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Alma animal

Além de um vínculo amoroso terapêutico, um animal de estimação costuma ser um duplo do dono.

Donos de animais de estimação costumam ser acusados de dedicar-lhes um amor excessivo, por tratá-los como filhos. Isso é considerado um obsceno deslocamento de afetos. Tendo a discordar, quem quer filhos tem filhos, cães e gatos geralmente ocupam outro lugar.

Talvez a melhor representação disso esteja na concepção de Dimons que encontramos em “Fronteiras do Universo”, uma trilogia de que se inicia com “A Bússola de Ouro”, do britânico Philip Pullman. Estes são uma duplicação das personagens, sua “alma de estimação”. Na história, cada humano tem um Dimon (ou Daemon), sua extensão animal, como se a alma caminhasse a seu lado e ainda fosse possível dialogar com ela. O de Lyra, a personagem principal, chama-se Pantalaimon e pode assumir várias formas, mariposa, gato do mato, arminho, morcego, mudará conforme a necessidade. Quando ela crescer, sua personalidade tendo atingido uma forma mais definida, o mesmo ocorrerá com ele que assumirá uma identidade estável, sua melhor tradução.

Oriundo da mágica Oxford, Pullman lecionou lá como seus mestres Carroll, Tolkien e Lewis, mas encontrou um nicho de fantasia próprio. Conseguiu dar corpo novo a um recorrente aspecto do mundo mítico: as nossas metamorfoses como animal. Em muitas sociedades antigas os animais eram pensados como seres de outra cultura, não como natureza, tais como nós os concebemos. Imputam-lhes linguagem e credos, assim como atributos mágicos específicos a cada espécie. Conservamos algo dessa visão mágica, por isso o animal se presta para metaforizar o caráter e predicados que supomos ter.

É dessa ordem a relação que estabelecemos com nossos animais de estimação, cujo maior mérito é estimar o dono. Se são tratados como filhos, o são somente num aspecto da parentalidade, aquele no qual o filho é uma extensão do narcisismo dos pais: “‘Sua Majestade o Bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos.” , já dizia Freud.

O excessos de zelo com os animais de estimação parece ridículo aos que estão fora da cena. Mas quando problemas de saúde os afetam, seus donos apresentam um genuíno sofrimento, que aprendi a jamais subestimar. Da mesma forma, a morte de um animal de estimação arrasta consigo uma parte de nós, afinal, não dizem que os animais se parecem aos donos?

Por essa função de duplo que o animal ocupa, comemoro quando um paciente passa a estimar um para chamar de seu. Dialogar com essa criatura, adivinhar seus desejos e necessidades, é uma experiência amorosa que funciona melhor que muitos anti-depressivos. Se necessário use, não tem contra-indicações, além de que sempre é bom descobrir a cara de nosso Dimon. O meu é um Bulldog Francês ancião, cujos olhos enormes e dóceis mascaram uma natureza insubordinada. Meu número.

Do tempo das águas turvas

Banir Lobato pelo racismo impede a necessária discussão sobre os preconceitos e injustiças de cada época.

“País de mestiços, onde branco não tem força para organizar um Ku-Klux-Klan é país perdido para altos destinos”. Publicado na revista Bravo, edição 165, o trecho acima faz parte de uma carta enviada por Monteiro Lobato para um destinatário tão entusiasta da eugenia quanto ele próprio. Antes de ser ventilado o racismo de Lobato, lembro de ter enfrentado um constrangimento pessoal por suas posições.

Tinha o hábito de ler suas histórias para minhas filhas pequenas. Nos deliciávamos ao vê-lo trazer para nosso quintal um exército de personagens clássicos. O ogro verde Shrek, nascido no século seguinte, foi muito elogiado por mixar e recriar os contos de fadas. Só que no Brasil já estávamos habituados a essas paródias graças à irreverência de Lobato. Peter Pan, o Gato Félix, anjos e seres mágicos da mitologia, da literatura e do folclore confraternizam no Sítio do Picapau Amarelo. Era empolgante essa mestiçagem na ficção, algo que aparentemente ele não aprovava na vida real.

Quando apareceram expressões inaceitáveis alusivas à Tia Nastácia, minhas filhas se revoltaram e perderam o entusiasmo pelo Sítio. Acabaram reincidindo, não há menina brasileira que tenha crescido alheia às reinações de Narizinho. Aliás, é bom lembrar que ela casou com o príncipe peixe do Reino das Águas Claras sem nenhum preconceito! Essa pequena crise doméstica deixou-me claro que hoje banhamo-nos em outras águas, bem menos turvas.

Nosso tempo não perdoa o racismo. Hoje é inaceitável a incoerência de valores entre vida pessoal e obra. A hipocrisia, embora eterna, perdeu espaço. Como valorizar algo feito por aqueles que a história condenou? É sempre bom lembrar que os campos de extermínio nazista derramavam sua fumaça fétida sobre as comunidades que viviam coladas a eles. Como era possível àquela gente conviver com esse horror? Condenando Lobato ao ostracismo, banindo suas obras, julgamos que nada se aproveita de alguém assim. Seria o mesmo que condenar todo o legado cultural da população da Alemanha e da Polônia pelo que promoveu. O julgamento é justo e necessário, mas separar o joio do trigo vale a pena. Principalmente por que as crianças precisam saber que o autor genial, assim como o cidadão vizinho ao campo, eram pessoas comuns como nós. Eles cometeram muitos erros e, mesmo hoje, nenhum de nós está livre de imitá-los. Covardia é furtar-se a esse debate com filhos e alunos. A propósito, ontem foi o Dia da Consciência Negra, data pensada para lembrar das atrocidades que somos capazes de cometer.

21/11/12 |
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Meu pai e os monges de Myanmar

decifrando a última mensagem…

No hospital, no início da derradeira jornada, meu pai me deixou uma incumbência. Ainda na emergência aguardando diagnóstico, eu procurava acalmá-lo. Com o pensamento confuso ele tentava tomar providências práticas, dinheiro, seguro de saúde. Entre as últimas preocupações que conseguiu enunciar ficou a pergunta, que fez com olhos já foscos: “e os monges de Myanmar?”. Frente à nossa impotência, à mercê do corpo que falia, só me cabia responder: “Deixa que cuido deles!”. Fiquei devendo essa parte e, como sempre, quando se perde o pai, tantas outras.

Era agosto de 2007, fazem agora cinco anos. A notícia candente da ocasião era o engajamento dos monges budistas nos protestos pela situação cronicamente precária desse minúsculo e instável país no sul da Ásia. Era tocante a imagem daqueles homens pacíficos, em suas vestes laranjas, enfrentando as potências armadas.

Meu pai vivia o noticiário como algo pessoal. Uma posição compreensível para um sobrevivente da Segunda Guerra. Ele teve a família destruída, o pai e o irmão assassinados em Auschwitz, pela má avaliação política que muitos judeus húngaros fizeram. Subestimando a ascensão do nazismo em seu país, deixaram de fugir a tempo. Dali em diante, a conjuntura nunca mais o pegaria com as calças na mão, espero ter aprendido isso com ele.

Lembrei de tudo isso ao ler o recentemente reeditado livro de memórias de Philip Roth: “Patrimônio: uma história real” (Companhia das Letras, 2012), que narra a etapa final da sua vida com o pai. Ao saber do tumor que mataria Herman Roth, então com 86 anos de idade, o filho Philip foi incumbido de dar-lhe a notícia, ou pelo menos as informações necessárias para conduzi-lo à consulta com o neurocirurgião. A caminho desse encontro, o escritor errou um cruzamento e foi, num lapso, parar no cemitério onde repousava o corpo da mãe. Conduzido pelo inconsciente, desceu, contemplou o túmulo que receberia o pai e ponderou… sobre a vida! A sobrevivência quase birrenta do seu pai – “Ele e a vida vinham juntos de muito longe”- sua compulsão a narrar o tempo todo – “Você nunca deve esquecer nada!” , sempre dizia – marcaram Philip Roth, que tampouco pôde deixar de contar histórias para viver.

Também aprendi que, mais que a morte, é a vida a grande surpresa. A mensagem final do meu pai foi que para mantê-la é preciso olhar em volta, entender o que se passa. Observando o mundo, seus políticos, soldados e os monges de Myanmar, talvez possamos sobreviver e fazer alguma diferença. Disso posso cuidar.

Numa velha história, um projeto de vida

um reencontro surpreendente: conseqüências inesperadas de uma leitura infantil

Há muito esperava esse reencontro, mas nunca o fazia acontecer. Afinal, pedi o exemplar em um sebo virtual. Estava curiosa, mas foi sinistro, constrangedor até. Fazia quarenta anos que não tinha notícia dessa história, mesmo considerando-a como minha predileta. Trata-se de “Uma casa na floresta”, o primeiro volume dos nove escritos por Laura Ingals Willder, contando a vida difícil dos pioneiros norte-americanos, a sua própria. Li a série no início da puberdade, numa biblioteca, nunca tive os livros embora os adorasse.

Quando o pacote chegou, tão pequeno, pensei ter me enganado: vai ver que pedi uma edição adaptada. Nada disso, “texto integral”, dizia na capa. Na lembrança era maior. Além disso, nesse relato não havia nada de encantador, o livro era chato. A surpresa era outra. Aquelas páginas eram como uma carta que houvesse enviado para mim mesma do passado. A missiva tinha data para chegar e era agora, com as filhas crescidas. Ali estavam descritos, prescritos, sonhos do passado que realizei sem clareza de que os tinha.

A menina Laura e sua irmã Mary viviam numa cabana de troncos na floresta. Há intermináveis páginas sobre o cotidiano severo, de escassez, rezas, obediência, chatices domésticas identificadas com aconchego. O pai caça para alimentar a família, o preparo da carne salgada e defumada e das conservas para atravessar o inverno. As brincadeiras e o calor da casa quando a neve chega, a boneca de pano, um presente inesquecível. A animação fica por conta do relato das aventuras do pai, que conta da floresta onde enfrenta panteras, ursos e lobos. Dentro de casa proteção, fora o perigo.

Essa vida rudimentar meticulosamente narrada evoca a nostalgia de algo que na verdade nunca existiu: uma família antiga e amorosa, onde há um pai poderoso que se ocupa das filhas mulheres, veja só. Um verdadeiro “Refúgio num mundo sem coração”, como Christopher Lasch, em seu livro com esse nome, descreveu o ideal em que se inspira a família nuclear.

Sem lembrança consciente do livro, nem dos seus efeitos em mim, construí uma família com várias alusões a essa história. Dei à minha primogênita o nome da autora e protagonista da obra, minha porta sempre teve um bulldog, como o velho Jack da saga, montando guarda e minhas duas filhas cresceram ouvindo histórias sentadas no colo do seu atencioso pai. Errantes pelo mundo, sempre nos resta a nostalgia de um ninho imaginário. É isso que queremos para nossos filhos, eu bem que tentei. Como se vê, leituras infantis são perigosas, no bom sentido.

01/08/12 |
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Homens-livro

Sobre Farenheit 451, a propósito da morte de Ray Bradbury

“Fahrenheit 451”, o clássico de Ray Bradbury, escrito em 1953 está acima da costumeira disputa sobre a qualidade do original e da adaptação: o filme homônimo de François Truffaut, de 1966, também é uma obra prima. Essa história me toca em particular, pois deu forma literária à subjetividade do mundo em que nasci. Um tempo é melhor retratado por seus temores e esperanças do que pela realidade, são as fantasias que desvelam esses bastidores, a subjetividade dos fatos. Nesse sentido, a literatura é fonte fidedigna de pesquisa histórica.

A Guerra Fria, assim como o modo de vida do pós-guerra, são metaforicamente retratados no livro como se fossem um futuro distante. Se hoje dizemos que os jovens são parcos de esperanças, isso certamente deve tributo ao tratamento que as gerações anteriores deram às utopias, moradas das expectativas e dos sonhos coletivos. Foi uma época triste, onde anseios de um mundo melhor encontraram no totalitarismo seu destino trágico.

A derrota bélica e política do nazismo não foi o fim, nem a única expressão, da determinação de transformar o estado em um deus, que, como tal, não devia explicações a ninguém. Havia um empenho global, e nisso o estalinismo foi certeiro, em fazer da alienação do homem comum uma regra. Seja qual for o tipo de governo que o século passado concebeu, mais à esquerda ou direita, as coisas importantes costumavam acontecer além da alçada do cidadão. Este que ficasse quieto, sua opinião era menos que bem vinda. Nas ditaduras o pensamento é cerceado, enquanto que nas democracias indignas do seu nome a astenia política é incentivada. Hoje, num mundo onde a liberdade conquistou muitos espaços, os regimes totalitários sobrevivem, prova de que há algo na condição humana que ainda anseia por esse modo de vida. É tão mais fácil não pensar…

Acabamos de perder Ray Bradbury, aos 91 anos, o autor dessa que é uma das mais belas fantasia distópicas, metáfora genial do ocaso da esperança. Mas, longe de ser um pessimista, deixou-nos, com “Farenheit 451”, uma nota para nunca ser esquecida: a ficção contém os sonhos mais preciosos, a riqueza e complexidade que nos tornam potencialmente revolucionários. Melhor que isso, mesmo quando o ambiente é adverso há homens dispostos a dar a vida em defesa da arte, das boas histórias. Quando tudo nos é retirado, percebemos que na beleza do encadeamento das palavras, na genialidade de uma trama, resiste nossa essência. Enquanto ela existir, sobreviveremos.

A literatura sempre foi considerada perigosa para os regimes totalitários, porque em seu interior os homens se compreendem melhor, tornam-se mais sábios, críticos e corajosos. Quanto mais escrevermos e lermos, mais nos pareceremos com uma civilização e menos com uma boiada. Isso vale para todas es formas da arte.

Bradbury projetou, para um futuro não muito distante, uma sociedade alienada, onde a população idiotizada era mantida distante de qualquer coisa que pudesse gerar angústias, dúvidas ou tristezas. Uma sociedade de semi-analfabetos, alimentados cotidianamente pela ilusão de participar de uma programação televisiva simplória e realista. Contentavam-se com metas medíocres, como a aquisição de objetos da moda, o aumento da capacidade de consumo, o cuidado com a auto-imagem. Também se dedicavam à vida social, baseada em conversas fúteis, principalmente sobre TV. Para garantir um estado de espírito compatível com essa rotina bovina tomavam remédios regularmente. Sentimentos e emoções eram proibidos, nenhuma manifestação artística era suportável. Os livros, remanescentes clandestinos de um passado recente, quando ainda era permitido viver intensamente dores, amores e desejos, eram caçados e queimados. Farenheit 451 é a temperatura na qual eles entram em combustão.

Qualquer evocação da nossa sociedade vinda da descrição anterior não é mera coincidência. Detalhe: nesse quadro montado pelo autor havia uma ditadura que submetia a população a horizontes tão estreitos. Bondoso da sua parte, pois já devia saber que entramos na fila dos pobres de espírito alegre e espontaneamente, sem necessidade de ser subjugados para tanto.

Os revolucionários de Bradbury não são guerrilheiros ou resistentes no sentido clássico, eles apenas defendem a existência da vida interior representada pela leitura. Trata-se de um grupo rebelde de homens no exílio, na clandestinidade, que se empenha na sobrevivência do acervo literário da humanidade. Eles decoram obras literárias e se incumbem de contá-las e preservá-las. Cada um torna-se um homem-livro. Ao deserto de referências simbólicas eles contrapõem seu apego à leitura. É interessante que a escolha da obra é feita por cada revolucionário, ele passa a ser esse livro, será identificado com ele, atenderá por seu nome, fará das palavras dele as suas. Existe melhor representação do tipo de relação que temos com nossas histórias prediletas?

Porque esse valor todo dado aos livros? Ler pode e deve ser aprazível, não necessariamente nos faz felizes, mas certamente porque nos enriquece, nos traduz. A fruição solitária e portátil de um livro não requer instalações, nem equipamentos. Basta a imaginação de outro ser humano, escrita no código de uma língua que conheçamos bem, e a viagem está garantida. Naquela sociedade a leitura foi banida porque faz dos cidadãos seres pensantes.Todo aquele que lê complica as coisas, no bom sentido. Na resistência imaginada por Bradbury, cada indivíduo preserva um pedacinho do acervo cultural da humanidade para fazer diferença no futuro.

Nessa história, há uma contraposição quase caricatural entre cultura e barbárie que é verdadeira e profética. Para nossa sociedade hipocondríaca, vidiota, consumista e narcisista, mais livros fariam diferença. Talvez quanto mais homens-livro houvesse, menos homens-bomba seriam necessários. E você, se pudesse salvar um livro da destruição, já pensou qual seria?

07/06/12 |
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A Chave do Tamanho

Sobre ser pequeno, achar o mundo imenso. Sobre achar-se grande coisa e filosofias da boneca Emilia.

Tardiamente, fui conhecer Brasília. Temos, eu e ela, certa identidade: de gêmeas separadas ao nascer, mesmo ano. Devo dizer que me inquietou ao vê-la, cinqüentona como eu, meio caidaça. Espero que os paralelos não sejam tão óbvios. Mas o que realmente me surpreendeu foi o tamanho dos prédios, aqueles que são ícones da nossa nacionalidade. Esperava muito ver ao vivo o Palácio da Alvorada, o Itamaraty, a Catedral, o Congresso. Suas imagens povoam minha memória, estampadas em jornais, selos, moedas, na televisão. Desde que me entendo por gente são sinônimo do país, erguidos para encarnar o progresso e a grandeza da pátria. Cresci acreditando nisso. Eles são mesmo bonitos, mas surpreendentemente menores do que supunha. Entenda-se: não são pequenos, minha imaginação era superlativa. Vivi sentimento idêntico ao entrar em lugares da infância, aos quais a memória preserva a grandeza. Espichamos e esquecemos que crianças sofrem de nanismo, para elas tudo é grande e inacessível. Alguém se lembra, por acaso, como é não saber o que há em cima da mesa?

Impossível não evocar “A chave do tamanho” de Monteiro Lobato. Nessa história, tentando acabar com a guerra (foi publicado em 1942), a boneca Emília vai para a “Casa das Chaves”, reguladoras de todas as coisas do mundo. Queria achar e desligar o controle do conflito bélico que além de mundial, parecia não ter fim. Por acidente, acaba ativando uma chave que controla o tamanho dos seres humanos, que ficam reduzidos a dois centímetros de envergadura. Entre os inúmeros perigos, a pior das desventuras da boneca ocorre com duas crianças que ela encontra, cujos pais acabam sendo devorados pelo próprio gato da família, na frente dela. “A mudança de tamanho da humanidade vinha tornar as idéias tão inúteis como um tostão furado”, filosofa a boneca. Aliás, ela sobrevive graças à esperteza de perceber que tudo deve ser avaliado em outra escala.

Depois que crescemos, pessoas, objetos e lugares encolhem. Só mesmo nosso desamparo mantém a envergadura. Ele não desaparece quando alcançamos os trincos das portas. Quando pequenos, há pessoas grandes, que supomos protetoras; depois, tudo e todos perdem o porte. Assim, quem olhará por nós? A pequenez nos angustia, preferimos delirar a grandeza. Mas grande mesmo é a sabedoria da Emília: a chave é o tamanho. Mostrar aos homens que na verdade são insignificantes é uma ótima idéia para acabar com as guerras. Afinal, elas nascem da onipotência, de se achar maior que os outros. Escalas são pontos de vista e variam. Um dia é do dono, outro é do gato.

10/05/12 |
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Adultos vorazes

sobre o livro-filme “Jogos Vorazes”e o interesse dos jovens pelo tema do totalitarismo

Crianças, no futuro toda essa selva será sua! Não parece atraente, mas é o patrimônio que temos a oferecer aos jovens. O lado de fora do lar é sempre a perigosa floresta, já alertavam os contos de fadas. A vida social é uma arena e os jovens são como gladiadores, cuja vida e prestígio pedem um sacrifício à sociedade do espetáculo. Esses elementos encontraram uma ótima síntese em “Jogos Vorazes”, primeiro volume da trilogia juvenil de Suzanne Collins (Ed. Rocco), agora no cinema. O livro re-atualiza o mito do Minotauro, colocando jovens a serem entregues à morte, como tributos. Desta vez, são sacrificados a outro tipo de monstro: a voracidade do público de um Reality Show.

Na maior parte do Ocidente vivemos num clima democrático e escarnecemos das primitivas ditaduras remanescentes. É fato, mas os jovens e suas fantasias prediletas insistem no tema do totalitarismo: os magos perversos de Tolkien, os Comensais da Morte de Harry Potter, a repressão em V de Vingança, entre tantos outros. Aqui isso se repete, por que será?

Nessa série, em um mundo distópico, um poder central, situado na “Capital”, submete 12 distritos à miséria e controle absolutos. Uma rebelião ocorrida no passado é lembrada anualmente com uma punição exemplar: cada um dos distritos deve oferecer dois jovens (um casal) todo ano para disputar uma luta terminal, que ocorre numa floresta, da qual somente um dos 24 pode sair vivo. Claro, câmeras espalhadas mostram a carnificina em detalhes. Um deles, Katniss, a personagem principal, vai construir sua trajetória heróica em confronto com o poder da Capital. Ela já era uma caçadora clandestina, independente, mas responsável. Nos jogos, torna-se guerreira.

Os jovens cultivam essas histórias porque não se deixam enganar pela paz aparente. A luta por poder e prestígio, a fogueira das vaidades, segue fazendo vítimas. Não há lugar no mundo para todos e nessa dança das cadeiras sobram muitos de pé, eliminados. Mesmo sem guerras para mandá-los, das quais voltarão vitoriosos ou mortos, eles continuam sendo selecionados. Por isso crescem armados, desconfiados e preparados para a vida na selva. Hoje como ontem, não lhes perdoamos o viço que os mais velhos já perdemos, a necessidade que eles têm de revolta, a independência que precisa nos derrubar. Como pais, exigimos tributos pelo que lhes demos, reverência às nossas conquistas e crenças. No fundo, adultos sempre serão totalitários, crescer sempre será uma guerra e o mundo uma selva. Nossa parentalidade culposa, gagejante e omissa não os engana. O adulto é o lobo do jovem.

Publicado em ZH em 11.04.2012

Anexo em novembro de 2015:

Na ocasião da estréia dos filmes de “Jogos Vorazes” escrevi esta coluna cujas palavras ainda endosso. O episódio final, do qual não vou colocar aqui nenhum spoiler, dá muito o que pensar. Nele fica claro o que fizemos para semear tanta desesperança. “A esperança”, terceiro e último livro da série que é verdadeira paixão para uma geração de jovens, aponta para pistas de onde buscá-la. Afinal, deve haver muita coisa no meio entre as duas formas extremas de alienação: a retração narcisista dos indivíduos e a entrega a um fascismo grupal messiânico. Precisamos encontrar onde fica a esperança, minhas pistas dizem para buscá-la entre os jovens.

Viajando nas figurinhas

Em defesa da literatura em quadrinhos, porque imagens não valem por palavras, elas as geram, são indissociáveis como letra e música.

Na infância, além viagra quadrinhos, adorava livros ilustrados. Meus preferidos eram os que passei a ler quando maior, com uma ilustração a cada muitas páginas, que sequer eram bonitos, mais fiéis que criativos. Costumava voltar à gravura de tanto em tanto, na medida em que o texto ia acrescentando um detalhe. Por vezes, voltava só para sonhar sobre o conteúdo da obra, como se o portal para entrar na minha própria fantasia estivesse na imagem. A palavra impressa impunha seu ritmo, conduzia a imaginação, o que é bom. É melhor entrar num labirinto desses com a certeza de ter um guia e uma saída, um fim. Até hoje sou leitora lenta, mais divago do que leio. Pena, meus livros raramente são ilustrados. Saudosa, lembro das figuras como o melhor lugar para onde ir quando queria fantasiar sobre a fantasia e recorro à capa do livro, que detesto quando não contém figuras.

Adulta descobri um tesouro: as “graphic novels”, traduzidas por “romances gráficos”. São histórias longas contadas através de quadrinhos. Os exemplos mais populares são os maravilhosos “Persepolis” (Marjane Satrapi) e “Maus” (Art Spiegelman). Ao contrário da leitura breve e desatenta que por preconceito que costuma ser atribuída ao quadrinho, elas são detalhadas na construção da linguagem visual, sempre peculiar. Entrar numa delas é como desvendar uma novidade literária a cada vez, um novo estilo narrativo. Cada autor tem um traço, um modo de inserir as falas, personagens e ambientes se devotam à máxima eloqüência. Ali, página após página, reencontro os portais em que costumava me perder. O que na literatura era uma relação clandestina, aqui torna-se estável, reconhecida, é o centro das atenções. As imagens não valem por palavras. Elas não dizem, nos fazem dizer. Não discursam, põem nossa cabeça a falar. Nas novelas gráficas a literatura se aproxima do sonho.

Tudo isso para recomendar uma delas: “Asterios Polyp” (de David Mazzucchelli, Ed. Quadrinhos na Cia.). A história de um famoso arquiteto em crise, que após um incêndio que destrói seu apartamento no dia do qüinquagésimo aniversário, resolve abandonar a vida que tinha. Com o dinheiro do bolso compra uma passagem até onde esse valor possa levá-lo e lá experimenta fazer tudo diferente. É uma fantasia que já tivemos: sair para comprar uma Pepsi e nunca voltar. Fim de ano é época de promessas de mudança e de sonhar com viradas radicais. Asterios pode ser um bom cicerone nessa fantasia. Perca-se nessas imagens.

07/12/11 |
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Versões do abismo

Sobre o livro de Eliane Brum, “Uma:duas”, relação mãe-filha e jornalismo e ficção.


Alguma coisa acontece quando um jornalista se aventura na ficção. Narrativa assumidamente inventada, a literatura é livre, solta da verdade, conscientemente narcisista, ignorante da realidade. Já o repórter voa como um balão de gás preso a um cordão, não pode nem deve desconectar-se, pois dele esperamos um mundo menos incompreensível. Ser bom numa profissão é arcar com as utopias que ela carrega: a do jornalista é de que a informação seja confiável, de que podemos fazer a soma das versões e ter como resultado a verdade. São os jornalistas nossos olhos, ouvidos e pernas extra, graças a eles podemos transcender e compreender o que de relevante se passa além das nossas estreitas fronteiras.

Ao contrário do óbvio de seu ofício, que é fazer de seu trabalho telescópio, satélite, olhar maior, Eliane Brum sempre trabalhou com o microscópio. Pois não é somente o que está longe que nos escapa. Assim em suas reportagens, livros e documentários revelou gente que está conosco, mas não é visível a olho nu, experiências de vida, miséria, morte e superação às que nunca prestaríamos atenção. A peculiaridade desse trabalho sensível um dia ainda ia acabar em ficção, e assim foi.

Dar voz pública às mulheres trouxe como consequência a oportunidade de divulgar seus pesadelos típicos, entre eles o maior: o de afogar-se nas águas abissais da relação mãe-filha, uma luta corpo a corpo, onde uma fenece para que outra desabroche. É sobre isso o primeiro livro de ficção de Eliane: “Uma:duas”, publicado pela Leya. Sua personagem Laura é uma filha que procurava tirar a mãe do seu corpo, sabendo que sem isso, nada sobraria. Como sair das entranhas, sem poder partir completamente?

Mulheres precisam ocupar um corpo que a cada dia se torna mais semelhante ao da própria mãe. Minhas filhas tinham pavor da “Maria Degolada”, o fantasma de uma mulher assassinada, lenda da tradição de Porto Alegre. Dizem que se nos trancarmos no banheiro e gritarmos três vezes seu nome ela aparecerá no espelho. Elas tinham razão, para nós mulheres os espelhos sempre guardam uma assombração, é a cara da nossa mãe, é a nossa cara da mãe.

Mesmo navegando na fantasia, Eliane, a jornalista, não podia deixar de ouvir os dois lados. o pesadelo simbiótico tem duas versões, mãe e filha escrevem o que sentem sem ler uma à outra, cabe a nós a acareação da verdade inexistente. Elas se odeiam e amam com paixão e nos conduzem por sua dolorosa separação. É uma reportagem nos abismos. Eliane invadiu os divãs, os pesadelos das mulheres e de lá, mais uma vez, trouxe notícias quentinhas.

08/06/11 |
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Conficções

sobre o encontro da realidade com a ficção


Conviver com um escritor pode ser perigoso. Ele está sempre caçando histórias, chegou a confessar certa vez que no meio de uma discussão de relacionamento com a mulher distraiu-se bolando uma crônica sobre a situação. Episódios da vida de todos os circundantes podem ser capturados por ele e virar fantasia. Embora não tenha pudor em colocar nome e sobrenome das vítimas, ele torce o evento conforme a necessidade literária, nossas banalidades assumem um tom mais dramático. Padecem desse risco principalmente seus filhos e sua mulher, personagens prediletos, além dele mesmo, de sua realidade imaginária.

A própria realidade, vista com a lente da poesia que ele empresta ao cotidiano, vai se tornando igualmente estranha, ficcional. Quando menos esperamos, aprendemos com ele a fazer pequenas crônicas mentais do que vivemos: “isso dá uma crônica”, exclama frequentemente. Aliás, a expressão que intitula esta crônica, “conficção” é dele: Fabrício Carpinejar, que assim encontrou meio de expressar a união entre o depoimento sincero do que se viveu com a fantasia, a ficção.

Fabrício tem um nobre precursor, na figura de D.Quixote. De tanto turvar a realidade com as histórias de cavalaria que lia com ardor, o Cavaleiro Andante forçou aqueles com quem convivia a delirar com ele. Foi assim que convenceu um vendeiro, a quem chamava de castelão, a armá-lo cavaleiro, ladeado por duas moças da vida, que tratava como damas, a quem dizia passar a dever obrigações. Sobre um simples livro-caixa o assim denominado castelão concedeu a nobreza de que sempre careceu. Para tanto, recitou suas anotações em tom de reza, transformando um registro comercial em palavra mágica. Para Cervantes, a loucura é contagiosa, no melhor sentido.

Aquilo que julgamos ser uma realidade tampouco o é, pois memórias são duvidosas e relatos de fatos recentes são romanceados. Até a personagem que julgamos ser é uma construção ficcional, cujas características lapidamos até a morte. Da infância guardamos escassas memórias, cenas, trechos que quando contados nos deixam uma dúvida: será que lembro disso ou estou inventando a partir de alguma foto ou narrativa alheia? Nossa realidade é ficcional.

Quanto à ficção propriamente dita, alguém duvida que ela revela segredos do seu autor, muitos dos quais são inconscientes até para ele? Pura fantasia, portanto, não existe, verdadeira realidade, tampouco. Por isso, conviver com um escritor, ou mesmo com a literatura, é o mais interessante dos perigos: se não passamos de histórias, pelo menos podemos apostar em tornar-nos narrativas bem mais interessantes!

11/05/11 |
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