Infância e Adolescência
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Socorro, barata!

Mulheres e baratas: inimizade letal, intimidade herdada.

Meu marido costuma perguntar-me: para onde estas olhando? Brinca que se uma manada de elefantes estiver marchando na calçada eu casualmente estarei reparando em alguma folhinha caída. Há uma exceção: tudo isso altera-se radicalmente quando o assunto é barata.

A simples presença desse inseto dito inofensivo torna-me uma observadora ninja. Não há ruído dele que escape aos meus ouvidos apurados e os olhos são capazes de visão noturna. Entre a percepção e o ataque de pânico costuma não haver lapso. Ondas de calafrios me percorrem e fico em pânico de que a barata me toque.

Graças essa fraqueza, sinto empatia com o drama dos pequenos, que gritam apavorados ao serem obrigados a aproximar-se do Papai Noel, de um cachorro ou do que for seu objeto fóbico. Isso acontece porque no começo da vida temos dificuldade de diferenciar onde termina o eu e começa o outro, assim como o que vem de dentro e de fora do corpo. Também nem sempre é fácil distinguir os adultos amorosos e confiáveis dos monstros. Já na escuridão, sentem-se diluídos, sem contornos, o que é fonte dos terrores noturnos.

Para todos esses males, temer uma figura facilmente encontrável organiza a geografia do perigo, tornando-o mais passível de controle: se o medo se focar no cachorro da vizinha, que sempre late quando passamos, ou no Papai Noel de Shopping, basta evita-los e estaremos seguros. O pequeno apavorado não tira os olhos do monstro, mantendo-o na mira.

Meu problema com as baratas é comum entre as mulheres que, tradicionalmente confinadas, partilharam o destino das crianças. A privacidade da casa era um não lugar, sua voz não fazia diferença, seu pensamento não era chamado a participar. Nunca sabiam bem quem eram, pois a identidade não vinha dali. Reinavam, mas num território de exílio dos homens públicos, em contato com a roupa suja dos patriarcas, em sentido real e figurado. Longe dos ritos sociais, que protegem e organizam o corpo e as ideias, convivendo com as fraquezas, doenças e vilanias dos que se bancam fortes e idôneos lá fora, elas sentiam medo.

A barata, forma renitente da sujeira imune mesmo à limpeza mais abnegada, é o pesadelo da mulher. Representa seu trabalho repetido de Sísifo, o castigo da sujeita invencível. Como todo objeto fóbico, deve ser próximo e assíduo. Frágeis como crianças, em seu mundo isento dos direitos civis e cheio de deveres servis, as fêmeas elegeram na barata um perigo que pode ser mapeado e combatido. Hoje isso não faria mais sentido, pois também somos figuras públicas, mas continuamos em pânico. Talvez ainda estejamos marcadas pelo longo período de dependência. Para mim, pelo menos, nada no mundo parece tão reconfortante quanto a paz que se instala uma vez que o monstro, de borco, cessa de espernear para sempre.

Panelas e carrinhos para tod@s!

Crianças com brinquedos do “sexo oposto”, chocam por opor-se exatamente ao que?

Uma menina e um menino trocam tiros, disputam corridas de carro, alimentam seus bebês, dividem a bancada de uma marcenaria de brinquedo e partilham as panelas de sua cozinha de plástico. Uma bazuka de água é propagandeada por uma garotinha, enquanto um garoto passeia fofos lulus brancos de pelúcia.

Essas imagens de igualdade de gêneros na hora de brincar provém de um catálogo de brinquedos suecos, da marca Top-Toy e ainda são impensáveis por aqui. Seguimos apegados à rígida divisão de imagem e hábitos entre os gêneros: retratar uma menina com uma arma de brinquedo e um garoto que usasse uma varinha de condão nos é chocante.

Hoje homens trocam fraldas e acordam à noite para dar mamadeira, enquanto mulheres dirigem caminhões e países. Como fazê-lo sem nunca ter-se preparado para isso? As crianças ainda brincam e vestem-se aprisionadas em feudos imaginários de gênero, enquanto os adultos já experimentam fronteiras muito mais sutis.

Brincar serve para fazer de conta que o futuro chegou ou que temos super poderes. É um contraponto providencial para quando somos pura promessa e nos sentimos frágeis e desamparados. As fantasias com as quais se brinca são a projeção de um ideal que a criança pode vestir de mentirinha. Pode-se fazer de conta que se é grande, mas também pode-se dispor de raios fulminantes,  palácios suntuosos, animais mágicos, voar e fazer viagens intergalácticas, lutar contra monstros, morrer e acordar, tudo isso com a simples ajuda de objetos inertes e imaginação.

Brincar nos prepara para sonhar caminhos, desejar vocações, para ousar amar e ser amados. Infelizmente, ainda hoje meninos e meninas são condenados na infância a evocar apenas meio futuro através da  imaginação lúdica. Mulheres fortes e corajosas e homens sensíveis e prendados são uma referência ainda tímida.

Na realidade a vida das mulheres já rompeu com os limites da casa e do instituto de beleza. Os homens até já podem cozinhar, cuidar dos filhos e expressar seus sentimentos. A possiblidade de transitar entre as identidades de gênero é uma tendência global, embora ainda estejamos longe da erradicação das desigualdades e da violência.

É interessante perguntar-se pelas razões do apego às identidades de gênero, cujo questionamento, como temos visto, causa muita polêmica. Uma das razões pelas quais a profanação dos limites entre esses territórios nada definidos produzem tanto xilique é a insegurança. A primeira fonte de inquietude é oriunda dos próprios desejos: ninguém está a salvo de alguma forma, mesmo que muito velada, de desejo homoerótico. Ela fará parte do amor entre os amigos do mesmo sexo, da relação das meninas com a mãe e dos meninos com seu pai, da relação com os filhos nascidos do mesmo sexo, do amor por professores ou professoras que não vem a calhar serem do sexo oposto. Em segundo lugar, está a ideia, verdadeira, de que a identidade de gênero é de muito difícil transmissão: na lucidez da intimidade, nenhuma mulher sente-se verdadeiramente feminina e não há homem que se julgue totalmente viril. Sendo assim, como ter alguma segurança de passar esses dotes de gênero aos descendentes? As ambiguidades que nossos filhos possam eventualmente demonstrar são provas da incompetência, que todos sentimos ter, para ser autenticamente um homem ou uma mulher. Horroriza nos mais jovens, ou mesmo nos diferentes do padrão atribuído a um dos dois gêneros, o retrato das nossas incertezas. Por isso, tentamos desde pequeninos produzir as garantias de que não teremos reveladas essas fragilidades através deles.

O futuro já começou e, quer você goste disso ou não, nossos clichês de gênero estão fadados à extinção. Por hora, os nascidos no sexo masculino crescem cercados de cuidados para lhes garantir a virilidade, homem tenta não chorar, enquanto a infância das fêmeas é tingida de cor-de-rosa. Porém, seus descendentes de ambos os sexos manejarão igualmente panelas e furadeiras, veículos e bebês, e ainda vão achar muita graça dos preconceitos da nossa época.

Filhos marcianos

A dura vida dos estrangeiros digitais

Quem decide formar família numa terra estrangeira estará fadado a considerar seus filhos como traidores. Isso pode acontecer em famílias de diferente nacionalidade, mas também entre pais do interior e filhos urbanos, pais religiosos fundamentalistas com filhos ateus. Os descendentes serão vistos como traidores porque buscam formas de adaptar-se, comunicar-se na escola, no trabalho, fazer amigos. No cotidiano com aqueles que não pensam, falam, nem agem como seus pais, acabam transformando-se. Falarão a língua local sem sotaque e com a gíria do seu grupo, desenvolverão outro paladar, novas crenças. Serão, portanto, estrangeiros frente à própria família de estrangeiros.

No momento há uma terra estrangeira para a qual todos os adultos estão sendo obrigados a emigrar. Ela não tem lugar físico, nem meios de transporte reais. Chega-se a ela mentalmente, através de dispositivos eletrônicos, como computadores, tablets, smartfones. É um território tão mutante que se este texto for lido dentro de um ano, talvez os aparelhinhos mencionados acima já sejam sucata eletrônica, mas certamente ela, a Internet, continuará sendo um recém descoberto Novo Mundo, um verdadeiro lugar.

Para os mais jovens, sites são, como diz o nome, lugares onde algo pode de fato estar. Contatos virtuais são reais, o que está na tela tem valor de papel impresso e não sentem-se desconfiados ou paranóicos em comunicar-se e fazer transações via a rede. Para nós, estrangeiros digitais, é um lugar ainda estranho: falamos com sotaque, ficamos com cãibra nos polegares e cometemos gafes, ignorantes que somos da cultura reinante que inclui uma nova etiqueta.

Esta última envolve regras de educação que ainda estão em fase de construção. Ainda precisamos estabelecer os limites entre o público e o privado, as condições possíveis para o anonimato e a necessidade crescente de separar em diferentes esferas a massa de “amigos”. Por hora nos custa diferenciar o que se pode conversar com parentes, amores, confidentes, colegas, alunos ou clientes. Como território novo, é ainda bastante selvagem, talvez por isso nele estejam acontecendo tantos episódios de violência sexual, racial, de intolerância ou mera brutalidade verbal.

Sempre brincávamos que, com o fim do mundo, íamos acabar vivendo em Marte, o que não nos ocorreu é que criaríamos aqui mesmo um novo planeta, de colonização recente, para o qual se mudaram todos os membros mais novos da Terra. Os pais terráqueos estão nesse processo de emigração involuntária. Para torná-la possível, seria bom que parássemos de fazer uma oposição alarmista, vendo perigo e devassidão em todos os cantos da rede. Principalmente, precisamos parar de considerar traidores aqueles que abandonaram o mundo analógico em extinção onde seus antepassados nasceram.

A juventude não dormirá!

Seria mais fácil entender o que está acontecendo, se a inveja que os adultos têm dos jovens não atrapalhasse tanto.

Em 1964, num pequeno texto com esse título, escrito para a revista New Society, o psicanalista Winnicott tentava dialogar com aqueles que se horrorizavam diante de manifestações juvenis: “é dada publicidade a cada ato de baderna juvenil porque o público não quer ouvir ou ler a respeito dessas façanhas adolescentes que estão isentas de qualquer desvio anti-social. Além disso, quando acontece um milagre, como os Beatles, existem aqueles adultos que franzem o cenho quando podiam soltar um suspiro de alívio – quer dizer, se estivessem livres da inveja que sentem do adolescente desta fase”. Veja bem, ele retrata a obsessão do público por uma minoria de vândalos, cego à verdadeira relevância dos acontecimentos. O título refere a uma personagem de Shakespeare, que odiava a juventude e desejava que se dormisse dos dezesseis aos vinte e três anos.

É interessante a menção aos vovôs do Rock, justamente para lembrar de que o tempo passa e crescemos como civilização assimilando e aprendendo com o que parecia dissonante e impossível de catalogar. O que mais alarma aos intérpretes de plantão, nos quais me incluo, é a ignorância do rumo que as insatisfações expressadas vão tomar. Não se sabe do resultado das próximas eleições, nem como as cidades receberão a copa, e principalmente está para se descobrir como funcionam a política e a informação na era da internet. Como tampouco se sabia da comunicação após o telégrafo e o telefone, do rumo da música depois do Rock, do destino da família após a revolução dos costumes, das mulheres após a pílula, do livro após o computador. Os adultos de diferentes épocas são reincidentes no medo do desconhecido, lembram seus tempos de interrogações e temem não ter feito as melhores escolhas. Os jovens representam esse processo, estão fadados a atravessá-lo, e acabam suportando melhor o que não controlam.

Nesse, e noutros textos, Winnicott lembra que a juventude passa nos indivíduos, que ficam velhos como os Beatles, mas nas sociedades a expressão juvenil chegou para ficar. Ele a chamou elogiosamente de “imaturidade adolescente”, que seria a fonte das dúvidas que movem revoluções e permitem invenções. Tudo o que nos tornamos como civilização tem uma dívida com aqueles que enxergaram as coisas de modo diferente.

Mudam os atores, mas a peça da juventude segue em cartaz. A vantagem da visão de mundo adolescente, ou juvenil, é justamente sua relação com o tempo, a capacidade de reconhecer, com tristeza, mas sem pânico, que o futuro é incerto. Ser jovem é conviver com as próprias indefinições: duvidar sobre a quem e como amar, no que acreditar, como trabalhar, a quem admirar e o que se quer aprender. Ficar velho é satisfazer-se com o senso comum, é alardear o fim do mundo a cada vez que alguém faz um barulho que nosso cérebro não consegue decodificar. Encerro com Winnicott, pedindo que sejamos capazes de interpretar e conter nossa “indignação moral causada por ciúme da juventude”. Corrompendo Quintana: a meninada passará, a juventude passarinho.

Desgarrados do guarda-sol

Desgarrados do guarda-sol
Os Meninos Perdidos da história de Peter Pan são originalmente crianças que as babás deixaram cair do carrinho sem dar-se conta. Se após sete dias ninguém os reivindica, as fadas os recolhem para a Terra do Nunca. Não há meninas lá, pois, conforme Peter, elas seriam muito espertas e não cairiam do [...]

Desgarrados do guarda-sol

Os Meninos Perdidos da história de Peter Pan são originalmente crianças que as babás deixaram cair do carrinho sem dar-se conta. Se após sete dias ninguém os reivindica, as fadas os recolhem para a Terra do Nunca. Não há meninas lá, pois, conforme Peter, elas seriam muito espertas e não cairiam do carrinho, no que devo concordar que ele tem razão.

Outro tipo comum de meninos perdidos são os desgarrados do guarda-sol: os pequenos que aproveitam que a vigilância familiar relaxa para explorar o mundo sem bússola nem mapa. Quando percebem a ausência dos seus adultos, apesar de que foram eles mesmos que se afastaram, sentem-se abandonados e abrem o berreiro. Neste veraneio, até inventaram umas pulseirinhas eletrônicas, que permitem a localização da família quando a sirene do mini aventureiro começa a tocar.

Paradoxalmente, é mais fácil ser curioso e correr o risco de perder-se quando nos sentimos cuidados. Geralmente acontece com pequenos que desenvolveram a “capacidade de estar só”. Ela pressupõe o seguinte: uma criança vive em conexão direta com uma figura materna, fonte máxima de segurança; como ninguém pode estar presente o tempo todo, a duras penas ela acaba descobrindo que a mãe não some, nem ele, e que é bom que isso aconteça. Mas também há uma forma menos dramática de aprender a autonomia, que é distrair-se, tornar-se capaz de ficar só. Acontece quando o bebê fica absorto em seus assuntos, cantarolando e brincando, esquecido de chamar a atenção da mãe ou de controlar seus movimentos. Eis uma pequena pessoa crescida, que tem em si mesma uma boa companhia. O fugitivo das areias é alguém que sai consigo mesmo a passear. Carrega dentro de si, por um tempo, seus adultos.

Os pais, nem que seja por instantes, também se permitem desligar na presença do pequeno. Distraem-se porque precisam tirar um pouco do pensamento essa obsessão de fraldas. Mas há os pesadelos, como os bebês que morrem esquecidos em carros, afogados ou são seqüestrados. São ameaças que dificultam esse jogo benéfico de mútua desatenção, já que um vacilo pode ser fatal. Somos todos ousados sobreviventes dessas incursões perigosas nos momentos de desatenção que em alguma ocasião vivemos. Não nos foi necessário o resgate mágico, mas alguma fada madrinha olhou por nós. Tristemente, isso não ocorreu com os pais e filhos que a fatalidade castigou. É bom lembrar que eles não são monstros. Pais e filhos precisam desligar-se mutuamente, nestes casos extremos algo falhou.

Até hoje me emociono nas praias em que há o hábito de colocar a criança perdida nos ombros e sair batendo palmas, com o coro dos banhistas, até encontrar a família da criança apavorada. A cena me leva às lágrimas, porque sinto que fora do guarda-sol familiar, há um mundo de gente disposta a zelar por nós. Quando dá certo, é bom perder-se do território conhecido para descobrir que há incursões seguras por terras estranhas. Faz parte da aventura interminável de crescer e, com sorte, baterão palmas por nós quando o medo chegar.

Fale com elas

Falar com as crianças é o melhor presente!

Já viveu mais de meio século, mas meu marido ainda lembra do cuidado que tinha na hora de pendurar a lancheira para não se enganar. No jardim de infância, antes de conhecer as letras, cada criança tinha uma figura no cabide, a dele era um elefante, aquele era seu lugar. A creche é o primeiro espaço de existência pública, onde se pode ser alguém fora da família. Os adultos da família nos nomeiam, definem, rotulam, e com isso vão nos modulando, mas quando saímos “por conta”, quanto se tem um cabide de elefante para chamar de seu, é que passamos a ser alguém.

A Casa dos Cataventos, nome emprestado da poesia de Quintana, não é creche, nem escola, é um lugar para brincar e conversar. Lá também cada criança marca sua chegada de um jeito. Em vez do cabide, pois muitas não trazem uma mochila, ao chegar seu nome é registrado no quadro, num livro de presenças, no copinho que vai usar para tomar água. Ela é anunciada por escrito, mesmo que ainda não saiba ler. Os adultos desse lugar estranho estão lá para falar com ela e não sobre ela. Eles se interessam sinceramente por suas fantasias, que ali são grande coisa. É bom que seja assim, a infância é incompatível com a hipocrisia. Crianças farejam a mentira, brincam de faz de conta, nunca fazem de conta que brincam.

Situada na Vila São Pedro, a casa é um projeto comum de psicanalistas e universitários, mas ali os pequenos membros da comunidade é que são as estrelas. Inspirado na Casa Verde, criada na França por Françoise Dolto, e nas Casas da Árvore, instaladas nas favelas cariocas, esse trabalho provou-se uma importante ferramenta de saúde mental. Os profissionais se alternam: eles também devem colocar seu nome, brincar e conversar. As crianças entram e saem quando querem, seguem as regras combinadas entre todos, e brincam com dedicação. Por que adultos fazem das tripas coração para criar e manter um lugar aparentemente tão despretensioso?

A maior parte das crianças em situação de extrema pobreza cresce órfã de atenção. Em geral passam a vida sem jamais ter conversado com um adulto sobre seus sonhos e pesadelos. Ninguém fica sabendo do que cada uma tinha medo e raiva, e isso tudo elas compreendem e expressam brincando!

O que não vira brincadeira tende a entrar em confronto com a sociedade. Dar espaço à fantasia evita a marginalização de sentimentos, pensamentos e atos, simples assim. Por isso, no Natal que se aproxima, convém lembrar que o importante não é o brinquedo, o presente. Brinque, converse com seu filho, seu neto, seu sobrinho. Acolha sua imaginação e ele lhe dirá quem é!

É isto um jovem?

Após a era nuclear, há uma vacância na posição dos adultos, que se abstém como referência. Aos jovens, resta o preconceito, a inveja, são objeto de pensamentos apocalípticos. O livro de Rose Gurski questiona essas posições.

(Este texto é o prefácio do livro: “Três Ensaios sobre Juventude e Violência”, de Rose Gurski, Ed. Escuta)

Depois de ter visto e vivido o inominável, o escritor Primo Levi estruturou sua mais famosa narrativa da vivência como prisioneiro nos campos de concentração a partir da pergunta: “é isto um homem?”. Inconformado com a banalidade do mal, ele buscou os restos de humanidade dos envolvidos nessa experiência limítrofe: eles restavam nos pequenos gestos de solidariedade e cumplicidade. Foi também na própria capacidade de narrar sua jornada pelo horror que esse escritor, um judeu italiano, reencontrou-se, tentando recuperar os danos da sua dignidade usurpada.

Não surpreende que Rose Gurski faça eco a essa pergunta, ao interrogar qual é a humanidade que resta em certos jovens contemporâneos, capazes de matar e agredir friamente. Ela arrola vários desses casos que constituem uma realidade assustadoramente próxima da alegoria de Laranja Mecânica, de Kubrick, que estuda junto a filmes, muitos deles num território limítrofe entre a ficção e o documentário. Os casos e obras analisados pela autora não a conduzem a uma visão apocalíptica, ela não se une à vozes que caracteriza como tomadas de “pânico moral”, identificando a juventude com problema social.

A demonização dos jovens, tantas vezes considerados sem qualidades e portadores de todas as leviandades que seus críticos conseguirem arrolar, caminha junto com a incapacidade dos adultos de nosso tempo para se compreender e questionar. A tradição acabou sendo associada com um peso que os adultos não estão em condições de carregar, o passado dos contemporâneos parece estar povoado de vergonhas e fracassos. Curioso, pois estamos aterrizando do século XX, e nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo. Mas nem só de maravilhas da ciência e comportamentos liberados, que são ganhos indiscutíveis, vive nosso passado recente. Temos muita vergonha a carregar, principalmente a guerra e os massacres. Além do holocausto, já mencionado, a bomba atômica liquidou com chave de ouro a segunda grande guerra, onde provamos a enorme extensão da nossa capacidade destrutiva. E ainda assombra tanto que adolescentes sejam cruéis? Além disso, as maravilhas científicas, a saúde e o bem estar que elas proporcionam, continuam convivendo sem aparentes contradições com a extrema miséria. Seria, então, tão dissonante que jovens desmiolados agridam um mendigo?

Entre os filmes mencionados neste livro, gostaria de focar nossa atenção sobre Rebel without a cause, no qual há uma cena que muito pode nos ensinar. O clássico de 1955, traduzido entre nós por Juventude transviada, faz parte da iconografia fundadora do mito do adolescente contemporâneo. James Dean, faz o papel de um jovem inquieto que busca valores e interlocutores até na polícia. Ele quer revelar a virilidade oculta sob o manto da covardia do próprio pai e alguma qualidade no vínculo entre seus pares, entregues à mediocridade das disputas de reconhecimento. Em suas caras de escárnio, melancolia e desamparo, na sua jaqueta vermelha e topete inspirou-se uma era de futuros adultos, que hoje são pais e avós.

A cena em questão, é um diálogo baseado num equívoco em torno da palavra inglesa “age”, que é cheio de pistas para esta nossa reflexão. “Age” serve tanto para uma época da vida, uma idade, quanto para uma era, um tempo da humanidade. Nele, a moça vivida pela atriz Natalie Wood, futura namorada do herói, aproxima-se de seu pai durante uma refeição familiar e tenta beijá-lo na bochecha, como fazia quando criança. Este a rejeita, resmungando que aos dezesseis anos ela já não deve ter esse comportamento (ele diz: “girls your age don’t do things like that!”). A filha protesta a perda do amor paterno, como se este tivesse que ser abandonado com a infância. Depois que ela sai batendo a porta, dizendo que essa não é mais sua casa, a mãe consola o pai atônito com a frase: “she’ll outgrow it, dear, is just de age!”, ou seja, que ele fique tranqüilo, a filha vai superar essa crise, trata-se apenas de uma idade, uma etapa, uma loucura temporária. O irmão menor da personagem estava por ali, brincando com uma arma espacial de plástico e arremeda, enquanto atira para cima: “yeah, it’s the atomic age!” (“sim, é a era atômica!). Na seqüência, a mãe segue o diálogo com o marido e acrescenta: “It’s just the age where nothing fits” (“é bem a época em que nada serve”).

O pequeno, tal qual uma voz de coro de teatro grego, informou o que os adultos estavam falando sem saber: a juventude da irmã transcorria nos escombros psíquicos de um trauma recente. Os pais dos Estados Unidos pós-guerra, mesmo na condição de membros da nação vitoriosa, não sabiam o que fazer com os filhos quando estes atingiam a idade dos antigos combatentes. A família da personagem de Dean, optava por manter o filho protegido, tratando-o como criança, enquanto a da moça tentava ignorar a fase em que a que a filha deixara de ser criança e não era ainda uma adulta, como se fosse um mal passageiro.

Embora os jovens pareçam bastante perdidos e principalmente tristes, a adolescência é neste filme um notório incômodo para os adultos. Os jovens ainda tão respeitosos e cerimoniosos dessa história já antiga, mesmo assim eram caso de polícia para essa sociedade de baby-boomers, tanto que um deles acaba morrendo. Trata-se de um crime estúpido, cometido por um policial estabanado, que extermina a vida de um garoto solitário e desajustado que só queria um pouco de atenção. Bem nos lembra Rose que os estudantes rebeldes do maio de 68 francês reivindicavam: “não nos mandem polícia, eduquem-nos!”.

Essa “era atômica” de que falava o garotinho, transcorrida nos anos da Guerra Fria, encontrou pulverizados todos os valores pelos quais seus protagonistas lutaram. Os heróis desse tempo eram mais traumatizados que orgulhosos, a reconstrução da Europa bombardeada desenterrava cadáveres de traição e indignidade. Quando os jovens de um mundo pacificado, voltado para o bem estar, começam a questionar o sentido da vida, esses pais encaram a melancolia juvenil como ingratidão: eles deveriam apenas aceitar a boa sorte e aproveitar as oportunidades de segurança que seus antepassados não tiveram. Ao contrário disso, os garotos do filme travam duelos letais com carros e canivetes, reproduzem em pequena escala a passagem do jovem pela guerra, e a experiência da proximidade da morte para fazer-se homens.

Jim Stark, personagem de Dean, reclama constantemente da covardia do pai, um marido submetido pela autoridade da mulher e da sogra, e lança-se num duelo em defesa da honra, após ser chamado de “chicken”. Mais uma vez, os jovens encenam em pequena escala os esqueletos no armário de seu tempo: a paz em que eles viviam era uma fina casquinha sobre a constante ameaça de um confronto terminal, a guerra atômica. Como queriam que aqueles garotos seguissem adiante, como gado, ignorando o conflito silencioso e totalizante, sobre o qual se estruturava a falsa calmaria? A quem queriam enganar aqueles adultos, exigindo que os jovens não se colocassem as questões terminais que seus pais, graças à guerra, puderam formular? Para que viver? Em nome de que lutar? Quais são os verdadeiros amores, os vínculos autênticos, capazes de sobreviver à adversidade?

Num instigante percurso teórico por autores como Hannah Arendt, Walter Benjamin, Giorgio Agamben, Maria Rita Kehl, Eric Hobsbawn, Jacques Lacan, Ana Costa, Contardo Calligaris, entre tantos outros, costurado pela análise de filmes como Aos treze (2003), Cama de gato (2002), Alpha dog (2006) e Os sonhadores (2003), este livro nos conduz a interrogações profundas. Simplesmente horrorizar-se com os jovens cruéis e transgressores, ou mesmo ignorá-los, esperando que seja um desajuste temporário, seria reproduzir as condutas dos adultos do filme. Pais, educadores e policiais em torno de Jim, fizeram de tudo para abafar a atitude adolescente enquanto uma forma, direta ou velada, de questionar.

A juventude está intrinsecamente associada ao tema do novo, onde aqueles que estão se tornando grandes de tamanho, embora ainda pequenos de experiências, inventariam seu legado, decidem o que levarão adiante e o que deixarão pelo caminho. Mas, lembra-nos a autora: “não é o jovem que ainda é pobre em experiência, é a sociedade que é pobre na capacidade de transmiti-la”. É sobre a diferença traçada pro Benjamin entre “vivência” e “experiência” que ela baseia suas reflexões, sendo a primeira apenas a memória de uma série de atos e acontecimentos que só podem ser assumidos e incorporados pelo sujeito mediante a transformação na segunda, Benjamin, ensina Rose, coloca a narrativa enquanto catalisador, instrumento de elaboração, tal como fez Primo Levi. Mas não se conte com os mais velhos para conduzir ou propiciar esse discurso, essa reflexão! Os jovens contemporâneos são filhos de gente que cresceu e envelheceu incapaz de tornar-se um adulto, determinados a jamais deixarem-se superar pelos mais jovens.

Não importando a idade, os que se sentem privados da própria juventude são incapazes de assumir a posição dos que, em vários aspectos, já tiveram sua vez. Já gastaram algumas fichas, mas mantêm os olhos postos apenas no que ainda gulosamente querem viver, sempre mais e muito. Como se a era atômica tivesse nos legado uma vida imediatista, sem passado nem futuro, numa eterna véspera de fim de mundo que o desarmamento nuclear não desbaratou.

Numa cultura onde a vaga de adolescente é disputada por gente de todas as idades, ficando essa época da vida associada a um imaginário (dos adultos) de oportunidades e prazeres (nada mais distante da realidade), resta pouco lugar para questionar. Alem disso, questionar a quem?

No filme Aos treze (também estudado por Rose) por exemplo, todos os personagens estão em busca de alguma razão de ser, mas enquanto os mais velhos se anestesiam com drogas e álcool, os mais jovens lançam mão à aparência, aos objetos, etiquetas e marcas. Não há nenhum adulto no filme, já que os mais velhos são visivelmente fascinados pelas promessas de gozo que atribuem à juventude. A mãe assiste a mutação da menina com alguma preocupação, mas ao mesmo tempo mostra-se paralisada, hipnotizada pelo personagem que surge daí: seu patinho feio tornando-se cisne, a mulher bela e sem limites. Mas quem não ficaria seduzida pela invocação destes poderes? Não é apenas um filme sobre uma adolescência difícil, é sobre os revezes de crescer num tempo em que poucos têm coragem de ser adultos.

Trata-se do fenômeno, caracterizado pela autora deste livro como de “erosão da adultez”, onde para os mais velhos que hoje trajam a fantasia da juventude eterna a reflexão é impossível. Como estes não permitem que o verdadeiro jovem os olhe como diferentes, nunca se estabelece a distância necessária para ver melhor, enxergar de fora.

Exatamente como nos afastamos de um objeto para lhe conhecer melhor as formas, os jovens precisam distanciar-se dos adultos para compreende-los melhor, decifrá-los e com isso conhecer-se. Analisando seus familiares, governantes, educadores, artistas, enfim, todos aqueles que teriam que ter algo a dizer ou mostrar a partir das escolhas que fizeram na vida, os novatos poderiam conhecer melhor suas possibilidades, ponderar sobre os erros que não querem repetir e os sucessos que gostariam de imitar. Dessa forma, seria possível aprender algo com a experiência dos mais velhos, que teriam transformado suas vivências em experiências, caso isso tenha ocorrido. Para tanto, é preciso dar uns passos para trás, estabelecer um espaço, uma diferença entre maduros e jovens, a qual não vem sendo permitida. Nesse sentido, a autora teoriza com Lacan que a agressividade, contida nessa violência juvenil que tanto assusta, é diretamente proporcional à necessidade do sujeito de demarcar seus limites, estabelecer seu território nem que seja a dentadas, como os animais.

A juventude é época agoniada, de impotência, de covardia, onde nada nos prova que seremos capazes de fazer alguma coisa, quanto mais algo que seja melhor do que já está. No entanto, esse é o desafio, pois se não tivéssemos a expectativa de superar, transcender o estabelecido, fazer algo novo, nem valeria a pena começar. Talvez por isso vê-se tanta gente moça desanimada, já que não há um ponto de onde começar, uma referência. É como se os adultos fizessem eco àquela frase jocosa de para-choque de caminhão: “não me siga, também estou perdido”.

A partir da modernidade uma existência tem se fazer valer, deixar sua marca na vida, pois o céu deixou de ser uma meta atraente e a manutenção da tradição não é um objetivo plausível. Arendt já questionava o que se lega aos descendentes, quando os ideais são engajados na esteira da ruptura, da revolução, nunca na manutenção do estabelecido. Rose Gurski aposta na narrativa, que ocorre nos momentos em que o adolescente é escutado, por exemplo. Nessa experiência discursiva torna-se possível equacionar uma relação com a herança recebida, sobre a qual eles possam então criar o novo, fazer suas revoluções, sempre bem vindas. Ela acredita no poder de um verdadeiro olhar adulto que não se negue a enxergar o sofrimento do adolescente. Estes são, enfim, três ensaios sobre a cegueira dos adultos e um chamado a abrir os olhos. O que temos a ver é doloroso mas belo, pois ao mesmo tempo em que nos sabemos passageiros, descobrimo-nos fonte de inúmeros tesouros, nossa herança para ser deixada tem que ter seu valor reconhecido. Afinal, o holocausto nuclear acabou (ainda?) não acontecendo. Há esperança.

Com os filhos nas costas

Lembranças de viagem e algumas reflexões sobre crianças peruanas.

Tenho uma espécie de brincadeira comigo mesma, um desafio pessoal, que consiste em adivinhar a idade dos bebês. Deixei a prática com crianças com certa tristeza e, assim, fico testando se esqueci o que sabia a respeito delas. Recentemente errei feio: em viajem ao Peru, encontrei um garotinho simpático e participativo, ao qual atribui cinco meses, quando tinha apenas dois.

Até os três meses, um bebê luta para controlar o movimento da cabeça, de forma que possa focar seus olhos no ponto desejado. A direção do olhar, que lhe permite fundamentais trocas e aquisições, é uma longa conquista. Àqueles olhos negros não havia detalhe que escapasse. Essa precoce destreza motora, que me confundiu, provavelmente deve-se ao fato de que muitos bebês daquele país costumam acompanhar as atividades da mãe enrolados num pano amarrado às suas costas. Como marsupiais, eles precisam esforço para brotar das entranhas de tecido que os aconchegam, mas também exigem muito de sua musculatura.

Esse foi apenas um dos vários encontros que tive com crianças, principalmente em idade pré escolar, em Cuzco. Elas estavam com os pais nas lojas, banquinhas de rua, restaurantes, e não se resignavam a ficar mudas, fingindo de mobília. Em geral, contribuíam com sua alegria para o sucesso das vendas. Conversavam, se apresentavam aos turistas, brincavam de esconde esconde, gargalhavam muito. Quando se agitavam um pouco mais, um olhar severo, uma palavra da mãe ou do pai, bastavam para limitar a exuberância, que sinceramente não incomodava.

Para nós, país de curta memória, o contato com a história pré-colombiana é transformadora, descobri quanto o velho mundo também é deste lado do oceano, meu senso de passado se alargou. Voltei maravilhada, mas a lembrança desses pequenos descendentes de Incas, Mochicas, Nazcas e Paracas disputa espaço entre a beleza das imponentes ruínas e da natureza da região.

Aprendi que para os Incas, os antepassados mais recentes dessas crianças, o ócio, a preguiça, figura entre os pecados capitais. É, aliás, o pior deles. Não me pareceu estranha essa informação, pois trata-se de um povo que surpreende pelo bom humor com que executa suas tarefas. Trabalhar os orgulha, não é sinônimo de servidão ou alienação.

Por isso, a presença de famílias que se harmonizavam com o ambiente de trabalho, deixou-me pensativa. Revela uma forma peculiar de encarar a questão da transmissão de valores e do espaço das crianças em uma cultura. Esses pais incutem respeito em seus filhos pelo que fazem. A educação das crianças espelha o sistema de valores dos pais: o que pensam, diferente do que dizem. Os filhos sempre sabem a verdade.

Em nossa cultura, diferenciamos muito bem o território dos adultos e crianças. Para nós, o local de trabalho é impróprio para os filhos, onde atrapalhariam e ficariam descuidados. Essas crianças peruanas que conheci, vivem seu começo longe da nossa dita sabedoria psicológica e pedagógica. O espaço é partilhado, mas os limites e exigências são bem claros. Precisam desenvolver a envergadura física e moral, modos e músculos, para viabilizar o convívio. O que provam ter, por vezes bem mais do que as nossas. Isso dá o que pensar em termos de clichês e invenções educativas, para as quais vivemos em busca de fórmulas, critérios, conselhos. Como os valores e as balizas são internos, refletem as convicções de uma família, de uma cultura, nossos esforços práticos nem sempre são recompensados. A infância espelha a ética de um povo, o que fazem, diferente do que dizem. As crianças revelam nossas verdades.

Entrevista sobre literatura infantil

Concedida à Confraria Reinações em 05.03.2010

Palavra de confrade

1.Em que aspectos, na sua opinião, a literatura infanto-juvenil reina?
Ela reina, porque é a mãe não somente do leitor que um dia nos tornaremos, mas também de todo o universo onírico que carregamos vida afora. Fabricamos nossos próprios sonhos e fantasias; nosso artista interior não cessa de trabalhar, mas suas criações são formatadas pelas histórias que se escutou, leu ou assistiu. Neste caso, não restrinjo a literatura aos livros, já que toda história, mesmo que vire filme, peça, desenho animado ou série de televisão, em primeiro lugar, foi escrita. A criatividade é sedenta de fontes e quanto mais criativos formos menos precisaremos de pensamentos e soluções imediatos e prontos. Estas últimas podem tomar a forma do simples consumismo medíocre ou mesmo da imbecilidade fascista. A literatura infanto-juvenil reina tanto quanto conseguirmos seres humanos mais interessantes, e sua falta é origem da pobreza de espírito.

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O gato e a montanha

Sobre a leitura da Montanha Mágica

Quando vejo essas entrevistas que são feitas a personalidades importantes, fico fantasiando que aconteceria se algum dia eu fosse suficientemente importante para que me perguntassem qual meu livro preferido, filme, prato, palavra, lugar. Respondendo mentalmente à entrevista que nunca me fizeram, o que me ocorre é que nessas horas não lembro de nada que li, de nenhum filme que vi, de nada relevante, pânico de opinar.

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