Revista Vida Simples
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Calendário emocional

Sem ter consciência, somos tocados pelo aniversário de eventos ou rotinas, dos quais sequer sabíamos que lembrávamos.

Sabe aquele relógio que há dentro do celular e dos computadores, que mesmo que o aparelho esteja desligado mantêm o horário e a agenda atualizados? Nosso inconsciente é igual. Ele tem um calendário infalível, que faz com que tenhamos sensações ou pensamentos “comemorativos” de datas que sequer sabíamos que lembrávamos.

Quando somos tomados por uma tristeza incompreensível, um desânimo fora de sentido, um choro estranho, uma brabeza despropositada, enfim, algo aparentemente fora de lugar, talvez seja o tal “calendário emocional”. Algo pode estar sendo evocado nessa data. Sem ter consciência, fazemos o luto de aniversários de morte, de separação, da saída de um emprego, da partida de um filho, de um aborto ou qualquer outro evento significativo, duro ou doído. Todas as datas estão registradas em nosso relógio interno. Para fazer você acreditar nisso, vou contar a história, que aconteceu com uma paciente, que foi surpreendente até para mim, mesmo depois de décadas de trabalho como psicanalista.

Ela acordava todos os dias às três da manhã, depois demorava para dormir. Olhar o relógio e confirmar a infalibilidade do despertador interno só piorava as coisas. A sensação era de estar sendo vítima de um complô. Havia anos que quebrávamos a cabeça tentando entender o porquê dessa persistente repetição.

Sua vida mudou e isso passou. Andávamos esquecidas do enigma, quando ela se pôs a falar sobre um período muito solitário e difícil em que, a trabalho, vivera na Coréia. Foi lá que essa maldição das três da manhã começou e, nas noites insones, costumava pensar que aqui eram três horas da tarde. Dessa vez, ao contar a história lembrou que durante sua infância, o pai, que era viajante e passava a semana fora, partia sempre aos domingos às três da tarde. Na sua ausência, minha paciente ficava à mercê da mãe, cuja agressividade se expressava principalmente com ela. A filha sabia que a saída do pai era o começo de uma jornada semanal de gritos e castigos.

Muitos anos depois, soube-se que esse homem tinha duas famílias e, mesmo sem ter consciência disso, a filha intuía que sua partida era muito mais significativa do que se fosse apenas trabalhar. O hábito de despertar às três da madrugada, sentindo-se abandonada, como ocorria naquele lugar estrangeiro de fuso horário invertido, era um reencontro com a desolação que chegava quando ele partia.

Essa história lembra a força das moções internas que governam nossa vida. Elas serão tanto mais persistentes quanto menos tivermos acesso a seu significado. Podemos combater uma insônia como essa, por exemplo, usando uma medicação ou qualquer outro recurso. Mas não custa ir um pouco mais a fundo e descobrir o sentido oculto desses acontecimentos psíquicos, aparentemente bizarros. Decifrá-los possibilita que nos maravilhemos frente à eficácia da máquina psíquica que nos move. Sua precisão pode até ser assustadora, mas a familiaridade com sua lógica maluca possibilita que certas maldições deixem de nos assombrar.

Emoções de uma escolar

Os dramas de colégio revividos nas redes sociais.

Você tem alguma ideia do quanto sofre uma garota em idade escolar?   Lembro com indesejável nitidez dos dramas em torno de quem senta com quem, da mágoa pelas vezes em que não fui escolhida ou aceita como companhia para merendar. Ao longo do primeiro grau partilhei a solidariedade vexada que se estabelece entre as impopulares.

Algumas vezes tentei ser a terceira incluída em duplas de amigas que eu achava o máximo. Aos meus olhos, elas eram altas, cheirosas, bem vestidas, com cabelos perfeitos, letras bonitas e famílias bacanas. Eu, ser inferior, era a que ficava de fora e tornava o vínculo delas mais coeso. Faziam de mim um io-iô e eu topava, em nome das migalhas de convívio. Cada turma de escola tinha um pequeno núcleo de criaturas idealizadas em contrapartida ao grande número das que se consideravam párias.

Revejo esses dramas cada vez que encontro adultos sentindo-se inferiorizados por causa do que aparece nas redes sociais. Nelas, compartilhamos partes editadas da nossa vida e a ênfase são os signos de felicidade e sucesso. Entre os hits estão o estado civil, pets, família, comemorações e viagens.

Ah as viagens! Você já reparou que só nós parecemos estar trabalhando, enquanto os outros tomam uma taça de vinho com vista para uma encantadora praça europeia? Os que não estão lá, fazem trilhas incríveis, nadam com golfinhos ou brindam num paraíso caribenho. Há também a turma que passa temporadas no exterior, para relaxar, estudar ou criar, estes para mim os mais invejados. E nós num nada charmoso engarrafamento, com um café de garrafa térmica de consolo.

Todos se divertem, festejam, casam, formam-se, batizam, debutam. Nas enfadonhas fotos de grupos, vemos gente vestida de forma incômoda, com seus melhores sorrisos estudados. Os casais estão apaixonados, a família unida, netos e avós se entendem, há muitos sobrinhos, afilhados, os filhos são fofos, os cachorros são adequados, os gatos simpáticos. Os protagonistas mais apreciados em postagens edulcoradas são os filhotes, humanos ou animais. Não quer dizer que eu deixe de colocar tudo isso: filhas, festas, viagens. Cada um a seu tempo, Bilbo, o cachorro babão, e a arisca gatinha Cora têm sido vedetes da parte pública da minha vida.

Independente, porém, do quanto se viaje, namore e possua seres queridos, estaremos em desvantagem. Os populares são uma fantasia que cultivamos, curtimos e invejamos, como na escola fundamental. A maioria de nós se aglutina na solidariedade vexada dos excluídos. Pensamos que há um lugar e tempo, que não são os nossos, onde estão aqueles que são felizes de verdade. Parece um desperdício tanta tecnologia a serviço das emoções típicas de uma colegial. A conexão virtual não criou essa gente insegura, apenas a revelou.

Que tal abrir mão da ingenuidade? A vida dos outros não é perfeita, seus cabelos não são ajeitados e todas as famílias são malucas, peculiares e bacanas a seu modo. É fim de ano, sejamos sinceros: os populares não se sentem assim, não são mais felizes e eles também estão de olho na grama do vizinho.

Menino felino

Pequenos detalhes, grandes amores.

Minha sogra ensinou seu filho a andar em cima dos telhados. Eles moravam no primeiro andar e ele, com sua leveza infantil, foi incumbido de caminhar no telhado que ficava abaixo da janela para resgatar roupas e prendedores que insistiam em cair. Como um gatinho, ele passou a frequentar clandestinamente os telhados. Seu observatório predileto dava para a lavanderia de um hotel vizinho, onde escutava a conversa das funcionárias. Qual é o homem que não gostaria de saber o que as mulheres falam entre si na intimidade? Imagine um garoto, com tudo ainda por saber, o quanto essas aulas sobre a vida vinham a calhar.

Certo dia, entregue à sua sorrateira espionagem, escutou a conversa de duas lavadeiras que falavam mal de uma terceira mulher. Uma sirigaita imperdoável, ladra do marido de uma amiga comum. “Também – observou uma das lavadeiras – pessoas de olhos verdes não são boa gente!”.

Naquele momento Mário descobriu algo que jamais havia observado: os olhos tinham cores diferentes e mais, isso informava sobre a natureza de seus portadores. De posse dessa nova bússola para classificar o mundo, investigou os olhos dos membros da sua família. Para seu espanto constatou que seus pais e irmãos tinham todos olhos verdes. Ele, de olhos azuis, estava cercado de pessoas malévolas!

Bom, com o tempo tudo se relativiza e ele pôde tranquilizar-se quanto à respeitabilidade dos seus familiares, apesar daquele mau indício. Além disso, as pessoas com olhos verdes, como eu, tornaram-se seu perigoso e atraente mistério e certamente me beneficiei disso.

Quando buscamos um amor pensamos que a compatibilidade de gostos, pensamentos e parâmetros éticos tem uma influência importante, até tem. Porém, não há quem não estranhe a falta de lógica visível na maior parte das paixões. Tentamos atribuir as compulsões amorosas às características físicas, que mudam conforme a época, e a uma tal de “química”, que parece ser o elemento surpresa, o mais inapreensível.

Nosso modo de amar, assim como o sentimento de que julgamos ser merecedores, é resultado de uma colcha de retalhos formada a partir de pequenas histórias, aparentemente aleatórias, mas que assumem grandes significados. A partir das nossas vivências construímos um ideal de gênero e traçamos os contornos daquilo que será um objeto de desejo. Somos influenciados pelo que nossos pais foram, gostariam de ter sido, ou mesmo por tudo o que eles condenam. Pessoas de olhos verdes, por exemplo, para o menino-felino, apresentaram-se como irresistíveis, mesmo que moralmente questionáveis. Uma experiência no divã ajuda a relativizar essas determinações ao tentar mergulhar nos pensamentos que formam o rio subterrâneo que irriga nossas escolhas amorosas.

Sei não, talvez minha própria história de amor tenha dívidas com prendedores de roupas, telhado e lavadeiras. Quanto a mim, porque coloquei os olhos nele… Bom, isso é outra história te talvez tenha a ver com seus olhos azuis.

Saudades do que nunca tive

Da importância dos trens para que pudessemos existir psiquicamente ao longo dos trajetos.

Andei mais em trens imaginários do que reais. Não tive a sorte de crescer no tempo do trem. Nas andanças da vida conheci barcos e aviões, mas minha quilometragem foi mesmo de ônibus. Criança enjoadinha, literalmente falando, jamais cheguei ao destino com a roupa limpa e uma cara que não tivesse ficado verde. Só de olhar para o ônibus já sentia a chegada das náuseas.

Não estamos falando de ônibus espaçosos, esses que parecem barcos de cruzeiro sobre rodas, mas sim do transporte rodoviário dos anos sessenta. Eram veículos arredondados, pequenas janelas que mal abriam, sempre acima da linha dos olhos das crianças. Além disso, os passageiros fumavam sem parar, ali dentro mesmo.

Não me conformo em pensar que eles vieram para substituir os trens, que tinham movimentação cadenciada e previsível, eram espaçosos e havia como caminhar dentro deles. Além disso, a paisagem movia-se de modo em que os olhos podiam acompanhar a chegada e partida de uma imagem. O trem nos nina e nos conta histórias, com seu balanço e o filme da janela. Depois disso, transportar-se tornou-se supersônico, rápido, até os trens já não fazem tchu-tchu, embora ainda tenham nos trilhos um fator de estabilidade que os estômagos frágeis agradecem.

Sei que deixamos de viajar de trem pela imposição do petróleo, pelo culto da velocidade, pela popularização dos carros com a individualização de tudo. Mas gosto tanto de percursos que lastimo a eficiência de que passamos a dispor. Há uma espécie de meditação associada ao tempo demorado da chegança, à alternância entre o olhar sugado pela paisagem e o pensamento regido pelo cérebro descansado. Quando não estamos dirigindo, quando os trilhos impõe um caminho e uma velocidade únicos e a locomotiva lá na frente puxa os vagões passivos, podemos repousar das decisões e disputas, pois ninguém precisa ultrapassar o outro. Embarcamos na melancolia do que deixamos e na expectativa do que nos espera, o percurso cria um lapso em que essas duas pontas se desconectam. Uma parte importante de nós existe nesse intervalo de tempo.

Gosto de sonhar com um mundo de trens cadenciados e sem pressa. Não estou me referindo evidentemente a vagões lotados onde se viaja como bichos rumo ao frigorífico. Sei que hoje providenciamos esse momento de alheiamento da pior foma: suportamos os engarrafamentos fugindo para dentro dos dispositivos eletrônicos, refugiando-nos na música, na comunicação compulsiva, porque não há nada na janela. Editamos uma trilha sonora ou improvisamos uma companhia para enfrentar o tempo inexistente do trajeto congelado. A paisagem do trem não carece desses improvisos, é a mesma para todos, fica disponível para que cada um possa percorre-la com seus pensamentos.

Presos em lugares-nenhuns-que-se-movem, sonhamos com férias e viagens, onde nos dispomos a chegar a algum-lugar-para-contemplar-a-paisagem. Se algo ainda me enjoa é tanta claustrofobia. O mundo ficou menor, no sentido de que é possível percorre-lo com uma eficiência incrível, real ou virtualmente, mas nosso olhar nunca foi tão estreito.

Aprendendo com o Alzheimer

O que é bom lembrar antes de esquecer?

A professora de estudos de gênero da Universidade Cornell, Sandra Bem, Sandy, para os íntimos, pôs fim à própria vida em maio de 2014, cinco anos após seu diagnóstico de Alzheimer. A decisão era morrer antes que sua existência tivesse lhe sido totalmente usurpada pela doença.

Apesar das perdas intelectuais, os anos restantes permitiram-lhe testemunhar a chegada ao mundo do neto, assim como ajudar à filha nos cuidados dele. Para este último, a avó apenas levemente demenciada tornou-se uma querida bubba, que era como as avós eram conhecidas na família. Sob efeito da doença, Sandy apresentava uma doçura e uma leveza que eram estranhas àquela acadêmica de pequena estatura e grandes ideais.

O convívio com as perdas foi sendo suportável, principalmente graças ao seu bom humor. Até a chegada de um dia em que, ao despedir-se da filha perguntou à cunhada quem era a mãe daquela mulher que recém saíra dali. Obteve a resposta de que era ela mesma e tristemente arremedou: – desconfiava disso. Era chegada a hora. Já havia conseguido por correio a substância necessária, assinou e datou os papéis previamente preparados, eximindo todos seus seres queridos da responsabilidade pelo seu ato e, sem dramalhões, partiu. No espaço que havia destinado para “observações finais” nada conseguiu preencher, sua mente já não tinha esse alcance.

A história de Sandy, contada no texto Juízo final, da Revista Piauí número 106, é mais radical que o filme Para sempre Alice (2015), onde a pesquisadora não conseguiu levar seu plano de suicidar-se até o fim. O filme suaviza o espinhoso tema do suicídio. Na verdade, a transformação da linguista Alice na bobinha acompanhante de sua filha caçula, com quem ainda consegue ter uma postura afetuosa, atenua um pouco o drama da despersonalização tão temida por todos nós.

Recentemente passei o dia todo atrás de uma palavra que não recordo qual era, e tampouco sei se afinal a achei. Estou chegando à idade madura junto com vários de meus amigos e pacientes. Entre nós, sorriso nervoso nos lábios, já falamos por alusões aproximativas como: “aquele ator que fez o Sherlock, o mesmo que fez o cientista gay discriminado que quebrou o código dos alemães, como era mesmo o nome do filme?”. Ficamos, mesmo sem querer, monitorando o declínio visível da memória imediata.

A parte apavorante dessas histórias de Alzheimer é a abreviação do processo de envelhecimento até a vertigem. Alertas, muitas vezes confundimos as bobeiras normais com o desgaste do cérebro, mas como sempre fui avoada, acabo me surpreendendo menos com as lacunas de comportamento e memória. O que realmente esquecemos é que a memória costuma ser esquiva, se entrarmos em pânico não saberemos sequer responder o nome completo. E mais, as pessoas esquecem é que nunca tiveram de fato uma memória prodigiosa. Calma, tudo o que é imprescindível volta. Talvez essa rebeldia das evocações tenha o propósito de nos lembrar que a paciência é a principal aprendizagem que a maturidade nos reserva.

(publicado na Revista Vida Simples do mês de setembro de 2015)

O anel que tu me destes

A premissa do desapego é a descoberta daqueles pertences com os quais fabricamos uma identidade.

Herdei um anel de madeira. Ele foi feito pelo meu tio-avô em uma macabra oficina onde que lhe coube trabalhar. Por sua vitalidade, na hora de repartir os deportados entre a vida e a morte, Ödon foi destinado aos trabalhos forçados em Auschwitz e conseguiu sobreviver. A mesma sorte não tiveram meu avô e meu tio, irmão de meu pai.

Ödon furtivamente entalhou esse único pertence pessoal, um tesouro tanto mais valioso pois desafiava o castigo da impessoalidade, que transformava pessoas em números, sem cabelos nem distinção alguma entre si. A despersonalização era uma das formas utilizadas no campo de concentração para matar a identidade antes do corpo. Como fabricou e salvou o anel nunca soube, mas antes de morrer ele o presenteou a meu pai, seu sobrinho.

Os colegas da instituição psicanalítica à qual pertenço estão criando um museu virtual onde as pessoas podem comparecer com um objeto que considerem especial e descrever sua importância. Nesse museu não haverá nenhuma presença física, só encontraremos histórias e imagens de objetos de relevância pessoal, de preferencia que tenham pertencido a alguém a quem a sociedade de alguma forma silenciou. Terei o privilégio de participar com esse anel.

Hoje falamos muito em desapego, um debate imprescindível em uma sociedade que vive produzindo lixo, cercando-se de objetos descartáveis comprados por compulsão. Como a identidade nunca foi tão frágil e avulsa, acabamos sentindo-nos representados pelo que possuímos. Cada um amontoa sobre si uma miríade de coisas através das quais espera se valorizar. O problema é que como nenhuma delas faz efetivamente uma marca, tornam-se obsoletas e vão para o lixo as inúteis tentativas de ser alguém por seu intermédio.

É fundamental saber descartar e dar-se conta da inutilidade do acúmulo. Isso passa também por escolher quais são nossos verdadeiros pertences. Os mendigos talvez tenham algo a ensinar: eles costumam ter sempre consigo uma trouxinha ou sacolinha que, aos nossos olhos, estaria cheia de lixo. Muitas vezes ela está mesmo, contém trapos sujos e jornais amassados, que somente possuem o significado de representar o único pertence daquele que é nada. Não é estranho que os que se sentem como um nada preencham sua trouxa com coisas que também são nada. Já os bebês, que ainda sabem ser pouca coisa, apegam-se fortemente a um trapo ou brinquedo encardido que é seu primeiro pertence pessoal.

Provavelmente, para Ödon, a construção desse anel fez parte de sua estratégia de sobrevivência. Encerrada sua longeva existência, em outro continente, uma descendente que ele nunca conheceu pessoalmente o escolheu para esse museu de objetos peculiares. Como ele, também tentarei deixar algo que possa ser usado pelas gerações futuras para contar uma história.  “É interessante, como dentro do essencial, recordo principalmente de pequenos detalhes que ganham importância e se fixam na memória”, escreveu Ödon a meu pai.

(Coluna da Revista Vida Simples do mês de agosto de 2015)

A casa do gigante

Vendo o mundo desde diversos pontos de vista nos tornamos mais sábios, ou menos truculentos…

Gosto de imaginar uma espécie de instalação chamada “A casa do gigante”, um lugar para ser visitado pelos adultos. Seria como uma casa normal, ou mesmo só um cômodo dela, onde todas as superfícies estivessem acima da altura dos nossos olhos. O único modo espiar em cima delas seria subindo em uma cadeira muito alta, que tenha que ser escalada. Ali nos sentiríamos tão pequenos em relação ao ambiente que em nosso horizonte apareceriam somente pernas, sapatos, barras de saias e os sons das vozes viriam de cima, entrecortados, confusos. Se pudéssemos viver isso, nem que seja em uma experiência sensorial, lúdica, talvez nos tornássemos mais capazes de compreender as crianças.

Isso foi antes de conhecer o incrível trabalho do escultor australiano Ron Mueck e seus gigantes hiperrealistas. Ele cria figuras humanas enormes, representando gente normal, fazendo coisas corriqueiras, ao lado das quais uma pessoa crescida sente-se do tamanho de uma criança de dois anos, no máximo. As exposições de sua obra atraem multidões, acredito que em busca da sinistra sensação de viverem algo que um dia já nos foi familiar.

O mundo ao qual as crianças são apresentadas não é do seu número, o que as leva a um modo peculiar de cognição. Elas constroem suas teorias a partir do que literalmente lhes cai de cima. Recolhem migalhas de cenas, de frases, observam o sapateado, o movimento das mãos e a sonoridade das vozes sem entender com exatidão o que se passa. Tentam decifrar a mímica facial, a linguagem dos gestos, prestam atenção em tudo, embora estejam brincando e parecendo alheias. Vão montando suas hipóteses, fazendo suas colagens, entendendo a seu modo quem são seus adultos, quais vínculos eles têm entre si e em relação a ela.

Como os bichinhos, seus personagens prediletos, elas também ficam de fora e estão mais próximas do chão. Por isso, quando era pequena gostava de “morar” numa casinha feita com um pano jogado em cima de uma mesa, um lugar que me acolhia por ser na minha medida.

Falar com uma criança exige do adulto uma atitude que será decisiva para o tipo de relação que estabeleceremos com ela. Se falarmos do alto, olhando para baixo, estamos optando pela distância, pela hierarquia. Ao levantá-la, podemos içá-la, como se fossemos um guindaste e ela se entregará passivamente como um saco de batatas. Por outro lado, é possível oferecer nosso corpo e braços de forma a que ela suba, embarque ativamente, e possa em nossa companhia contemplar a paisagem do alto. Por último, se nos sentarmos ou acocorarmos, encontraremos seus olhos e partilharemos seu ponto de vista.

Na relação entre gigantes e pequeninos, há uma dança de corpos, um jogo de olhares, um esforço de encontro que precisa vencer o desajuste de tamanhos, de visões. Frequentemente nos surpreendemos com as coisas incríveis que as crianças dizem e ficamos abismados com sua esperteza. É que desde sua perspectiva acabam percebendo sutilezas, enxergando o que nossa percepção viciada deixa escapar. Quando as diferenças são respeitadas, todos os envolvidos aprendem.

(publicado na revista Vida Simples do mês de julho)

Apostas

Até que ponto podemos apostar em algo, num projeto que não vinga, numa escolha amorosa equivocada?

Quem entende de matemática (o que não me inclui) costuma dizer que ganhar na loteria é tão improvável que os sorteios só sobrevivem graças à ignorância dela. Bom, esse é o caso da maioria das religiões: rebeldes à comprovação, os fiéis insistem em acreditar no impossível. A visita a uma agência lotérica é um ato profano de fé, tanto que costumamos dizer que estamos “fazendo uma fezinha”, rezamos por uma vitória da esperança sobre a realidade. Aliás, se o otimismo dependesse dos fatos estaria extinto.

Por uns quarenta dos seus oitenta anos de vida, minha avó apostou no mesmo número de loteria, comprava o bilhete junto com um parente mais jovem. Quando ela se foi, ele seguiu com esse hábito até seus últimos dias. Confrontado com a decisão de parar ou continuar com o que já era uma birra paterna, seu filho, mesmo amedrontado, parou de comprar o número. O temor que os movia era que no mesmo dia em que resolvessem abandoná-lo ele sairia, como se existisse uma memória vingativa entre uma rodada e outra de apostas. Não sei se afinal o endemoniado prêmio saiu para esse número, tenho receio de investigar.

Temos esse hábito em relação a apostas menos lúdicas e levianas do que um bilhete de loteria. Quantas vezes nos pegamos insistindo num relacionamento fracassado, num negócio falido, numa escolha equivocada? Esses investimentos amorosos ignoram os dados da realidade, apegam-se às mínimas amostras de que vale a pena persistir. Eles se baseiam no mesmo temor da minha avó, de que outro, menos “merecedor”, ganhe a aposta. Junto de outro par aquela pessoa de quem já não estamos gostando pode se revelar exatamente o que queríamos que ela fosse. Tememos que se embeleze, torne-se mais romântica, responsável, bem sucedida, sensível, corajosa, criativa. Alheia aos nossos investimentos, ela prosperará assim que deixarmos de apostar. O mesmo vale para negócios e outras escolhas infelizes. Então o erro não estava no amado, no negócio, no projeto, o erro éramos nós?

Nesse caso, insistir no erro não é somente burrice, é uma espécie de aposta delirante no nosso desejo. É difícil acreditar que o destino, essa entidade que governa o acaso, seja tão rebelde à nossa vontade. Afinal, esse não era o segredo – como dizem algumas fórmulas de auto-ajuda – querer muito e persistentemente?

A admiração que sentimos por aqueles que levaram seus desejos às últimas consequências é coerente. Os perseverantes revelam que não basta querer, é preciso trabalhar em prol do que se almeja. Por outro lado, a obstinação supersticiosa em acreditar na supremacia da nossa vontade sobre o destino é aprisionante. Muitas vezes o segredo está em desistir, escolher outro número na vida no qual apostar. Esse ato em geral requer muita coragem e o mais difícil: a sinceridade consigo mesmo de admitir que também fazemos escolhas erradas, e que nossa vontade pode não fazer a mínima diferença.

(publicado na Revista Vida Simples de junho 2015)

Filhos-bonsai

Como criar filhos sem fazer deles Bonsais, sem reproduzir o cuidado e as podas que atrofiam e impedem o crescimento.

Meu marido tem um jardim de cactos e suculentas. Ele parece ter uma espécie de identificação com sua estética monstruosa. Mário ama dragões e todo tipo de animal que pareça, mesmo que remotamente, pertencer a uma fauna fantástica, assim como esses seres espinhudos e retorcidos. Aliás, ele costuma dizer que “cria” suas plantas, seus monstrinhos verdes.

Mantém-se curioso em relação a todo o reino vegetal, adora pesquisar suas classificações, e só há um tipo de planta que lhe produz mal-estar: o bonsai. Tem pena dessas árvores, que lhe parecem atrofiadas. Bem sei que os praticantes dessa arte de origem oriental consideram improcedente o sentimento daqueles que julgam que os bonsais seriam árvores torturadas para permanecerem minúsculas.

Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro são as três ditas tarefas a realizar antes de morrer. Porém, discordo de que se possa arrolá-las como realizações possíveis, já que não acho que possam ser concluídas. Ter um filho nunca é um gesto acabado, é preciso criá-lo e ficar negociando com o jeito como ele se inventa. Podemos ser semente e terra, mas não passamos de ponto de partida. Escrever um livro é o começo de um vício. Cada obra já sai da editora como mais uma tentativa fracassada de dizer algo que nos escapa, dali a necessidade do próximo. As árvores, bom, crescem por conta e dependem muito do ambiente.

Mas como seria escrever um livro e criar um filho ao modo bonsai? Nossa necessidade de propor que um filho estude, faça esportes, realize tarefas enfadonhas e se esforce para aprender, reduz sua liberdade e o tempo de brincar. Educar lembra os suportes de arame que são também usados para que os galhos do bonsai se direcionem equilibrada e graciosamente.

Para orientar um filho que possa crescer é preciso fazer algo diferente de uma poda que o atrofie, que o deixe como um frágil e dependente bonsai. Envolve suportar que seus galhos, no sentido de sua identidade, suas escolhas, seus dons e também suas humanas imperfeições, assumam formas imprevistas. Ao crescer se empalidece os traços e intenções dos pais. Quem escreve um livro também sente que a autoria lhe escapa, tem-se pouco controle sobre o estilo, o tema escolhido, o tamanho em que ele vai ter.

Não é possível deixar que livros, filhos ou árvores plantadas cresçam selvagemente, eles precisam de cuidados e até de podas para florescer. Por outro lado, precisam tornar-se “traidores” dos seus autores, sejam eles pais ou escritores. Eles se avolumam na arte de ter vida própria, seu destino os transcende. A criatura sempre escapa do criador.

Para controlar uma cria, só mesmo reduzindo-a a ser um bibelô, a imitação de uma árvore grande, de uma pessoa crescida, de uma obra prima. Seres-bonsais, filhos perfeitos em representar nossos ideais, não são viáveis para enfrentar os ventos, o sol e a chuva do mundo lá fora. Não passam de bibelôs, troféus na estante familiar e, esses sim, me produzem muita tristeza.

Gêmeos: cobiçada semelhança

Por que somos fascinados por gêmeos?

Acho gêmeos idênticos fascinantes e mesmo os que não são diferentes, mas nasceram juntos, me parecem invejáveis. Nas gestações os cobiçava, além de que gosto de imaginar como seria ter tido filhos assim. Não creio que ninguém seja capaz de níveis tão profundos de cumplicidade quanto os ditos “vizinhos de útero”, mas igual me pergunto por que eles capturam meu olhar desse jeito.

A curiosidade que suscitam diz mais sobre os que nasceram sozinhos, do que dos gêmeos. Na verdade, corresponde a fantasias que temos sobre o amor perfeito. Sempre nos chateamos quando o outro, seja amado, parente ou amigo, revela o quanto nos desconhece, assim como que não nos escuta ou nos abafa. Achamos que se tivéssemos alguém que vivesse tudo ao mesmo tempo e nascesse com as mesmas armas, seríamos finalmente completos.

Tive duas colegas de jardim de infância que eram iguais, lindas, loiras, usavam grossas tranças e a mesma roupa. Nas fotos que ainda possuo aparecem como uma espécie de moldura, decorativas, equidistantes, tratadas como cenário. Poucos sabiam seus nomes próprios, tanto que não os encontro na memória. Atendiam por “gêmea”, a denominação as rotulava de metade de alguém. Os irmãos idênticos são objeto de um anedotário específico, muito mais imaginário que real. Há histórias de travessuras clássicas, trocando-se à vontade nas provas, nos encontros amorosos, criando truques para driblar a vigilância dos pais ou das escolas.

Eles de fato se entendem e é tocante a forma como se mimam. Acostumados a dividir colos, seios, aniversários e olhares, gêmeos complementam com mútua atenção os eventuais descuidos que possam ter sentido. Afinal, a cria humana costuma ser única, não chegamos ao mundo em ninhada. Porém, quem é pai ou irmão deles, testemunha o enorme esforço que eles fazem para construir uma identidade, quando tudo converge para a indiferenciação.

A imparidade, tantas vezes interpretada como falha no amor, vem bem. Eclipsados pelo egoísmo, ignoramos isso e passamos a vida buscando uma “alma gêmea”, alguém que nos ame como só nós mesmos seriamos capazes de fazê-lo. Santa ignorância: o “duplo”, na literatura não é uma figura romântica, é uma das representações do terror. Ver-se espelhado, mas numa imagem que se movimenta autônoma, alheia à nossa vontade, é assustador, irritante. Longe de ser belo, é sinistro e produz agressividade, tentativa de controle. Na ficção, quem encarou seu duplo não conseguiu controlar o impulso de supressão daquela cópia imperfeita. Não há narrativa literária em que ambos terminem vivos.

Sentimo-nos incompletos, mas não será o amor que nos curará dessa insuficiência: o outro nunca é a parte que nos falta, nem tampouco somos a dele. Não adianta parecer-se, suprimir as diferenças e a vida pessoal, fazer tudo juntos. Já nascemos chorões, reclamando uma ausência de aconchego que nunca deixaremos de  sentir. Pobres gêmeos, deve ser muito duro ter que arcar com esse olhar curioso, herdeiro do luto por essa metade inexistente