Feminilidade
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Uma Cinderela ao contrário: vinte anos da morte de Lady Di.

Lady Di foi uma princesa diferente, casou-se para ser infeliz para sempre. Ascendeu e morreu como sua precursora midiática Grace Kelly, mas representou o lado obscuro das celebridades do fim do século XX. Cada tempo tem a princesa que precisa.

Lady Di foi a primeira princesa-celebridade à inversa: casou-se para ser infeliz para sempre. Foi célebre em sua transformação de uma nobreza obscura na princesa mais midiática que a monarquia britânica já teve. Não estou falando de presença em tabloides, fofocas e outras bobagens que oferecem o material que mantém o reinado em pé. No caso da nossa princesa, ela foi icônica em sua beleza, em seus segredos que nunca foram secretos, em sua oposição silenciosa e escandalosa à opressão real da rainha mãe. Todos sabemos sem saber dessas coisas, tão provavelmente inverídicas ou verídicas, tanto faz, mas certamente formatadas pelo interesse popular. Cada tempo tem a princesa que merece…

Diana foi a Cinderela ao contrário: foi escolhida, casou-se, caiu nas graças do povo mas não da casa real. Criou brilho próprio como diplomata e filantropa, teve vazadas suas depressões, anorexias e a dor pela frieza do marido. O príncipe, o mundo todo sabia, tinha sua paixão, que nunca foi ela. Diana é uma princesa mártir: ocupou seu lugar público, guindada a ele pela condição de esposa, sem nunca ter tido o direito ao trono no coração do aparentemente insípido consorte. Sua atuação pública, além dessa condição de uma certa marginalidade entre os nobres (apesar de sua linhagem), é de uma dedicação às causas humanitárias mais destacada do que havia sido visto em suas antecessoras.

O povo tinha de tudo para se identificar com ela: uma nobre que “não fazia parte”, como todos nós plebeus somos excluídos da nobreza; uma princesa com enorme coração, contrariando a vocação monárquica a ser mimados e indiferentes à fome. Lady Dy foi, então, uma nova síntese de verdadeira nobreza com seu oposto, os oprimidos, os plebeus sem valor frente à realeza, as mulheres abafadas e deprimidas pelo casamento. Ela ascendeu aos céus da admiração e também declinou em público, celebrizou-se pelo carisma e pelo sofrimento, em sua vocação para o martírio que angariou todo tipo de sentimento, menos a indiferença.

Muito se disse sobre a condição de celebridade que logo se colou à sua figura carismática, mas não podemos esquecer que a mistura de monarquia com show business já havia sido inaugurada em nosso tempo pela classuda Grace Kelly. A atriz loira e perfeita que subiu ao trono de Mônaco realizou o sonho de todas as plebeias: ser vistas pelo príncipe, escolhidas e levadas ao altar real.

Kelly já era icônica antes de tornar-se princesa. Como soberana, venceu, sem concorrer, todos os títulos de beleza nobiliárquicos e politicamente foi ativa em várias causas humanitárias e artísticas. Não é à toa que o casamento de Diana Spencer, 32 anos mais nova do que a mítica soberana loira do pequeno principado, foi referenciado no de Kelly. Este foi constantemente evocado durante a pomposa cerimônia televisionada da a transformação de Lady Di em Princesa de Gales.

Mas Diana era outro tipo de princesa, mais afeita à condição tumultuada das atrizes e figuras públicas contemporâneas, onde o escândalo não é feito de traições aos “bons costumes”, mas sim de exposição dos momentos de fragilidade pessoal, que também compõe o glamour. Por isso, nossa Cinderela britânica às avessas, é representante do “infelizes para sempre”. Hoje, fazem vinte anos da sua morte, em um acidente automobilístico, como James Dean, Grace Kelly e tantos habitantes reais do nosso imaginário. Eles foram mártires da velocidade e da nossa voracidade midiática.

Hoje as princesas são outras: anti-princesas, Valentes, Maravilhosas e guerreiras. Parece menos perigoso para as mulheres, pois lutam batalhas reais, arriscam suas vidas, mas, como se costuma nos contos de fadas, sempre vencem. AS herdeiras de Lady Di são soberanas feministas, adiam a escolha de um príncipe, privilegiam a sororidade. Elas protagonizam cenas perigosas, mas nenhuma delas vitimou tantas mulheres quanto a depressão, grande inimiga do passado, antes que pudessem combater no mundo real. Lady Di ficaria surpresa se pudesse ver quão longe as novas princesas puderam chegar, talvez o

Ventre livre, quanto falta para isso?

Ventre livre, quanto falta para isso?
Até quando viveremos num país com religião, nem diria oficial, mas sim ditatorial? As dificuldades de manter, assim como de interromper uma gestação (detalhadas aqui) devem ser levadas em conta, mas a liberdade é uma premissa!

É incrível nosso atraso em  insistir na proibição do aborto e em permitir que argumentos de caráter religioso se imiscuam na vida de quem não lhes partilha as crenças. Quando finalmente viveremos em uma país sem religião, não diria oficial, mas sim ditatorial? Neste momento, envolvidos com o perigo da contaminação das gestantes com o Zika vírus, discute-se seu direito a abortar, caso não se sintam em condições de criar um filho com as sequelas que sabe-se ocorrerão no feto.

Criar um filho é uma missão quase impossível, mas mesmo assim homens e mulheres se lançam em seu encalço, dedicando a maior parte dos esforços de sua vida para fazer tudo dar o mais certo possível. Tal jornada só tem chance de sucesso se os envolvidos estiverem engajados nisso até a raiz dos cabelos, até os ossos!

Uma criança com problemas de desenvolvimento encontra uma família mais exigida ainda: terá que suportar o desencontro entre os ideais sociais e aquilo que seu filho conseguirá cumprir, serão criadas metas de acordo com suas possibilidades e se aprenderá a valorizar e amar a trajetória específica dessa criança. Isso após superar o luto pelo filho idealizado que definitivamente não nasceu.

Imagine então toda essa operação quando alguém decide não enfrentar esse desafio e é obrigado a fazê-lo. Na prática estamos, sempre, falando de mulheres humildes, pois o aborto existe enquanto possibilidade para aquelas que puderem pagar por ele.

Ninguém é entusiasta do aborto, mas qualquer um que já trabalhou em saúde pública sabe que ele é uma sofrida realidade que envolve milhares de mulheres, e sermos contra ou a favor praticamente não interfere na maioria das condutas.

Quando acontece, o aborto é uma das mais sofridas experiências na vida de uma mulher. Desde o início da fecundação, ela vê-se tomada de manifestações físicas e psíquicas que impactam totalmente sua existência: sua atenção e sono ficam alterados, seu corpo muda de formas quase imediatamente, é como um país invadido por outro que altera e interfere na cultura da nação sitiada.

Quer tenha sido fruto de um acidente, do descuido irresponsável ou de um desejo, uma fecundação sempre será significativa, restará como um evento que assumiu uma magnitude inusitada, no qual uma relação sexual torna-se potencialmente um destino. Por isso, sua interrupção será para sempre uma encruzilhada inesquecível na qual se escolheu uma das vias.

Esse evento fará aniversário, será uma marca na existência, um divisor de águas. Justamente por isso não se pode tratar do tema como se fosse apenas um dilema moral, mais que isso, é uma questão de liberdade pessoal, de autonomia, e só deveria assumir uma dimensão pública por demandar atendimento de saúde.

Na prática, para aquelas que decidem que não querem ou não podem manter uma gestação abre-se um calvário, onde serão maltratadas pela clandestinidade dos métodos, pelo silêncio punitivo de todos, justamente quando estão frágeis e precisariam ser apoiadas e escutadas. Imagine o que significa para uma mulher sentir todas as transformações, sofrê-las durante semanas, grávida de um filho que não deseja ter, passar pela intervenção cirúrgica do aborto, elaborar a decisão tomada, sangrar e sentir dores, tudo no mais completo isolamento.

A fecundidade não se alinha totalmente com a condição e o desejo de ser mãe. Deslizes acontecem, por culpa do inconsciente ou da natureza, mas muitas vezes eles não habilitam para a jornada da maternidade. Para um filho dar certo a mulher precisa escolher. Por lei, ela precisaria ter seu ventre libertado da imposição de procriar.

Dizem os pastores do rebanho de Deus que os embriões a Ele pertencem, se houve uma fecundação foi porque Ele assim o quis. Portanto uma vida pouco deveria aos pais que apenas reproduziriam conforme os desígnios do criador. Nessa lógica não precisamos perguntar em nome do quê resolvemos cometer esse ato tresloucado de gerar outro ser humano. Pena que ele vai ser mais à imagem e semelhança das nossas tentativas de acertar e das inevitáveis trapalhadas do que do Criador.

Nos debates sobre a legalização do aborto, além dos dilemas éticos sobre quando começa a vida, e quem tem direito sobre ela, fica omitido um fato: não conseguimos realmente dar vida a um filho que não desejamos. Somos pouco magnânimos, incapazes de um amor que não nos venha a calhar. Queríamos ou não, é assim que as coisas acontecem.

Eu não pedi para nascer! Dizem os adolescentes, quando os pais ficam querendo se demitir do trabalho que eles dão. Às vezes é preciso lembrá-los da responsabilidade que contraíram. A educação de um filho não acaba quando a criancinha mimosa dá lugar ao cara chato, volumoso e argumentativo em que todos os filhos se transformam.

Por outro lado, crescemos quando descobrimos que é inútil colocar nos outros a razão de todas nossas mazelas e nos dispomos a assumir a autoria de nossos feitos, os direitos e os avessos. É aí que nos habilitamos a ser pais, pois como é que vamos cuidar de alguém enquanto nem de nós nos incumbíamos?

Ser pai ou mãe é uma missão quase impossível, que requer todos os recursos, inclusive aqueles que desconhecíamos que tínhamos. Nos cabe ensinar o que não sabemos, proteger quando nos sentimos desamparados e amar prevendo uma separação. Simples assim. Não é tarefa para se entrar de costas, por isso um filho francamente indesejado ou totalmente inoportuno será abandonado, negligenciado ou enlouquecido.

O desejo por um filho não é de um jeito só, ele pode ter inúmeras conjugações e todas elas funcionam de alguma maneira. Há ocasiões em que nasce alguém que chega cedo demais ou tarde demais, que é fruto de uma relação muito jovem ou que já acabou, conseqüência da vontade de um, mas não do outro, enfim, variações que demonstram que querer um filho é algo que pode ser escrito por linhas tortas e em geral o é.

O que essas histórias têm em comum é que alguém envolvido no acontecimento de uma gravidez, de alguma forma está disposto a bancá-la. Mas não é sempre assim, por outras vezes descortina-se a previsão de um pesadelo, um sentimento de portar um Alien, que destruirá a vida da mulher ou do casal, invadidos por um fato que não têm condições de sustentar. Nesses casos, o aborto é um direito de interrupção de algo que adoeceria a todos os envolvidos. Quando há escolha, torna-se mais responsável a relação com cada gestação mantida. Filhos assim nascidos podem não ser divinos, mas ainda são maravilhosos!

Filhinhos da mãe

Há uma forma de ser mulher que está em declínio: a da mulher que materna seu homem e realça com sua dependência o poder dele. Os viúvos dessa feminilidade em extinção estão ficando desamparados e violentos.

Os cariocas estão correndo o risco de eleger como prefeito um homem que repetidamente espancou sua esposa. Em sua defesa, o candidato a candidato perguntou: “quem não tem uma briga dentro de casa? Quem não tem um descontrole?” De fato, tampouco conheço casais que jamais tenham discutido, mas palavras e lágrimas costumam dar conta do recado.

Muitos legisladores, maridos e namorados estão mostrando-se irritados e inseguros com a desobediência e as exigências das mulheres. Amantes ciumentos espancam e até matam aquelas que, em seu imaginário, só poderiam estar interessadas em outro homem. O que não ocorre a esses senhores destemperados é que elas possam querer tantas outras coisas que independem da presença masculina. Podem desejar a dignidade que eles lhe negam, um clima agradável no lar, a liberdade de não ter filhos, enfim, coisas para as quais elas se bastam. Menos habituadas ao prestígio, criadas para ser mais cuidadoras que cuidadas, as mulheres estão melhor preparadas para a jornada solitária.

Há uma cruzada em defesa de uma feminilidade que está em declínio. É a que corresponde à ideia da que elas existem para funcionar como um espelho que reflete a imagem do homem duplicada, agigantada pelo olhar  feminino de admiração. Aliás, essa metáfora é de autoria da atualmente difamada Simone de Beauvoir. Como poderão eles ser grandes homens, sem uma grande mulher por trás?

Curioso, porque mulher grande mesmo é a mamãe: aquela giganta que faz seu menininho sentir-se o maior tesouro que a vida lhe deu. As esposas submissas são sua forma de sobreviver na vida dos homens adultos. O patriarca falido encontrou seu último reino nos braços da uma companheira que é misto de mãe protetora com criatura dependente. A extinção dessas tristes personagens, um marido ao modo menino mimado e a esposa que é sua sombra protetora, seria uma questão de tempo se não esbarrasse na resistência das próprias mulheres.

Muitas continuam submetendo-se, ou pior, acobertando maridos violentos, por causa da superproteção, que é uma fraqueza tipicamente materna. Alegam que os “coitados” estão numa fase ruim, culpam-se por tê-los irritado. Onipotentemente acreditam que vão domar sua fúria.

Há mulheres na vida dos legisladores que impõe recuos às liberdades femininas conquistadas. Qual o papel delas na tolerância com a violência que as fere e extermina? Esses homens têm mães, esposas, filhas, netas, sobrinhas, colegas, amigas e eleitoras. O primeiro machismo a ser vencido é o das próprias mulheres. São muitas as que ainda reconhecem no lugar da mãe a essência da feminilidade e na construção dos poderes do seu menino sua máxima realização. Seus homens só se comportarão como adultos no dia do ocaso da misoginia feminina.

A menarca assassina

O sangue mais assustador escorre do corpo de uma mulher.

Em 1974 Stephen King teve uma ideia que abandonou porque algo naquela trama lhe dava muito medo. Foi somente por insistência da esposa que a retomou. Detalhe, estamos falando de King, o mais popular escritor de novelas de terror.

Era a história de Carrie, uma adolescente desengonçada, que vivia só com a mãe, uma beata delirante. Sua inadequação já fazia dela motivo de bullying (ainda não se usava esse termo), quando aconteceu-lhe de menstruar pela primeira vez no vestiário da escola. Sem saber o que estava lhe acontecendo, entrou em pânico ao ver o sangue espalhar-se pelo chão do chuveiro. As colegas reagiram aos gritos, fazendo troça e afogando-a numa chuva de absorventes. As reviravoltas da história culminam com a jovem sendo eleita rainha do baile de formatura e recebendo, junto com a coroa, um balde de sangue de porco na cabeça.

Depois de sofrer essa agressão, a jovem, que já revelava seus poderes de movimentar objetos com o pensamento, reage com fúria e desencadeia a completa destruição do baile e da cidade. Carrie provocou incêndios e esvaziou os hidrantes, produziu curto circuitos e caos. Quem não foi queimado, foi eletrocutado e sobraram poucos, principalmente entre seus colegas, para contar a história. Tudo isso só por causa de uma menstruação? Para uma história escrita na segunda metade do século XX, o que há de tão ameaçador no corpo de uma garota?

Mamilos femininos numa praia são uma afronta, até amamentando não são bem vistos. Já os masculinos mesmo que proeminentes e marombados são exibidos com liberdade e orgulho. A visão do sangue menstrual é proibida nas redes sociais, mas se a imagem mostrar uma virgem vertendo lágrimas de sangue tudo bem. A mulher é potencialmente suja, perigosa, diz-se que sua imagem provoca impulsos sexuais e agressivos incontroláveis nos homens. Por isso seria a culpada pelos abusos que sofre. Ela deve se encobrir. Se ficar grávida, mesmo que seja fruto de um estupro, deve gestar e parir o filho de um monstro. Acaba de ser aprovado um projeto de lei que lhe impede o acesso ao remédio que a livraria disso. O corpo da mulher não lhe pertence. O que há de tão ameaçador no corpo de uma mulher? Em pleno século XXI?

A história de Carrie continuou sendo re-filmada, a última versão é de 2013. Isso prova que a fantasia da feminilidade poderosa e demoníaca segue viva no inconsciente do nosso tempo. Triste persistência, num tempo em que a vida das mulheres começaria em tese a respirar ares de liberdade: estamos nos tornando uma legião de médicas, advogadas, pedreiras, pensadoras, líderes, soldadas e o que mais quisermos ser. Pelo jeito, ameaçamos levar nossos perigosos fluidos menstruais para contaminar a sociedade e destruir tudo, que dizer dos nossos seios, dos nossos ventres nada livres? Em pleno século XXI.

publicado em ZH em 8.11.2015

Eu também!

Passamos a noite no ballet das cobertas, num strip-tease de arrebato, mais ansioso que sensual, sendo despertadas por um cérebro sacana quando caímos em sono profundo. O rendimento baixa, o sutiã aperta e temos ataques de comer doce, justo quando engordamos até com chuchu.

A atriz Fernanda Torres teve a coragem de comentar em sua coluna na Folha (25.09.2015) que a menopausa havia chegado, anunciando-se com as cornetas da insônia e das ondas de calor. “Temo tocar no assunto e virar porta-voz de um fenômeno vivido em sigilo pela maioria absoluta das mulheres”, escreveu. Ela sabia que estava mexendo num vespeiro e estou fazendo exatamente o que ela tentou evitar, mas seu gesto abriu precedentes para mulheres menos notórias dizerem: eu também!

Nascer com útero e ovários é ser apresentada desde a puberdade à arbitrariedade dos hormônios que fazem do corpo um relógio, um calendário. Somos regidas por uma sucessão de eventos tanto previsíveis quanto mutantes, tão infalíveis quanto inquietantes em sua ausência. Mensalmente, temos que posicionar-nos frente à fertilidade. A cada aniversário o dilema da maternidade se renova, levando em conta que ela é datada. É uma negociação tensa na qual os desejos e o organismo jogam cada um com sua mão de cartas. Na meia idade, a temida decadência do corpo que lota academias, consultórios de plásticos e dermatologistas, aparece junto com o fantasma de deixar de ser mulher. Por isso todas envergonham-se silenciosa e solitariamente. Fernanda se “surpreende o quanto a menopausa se mantém velada, secreta”.

Conheço bem esses sentimentos, vivo com eles discretamente há alguns anos. Passamos a noite no ballet das cobertas, num strip-tease de arrebato, mais ansioso que sensual, sendo despertadas por um cérebro sacana quando caímos em sono profundo. O rendimento baixa, o sutiã aperta e temos ataques de comer doce, justo quando engordamos até com chuchu.

Há formas químicas de amenizar esses contratempos, além das vantagens de uma vida saudável, que melhora sensivelmente o quadro. Mas não viraremos atletas e ascetas, com um sorriso nos lábios, só porque a menopausa aconteceu. Os vaticínios então são os piores: anuncia-se o ressecamento de tudo e principalmente do desejo sexual. Não é o que dizem as mais corajosas, dispostas a reconhecer seus desejos livres da pressão social do crescei e multiplicai-vos.

Aos homens maduros têm sido dada a opção de sair dessa uivando, lobos encanecidos. Movidos à pílula azul da ereção eterna, saem em busca da jovem caça que lhes devolva a jovialidade. Para as mulheres, parece que o jogo acabou a não ser que se fantasiem de igualmente patéticas Barbies estorricadas. Ao contrário, é a hora de seguir em frente, aproveitando que junto às golfadas de calor costuma vir uma onda de liberdade. Algumas rodadas da vida, bem ou mal, já foram jogadas e algo, bem ou mal, se aprendeu. Ainda somos suficientemente jovens para novas aventuras e já, espera-se, menos ingênuas e fantasiosos. Podemos dar umas gargalhadas juntas, enquanto nos abanamos.

Nossas tantas Alices

Por que Alice virou um “nome de época”?

Andam nascendo muitas Alices. Essa questão de nome de época nos pega sem nenhuma consciência de estarmos participando de um coletivo de repetidores. Aqui em casa fizemos isso nas duas gestações, nas quais nos apaixonamos por nomes para nossas filhas que pareciam perfeitos e originais. Chegada a época de creche ou escola, a maior parte dos pais surpresos descobre-se bem pouco original.

Há nomes que evocam um jogador de futebol em alta, um personagem da novela, atriz ou modelo famosa. Mas os verdadeiros nomes de época não tem origem tão clara, só passam a soar bem e não sabemos por que. Porém não creio que em relação à escolha de Alice isso seja tão enigmático.

Fazem cento e cinquenta anos que Carroll escreveu uma história que havia contado, durante um passeio, para as filhas de um colega. Entre elas estava Alice Liddell, por quem tinha declarada preferência. Ela gostou tanto daquela trama, na qual a protagonista tinha seu nome, que pediu que a escrevesse para ela. Convidado a publicá-la, ele acrescentou alguns personagens e cenários, compondo o inesquecível Alice no País das Maravilhas. Mas o que fez dessa história maluca, cheia de charadas lógicas, criadas por um matemático gago que dava aulas soporíferas, um clássico? Por que até hoje nascem Alices, francamente inspiradas pela heroína desta narrativa?

Carroll cativou seu público infantil inicial por criar trocadilhos e mal entendidos entre as personagens, que soam parecidos ao pensamento das crianças. Além do típico humor inglês, que mistura duras críticas com toques de absurdo e caricatura. Provavelmente, o sucesso da história foi decorrente da complexidade de linguagem, dos personagens e cenários oníricos e principalmente a irreverência tão diferente dos contos morais e pueris que eram dirigidos às crianças.

Carroll inventou a primeira heroína feminista da história da literatura infantil. É por isso que continuam nascendo tantas Alices. Ela explorou o País das Maravilhas debatendo, desobedecendo, questionando as figuras importantes do lugar, sendo irônica . Em nenhum momento teve medo ou vontade de voltar para casa. Ao contrário, para viabilizar as aventuras, foi mudando de tamanho sempre que necessário para ir a um novo lugar ou escapar-se de uma enrascada.

Paira uma dúvida sobre a pedofilia do autor, dado ao seu fascínio por meninas a quem inclusive fotografava adormecidas, com as roupas em sugestivo desalinho. Arisco dizer que Carroll era seu genuíno admirador. Não importa a identidade de gênero que ele teria assumido ou que teríamos lhe atribuído hoje, talvez gostaria de ter sido uma delas. O fato é que ele fez da pequena Alice Liddell o protótipo das meninas destemidas que hoje os pais querem colocar no mundo. E isso há cento e cinquenta anos!

A bela adormecida tamponada

Uma mulher indisponível, nem pornográfica, nele erótica, é uma imagem sinistra…

Nas imagens pornográficas as mulheres aparecem explicitamente ofertadas ao olhar e ao acesso dos interessados. Estes, ao menos imaginariamente, podem dispor delas para seu prazer. Quanto mais pornográfica e menos erótica for a representação, mais visíveis serão os orifícios “disponíveis”. A transformação de alguém em uma imagem incumbida de encenar fantasias alheias, sem levar em conta as que ele próprio possa ter, é o cerne da pornografia e o avesso do erotismo. As pessoas que consomem esse gênero não são egoístas ou pervertidas. São apenas neuróticos triviais que utilizam representações anônimas daquilo que imaginaram para atingir o gozo sexual.

É necessário que o outro seja passivo? Sem problemas. Dominante? OK. Cai bem que esteja encontrando prazer nas mãos de alguém do sexo oposto que não seja eu? Tudo bem. Preciso ver duas pessoas do mesmo sexo se desejando? OK.. Vários participantes, todos desejando uma só mulher? Para tudo há uma solução: a indústria pornográfica arregimenta pessoas capazes de praticar os contorcionismos necessários, a serviço de um Kama Sutra comercial pouco encontrável numa real cena de sexo.

Agora imagine uma dessas mulheres, linda e loira, colocada em posições clássicas da pornografia mas com todos os orifícios de seu corpo tamponados. Olhos, boca, nariz, ouvidos, vagina, ânus, cobertos com uma massa branca que a impede de qualquer relacionamento, ativo ou passivo, com o mundo. Numa urna de vidro, ao lado das fotos, estão os tampões, modelados em seu corpo.

No espaço de exposições do Santander, em Porto Alegre, entre outras instalações instigantes, os artistas Laura Cattani e Munir Klamt propõe essas fotos, da mulher tamponada, nem pornográfica nem erótica: sinistra.

Eles chamaram o conjunto das obras expostas de “Aporia”, traduzível por “impasse”, “beco sem saída”. Esse é o efeito desse corpo indefeso e inacessível. A anti-bela-adormecida dos retratos não está à espera nem de um príncipe que a beije, nem de um voyeur que a contemple. Ela tem seu corpo fechado, mas permanece em poses de disponibilidade, representando um paradoxo de passividade interditada.

No local, travei um diálogo com uma moça que trabalhava ali. Perguntei de quem era a obra. Ela entendia que eu indagava quem era a moça e dizia não saber informar a identidade da modelo. Insisti e ela também. Após o reiterado mal-entendido, compreendi que ela não aceitava o anonimato da retratada. Afinal, se era seu corpo, por que não seria ela identificada? Ficamos nessa conversa de surdos porque ambas nos angustiamos frente às fotos. Uma mulher cheia de rolhas é um doloroso retrato da passividade feminina. Ele nos mostra que fomos educadas para estar sempre alheias ao mundo e disponíveis para o uso.

A vida em cinza

Uma Cinderela com boas pitadas de erótica feminina, as prateleiras exibem o produto perfeito. O encontro de 50 tons de cinza com as consumidoras da paixão sem ambiguidades.

Imagine que você fabrique um produto qualquer: uma esponja de aço, por exemplo. Seu sonho de empresário seria tornar-se Bombril, que em nossa língua é sinônimo desse objeto. Agora imagine que os amantes almejassem o mesmo: ser tão perfeitos um para o outro que suprimissem a concorrência. Esse é o segredo de Christian Grey e Anastasia Steele, protagonistas de um amor absoluto em “50 tons de cinza”, escrito pela norte-americana Erika Leonard James.

Respeitosos às leis do mercado, os amantes da história reúnem-se em torno de uma mesa de negociações para acertar detalhes de seu contrato. Não se trata de um casamento, mas sim de um código de comportamento sexual, submissão e domínio. O acordo não é pacífico, há escaramuças e desentendimentos, como em qualquer novela romântica, mas é para apimentar o final feliz, que se dá ao cabo de três volumes e filmes.

Numa cartada só, a Sra. James conseguiu suprimir a maior parte das interrogações e tormentos  que nos preenchem e ocupam. Gastamos a existência a indagar qual nosso valor e o que gostaríamos de conquistar, o que é ser um homem e o que é ser uma mulher. Além disso, atrapalham-nos para amar as lembranças infantis do prazer e do terror de ser subjugados e protegidos. Para Christian e Anastasia está quase tudo resolvido.

Eles são virgens, ela de corpo e ele de coração. Ele é riquíssimo, jovem e  belo. Sim, os príncipes ainda existem. E como as Cinderelas também, esse cobiçado solteiro fica mesmerizado quando pousa os olhos na desmilinguida universitária que aparece para entrevistá-lo para um jornalzinho de faculdade. O que ocorre entre os dois é um desejo incontrolável à primeira vista, que logo se transforma em juras de amor.

Rapidamente a relação torna-se o negócio mais importante para ele e o projeto de vida prioritário para ela. Ele quer subjugar-lhe o corpo, mas acaba entregando-lhe a alma. Ela cobiça possuir a alma dele, mas entrega seu corpo com um prazer minuciosamente descrito. Apesar dos chicotes, cintos e palmatórias próprios da cena sadomasoquista, o livro difere das clássicas publicações do gênero ao dedicar grande espaço à exploração do corpo e dos prazeres femininos, dos quais Anastasia goza amarrada e amordaçada.

Pense bem nas suas dúvidas: você nunca sabe direito o que quer nem o que precisa para ser desejável. Além disso, sente-se ambivalente quanto aos prazeres da carne, nos quais sempre fantasia um tanto a mais do que realiza. Como as mulheres nunca tiveram um destino em aberto, o recato era imprescindível e as escolhas restritas, o leque dessas vacilações era para elas menos explícito. Com a liberdade, ganharam o benefício e o inferno das dúvidas. E. L. James tem a resposta para todos esses males: não enxergue cores, atenha-se ao cinza e viva uma vida Bombril.

Socorro, barata!

Mulheres e baratas: inimizade letal, intimidade herdada.

Meu marido costuma perguntar-me: para onde estas olhando? Brinca que se uma manada de elefantes estiver marchando na calçada eu casualmente estarei reparando em alguma folhinha caída. Há uma exceção: tudo isso altera-se radicalmente quando o assunto é barata.

A simples presença desse inseto dito inofensivo torna-me uma observadora ninja. Não há ruído dele que escape aos meus ouvidos apurados e os olhos são capazes de visão noturna. Entre a percepção e o ataque de pânico costuma não haver lapso. Ondas de calafrios me percorrem e fico em pânico de que a barata me toque.

Graças essa fraqueza, sinto empatia com o drama dos pequenos, que gritam apavorados ao serem obrigados a aproximar-se do Papai Noel, de um cachorro ou do que for seu objeto fóbico. Isso acontece porque no começo da vida temos dificuldade de diferenciar onde termina o eu e começa o outro, assim como o que vem de dentro e de fora do corpo. Também nem sempre é fácil distinguir os adultos amorosos e confiáveis dos monstros. Já na escuridão, sentem-se diluídos, sem contornos, o que é fonte dos terrores noturnos.

Para todos esses males, temer uma figura facilmente encontrável organiza a geografia do perigo, tornando-o mais passível de controle: se o medo se focar no cachorro da vizinha, que sempre late quando passamos, ou no Papai Noel de Shopping, basta evita-los e estaremos seguros. O pequeno apavorado não tira os olhos do monstro, mantendo-o na mira.

Meu problema com as baratas é comum entre as mulheres que, tradicionalmente confinadas, partilharam o destino das crianças. A privacidade da casa era um não lugar, sua voz não fazia diferença, seu pensamento não era chamado a participar. Nunca sabiam bem quem eram, pois a identidade não vinha dali. Reinavam, mas num território de exílio dos homens públicos, em contato com a roupa suja dos patriarcas, em sentido real e figurado. Longe dos ritos sociais, que protegem e organizam o corpo e as ideias, convivendo com as fraquezas, doenças e vilanias dos que se bancam fortes e idôneos lá fora, elas sentiam medo.

A barata, forma renitente da sujeira imune mesmo à limpeza mais abnegada, é o pesadelo da mulher. Representa seu trabalho repetido de Sísifo, o castigo da sujeita invencível. Como todo objeto fóbico, deve ser próximo e assíduo. Frágeis como crianças, em seu mundo isento dos direitos civis e cheio de deveres servis, as fêmeas elegeram na barata um perigo que pode ser mapeado e combatido. Hoje isso não faria mais sentido, pois também somos figuras públicas, mas continuamos em pânico. Talvez ainda estejamos marcadas pelo longo período de dependência. Para mim, pelo menos, nada no mundo parece tão reconfortante quanto a paz que se instala uma vez que o monstro, de borco, cessa de espernear para sempre.

Banheiro feminino

Banheiros públicos, onde elas se encontram, fazem fila e passam apertos…

Há um território em que fica muito evidente a diferença entre homens e mulheres: o banheiro. Num congresso recente ocorreu o de sempre: a longa fila de mulheres saía para fora do banheiro, de tal modo que o Cofee Break não passa de Pipi Break. Enquanto isso, o recinto equivalente masculino estava às moscas e os rapazes, livres das suas premências urinárias, puderam descansar e lanchar.

Há um tempo adoto uma prática “terrorista”, que conta  com a conivência de um homem solidário que age como batedor. Ele entra, verifica se há algum usuário em situação constrangedora e, quando o território fica liberado, dá a deixa para que possamos invadir o banheiro masculino. Na sequência é colocada uma sentinela na porta e as mulheres desafogam sua fila, numa espécie de alvoroço transgressivo. Já existem locais, evidentemente em ambientes mais civilizados, em que não há separação entre o Masculino e Feminino. Pelo jeito frequentar os mesmos banheiros não redunda necessariamente em assédios sexuais.

Mulheres vão ao banheiro com mais assiduidade. Isso se deve a razões fisiológicas, como os ciclos hormonais que nos transformam regularmente em esponjas que edemaciam e esvaziam. Também o fazemos em bando: quando precisamos confidenciar, a deixa é “vou ao banheiro”, ao que a(s) amiga(s) acrescenta(m), “vou contigo”.

A logística banheirística feminina é mais complexa. É necessário literalmente desmontar-se, removendo meias (que costumam romper-se), suspender saias e vestidos, tirar calças e roupa interior. Além disso, temos que sentar, ou, pior, não sentar. Desafiaria muitos homens a urinar semi-agachados, com as roupas arriadas, cuidando para que nem o corpo, nem as vestes que seguramos com as mãos, toquem na sujeira do chão ou da privada. Devia ser uma modalidade olímpica. Há o necessário papel higiênico, que eles raramente usam, o qual deve ser depositado num cesto nojento cujo conteúdo ameaça desabar sobre a equilibrista. Sem contar com os trâmites da menstruação, que tornam tudo isso muito mais demorado e complicado. Por último, resta nossa eterna insegurança que nos leva a consultar o espelho e retocar a maquiagem como se nosso rosto tivesse fugido enquanto não o estávamos vendo.

A pergunta é: por que os arquitetos e engenheiros, especialmente as profissionais mulheres, continuam planejando banheiros simétricos. Queremos igualdade sim, de salários e oportunidades, mas, relativo aos banheiros, a merecida consideração reside em levar em conta as diferenças, construindo banheiros maiores para as mulheres. Sinceramente, quando fico numa fila do banheiro feminino sinto como se, de alguma forma, fossemos punidas por querer ter uma vida pública. Pediram igualdade? Então tomem!