gente bem situada das relações de Arquimedes, que não aparentava nenhum constrangimento em sequestrá-los e matá-los. Aliás, a lógica perversa desse homem é aplicada tanto em relação às vítimas, quanto a seus filhos, a quem via como parte essencial de seus planos. A vida e a morte, os destinos alheios não fazem questão para um psicopata, todos estão a serviço de seus propósitos. Seus planos são fins para os quais os outros seres humanos não passam de meios, mesmo que sejam seus filhos.

Preste atenção: Arquimedes Puccio era um pai dedicado, envolvente, lógico. Foi difícil desobedecer suas determinações travestidas de amor. Além disso esse chefe de família psicopata foi, por muitos anos, legitimado pelo estado. As ditaduras funcionam com a mesma lógica perversa, por isso ele custou a acreditar que seria punido e essa prepotência foi o fim dos Puccio. Como se vê, quem tem uma lógica perversa na vida pública, não deixará de aplicá-la na intimidade. O público é também privado.

Quero uma penseira

A esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Prezado Papai Noel:

Provavelmente não mereço, mas queria pedir um presente, ou melhor, um presentão. Não fui boa menina: pratiquei poucos exercícios, estudei pouco, comi muito, encontrei menos minhas pessoas queridas do que considero importante, queixei-me da situação política e econômica mais do que ajudei a debelá-la. Mas, mesmo assim, vou lhe dizer o que desejo.

Queria muito uma “penseira”. Como talvez o senhor não seja leitor de Harry Potter, lhe explico do que se trata o objeto cobiçado. O jovem bruxo desta saga estuda numa escola chamada Hogwarts, na qual seu diretor, Alvo Dumbledore, é um ancião muito sábio e sobrecarregado de preocupações. Estou eu também tornando-me uma senhora madura cheia de preocupações, embora a sabedoria seja questionável. Pois bem, para administrar a sobrecarga de pensamentos importantes, Dumbledore dispõe de uma penseira em seus aposentos.

Trata-se de uma bacia de pedra rasa, contendo em seu interior uma substância leitosa-prateada sempre em movimento. O diretor encosta sua varinha na têmpora e retira alguns dos pensamentos dos quais não necessita no momento. Eles saem sob a forma de uma espécie de raio e são depositados na penseira, onde ficam disponíveis para serem consultados quando necessário.

Pessoas dos cinquenta em diante, como eu, tendem a fiscalizar sua memória com a atenção de um cão pastor e o pânico de um animal acuado. Qualquer falha liga o alarme das fantasias do envelhecimento e da demência. Por outro lado, a esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Quando não conseguimos lembar algo, mesmo que seja o nome de um ator coadjuvante de um filme dos anos setenta, entramos em pânico: é o Alzheimer batendo! Por isso, penso que se tivesse uma penseira saberia onde está tudo aquilo que não consigo evocar imediatamente quando preciso. Assim, poderia tranquilamente revolver a penseira com a varinha e resgatar a memória fugidia, considerando natural de que ela esteja lá e não dentro de mim. Teria certamente a calma que me falta quando começo a procurar a memória que não se apresenta à consciência com prontidão. Qualquer um sabe que aquilo que buscamos com angústia tem a teimosia de se esconder.

Na verdade, na falta de um objeto mágico desses, desenvolvi a paixão por cadernos, caderninhos e cadernões. Os tenho para todos os fins: anotações de leituras, horários, sonhos, pautas para colunas, finanças, planejamentos variados. Adoro essas minhas memórias auxiliares e os consulto o tempo todo. Portanto, caro Papai Noel, se não encontrares penseira no mercado vou precisar de mais caderninhos…

A menarca assassina

O sangue mais assustador escorre do corpo de uma mulher.

Em 1974 Stephen King teve uma ideia que abandonou porque algo naquela trama lhe dava muito medo. Foi somente por insistência da esposa que a retomou. Detalhe, estamos falando de King, o mais popular escritor de novelas de terror.

Era a história de Carrie, uma adolescente desengonçada, que vivia só com a mãe, uma beata delirante. Sua inadequação já fazia dela motivo de bullying (ainda não se usava esse termo), quando aconteceu-lhe de menstruar pela primeira vez no vestiário da escola. Sem saber o que estava lhe acontecendo, entrou em pânico ao ver o sangue espalhar-se pelo chão do chuveiro. As colegas reagiram aos gritos, fazendo troça e afogando-a numa chuva de absorventes. As reviravoltas da história culminam com a jovem sendo eleita rainha do baile de formatura e recebendo, junto com a coroa, um balde de sangue de porco na cabeça.

Depois de sofrer essa agressão, a jovem, que já revelava seus poderes de movimentar objetos com o pensamento, reage com fúria e desencadeia a completa destruição do baile e da cidade. Carrie provocou incêndios e esvaziou os hidrantes, produziu curto circuitos e caos. Quem não foi queimado, foi eletrocutado e sobraram poucos, principalmente entre seus colegas, para contar a história. Tudo isso só por causa de uma menstruação? Para uma história escrita na segunda metade do século XX, o que há de tão ameaçador no corpo de uma garota?

Mamilos femininos numa praia são uma afronta, até amamentando não são bem vistos. Já os masculinos mesmo que proeminentes e marombados são exibidos com liberdade e orgulho. A visão do sangue menstrual é proibida nas redes sociais, mas se a imagem mostrar uma virgem vertendo lágrimas de sangue tudo bem. A mulher é potencialmente suja, perigosa, diz-se que sua imagem provoca impulsos sexuais e agressivos incontroláveis nos homens. Por isso seria a culpada pelos abusos que sofre. Ela deve se encobrir. Se ficar grávida, mesmo que seja fruto de um estupro, deve gestar e parir o filho de um monstro. Acaba de ser aprovado um projeto de lei que lhe impede o acesso ao remédio que a livraria disso. O corpo da mulher não lhe pertence. O que há de tão ameaçador no corpo de uma mulher? Em pleno século XXI?

A história de Carrie continuou sendo re-filmada, a última versão é de 2013. Isso prova que a fantasia da feminilidade poderosa e demoníaca segue viva no inconsciente do nosso tempo. Triste persistência, num tempo em que a vida das mulheres começaria em tese a respirar ares de liberdade: estamos nos tornando uma legião de médicas, advogadas, pedreiras, pensadoras, líderes, soldadas e o que mais quisermos ser. Pelo jeito, ameaçamos levar nossos perigosos fluidos menstruais para contaminar a sociedade e destruir tudo, que dizer dos nossos seios, dos nossos ventres nada livres? Em pleno século XXI.

publicado em ZH em 8.11.2015

Verdades que divertem

Divertida Mente é um filme para crianças, quem diria…

Expus ao meu priminho Gonçalo, seis anos, uma questão que tenho escutado várias vezes: o filme infantil Divertida Mente é de fato para crianças? Com a seriedade dos pequenos, que nunca estranham que um grande lhes peça opinião, ele ponderou que sim, já viu duas vezes. As crianças de hoje não têm temores nem constrangimentos para abordar assuntos delicados. Uma vez informados do que se trata, não há sobre o que não possam, a seu modo, opinar: morte, justiça, famílias, velocidade dos carros, ecologia, religião.

A ficção infantil não precisa escolher temas fáceis ou soluções planas, se for bem feita, será bem-vinda. Isso garante o sucesso de filmes como Up, que trata da velhice, dos antigos Bambi, no qual a mãe de um bebê é assassinada, Rei Leão, que enfoca a morte do pai e a autoculpabilização do filho por isso, Os Incríveis, em que um pai super-herói sofre da depressão do desemprego, Shrek, que prega a valorização da autenticidade da imagem, e tantos outros.

O público adulto finge, bate palmas por convenção, tem medo de não saber discernir entre um espetáculo difícil e um ruim. As crianças fazem uma avaliação direta: se a peça, show ou filme forem cativantes, ficarão atentas, se não, a bagunça se instala. E não sejamos injustos achando que só aprovam pastelão, lutinhas e cantorias edulcoradas. Divertida Mente está aí para demonstrar o contrário.

Nessa história, as personagens não poderiam ser mais abstratas: a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojo e a Tristeza. Dentro da cabeça de uma garota de 11 anos que precisa enfrentar o desafio de mudar de cidade, eles cumprem seus papéis e, principalmente, disputam com a Alegria a condução da vida de Riley. A trama leva-nos a concluir que o protagonismo da Tristeza é decisivo para a adaptação dela. Sem as lágrimas necessárias, que também se devem ao fim da infância e à constatação de que os pais estão igualmente atrapalhados, não acontece a elaboração das perdas. O filme também é bem claro de que tudo o que não for enfrentado, por ser doloroso, levará consigo para o esquecimento as preciosas memórias. Aquilo sobre o que não se pensa tampouco é lembrado, pois enfocar algo significa descobrir em que parte da nossa mente vamos guardá-lo.

É fundamental para as crianças ver seus conflitos psíquicos tratados com empatia e seriedade. É um alívio ver seus pais recebendo desse filme a lição de que elas têm direito à tristeza e não precisam bancar os bobinhos da corte. O dever de ser feliz e de gozar a vida é um fardo para a infância contemporânea. Como lucro suplementar, verão que, por dentro, é comum que os adultos tenham as mesmas minhocas, pois elas percebem nossas fragilidades. É como no teatro infantil: não adianta enganar ou ser falsamente simplório, seja verdadeiro e elas aplaudirão.

(coluna no jornal Zero Hora, 25 de outubro 2015)

Aprendendo com o Alzheimer

O que é bom lembrar antes de esquecer?

A professora de estudos de gênero da Universidade Cornell, Sandra Bem, Sandy, para os íntimos, pôs fim à própria vida em maio de 2014, cinco anos após seu diagnóstico de Alzheimer. A decisão era morrer antes que sua existência tivesse lhe sido totalmente usurpada pela doença.

Apesar das perdas intelectuais, os anos restantes permitiram-lhe testemunhar a chegada ao mundo do neto, assim como ajudar à filha nos cuidados dele. Para este último, a avó apenas levemente demenciada tornou-se uma querida bubba, que era como as avós eram conhecidas na família. Sob efeito da doença, Sandy apresentava uma doçura e uma leveza que eram estranhas àquela acadêmica de pequena estatura e grandes ideais.

O convívio com as perdas foi sendo suportável, principalmente graças ao seu bom humor. Até a chegada de um dia em que, ao despedir-se da filha perguntou à cunhada quem era a mãe daquela mulher que recém saíra dali. Obteve a resposta de que era ela mesma e tristemente arremedou: – desconfiava disso. Era chegada a hora. Já havia conseguido por correio a substância necessária, assinou e datou os papéis previamente preparados, eximindo todos seus seres queridos da responsabilidade pelo seu ato e, sem dramalhões, partiu. No espaço que havia destinado para “observações finais” nada conseguiu preencher, sua mente já não tinha esse alcance.

A história de Sandy, contada no texto Juízo final, da Revista Piauí número 106, é mais radical que o filme Para sempre Alice (2015), onde a pesquisadora não conseguiu levar seu plano de suicidar-se até o fim. O filme suaviza o espinhoso tema do suicídio. Na verdade, a transformação da linguista Alice na bobinha acompanhante de sua filha caçula, com quem ainda consegue ter uma postura afetuosa, atenua um pouco o drama da despersonalização tão temida por todos nós.

Recentemente passei o dia todo atrás de uma palavra que não recordo qual era, e tampouco sei se afinal a achei. Estou chegando à idade madura junto com vários de meus amigos e pacientes. Entre nós, sorriso nervoso nos lábios, já falamos por alusões aproximativas como: “aquele ator que fez o Sherlock, o mesmo que fez o cientista gay discriminado que quebrou o código dos alemães, como era mesmo o nome do filme?”. Ficamos, mesmo sem querer, monitorando o declínio visível da memória imediata.

A parte apavorante dessas histórias de Alzheimer é a abreviação do processo de envelhecimento até a vertigem. Alertas, muitas vezes confundimos as bobeiras normais com o desgaste do cérebro, mas como sempre fui avoada, acabo me surpreendendo menos com as lacunas de comportamento e memória. O que realmente esquecemos é que a memória costuma ser esquiva, se entrarmos em pânico não saberemos sequer responder o nome completo. E mais, as pessoas esquecem é que nunca tiveram de fato uma memória prodigiosa. Calma, tudo o que é imprescindível volta. Talvez essa rebeldia das evocações tenha o propósito de nos lembrar que a paciência é a principal aprendizagem que a maturidade nos reserva.

(publicado na Revista Vida Simples do mês de setembro de 2015)

Insanidades do destino

É possível criar uma Psicopatologia à la “Mynority Report”?

O recente episódio do copiloto que precipitou (propositalmente, até onde se sabe) o avião nos Alpes pode trazer um perigoso efeito colateral. Temo uma onda de preconceito contra qualquer abalo psíquico constatado. Não somente diagnósticos podem gerar perseguições, como creio que muitos possam evitar procurar ajuda temendo ser estigmatizados.

Quando a loucura ronda nossa vida, a sanidade revela seus limites. Quem teve um parente que se perdeu em delírios tem pânico de carregar dentro de si essa predisposição. Quem vê um amigo começar a ter pensamentos bizarros sente de perto a fragilidade da razão. Pode, afinal, explodir tal descontrole com qualquer um? A mente é como um campo minado? Não creio, sempre há um lento processo, em geral bastante visível, e é raro que seja completamente silencioso. Os agudos sofrimentos da alma devem ser acompanhados e os perigos podem ser reduzidos, mas nem por isso podemos prever tudo, como sugerido no filme Minority Report (Steven Spielberg, 2002).
Almejamos o conforto da lógica, negando que a loucura e a morte nem sempre são “justas” e previsíveis. É com certo alívio mórbido que descobrimos uma imperícia da vítima entre as causas de um acontecimento trágico ou triste. Se teve câncer, é porque fumava; se sofreu um ataque cardíaco, é porque era obeso; o acidente deveu-se ao álcool, a violência ocorreu porque a vítima se expôs. Nesses casos, parece que basta ser cauteloso e seguir as recomendações de saúde para estar a salvo. Quem dera.
Não conheço o caso do moço e sei que tudo o que lhe diz respeito será arrolado no cortejo das causas que tornariam previsível seu ato. O mesmo acontece em casos de suicídio e de atiradores de escola. Presume-se que alguém falhou na decifração das pistas que o sujeito foi deixando escapar. Porém, para cada suicida ou assassino em série, há milhares de pessoas que perdem a esperança de viver ou que nutrem graves mágoas e ressentimentos contra alguém ou contra todos, mas nada fazem. A maior parte dessas pessoas apenas rumina coisas que lhes intoxicam a alma nos momentos de angústia, tristeza e melancolia. Outras, poucas, vão enlouquecer de fato, ficar agressivas com os familiares, ouvir vozes. Raras, em número ainda menor, provocam tragédias. Para diferenciar um caso do outro, o melhor é proporcionar a todos os que sofrem oportunidades de receber acolhida e escuta.
Infelizmente, não temos uma previsão exata das consequências de determinados pensamentos e sentimentos. Dirigir com cuidado e viver saudavelmente contribuem para diminuir os riscos, mas não impedem as maldades do destino. Não podemos isolar e maltratar qualquer um que não se sinta psiquicamente bem como se ele fosse atirar um avião no chão. Cuidado com nossas fantasias onipotentes, a morte sempre ri por último.

Amigos até que a morte nos separe

Amizade, hoje mais eterna do que o amor. Eis o segredo do sucesso de Friends!

Há vinte anos estreava Friends (setembro de 1994 a 2004), uma série cômica norte-americana que segue na nossa memória. Seus personagens são comuns, gente como a gente, não se pode dizer que corram riscos, cumpram missões, tenham inimigos, destinos ímpares ou uma visão de mundo relevante. Com poucos cenários, alguns pequenos apartamentos, cujos móveis e objetos os fãs conhecem como se fossem seus, e uma cafeteria onde se reúnem, a série retrata o cotidiano de um grupo de seis amigos, jovens adultos ainda em fase de aprender a amar e trabalhar. Eles têm o viés cômico do precursor Seinfeld (1989 a 1998), mas são mais pueris. O valor de Ross, Rachel, Monica, Chandler, Joey e Phoebe para prender boa parte do planeta durante uma década em frente à tela da televisão é a amizade como laço afetivo fundamental.

Quando vislumbro o horizonte da maturidade que se avizinha, penso em um futuro povoado de amigos. Por muitos anos a vida adulta nos centra no trabalho, que exige um aprimoramento profissional ou intelectual, e na família, quando formamos uma. São jornadas pesadas, noites mal dormidas, temporada de incertezas, ao longo da qual não priorizamos os laços com o grupo de pares que eram o centro da nossa vida adolescente.

No fim da infância os amigos esperam do lado de fora de casa com o coração aberto para suprir o buraco deixado por aqueles que eram nosso mundo até então. O pai deixa de ser herói, o amor da mãe torna-se sufocante, os irmãos já não importam tanto. Quando nos tornamos adultos maduros também há esse tipo de perda: os filhos, se os tivemos, precisam cuidar da própria vida, nossos pais enfraquecem ou nos deixam, muitos casamentos se distanciam ou desfazem, o trabalho encontrou alguma estabilidade e o ritmo desacelera. Portanto, tanto para os indivíduos como para os casais sobreviventes, são os amigos que partilham a intimidade e os momentos de lazer. Nessas duas fases, a adolescência e a maturidade, há um movimento similar, onde as fragilidades dos laços familiares são compensadas pelos fraternos.

O grupo de amigos da série é uma rede de apoio afetivo marcada pela tolerância, as críticas são amorosas e eles sempre estarão uns pelos outros, como diz a música tema do seriado. Pequenos conflitos, erotismo e amor atravessam suas vidas, a ponto de formar dois casais entre eles, mas o tema central sempre diz respeito à preservação da amizade. Seu sucesso, para além do doce bom humor, é também o crescente prestígio desse laço, que é o grande vitorioso depois do ocaso da família extensa, do inverno dos patriarcas e do extermínio do casamento indissolúvel. Friends acabou, mas é inesquecível por retratar um tempo em que a amizade tornou-se o maior e mais duradouro tesouro de uma vida.

Mãelévola

Amai-vos umas às outras, esse é o novo feitiço da ficção infantil!

“Fujam da enlouquecida paixão, lembrai-vos como os homens vos têm por frágeis, frívolas, facilmente manejáveis e na caça amorosa estendem armadilhas para prender-vos em suas redes como animais selvagens.” Essas palavras de alerta foram escritas em 1405, por Christine de Pizán, na pré-história do feminismo.

A nova vítima dessa sedução é surpreendente: a própria Malévola, a terrível bruxa da história de Bela Adormecida, caiu nessa cilada, apaixonou-se e pediu a seu amado que “fosse suas asas”. Até agora ela era apenas uma figura poderosa e desagradável do reino mágico, responsável pela maldição de sono da princesa.

Os Estúdios Disney fizeram em 1959 uma versão desse conto que emprestou uma imagem definitiva para esta personagem, transformada numa atraente vilã, de aparência gótica e olhos irresistíveis. No recém lançado Malévola, um lindo filme, eles bancam uma virada na história clássica: agora a bruxa é soberana das fadas, reina em harmonia com a natureza, sem hierarquia nem autoritarismo. A descoberta do amor a fragiliza e, sem escutar o alerta de Pizán, encontra a destruição nos mesmos braços em que pretendia repousar. O ressentimento amoroso é o motivo da maldição, pois a princesa é a filha daquele que literalmente lhe cortou as asas.

Em Malévola os homens não prestam: são abjetos, beligerantes e traidores, quando bons são servis ou insignificantes. Pelo que vemos, a ficção infantil caiu aos pés dos encantos femininos. O grande desafio desta história é, como sempre, um encontro amoroso, mas esqueça o príncipe: amai-vos umas às outras, essa é a ideia. É a mesma inovação que começou comValente e segue com Frozen, neste caso entre duas irmãs.

A disputa entre as mulheres pelo amor do pai, assim como por ser escolhida a mais bela entre as mulheres, faz parte da tradição dos contos de fadas. A entrega, seu único destino, alimentou essa competição, tantas vezes desleal. De fato, para mães, assim como para os pais, é uma derrota fenecer enquanto o sucessor floresce. Mas há algo a legar e o orgulho dessa herança compensa pelas perdas. Sem valor social, às mulheres essa contrapartida até agora estava vedada.

Através da vilã, embelezada por Angelina Jolie, somos levados a supor que a maldição é o romantismo que enfraquece, corta-nos as asas e leva-nos à vilania. Livres dele, seríamos portadoras de uma visão de mundo mais justa e harmônica do que a que foi alimentada pelo machismo. Essa promessa é uma novidade nos novos contos de fadas. Neles as mulheres resgatam o apreço pelas antepassadas e umas pelas outras, o que ainda é um feitiço necessário.

Eduardo Coutinho, o cineasta psicanalista.

A arte de perguntar, no cinema de Eduardo Coutinho e na psicanálise.

O psicanalista é um anfitrião que recebe pessoas para conversar. Sua arte consiste em colocar as perguntas certas, essas que levarão o assunto para um território novo, de preferencia surpreendente para o paciente. Mas é muito difícil compreender o que faz um psicanalista sem submeter-se à experiência de uma análise. Há livros técnicos, assim como literatura onde pacientes e analistas são personagens, onde pode se matar um pouco da curiosidade. Para tentar entender esse ofício, pelo menos aproximativamente, recomendo assistir “Edifício Master: um filme sobre pessoas como você e eu” (2002).

Este janeiro cheio de perdas deixou-nos sem um poeta do documentário: Eduardo Coutinho, autor desse filme. O Master é um prédio em Copacabana: 276 pequenos apartamentos, onde vivem aproximadamente quinhentas pessoas. A equipe foi visitando os moradores e colhendo suas histórias, das quais Coutinho selecionou algumas para compor o documentário. Estruturalmente idênticos, abrem para uma maravilhosa diversidade quando a equipe bate à porta. O cineasta não é invasivo, mas faz perguntas difíceis, sempre atento aos pontos delicados da conversa, centro de seu interesse.

Os entrevistados abrem o coração, choram, cantam, recitam, gargalham, se queixam, lembram glórias, contam grandes histórias sobre pequenas coisas e, inevitavelmente, fazem um balanço da sua vida. Muitos são velhos, mas há alguns jovens e todos têm uma trajetória para contar. Uma moça que morava sozinha e lamentava a perda do zelo dos pais e avós, conta a história de uma voz de criança que ela escutava através do respirador. Embora curiosa, não conseguia tomar a iniciativa de descobrir o rosto daquela pequena, cuja vida espreitava. Provavelmente essa voz representava a criança que ela estava deixando de ser.

Emoldurada pela câmera toda vida torna-se grande. Aliás, é exatamente isso que fazem os escritores: transformar o prosaico em poético, a vida comum em evento literário. Meu espaço, o consultório, também é sempre idêntico. Ambiente invariável, como são os apartamentos do Master. O que muda são as vidas que passam: relatos de minúcias, queixas, ressentimentos, bravatas, vergonhas, sonhos noturnos e diurnos. Através das histórias que escolhe para contar, ao longo do dia cada um que entra vai ocupando meu espaço a seu modo. A escuta do analista é atenta aos momentos sensíveis do relato. Por vezes é a história de um trauma, um acontecimento marcante, por outras, a vida encontra suas encruzilhadas em sutilezas, como a voz de uma criança no respirador. O cenário pode ser fixo, variadas são as pessoas.

O documentário é uma arte na fronteira entre a ficção e a realidade e Coutinho dedicou-se acima de tudo aos relatos, por vezes longe dos fatos. Pouco importa: sofremos menos dos fatos e muito mais dos pontos de vista, da forma como narramos a realidade. No cinema de Coutinho, assim como no consultório do psicanalista, realidade e ficção são indissociáveis.

Kryptonita

O passado sempre continua nos apedrejando

Tive todas as oportunidades de emburrecer com a babá eletrônica. Fui uma criança apaixonada pela telinha pequena e imprecisa, em preto e branco. Ansiava muito pela hora da tevê começar e me sentia miserável ao término da programação. Dessas extensas jornadas televisivas restam muitas memórias, mas uma evocação é insistente: a Kryptonita, proveniente dos desenhos animados do Superman.

Trata-se de uma arma que era usada contra seus super-poderes pelos inimigos, a única que o colocava fora de jogo. Aproximar dele um fragmento dessa pedra, um mineral verde luminoso, deixava-o fraco, indefeso. O mais enigmático é que a Kryptonita era uma das raras coisas provenientes do planeta natal do herói, Krypton. Do mesmo lugar de onde se originaram os poderes veio o calcanhar de Aquiles. O fragmento de ficção, e da pedra, sobreviveu na memória por portar uma verdade e um alerta: há um lugar, nossa origem, que determina o que somos, mas é também de onde nossa derrota pode se insinuar.

Não posso omitir a cilada do meu inconsciente: meus dois sobrenomes, tanto materno como paterno, contém a palavra “stein” (pedra, em alemão), ou seja, meu passado é uma “pedreira”. Mas não só o meu, também o seu, o de todos. A infância, quando os outros são grandes e nós pequenos, é lugar de proteção, mas também de submissão, passividade, medos. O mundo dos pequenos é uma massa escura que não enfrentamos sem uma mão para segurar. Não é fácil lembrar disso. Tornamo-nos fortes e grandes graças ao exílio desse planeta natal da fragilidade. Só ficamos “super” porque crescemos.

Ao voltar à casa dos pais, mesmo velhinhos, sentimos a sinistra sensação de que lá o tempo congelou. Perdemos os bons modos, catamos no prato, distraímo-nos ao som da voz da mãe, testamos a força do pai, ficamos irritadiços, por vezes irreconhecíveis. Os lugares do passado são magnéticos, atraem à superfície fragmentos, cacos sobreviventes de outras eras. Atravessar a porta familiar dessa casa é como a queda de Alice no assustador País das Maravilhas. Não é porta, é portal, do outro lado esperam memórias que nos tomam de assalto. Assombrados pelos nossos outros “eus” do passado, descobrimo-nos, como Alice, viajantes surpresos num país de pesadelos, dentro de um corpo que encolhe, espicha e nunca nos abriga direito.

Faz toda a diferença como encaramos e como nos contamos as experiências que vivemos, a mesma história pode ser enquadrada por diversas lentes. Diferentes visões produzem novos efeitos. Mas nem tudo pode ser posteriormente resgatado, sempre há restos, alguma pedrinha nociva que incomoda ou obstrui. O passado é esse planeta natal, fonte de nossa força e vulnerabilidade.