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Ruiva indomável

Sobre o filme “Valente”, aventuras da identidade feminina.

Com indescritível assombro, pois não há experiência tão mágica quanto o parto, dei à luz a uma princesa ruiva. De signo de fogo, me disseram. Signo ou não, mostrou-se um fato, desígnio de suas cores. Poucos anos depois, uma vigorosa morena já saiu opinando de minhas entranhas, assim segue pela vida. Os anos passam, a vida das três mulheres que somos se entrelaça, nos transformamos. Meus cabelos brancos evidentemente cobiçam o viço das belas jovens que aqueles bebês se tornaram. Mas há muito mais que uma bruxa invejosa na alma das mães de mulheres contemporâneas.

Na dúvida, assista “Valente”, um filme de animação infantil. Se quiser indagar o futuro, busque seus sinais no rumor do cérebro daqueles que hoje ainda são crianças. Os que tentam cativá-las com produtos culturais já não são crianças, mas certamente usam a bússola dos desejos delas como roteiro de suas tramas, são atentos a infância como poucos. Novos tempos pedem novas ficções, novas mulheres precisam de novas heroínas. Temos testemunhado isso com a transformação da tradicional Branca de Neve, de Rapunzel e outras, assim como o surgimento de novas formas de ser princesa.

Trata-se do recém estreado filme dos Estúdios Disney, com roteiro elaborado por duas mulheres. Nascida da linhagem de princesas de cabelo vermelho, que já tinha em Ariel (A pequena sereia) e Fiona (Shrek) boas representantes, a jovem princesa Merida é uma dona de indomável melena ruiva e cacheada. Aliás, em Portugal o título original do filme – “Brave”- foi traduzido para “Indomável”, expressão que melhor lhe cabe. Seu espírito é como seus cabelos, prefere o arco e flecha às lides domésticas, é exímia nessa arte. Em casa, se compraz nas narrativas de lutas do pai, um gigante ruivo que perdeu sua perna no combate com um urso. Ela é uma legítima filha de seu pai, partilha-lhe as cores e os prazeres viris, reconhece-se melhor nele do que na doçura severa e contida da mãe.

Chegada a idade casadoira, vê apavorada a chegada dos herdeiros dos clãs aliados do reino, candidatos à sua mão, dos quais nenhum remotamente se assemelha a um príncipe desejável para seu gosto. Rompendo com a tradição, para desespero da mãe, ela conquista a própria mão no torneio de arco e flecha, fugindo para a floresta, coberta de ódio pela tentativa desta de submetê-la ao detestável destino de esposa.

Eis então, numa série de reviravoltas, que ela inverte vários papéis das princesas dos contos de fadas tradicionais. Em primeiro lugar, com ajuda de uma bruxa mercenária, é ela que dá um alimento enfeitiçado para a própria mãe, similar à maçã envenenada da Branca de Neve. O objetivo do ardil é transformá-la para que ela fosse levada a compreender os desejos diferentes da filha. A magia produz um efeito inesperado: transforma a mãe justamente num temível urso, principal inimigo do pai, o que a coloca em grande risco.

A partir desse resultado, ambas terão uma jornada de aprendizagem. À filha cabe descobrir o poder feminino, oculto sob a camada de docilidade e submissão da esposa e mãe. Constata que o reino, sem a sabedoria da rainha (que estava ausente, transforma-se num pandemônio de testosterona desgovernada. À mãe cabe, na vida e neste filme, o papel civilizatório de domar os bárbaros para que se alimentem, se limpem e comportem feito gente e não como animais.

Já à mãe, sob a nova forma animalesca, está reservada a aventura de experimentar na pele a liberdade que sua filha tanto quer preservar. Como ursa descobre-se poderosa em combate (nunca duvidamos da fera que sabe ser uma mãe em defesa de suas crias), enquanto se apraz da desenvoltura de um corpo despido das amarras do pudor e da mímica contida do cotidiano das mulheres.

A tradição do conto de fadas têm várias histórias de “noivo animal”, das quais “A Bela e a Fera” é a remanescente delas. Neste caso, temos a inédita versão de uma “Mãe Animal”. No reino mágico, freqüentemente a personagem passa por transformações no corpo que vão ilustrando o caminho das mutações da alma. A passagem pela identidade animal nessas histórias costuma ter fins educativos, é uma espécie de lição, como na história da Fera, que perdeu a identidade de um belo príncipe para obrigá-lo a despir-se da soberba. Aqui, a mãe perde a delicadeza, assume uma forma masculina, poderosa, é obrigada a sentir-se na pele daquele que assombra até o próprio rei. O urso, versa a tradição folclórica, precedeu o leão na condição de rei dos animais. A rainha, mãe de Merida, que não lhe compreendia a identificação viril, é obrigada pela filha a vivenciar o outro lado da moeda das identidades sexuais em sua forma mais selvagem. Aprende-se duramente nos velhos e nos novos contos de fadas!

A sina desses feitiços somente se encerra quando uma expressão de amor revela-se maior do que qualquer repulsa que a versão animalesca possa suscitar. Neste caso, para mãe e filha. Ambas precisaram fazer esse percurso para aprender a amar-se. A filha viu surgir na mãe essa forma primitiva, uma ursa. Esse enorme animal tem um igualmente grande potencial simbólico: também se presta para a representação da maternidade. Não é totalmente estranho ver a maternidade misturada com algo ameaçador, pois essa mesma natureza que nos expulsou para a vida não raramente ameaça nos reincorporar. Por isso mesmo muitos homens desenvolvem dificuldades sexuais em relação àquelas que, outrora desejadas, tornam-se mães. A ursa, gigante peludo que hiberna para dar à luz, é uma tentadora figuração da mãe, acolhedora e protetora.

Cobiçadas e temidas, subjugadas e imprevisíveis, há séculos as mulheres iniciam suas filhas nessa arte do poder invisível. A princesa ruiva de “Valente” espera viver sem esse espartilho dos bastidores, da dissimulação, antigo campo de força das mulheres. Agora, a liberdade de movimentos e de opções, as escolhas e realizações que não dependem do amor e muito menos de um homem são, sim, opções válidas para as garotinhas que hoje comem pipoca no cinema. Já o são para suas irmãs mais velhas ou jovens mães. Às mulheres mais velhas viram o arco e flecha tomar o lugar da linha e da agulha e tiveram que suportar a transformação das suas filhas em seres livres, desgarrar-se da identidade clássica feminina associou-se assim a uma libertação da mãe. As herdeiras das conquistas feministas sentem-se permanentemente na contramão de suas mães. Mesmo que estas sejam poderosas, políticas, executivas, cientistas, artistas, sexualmente livres, separadas, mães solteiras, enfim, vivam quaisquer das novas formas de vida das mulheres, as filhas ainda as questionam, suspeitam-lhes uma servidão interior da qual se querem libertas.

Neste filme, a descoberta da jovem princesa passa por encontrar amor e admiração pela mãe, tudo aquilo que julgava ter descartado enquanto opção de identificação. A identidade viril é uma coletânea de certezas, gestos de afirmação e vitórias mensuráveis, numa cultura pautada pela legitimação de seus feitos. Nessa arena, as novatas têm se revelado exímias, como Merida com seu arco, mas ainda sentem-se estrangeiras, ilegítimas. Talvez essa condição de eternamente párias deva-se ao fato de que sacrificaram a identificação com a mãe. A princesa ruiva porta os traços do pai, carrega a certeza dessa filiação em suas paixões pelo domínio do que outrora era vedado a seu sexo, mas precisa saber o que fazer com o legado feminino. Nele, não se reconhece a priori, a aventura neste caso é a de saber-se mulher e por isso agora o desafio encontra-se do lado da mãe. Desta vez, a progenitora abandona o tradicional papel de rival, para tornar-se o mistério a ser decifrado, um amor a ser reconhecido.

É pelo amor da filha que a mãe volta à forma original, quando a jovem admite o que dela aprendeu. Já a mãe, ressurge marcada pela jornada de questionamento, precisa ver na sua descendente alguém capaz de escolhas, originalidade, opções que revolucionam a vida de ambas. As mulheres têm mudado vertiginosamente nos últimos séculos, mães e filhas sofrem com essa eterna mutação, sua relação é uma montanha russa de sentimentos. Já que indômitas, temos que ser, de fato, valentes para viver juntas tudo isso. Sou grata às minhas princesas irreverentes pelo tanto que seguem me revolucionando, pelo amor com que me permitem ensinar-lhes algo, pela parceria na infinita descoberta do que é ser uma mulher.

É isto um jovem?

Após a era nuclear, há uma vacância na posição dos adultos, que se abstém como referência. Aos jovens, resta o preconceito, a inveja, são objeto de pensamentos apocalípticos. O livro de Rose Gurski questiona essas posições.

(Este texto é o prefácio do livro: “Três Ensaios sobre Juventude e Violência”, de Rose Gurski, Ed. Escuta)

Depois de ter visto e vivido o inominável, o escritor Primo Levi estruturou sua mais famosa narrativa da vivência como prisioneiro nos campos de concentração a partir da pergunta: “é isto um homem?”. Inconformado com a banalidade do mal, ele buscou os restos de humanidade dos envolvidos nessa experiência limítrofe: eles restavam nos pequenos gestos de solidariedade e cumplicidade. Foi também na própria capacidade de narrar sua jornada pelo horror que esse escritor, um judeu italiano, reencontrou-se, tentando recuperar os danos da sua dignidade usurpada.

Não surpreende que Rose Gurski faça eco a essa pergunta, ao interrogar qual é a humanidade que resta em certos jovens contemporâneos, capazes de matar e agredir friamente. Ela arrola vários desses casos que constituem uma realidade assustadoramente próxima da alegoria de Laranja Mecânica, de Kubrick, que estuda junto a filmes, muitos deles num território limítrofe entre a ficção e o documentário. Os casos e obras analisados pela autora não a conduzem a uma visão apocalíptica, ela não se une à vozes que caracteriza como tomadas de “pânico moral”, identificando a juventude com problema social.

A demonização dos jovens, tantas vezes considerados sem qualidades e portadores de todas as leviandades que seus críticos conseguirem arrolar, caminha junto com a incapacidade dos adultos de nosso tempo para se compreender e questionar. A tradição acabou sendo associada com um peso que os adultos não estão em condições de carregar, o passado dos contemporâneos parece estar povoado de vergonhas e fracassos. Curioso, pois estamos aterrizando do século XX, e nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo. Mas nem só de maravilhas da ciência e comportamentos liberados, que são ganhos indiscutíveis, vive nosso passado recente. Temos muita vergonha a carregar, principalmente a guerra e os massacres. Além do holocausto, já mencionado, a bomba atômica liquidou com chave de ouro a segunda grande guerra, onde provamos a enorme extensão da nossa capacidade destrutiva. E ainda assombra tanto que adolescentes sejam cruéis? Além disso, as maravilhas científicas, a saúde e o bem estar que elas proporcionam, continuam convivendo sem aparentes contradições com a extrema miséria. Seria, então, tão dissonante que jovens desmiolados agridam um mendigo?

Entre os filmes mencionados neste livro, gostaria de focar nossa atenção sobre Rebel without a cause, no qual há uma cena que muito pode nos ensinar. O clássico de 1955, traduzido entre nós por Juventude transviada, faz parte da iconografia fundadora do mito do adolescente contemporâneo. James Dean, faz o papel de um jovem inquieto que busca valores e interlocutores até na polícia. Ele quer revelar a virilidade oculta sob o manto da covardia do próprio pai e alguma qualidade no vínculo entre seus pares, entregues à mediocridade das disputas de reconhecimento. Em suas caras de escárnio, melancolia e desamparo, na sua jaqueta vermelha e topete inspirou-se uma era de futuros adultos, que hoje são pais e avós.

A cena em questão, é um diálogo baseado num equívoco em torno da palavra inglesa “age”, que é cheio de pistas para esta nossa reflexão. “Age” serve tanto para uma época da vida, uma idade, quanto para uma era, um tempo da humanidade. Nele, a moça vivida pela atriz Natalie Wood, futura namorada do herói, aproxima-se de seu pai durante uma refeição familiar e tenta beijá-lo na bochecha, como fazia quando criança. Este a rejeita, resmungando que aos dezesseis anos ela já não deve ter esse comportamento (ele diz: “girls your age don’t do things like that!”). A filha protesta a perda do amor paterno, como se este tivesse que ser abandonado com a infância. Depois que ela sai batendo a porta, dizendo que essa não é mais sua casa, a mãe consola o pai atônito com a frase: “she’ll outgrow it, dear, is just de age!”, ou seja, que ele fique tranqüilo, a filha vai superar essa crise, trata-se apenas de uma idade, uma etapa, uma loucura temporária. O irmão menor da personagem estava por ali, brincando com uma arma espacial de plástico e arremeda, enquanto atira para cima: “yeah, it’s the atomic age!” (“sim, é a era atômica!). Na seqüência, a mãe segue o diálogo com o marido e acrescenta: “It’s just the age where nothing fits” (“é bem a época em que nada serve”).

O pequeno, tal qual uma voz de coro de teatro grego, informou o que os adultos estavam falando sem saber: a juventude da irmã transcorria nos escombros psíquicos de um trauma recente. Os pais dos Estados Unidos pós-guerra, mesmo na condição de membros da nação vitoriosa, não sabiam o que fazer com os filhos quando estes atingiam a idade dos antigos combatentes. A família da personagem de Dean, optava por manter o filho protegido, tratando-o como criança, enquanto a da moça tentava ignorar a fase em que a que a filha deixara de ser criança e não era ainda uma adulta, como se fosse um mal passageiro.

Embora os jovens pareçam bastante perdidos e principalmente tristes, a adolescência é neste filme um notório incômodo para os adultos. Os jovens ainda tão respeitosos e cerimoniosos dessa história já antiga, mesmo assim eram caso de polícia para essa sociedade de baby-boomers, tanto que um deles acaba morrendo. Trata-se de um crime estúpido, cometido por um policial estabanado, que extermina a vida de um garoto solitário e desajustado que só queria um pouco de atenção. Bem nos lembra Rose que os estudantes rebeldes do maio de 68 francês reivindicavam: “não nos mandem polícia, eduquem-nos!”.

Essa “era atômica” de que falava o garotinho, transcorrida nos anos da Guerra Fria, encontrou pulverizados todos os valores pelos quais seus protagonistas lutaram. Os heróis desse tempo eram mais traumatizados que orgulhosos, a reconstrução da Europa bombardeada desenterrava cadáveres de traição e indignidade. Quando os jovens de um mundo pacificado, voltado para o bem estar, começam a questionar o sentido da vida, esses pais encaram a melancolia juvenil como ingratidão: eles deveriam apenas aceitar a boa sorte e aproveitar as oportunidades de segurança que seus antepassados não tiveram. Ao contrário disso, os garotos do filme travam duelos letais com carros e canivetes, reproduzem em pequena escala a passagem do jovem pela guerra, e a experiência da proximidade da morte para fazer-se homens.

Jim Stark, personagem de Dean, reclama constantemente da covardia do pai, um marido submetido pela autoridade da mulher e da sogra, e lança-se num duelo em defesa da honra, após ser chamado de “chicken”. Mais uma vez, os jovens encenam em pequena escala os esqueletos no armário de seu tempo: a paz em que eles viviam era uma fina casquinha sobre a constante ameaça de um confronto terminal, a guerra atômica. Como queriam que aqueles garotos seguissem adiante, como gado, ignorando o conflito silencioso e totalizante, sobre o qual se estruturava a falsa calmaria? A quem queriam enganar aqueles adultos, exigindo que os jovens não se colocassem as questões terminais que seus pais, graças à guerra, puderam formular? Para que viver? Em nome de que lutar? Quais são os verdadeiros amores, os vínculos autênticos, capazes de sobreviver à adversidade?

Num instigante percurso teórico por autores como Hannah Arendt, Walter Benjamin, Giorgio Agamben, Maria Rita Kehl, Eric Hobsbawn, Jacques Lacan, Ana Costa, Contardo Calligaris, entre tantos outros, costurado pela análise de filmes como Aos treze (2003), Cama de gato (2002), Alpha dog (2006) e Os sonhadores (2003), este livro nos conduz a interrogações profundas. Simplesmente horrorizar-se com os jovens cruéis e transgressores, ou mesmo ignorá-los, esperando que seja um desajuste temporário, seria reproduzir as condutas dos adultos do filme. Pais, educadores e policiais em torno de Jim, fizeram de tudo para abafar a atitude adolescente enquanto uma forma, direta ou velada, de questionar.

A juventude está intrinsecamente associada ao tema do novo, onde aqueles que estão se tornando grandes de tamanho, embora ainda pequenos de experiências, inventariam seu legado, decidem o que levarão adiante e o que deixarão pelo caminho. Mas, lembra-nos a autora: “não é o jovem que ainda é pobre em experiência, é a sociedade que é pobre na capacidade de transmiti-la”. É sobre a diferença traçada pro Benjamin entre “vivência” e “experiência” que ela baseia suas reflexões, sendo a primeira apenas a memória de uma série de atos e acontecimentos que só podem ser assumidos e incorporados pelo sujeito mediante a transformação na segunda, Benjamin, ensina Rose, coloca a narrativa enquanto catalisador, instrumento de elaboração, tal como fez Primo Levi. Mas não se conte com os mais velhos para conduzir ou propiciar esse discurso, essa reflexão! Os jovens contemporâneos são filhos de gente que cresceu e envelheceu incapaz de tornar-se um adulto, determinados a jamais deixarem-se superar pelos mais jovens.

Não importando a idade, os que se sentem privados da própria juventude são incapazes de assumir a posição dos que, em vários aspectos, já tiveram sua vez. Já gastaram algumas fichas, mas mantêm os olhos postos apenas no que ainda gulosamente querem viver, sempre mais e muito. Como se a era atômica tivesse nos legado uma vida imediatista, sem passado nem futuro, numa eterna véspera de fim de mundo que o desarmamento nuclear não desbaratou.

Numa cultura onde a vaga de adolescente é disputada por gente de todas as idades, ficando essa época da vida associada a um imaginário (dos adultos) de oportunidades e prazeres (nada mais distante da realidade), resta pouco lugar para questionar. Alem disso, questionar a quem?

No filme Aos treze (também estudado por Rose) por exemplo, todos os personagens estão em busca de alguma razão de ser, mas enquanto os mais velhos se anestesiam com drogas e álcool, os mais jovens lançam mão à aparência, aos objetos, etiquetas e marcas. Não há nenhum adulto no filme, já que os mais velhos são visivelmente fascinados pelas promessas de gozo que atribuem à juventude. A mãe assiste a mutação da menina com alguma preocupação, mas ao mesmo tempo mostra-se paralisada, hipnotizada pelo personagem que surge daí: seu patinho feio tornando-se cisne, a mulher bela e sem limites. Mas quem não ficaria seduzida pela invocação destes poderes? Não é apenas um filme sobre uma adolescência difícil, é sobre os revezes de crescer num tempo em que poucos têm coragem de ser adultos.

Trata-se do fenômeno, caracterizado pela autora deste livro como de “erosão da adultez”, onde para os mais velhos que hoje trajam a fantasia da juventude eterna a reflexão é impossível. Como estes não permitem que o verdadeiro jovem os olhe como diferentes, nunca se estabelece a distância necessária para ver melhor, enxergar de fora.

Exatamente como nos afastamos de um objeto para lhe conhecer melhor as formas, os jovens precisam distanciar-se dos adultos para compreende-los melhor, decifrá-los e com isso conhecer-se. Analisando seus familiares, governantes, educadores, artistas, enfim, todos aqueles que teriam que ter algo a dizer ou mostrar a partir das escolhas que fizeram na vida, os novatos poderiam conhecer melhor suas possibilidades, ponderar sobre os erros que não querem repetir e os sucessos que gostariam de imitar. Dessa forma, seria possível aprender algo com a experiência dos mais velhos, que teriam transformado suas vivências em experiências, caso isso tenha ocorrido. Para tanto, é preciso dar uns passos para trás, estabelecer um espaço, uma diferença entre maduros e jovens, a qual não vem sendo permitida. Nesse sentido, a autora teoriza com Lacan que a agressividade, contida nessa violência juvenil que tanto assusta, é diretamente proporcional à necessidade do sujeito de demarcar seus limites, estabelecer seu território nem que seja a dentadas, como os animais.

A juventude é época agoniada, de impotência, de covardia, onde nada nos prova que seremos capazes de fazer alguma coisa, quanto mais algo que seja melhor do que já está. No entanto, esse é o desafio, pois se não tivéssemos a expectativa de superar, transcender o estabelecido, fazer algo novo, nem valeria a pena começar. Talvez por isso vê-se tanta gente moça desanimada, já que não há um ponto de onde começar, uma referência. É como se os adultos fizessem eco àquela frase jocosa de para-choque de caminhão: “não me siga, também estou perdido”.

A partir da modernidade uma existência tem se fazer valer, deixar sua marca na vida, pois o céu deixou de ser uma meta atraente e a manutenção da tradição não é um objetivo plausível. Arendt já questionava o que se lega aos descendentes, quando os ideais são engajados na esteira da ruptura, da revolução, nunca na manutenção do estabelecido. Rose Gurski aposta na narrativa, que ocorre nos momentos em que o adolescente é escutado, por exemplo. Nessa experiência discursiva torna-se possível equacionar uma relação com a herança recebida, sobre a qual eles possam então criar o novo, fazer suas revoluções, sempre bem vindas. Ela acredita no poder de um verdadeiro olhar adulto que não se negue a enxergar o sofrimento do adolescente. Estes são, enfim, três ensaios sobre a cegueira dos adultos e um chamado a abrir os olhos. O que temos a ver é doloroso mas belo, pois ao mesmo tempo em que nos sabemos passageiros, descobrimo-nos fonte de inúmeros tesouros, nossa herança para ser deixada tem que ter seu valor reconhecido. Afinal, o holocausto nuclear acabou (ainda?) não acontecendo. Há esperança.

Uma princesa guerreira

Sobre o filme Branca de Neve e o Caçador e as novas princesas.

Por duzentos anos Branca de Neve sobreviveu na imaginação das crianças, fiel ao relato dos irmãos Grimm, pouco alterado por Disney. Essa história adormecida, sem nunca ter perdido as cores, pode-se dizer que acaba de ser novamente beijada.

2012 foi o ano da ressurreição da princesa morena, dois filmes a despertaram. Mas desta vez ela foi chamada à ação: em “Branca de Neve e o Caçador”, de Rupert Sanders, ela tornou-se uma princesa guerreira.

Essa trama confirma uma antiga suspeita: que a nova Rainha, a feiticeira Ravenna, assassinara o Rei. A enteada foi mantida prisioneira até que, como na história clássica, o espelho revele sua beleza. Agora a malvada não quer apenas matá-la e comer seu coração. A feiticeira Ravenna mantém-se linda e desejável vampirizando a juventude de jovens súditas. Branca de Neve é especial, pois lhe conferirá a vida eterna. Ao fugir, a princesa é ajudada por um cavalo branco, sem príncipe. Quando desperta de seu sono enfeitiçado não é para casar, é para liderar as tropas que derrotarão sua rival e salvar o reino aterrorizado pelo domínio nefasto de Ravenna. Já o Caçador é um jovem viúvo atormentado, que se culpa pela morte da esposa. Ele protege a moça paternalmente, lhe ensina lutar, mas se apaixona por ela. Ressurge também um amor infantil, William, que também é seu dedicado e apaixonado cavalheiro. Só que a princesa, convenhamos, tem mais o que fazer.

Muitas princesas sobreviveram ao esquecimento, várias conseguiram a juventude eterna. Branca de Neve foi a primeira delas a inaugurar um novo cânone: a princesa cantora de desenho animado. Só podia ser ela, novamente, a revolucionar o nicho das princesas clássicas: o amor não é mais o final feliz.

O que permanece? O fato de que crescer é tornar-se órfão. Nos contos de fadas a mãe amorosa morre rápido (quando na verdade é o filho perfeito que sucumbe, assim que começa a crescer e aparecer). É aí que as madrastas e bruxas são convocadas para representar os conflitos normais do desenvolvimento. E mais, a mulher terá que desbancar a mãe, cuja juventude fenece esperneando, superá-la em encantos. Deverá a seu modo matá-la, apropriar-se dos atributos femininos. Esse conflito alimenta a paixão das meninas por histórias de princesas e bruxas.

O que não tinha como sobreviver? A idéia de que a vida de uma mulher encontra o ápice no casamento. Da revolução de costumes dos anos sessenta, da libertação da tristeza pelos horizontes estreitos do lar, veio a certeza de que elas querem mais. Para nós, liderados por uma presidenta guerreira, não é uma surpresa.

PS: uma leitora me lembrou que era bom avisar que não é um filme para os pequenos! Concordo. Já para os grandinhos, até os já beeeem grandinhos como eu, é diversão garantida! Seguir pela vida afora em companhia de nossos contos de fadas prediletos, que se transformam para nos acompanhar, é uma experiência instigante. Se outrora eles animavam as veladas dos trabalhadores cansados, na voz dos contadores de histórias, hoje, através do cinema, eles nos reencontram já adultos. Igualmente cansados, agradecemos as boas doses de fantasia, que distraem e enriquecem. Ainda por cima nos re-conectam com a infância e com os personagens significativos da nossa história e constituição imaginária. Convém nunca esquecer, que mesmo depois que ela acabou, é a infância a matriz onde a fantasia nasce e se opera. Ali moram histórias que usamos como instrumentos para elaborar nossos pequenos problemas e dilemas. Nesse sentido, sou particularmente grata à Branca de Neve, que foi meu alter-ego durante alguns anos quando era criança. Foi muito bom reencontrá-la e torcer por ela em lutas e batalhas. Mesmo que a Charlize Teron (a bruxa) seja a mais bela…

Adultos vorazes

sobre o livro-filme “Jogos Vorazes”e o interesse dos jovens pelo tema do totalitarismo

Crianças, no futuro toda essa selva será sua! Não parece atraente, mas é o patrimônio que temos a oferecer aos jovens. O lado de fora do lar é sempre a perigosa floresta, já alertavam os contos de fadas. A vida social é uma arena e os jovens são como gladiadores, cuja vida e prestígio pedem um sacrifício à sociedade do espetáculo. Esses elementos encontraram uma ótima síntese em “Jogos Vorazes”, primeiro volume da trilogia juvenil de Suzanne Collins (Ed. Rocco), agora no cinema. O livro re-atualiza o mito do Minotauro, colocando jovens a serem entregues à morte, como tributos. Desta vez, são sacrificados a outro tipo de monstro: a voracidade do público de um Reality Show.

Na maior parte do Ocidente vivemos num clima democrático e escarnecemos das primitivas ditaduras remanescentes. É fato, mas os jovens e suas fantasias prediletas insistem no tema do totalitarismo: os magos perversos de Tolkien, os Comensais da Morte de Harry Potter, a repressão em V de Vingança, entre tantos outros. Aqui isso se repete, por que será?

Nessa série, em um mundo distópico, um poder central, situado na “Capital”, submete 12 distritos à miséria e controle absolutos. Uma rebelião ocorrida no passado é lembrada anualmente com uma punição exemplar: cada um dos distritos deve oferecer dois jovens (um casal) todo ano para disputar uma luta terminal, que ocorre numa floresta, da qual somente um dos 24 pode sair vivo. Claro, câmeras espalhadas mostram a carnificina em detalhes. Um deles, Katniss, a personagem principal, vai construir sua trajetória heróica em confronto com o poder da Capital. Ela já era uma caçadora clandestina, independente, mas responsável. Nos jogos, torna-se guerreira.

Os jovens cultivam essas histórias porque não se deixam enganar pela paz aparente. A luta por poder e prestígio, a fogueira das vaidades, segue fazendo vítimas. Não há lugar no mundo para todos e nessa dança das cadeiras sobram muitos de pé, eliminados. Mesmo sem guerras para mandá-los, das quais voltarão vitoriosos ou mortos, eles continuam sendo selecionados. Por isso crescem armados, desconfiados e preparados para a vida na selva. Hoje como ontem, não lhes perdoamos o viço que os mais velhos já perdemos, a necessidade que eles têm de revolta, a independência que precisa nos derrubar. Como pais, exigimos tributos pelo que lhes demos, reverência às nossas conquistas e crenças. No fundo, adultos sempre serão totalitários, crescer sempre será uma guerra e o mundo uma selva. Nossa parentalidade culposa, gagejante e omissa não os engana. O adulto é o lobo do jovem.

Publicado em ZH em 11.04.2012

Anexo em novembro de 2015:

Na ocasião da estréia dos filmes de “Jogos Vorazes” escrevi esta coluna cujas palavras ainda endosso. O episódio final, do qual não vou colocar aqui nenhum spoiler, dá muito o que pensar. Nele fica claro o que fizemos para semear tanta desesperança. “A esperança”, terceiro e último livro da série que é verdadeira paixão para uma geração de jovens, aponta para pistas de onde buscá-la. Afinal, deve haver muita coisa no meio entre as duas formas extremas de alienação: a retração narcisista dos indivíduos e a entrega a um fascismo grupal messiânico. Precisamos encontrar onde fica a esperança, minhas pistas dizem para buscá-la entre os jovens.

Filhos da máquina de sonhos

Sobre o filme “A invenção de Hugo Cabret” e a herança enquanto um enigma.

Por que na ficção os mestres se expressam por enigmas? Quando Harry Potter está com a vida a prêmio, o prof. Dumbledore em vez de dizer o que ele tem que fazer, lança uma charada que deve ser decifrada em meio às correrias. Mas por que não ajudar os meninos, não vê o velho mestre que a situação está preta?

Só que o enigma é o encanto da aventura! Decifrar a frase misteriosa faz com que eles cresçam com a missão. Tornados detetives acabam entendendo no que estão metidos e seu papel na trama. Do contrário, seriam como soldados no front, a quem cabem estreitos heroísmos. Hoje não admiramos a alienação, a obediência; o engajamento deve ser ativo, original, inteligente.

Cada um de nós é, de certa forma, portador de um enigma. Afinal, não teríamos vindo ao mundo à toa. Carecemos imaginar uma sofisticada engrenagem da qual supomos ser peça imprescindível. Esse é o raciocínio do menino Hugo, protagonista do filme “A invenção de Hugo Cabret” de Scorsese. Somos parte de um mecanismo, pensa ele, cada um tem utilidade peculiar. Cabe-nos desvendar o mistério de seu funcionamento, consertar seus estragos.

Ele é aprendiz de relojoeiro, trabalhava com o pai nesse ofício até a morte trágica deste. Ambos dedicavam-se ao conserto de uma espécie de boneco robot, que havia sido encontrado abandonado. Hugo, que já havia perdido a mãe, torna-se órfão e é levado por um tio imprestável a habitar os corredores internos, as entranhas, da estação de trem, onde fazia a manutenção dos relógios. Abandonado ali, vivia clandestino, tendo por companhia apenas o boneco estragado. Se descoberto, seria colocado num orfanato, mas preservava sua liberdade para viver consagrado à tarefa de completar a obra do pai. Estava convicto de que esse boneco, ao funcionar, revelaria alguma mensagem paterna, dando um sentido à perda e à sua vida. Enquanto esgueira-se e realiza pequenos roubos, principalmente das peças necessárias para refazer o robô, seu destino se cruza com o de um velho senhor que se torna parte da charada.

A descoberta final de Hugo é surpreendente: mais que fatos, verdades, há sonhos que são sempre enigmáticos. A herança que recebemos é composta das fantasias dos que nos precederam. Crescer é terminar e recriar o boneco que os pais sonharam. Apesar do valor que nossos ancestrais possam ter provado, seu maior legado foram seus devaneios. Por isso o filme é uma homenagem aos fundadores do cinema, aos artistas, trabalhadores da fantasia. Somos, afinal, uma engrenagem da incansável máquina de sonhos dos homens. Espero que imprescindível.

Camaleões

Sobre o “A pele que habito”, de Almodovar. O amante, o cirurgião e quão longe podemos ir ao nos transformarmos pelo olhar daqueles que nos amam.

Minha tia ligou. É uma mulher sensível, gosta de cinema e sabe o que sente. Ela me pedia algo muito simples: posso matar o Almodovar? Ponderei que não valia a pena, afinal, ele nos deu tanto. Ela estava inconformada, saíra do filme “A pele que habito” muito inquieta. Não é que o filme seja ruim, dizia, é que “ele não tinha direito de fazer aquilo conosco”. Aplaquei sua ira com um argumento baixo, nem sei se verdadeiro: graças a ele temos Antonio Banderas. Ela amoleceu.

O filme de Almodovar trabalha na vertente persuasiva do horror, parte de premissas absurdas, inaceitáveis e as faz parecer viáveis. É a magia do cinema, mas a literatura consegue o mesmo com menos orçamento, pois o combustível do encantamento é nossa empatia, fonte dos melhores efeitos especiais. Nesta obra, um cirugião plástico transforma alguém em uma criatura construída à imagem de suas obsessões. Ele aprisiona e intervém nesse ser tornando-o outra coisa, seu belo monstro. É possível que alguém torne-se algo tão diferente do que seria normalmente só porque outro quis assim? É muito mais comum do que parece.

Os pais, amigos e parentes assistem a isso rotineiramente. Eis que alguém com quem sempre convivemos se apaixona e fica irreconhecível. Por força desse amor, vai se modificando de tal forma que sua identidade mais se parece com a fantasia que compartilha com seu atual parceiro. Se for um amor construtivo isso ocorre suavemente, nos parece natural e não produz grandes resistências.

Mas o chocante nisso é nossa suscetibilidade, a maleabilidade da imagem e da identidade, como se não tivéssemos uma essência. Entregues, em breve não conseguiremos mais diferenciar o que éramos daquilo que nos tornamos por amor. Encarnamos as fantasias daqueles que amamos com assustadora facilidade. Tão plásticos e influenciáveis, quem somos afinal?

Minha tia tem razão, Almodovar não precisava ter sido tão duro, isso dói. A pele que habitamos é um órgão sensível, uma superfície modificável pelo amor. Vai tomando a forma dos seus olhos. É assim que ocorre com todos os filhos, que se constituem inspirados pelo afeto e desejos de seus pais, por isso os filhos adotivos se assemelham aos pais não biológicos. Esse fenômeno segue vida afora e a cirugia plástica, com seus poderes de transformação, algum dia acabaria herdando a sina desse feitiço e desse horror. O bisturi é o instrumento mágico que representa o fato e a fantasia de que nos transformamos pelo olhar dos outros. Se um artista é aquele que melhor desvela as fantasias, só podemos por isso agradecer ao Almodovar. Além do Banderas.

Memórias de um tempo não tão distante

sobre o seriado “Mad men”e os costumes da época (anos sessenta)

Quando eu era pequena, há menos de meio século atrás, o chão era o melhor lugar para o lixo, fumava-se em qualquer ambiente, inclusive hospitais, aviões e o quarto das crianças. Negros e brancos vivam em mundos distintos, gays habitavam o armário e as mulheres, quando tomavam algumas liberdades eram chamadas de prostitutas. Caçador era herói, tinha-se armas em casa, poluição era decorrência natural do progresso. Sexo antes do casamento até acontecia, mas a união estável era destino certo. Não lembro de muitas mulheres sozinhas, fora as viúvas. Ecologia era um delírio de poucas vozes excêntricas.

Na minha adolescência, década de 70, apesar das conquistas da revolução de costumes, não lembro de gays assumidos no colégio. Apesar de ter estudado sempre escolas públicas, raramente tive colegas negros. Na faculdade isso tudo melhorou um pouco, mas ainda estávamos longe das liberdades e da tolerância com as diferenças que hoje começam a ser consideradas itens não opcionais.

Lembro quando comentavam que alguém era tão idoso “que viveu no tempo da escravidão”. Pois é, começo a me sentir tão idosa que venho do tempo da discriminação desavergonhada, de uma cultura de depredadores do planeta.

Tudo isso ficou muito claro ao assistir ao seriado Mad Man, (que arrasou no Emmy deste ano) no qual ando viciada. O que me mesmeriza na série vai além da dramaturgia e elenco, é a reconstituição histórica, retrato cruel da época em que cresci, essa que descrevo acima. A história centra-se no cotidiano de uma agência de publicidade em Nova York nos  anos de ascensão de Kennedy, da guerra fria. Na vida das personagens, os homens mais velhos traziam memórias da Guerra Mundial e da Coréia (Vietnã estava a caminho), a prosperidade não escondia a barbárie e as mulheres viviam a realidade descrita por Betty Friedan em A Mística Feminina. Apesar da psicologia e a psicanálise já terem alguma popularidade, as crianças nunca eram escutadas.

O “Dever da Memória” costuma estar associado a heróis e vítimas de tempos difíceis. Inclui desde os necessários tributos aos que souberam se posicionar com coragem, até o julgamento dos que foram indignos, criminosos. Mas os tempos duros não se restringem a guerras, ditaduras e extermínio. A vida privada também deve ser lembrada, pois na intimidade igualmente se produzem injustiças, discriminações e infortúnios e nesse sentido o passado quase sempre nos condena. É bom lembrar das conquistas, mas também do que não nos orgulha, e contar tudo isso aos mais jovens é uma tarefa que nunca deverá ter fim.

A vaca, dez anos depois

Sobre o filme “Um conto chinês”e os dez anos do 11/09.


Coisas impossíveis acontecem: na China uma vaca caiu do céu sobre um barco. Isso não é fantasia, foi um fato. Assim como quando, há dez anos atrás, dois aviões de passageiros se estraçalharam sobre as torres gêmeas, destruindo um ícone da confiança do império americano.

Eu estava no consultório, na mensagem da secretária eletrônica meu marido avisava que caso alguém me contasse tal estapafúrdia notícia, não pensasse em internar o relator por insanidade: ocorrera, de fato, um atentado terrorista, macabro espetáculo filmado em tempo real. A vaca voadora e o desastre americano eram igualmente improváveis. O imprevisível nos deixa inquietos. É sobre essa base que se estrutura o delicado filme argentino “Um conto chinês”. Em espanhol, a expressão “cuento chino” define a lorota, história improvável, embuste. Serve também para descrever essas situações absurdas nas quais alguém morre quando estava tão vivo, tão seguro, nas quais tendemos a dizer: “não pode ser”.

Roberto, o dono da loja de ferragens, personagem do filme argentino vivido por Ricardo Darin, levava uma vida previsível, obsessivamente estruturada. Mas seu lazer apontava para o avesso: colecionava notícias de jornal com eventos que provavam a força do imprevisível, principalmente em seu aspecto trágico. Histórias como a da vaca que caiu do céu eram sua fonte de fantasia. Na vida real cultivava certezas, dormia sempre à mesma hora, comia o mesmo cardápio, visitava o túmulo dos pais aos domingos, seus cenários e personagens mudavam o mínimo possível. Até que irrompeu em sua vida um chinês perdido, vítima de um assalto, que não falava uma palavra de espanhol, do qual se compadeceu. A jornada do personagem do filme é na direção da vitalidade: desafiado pela presença em sua casa do estrangeiro desamparado vai perdendo a rigidez. Paro por aqui para não estragar o prazer da história.

Para quem perdeu um ser querido é muito difícil acreditar que aquela pessoa simplesmente sumiu. Tantas coisas que se diria, ou mesmo se silenciaria num pacto de conivência mútua, ficarão para sempre suspensas. A morte sempre vem incompreensível, incontrolável como uma vaca ou uma torre que caem e não existe defesa. É impossível fugir da catástrofe final: evitar vínculos, apostas, antecipar fracassos, só amortece a aventura de viver. Essa conduta não deixa de ser outra forma de morte, pois quem tanto tenta controlar o destino acaba minimizando a própria existência.

Também faz dez anos que escrevo neste espaço (Jornal Zero Hora, Segundo Caderno), inaugurado com uma reflexão sobre o pânico do atentado. Sobrevivemos, veja só.

Tempo sem glamour

sobre “Meia noite em Paris” e nostalgia

O tempo presente é o primo pobre da nossa imaginação. Com os olhos voltados para o futuro esperamos dele curas, invenções, prazeres, liberdades e outras maravilhas. Viver muito, testemunhar e aproveitar ao máximo o que virá, é o nosso lema. Os jovens encarnam o espírito de nosso tempo como ninguém, a vida adulta está associada à mediocridade e a velhice nos apavora. Mas há um tipo de passado que ainda reverenciamos: é a crença de que os grandes homens pereceram outrora, quando revoluções, guerras e diásporas desacomodavam a humanidade. Idealizamos os tempos de vida dura dos nossos antepassados. Frente a eles colocamo-nos como descendentes indignos, fracos, sem protagonismo, amolecidos pelas comodidades e pela paz. Resta-nos o sentimento de não ser autênticos, de nada ter de genuíno ou empolgante para relatar.

Septuagenário, Woody Allen está acertando as contas com alguns dos seus antepassados artísticos, hoje ícones culturais. Seu ultimo filme, “Meia noite em Paris”, é similar à “Rosa Púrpura do Cairo”, no sentido de uma passagem mágica a uma fantasia do protagonista. Gil, o alter ego de Allen da vez, é um americano, escritor de roteiros comerciais, fascinado pela cidade luz. Está em visita à capital francesa com uma noiva fútil, mas afasta-se dela em busca de inspiração artística e acaba encontrando-a em surpreendentes visitas a um passado fantástico. Noite após noite, ele embarca numa viagem mágica aos anos 20, quando uma legião de artistas estrangeiros, como Hemingway, Picasso, Cole Porter, Buñuel, Dali, Gertrude Stein, Zelda e Scott Fitzgerald, entre outros, exilaram-se em Paris para beber, amar e criar. Para Gil o presente é um tempo errado, no qual nada acontece, nem se produz algo memorável.

Convivendo e discutindo com esses autores-personagens, no momento em que suas obras nasciam, descobre que o gênio não se sabe tal enquanto cria. Até para eles o presente era trivial, enredado em amores, ambições e conflitos e só o tempo dirá o que se tornará perene. Nas viagens mágicas, Gil reconhece que no presente deles, seus heróis tampouco sabiam que sua obra e época valiam a pena, por isso sai delas capaz de legitimar seus sonhos. O filme revela nossa necessidade de buscar patriarcas, antepassados a quem possamos atribuir a filiação dos nossos empreendimentos. Para isso servem histórias de um passado idealizado, as Eras de Ouro. Fantasias são portais onde entramos para encontrar nossos desejos e segredos. Com ou sem elas, Woody Allen, acha que com certa sabedoria é possível aceitar a própria realidade e ainda achar graça disso.

Mães de pequenas misses

sobre a relação mãe-filha, revelada em seu excesso nos programas sobre concursos de beleza infantil

Semana passada, nos Estados Unidos, uma mãe perdeu a guarda da filha por ter declarado num programa de televisão que fazia aplicações de Botox na sua pequena de 8 anos, visando suprimir rugas (sic). Como se vê, a paranóia do envelhecimento exige ações cada vez mais precoces! O objetivo da senhora era tornar a menina competitiva em concursos de beleza infantis. Esse tipo de mulher protagoniza um popular programa de tevê a cabo “Pequenas misses” (Discovery Home&Health), um reality show que acompanha a trajetória obstinada de mães para transformar crianças em versões da Barbie, com maquiagem pesada, penteados improváveis, manicure e até depilação.

As entrevistadas quase sempre são mães obesas, que apresentam visíveis sinais de abandono pessoal. Elas organizam sua vida em torno dos tais certames, onde suas bonecas de corda as representam, pequenos avatares, marionetes a serviço da frustração materna. É fácil indignar-se e ficar contente com a merecida punição de uma delas, pois é explícita no programa a monstruosidade dessas destruidoras de infância. Partilho desses sentimentos. Porém, em sua coluna da Folha de São Paulo, corajosamente Rosely Sayão se pergunta: “será que os pais do programa são muito diferentes daqueles que enchem a agenda dos filhos com aulas de todos os tipos? Dos que procuram definir o futuro dos filhos do modo como eles arquitetam?”. É diferente, conclui, mas sabemos que é evocativo.

A seu modo, essas senhoras cujo próprio corpo abandonou a cena, são abusadoras. Possuem com suas fantasias o corpo das filhas como um pedófilo que goza em preencher com seus desejos sexuais o vazio da criança que ainda desconhece os dela. Em ambos casos temos o adulto reinando absoluto, e a infância transformada em objeto passivo.

Mas por que esse circo de horrores tem audiência garantida? Horroriza e fascina essa cena de submissão infantil porque de algum modo nos identificamos com seus protagonistas. Na verdade sabemos que é inevitável na criação de um filho que os pais acabem projetando sobre ele seus desejos e frustrações. Não há nada anormal nisso, ele precisa confrontar-se com essas forças, mas apenas enquanto os parâmetros que usará para construir seus próprios ideais. Assistimos aliviados, pois nos salvamos dessa! Frente a essas mães totalitárias a nossa é um exemplo de democracia! Mas também nos hipnotiza, pois quem não desejou tornar-se a encarnação das fantasias da mamãe? Assim teríamos a garantia do seu amor? A mãe da pequena miss representa nossos piores pesadelos e inadmissíveis desejos.