Revista Vida Simples
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Amigo é para essas coisas

Eu quero ter um zoológico de amigos

Você separou, durante semanas chorou no ombro dos seus amigos, derramou toneladas de indignação contra aquela pessoa egoísta e sem caráter que tanto amou. Você arrolou as inúmeras razões pelas quais já devia ter percebido que aquilo não ia dar certo. O amigo acolhe, consola, diz sinceramente que você merece alguém muito melhor. Só que o casal se reconcilia e ao amigo cabe brindar a felicidade dos pombinhos.

Ou ainda, você está entusiasmadíssimo com um novo projeto mirabolante. Vai, mais uma vez, desfazer algo que estava funcionando. É assim que você sempre faz: destrói tudo o que construiu. Ao amigo cabe acompanhar o novo sonho, comemorar mais uma inauguração.

É claro que os amigos tentam avisar, em geral quando consultados, por vezes à queima roupa. Eles alertam que essa relação é nociva, que você se desencanta de tudo o que conquista. Somos grilos falantes, lúcidos no que diz respeito à vida alheia. Sábios de plantão, nos iludimos: tudo indica que finalmente o amigo problemático está escutando a voz da razão. Porém, raramente eles seguem esses conselhos, o que fica na memória não é a esperteza das palavras, é a certeza da  presença, do afeto fraterno. Nas verdadeiras amizades o que faz diferença é suportar as besteiras que o outro faz.

É por isso que não é a mesma coisa conversar com um amigo do que com um terapeuta. Do primeiro queremos somente seu amor incondicional, já com um terapeuta falamos porque desconfiamos que há algum significado nas nossas trapalhadas, intuímos estar repetindo erros. Amores tampouco cumprem essa função: sócios na empreitada da vida, o destino daqueles que se comprometem é enlaçado, por isso tendem à intolerância. Já a amizade não é eficiente para questionar, serve para acolher.

Amigos são como um zoológico, onde a variedade valoriza. Há aqueles com os quais rimos só de olhar um para o outro, outros parceiros para viajar, há os que se materializam nos momentos de dor, outros que abrilhantam as comemorações, os interlocutores intelectuais, os com álcool, os que servem para fazer algo juntos, enquanto há os que são legais mesmo para confidências. São de diversos tipos porque também somos incoerentes e multifacetados.

Está certo, além da amizade seguido precisamos de alguma escuta que nos ajude a refletir, assim como andamos sempre em busca de amores que remem junto no barco da vida. A carência é enorme, precisamos de muitos e diferentes tipos de vínculo, por isso vale a pena aprender com a amizade a ser tolerantes: ninguém pode ser tudo, há momentos para paquidermes, outros para felinos, ou ainda primatas, sem falar das pernaltas aves. Sempre me pergunto que tipos de bicho sou para todos aqueles que amo, mas lhes agradeço a infinita paciência.

Os sem chinelos

A fadiga é democrática e universal.

O marido chega em casa exausto. Os chinelos o esperam em frente ao sofá. Sua esposa trabalhou o dia todo para que esse momento fosse perfeito: o toque de recolher silencia as crianças, a comida pronta e fumegante chegará à mesa com precisão suíça. A conversa será amena, preocupações devem aguardar o momento certo para não exasperá-lo com miudezas domésticas. Ela se desespera quando precisa comunicar-lhe problemas, confusões do filho na escola, um conserto que vai custar caro. Sua função é zelar pelo seu repouso.

Mas e ela, a esposa e mãe, que também trabalhou o dia todo equilibrando pratos no ar para que a família e o orçamento funcionassem, quando é que descansava? Donas de casa podiam até ter algum tempo ocioso, mas não era considerado de descanso, porque a ninguém ocorria que elas estivessem cansadas, afinal, “não trabalhavam”.

Faz décadas que essa cena familiar desapareceu da maioria das casas, o feminismo e a democracia familiar derrubaram o senhor e seu castelo. Hoje os chinelos não esperam por nenhum de nós. À noite não ocorre a pais e mães calar seus filhos, pois costuma ser a hora em que se conversa e brinca, num encontro marcado pela saudade e denso de culpa. No lugar do pai reverenciado e da mãe gueixa, a avalanche de tarefas e preocupações, cada dia mais equânimes para ambos. As questões domésticas espreitam o dia todo a volta do casal exausto e caem sobre eles no momento em que abrem a porta.

Sempre alertas, vivemos como as antigas donas de casa: nunca descansamos. As diversas formas de comunicação virtual eliminaram as barreiras entre dentro e fora de casa, dificultam a intimidade e ajudam a instaurar o dia sem fim. Não há refúgio, toca, retiro.

Para nossos avôs patriarcas, o direito ao repouso era consequência da satisfação do dever cumprido. A submissão dos outros membros da família que transmitiam tal seriedade ao seu bem estar era como uma condecoração diária, um reconhecimento silencioso dos seus méritos. Ao chegar em casa era recebido como herói, presidente, general, mesmo que no trabalho nunca tivesse passado de peão.

Hoje ficamos dia e noite tentando acertar, numa jornada acompanhada de cruéis autocríticas, saudosos de parâmetros. Mas não nos cabem saudosismos daquelas famílias rígidas e injustas. Sobre o descanso que garantíamos aos patriarcas repousavam nossas certezas, ao preço da vida sem trégua das mulheres, que hoje é a de todos nós. Foi só o (péssimo) costume que nos ensinou a confundir hierarquias rígidas, valores religiosos repressores e preconceitos com algum tipo de paz interior. Nosso castelo não será mais em terra firme, assentado sobre essas pedras fundamentais. Agora teremos que aprender a amarrar as redes e calçar os chinelos em nossas ilhas flutuantes de incerteza. Que podem ser lindas.

Floreando os pensamentos

Para que fazemos dramalhões ridículos

Sempre me considerei uma daltônica funcional. Entro em pânico quando necessito combinar cores e estampas. Ninguém avaliou o desgaste que significa produzir bons encontros cromáticos a cada manhã, com o cérebro ainda adormecido. Só o preto salva. Essa dificuldade também comparece quando compro móveis e tapetes.

Ao trocar as poltronas do meu consultório escolhi umas de tecido alegre quadriculado. Na minha sala já havia um divã vermelho, floreado, mas ignorei o provável excesso de referências e me apaixonei pela vivacidade do tecido. Depois veio o rebote. Móveis levam um tempo para serem entregues, durante o qual quadriculados de cores berrantes e flores gigantes dançavam na minha mente, caçoando de mim.

Até que as poltronas chegaram: tinham uma estampa suave, e em nada conflitavam com o detalhe sutil das flores do divã. Meu mau gosto não seria, desta vez, denunciado. Agora quem ria de mim era a realidade, revelando a inutilidade de toda aquela ansiedade.

Apesar do vasto currículo da minha própria neurose, da faina de psicanalista com as caraminholas alheias, a capacidade de complicar que temos ainda me assombra. Os neuróticos sofrem de excesso de sentido, emprestam demasiada carga aos pensamentos. Em agoniados devaneios, revestem de caráter dramático e transcendental certas miudezas ou diálogos insignificantes. Não há banalidade da vida frente a tanta criatividade.

A salvação dos psicanalistas, e dos neuróticos, está na descoberta de que não há pensamentos inúteis, apenas deslocados ou disfarçados. Minha preocupação com esses móveis é nada mais do que expressão da face exibicionista que tenho, mas renego. Quero que achem meu consultório um charme, mas me escondo atrás de argumentos pragmáticos como os bons preços, a ergonomia necessária. São aspectos fundamentais de levar-se em conta, mas o desejo que me envergonha é de causar admiração, se possível até inveja. Por isso, flores e quadrados tornaram-se enormes, do tamanho da importância que gostaria que tivesse, e não tem, a mera troca de móveis de um recinto.

Na verdade ninguém se importa muito com o que vestimos, como ajeitamos nossa casa, as coisas que dizemos ou pensamos. Quando adultos, percebemo-nos irremediavelmente sós e desimportantes. Crianças pequenas sentem a forte presença dos seus adultos, que costumam evolver-se com tudo que lhes diz respeito. Depois que isso termina, só temos tanto protagonismo em nosso pensamento agoniado, onde tudo se amplifica. É triste ter um público tão distraído, tão exíguo. Para isso servem os pensamentos neuróticos, que floreiam e colorem a mediocridade. Graças e eles, no teatro imaginário onde exibimos a trama da nossa vida os ingressos estão sempre esgotados.

Tantas coisas a fazer antes de morrer

Preciso menos do que 1001 razões para seguir vivendo.

Um amigo me enviou um lindo vídeo editado com 1001 filmes que não posso morrer sem ver. Fiquei aliviada, pois a percentagem das cenas que reconheci, que pertenciam aos que já havia visto, era menor que a metade. Feitos os cálculos, devo ter mais do que cinco centenas de filmes que devo ver antes de poder morrer, o que me pareceu uma espécie de garantia de que terei certo prazo para fazê-lo.

Existem também listas com centenas de lugares aos quais devo ir, livros que tenho que ler, músicas que seria imprescindível escutar. Estarei muito ocupada tomando essas providências, espero, pelas próximas décadas. São tarefas bem atraentes, pelo qual chego também à conclusão que terei vida longa e muito divertida. Isso é melhor do que notícia de cartomante!

Adoro ir ao cinema, viajar, ler. Também gosto que me recomendem oportunidades de fazê-lo, pois hoje as possiblidades são tantas que ficamos perdidos. É angustiante pensar que só poderemos ler um numero restrito de livros, seria melhor então não errar. Só que é inevitável certa imprevisibilidade, certa errância em relação aos encontros com as coisas que vão nos sensibilizar. É como no amor, com o qual tantas vezes esbarramos e nos deixamos encantar.

Lista é sempre da ordem da obrigação, do tipo que marcamos itens realizados. Vendo do lado positivo, quem faz uma lista está planejando-se, enfrenta o momento seguinte com razão e eficiência. Por isso gosto de fazê-las, embora em geral me esqueça de lê-las. Outro prazer associado a elas é o de dever cumprido: ver aquela página cheia de “okeis” ou de itens riscados é muito compensador.

Por outro lado, as listas deixam a vida com cara de gincana. Essa parte eu passo.  Apesar de serem compostas de deliciosas propostas, essas prescrições culturais envolvem um tipo de fruição que me parece angustiado, desesperado. Algo como aqueles programas de agência de viagem que ajudam a “fazer Europa em quinze dias”, onde se visita tudo e, por isso, nada. Há muito para ver e sentir sem distanciar-se do lugar onde se nasceu e há tantos que vão longe e nada veem. Talvez haja perdão para perder Bergman ou Dante se tivermos oportunidade de saborear outras obras de arte.

Se tivesse que elaborar uma lista, minha prioridade são as marcas deixadas nos outros. Prefiro imaginar que minha presença alterou em alguma dimensão àqueles com quem tive o privilégio de conviver. Mais do que obras ou lugares, gostaria de não perder a oportunidade de perceber minhas gentes, temo passar por elas apressada, distraída. Centenas de bons encontros são o que  acima de tudo quero fazer antes de morrer.

Nemesis

O lado lúdico (e útil) da rivalidade.

No esporte, o Jogo Limpo, mais conhecido como Fair Play, garante uma bela disputa, vitórias justas, derrotas vividas com dignidade. A vida seria bem mais fácil se isso vigorasse sempre. Mas nem sempre conseguimos ser tão construtivos. Na contramão disso, infelizmente, identifico em mim ideias que não trajam essa elegância esportiva. Costumo sentir inveja por rivais imaginários, em geral escritores com quem travo disputas dentro do meu pensamento. Estes, superiores em todos os sentidos, sequer sabem da minha existência.

Quando encontro textos publicados por eles, almejo-lhes o fracasso ou a mediocridade. Se o escrito for incriticável fico mordida, reconheço a derrota e conduzo-os, de mau grado, ao merecido pódio. Caso haja qualquer brecha para pensar que eu faria melhor, ou mesmo, suprema glória, que já escrevi de forma mais interessante sobre isso, eis a vitória esperada.

Em língua inglesa essa rivalidade tem um nome: é Nemesis. Originalmente esse é o nome da personagem mitológica responsável pelo controle da soberba, e a personificação da vingança. Em inglês, diz-se que um herói tem sua Nemesis quando possui um inimigo admirável, como o professor Moriarty é o contraponto à altura de Sherlock Holmes.

Não passa de uma inveja recreativa. Tanto que ela praticamente não surge em minha atividade profissional, a psicanálise. Os baixos pensamentos se confinam à escrita, meu trabalho das horas vagas. Meus Nemesis-escritores servem para escoar minhas rivalidades. São como o time adversário para um torcedor fanático.

Quem tem irmãos praticou essa competição saudavelmente ao longo da vida sem dar-se conta.  A disputa fraterna é construtiva, graças a ela ninguém pode almejar a perfeição, os rivais nos ressaltam as fraquezas. Sem isso, qualquer um se acha a cereja do bolo, o queridinho da mamãe, mas o nascimento de um irmãozinho costuma lembrar que o reinado é passageiro. Quando se tem irmãos mais velhos, serão um parâmetro, um ideal instigante. Como eles, meus escritores-rivais certamente ajudam a aperfeiçoar a escrita.

Sei que muitos dirão que há lugar para todos, pregarão um coração pacifista. Concordo com estes pensadores na prioridade da vida interior que leva ao constante questionamento de conceitos e valores, sem medir-se com ninguém. Porém, não há como negar que fazemos parte de um e vários grupos.

Na sociedade individualista nossa condição de seres sociais não tem muito prestígio. Ignoramos com prazer os laços que nos atam aos semelhantes e aos ancestrais. Cada um de nós gosta se imaginar um lobo solitário, um self made man, figura adorada do capitalismo, que não depende nem deve nada a ninguém. Quanto a mim, deixem-me com meus Moriartys, graças a eles posso pretender ser uma espécie de Sherlock.

Noites no Aqueronte

Há utilidade e até poesia sutil em certas bagunças renitentes.

Ao lado da cama, sem perceber, eu havia ancorado um minúsculo barco de metal. Dentro dele uma moeda esquecida. Um dos tantos objetos sem sentido que preenchem uma casa. Já reparou que sempre há algumas quinquilharias que nunca vão para seu lugar? Sabe por quê? Porque aquele é o seu lugar. Foi assim com meu barquinho despropositado.

O enfeite herdei do meu pai, na verdade o recolhi entre seus objetos, depois que ele se foi. Ele não o teria dado, estava usando. Como eu, tinha-o parado ali em seu porto, pronto para levá-lo de volta para casa. Eu não tinha entendido essa missão.

Meu pai veio de barco para a América, fugindo do nazismo. No porto foi a última vez que viu seu pai e seu irmão, mas na ocasião ele não sabia disso. Quem sabe se pudesse navegar de volta àquele momento pudesse evitar, ou mesmo despedir-se com um verdadeiro adeus. Ele partiu com um até logo, que sempre lhe pareceu insuficiente.

Quer sejamos religiosos ou não, imaginamos que nossos mortos sempre estão em algum lugar, no mínimo aquele onde nossos pensamentos os visitam. Talvez para esse fim, ou mesmo para o seu fim, meu pai tenha guardado sua pequena embarcação de metal.

Para os gregos, era um barco que levava para o Hades, terra subterrânea dos mortos, sua última morada. Não era céu nem inferno, apenas um outro lugar. Porém, o acesso não era gratuito: custava uma moeda, entregue a Caronte, o soturno barqueiro incumbido da travessia do rio Aqueronte. Para tanto, na cerimônia de despedida dos mortos, uma moeda era colocada na boca ou nos olhos do defunto, que partia com o pagamento necessário. Precavida, jamais vou dormir sem uma moeda em meu barquinho. Pelo jeito, tomei precauções sem notar, pois não quero ficar navegando a esmo para sempre.

Cada noite de sono é uma visita às margens do Aqueronte. O abandono do corpo, indispensável para dormir, requer também abrir mão da consciência de si. Ficar inconsciente, nem que seja pelas horas que separam um dia do outro, pode dar medo, é como morrer temporariamente.  Meu barquinho representa tudo isso, tão pequeno e tão carregado. A morte de cada noite, o extermínio do qual meu pai fugiu, outros não, sua espera pela viagem final e a minha.

Repare nas suas pequenas bagunças, elas encerram em si muito mais verdades do que os enfeites de nossas casas. Os objetos decorativos são como a cara que apresentamos ao espelho, nossa versão editada. Já os aparentes desleixos, principalmente aqueles objetos que se abancam num lugar como se tivessem vontade própria, esses contém muitas verdades. A minha, é que vivo a cada dia consciente de que estou nesta margem apenas por um tempo. Grata pela sua duração, mas quando for a travessia, quero estar preparada.

Errata

Errei, e agora? Melhor descobrir o que isso significa!

Sabe aquele sentimento terrível, quando percebemos ter feito uma bobagem? Pode ser um comentário infeliz, um mail bomba, o esquecimento de uma data, a perda de um prazo, enfim, todas aquelas situações em que que só percebemos o erro após dito, feito, depois de enviar. Após o gesto ter se tornado irremediável, só resta ao infeliz a certeza de que sua reputação acaba de cair na lama e o chão se abre sob os pés.

Pois foi exatamente o que me ocorreu quando, ao receber a edição da Vida Simples de novembro, constatei que havia trocado o nome do autor da citação que coloquei na frase final da coluna. As palavras eram de Valter Hugo Mãe, mas as atribuí a Mia Couto, ambos escritores que adoro. Poderia ter sido um verdadeiro engano, pois minha memória não é boa para citar nomes de autores, atores, filmes e livros. Nesse sentido já nasci idosa, falo por evocações: “sabe aquele ator, aquele moreno bonitão que fez vários filmes do diretor espanhol cujo nome tampouco me vem à mente?”.

Porém, neste caso, tenho certeza de que o erro não foi fruto de uma imprecisão da memória. Foi um lapso, que é um truque da atenção através do qual uma mensagem do inconsciente é contrabandeada. Freud citou vários exemplos de lapsos em Psicopatologia da Vida Cotidiana, como o de um sujeito que, ao abrir uma sessão solene, que prevê será tediosa, inútil e interminável, denuncia seu sentimento dizendo: – “declaro encerrada esta sessão”.

No meu caso, a chave do lapso estava nas palavras “Mãe” e “Mia”. Tenho uma mãe muito eloquente, cheia de histórias. Muitas delas, assim como expressões que ela usa, tornaram-se inspiração para meus textos. Considero-a uma fonte inesgotável de narrativas, embora ela diga que distorço tudo, invento palavras como se fossem dela. Cacoete de cronista. A palavra “mia” em minha língua mãe (para ser redundante), o espanhol, quer dizer “minha”. Portanto, através dessa troca de autores, transformei uma afirmação de alguém chamado Mãe em minha. Essa é a apropriação das palavras da minha mãe que costumo fazer.

Ser filho é herdar um acervo de histórias e com elas tecer nossa identidade. Na prática consiste em transformar histórias que são da mãe, do pai ou dos avós em próprias. Usar uma citação e atribuir-lhe erroneamente a autoria é o mesmo: uma desapropriação das palavras do verdadeiro dono, um plágio disfarçado.

Incorporamos à nossa identidade traços que nos interessam, embora também herdemos algumas sinas que repetimos sem querer. De qualquer modo, convêm observar que tendemos a escolher para usar como nosso aquilo que admiramos. Nesse sentido, imploro que Valter Hugo Mãe considere minha falta como uma homenagem sincera. Apesar de que o chão insista em continuar abrindo-se sob meus pés.

O gato e a montanha

Leitura é também repouso, intervalo para pensar.

Quando vejo certas entrevistas feitas a personalidades, fico fantasiando o que aconteceria se algum dia eu fosse suficientemente importante para que me perguntassem sobre minhas preferências. Qual seria meu livro preferido, filme, prato, palavra, lugar? Respondendo mentalmente à entrevista que nunca me fizeram, costuma dar branco. Não lembro de nada que li, de nenhum filme especial. Nada a declarar.

Mas esses dias respondi a uma dessas perguntas, numa mesa com amigos, sobre o livro que levaria a uma ilha deserta. Ocorreu-me: “A Montanha Mágica”, clássico do escritor alemão Thomas Mann, publicado em 1924. O livro é sobre um engenheiro que vai parar em um sanatório para tuberculosos, do qual não se anima a sair, embora não esteja propriamente doente. Quando fui justificar a escolha, não me ocorreu nada sobre o conteúdo da obra, nem sobre seu estilo, mas sim sobre a quantidade astronômica de tempo que levei para lê-la. Sou leitora lerda e dispersiva, por isso leio muito menos do que gostaria.

Na época da leitura da “Montanha”, na minha década dos vinte, eu tinha um gato chamado Koshka. Como bom felino, ele acreditava ser o centro do meu mundo e via no livro de Mann um rival e tanto. Não porque eu de fato lesse muito, mas porque passava longos períodos divagando, com ele no regaço. Só que na opinião do gato meu colo era possessão sua.

Iletrado, Koshka não sabia que a maior parte do tempo eu estava só sonhando. Resolveu mostrar sua supremacia frente ao suposto inimigo: deixou-o impregnado daquele cheiro horroroso de xixi de gato. Não havia remédio, o exemplar foi para o lixo tive que terminar a leitura num emprestado.

Folheando a obra anos depois, senti o mesmo tédio a respeito das longas discussões filosóficas das personagens que me ocorria na época. Mas minha empatia era com o sem sentido da vida daqueles enfermos, confinados num sanatório nas montanhas. No livro, o cotidiano reduzido às rotinas do corpo, onde quase nada ocorre, contrasta com grandes polêmicas e expressivas emoções. Esse paradoxo me engatava.

Eu me sentia como Castorp, o personagem principal, que nãoqueria ficar bom, covarde para voltar à sua vida. Em certa cena, vê-se o protagonista distraído, divagando sobre o braço da mulher atraente que via repousado na cadeira da frente durante uma palestra. A imaginação podia voar, seu dono estava seguro no retiro disciplinado do sanatório, pobre em fatos mas rico em pensamentos. No meu caso, a própria leitura desse livro funcionava como uma “Montanha Mágica”. Por longo tempo significou repouso, intervalo para pensar. Foi graças a Koshka que sua natureza se revelou: marcando território, tratou o objeto como se fosse um lugar. Gato sabido: um livro é uma terra de sonhos.

O privilégio do azar

Um pessimismo de bolso que é um tributo ao otimismo

Na fila do caixa do supermercado, por várias vezes, disputei pelo privilégio do azar. Estabelecimento lotado, filas grandes e lentas, escolhemos uma: obviamente será aquela em que vai dar algo errado, o cartão que não funciona, um produto sem preço ou estragado. A fila que não escolhemos sempre anda mais rápido. Quando finalmente nossa vez chegou, a fita da caixa registradora acaba e é preciso parar tudo para trocar. Certa feita, frente a essa situação, declarei em voz alta que só podia ser comigo, é sempre assim! Uma senhora que estava atrás de mim insistia em que o motivo do percalço era a presença dela. Assim, meio rindo, meio falando sério, ficamos discutindo o protagonismo daquele pequeno azar.

Essa demonstração pública de pessimismo, na qual reivindicamos ser a causa do que dá errado, é no mínimo intrigante. Afinal, qual seria a vantagem a ser alardeada de ser o escolhido para coisas ruins, mesmo que de pequena monta? Justamente porque trata-se de vantagem: a idéia de que os pequenos azares substituem os grandes.

É comum ficamos temerosos de que alguma catástrofe virá para acabar com a festa quando algo bacana está para acontecer. Para mim não há viagem de férias em que não tenha pressentimento de que alguma desgraça vai me impedir de partir. É uma espécie de culpa, como se o prazer antecipado devesse ser punido. No fundo me espreita o pânico de que o destino tome providências para impedir a realização desse desejo. Estaria certo usufruir desse prazer? Por que seríamos merecedores de um passeio, de um encontro muito esperado, uma refeição cuidadosamente planejada, uma homenagem recebida? Alguém vai aparecer para impedir, revelar nossos defeitos, nossos pecadilhos, vai levantar a mão como num casamento quando se pergunta se há alguém que se oponha à união. Ficamos culpados, pensando que talvez estejamos cometendo alguma injustiça, será que não haveria outra pessoa que teria mais direito a esse privilégio?

É aqui que entra a utilidade dos revezes insignificantes: não serviriam para aplacar a ira do azar? Como se fossem oferendas, sacrifícios: manda-se para a fogueira da culpa uma bobagem, esperando que ela queime no lugar de uma verdadeira desgraça. Depois disso, o que tinha para dar errado já foi, tudo transcorrerá maravilhosamente.

Esse pessimismo de bolso acaba sendo um tributo ao otimismo. Somos mesmo muito paradoxais. Com esses pensamentos estranhos acreditamos estar controlando o destino, garantindo que será favorável, já que sacrificamos à desgraça alguma cota de tempo, paciência ou dinheiro. É bom saber que, apesar de resmungões, somos otimistas incorrigíveis e perseverantes. Nesse sentido, concordo com Valter Hugo Mãe que escreveu: “Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende”.

Flocos de solidão

Solidão é uma forma peculiar de silêncio

Dizem que em 1984 nevou em Porto Alegre. Dizem, porque não vi. Não foi daquela vez que conheci a neve, na ocasião minha descoberta foi a solidão. Era o primeiro dia de estágio obrigatório em uma área na qual eu não tinha interesse. Fui admitida de favor em uma empresa que aceitou a estagiária mais desmotivada do mundo. Sem saber o que fazer com a recém chegada, puseram-me em um cubículo sem janelas com uma enorme pilha de folhetos para classificar. Bateram a porta depois de informar o horário do fim do expediente. Na hora da libertação, no elevador da firma, todos falavam excitados sobre a neve que viram das janelas e alguns desceram para tocá-la. Minha desolação não podia ser maior. Na época não havia celular, muito menos rede social, e ninguém na empresa lembrou ou sabia que eu estava lá. Não havia um colega para avisar a reclusa do fenômeno.

As facilidades tecnológicas de comunicação que temos são frequentemente acusadas de promover exibicionismo e certa falsidade afetiva. Super-conectados, não faríamos mais do que mascarar o isolamento. Discordo: a verdadeira solidão consiste na inexistência de comunicação, ainda que virtual, exígua. Mesmo que no cubículo estivesse a pessoa pior relacionada do mundo, certamente teria sido informada dos flocos rarefeitos, esparsos, mas festejados pelo surpreendente.

Solidão é ausência absoluta de diálogo, nem que seja imaginário. Não basta ver a neve, para entendê-la é preciso poder contar isso para alguém. Seria suficiente uma frase, enviada a míseros dois contatos virtuais.

Certa vez, sobre um cenário que a impressionou em uma viagem, a escritora Virginia Woolf escreveu que a beleza era tanta que se tornou indescritível. Isso lhe parecia insuportável “como se a natureza tivesse me dado seis pequenas navalhas para fatiar uma baleia”. Em viagens, às vezes fotografamos um cenário assombroso, esperando que a imagem nos balbucie algumas palavras. Na dor a solidão é uma crueldade, mas também nos momentos belos é preciso dizer para crer. Ao ver a neve ou a paisagem inusitadas, carece dividir isso com alguém para entendê-las. Naquele dia ninguém partilhou sua neve comigo.

A solidão é algo muito maior do que a ausência de amigos, família, colegas. Quando ela se apresenta em toda sua dimensão, absoluta como ocorre em certas vidas ou momentos, ela é principalmente uma forma peculiar de silêncio. Precisamos dizer para pensar. As diversas formas virtuais de comunicação funcionam como interlocutores imaginários. São antídotos contra a impessoalidade das cidades, onde é fácil sentir-se invisível, transparente. Nesse sentido, as redes sociais, tão amadas quanto criticadas, acabam sendo imprescindíveis. Todo encontro é válido, sempre é muito melhor que nada.