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Ventre livre, quanto falta para isso?

Ventre livre, quanto falta para isso?
Até quando viveremos num país com religião, nem diria oficial, mas sim ditatorial? As dificuldades de manter, assim como de interromper uma gestação (detalhadas aqui) devem ser levadas em conta, mas a liberdade é uma premissa!

É incrível nosso atraso em  insistir na proibição do aborto e em permitir que argumentos de caráter religioso se imiscuam na vida de quem não lhes partilha as crenças. Quando finalmente viveremos em uma país sem religião, não diria oficial, mas sim ditatorial? Neste momento, envolvidos com o perigo da contaminação das gestantes com o Zika vírus, discute-se seu direito a abortar, caso não se sintam em condições de criar um filho com as sequelas que sabe-se ocorrerão no feto.

Criar um filho é uma missão quase impossível, mas mesmo assim homens e mulheres se lançam em seu encalço, dedicando a maior parte dos esforços de sua vida para fazer tudo dar o mais certo possível. Tal jornada só tem chance de sucesso se os envolvidos estiverem engajados nisso até a raiz dos cabelos, até os ossos!

Uma criança com problemas de desenvolvimento encontra uma família mais exigida ainda: terá que suportar o desencontro entre os ideais sociais e aquilo que seu filho conseguirá cumprir, serão criadas metas de acordo com suas possibilidades e se aprenderá a valorizar e amar a trajetória específica dessa criança. Isso após superar o luto pelo filho idealizado que definitivamente não nasceu.

Imagine então toda essa operação quando alguém decide não enfrentar esse desafio e é obrigado a fazê-lo. Na prática estamos, sempre, falando de mulheres humildes, pois o aborto existe enquanto possibilidade para aquelas que puderem pagar por ele.

Ninguém é entusiasta do aborto, mas qualquer um que já trabalhou em saúde pública sabe que ele é uma sofrida realidade que envolve milhares de mulheres, e sermos contra ou a favor praticamente não interfere na maioria das condutas.

Quando acontece, o aborto é uma das mais sofridas experiências na vida de uma mulher. Desde o início da fecundação, ela vê-se tomada de manifestações físicas e psíquicas que impactam totalmente sua existência: sua atenção e sono ficam alterados, seu corpo muda de formas quase imediatamente, é como um país invadido por outro que altera e interfere na cultura da nação sitiada.

Quer tenha sido fruto de um acidente, do descuido irresponsável ou de um desejo, uma fecundação sempre será significativa, restará como um evento que assumiu uma magnitude inusitada, no qual uma relação sexual torna-se potencialmente um destino. Por isso, sua interrupção será para sempre uma encruzilhada inesquecível na qual se escolheu uma das vias.

Esse evento fará aniversário, será uma marca na existência, um divisor de águas. Justamente por isso não se pode tratar do tema como se fosse apenas um dilema moral, mais que isso, é uma questão de liberdade pessoal, de autonomia, e só deveria assumir uma dimensão pública por demandar atendimento de saúde.

Na prática, para aquelas que decidem que não querem ou não podem manter uma gestação abre-se um calvário, onde serão maltratadas pela clandestinidade dos métodos, pelo silêncio punitivo de todos, justamente quando estão frágeis e precisariam ser apoiadas e escutadas. Imagine o que significa para uma mulher sentir todas as transformações, sofrê-las durante semanas, grávida de um filho que não deseja ter, passar pela intervenção cirúrgica do aborto, elaborar a decisão tomada, sangrar e sentir dores, tudo no mais completo isolamento.

A fecundidade não se alinha totalmente com a condição e o desejo de ser mãe. Deslizes acontecem, por culpa do inconsciente ou da natureza, mas muitas vezes eles não habilitam para a jornada da maternidade. Para um filho dar certo a mulher precisa escolher. Por lei, ela precisaria ter seu ventre libertado da imposição de procriar.

Dizem os pastores do rebanho de Deus que os embriões a Ele pertencem, se houve uma fecundação foi porque Ele assim o quis. Portanto uma vida pouco deveria aos pais que apenas reproduziriam conforme os desígnios do criador. Nessa lógica não precisamos perguntar em nome do quê resolvemos cometer esse ato tresloucado de gerar outro ser humano. Pena que ele vai ser mais à imagem e semelhança das nossas tentativas de acertar e das inevitáveis trapalhadas do que do Criador.

Nos debates sobre a legalização do aborto, além dos dilemas éticos sobre quando começa a vida, e quem tem direito sobre ela, fica omitido um fato: não conseguimos realmente dar vida a um filho que não desejamos. Somos pouco magnânimos, incapazes de um amor que não nos venha a calhar. Queríamos ou não, é assim que as coisas acontecem.

Eu não pedi para nascer! Dizem os adolescentes, quando os pais ficam querendo se demitir do trabalho que eles dão. Às vezes é preciso lembrá-los da responsabilidade que contraíram. A educação de um filho não acaba quando a criancinha mimosa dá lugar ao cara chato, volumoso e argumentativo em que todos os filhos se transformam.

Por outro lado, crescemos quando descobrimos que é inútil colocar nos outros a razão de todas nossas mazelas e nos dispomos a assumir a autoria de nossos feitos, os direitos e os avessos. É aí que nos habilitamos a ser pais, pois como é que vamos cuidar de alguém enquanto nem de nós nos incumbíamos?

Ser pai ou mãe é uma missão quase impossível, que requer todos os recursos, inclusive aqueles que desconhecíamos que tínhamos. Nos cabe ensinar o que não sabemos, proteger quando nos sentimos desamparados e amar prevendo uma separação. Simples assim. Não é tarefa para se entrar de costas, por isso um filho francamente indesejado ou totalmente inoportuno será abandonado, negligenciado ou enlouquecido.

O desejo por um filho não é de um jeito só, ele pode ter inúmeras conjugações e todas elas funcionam de alguma maneira. Há ocasiões em que nasce alguém que chega cedo demais ou tarde demais, que é fruto de uma relação muito jovem ou que já acabou, conseqüência da vontade de um, mas não do outro, enfim, variações que demonstram que querer um filho é algo que pode ser escrito por linhas tortas e em geral o é.

O que essas histórias têm em comum é que alguém envolvido no acontecimento de uma gravidez, de alguma forma está disposto a bancá-la. Mas não é sempre assim, por outras vezes descortina-se a previsão de um pesadelo, um sentimento de portar um Alien, que destruirá a vida da mulher ou do casal, invadidos por um fato que não têm condições de sustentar. Nesses casos, o aborto é um direito de interrupção de algo que adoeceria a todos os envolvidos. Quando há escolha, torna-se mais responsável a relação com cada gestação mantida. Filhos assim nascidos podem não ser divinos, mas ainda são maravilhosos!

Cortázar nos tempos da cólera

um conto do grande cronopio, com minha humilde leitura dele.

Desenhos na parede

Ele seria um subversivo político somente na dimensão em que a liberdade de expressão fosse perigosa. Esse era o caso. Trata-se de um conto de Julio Cortázar que transcorre na Buenos Aires dos anos de chumbo, quando se desaparecia pela mínima discordância com aquela gente que a ditadura pôs no mando. A personagem fazia desenhos com giz de cera nas paredes. Eram imagens artísticas, por vezes até abstratas, mas diligentemente apagadas a mando da polícia. Arriscava-se muito, era uma espécie de paixão que lhe movia a vida: fazê-los depois visitá-los furtivamente para acompanhar o efeito que causavam nos transeuntes. Vê-los sendo apagados e insistir. Uma única vez pusera palavras: “me dói muito”. Este foi removido com maior urgência.

Um dia, ao lado do seu, surgiu outro desenho. O traço era feminino, ele supôs. Por algum tempo comunicaram-se assim. Em geral, era ele que começava, ela respondia, uma dança na parede. Ele dedicava agora suas andanças furtivas a tentar surpreendê-la, sempre fracassando. Até o dia em que, obcecado por conhecê-la, expôs um de seus desenhos em um lugar mais visível e arriscado, onde podia ficar observando mais tempo à sua espera. Ela não pôde resistir ao desafio e foi pega. Ele, não conseguiu ver mais que um cabelo e uma silhueta azul sendo colocada na viatura.

Uma triste história de amor desencontrada, mas linda e colorida. Retrata a obsessão dos regimes repressivos com o apagamento da poesia, da arte, da parte mais pulsante da vida nas ruas. A escuridão política começa com o enrijecimento das almas. A ascensão das piores ditaduras nasceu de disputas políticas, de crises econômicas, mas atendia ao impulso popular de simplificar a vida. É uma tentação eleger inimigos fáceis e sentir a satisfação de eliminar todos aqueles que forem apontados como discordantes. O obscurantismo nasce também da preguiça do pensamento.

Após todos estes anos de democracia, mesmo a nossa, com inúmeros defeitos e trejeitos inaceitáveis, voltei a temer novamente pela poesia dos desenhos na parede. Não tenho tanto medo dos militares, nem dos políticos corruptos, quanto tenho da população simploriamente indignada e daqueles que manipulam esses sentimentos. Assusta-me a vontade que parece falar nas ruas de eleger alguém, aquele que estiver mais à mão, para odiar. Já vimos esse filme, quantas vezes? Quantas ainda o teremos que ver?

O conto Grafitti é uma história de amor das antigas, daquelas em que os amantes nunca se tocam. Eles apenas se rondam, desenham e se excitam com o mistério. O perigo que nos ronda agora, que parece estar excitando a tantos, é de colocar no poder os que apagam a poesia das paredes, do mundo, do amor. Me doeria muito.

Graffiti (por Julio Cortázar)

A Antoni Tàpies
Tantas cosas que empiezan y acaso acaban como un juego, supongo que te hizo gracia encontrar un dibujo al lado del tuyo, lo atribuiste a una casualidad o a un capricho y sólo la segunda vez te diste cuenta que era intencionado y entonces lo miraste despacio, incluso volviste más tarde para mirarlo de nuevo, tomando las precauciones de siempre: la calle en su momento más solitario, acercarse con indiferencia y nunca mirar los grafitti de frente sino desde la otra acera o en diagonal, fingiendo interés por la vidriera de al lado, yéndote en seguida.
Tu propio juego había empezado por aburrimiento, no era en verdad una protesta contra el estado de cosas en la ciudad, el toque de queda, la prohibición amenazante de pegar carteles o escribir en los muros. Simplemente te divertía hacer dibujos con tizas de colores (no te gustaba el término grafitti, tan de crítico de arte) y de cuando en cuando venir a verlos y hasta con un poco de suerte asistir a la llegada del camión municipal y a los insultos inútiles de los empleados mientras borraban los dibujos. Poco les importaba que no fueran dibujos políticos, la prohibición abarcaba cualquier cosa, y si algún niño se hubiera atrevido a dibujar una casa o un perro, lo mismo lo hubieran borrado entre palabrotas y amenazas. En la ciudad ya no se sabía demasiado de que lado estaba verdaderamente el miedo; quizás por eso te divertía dominar el tuyo y cada tanto elegir el lugar y la hora propicios para hacer un dibujo.
Nunca habías corrido peligro porque sabías elegir bien, y en el tiempo que transcurría hasta que llegaban los camiones de limpieza se abría para vos algo como un espacio más limpio donde casi cabía la esperanza. Mirando desde lejos tu dibujo podías ver a la gente que le echaba una ojeada al pasar, nadie se detenía por supuesto pero nadie dejaba de mirar el dibujo, a veces una rápida composición abstracta en dos colores, un perfil de pájaro o dos figuras enlazadas. Una sola vez escribiste una frase, con tiza negra: A mí también me duele. No duró dos horas, y esta vez la policía en persona la hizo desaparecer. Después solamente seguiste haciendo dibujos.
Cuando el otro apareció al lado del tuyo casi tuviste miedo, de golpe el peligro se volvía doble, alguien se animaba como vos a divertirse al borde de la cárcel o algo peor, y ese alguien como si fuera poco era una mujer. Vos mismo no podías probártelo, había algo diferente y mejor que las pruebas más rotundas: un trazo, una predilección por las tizas cálidas, un aura. A lo mejor como andabas solo te imaginaste por compensación; la admiraste, tuviste miedo por ella, esperaste que fuera la única vez, casi te delataste cuando ella volvió a dibujar al lado de otro dibujo tuyo, unas ganas de reír, de quedarte ahí delante como si los policías fueran ciegos o idiotas.
Empezó un tiempo diferente, más sigiloso, más bello y amenazante a la vez. Descuidando tu empleo salías en cualquier momento con la esperanza de sorprenderla, elegiste para tus dibujos esas calles que podías recorrer de un solo rápido itinerario; volviste al alba, al anochecer, a las tres de la mañana. Fue un tiempo de contradicción insoportable, la decepción de encontrar un nuevo dibujo de ella junto a alguno de los tuyos y la calle vacía, y la de no encontrar nada y sentir la calle aún más vacía. Una noche viste su primer dibujo solo; lo había hecho con tizas rojas y azules en una puerta de garage, aprovechando la textura de las maderas carcomidas y las cabezas de los clavos. Era más que nunca ella, el trazo, los colores, pero además sentiste que ese dibujo valía como un pedido o una interrogación, una manera de llamarte. Volviste al alba, después que las patrullas relegaron en su sordo drenaje, y en el resto de la puerta dibujaste un rápido paisaje con velas y tajamares; de no mirarlo bien se hubiera dicho un juego de líneas al azar, pero ella sabría mirarlo. Esa noche escapaste por poco de una pareja de policías, en tu departamento bebiste ginebra tras ginebra y le hablaste, le dijiste todo lo que te venía a la boca como otro dibujo sonoro, otro puerto con velas, la imaginaste morena y silenciosa, le elegiste labios y senos, la quisiste un poco.
Casi en seguida se te ocurrió que ella buscaría una respuesta, que volvería a su dibujo como vos volvías ahora a los tuyos, y aunque el peligro era cada vez mayor después de los atentados en el mercado te atreviste a acercarte al garage, a rondar la manzana, a tomar interminables cervezas en el café de la esquina. Era absurdo porque ella no se detendría después de ver tu dibujo, cualquiera de las muchas mujeres que iban y venían podía ser ella. Al amanecer del segundo día elegiste un paredón gris y dibujaste un triángulo blanco rodeado de manchas como hojas de roble; desde el mismo café de la esquina podías ver el paredón (ya habían limpiado la puerta del garage y una patrulla volvía y volvía rabiosa), al anochecer te alejaste un poco pero eligiendo diferentes puntos de mira, desplazándote de un sitio a otro, comprando mínimas cosas en las tiendas para no llamar demasiado la atención. Ya era noche cerrada cuando oíste la sirena y los proyectores te barrieron los ojos. Había un confuso amontonamiento junto al paredón, corriste contra toda sensatez y sólo te ayudó el azar de un auto dando vuelta a la esquina y frenando al ver el carro celular, su bulto te protegió y viste la lucha, un pelo negro tironeado por manos enguantadas, los puntapiés y los alaridos, la visión entrecortada de unos pantalones azules antes de que la tiraran en el carro y se la llevaran.
Mucho después (era horrible temblar así, era horrible pensar que eso pasaba por culpa de tu dibujo en el paredón gris) te mezclaste con otras gentes y alcanzaste a ver un esbozo en azul, los trazos de ese naranja que era como su nombre o su boca, ella así en ese dibujo truncado que los policías habían borroneado antes de llevársela; quedaba lo bastante como para comprender que había querido responder a tu triángulo con otra figura, un círculo o acaso un espiral, una forma llena y hermosa, algo como un sí o un siempre o un ahora.
Lo sabías muy bien, te sobraría tiempo para imaginar los detalles de lo que estaría sucediendo en el cuartel central; en la ciudad todo eso rezumaba poco a poco, la gente estaba al tanto del destino de los prisioneros, y si a veces volvían a ver a uno que otro, hubieran preferido no verlos y que al igual que la mayoría se perdieran en ese silencio que nadie se atrevía a quebrar. Lo sabías de sobra, esa noche la ginebra no te ayudaría más a morderte las manos, a pisotear tizas de colores antes de perderte en la borrachera y en el llanto.
Sí, pero los días pasaban y ya no sabías vivir de otra manera. Volviste a abandonar tu trabajo para dar vueltas por las calles, mirar fugitivamente las paredes y las puertas donde ella y vos habían dibujado. Todo limpio, todo claro; nada, ni siquiera una flor dibujada por la inocencia de un colegial que roba una tiza en la clase y no resiste el placer de usarla. Tampoco vos pudiste resistir, y un mes después te levantaste al amanecer y volviste a la calle del garage. No había patrullas, las paredes estaban perfectamente limpias; un gato te miró cauteloso desde un portal cuando sacaste las tizas y en el mismo lugar, allí donde ella había dejado su dibujo, llenaste las maderas con un grito verde, una roja llamarada de reconocimiento y de amor, envolviste tu dibujo con un óvalo que era también tu boca y la suya y la esperanza. Los pasos en la esquina te lanzaron a una carrera afelpada, al refugio de una pila de cajones vacíos; un borracho vacilante se acercó canturreando, quiso patear al gato y cayó boca abajo a los pies del dibujo. Te fuiste lentamente, ya seguro, y con el primer sol dormiste como no habías dormido en mucho tiempo.
Esa misma mañana miraste desde lejos: no lo habían borrado todavía. Volviste al mediodía: casi inconcebiblemente seguía ahí. La agitación en los suburbios (habías escuchado los noticiosos) alejaban a la patrulla de su rutina; al anochecer volviste a verlo como tanta gente lo había visto a lo largo del día. Esperaste hasta las tres de la mañana para regresar, la calle estaba vacía y negra. Desde lejos descubriste otro dibujo, sólo vos podrías haberlo distinguido tan pequeño en lo alto y a la izquierda del tuyo. Te acercaste con algo que era sed y horror al mismo tiempo, viste el óvalo naranja y las manchas violetas de donde parecía saltar una cara tumefacta, un ojo colgando, una boca aplastada a puñetazos. Ya sé, ya sé ¿pero qué otra cosa hubiera podido dibujarte? ¿Qué mensaje hubiera tenido sentido ahora? De alguna manera tenía que decirte adiós y a la vez pedirte que siguieras. Algo tenía que dejarte antes de volverme a mi refugio donde ya no había ningún espejo, solamente un hueco para esconderme hasta el fin en la más completa oscuridad, recordando tantas cosas y a veces, así como había imaginado tu vida, imaginando que hacías otros dibujos, que salías por la noche para hacer otros dibujos.

03/02/16 |
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Calendário emocional

Sem ter consciência, somos tocados pelo aniversário de eventos ou rotinas, dos quais sequer sabíamos que lembrávamos.

Sabe aquele relógio que há dentro do celular e dos computadores, que mesmo que o aparelho esteja desligado mantêm o horário e a agenda atualizados? Nosso inconsciente é igual. Ele tem um calendário infalível, que faz com que tenhamos sensações ou pensamentos “comemorativos” de datas que sequer sabíamos que lembrávamos.

Quando somos tomados por uma tristeza incompreensível, um desânimo fora de sentido, um choro estranho, uma brabeza despropositada, enfim, algo aparentemente fora de lugar, talvez seja o tal “calendário emocional”. Algo pode estar sendo evocado nessa data. Sem ter consciência, fazemos o luto de aniversários de morte, de separação, da saída de um emprego, da partida de um filho, de um aborto ou qualquer outro evento significativo, duro ou doído. Todas as datas estão registradas em nosso relógio interno. Para fazer você acreditar nisso, vou contar a história, que aconteceu com uma paciente, que foi surpreendente até para mim, mesmo depois de décadas de trabalho como psicanalista.

Ela acordava todos os dias às três da manhã, depois demorava para dormir. Olhar o relógio e confirmar a infalibilidade do despertador interno só piorava as coisas. A sensação era de estar sendo vítima de um complô. Havia anos que quebrávamos a cabeça tentando entender o porquê dessa persistente repetição.

Sua vida mudou e isso passou. Andávamos esquecidas do enigma, quando ela se pôs a falar sobre um período muito solitário e difícil em que, a trabalho, vivera na Coréia. Foi lá que essa maldição das três da manhã começou e, nas noites insones, costumava pensar que aqui eram três horas da tarde. Dessa vez, ao contar a história lembrou que durante sua infância, o pai, que era viajante e passava a semana fora, partia sempre aos domingos às três da tarde. Na sua ausência, minha paciente ficava à mercê da mãe, cuja agressividade se expressava principalmente com ela. A filha sabia que a saída do pai era o começo de uma jornada semanal de gritos e castigos.

Muitos anos depois, soube-se que esse homem tinha duas famílias e, mesmo sem ter consciência disso, a filha intuía que sua partida era muito mais significativa do que se fosse apenas trabalhar. O hábito de despertar às três da madrugada, sentindo-se abandonada, como ocorria naquele lugar estrangeiro de fuso horário invertido, era um reencontro com a desolação que chegava quando ele partia.

Essa história lembra a força das moções internas que governam nossa vida. Elas serão tanto mais persistentes quanto menos tivermos acesso a seu significado. Podemos combater uma insônia como essa, por exemplo, usando uma medicação ou qualquer outro recurso. Mas não custa ir um pouco mais a fundo e descobrir o sentido oculto desses acontecimentos psíquicos, aparentemente bizarros. Decifrá-los possibilita que nos maravilhemos frente à eficácia da máquina psíquica que nos move. Sua precisão pode até ser assustadora, mas a familiaridade com sua lógica maluca possibilita que certas maldições deixem de nos assombrar.

Tempo para não ser

Férias: mudança de identidade temporária.

É verão, temporada oficial de descanso. Sair de férias não garante que sejamos capazes de gozá-las: amigos, casais e famílias se desentendem, se angustiam, alguns vagam tristes, outros perdidos. A expressão workaholic, viciado em trabalho, que a princípio me define, não basta para explicar: não é apenas um vício. O problema é que despidos das nossas características profissionais ficamos nus de identidade.

Sei que isso não é assim para todo mundo: há quem se preparou o ano todo para este momento, lapidou o corpo, garantiu as insígnias de beleza, força, dinheiro ou o que for para entrar nos padrões. Enquanto os outros se desmancham em brancuras, barrigas, celulites e roupas soltas, alguns soberbos exemplares angariam admiração e inveja dos complexados. Eles não passeiam, desfilam. São como os salva-vidas, profissionais do veraneio.

Meu trabalho só existe na presença dos pacientes, tudo o que sei provém da escuta. Portanto, fora do consultório, não me sinto psicanalista e sempre volto das férias questionando se ainda serei capaz. Engenheiros, administradores ou contadores, por exemplo, só se valem da perícia com números quando está se calculando o rateio do churrasco, ela pouco lhes servirá na beira da praia.

Sair de cena, abandonar responsabilidades, a isso chamamos de descanso. Poder ler, dormir, movimentar-se por prazer, namorar, rir, conversar fiado. Mas como descansar de si sem sentir-se derretendo, virando nada, quando somos somente o que trabalhamos?

Sempre que tivermos o privilégio de algum tipo de escolha, nosso trabalho tende a ser significativo. Cada ofício é uma espécie de solução encontrada para administrar as expectativas que jogaram em nossas costas, junto com nossos próprios temores e ideais. Por isso, não é exatamente algo do qual seja fácil livrar-se.

Os cultivadores do corpo levam o fruto de seu esforço à praia, despem-se para trajar gala. Mas há outros tipos de bem aventurados entre os veranistas: aqueles que possuem grandes habilidades sociais, realizam-se no intenso convívio em praias, famílias, banquetes, excursões, cruzeiros. No campo oposto, os eremitas bem resolvidos também costumam lidar melhor com esse tempo livre. Viajando ou repousando a sós ou em parca companhia, festejam o anonimato.

Quando consigo, tendo a me resolver melhor como os mais quietinhos. Porém, é bom parar de culpar-se pela dificuldade de entrar em sintonia com o descanso. Como as férias implicam numa mudança de vida, portanto de identidade, isso acaba sendo um desafio. Em lugares diferentes, com outras vestimentas e as rotinas alteradas, tornamo-nos meio estrangeiros a nós mesmos. O pior é que quando finalmente pega-se o jeito e o gosto, lá pelos últimos dias, já é hora de voltar para casa.

Emoções de uma escolar

Os dramas de colégio revividos nas redes sociais.

Você tem alguma ideia do quanto sofre uma garota em idade escolar?   Lembro com indesejável nitidez dos dramas em torno de quem senta com quem, da mágoa pelas vezes em que não fui escolhida ou aceita como companhia para merendar. Ao longo do primeiro grau partilhei a solidariedade vexada que se estabelece entre as impopulares.

Algumas vezes tentei ser a terceira incluída em duplas de amigas que eu achava o máximo. Aos meus olhos, elas eram altas, cheirosas, bem vestidas, com cabelos perfeitos, letras bonitas e famílias bacanas. Eu, ser inferior, era a que ficava de fora e tornava o vínculo delas mais coeso. Faziam de mim um io-iô e eu topava, em nome das migalhas de convívio. Cada turma de escola tinha um pequeno núcleo de criaturas idealizadas em contrapartida ao grande número das que se consideravam párias.

Revejo esses dramas cada vez que encontro adultos sentindo-se inferiorizados por causa do que aparece nas redes sociais. Nelas, compartilhamos partes editadas da nossa vida e a ênfase são os signos de felicidade e sucesso. Entre os hits estão o estado civil, pets, família, comemorações e viagens.

Ah as viagens! Você já reparou que só nós parecemos estar trabalhando, enquanto os outros tomam uma taça de vinho com vista para uma encantadora praça europeia? Os que não estão lá, fazem trilhas incríveis, nadam com golfinhos ou brindam num paraíso caribenho. Há também a turma que passa temporadas no exterior, para relaxar, estudar ou criar, estes para mim os mais invejados. E nós num nada charmoso engarrafamento, com um café de garrafa térmica de consolo.

Todos se divertem, festejam, casam, formam-se, batizam, debutam. Nas enfadonhas fotos de grupos, vemos gente vestida de forma incômoda, com seus melhores sorrisos estudados. Os casais estão apaixonados, a família unida, netos e avós se entendem, há muitos sobrinhos, afilhados, os filhos são fofos, os cachorros são adequados, os gatos simpáticos. Os protagonistas mais apreciados em postagens edulcoradas são os filhotes, humanos ou animais. Não quer dizer que eu deixe de colocar tudo isso: filhas, festas, viagens. Cada um a seu tempo, Bilbo, o cachorro babão, e a arisca gatinha Cora têm sido vedetes da parte pública da minha vida.

Independente, porém, do quanto se viaje, namore e possua seres queridos, estaremos em desvantagem. Os populares são uma fantasia que cultivamos, curtimos e invejamos, como na escola fundamental. A maioria de nós se aglutina na solidariedade vexada dos excluídos. Pensamos que há um lugar e tempo, que não são os nossos, onde estão aqueles que são felizes de verdade. Parece um desperdício tanta tecnologia a serviço das emoções típicas de uma colegial. A conexão virtual não criou essa gente insegura, apenas a revelou.

Que tal abrir mão da ingenuidade? A vida dos outros não é perfeita, seus cabelos não são ajeitados e todas as famílias são malucas, peculiares e bacanas a seu modo. É fim de ano, sejamos sinceros: os populares não se sentem assim, não são mais felizes e eles também estão de olho na grama do vizinho.

Menino felino

Pequenos detalhes, grandes amores.

Minha sogra ensinou seu filho a andar em cima dos telhados. Eles moravam no primeiro andar e ele, com sua leveza infantil, foi incumbido de caminhar no telhado que ficava abaixo da janela para resgatar roupas e prendedores que insistiam em cair. Como um gatinho, ele passou a frequentar clandestinamente os telhados. Seu observatório predileto dava para a lavanderia de um hotel vizinho, onde escutava a conversa das funcionárias. Qual é o homem que não gostaria de saber o que as mulheres falam entre si na intimidade? Imagine um garoto, com tudo ainda por saber, o quanto essas aulas sobre a vida vinham a calhar.

Certo dia, entregue à sua sorrateira espionagem, escutou a conversa de duas lavadeiras que falavam mal de uma terceira mulher. Uma sirigaita imperdoável, ladra do marido de uma amiga comum. “Também – observou uma das lavadeiras – pessoas de olhos verdes não são boa gente!”.

Naquele momento Mário descobriu algo que jamais havia observado: os olhos tinham cores diferentes e mais, isso informava sobre a natureza de seus portadores. De posse dessa nova bússola para classificar o mundo, investigou os olhos dos membros da sua família. Para seu espanto constatou que seus pais e irmãos tinham todos olhos verdes. Ele, de olhos azuis, estava cercado de pessoas malévolas!

Bom, com o tempo tudo se relativiza e ele pôde tranquilizar-se quanto à respeitabilidade dos seus familiares, apesar daquele mau indício. Além disso, as pessoas com olhos verdes, como eu, tornaram-se seu perigoso e atraente mistério e certamente me beneficiei disso.

Quando buscamos um amor pensamos que a compatibilidade de gostos, pensamentos e parâmetros éticos tem uma influência importante, até tem. Porém, não há quem não estranhe a falta de lógica visível na maior parte das paixões. Tentamos atribuir as compulsões amorosas às características físicas, que mudam conforme a época, e a uma tal de “química”, que parece ser o elemento surpresa, o mais inapreensível.

Nosso modo de amar, assim como o sentimento de que julgamos ser merecedores, é resultado de uma colcha de retalhos formada a partir de pequenas histórias, aparentemente aleatórias, mas que assumem grandes significados. A partir das nossas vivências construímos um ideal de gênero e traçamos os contornos daquilo que será um objeto de desejo. Somos influenciados pelo que nossos pais foram, gostariam de ter sido, ou mesmo por tudo o que eles condenam. Pessoas de olhos verdes, por exemplo, para o menino-felino, apresentaram-se como irresistíveis, mesmo que moralmente questionáveis. Uma experiência no divã ajuda a relativizar essas determinações ao tentar mergulhar nos pensamentos que formam o rio subterrâneo que irriga nossas escolhas amorosas.

Sei não, talvez minha própria história de amor tenha dívidas com prendedores de roupas, telhado e lavadeiras. Quanto a mim, porque coloquei os olhos nele… Bom, isso é outra história te talvez tenha a ver com seus olhos azuis.

Saudades do que nunca tive

Da importância dos trens para que pudessemos existir psiquicamente ao longo dos trajetos.

Andei mais em trens imaginários do que reais. Não tive a sorte de crescer no tempo do trem. Nas andanças da vida conheci barcos e aviões, mas minha quilometragem foi mesmo de ônibus. Criança enjoadinha, literalmente falando, jamais cheguei ao destino com a roupa limpa e uma cara que não tivesse ficado verde. Só de olhar para o ônibus já sentia a chegada das náuseas.

Não estamos falando de ônibus espaçosos, esses que parecem barcos de cruzeiro sobre rodas, mas sim do transporte rodoviário dos anos sessenta. Eram veículos arredondados, pequenas janelas que mal abriam, sempre acima da linha dos olhos das crianças. Além disso, os passageiros fumavam sem parar, ali dentro mesmo.

Não me conformo em pensar que eles vieram para substituir os trens, que tinham movimentação cadenciada e previsível, eram espaçosos e havia como caminhar dentro deles. Além disso, a paisagem movia-se de modo em que os olhos podiam acompanhar a chegada e partida de uma imagem. O trem nos nina e nos conta histórias, com seu balanço e o filme da janela. Depois disso, transportar-se tornou-se supersônico, rápido, até os trens já não fazem tchu-tchu, embora ainda tenham nos trilhos um fator de estabilidade que os estômagos frágeis agradecem.

Sei que deixamos de viajar de trem pela imposição do petróleo, pelo culto da velocidade, pela popularização dos carros com a individualização de tudo. Mas gosto tanto de percursos que lastimo a eficiência de que passamos a dispor. Há uma espécie de meditação associada ao tempo demorado da chegança, à alternância entre o olhar sugado pela paisagem e o pensamento regido pelo cérebro descansado. Quando não estamos dirigindo, quando os trilhos impõe um caminho e uma velocidade únicos e a locomotiva lá na frente puxa os vagões passivos, podemos repousar das decisões e disputas, pois ninguém precisa ultrapassar o outro. Embarcamos na melancolia do que deixamos e na expectativa do que nos espera, o percurso cria um lapso em que essas duas pontas se desconectam. Uma parte importante de nós existe nesse intervalo de tempo.

Gosto de sonhar com um mundo de trens cadenciados e sem pressa. Não estou me referindo evidentemente a vagões lotados onde se viaja como bichos rumo ao frigorífico. Sei que hoje providenciamos esse momento de alheiamento da pior foma: suportamos os engarrafamentos fugindo para dentro dos dispositivos eletrônicos, refugiando-nos na música, na comunicação compulsiva, porque não há nada na janela. Editamos uma trilha sonora ou improvisamos uma companhia para enfrentar o tempo inexistente do trajeto congelado. A paisagem do trem não carece desses improvisos, é a mesma para todos, fica disponível para que cada um possa percorre-la com seus pensamentos.

Presos em lugares-nenhuns-que-se-movem, sonhamos com férias e viagens, onde nos dispomos a chegar a algum-lugar-para-contemplar-a-paisagem. Se algo ainda me enjoa é tanta claustrofobia. O mundo ficou menor, no sentido de que é possível percorre-lo com uma eficiência incrível, real ou virtualmente, mas nosso olhar nunca foi tão estreito.

Um consolo a cada esquina

Essa invasão de farmácias, pet-shops e estéticas, a que se deve?

Não sei se é só Porto Alegre que vive uma invasão de farmácias. Edificações vêm abaixo ou se transformam para dar lugar a esses bem iluminados, coloridos e amplos negócios. Lá há substâncias que dão conta de cabelos e pele irretocáveis, dores no corpo e na alma, síndromes que nossos avós sequer suspeitavam que fossem possíveis. Você pode adquirir uma variedade de vitaminas que fariam Popeye dominar o mundo e até, se fizer questão, remédios realmente necessários.

Não estou aqui para olhar de fora, sou hipocondríaca profissional e adoro pílulas milagrosas para meus males. Também sou capaz de perder bastante tempo escolhendo produtos de higiene que tornem meus dentes alvos, minha pele uma seda e meus cabelos esvoaçantes. Porém, com a chegada dos cinquenta anos, há o perigo de sair com os cabelos alvos, os dentes esvoaçantes, mas…

Além das farmácias, são também endêmicos os salões de beleza, agora rebatizados de Estéticas, assim como as lojas especializadas em animais domésticos, as Pet-shops. As primeiras, no passado recente, cuidavam dos cabelos, unhas e ocasionalmente uma maquilagem para festas. Hoje estendem seus serviços muito além do enfeite: pele, gorduras e todo tipo de supostas irregularidades encontram ali alívio e correção. Já as pets são lugares totais. Mistura de cuidados de saúde, estética, creche e loja, oferecem atendimento imediato, doutores 24 horas. Do jeito que andam as emergências dos nossos hospitais, ando invejando minha gata.

O que isso diz de nós?

Que acreditamos em substâncias mágicas: os remédios. Eles de fato são maravilhosos ao combater a dor e a morte. Porém, os usamos também para males menores, bastante vagos, assim como esperamos deles proteção e vitalidade. Sem dúvida, nas farmácias encontra-se a alquimia das soluções imediatistas, basta engolir.

Que cuidamos dos animais porque nos oferecem um afeto tranquilo e previsível. Para eles toda forma de amor vale a pena, são fiéis e devotados, raramente pedem divórcio e, ao contrário dos filhos, moldam-se às das expectativas dos “pais”. As pessoas nos cansam com suas exigências e neuroses, nunca sabemos o que esperar de um amor entre humanos.

Já as estéticas são como uma mãe de aluguel que cuida, massageia, nos alisa, elogia, colore e enfeita. Até porque que as mães descuidam, esquecem, acreditam que crescemos. Pagando, o mimo é garantido e vitalício.

Por isso consumimos banhos e tosas, esmaltes, cremes, drenagens e luz pulsada, pirilimpimpim, vitaminas, analgésicos e calmantes. Como não ter uma uma pet-shop, uma estética  e uma farmácia a cada esquina? A conclusão é inevitável: tornamo-nos uma civilização preguiçosa, imediatista e carente. Dá uma vergonha, né?

Criados no cativeiro

Há algo de podre no reino das famílias “normais”….

Todos sabemos que as aparências escondem muita coisa, mas tendemos a alinhar os que são convencionais com o que é certo e os desviantes com o errado. É difícil acreditar que entre os pais de família heterossexuais e religiosos, entre os esportistas saudáveis e populares, entre bons estudantes, maridos e esposas monogâmicos, funcionários e professores esforçados, boas donas de casa, gente trabalhadora e dita normal, pode haver algo de perverso, demoníaco e assustador.

O clã é um filme argentino, dirigido por Pablo Trapero, que nos confronta com esse paradoxo das aparências. Conta a história real de uma família de classe média, cinco filhos entre os quais um prestigiado jogador de rúgbi. Eles têm uma vida trivial, os mais jovens fazem temas e a mãe, professora, reúne a prole à mesa do jantar onde conversam agradavelmente. São donos de uma rotisseria, pequeno negócio de bairro, atendido pessoalmente pela família. Os pais são zelosos, o cotidiano é de uma família amorosa.

O detalhe é que Arquimedes Puccio, o pai, é um psicopata de livro. Ele trabalhava no serviço de inteligência durante a ditadura, o que na época equivalia à prática impune de sequestros e assassinatos. Com a chegada dos primeiros ventos da democracia, ficou ocioso de seu ofício de executor dos negócios escusos do governo. Foi quando ocorreu a Puccio começar a praticar sequestros, assassinatos e extorsões em benefício próprio e não teve pruridos em fazer disso um negócio familiar.

Eles eram acima de qualquer suspeita: a participação ativa dos filhos homens mais velhos, a conivência da esposa e das filhas, e a imagem respeitável permitiu que o clã dos Puccio mantivesse as vítimas em cativeiro na própria residência. Entre os companheiros de esporte do filho havia vários jovens abastados, assim como gente bem situada das relações de Arquimedes, que não aparentava nenhum constrangimento em sequestrá-los e matá-los. Aliás, a lógica perversa desse homem é aplicada tanto em relação às vítimas, quanto a seus filhos, a quem via como parte essencial de seus planos. A vida e a morte, os destinos alheios não fazem questão para um psicopata, todos estão a serviço de seus propósitos. Seus planos são fins para os quais os outros seres humanos não passam de meios, mesmo que sejam seus filhos.

Preste atenção: Arquimedes Puccio era um pai dedicado, envolvente, lógico. Foi difícil desobedecer suas determinações travestidas de amor. Além disso esse chefe de família psicopata foi, por muitos anos, legitimado pelo estado. As ditaduras funcionam com a mesma lógica perversa, por isso ele custou a acreditar que seria punido e essa prepotência foi o fim dos Puccio. Como se vê, quem tem uma lógica perversa na vida pública, não deixará de aplicá-la na intimidade. O público é também privado.

Quero uma penseira

A esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Prezado Papai Noel:

Provavelmente não mereço, mas queria pedir um presente, ou melhor, um presentão. Não fui boa menina: pratiquei poucos exercícios, estudei pouco, comi muito, encontrei menos minhas pessoas queridas do que considero importante, queixei-me da situação política e econômica mais do que ajudei a debelá-la. Mas, mesmo assim, vou lhe dizer o que desejo.

Queria muito uma “penseira”. Como talvez o senhor não seja leitor de Harry Potter, lhe explico do que se trata o objeto cobiçado. O jovem bruxo desta saga estuda numa escola chamada Hogwarts, na qual seu diretor, Alvo Dumbledore, é um ancião muito sábio e sobrecarregado de preocupações. Estou eu também tornando-me uma senhora madura cheia de preocupações, embora a sabedoria seja questionável. Pois bem, para administrar a sobrecarga de pensamentos importantes, Dumbledore dispõe de uma penseira em seus aposentos.

Trata-se de uma bacia de pedra rasa, contendo em seu interior uma substância leitosa-prateada sempre em movimento. O diretor encosta sua varinha na têmpora e retira alguns dos pensamentos dos quais não necessita no momento. Eles saem sob a forma de uma espécie de raio e são depositados na penseira, onde ficam disponíveis para serem consultados quando necessário.

Pessoas dos cinquenta em diante, como eu, tendem a fiscalizar sua memória com a atenção de um cão pastor e o pânico de um animal acuado. Qualquer falha liga o alarme das fantasias do envelhecimento e da demência. Por outro lado, a esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Quando não conseguimos lembar algo, mesmo que seja o nome de um ator coadjuvante de um filme dos anos setenta, entramos em pânico: é o Alzheimer batendo! Por isso, penso que se tivesse uma penseira saberia onde está tudo aquilo que não consigo evocar imediatamente quando preciso. Assim, poderia tranquilamente revolver a penseira com a varinha e resgatar a memória fugidia, considerando natural de que ela esteja lá e não dentro de mim. Teria certamente a calma que me falta quando começo a procurar a memória que não se apresenta à consciência com prontidão. Qualquer um sabe que aquilo que buscamos com angústia tem a teimosia de se esconder.

Na verdade, na falta de um objeto mágico desses, desenvolvi a paixão por cadernos, caderninhos e cadernões. Os tenho para todos os fins: anotações de leituras, horários, sonhos, pautas para colunas, finanças, planejamentos variados. Adoro essas minhas memórias auxiliares e os consulto o tempo todo. Portanto, caro Papai Noel, se não encontrares penseira no mercado vou precisar de mais caderninhos…