Uma magra na sala e…
Sobre as fantasias associadas ao preconceito com os obesos.
“Gordinha é como pantufa, todo mundo gosta de usar mas ninguém sai de casa com ela!”
Eis como uma amiga descreve sua vida amorosa, não pouco atribulada. O problema é que seus parceiros costumam desaparecer antes do sol nascer. Ela acha que fazem isso por vergonha de ser vistos em sua companhia, o que seria um ponto negativo para o currículo deles. Talvez ela tenha razão nessa inquietude: quem come mais do que devia acaba sendo, a princípio, um tipo de transgressor. Gordura, fruto da gula, passou a ser o pior pecado capital…
Talvez, para nossos tempos em que a imagem é tudo, a gorda represente um novo tipo de mulher proibida, da qual acredita-se ser possuidora de um tipo de luxúria oral. Capturada nessa armadilha de fantasias, minha amiga sente-se exilada das relações amorosas legitimadas, relegada a uma espécie de bordel da imaginação.
Hoje como ontem, dá muito trabalho parecer uma mulher recomendável. Agora é preciso suar pela boa forma e cobrir formas irregulares, comer quase nada em público, bronzear-se (sob supervisão dermatológica, claro) e ocultar marcas da idade. Parceiras jovens ou “bem conservadas” pontuam mais. Se necessário, como um dócil objeto de Pigmalião, terão que recorrer à lipo-escultura. Carnes brancas e flácidas não ficam bem. O espartilho, agora invisível, impera como nunca.
Gordinhos representam a tentação e são condenados por viver alheios à cultuada abstinência, por não destilarem em suor suas impurezas. Eles não têm os volumes nos lugares certos: seios fartos, traseiros carnudos, mas a barriga lisa, conforme apregoado pelo cânone da Barbie. Mas, se hoje as garotas podem exibir suas formas em decotes intermináveis e saias sumárias, não seriamos finalmente corpos liberados? Não é o que parece, pois só pode ser visto o que estiver dentro das regras. E com tantas regras a seguir, o exercício e a fome acabam se constituindo numa espécie de burka internalizada. Já o implante de silicone é a voluptuosidade domada.
Os gordos evocam um desejo fora de controle. É como se comendo impudicamente burlassem o trabalho civilizatório, esse que nossa selvageria interior sempre ameaça. Evoluímos para nos alimentar sem voracidade, no lugar da compulsão, queremos ver a força de vontade. Boas maneiras e boa forma são ditadas pelo mesmo manual de etiqueta, essa que nos faz parecer tão ponderados e adequados. Idealizadas magérrimas mulheres francesas que saboreiam mini porções são o antônimo dos estigmatizados gordos, apresentados como selvagens devoradores de montanhas de fast-food. De fato, há gordos que comem sem prazer, só para se estufar, afogar a ansiedade, mas não é só disso que a obesidade é feita. Porém, a verdadeira pergunta é por que isso é mais condenável do que o igualmente estranho prazer de passar fome?
O momento pede pratos exíguos: comida fina que parece natureza morta, de alto apreço estético e baixo valor calórico. A mulher magra e musculosa é tida como a boa moça, enquanto a gorda – não precisa ser uma obesa mórbida, basta fugir ao padrão – evoca prazeres pouco domesticados. Os mais interessantes. Outrora, ressaltando os territórios da boa conduta e o indispensável tempero do proibido, dizia-se às moças que lhes cabia ser como uma dama na sala e uma puta na cama. Quem sabe, agora mudamos a frase, para lhes recomendar que sejam como uma magra na sala e uma gorda na cama?
O preço da masculinidade
Sobre os desafios que um menino enfrentava para provar-se homem. Esse tempo acabou?
No interior do Rio Grande do Sul alguns pecados são imperdoáveis. Para um cão pastor atacar uma ovelha é evento que só acontece uma vez: pagará com a vida. Aliás, um dos ditos que corre por aqui é “cachorro que come ovelha, só matando”. Supõe-se que o ato selvagem despertará uma gula ancestral, a fera acordada não se resignará mais à doma.
Esta é a história de um menino e seu cão “criminoso”. Ela me foi contada por sua irmã mais moça, que já avó nunca esqueceu. Era um pastor belga, a sombra negra do seu jovem dono, mas cometeu o crime de caçar o que devia proteger. O pai, homem antigo, achou que o animal devia ser punido pelo dono, assim tornando o evento exemplar para seu filho. Exigiu que ele matasse seu animal de estimação. O garoto recusou, mas os peões por ali reunidos observaram que não seria muito máscula semelhante covardia. A provocação funcionou e ele se embrenhou com seu parceiro no mato. Sumiu o dia todo. Noite fechada, as mulheres da casa choravam e já temiam por ele, quando voltou, silencioso, soturno. Nunca mais falou sobre isso, mas parecia ter executado a própria alegria. Era agora um homem, mostrou o desprendimento de um guerreiro, pagou o preço da masculinidade. Tornou-se um adulto tumultuado, nunca abandonou as terras do pai, foi seu predileto e razão de seus cabelos brancos.
Muito se diz sobre o árduo caminho das mulheres pela libertação. Foram milênios de opressão e dois séculos de luta das feministas. A cada 8 de março saudavelmente lembramos disso porque ainda há muita desigualdade. Por sorte, na esteira das lutas feministas, também a condição masculina teve suas regras alteradas. Histórias como essa tendem a não se repetir. Se bem é verdade que sempre cometemos algum gesto de assassinar a própria infância para crescer, a doação dos brinquedos preferidos já basta. Quanto à identidade sexual, cada dia fica mais claro que é incerta e transitamos sempre perto da raia do sexo oposto. Isso não se confunde com ser gay: homossexuais amam o próprio sexo, mas têm os mesmos dramas de identidade que os héteros.
Como o menino da história, estamos sempre sendo chamados a provar que nos tornamos suficientemente masculinos ou femininos, uma conquista sempre incerta. Que o digam as mulheres sem filhos, assombradas pelo olhar superior das supostamente legitimadas pela maternidade; os solteiros ou separados heterossexuais, que se envergonham sem a presença ostensiva de um parceiro sexual; os virgens tardios. As mulheres já não sabem bem o que é ser uma e, graças a elas, os homens carecem das certezas milenares. Não deviam queixar-se disso, já não serão eternos soldados, não precisarão pagar o preço da tristeza de assassinar a própria sombra, essa que brinca ao nosso lado enquanto caminhamos.
(publicado na Revista Vida Simples, edição de março)
Waldrausch
Uma palavra certa pode ser a proteção necessária contra as tempestades da vida
Esses dias fazia de segundo violino para Lya Luft numa palestra. Escutando uma história da sua infância quase me perco da minha função. Sua prosa envolvente, onde realidade e ficção perdem o sentido do limite, me embalava.
Ela estava no jardim de sua casa quando começava uma tempestade. Sentia a vegetação sinistramente agitada pelo vento, aquela inquietude da natureza que conhecemos, um ar carregado de ameaças. A tempestade é um encontro menor com o caos, ergue-se como um tsunami pocket para tirar tudo do lugar. No vento, que anuncia a água e os trovões, há uma gravidade, uma urgência no ar. É um momento de desamparo: dá vontade de correr para um abrigo, “estar dentro”, não importa do que.
Eis que mãe se aproxima da pequena Lya paralisada, os olhos azuis arregalados, abaixa-se e lhe sussurra em alemão, língua na qual transitava na infância: é o “waldrausch”. O “rumor do bosque”, ela nos traduz. A criança se acalmou, o medo transmutou-se em poesia. A ameaça do mau tempo tornou-se uma espécie de conto de fadas, assustador, mas fascinante, como um filme de terror, uma sinfonia angustiante, que nem por isso deixa-se de escutar. Uma simples palavra pronunciada pela mãe fez a diferença. Deve ter sido assim que ela virou escritora, ofício que, aliás, começou a exercer depois de tornar-se mãe, não por acaso.
Lembro de uma amiga que me contava história avessa. Sua mãe era fóbica, pouco saía de casa, sobrecarregando-a com o cuidado dos irmãos. Dentre as ameaças do mundo, eram as tempestades os piores inimigos dessa mulher, momento no qual recolhia os filhos e abrigava-se embaixo da mesa da cozinha. Ela cresceu corajosa, sina freqüente dos primogênitos que podem contar pouco com os pais. Porém, sofria de uma dependência amorosa, da qual custou a se livrar: o ser amado era seu lugar seguro. Um grande, e infelizmente fracassado, amor foi para ela como a mesa, abrigo que a mãe usava para se abrigar da tempestade. Quão diferente teria sido se fosse uma mãe que pudesse continuar lhe sussurrando ao ouvido cada vez que o desamparo ameaçava: “é o rumor do bosque”!
Esse bosque está sempre dentro de nós. Uma floresta de pensamentos, fantasias e pesadelos feitos de amor e morte. Em nossa turbulenta natureza interior, ventanias, cataclismos se armam de tanto em tanto. Tanto sabemos disso que trememos a cada brisa sinistra, carregada de cheiros que vieram sem ser convidados. Quando as memórias de infância carecem do encanto necessário, sempre temos na ficção um lugar seguro para estar enquanto a tempestade passa, cumpre seu ciclo. Os artistas são aqueles que partilham suas metáforas, seus bosques e ventos, ao pé do nosso ouvido. Quanto a nós psicanalistas, o tempo todo garimpamos essa palavra que permite atravessar a rude natureza da alma.
(publicado na Revista Vida Simples, edição de fevereiro)
Morrer de véspera
A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo
Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infância, na sua trajetória canina é o fim da vida. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e trinta por cento da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só pode ter piorado. Na ocasião lhe receitaram vários remédios, ração especial, uma vida de velho. Ele detestou, é próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum bulldog francês amadurece, só ficam mais lentinhos. Os tratamentos o tornaram muito magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe empurrávamos mais uma pastilha. Por isso decidimos deixa-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente teria uns oitenta anos.
Na verdade, se fosse humano talvez já estivesse morto, de preocupação, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde, é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas estimadas décadas nos restam, na melhor das hipóteses. Aliás, o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciência da morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.
Convivi com amigos que, ao invés de morrer de véspera, fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação com o vírus HIV era um prenúncio de morte iminente. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça de morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Acabaram o estágio. Pressionados, se efetivaram no emprego da existência. A medicação, que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: “benigno”. Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar com a vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão.
(publicado na Revista Vida Simples, edição de janeiro)
Um homem, muitas vidas
nunca é tarde para se reinventar
Quantas vezes deixamos de realizar algum anseio por achar que é tarde para recomeçar ou transformar nossa vida? Encruzilhadas, opções, estão sempre aparecendo, mas falta coragem. Muitas vezes sou procurada para ajudar nessas curvas de destino. A teoria me diz que é possível, mas nada como uma história verdadeira para acreditar.
Para o primogênito de um ferroviário a universidade oferecia poucas opções: médico, advogado, engenheiro. Naquela época, arquiteto e psicólogo não eram destinos plausíveis para um macho gaúcho do interior. Estudou engenharia na capital, militou em tempos de repressão. Apaixonou-se por uma mineira, companheira de política, e perseguidos tiveram que sumir. Foram parar novamente no interior. Mas suas aspirações estéticas e ideológicas contaminavam o pragmatismo do engenheiro civil. Projetou formas inéditas e com elas desenhou o campus da universidade onde leciona até hoje, o museu antropológico, casas exóticas. Era arquiteto, urbanista, educador e político. Teve filhos, netos. Basta? Para ele, não. Guloso de novidades foi analisar-se. Apaixonou-se novamente, desta vez pelo caminho aberto por Freud. Nada o impediu de voltar aos bancos da mesma universidade onde é professor, cursou psicologia, estuda psicanálise. Já tinha quase sessenta quando se formou e hoje, rumo aos setenta, tornou-se psicanalista. Provavelmente seus pacientes têm oportunidade de projetar para suas vidas formas tão criativas quanto as que ele encontrou.
Quantas vidas teve esse homem? Todas as que quis e sabe-se lá o que ainda vai inventar. Talvez, relativo à vocação, possa se aquietar, pois um psicanalista vive muitas vidas além da sua. Quem clinica é testemunha e promotor de viradas surpreendentes ou, ao contrário, de situações em que se reencontra o eixo anterior, que já parecia perdido.
Ele não é meu paciente, é meu tio e graças e ele não tenho dúvidas de que a vocação é algo muito maior que um conjunto de dons. Aprendi que o norte são desejos inesperados, inexplicáveis, e sobre a tenacidade em realiza-los.
Se para um homem cujas opções cabiam nos dedos de uma mão a vida abriu-se em leque, imagine hoje! Além das mais inusitadas profissões possíveis, o jovem sabe que as oportunidades e vivências o transformarão de modo imprevisível. Outrora poucos ousavam sonhar, mudar de rumos, descobrir novidades em si mesmo. Mas não há porque se apoquentar, podemos nos inspirar nessa e em tantas histórias assim. Para seu pai, chefe de estação, os caminhos seguiam os trilhos, não havia como nem porque descarrilhar. O filho, pioneiro de um tempo de roteiros indeterminados, descobriu o número infinito de linhas com que se pode projetar e percorrer a própria existência. Uma história e tanto, que hoje pode ser a de qualquer um.
(Publicado na Revista Vida Simples, edição de dezembro de 2011)
Tchau-tchau lixinho!
Uma atitude ecológica é coisa de adultos, não importa a idade que se tenha!
Não importa o quando os apocalípticos possam resmungar: acredito que o mundo e seus habitantes vêm melhorando. Sei da contabilidade triste da destruição ambiental. Tampouco ignoro que preservar e cuidar são posturas em construção. Ainda assim constato que pudemos nos tornar mais civilizados. Em meio século de vida tive tempo de testemunhar mudanças radicais: na minha infância, o chão parecia bom lugar para largar qualquer lixo; praias, praças, jardins e lugares públicos no final do dia pareciam um campo de guerra onde jaziam milhares de detritos; fumava-se continuamente em todos os lugares, até nos hospitais, e ninguém achava nada disso estranho. Há muita gente que ainda não entendeu, mas fazer sujeira agora pega mal.
Cuidar dos próprios dejetos é uma forma de crescer, uma demonstração de autonomia para a qual estamos ficando mais aptos a cada geração. Pode parecer estranho, mas o cocô é nosso primeiro lixo e o penico é a inaugural experiência de responsabilidade com os dejetos. Mãe não é somente aquela que alimenta, é também a que limpa, que se incumbe dos restos da sua cria e é com muito pesar que abrimos mão de ser cuidados. Ter alguém que ande atrás de nós recolhendo o que deixamos atirado, dando um destino àquilo que descartamos, é um jeito de sentir-se amado, mas para os crescidos é uma infantilidade.
Não é incomum na vida dos bebês, que esperem a chegada da mamãe, um dia inteiro se necessário, para poder oferecer-lhe o presente do conteúdo de suas fraldas. Quando uma criança pequena descarta uma embalagem ou resto de comida a mão de sua mãe surge como extensão natural do gesto do filho, recolhendo aquilo que ele simplesmente deixa cair ou joga fora. Na verdade, nossos dejetos corporais são uma parte de nós que precisamos perder, mas mesmo que já não nos sirvam, nunca abrimos mão de bom grado daquilo que foi nosso.
Durante a aprendizagem do controle dos esfíncteres, é comum os bebês ficarem acenando para seu cocô, em uma despedida lúdica, antes que seja acionada a descarga e desapareça no vaso sanitário, assim fica mais fácil separar-se dele. Acontece na vida das crianças que elas desenvolvam distúrbios como a encoprese, no qual fazem suas necessidades na roupa. Esse tipo de acidente decorre da tentativa de reter seus dejetos, não entregá-los para ninguém, até que eles acabam escapando, quando não dá mais para segurar. Como se vê, nosso lixo corporal pode ser nojento, mas para nosso inconsciente maluco faz parte de nós e é difícil livrar-se dele. Uma sociedade que recicla seus dejetos atingiu pelo menos o nível dos pequenos que podem ir ao vaso sem a ajuda de um adulto. Estamos indo bem, algum dia seremos todos cidadãos adultos, deixando de acreditar que uma mão mágica de mãe vai limpar nossa sujeira.
(Publicado na Revista Vida Simples, edição especial, ecológica, de fim de ano)
Mensagem do além
Passamos nossa vida reeditando nossa auto-biografia. (revisitando “Quase memória”, do Cony)
Até tenho medo de fantasmas, cresci entre muitos, a morte me foi apresentada muito cedo. Mas não acredito em mensagens psicografadas, cartas do além. Entendo os espíritas e as mensagens que eles dizem receber, deve ser reconfortante. Porém desconfio dessa comunicação: sempre me pareceu demasiado coerente, previsível.
Se após minha morte tivesse que mandar dizer algo para os meus seres queridos, não creio que me ocorreria algo bonito, lapidar. Como gasto boa parte da energia do meu cérebro com ninharias, provavelmente minha mensagem seria algo como: “o casaco de couro ficou na lavanderia”, “a vizinha do 301 deixou comigo o dinheiro da faxineira”, “deveria ter ligado para fulana”. Temo que quando eu partir minhas filhas lembrarão dessa minha vocação para ficar angustiada por bobagens, entre outras coisas (espero melhores) que não posso prever. Mas não adianta fazer da vida um epitáfio. Após a morte, mais que espírito serei uma personagem fabricada pela fantasia delas. Não temos controle sobre o que deixamos para trás, sempre é aparentemente menor e muito mais revelador do que gostaríamos.
Por isso, adoro o livro de Carlos Heitor Cony, chamado “Quase memória” (Companhia das Letras, 1995) uma espécie de tratado sobre o legado possível. No livro, o autor transformado em personagem recebe um inusitado embrulho. A identidade do pacote é inequívoca: sobrescritado pela letra do pai, vinha amarrado com um barbante fechado num tipo de nó do qual somente ele era capaz, alegava ter-lhe sido ensinado por um marinheiro holandês (embora também existisse a versão do escoteiro para a mesma história). A chegada do embrulho não era estranha, visto a mania constante do pai de mandar pacotes para onde quer que fosse, desde que algum conhecido, mesmo que remoto, fosse para lá. O detalhe sinistro é que o pai de Cony, morto há dez anos na ocasião da entrega, desta vez tinha providenciado uma origem particular para a encomenda: o além.
Independente do conteúdo, a presença do pacote abre as comportas da quase memória. Cony não esconde que o pai que ele nos apresenta no livro talvez seja tão fantasioso como as histórias que o próprio contava com tanto prazer. Nosso passado é um pacote fechado, composto de enigmas, que mais que fatos, contêm quase ficção. Os espíritos, caso existam, terão que se conformar: a última palavra é dada pela imaginação dos sobreviventes. Graças a esse caráter fantasioso do passado, os psicanalistas acreditam que uma história sempre pode ser revista, levando a um novo final. Passamos nossa vida reeditando nossa auto-biografia. Uma análise é isso, e, podem acreditar, re-elaborar o passado ajuda a viver um futuro melhor.
A ex-madrasta
sobre os efeitos da separação sobre os padrastos e madrastas que perderam contato com seus enteados.
O desencontro se deu numa loja de departamentos: sem ser vista, ela pôde observar com calma a moça que circulava entre as araras. Tentava em cada traço recordar a garotinha insone que lhe pedia muitas histórias antes de dormir. Foram tantas noites juntas lutando contra os medos do escuro. A jovem mulher não evocava em nada sua menina, sua boneca Emília depois de engolir a pílula falante. Tornara-se uma desconhecida. Depois de tantas conversas sem pé nem cabeça, hoje não imaginava nada sério para lhe dizer. Devia estar com vinte e quanto? Passara-se mais de uma década da separação e todas as fantasias de manter contato foram dolorosamente dissolvidas. No fim do casamento, parecia-lhe óbvio que manteriam um laço. Com o tempo sua incredulidade foi dando lugar à resignação: era apenas a ex-esposa do papai.
As novas configurações familiares produzem padrastos e madrastas órfãos de uma família que sentiram como sua. As razões para esses afastamentos são infinitas, mas a central é que essas relações com os enteados são vistas como um gesto romântico, que consiste em cuidar e valorizar os filhos do outro. Alguns vínculos podem se tornar fortes, porém poucos driblam o fim do casal.
Depois de uma separação os filhos mantêm uma fantasia duradoura de reunificar a família. Aliás, mesmo que já não se gostem seus pais ainda serão obrigados a se encontrar, discutir providências, finanças, partilhar festividades, resolver problemas. Já o novo casal do pai ou da mãe é visto como uma obstrução a esse fantasioso propósito de reencontro do casal parental. O amor recém chegado sempre vai acabar herdando uma culpa, que em geral não teve, pelo fim de uma família, que podia ser ruim, mas era a que originou aquele filho.
Claro que há exceções, mas frequentemente, quando chega ao fim um relacionamento onde o filho é só de um, parece ser a hora perfeita para uma espécie de vingança. O padrasto ou madrasta serão condenados ao ostracismo, numa demonstração de fidelidade aos pais, e ressurgirá o despropositado desejo de que o casal original volte a se encontrar. Numa separação, frente à partilha dos afetos, o ex-enteado tomará o partido do seu pai ou mãe, além de deixar claro aos pais originais que nunca os substituiu, apenas aceitou aquela madrasta ou padrasto como parte do pacote do novo casamento.
Em pé, na loja de departamentos, lembrava o passado quando a garota a fizera sentir-se quase uma mãe. Seu ex-marido aprovava a intensidade da relação, a mãe da menina educadamente aceitava a ajuda. Hoje, sem ao menos um nome certo para o que sente, resolveu sair de cena sem chamar a atenção.
(Publicado na Revista Vida Simples, edição de outubro de 2011)
Fézinha
Pequenas superstições, parecem absurdas, mas são reveladoras.
Viver é perigoso e mesmo depois de crescidos ainda nos sentimos desamparados frente às arbitrariedades do destino. Por isso, restos de um pensamento mágico infantil ajudam a recuperar um poder que sempre nos escapa: o de prever catástrofes para melhor evitá-las. De natureza atéia e incrédula, não conto com uma idéia qualquer de conectar-se com algo maior. Posso até tomar milhares de cuidados, mas não me iludo: há um forte elemento de imprevisibilidade, a morte e o sofrimento podem simplesmente aparecer quando bem entenderem. Tomada nessa ideia, e sem perceber, criei para mim uma brincadeira, um pequeno oráculo portátil, que me ajuda a diminuir a sensação de impotência. Acredite se quiser: são os sachês de adoçante.
Uso uma marca de adoçante em pó que vem em doses individuais, em lindos envelopes coloridos. O ritual é o seguinte: no café da manhã devo pegar um envelope na caixinha sem olhar (a fé é cega) e sua cor é prognóstico do dia que me espera. Há cinco cores: roxo, azul, verde, amarelo e cinza. Sem pensar fui montando um sistema no qual tendo ao bom prognóstico: os envelopes roxos significam um dia “excelente”, todos meus desejos serão viabilizados, não seremos vítima de acidente ou violência, nem uma doença se revelará ou matará qualquer pessoa da minha família. Já os azuis e verdes, nessa ordem, são dias respectivamente “muito bom” e “bom”. O amarelo significa um prognóstico “regular” e somente o cinza revela necessidade de cautela, perigo no ar, frustrações ou tristeza à vista. Como se pode observar, em cinco possibilidades só uma é ruim. De posse desse pequeno prognóstico, junto mais coragem matutina para enfrentar a assustadora jornada diária.
Embora não fosse consciente, sei que a brincadeira não é sem sentido: pertenço a uma família de diabéticos, meu querido avô morreu antes de ficar velho, recusando-se a qualquer abstinência alimentar. Para mim o açúcar era um grande vilão. Sem perceber, associei minha brincadeira mágica a uma providência: substituir o açúcar por adoçante. Não se tratava de uma aposta cega na sorte! Talvez no fundo ela não exista. Toda fé, superstição ou crença inclui seus ritos. Reverenciam-se homens santos, reza-se, fazem-se oferendas, pensamentos positivos, rituais. Sempre é uma revolta ativa contra a passividade à qual a morte nos condena. Ela vem quando quer, mas não morremos sem lutar. Inconscientemente, elegi o açúcar como um vilão que podia enfrentar. Graças a isso pude desenvolver esse otimismo infundado, onde de cinco possibilidades, tenho quatro bons prognósticos. Quem dera a vida fosse assim, passível de controle! Ainda bem que algo da magia da infância sobrevive para que possamos brincar de esperança, nem que se tenha que recorrer a pequenos truques! (revista Vida Simples, edição de setembro 2011)
O vira
kit anti-homofobia, preconceito, pais
Início dos anos 2000 minha filha caçula participava de uma gincana na escola que incluía uma dança da turma com música dos anos 70. Ela sugeriu “O Vira”, dos Secos & Molhados, que adorava. Seus colegas aderiram e criaram uma coreografia para o rock antigo. A letra fala de seres mágicos, é fácil de decorar, o ritmo lembra uma música folclórica portuguesa. O estribilho repetia: “-Vira, vira, vira homem, vira, vira. Vira, vira, lobisomem”. Nós, os adultos, ficamos entusiasmados por ver revitalizada uma música que fora significativa para nossa geração, até que um pai se desesperou. Não queria que seu filho participasse da dança que, para ele, era uma apologia aos homossexuais. Não conseguiu impugnar a música, que defendemos com unhas e dentes, mas impediu seu filho de participar da apresentação. Estaria preservada a heterossexualidade do garoto?
Havia uma lenda que o nome original do conjunto seria Secos, Frescos & Molhados e que eles teriam sido impedidos de registrar tal afronta moral, afinal, eram anos duros. De qualquer forma, voz ambígua de Ney Matogrosso não mentia: feminino e masculino não possuem fronteiras tão claras como se queria crer. A suposta contrariedade dos censores era compreensível, os músicos estavam brincando com a ambigüidade sexual. Mas no que isso influiria no destino erótico de qualquer um?
Corta para o ano 2011: uma grande iniciativa, o kit anti-homofobia – composto de material de divulgação sobre a intolerância frente às relações e comportamentos homoafetivos nas escolas – enfrenta um caloroso debate. Um dos temores dos críticos é que o material instigue os jovens a serem homossexuais. Talvez a campanha possa passar por alguns ajustes, mas é sempre bom lembrar que não há propaganda, imagem ou música que possa pender a identidade e escolha de objeto sexual de alguém. Acredito que não se nasce gay, torna-se, mas é por caminhos nada óbvios. É a forma como nos situamos dentro de uma família, de uma época, que vai determinar com quem vamos parecer e a quem vamos amar. Um homem, por exemplo, pode ter uma identificação feminina e amar mulheres ou ser perfeitamente viril e desejar outros homens.
É nas sutilezas da história de alguém que sua sexualidade se define. Nenhuma influência pontual mudará a complexidade de um destino, ela pode, no máximo, dar-lhe voz. Mas os rumos imprevisíveis da sexualidade mexem com os ânimos dos mais inseguros: a revelação da diferença angustia, pensam que seus desejos secretos, tão comuns, podem ser revelados ou ativados por manifestações culturais. O pânico de nada serve, exorcizar supostas influências não oferece a garantia que os inquietos gostariam de ter. A sexualidade se constrói junto com a identidade e a cada um cabe viver a dor e a delícia de ser o que é.

Diana Lichtenstein Corso é Psicanalista Membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formada em psicologia pela UFRGS, trabalhou com crianças e no campo dos problemas de desenvolvimento infantil junto ao Centro Lydia Coriat de Porto Alegre e em várias outras instituições. Atualmente atende jovens e adultos. É colunista desde 2001 do Segundo Caderno, suplemento cultural do jornal Zero Hora, da Revista Vida Simples, além de participações em várias antologias e revistas. Publicou o livro Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010, ambos pela Ed. Artmed, escritos em parceria com seu marido Mário Corso. 



