Morrer de véspera
A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo
Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infância, na sua trajetória canina é o fim da vida. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e trinta por cento da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só pode ter piorado. Na ocasião lhe receitaram vários remédios, ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum bulldog francês amadurece, só ficam mais lentinhos. Os tratamentos o tornaram muito magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe empurrávamos mais uma pastilha. Por isso decidimos deixa-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente teria uns oitenta anos.
Na verdade, se fosse humano talvez já estivesse morto, de preocupação, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde, é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas estimadas décadas nos restam, na melhor das hipóteses. Aliás, o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.
Convivi com amigos que, ao invés de morrer de véspera, fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação com o vírus HIV era um prenúncio de morte iminente. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça de morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Acabaram o estágio. Pressionados, se efetivaram no emprego da existência. A medicação, que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: “benigno”. Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão.
(publicado na Revista Vida Simples, edição de janeiro)
“Só” uma intérprete
Nos 30 anos da morte de Elis, a lembrança de que nada se cria, tudo se interpreta.
Depois que tomava uma música para si, Elis Regina lhe emprestava a alma. Olhava o público nos olhos, parecia que um a um. Era lúdica, gorjeava travessa, abria um sorriso solar, o corpo inteiro se engajava na voz, os braços abertos em hélice. As canções ficavam marcadas a fogo com seu selo, tornavam-se dela, abafava outras versões. Jamais escreveu letra ou melodia, sua autoria era conferida pelas interpretações. Amanhã farão trinta anos de sua ausência.
Um bom ator é um intérprete de seu personagem, mas a qualidade da cena dependerá da entrega, de que o porta voz esqueça sua própria identidade e vista o papel. Minha carreira teatral sucumbiu brevemente quando, tomada de suores e tremores, não conseguia esquecer minha pobre pessoa, cujo fracasso no palco se impunha sobre as falas da peça. Tão preocupada com meu vexame só conseguia interpretar a mim mesma. Um verdadeiro intérprete entrega-se à Pomba Gira, deixa-se possuir, e assim, num contragolpe, termina apropriando-se do espírito que o toma. Se for genial não conseguiremos diferenciar a criatura do criador, o demônio da vítima que o conjurou. Assim era Elis, de quem se dizia que era “só” intérprete.
Os psicanalistas se aproximam desse espírito: ao interpretar sonhos, por exemplo, o fazemos num estado de entrega, como o dos artistas. A verdade oculta sob o enredo maluco de um relato onírico pode ser lida sob o texto daquele que o narra. O paciente lembra o que sonhou, mas em sessão faz um relato peculiar onde, sem saber, opina sobre a aventura onírica. Seu analista exercita uma escuta sem preconceitos, sem deixar-se influenciar por suas teorias. É preciso surpreender-se por uma formulação curiosa de palavras, um desencaixe no relato, um estribilho: eis a dita atenção flutuante. Assim descobre a nota dissonante do relato e a destaca do contexto, essa será a chave do enigma ou pelo menos de uma porta para entrar nele. Também o analista se relaxa e se perde de si, pois sem entrega não ocorre essa peculiar forma de escuta. Interpretações, como se vê, são sempre uma inusitada autoria, onde alguém se apropria do texto do outro para produzir a novidade.
Somos versões dos nossos antepassados, adaptadas ao nosso tempo. Seus traços nos assaltam e com eles compomos uma identidade. A originalidade possível não passa da apropriação peculiar dessa origem, que é de certa forma uma interpretação. Uma intérprete, como Elis, é autora de versões. Versões também são obras de arte, ou, como diria Borges: obras de arte são sempre “só” versões.
Um homem, muitas vidas
nunca é tarde para se reinventar
Quantas vezes deixamos de realizar algum anseio por achar que é tarde para recomeçar ou transformar nossa vida? Encruzilhadas, opções, estão sempre aparecendo, mas falta coragem. Muitas vezes sou procurada para ajudar nessas curvas de destino. A teoria me diz que é possível, mas nada como uma história verdadeira para acreditar.
Para o primogênito de um ferroviário a universidade oferecia poucas opções: médico, advogado, engenheiro. Naquela época, arquiteto e psicólogo não eram destinos plausíveis para um macho gaúcho do interior. Estudou engenharia na capital, militou em tempos de repressão. Apaixonou-se por uma mineira, companheira de política, e perseguidos tiveram que sumir. Foram parar novamente no interior. Mas suas aspirações estéticas e ideológicas contaminavam o pragmatismo do engenheiro civil. Projetou formas inéditas e com elas desenhou o campus da universidade onde leciona até hoje, o museu antropológico, casas exóticas. Era arquiteto, urbanista, educador e político. Teve filhos, netos. Basta? Para ele, não. Guloso de novidades foi analisar-se. Apaixonou-se novamente, desta vez pelo caminho aberto por Freud. Nada o impediu de voltar aos bancos da mesma universidade onde é professor, cursou psicologia, estuda psicanálise. Já tinha quase sessenta quando se formou e hoje, rumo aos setenta, tornou-se psicanalista. Provavelmente seus pacientes têm oportunidade de projetar para suas vidas formas tão criativas quanto as que ele encontrou.
Quantas vidas teve esse homem? Todas as que quis e sabe-se lá o que ainda vai inventar. Talvez, relativo à vocação, possa se aquietar, pois um psicanalista vive muitas vidas além da sua. Quem clinica é testemunha e promotor de viradas surpreendentes ou, ao contrário, de situações em que se reencontra o eixo anterior, que já parecia perdido.
Ele não é meu paciente, é meu tio e graças e ele não tenho dúvidas de que a vocação é algo muito maior que um conjunto de dons. Aprendi que o norte são desejos inesperados, inexplicáveis, e sobre a tenacidade em realiza-los.
Se para um homem cujas opções cabiam nos dedos de uma mão a vida abriu-se em leque, imagine hoje! Além das mais inusitadas profissões possíveis, o jovem sabe que as oportunidades e vivências o transformarão de modo imprevisível. Outrora poucos ousavam sonhar, mudar de rumos, descobrir novidades em si mesmo. Mas não há porque se apoquentar, podemos nos inspirar nessa e em tantas histórias assim. Para seu pai, chefe de estação, os caminhos seguiam os trilhos, não havia como nem porque descarrilhar. O filho, pioneiro de um tempo de roteiros indeterminados, descobriu o número infinito de linhas com que se pode projetar e percorrer a própria existência. Uma história e tanto, que hoje pode ser a de qualquer um.
(Publicado na Revista Vida Simples, edição de dezembro de 2011)
A última viagem do Professor
sobre Monsieur Roche e a arte de ensinar uma língua estrangeira
Banido de sua Hungria natal pelo nazismo, meu pai não cessou de viajar até a aposentadoria. Nunca se aquietou de fato, enquanto o corpo permitiu seu armário era uma mala. Quando ficou velho e teve que parar fiquei preocupada: podia ficar horas lendo, mas eu sabia que para mantê-lo bem ele teria que seguir viajando. Então o apresentei aos cursos do Professor Alexandre Roche. Ele ensinava francês no instituto que leva seu nome, mas fazia isso contando histórias, levando seus alunos para jornadas históricas e literárias. Nascido em Alexandria, de pais franceses, estudou história na França. No Brasil, ensinava a língua de Voltaire com muito mais do que verbos e pronomes. Por vários anos, ele conduziu meu pai em suas últimas viagens, que não foram menos divertidas do que as que fazia de avião.
Recebi a triste notícia de que Monsieur Roche, como o chamávamos, também partiu. Gostaria de acreditar que eles se encontraram em algum lugar e estão botando a conversa em dia. Estes dois velhos se foram deixando-nos uma lição inesquecível: um professor e um aluno nunca se aposentam, ensinar e aprender pode ser um prazer que dure a vida inteira.
Uma língua é mais que um acervo de palavras, um decantado das culturas nela se expressa, carrega sentimentos, convicções, conta histórias. Idiomas são musicais, falar a língua em que se nasceu e cresceu é reproduzir a entonação e o ritmo do discurso amoroso que nos fez ser o que somos. A língua materna é a do acalanto, dos sonhos, é a que usamos para praguejar secretamente e contar quando estamos distraídos.
Aprender uma outra língua sempre será uma traição à original. Traindo a língua mãe produzimos diferentes versões de nós mesmos, experimentamos liberdades, mas também vivemos um exílio, a alma sente-se em viagem. Quando aprendemos um idioma depois de adultos conservaremos restos de sotaque que são nosso certificado de origem. Meu pai falava sete línguas com sotaque húngaro, língua em que encontrava poucos parceiros com quem conversar após os 17 anos.
Várias vezes estrangeiro, Roche sabia disso e não escondia seus erres arrastados em português. Mas para ensinar francês, fazia o possível para que seus alunos se sentissem em casa. Como um ancestral emprestado, oferecia as histórias de uma tradição aos que nunca serão nativos nela. Falava da França, do Egito, de literatura, política. Seu ensino era acima de tudo uma experiência de hospitalidade. Monsieur Roche, desta vez partiu numa viagem sem malas. Obstinado como um gaulês, deve estar ensinando francês para os anjos.
Tchau-tchau lixinho!
Uma atitude ecológica é coisa de adultos, não importa a idade que se tenha!
Não importa o quando os apocalípticos possam resmungar: acredito que o mundo e seus habitantes vêm melhorando. Sei da contabilidade triste da destruição ambiental. Tampouco ignoro que preservar e cuidar são posturas em construção. Ainda assim constato que pudemos nos tornar mais civilizados. Em meio século de vida tive tempo de testemunhar mudanças radicais: na minha infância, o chão parecia bom lugar para largar qualquer lixo; praias, praças, jardins e lugares públicos no final do dia pareciam um campo de guerra onde jaziam milhares de detritos; fumava-se continuamente em todos os lugares, até nos hospitais, e ninguém achava nada disso estranho. Há muita gente que ainda não entendeu, mas fazer sujeira agora pega mal.
Cuidar dos próprios dejetos é uma forma de crescer, uma demonstração de autonomia para a qual estamos ficando mais aptos a cada geração. Pode parecer estranho, mas o cocô é nosso primeiro lixo e o penico é a inaugural experiência de responsabilidade com os dejetos. Mãe não é somente aquela que alimenta, é também a que limpa, que se incumbe dos restos da sua cria e é com muito pesar que abrimos mão de ser cuidados. Ter alguém que ande atrás de nós recolhendo o que deixamos atirado, dando um destino àquilo que descartamos, é um jeito de sentir-se amado, mas para os crescidos é uma infantilidade.
Não é incomum na vida dos bebês, que esperem a chegada da mamãe, um dia inteiro se necessário, para poder oferecer-lhe o presente do conteúdo de suas fraldas. Quando uma criança pequena descarta uma embalagem ou resto de comida a mão de sua mãe surge como extensão natural do gesto do filho, recolhendo aquilo que ele simplesmente deixa cair ou joga fora. Na verdade, nossos dejetos corporais são uma parte de nós que precisamos perder, mas mesmo que já não nos sirvam, nunca abrimos mão de bom grado daquilo que foi nosso.
Durante a aprendizagem do controle dos esfíncteres, é comum os bebês ficarem acenando para seu cocô, em uma despedida lúdica, antes que seja acionada a descarga e desapareça no vaso sanitário, assim fica mais fácil separar-se dele. Acontece na vida das crianças que elas desenvolvam distúrbios como a encoprese, no qual fazem suas necessidades na roupa. Esse tipo de acidente decorre da tentativa de reter seus dejetos, não entregá-los para ninguém, até que eles acabam escapando, quando não dá mais para segurar. Como se vê, nosso lixo corporal pode ser nojento, mas para nosso inconsciente maluco faz parte de nós e é difícil livrar-se dele. Uma sociedade que recicla seus dejetos atingiu pelo menos o nível dos pequenos que podem ir ao vaso sem a ajuda de um adulto. Estamos indo bem, algum dia seremos todos cidadãos adultos, deixando de acreditar que uma mão mágica de mãe vai limpar nossa sujeira.
(Publicado na Revista Vida Simples, edição especial, ecológica, de fim de ano)
Meus heróis não morreram de overdose
Sobre a foto recentemente divulgada da Presidente Dilma sendo interrogada aos 22 anos e o medo nos tempos da repressão.
A foto não me sai da cabeça. Tirada em 1970 e só recentemente divulgada, mostra a presidente Dilma Roussef. Ela estava com 22 anos, sendo interrogada por militares que escondem a face com as mãos. O olhar desafiador da jovem militante, que vinha de uma jornada de tortura, contrasta com os rostos ocultos dos inquisidores.
Em 70 eu tinha apenas 10 anos, mas a próxima década me jogou numa militância que tinha conexão com aquela imagem. Nossa principal reivindicação era a abertura política e a libertação dos presos políticos: sentíamos um compromisso com os mais velhos que, mesmo apanhando, conquistaram o pouco ar rarefeito que se respirava. Admirava sua coragem, pois lembro bem do medo que sentia.
O clima ainda era de caça às bruxas, de paranóia: agentes infiltrados nas aulas e reuniões, pancadaria nas passeatas, a maior parte dos bons professores expulsos. Na vida cotidiana da maior parte das pessoas dos anos de chumbo imperava a alienação orgulhosa de si, a mediocridade convicta, o discurso retrógrado. Os rebeldes eram exceção.
As famílias classe média tomavam seu Campari e sentiam-se prósperas. Os governantes militares davam arrepios, mas pareciam ter chegado para ficar. Sentia que nadava contra corrente, não conseguia me acomodar. Embora barulhentos, éramos poucos os chatos que discursávamos proselitismos de revolução. O despotismo se firma esbravejando certezas nas quais muitos se acomodam, aniquilando discordâncias. Uma espécie de bullying em escala gigante.
Os efeitos desse mundo de adultos, pais, governantes e mestres, vivendo alegremente graças à ditadura se fizeram sentir em várias gerações de adolescentes, hoje adultos. Sofremos as seqüelas culturais e psíquicas da tentativa de extermínio, ou do exílio de uma boa safra de pensadores, artistas, militantes. Muitos morreram, outros nunca voltaram ou desistiram. O psicanalista Winnicott dizia que o questionamento dos jovens, sua irresponsabilidade criativa, capaz de pensar soluções novas para velhos problemas, era um tesouro para qualquer sociedade. Mas o despotismo nutre-se de salgar essa terra, cortar o broto da transformação. As ditaduras são estruturadas sobre a morte dos opositores e das utopias, com elas morre a juventude.
Eu devia ter visto antes aqueles rostos ocultos, vexados. É o detalhe da foto que mais me impacta: pelo jeito, a soberba dos repressores não era tão senhora de si. Se soubesse disso, poderia ter encontrado mais coragem.
Viajando nas figurinhas
Em defesa da literatura em quadrinhos, porque imagens não valem por palavras, elas as geram, são indissociáveis como letra e música.
Na infância, além viagra quadrinhos, adorava livros ilustrados. Meus preferidos eram os que passei a ler quando maior, com uma ilustração a cada muitas páginas, que sequer eram bonitos, mais fiéis que criativos. Costumava voltar à gravura de tanto em tanto, na medida em que o texto ia acrescentando um detalhe. Por vezes, voltava só para sonhar sobre o conteúdo da obra, como se o portal para entrar na minha própria fantasia estivesse na imagem. A palavra impressa impunha seu ritmo, conduzia a imaginação, o que é bom. É melhor entrar num labirinto desses com a certeza de ter um guia e uma saída, um fim. Até hoje sou leitora lenta, mais divago do que leio. Pena, meus livros raramente são ilustrados. Saudosa, lembro das figuras como o melhor lugar para onde ir quando queria fantasiar sobre a fantasia e recorro à capa do livro, que detesto quando não contém figuras.
Adulta descobri um tesouro: as “graphic novels”, traduzidas por “romances gráficos”. São histórias longas contadas através de quadrinhos. Os exemplos mais populares são os maravilhosos “Persepolis” (Marjane Satrapi) e “Maus” (Art Spiegelman). Ao contrário da leitura breve e desatenta que por preconceito que costuma ser atribuída ao quadrinho, elas são detalhadas na construção da linguagem visual, sempre peculiar. Entrar numa delas é como desvendar uma novidade literária a cada vez, um novo estilo narrativo. Cada autor tem um traço, um modo de inserir as falas, personagens e ambientes se devotam à máxima eloqüência. Ali, página após página, reencontro os portais em que costumava me perder. O que na literatura era uma relação clandestina, aqui torna-se estável, reconhecida, é o centro das atenções. As imagens não valem por palavras. Elas não dizem, nos fazem dizer. Não discursam, põem nossa cabeça a falar. Nas novelas gráficas a literatura se aproxima do sonho.
Tudo isso para recomendar uma delas: “Asterios Polyp” (de David Mazzucchelli, Ed. Quadrinhos na Cia.). A história de um famoso arquiteto em crise, que após um incêndio que destrói seu apartamento no dia do qüinquagésimo aniversário, resolve abandonar a vida que tinha. Com o dinheiro do bolso compra uma passagem até onde esse valor possa levá-lo e lá experimenta fazer tudo diferente. É uma fantasia que já tivemos: sair para comprar uma Pepsi e nunca voltar. Fim de ano é época de promessas de mudança e de sonhar com viradas radicais. Asterios pode ser um bom cicerone nessa fantasia. Perca-se nessas imagens.
Camaleões
Sobre o “A pele que habito”, de Almodovar. O amante, o cirurgião e quão longe podemos ir ao nos transformarmos pelo olhar daqueles que nos amam.
Minha tia ligou. É uma mulher sensível, gosta de cinema e sabe o que sente. Ela me pedia algo muito simples: posso matar o Almodovar? Ponderei que não valia a pena, afinal, ele nos deu tanto. Ela estava inconformada, saíra do filme “A pele que habito” muito inquieta. Não é que o filme seja ruim, dizia, é que “ele não tinha direito de fazer aquilo conosco”. Aplaquei sua ira com um argumento baixo, nem sei se verdadeiro: graças a ele temos Antonio Banderas. Ela amoleceu.
O filme de Almodovar trabalha na vertente persuasiva do horror, parte de premissas absurdas, inaceitáveis e as faz parecer viáveis. É a magia do cinema, mas a literatura consegue o mesmo com menos orçamento, pois o combustível do encantamento é nossa empatia, fonte dos melhores efeitos especiais. Nesta obra, um cirugião plástico transforma alguém em uma criatura construída à imagem de suas obsessões. Ele aprisiona e intervém nesse ser tornando-o outra coisa, seu belo monstro. É possível que alguém torne-se algo tão diferente do que seria normalmente só porque outro quis assim? É muito mais comum do que parece.
Os pais, amigos e parentes assistem a isso rotineiramente. Eis que alguém com quem sempre convivemos se apaixona e fica irreconhecível. Por força desse amor, vai se modificando de tal forma que sua identidade mais se parece com a fantasia que compartilha com seu atual parceiro. Se for um amor construtivo isso ocorre suavemente, nos parece natural e não produz grandes resistências.
Mas o chocante nisso é nossa suscetibilidade, a maleabilidade da imagem e da identidade, como se não tivéssemos uma essência. Entregues, em breve não conseguiremos mais diferenciar o que éramos daquilo que nos tornamos por amor. Encarnamos as fantasias daqueles que amamos com assustadora facilidade. Tão plásticos e influenciáveis, quem somos afinal?
Minha tia tem razão, Almodovar não precisava ter sido tão duro, isso dói. A pele que habitamos é um órgão sensível, uma superfície modificável pelo amor. Vai tomando a forma dos seus olhos. É assim que ocorre com todos os filhos, que se constituem inspirados pelo afeto e desejos de seus pais, por isso os filhos adotivos se assemelham aos pais não biológicos. Esse fenômeno segue vida afora e a cirugia plástica, com seus poderes de transformação, algum dia acabaria herdando a sina desse feitiço e desse horror. O bisturi é o instrumento mágico que representa o fato e a fantasia de que nos transformamos pelo olhar dos outros. Se um artista é aquele que melhor desvela as fantasias, só podemos por isso agradecer ao Almodovar. Além do Banderas.
Mensagem do além
Passamos nossa vida reeditando nossa auto-biografia. (revisitando “Quase memória”, do Cony)
Até tenho medo de fantasmas, cresci entre muitos, a morte me foi apresentada muito cedo. Mas não acredito em mensagens psicografadas, cartas do além. Entendo os espíritas e as mensagens que eles dizem receber, deve ser reconfortante. Porém desconfio dessa comunicação: sempre me pareceu demasiado coerente, previsível.
Se após minha morte tivesse que mandar dizer algo para os meus seres queridos, não creio que me ocorreria algo bonito, lapidar. Como gasto boa parte da energia do meu cérebro com ninharias, provavelmente minha mensagem seria algo como: “o casaco de couro ficou na lavanderia”, “a vizinha do 301 deixou comigo o dinheiro da faxineira”, “deveria ter ligado para fulana”. Temo que quando eu partir minhas filhas lembrarão dessa minha vocação para ficar angustiada por bobagens, entre outras coisas (espero melhores) que não posso prever. Mas não adianta fazer da vida um epitáfio. Após a morte, mais que espírito serei uma personagem fabricada pela fantasia delas. Não temos controle sobre o que deixamos para trás, sempre é aparentemente menor e muito mais revelador do que gostaríamos.
Por isso, adoro o livro de Carlos Heitor Cony, chamado “Quase memória” (Companhia das Letras, 1995) uma espécie de tratado sobre o legado possível. No livro, o autor transformado em personagem recebe um inusitado embrulho. A identidade do pacote é inequívoca: sobrescritado pela letra do pai, vinha amarrado com um barbante fechado num tipo de nó do qual somente ele era capaz, alegava ter-lhe sido ensinado por um marinheiro holandês (embora também existisse a versão do escoteiro para a mesma história). A chegada do embrulho não era estranha, visto a mania constante do pai de mandar pacotes para onde quer que fosse, desde que algum conhecido, mesmo que remoto, fosse para lá. O detalhe sinistro é que o pai de Cony, morto há dez anos na ocasião da entrega, desta vez tinha providenciado uma origem particular para a encomenda: o além.
Independente do conteúdo, a presença do pacote abre as comportas da quase memória. Cony não esconde que o pai que ele nos apresenta no livro talvez seja tão fantasioso como as histórias que o próprio contava com tanto prazer. Nosso passado é um pacote fechado, composto de enigmas, que mais que fatos, contêm quase ficção. Os espíritos, caso existam, terão que se conformar: a última palavra é dada pela imaginação dos sobreviventes. Graças a esse caráter fantasioso do passado, os psicanalistas acreditam que uma história sempre pode ser revista, levando a um novo final. Passamos nossa vida reeditando nossa auto-biografia. Uma análise é isso, e, podem acreditar, re-elaborar o passado ajuda a viver um futuro melhor.
Professores de leitura
Ler é uma aprendizagem, que requer mestres. A propósito da Feira do Livro de Porto Alegre.
Mara, professora aposentada de português, sente saudade de procurar textos para seus alunos. Adorava ler com a perspectiva de indicar trechos aos jovens, para os quais cada texto abria-se em descobertas. Recorda com particular carinho do trabalho com um poema de Cecília Meireles, “O anjo da noite”, sobre o guarda noturno, hoje figura extinta. Nas palavras finais dessa poesia, que narra as belezas da noite, aparece o outro lado, seu mistério assustador: “o guarda noturno está tomando conta da noite, a vagar pelas ruas, anjo sem asas, porém armado”. A escuridão, onde cada um se entrega à inconsciência, requer providências de segurança. No lugar da vigília, a presença vigilante de um anjo da guarda que nos proteja dos precipícios interiores, afastando os monstros que moram nas trevas íntimas. Imagino o prazer da professora ao fazer reverberar essas metáforas nos alunos, para quem a literatura era ainda uma experiência quase virgem.
Num livro, chamado “Borges oral & sete noites”, encontram-se reflexões onde o escritor argentino aborda o encontro do texto com a voz. Depois de ficar cego foi obrigado a passar à narrativa oral, porém, suas conferências e referências nunca abandonam o livro como hábitat, lugar de onde emana uma presença. Era leitor apegado, voltava inúmeras vezes aos seus clássicos prediletos como quem vai a uma praça ou uma praia em busca de um estado de espírito. Mesmo sem visão comprou uma enciclopédia: “lá estavam os vinte e tantos volumes impressos numa letra gótica que não tenho condições de ler, com os mapas que não tenho condições de ver; o fato era que os livros estavam lá. Eu sentia uma espécie de gravitação amistosa que vinha deles. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que nós, homens, temos”. Ele precisou dos olhos de outros leitores, mas aos que lhe emprestavam a voz ele acabava contando histórias sobre o que estavam lendo, guiava-os pelos labirintos imaginários de sua Biblioteca de Babel, pelas páginas do Livro de Areia. Diziam que suas aulas de literatura eram de fato de leitura.
Os livros são lugares mágicos aos quais nos entregamos sem medo, porque a voz do autor nos conduz com segurança pela trama que ele fantasiou e organizou para nós. Se tivermos sorte, como os alunos de Borges e da professora Mara, contamos com a voz de outros leitores mais experientes, que nos acompanham ou orientam, pais e mestres que partilharam suas leituras. O livro é um sonho ou um pesadelo seguro, como uma noite vigiada por um anjo. Armado, é claro, pois não somos bobos.

Diana Lichtenstein Corso é Psicanalista Membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formada em psicologia pela UFRGS, trabalhou com crianças e no campo dos problemas de desenvolvimento infantil junto ao Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e em várias outras instituições. Atualmente atende jovens e adultos. É colunista desde 2001 do Segundo Caderno, suplemento cultural do jornal Zero Hora, da Revista Vida Simples, além de participações em várias antologias e revistas. Publicou o livro Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010, ambos pela Ed. Artmed, escritos em parceria com seu marido Mário Corso. 



