Feminilidade
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Mamãe posso ir?

Por que as mulheres não se libertaram dos torturantes saltos altos?

Lembra aquela brincadeira infantil, em que se fazia a pergunta: - mamãe posso ir? Se a “mamãe” dissesse que pode, seguia-se nova questão: - quantos passos posso dar? Ela dizia um número qualquer. Aí o “filho” novamente perguntava: - De que? Ao que ela designava um bicho: passinhos minúsculos de formiguinha, saltados de canguru, grandões e pesados de elefante, rastejantes de cobra. Ia-se avançando conforme a boa vontade da criança que fizesse o papel da progenitora.

É mais o menos esse o diálogo imaginário que muitas mulheres mantêm com seus sapatos antes de sair de casa. Vou ficar sentada o dia inteiro? Passinhos de princesa em saltos altos. Vou andar de ônibus, metrô, sair, andar à pé? Passos largos em calçados baixos e cômodos. Como se vê, os sapatos femininos são acompanhados de um dilema cotidiano de mobilidade.

Dizem que caminho com a graça de um pinguim, motivo pelo qual nunca fui elegante em delicados calçados de saltos e bicos finos. Além disso, são raras as ocasiões em que fico disposta a condenar-me aos passos claudicantes dos sapatos tipicamente femininos. Já vi mulheres que correm como gazelas mesmo dentro de improváveis saltos altos, plataformas e tirinhas, nunca serei uma delas.

Há locais de trabalho que exigem das funcionárias que compareçam usando saltos. Devem apresentar-se sensuais e atraentes, mesmo que a função exija que permaneçam em pé ou se desloquem bastante. Executivas, diretoras, CEOs, não se concebem sem seus scarpins. Os saltos lhes dão uma sensação de envergadura e elegância, sem perder a delicadeza que se espera dos pés femininos. Dores, doenças e contraturas são recorrentes na vida dessas trabalhadoras. Por que elas não se revoltaram contra essa forma de tortura, herdeira do espartilho e da saia de armação, que sufocavam e imobilizavam suas antepassadas?

A alvura da pele, assim como a delicadeza das mãos e dos calçados, foram associados à nobreza. Eram sinais de distinção, pois significavam que não faziam trabalhos braçais. O bronzeado artificial e o corpo perfeito, ambos investimentos onerosos, hoje cumprem a mesma função. Ser inútil e fútil era um valor, pelo jeito isso não mudou tanto.

No tempo das nossas avós, a dependência, fragilidade e enfeites das suas filhas e esposas sublinhavam a glória do seu provedor. Eram prisioneiras, era ruim para sua reputação circular sem supervisão masculina ou materna. Ao libertar-se, elas puderam usar cabelos curtos e calças compridas, ir aonde quisessem, ser cidadãs. Mas, apesar do incômodo, continuaram apegadas a algumas dessas insígnias femininas de distinção de classe – saltos altos, unhas compridas. Apesar do tanto que já andaram, as mulheres ainda precisam ganhar mobilidade: praticar outros passos, sem ter que pedir licença para ninguém.

Os sem chinelos

A fadiga é democrática e universal.

O marido chega em casa exausto. Os chinelos o esperam em frente ao sofá. Sua esposa trabalhou o dia todo para que esse momento fosse perfeito: o toque de recolher silencia as crianças, a comida pronta e fumegante chegará à mesa com precisão suíça. A conversa será amena, preocupações devem aguardar o momento certo para não exasperá-lo com miudezas domésticas. Ela se desespera quando precisa comunicar-lhe problemas, confusões do filho na escola, um conserto que vai custar caro. Sua função é zelar pelo seu repouso.

Mas e ela, a esposa e mãe, que também trabalhou o dia todo equilibrando pratos no ar para que a família e o orçamento funcionassem, quando é que descansava? Donas de casa podiam até ter algum tempo ocioso, mas não era considerado de descanso, porque a ninguém ocorria que elas estivessem cansadas, afinal, “não trabalhavam”.

Faz décadas que essa cena familiar desapareceu da maioria das casas, o feminismo e a democracia familiar derrubaram o senhor e seu castelo. Hoje os chinelos não esperam por nenhum de nós. À noite não ocorre a pais e mães calar seus filhos, pois costuma ser a hora em que se conversa e brinca, num encontro marcado pela saudade e denso de culpa. No lugar do pai reverenciado e da mãe gueixa, a avalanche de tarefas e preocupações, cada dia mais equânimes para ambos. As questões domésticas espreitam o dia todo a volta do casal exausto e caem sobre eles no momento em que abrem a porta.

Sempre alertas, vivemos como as antigas donas de casa: nunca descansamos. As diversas formas de comunicação virtual eliminaram as barreiras entre dentro e fora de casa, dificultam a intimidade e ajudam a instaurar o dia sem fim. Não há refúgio, toca, retiro.

Para nossos avôs patriarcas, o direito ao repouso era consequência da satisfação do dever cumprido. A submissão dos outros membros da família que transmitiam tal seriedade ao seu bem estar era como uma condecoração diária, um reconhecimento silencioso dos seus méritos. Ao chegar em casa era recebido como herói, presidente, general, mesmo que no trabalho nunca tivesse passado de peão.

Hoje ficamos dia e noite tentando acertar, numa jornada acompanhada de cruéis autocríticas, saudosos de parâmetros. Mas não nos cabem saudosismos daquelas famílias rígidas e injustas. Sobre o descanso que garantíamos aos patriarcas repousavam nossas certezas, ao preço da vida sem trégua das mulheres, que hoje é a de todos nós. Foi só o (péssimo) costume que nos ensinou a confundir hierarquias rígidas, valores religiosos repressores e preconceitos com algum tipo de paz interior. Nosso castelo não será mais em terra firme, assentado sobre essas pedras fundamentais. Agora teremos que aprender a amarrar as redes e calçar os chinelos em nossas ilhas flutuantes de incerteza. Que podem ser lindas.

Mãelévola

Amai-vos umas às outras, esse é o novo feitiço da ficção infantil!

“Fujam da enlouquecida paixão, lembrai-vos como os homens vos têm por frágeis, frívolas, facilmente manejáveis e na caça amorosa estendem armadilhas para prender-vos em suas redes como animais selvagens.” Essas palavras de alerta foram escritas em 1405, por Christine de Pizán, na pré-história do feminismo.

A nova vítima dessa sedução é surpreendente: a própria Malévola, a terrível bruxa da história de Bela Adormecida, caiu nessa cilada, apaixonou-se e pediu a seu amado que “fosse suas asas”. Até agora ela era apenas uma figura poderosa e desagradável do reino mágico, responsável pela maldição de sono da princesa.

Os Estúdios Disney fizeram em 1959 uma versão desse conto que emprestou uma imagem definitiva para esta personagem, transformada numa atraente vilã, de aparência gótica e olhos irresistíveis. No recém lançado Malévola, um lindo filme, eles bancam uma virada na história clássica: agora a bruxa é soberana das fadas, reina em harmonia com a natureza, sem hierarquia nem autoritarismo. A descoberta do amor a fragiliza e, sem escutar o alerta de Pizán, encontra a destruição nos mesmos braços em que pretendia repousar. O ressentimento amoroso é o motivo da maldição, pois a princesa é a filha daquele que literalmente lhe cortou as asas.

Em Malévola os homens não prestam: são abjetos, beligerantes e traidores, quando bons são servis ou insignificantes. Pelo que vemos, a ficção infantil caiu aos pés dos encantos femininos. O grande desafio desta história é, como sempre, um encontro amoroso, mas esqueça o príncipe: amai-vos umas às outras, essa é a ideia. É a mesma inovação que começou comValente e segue com Frozen, neste caso entre duas irmãs.

A disputa entre as mulheres pelo amor do pai, assim como por ser escolhida a mais bela entre as mulheres, faz parte da tradição dos contos de fadas. A entrega, seu único destino, alimentou essa competição, tantas vezes desleal. De fato, para mães, assim como para os pais, é uma derrota fenecer enquanto o sucessor floresce. Mas há algo a legar e o orgulho dessa herança compensa pelas perdas. Sem valor social, às mulheres essa contrapartida até agora estava vedada.

Através da vilã, embelezada por Angelina Jolie, somos levados a supor que a maldição é o romantismo que enfraquece, corta-nos as asas e leva-nos à vilania. Livres dele, seríamos portadoras de uma visão de mundo mais justa e harmônica do que a que foi alimentada pelo machismo. Essa promessa é uma novidade nos novos contos de fadas. Neles as mulheres resgatam o apreço pelas antepassadas e umas pelas outras, o que ainda é um feitiço necessário.

Olhos nos olhos

Atravessando as barreiras dos gêneros e das idades.

Sábado de sol, o jovem pai empurra um carrinho de bebê. É aquele tradicional passeio antes do almoço cedo, seguido do primeiro soninho da manhã. Quem conviveu com bebês conhece a rotina. O carrinho está, como costuma, carregado com mamadeira, panos, bico e brinquedos, assim como as sacolas de compras que pegam carona. O bebê faz um comentário, o rapaz circunda o carrinho e, abaixando-se na sua frente, conversa com ele. O diálogo era inaudível, mas a resposta aparentemente satisfaz o pequeno interlocutor. Feito isso, retoma-se o passeio, não sem antes ajeitar qualquer coisa na roupa do filho.

Você percebe quantas novidades há nessa cena? Certamente evoluímos. Não creio que esse pai estivesse com seu filho por ter qualquer questão com sua virilidade. Tampouco estaria “tapando um furo” da mãe ocupada com outra tarefa. Pela naturalidade de suas reações, imagino que ele entendia sobre bebês, sabia trocar fraldas, dar banho, suportar noites de febre, compreender os diferentes choros. O leitor dirá que os homens não se transformaram tanto assim. É claro, não todos, mas já são em grande número e, lhe asseguro, são a imagem do futuro.

Além da postura “maternal” daquele homem há outra novidade na cena: é o diálogo com um bebê, uma criatura que ainda não tem linguagem clara. A maioria de suas palavras são de fabricação caseira, somente acessíveis aos iniciados. Juntam-se em frases lacônicas, compreensíveis mediante a observação da mímica corporal. Por isso a comunicação com os bebês torna-se possível somente quando fazemos o gesto daquele homem: nos colocamos na altura deles, atentos ao que dizem com voz e gestos. Não faz muito tempo que falamos com as crianças e faz muito menos que o fazemos com os lactentes.

Sigo com minhas suposições sobre a dupla encontrada na rua: acredito que ao lado desse pai, haja uma mãe menos sobrecarregada e que soube repartir velhos privilégios. O conhecimento das lides maternas era reserva de mercado feminino – ele não leva jeito para isso, eu é que sei - diziam as antigas.

Ceder espaço libertou as mulheres, mas também democratizou conhecimento: permitiu que os homens saíssem da alienação doméstica em que viviam. Eles podiam ter até poder, mas na intimidade eram dependentes e ignorantes do essencial. Os dons parentais agora podem circular, há pais muito capacitados para oferecer aconchego e mães que se revelam mais destras do que eles em colocar limites. São novidades bem vindas, porque o resultado é uma criança que conta com dois adultos que a escutam e olham nos olhos.

Sou cisgênero

Muito além da visão binária, escolha entre cinqüenta opções de gênero!

O garoto, lápis na mão, pergunta à mãe: – o que é sexo? Ela larga o que fazia e começa uma delicada explicação, que envolve amor, sementinhas, talvez algum detalhe anatômico. Entre divertido e surpreso ele acrescenta: – mas o que devo marcar aqui, masculino ou feminino? É quando ela percebe que ele só queria ajuda para preencher um formulário… Essa piada é clássica, revela que sempre pensamos além do que se diz e em geral sobre sexo. Só que hoje ela está deixando de fazer sentido.

Num formulário tradicional, provavelmente as opções seriam Masculino, Feminino ou, adicionado mais recentemente, Outro. Isso se não for o Facebook americano, onde a partir de agora serão possíveis cinquenta opções para você designar sua identidade de gênero. Entre as possibilidades de denominação hoje disponíveis é possível designar-se lésbica, gay, travesti, transexual, andrógino, bigênero, intersexual, pangênero, entre outros, se nos ativermos à identidade de gênero. Quanto à orientação sexual, ou seja, a definição de a quem é que desejamos e amamos, podemos ser não somente ser homo, hetero ou bissexuais;  você poderá ser assexual, pansexual, ou mesmo declarar-se predominantemente homossexual, basicamente heterossexual ou vice versa.

O termo “gênero” surgiu na esteira das pesquisas da antropóloga Margareth Mead, que fez o levantamento de impressionantes diferenças culturais na construção dos papéis feminino e masculino. Elas tornaram inquestionável a posição de Simone de Beauvoir de que ser mulher é algo que não se nasce, torna-se. O que ambas queriam ressaltar é que a resposta para o formulário do garoto é mais complexa e ainda mais complicada do que sua mãe supunha. Diante desses novos debates, as sementinhas ficaram obsoletas.

Se um formulário tivesse que se ater a dois campos, hoje seriam talvez assim: (     ) Cisgênero – que você deve assinalar caso sua identidade esteja em consonância com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer – ou (     ) Transgênero –  assinalando uma discordância entre o sexo biológico e a sua forma de ser.

Na verdade, a divulgação e até mesmo a oficialização dessas múltiplas alternativas levanta um dos maiores tabus da nossa cultura: a falsidade da dualidade e oposição entre masculinidade e feminilidade. Estas identidades estão a léguas de qualquer obviedade, tampouco representam tudo o que somos e sentimos. Por que temos tanto medo da queda da máscara dos dois sexos opostos? Porque é uma das raras certezas que temos cultivado sobre como se deve ser, fora delas, a liberdade de opções apavora. A mediocridade se alimenta de parâmetros binários.

Longe de temer essas inovações, deveríamos entender que elas carregam uma utopia, um sonho: o de que a identidade sexual não seja uma sina, um peso insuportável de ser carregado. Crescemos inquietos, envergonhados e sempre inseguros de estar à altura de ser verdadeiramente homens ou mulheres. Já está na hora de mudar esse desafio. A certeza nunca virá, mas a violência contra aqueles que abalam as estruturas jamais falta.

Mulheres assassinadas

Matar em nome do amor, uma epidemia.

Tem sempre o dia em que a casa cai. Elas perderam a esperança porque o perdão também cansa de perdoar. Uma sucessão de abusos, de surras causadas pelo ciúme delirante, finalmente encontrou um basta. Seus maridos e namorados ficam enfurecidos, não compreendem a rejeição. Quanto atrevimento! O que foi que mudou? Na lógica deles, vontade própria não existe nas mulheres, portanto a ruptura deve ser por causa de outro. Abstinentes da relação que lhes sustentava a virilidade, decidem lavar a honra ferida: elas não pertencerão a mais ninguém.

Léia, oito tiros; Eliene, marteladas; Caroline, degolada; Karla, 10 tiros; Bruna, grávida de 15 anos, facadas; Joyce, negou-se a ter relações sexuais com o marido bêbado, 16 facadas; Rosilene, 12 facadas; Elisângela, espancada até a morte; Tânia, esfaqueada, asfixiada e colocada na geladeira; Maria da Guia, pauladas; só para citar alguns dos muitos casos de outubro, recolhidos a esmo, espalhados por todo o Brasil.

Em todos eles os matadores eram ex-companheiros. É inevitável o choque com o montante de ódio expressado nesses assassinatos. Eles querem muito mais do que cessar aquela vida, precisam invadir, destruir-lhe o corpo. Não é nada rara a freqüência dos tiros no rosto, como forma de apagar aquele olhar que deixou de ser-lhes destinado.

O fim de um amor sempre causa desespero, sentimento de dissolução, perde-se parte de si. Há também a vergonha pública, pois amor e reputação têm seu destino enlaçados. Portanto, homens e mulheres deveriam equivaler-se nas manifestações de despeito, a dor é democrática. Não é o caso: elas se deprimem, podem praticar maldades, maledicência, partilhas litigiosas; já para muitos deles é uma questão de honra, de vida e morte.

Simone de Beauvoir lembrava que o prestígio social da guerra, território masculino, sempre foi maior que o do ato de dar a vida, atributo feminino. Assim, frente à impotência maior de ver-se privado daquela que se julgava possuir, decidir pela sua morte acaba sendo o exercício de um prática milenar.

Nos anos 80 usávamos a frase: “quem ama não mata”, lembrando que não é aceitável qualquer condescendência com os crimes passionais. Melhoramos um pouco na punição dos assassinos de mulheres, que já gozaram de maior prestígio, acredite. Porém, um dos graves obstáculos na prevenção dos assassinatos de mulheres é a resistência delas, assim como das pessoas ao seu redor, em levar a sério as ameaças que sofrem. Elas acreditam que faz parte do amor e conseguirão reverter a situação. Protegem o agressor como se fosse um filho travesso, são incrédulas frente à letalidade do seu homem. A mulher não tem intimidade com a morte enquanto argumento final, atribuem a eles a capacidade que elas têm de duelar com palavras.

Nossas leis são melhores na teoria do que a prática. O amor, em sua face possessiva e descontrolada, continua sendo um serial killer de mulheres. Isso é assim porque no fundo ainda se espera que a mulher se apegue à relação acima de tudo, que ela exerça seu poder através da entrega. São restos, ainda ativos, de um tempo em extinção. O segredo para a erradicação da violência está num trabalho com as potenciais vítimas: é preciso que elas acreditem que serão apoiadas, que maus tratos são inadmissíveis, que correm riscos desnecessários e não devem morrer. Nunca mais.

Machos X Poderosas

Anitta e a guerra dos sexos

Amor e sexo são intimidade e ternura, mas também confronto, duelo, perigo. Deles são aqueles momentos em que se pensa: “eu poderia morrer agora, não importa”, numa aventura radical, em que cada um dos parceiros precisa ultrapassar os limites do outro..

Bataille, em seus escritos sobre erotismo, diz que somos seres “descontínuos”, peculiares por sermos diferentes uns dos outros. Nessa especificidade reside tudo o que sabemos ser. Num movimento contrário a essa diferenciação, amar e desejar são a busca de uma “continuidade”: queremos ser um só em vez de dois.

A entrega amorosa, principalmente em sua versão aguda que é a paixão, viola as muralhas da fortaleza em que habitamos. É um estado de obsessão exigente, pede de ambos que a consciência de si e do mundo se apaguem. Por isso ela anda de mãos dadas com a fantasia de morte, já que significa que só haja vida para essa entrega, todo outro interesse será traição. É por isso que o erotismo brinca nas fronteiras do masoquismo e do incesto. Brinca, como se brinca com monstros: com excitação, cautela e muito medo. Que fique bem claro, isso é totalmente diferente de exercer e atuar qualquer tipo de ato abusivo. Brinca, porque ao amar ou desejar muito, lembramos da violência, na qual perdemos a soberania, ou da infância, em que se depende do outro para quase tudo. Trocando em miúdos, sexo é vertigem.

Para proteger-se desses riscos, homens e mulheres têm construído barreiras, diques, legislado e normatizado o sexo, os relacionamentos e as identidades de gênero. Os homens, que sem exceção começam a vida nos braços de uma mulher, a mãe, deram-se ao direito de por isso mesmo desprezar seu gênero por séculos. Infelizmente muitas mulheres os seguiram.

Nesse sentido, o machismo é a fortaleza construída pelo filho crescido, onde ele se tranquiliza falsamente de que jamais cairá novamente nos braços de outra “dominatrix”, fora a mamãe. Disfarçado de vingança, o machismo também está presente nas mulheres. Embora às avessas, elas não desmontam esse esquema. Mulheres “Poderosas”, como descritas pela jovem cantora Anitta, sucesso viral do momento, entram nesse jogo, mesmo que no outro lado do campo: “Vem, se deixa render
/ Vou como sereia naufragar você / Satisfaço o meu prazer/ Te provocar e deixar você querer / Agora eu vou me vingar: menina má”.

O jogo em questão é a guerra dos sexos: frente ao perigo de desaparecer um no outro, os amantes alardeiam a própria supremacia, como as cornetas e bravatas antes das batalhas. As mulheres querem defender-se com as mesmas armas deles, protagonizando um motim, a revolta dos objetos sexuais contra seus donos. Faz parte dessa guerra a recorrente violência contra mulheres e filhas, como nos abusos e nos incessantes crimes passionais que nunca faltam ao noticiário.

O desafio é aprender a amar sem defender-se nos clichês de gênero. Sem as regras defensivas do macho dominante e da fêmea submissa, ou mesmo da simples inversão desses papéis. É preciso muita coragem para enfrentar a entrega amorosa e sexual. Principalmente para fazê-lo desarmado.

Uma por todas: Stella a detetive de “The Fall”

Para os viúvos e viúvas de Lisbeth Salander, o seriado “The fall” é um consolo.

Lisbeth Salander foi uma heroína ímpar, ela apareceu na trilogia Milenium e encontrou a consagração longe dos olhos do seu criador. O sueco Stieg Larsson morreu sem ver a carreira de sua criatura e, principalmente sem poder nos brindar com a continuação de suas aventuras. Ela era muito jovem, tão absurdamente inteligente quanto emocionalmente inibida, bissexual, de aparência adrógina, forte e ágil como uma ninja. Seus inimigos estavam todos na lista dos lobos maus: machistas, fascistas, perversos egressos da corja das ditaduras, representantes principalmente do despotismo patriarcal. A todos que não a conhecerem ainda só posso invejar, pois já li todos os livros e assisti a todas as versões cinematográficas.

Para meu consolo, uma nova detetive surgiu. A estréia do seriado britânico The Fall (que pode ser assistido no Netflix, veja o trailler em http://www.youtube.com/watch?v=tP5Tl04gv3g ), nos brinda com a interessantíssima personagem da detetive Stella Gibson. Nesta primeira temporada ela chega a Belfast para caçar um assassino de mulheres. Desde o começo da narrativa, ao contrário de Stella, nós sabemos quem ele é, como escolhe suas vítimas e quais suas técnicas, portanto, não se trata de mistério, mas sim de um duelo entre eles.

O criminoso é um jovem e bonito pai de uma família margarina. Além de uma esposa interessante, enfermeira de UTI pediátrica, duas crianças lindas, ele tem uma profissão bacana, da qual nunca ouvimos falar aqui: é “conselheiro de luto”, seu trabalho como funcionário público é acompanhar as pessoas que estão sofrendo as conseqüências de uma perda. Como se vê, gente boa. Nos intervalos, estrangula mulheres com requintes de sadismo.

Stella é linda, é uma loira parecida com Merryl Streep quando mais jovem (Gillian Anderson), veste-se formalmente mas transpira sensualidade. Sua presença faz um contraponto com a tradicional Irlanda, pois ela é solteira convicta, não parece nem um pouco inclinada à maternidade e visivelmente gosta de sexo, do qual não se priva sempre que alguém lhe interessar. É uma figura forte, como já vimos em outras detetives televisivas, mas ao contrário da maioria delas, inclusive Lisbeth, não parece afetada por traumas pessoais que configurem algum tipo de motor de vingança. De seu passado sabemos pouco mas algo muito significativo: a primeira (de várias) formações universitárias foi em antropologia. O que significa uma mulher antropóloga como heroína?

Acima de tudo, temos uma mulher marcada pelo relativismo cultural. Ela sabe que as prerrogativas de seu gênero respondem a um lugar e tempo, podem e são diferentes em outros contextos. Ela, portanto, escolherá seu jeito de ser feminina. Talvez o visual tatuado e ambíguo de Salander seja muito mais contemporâneo do que a loira de olhos azuis e terninho, mas Stella nos garante que se ela quis aparecer assim é porque lhe convinha, faria qualquer coisa diferente que lhe ocorresse, conforme o caso. O nome do seriado “A Queda”, poderia ser uma alusão à buscada derrocada do homem mau que ainda resta e se esconde atrás da renovada imagem do contemporâneos e democráticos pai e marido que estão surgindo. O lobo na pele de cordeiro agora divide a troca de fraldas com a companheira, mas odeia as mulheres, as teme, precisa mostrar-se superior. É como senhores da morte que os homens consagraram sua supremacia ao longo de milênios, nas guerras que os fizeram heróis, principalmente frente uns aos outros. Neste momento, pelo jeito, há uma guerra dos sexos em curso e nesse embate temos Lisbeth e Stella como heroínas na ficção.

Só lamento que a segunda temporada só começará a ser filmada em 2014. Até lá, quem poderá nos defender?

@ Laerte

na arte e na vida, autor@ de imagens intrigantes, sou fã

Tenho várias tiras do Laerte Coutinho coladas numa parede em meu consultório, são como enigmas que seguem me interrogando. Mais do que um cartunista, ele escreve poesia e filosofia com imagens. Suas tiras são abismos de múltiplos significados nos quais me perco. Todas as recomendações são poucas para que o leitor conheça sua obra. Ele é certamente um dos artistas mais importantes do Brasil.

Quando já o admirava, ele passou a dedicar sua vida a um tema nada prosaico: a identidade sexual. Começou a vestir-se de mulher, frequentava o “Brazilian Crossdresser Club”, discretamente, sob o nome de Sônia. Aos poucos, o prazer de usar a indumentária do sexo oposto deixou a clandestinidade. A Revista Piauí de abril (n. 79) dedica-lhe várias páginas, numa reportagem na qual é tratado por vezes com pronomes femininos, por outras masculinos. Sua coragem desnuda a todos, quer usemos cuecas ou calcinhas. Na vida, como na arte, ele produz uma imagem intrigante.

A formação da identidade sexual é pura incerteza. Apesar disso, ao crescer cruzamos com duas perguntas: o queremos e o que seremos, ou seja, a quem desejamos e como nos pareceremos. Além da questão de gênero, o desejo aponta muitas variações, preferiremos velhos ou moços, miúdos ou graúdos, humildes ou opulentos, pessoas vistosas ou alguém cuja beleza brilha somente aos nossos olhos, e assim por diante. Porém, uma definição bifurca os tipos de objetos de desejo: do nosso sexo ou do oposto. Não falta quem lembre ingenuamente que a anatomia nos condena à complementaridade fecunda do macho e da fêmea. Quanto ao que nos parecemos, há roupas para deixar isso bem claro, convém que as usemos conforme o corpo com que chegamos ao mundo. Os militantes dessas certezas fecham a questão.

Os jovens contemporâneos a abrem e têm praticado a ambiguidade com uma liberdade inédita. A androginia das roupas e adereços, assim como a bissexualidade das escolhas amorosas, inquietam as gerações anteriores e as almas frágeis. Mas eles não fazem mais do que externar incertezas que todos guardamos no armário. Nunca seremos suficientemente convincentes como homens ou como mulheres aos nossos próprios olhos, da mesma forma, tampouco somos imunes à atração por pessoas de ambos os sexos. Forjamos em nós certezas, as gritamos para acalmar as dúvidas que nos sussurram aos ouvidos. Criamos mitos religiosos e até científicos para dizer que existe uma definição clara dessa fronteira.

Antigamente, quando queríamos dirigir uma mensagem a homens e mulheres dizíamos assim: “prezado (a)”, ou seja, se você for mulher, também será contemplada, em segunda opção. A luta feminista está tirando as mulheres desse segundo plano, hoje diríamos assim: “prezad@”. Com o fim da divisão dos mundos que acompanhava a separação dos sexos, a identidade sexual entrou em questão. Estamos banindo mais do que a opressão das mulheres, trata-se agora da derrocada dos clichês sobre as características definidas de cada gênero. Laerte, diz ser “uma mulher em caráter experimental”, eu te compreendo querida, eu também sou.

Armarinho

Sobre o divórcio dos os antigos dons femininos

Não sei corte e costura, mas prego botão, faço bainha e cerzidos, também posso bordar pontos simples e até tricotar algo que lembra um cachecol. Essas pequenas habilidades dão um mínimo de autonomia para não contratar costureira para coisas banais. Mantenho um pequeno costureiro para essas tarefas, o que se revela bastante complicado. Encontrar um armarinho na maior parte dos bairros é pior, perdoem o trocadilho infame, do que achar uma agulha num palheiro. Para quem não sabe (homens e mulheres), armarinho é uma loja especializada em aviamentos de costura, que são os apetrechos necessários para tal fim.

Perto de casa havia uma loja de 1,99 que fechou, onde funcionava uma espécie de armarinho clandestino. Entre flores de plástico e estatuetas de gesso, era possível comprar alguma linha (esqueça cores mais ousadas), talvez um fecho, mas não se esperava encontrar linhas de bordar e botões. O que foi que condenou esses lugares à extinção, ao ostracismo, à raridade?

Fiar, tecer e costurar historicamente sempre fizeram parte da condição feminina, tornando-se quase seu sinônimo. Porém, na conquista implacável de novos territórios a que nós mulheres nos lançamos, abandonamos com desprezo tudo aquilo que fazia parte do confinamento doméstico. Por milênios a metade fêmea da humanidade viveu exilada da vida pública, alienada de todas as decisões importantes, inclusive as que afetavam seu destino. Em sua gaiola, ela podia costurar e tecer, apenas na reta final do exílio feminino, algumas privilegiadas conquistaram o direito de dedicar-se a ler e escrever. Não admira tenhamos feito um divórcio litigioso das agulhas.

Temos assistido alguns resgates comerciais ou lúdicos das artes femininas: mulheres artistas têm ateliês de costura, assim como cozinheiras gourmets fazem das antigas ocupações um bom divertimento ou negócio. Mas reparem, aqui também elas estão avançando sobre o espaço dos homens: foram eles que fizeram da costura e da comida um comércio, pois o trabalho feminino sempre foi expediente interno.

Não seremos vistas entrando num armarinho, no máximo numa loja de Patchwork. Na realidade cotidiana, orgulha-nos a incapacidade de executar tarefas que seriam naturais às avós. Foi uma alienação necessária para criar uma nova identidade para a mulher. Mas talvez hoje possamos evitar a infantilidade adquirida: mulheres agora precisam de outros para vestir-se e alimentar-se, reproduzindo a impotência que os homens sempre tiveram no lar. A feminista Betty Friedan os chamava de “homens-criança”: no mundo eram importantes, em casa incapazes de cuidar da própria higiene. É triste copiar tanta inermidade. Uma boa meta para a cruzada feminina pela libertação talvez seja resgatar os dons e a sabedoria das nossas antepassadas. Incluindo a costura, entre tantos outros. Ou ao menos voltar a ser capazes de pregar os próprios botões.

PS: descobri um armarinho na minha própria rua. Dentro de um brechó!