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Aventuras na vida privada de uma incrível família de super-heróis

(o capítulo IV do nosso “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia” chama-se “Uma família amorosa”, abordando várias histórias familiares já classicas da cultura pop: A Família Addams, Os Simpsons, De Volta para o Futuro e Os Incríveis. Reproduzimos aqui o trecho relativo à incrível família de super heróis, que trouxe para o cinema, para a cultura infantil e para nossas vidas a intimidade destes personagens, antes mesmo de que o filão virasse febre. A continuação das aventuras dessa simpática e conflitiva família é ocasião para retomar essas reflexões)

Os Incríveis: Uma família que vence unida

Um menino e uma menina, irmãos envolvidos em uma aventura na qual acabam de escapar de um ataque inimigo, travam o seguinte diálogo: a mais velha diz ao menino – “eles estão em perigo”; – “nossos pais?” pergunta ele; – “não, pior, o casamento deles!”. Essas falas são do filme infantil de animação Os Incríveis (2004, direção Brad Bird, um dos envolvidos na criação dos Simpsons), no qual uma família é levada a uma missão de resgate uns dos outros, do valor do pai e do amor do casal.
Essa história poderia ser considerada uma boa revanche, um antídoto contra todos os pais inúteis, principalmente se comparados com seus filhos geniais. Embora pais idiotas cheguem a ser amados, no final das contas, como é o caso de Homer, não há esperanças de que ele possa algum dia valer alguma coisa. Nesse caso trata-se de um filme infantil com toques de humor, porém sem nenhum sarcasmo, e temos uma família onde todos os membros são dotados de poderes, principalmente o pai. O chefe dessa família é um expoente, até mesmo entre os super-heróis, graças à sua força imensurável, por isso seu nome: Incrível. O resto da família tampouco é, digamos, “normal”: a esposa, também uma super-heroína, é a Mulher Elástico. Os filhos nasceram poderosos, cada um com um dom diferente que os habilitaria para o combate ao mal. Parece um ótimo ponto de partida, afinal, que mal poderia afetar uma família tão abençoada pela “genética”?
O drama se origina porque temos, mais uma vez, como no caso dos monstros, uma família estranha ao modo de ser dominante, e com suas inevitáveis dificuldades de adaptar-se a ele, além de serem discriminados por uma sociedade que lhes é hostil. Enquanto parecia compreensível que os membros das famílias monstruosas não encontrassem aceitação social, fica difícil entender por que isso afetaria àqueles que seriam o retrato de nossos melhores sonhos: bonitos, poderosos, invencíveis e ainda admirados por todos graças a seus feitos heróicos. Certamente, Incrível e a Mulher Elástico ao se casarem só podiam prever um destino de glória.
Mas o mundo é mesmo complicado, e Incrível é processado por um homem a quem salvou, privando-o de se suicidar. Ele é julgado culpado, dando origem a uma onda de processos nos quais aqueles que haviam sido salvos se queixam de terem sido prejudicados pela brutalidade dos super-heróis e exigem indenizações. Junto com o restante dos super-heróis, ele entra em um programa de proteção do governo, no qual abre mão do uso de seus poderes e passa a viver oculto, restrito a uma identidade secreta, providenciada como forma de protegê-lo.
A obsessão jurídica da sociedade americana aparece como o vilão que amarrou as mãos até dos seus heróis. Trata-se justamente de uma consequência indesejável do controle social sobre todo aquele que possui responsabilidade sobre os outros. Embora ainda convivamos com abusos de todo tipo e com uma corrupção endêmica, as democracias se instalam em uma base de saudável desconfiança sobre toda instância de poder. Hipoteticamente, governantes, administradores, empresários, cientistas, policiais, juristas, jornalistas e profissionais de saúde, assim como os pais e professores encontram-se submetidos à estrita vigilância por parte de várias instâncias, governamentais ou civis, que podem vir a julgar a procedência de seus atos, se são benéficos ou prejudiciais àqueles que dizem atender ou cuidar.
Não poucos excessos foram evitados ou punidos graças a essa vigilância social, mas ela tem, como tudo, sua face problemática. Algumas obras de ficção têm abordado o tema desse controle incidindo justamente sobre aqueles que, em uma visão simplista, seriam os bons. A mesma vertente dessa trama sobre heróis aposentados pelo controle da sociedade, foi precedida por um clássico das histórias em quadrinhos: Watchmen, uma série lançada em 1983 (de Alan Moore e David Gobbons). Nesses quadrinhos, após uma revolta da população contra esses vigilantes, acusados de atuar acima da lei, a maior parte deles abandona suas atividades. Há uma frase, que é uma espécie de mote dessa obra, que traduz muito bem a problemática que abalou a vida dos Incríveis e dos super-heróis dessa história em quadrinhos: “quem vigia os vigilantes?” Na mesma linha, temos o Homem Aranha (de Stan Lee e Steve Ditko, criada em 1962), o qual é um super-herói que vive tendo que fazer escolhas dolorosas para minimizar os danos infringidos pelos seus inimigos em seus seres queridos. Um dos precursores dos heróis angustiados e sofridos das histórias em quadrinhos, Peter Parker, o Homem Aranha, é consciente de que “com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”. Essa é uma de suas frases e a consciência disso faz de seus poderes um peso difícil de carregar.
Mesmo aqueles que julgam estar salvando, beneficiando aos que correm perigo, não estão isentos de serem julgados, condenados e tornados inúteis pelo imenso coro dos queixosos. Parece não há mais lugar para homens enormes e protetores, que tomem as atitudes que lhes pareçam necessárias para proteger os mais fracos. O que são os super-heróis senão a recordação infantil do pai de uma criança pequena, esse herói forte e atento, que a levantará em seus braços no momento em que estava prestes a cair ou ser esmagada?
A novidade de nossos tempos é que o controle social impõe também vigilância sobre os poderes dos pais. Com medo de errar, eles optam por gestos medidos ou ausentes, já que qualquer atitude poderá ser considerada um abuso, causadora de perigosíssimos traumas e inibições nos filhos. Nesse clima de desconfiança, as escolas sempre julgam mal os pais de seus alunos, assim como as famílias têm uma postura constantemente acusadora e insatisfeita frente às instituições em que seus filhos estudam. Ninguém se sente habilitado a se responsabilizar, serão considerados incapazes principalmente aqueles que fizerem parte da vida familiar, melhor deixar as crianças aos cuidados dos profissionais: professores, psicólogos, autores de livros de autoajuda para pais. Sob risco de serem julgados prejudiciais e danosos, os pais se minimizam. Lasch observou: “A indústria da saúde assumiu a maior parte da responsabilidade pela criação dos filhos, deixando ao mesmo tempo a maior parte da culpa aos pais”.
Em sua identidade secreta o Sr. Incrível vê-se obrigado a levar uma vida civil medíocre, ocultando seus poderes e abstendo-se dos feitos heróicos que fizeram sua glória no passado. O trabalho que lhe conseguem é de funcionário de uma companhia de seguros. Assim como a função de Homer Simpson é de supervisor de segurança de uma usina nuclear, o que é uma piada frente à sua total incapacidade de zelar pela integridade de qualquer coisa, o trabalho do Sr. Incrível é também uma metáfora eloquente. Ele é pago para fazer parte de um sistema de tortura burocrática, conduzida de tal forma que os beneficiários não recebam o que a apólice prometia. Para ele isto é mais que absurdo, pois o mesmo sistema legalista que o condenou ao ostracismo obriga-o a tornar-se agente dessa engrenagem perversa. A alma boa do super-herói nega-se a isso e acaba sendo despedido.
Na banalidade da vida do Sr. Incrível, o quadro da depressão se aprofunda. Ele torna-se um homem triste, alienado em um cotidiano insignificante, em um trabalho burocrático e aviltante. Em família é um pai distante, comporta-se como se seus filhos valessem tão pouco como ele mesmo, já que são obrigados a viver escondendo os poderes com que nasceram. Violeta, a mais velha, é uma adolescente capaz de ficar invisível e de criar um escudo de segurança; Flecha é um garoto absurdamente veloz; enquanto do bebê da família não se sabem os poderes ainda, e existe a suspeita que ele teria nascido sem dons. Ao longo do filme descobrimos que o pequeno é um diabinho, que pode assumir várias formas, como um monstrinho, ou virar uma chama, atravessar paredes, voar, enfim, revela-se um bebezinho bem difícil de cuidar. A Mulher Elástico faz apelos ao marido, procurando interessá-lo um pouco pela vida doméstica, os quais ele evita, refugiando-se em um quarto onde guarda seu velho uniforme e as lembranças dos dias de heroísmo.
Evidentemente que ele sonha com a volta do seu prestígio e surge um convite para um novo trabalho que parece ser a redenção. Na verdade, essa missão secreta que lhe promete tal perspectiva, o leva diretamente para dentro de uma cilada armada por um antigo desafeto. Em um primeiro momento, quando o novo emprego parece um sonho de retorno aos velhos e bons tempos, Incrível emagrece, fica feliz, é atencioso com os filhos e mostra-se apaixonado pela esposa. Estava de volta ao que ele gostava de ser, só que nada revela à sua família sobre a missão, e omite o fato de ter sido despedido. A Mulher Elástico desconfia que ele lhe esconde algo, só que suspeita que ele a esteja traindo e parte para a investigação. Aquela que parecia ser uma crise conjugal acaba sendo uma aventura de resgate do amor do casal, da vida do marido, e do orgulho de todos os membros da família que acabam reconciliando-se com os dons que possuíam, uma vez que esses voltam a ser valorizados.
As crianças embarcam clandestinamente no avião onde a Sra. Incrível partiu para uma ilha, onde supunha que encontraria seu marido envolvido em uma aventura extraconjugal. A dona do fio de cabelo loiro que ela encontrou na roupa do marido é, na verdade, a secretária do inimigo, e é ele que constitui o verdadeiro perigo a enfrentar. Quando jovem, o vilão que agora ameaça a vida de seu marido, atendia pelo nome de Gurincrível, era um antigo fã que se julgou desprezado pelo seu herói. Em mais um caso de genialidade infantil, ele tornou-se o dono e criador da paradisíaca ilha onde Incrível é chamado para a missão-cilada. Gurincrível enriqueceu criando e vendendo armas, porém, apesar do sucesso, sua obsessão era provar que com suas invenções poderia tornar todos os super-heróis obsoletos. Para tanto, construiu um robô capaz de possuir todos os poderes, que só ele, rebatizado com o nome de Síndrome, pudesse controlar. Sua ideia é que alguém que não nasceu com poderes, teria condições de se sobrepor aos agraciados com essa benção, pelo uso da tecnologia que sua inteligência pudesse criar.
O inimigo era na verdade um serial killer de heróis aposentados. Ele foi matando sucessivamente todos os que descobrira na clandestinidade e copiava seus poderes para incorporá-los ao seu robô. Síndrome, o nome de super-herói que ele escolheu não deixa de ser eloquente: sugere uma espécie de insanidade em sua obsessão, assim como que ele é composto de um conjunto de poderes que se somam para formar um herói, como uma síndrome é a soma de sintomas que constituem uma doença. Em sua cruzada anti-heróis, seu antigo ídolo, o Sr. Incrível era a cereja do bolo, o mais importante e difícil de superar, mas não bastava apenas absorver seus poderes, também era fundamental exibir para ele a pujança de suas conquistas tecnológicas. Espécie de filho bastardo imaginário, Síndrome precisava fazer o Sr. Incrível pagar muito caro por não tê-lo reconhecido como ajudante, discípulo e admirador.
Síndrome é mais um dos queixosos que imobilizaram o herói, só que não basta desvalorizá-lo, ele quer também a vingança, quer ver sua morte e a superação dos seus poderes. Uma das particularidades do filme é reservar um lugar de grande importância para o prestígio do pai, por isso Síndrome não se conforma com relegar seu herói ao ostracismo, deixá-lo entregue à tristeza de ser uma personagem do passado. Esse admirador desde criança precisa medir forças com o Sr. Incrível para mensurar seu próprio valor. Para tanto, não lhe serve um herói derrotado, fora de forma, deprimido. Não por acaso lhe proporciona o emprego que o faz recuperar a autoestima perdida, arranca-o do cotidiano tedioso, devolve-lhe o prestígio e somente depois disso é que vai combatê-lo.
Aparentemente contraditória, a postura dessa espécie de filho imaginário do pai-herói é a de todos nós, que precisamos que haja algum tipo de figura paterna que nos infunda respeito para tentar enfrentá-la e superá-la. Para ser alguém não basta ser amado, como se espera que as mães façam, é necessário um pai que nos desafie a ser mais que isso. É ele que nos instiga a fazer-nos valer no mundo exterior ao lar, longe dos olhos da mãe. Ele é alguém em quem se inspirar e a quem se contrapor, para melhor poder identificar-se. Quando saímos das entranhas, dos braços, do aconchego do olhar materno, é ele que nos aguarda do lado de fora. Na verdade, ele também está à espera da mulher, de que se rompa a bolha formada em torno da mãe e seu bebê, para que ele possa entrar, e com ele o resto do mundo.
Como representante de uma figura paterna admirável, Incrível foi vencido por reivindicações que estavam além das suas forças. Gurincrível fantasiava tornar-se seu “sócio”, mas atrapalhava nas missões colocando-se em risco com as engenhocas que inventava. O importante para ele era ser valorizado pelo seu herói. A função clássica do super-herói, de ser forte e ágil suficiente para evitar o mal, passa a ser pouco frente à tarefa de administrar outros dilemas, como o do menino que exige atenção, o suicida que acredita que a morte é uma escolha, um ato ao qual ele tem direito. Essas duas situações, pelas quais nosso super-herói paga tão caro, revelam a complexidade do que é exigido dos pais: dilemas morais, éticos, reivindicações amorosas e o difícil trâmite de ajudar um filho a construir uma identidade fazem parte dessa missão impossível.
O tema do suicídio, em particular, é tocante, pois cabe a um pai zelar pela vida do filho inculcando-lhe que ela é um bem maior, um compromisso com todos os outros conectados com ele. Um suicida lida com sua existência como se fosse um bem que só a ele compete, e com o qual pode dispor como bem lhe aprouver. Entre as múltiplas causas que levam alguém a se matar, algumas dizem respeito à incapacidade de suportar a dor de seguir vivendo, mas há algo mais: o suicida é o único que fica realmente com a última palavra. Esse ato, forma terminal de autonomia, é uma maneira radical de libertar-se de todo tipo de dependência: não será objeto do amor de ninguém, nem obra da vida de outrem, será obra acabada de sua própria determinação. A autoridade paterna impõe, a princípio, o dever da vida aos filhos. Um pai deve proibir que o filho se mate, nos disse certa vez um amigo psicanalista. Por isso, o pai desta família é um salvador de vidas e tem entre seus inimigos um suicida (aquele que o processou por ter sido impedido de se matar). Esse, expressão de uma vida que não reconhece a dívida de existir, foi mais efetivo em imobilizá-lo que o gênio, filho queixoso, que se crê bastardo do super-herói, mas que de alguma forma o enaltece como pai.
A Sra. Incrível era, antes de ser uma simples dona de casa, a Mulher Elástico, em uma simpática metáfora dos inúmeros papéis e tarefas aos quais precisa dedicar-se uma mulher contemporânea. Ela fora uma heroína muito posicionada e feminista, mas a vida civil lhe negou qualquer pretensão: passou a limpar, cozinhar e cuidar de filhos como uma dona de casa sem nenhum valor público. Na verdade, na intimidade atribulada dessa mãe heroica, é preciso ter muita força para criar filhos poderosos, pois os seus são capazes de meter-se em confusões bem maiores do que as crianças normais. Flecha é rápido e eficiente para fazer tumulto; Violeta é muito conflitada, já que toma ao pé da letra esse problema que as adolescentes têm de sentirem-se invisíveis; enquanto o bebê, como qualquer um de sua espécie, exige de sua mãe que seja uma mulher muito “elástica”.
Além disso, para preservar a identidade secreta, essa família é obrigada a mudar-se o tempo todo, fugindo de contratempos criados pela existência dos poderes e pelas dificuldades de adaptação, principalmente por parte do chefe da família. Porém, ao contrário do marido, ela parece mais forte, dedicando à família a mesma perseverança e coragem dos tempos de combate ao mal. Mais uma vez, embora a tarefa de cuidar e conduzir uma família seja penosa, de tal modo que os pais sentem-se insuficientes para ser exitosos nela, as mulheres parecem menos frágeis e mais à vontade do que seus parceiros, como nas histórias que analisamos anteriormente.
Talvez a força dessa heroína nos elucide mais uma das razões do melhor prestígio das mães do que dos pais nessas famílias tão criticáveis da ficção infanto-juvenil e do humor para todas as idades. Para um pai, o valor dentro de casa depende mais do prestígio público do que da dedicação doméstica. A ele cabe a função de orgulhar-se, ou até de envergonhar-se de si e dos seus perante o mundo, intermediando a relação entre os espaços público e privado. É claro que as mães também participam da disputa de prestígio entre seus rebentos e os filhos das outras, mas é próprio da maternidade o fato de que ela amará seu filho como a si mesma, pois ambos se confundem no princípio, por isso diz-se que o amor de mãe é cego e infalível. Já o vínculo entre pai e filhos é uma conquista de ambos os lados, já que eles não partem da premissa simbiótica da gestação, da amamentação e de toda a fusão que os cuidados maternos primários impõem às mães e seus bebês.
É preciso que o pai e seus filhos se reconheçam em seus papéis, que se valorizem enquanto tal, assim como é necessário que a mãe seja intermediária desse encontro, atribuindo a ambos os lados a legitimidade que merecem. A Sra. Incrível sabia quão elástica teria que ser para garantir o funcionamento de uma família composta de gente tão estranha, administrando segredos e enormes forças que precisavam ser contidas, mantendo em pé os ânimos sempre abalados de seus heróis clandestinos. Ela não ignorava que sua vida privada já era uma missão de árduo desempenho. “Retraída pelas debilidades de um sujeito em sofrimento, (a família) foi sendo cada vez mais dessacralizada, embora permaneça, paradoxalmente, a instituição humana mais sólida da sociedade. À família autoritária de outrora, triunfal ou melancólica, sucedeu a família mutilada de hoje, feita de feridas íntimas, de violências silenciosas, de lembranças recalcadas. Ao perder sua auréola de virtude, o pai, que a dominava, forneceu então uma imagem invertida de si mesmo, deixando transparecer um eu descentrado, autobiográfico, individualizado, cuja grande fratura a psicanálise tentará assumir durante todo o século XX.” Tais são os desafios que requerem tanta elasticidade por parte da mãe desta e de todas as famílias.
Os filhos também viviam nessa berlinda de não poder valer nada fora de casa, Flecha era proibido de fazer esportes, para que sua velocidade não se tornasse visível e Violeta havia transformado seu poder de invisibilidade em um expediente para não ser vista pelo garoto que amava. Na vida pública, os membros daquela família estavam longe de ser “incríveis” e eles só pareciam ter valor, quando muito, aos olhos da mamãe.

No final vence o amor

O amor materno, com seu afeto inquestionável, parece ter conservado melhor prestígio do que o reconhecimento paterno do valor de um filho. Ser escolhido pelo pai como legítimo herdeiro, o que se dá quando este reconhece seus traços, valores ou gestos no filho, é algo que se desvalorizou junto com as genealogias. Cada indivíduo pretende-se uma obra inédita e acabada, quando na verdade somos apenas parte de um processo. Ainda que nos tornemos protagonistas importantes em nosso momento histórico, papel reservado para poucos, somos fatos passageiros no contexto de uma história maior. Hoje, cada ser humano gosta de imaginar-se autogerado em seus dons, e o que herda da família costuma ser mais um problema do que uma solução. No processo de individualizar-se, pensar-se como elo de uma trajetória familiar que nos precede e continua, pode ser pensado como um fardo, um peso do qual é melhor aliviar-se.
Aos olhos da mãe enamorada da primeira infância, um filho é uma projeção da perfeição que ela deseja para si mesma. Para ele, basta ter nascido; para ela, basta sabê-lo dela. É mais fácil acomodar-se a esse afeto, embora pareça alienante, que nos ama simplesmente por existir, do que entrar em uma disputa com todos os outros seres humanos, os quais também são, ou almejam ser, um tesouro para suas mães. O amor materno, portanto, é um refúgio muito especial, já que nega a importância de fazer algo para provar a que se veio, importante mesmo, para ela é que o filho chegou quando ela o convocou. Obviamente, essa satisfação da mãe com o filho cobra seu preço, pois ele nunca consegue ser tudo e que ela espera dele, mas sempre tenta. A valorização das mães, ou o fato delas terem sido poupadas das duras críticas que se destinam ao pai, pode provir da exaltação desse tipo de vínculo, onde o laço amoroso prevalece sobre a identificação, que é o tipo preferencial de ligação que se faz ao pai.
Contentar-se com a satisfação materna é uma cilada, como a que se meteu o pai desta família. Para o Sr. Incrível, tão charmoso, musculoso e bem-sucedido, bastava usar os dons com os quais nasceu, até que sua força deixou de agradar o público. Àqueles a quem ele salvava, só restava agradecer-lhe e admirá-lo, afinal, não eram poucos os que lhe deviam a vida. A chegada do herói em uma situação de perigo era sempre triunfal e na sua partida sempre era acompanhado pela glória.
“Restou aos indivíduos a identidade amorosa, derradeiro abrigo em um mundo pobre em Ideais de Eu.” “O indivíduo contemporâneo perdeu os suportes tradicionais de doação de identidade e é levado a se redescrever constantemente para se reassegurar do que, em si, é digno de inclusão na imagem do eu (Solomon, 1994, p. 199-208). Essa insegurança constitutiva da subjetividade moderna encontra no amor um lugar de repouso. Na relação amorosa, mais do que em qualquer outra, ganhamos um tipo de certeza que pacifica a inquietude da reconstrução de si sem garantia de amanhã.” Estas palavras, escritas pelo psicanalista Jurandir Freire Costa, permitem-nos compreender as circunstâncias nas quais aposta-se no vínculo amoroso como forma de constituição e manutenção dos nossos parâmetros, álibis e formas de sustentação pessoal.
É por isso que, como referíamos anteriormente, os irmãos parecem mais preocupados com a manutenção do amor dos pais do que com a sobrevivência dos membros da família. A questão é que uma decorre da outra: enquanto o casal permanecer vinculado, desejando-se e admirando-se mutuamente, é possível que todo o grupo familiar possua algum valor. Hoje os filhos não são resultado de uma imposição ou convenção social, são fruto de uma fantasia amorosa, na qual representam uma aposta de um casal em sua perpetuação. Uma vez falido o projeto amoroso dos pais, será necessário que eles encontrem na relação com cada um o sentido de sua continuidade enquanto resultantes de um sonho abandonado. O amor materno, em sua capacidade de buscar respostas na relação com um objeto amoroso, o filho, é o que melhor se presta para dar forma ao que compreendemos como amor, fonte das poucas certezas que ainda podemos tentar coletar.
Em resumo, a vida privada era insuficiente para que essa família de heróis deixasse de sentir-se mais uma família monstro. A luta entre Síndrome e Incrível, a retomada do amor do casal no contexto dessa aventura, aponta para a necessidade de que o reconhecimento, e a constituição da identidade transcendam os limites da escolha amorosa.
O olhar condescendente de Margie não faz de Homer um herói, tampouco a memória da Mulher Elástico, dos tempos de glória do casal, é suficiente para que os filhos sintam-se orgulhosos de seus poderes. O amor encontra, nos dias de hoje, seu grande desafio e também seu limite. Transformando as palavras do Homem-Aranha, poderíamos dizer que “com grandes amores vêm também grandes responsabilidades”, e as relações sofrem com esse fardo.
Muitas separações e sofrimentos amorosos provêm das enormes expectativas que se depositam sobre esse vínculo que, infelizmente, não pode dar mais do que ele é: uma escolha de dois indivíduos para serem, entre si, o olhar privilegiado de quem se espera obter o valor que nem sempre os outros estão dispostos a lhes atribuir. O desejo sexual, assim como a fidelidade e o companheirismo, são o tanto que se exige que os amores possam prover. Não é difícil de compreender por que convivemos com tanta insatisfação, busca e fantasias sobre o que o amor pode nos oferecer. Ser sexualmente desejado, nesse contexto, funciona como prova física da importância que podemos ter para o próximo. Pode não ser durável, mas é forte o efeito de ser considerados objeto de satisfação de alguém.
Quer seja através de renovadas e incansáveis fantasias românticas, ou mesmo como resultado de intensos e inquietos anseios sexuais, para as muitas perguntas que nos fazemos o amor parece sempre uma potencial resposta. Não admira, portanto, que Flecha e Violeta tenham se lançado na missão de resgate do amor entre seus pais; nesse quesito as crianças são sábias.

A sociedade como um pai onipresente

Como se pode observar, o pai tal como representado nas histórias para crianças e adolescentes já não é o mesmo: a admiração por ele cai a níveis muito baixos, mas não o amor. Existe uma queixa tênue, mas ele sempre é perdoado, compreendido, aceito e resgatado das confusões em que se mete, mesmo depois de seus reiterados fracassos. Sua antiga função, de ser uma bússola moral e um exemplo a ser seguido, já não funciona. Os filhos se habituaram a seguir com ele ao lado e não na frente, mas que consequências isso traz? Em um raciocínio rápido podemos pensar em uma sociedade menos opressiva, afinal, o tirano não está mais presente a agora nos vinculamos de forma direta e não idealizada com um pai que sabemos que é de carne e osso.
Mas quem observar com cuidado nossa sociedade contemporânea pode não encontrar uma mudança tão significativa assim. As exigências sociais de rendimento escolar, com a competição por notas e prestígio já começando no jardim de infância, a demanda por ser esportista e ostentar um corpo saudável, magro e bem vestido, a obsessão pelo sucesso revelam uma sociedade extremamente exigente e impiedosa com quem sai da norma, ou melhor, da forma. Trata-se de uma sociedade superegoica, cruel com os ditos fracassados. Aliás, o exército dos que se consideram fracassados é cada vez maior, à medida que mais inclementes tornam-se os parâmetros de silhueta, popularidade, desempenho esportivo e sexual, posse de objetos e outros atributos dignos de serem exibidos. Sentir-se marginal em relação a um padrão dominante de comportamento é hoje um sentimento democraticamente muito bem distribuído, todo mundo tem ou teve direito a seu quinhão.
Porém, mesmo que amado e perdoado, como Homer e o Sr. Incrível, o pai contemporâneo é alvo de incessantes críticas: ele não impõe limites e é acusado de todos os problemas de comportamento de seus filhos, dos quais as escolas e instituições tanto se queixam; seria fraco, relapso, hedonista e os deixa sem parâmetros, pois se exime de ou simplesmente ignora como educá-los. Ele próprio compara-se com o próprio pai, considera-se menos poderoso e acusa seus filhos de serem sem qualidades porque ele não lhes exigiu tanto quanto supostamente o avô deles fazia com ele. Os defeitos de seus filhos são contabilizados pelos pais de hoje na conta de perda de sua autoridade e poder, porém eles não têm a mínima intenção de encarnar o papel do patriarca, nem saberiam como fazê-lo e sentem-se sempre incômodos quando se veem obrigados ao exercício de qualquer tipo de severidade, que já não lhes parece natural.
Philippe Julien nos lembra que essa figura, hoje mítica, do pai como soberano e criador, figura idealizada por aqueles que são pais, como fosse algo que eles deviam ter sido, corresponde a um desejo de cada filho de responsabilizar outro alguém pelo que se é, afinal, precisamos culpar alguém pela nossa imperfeição. Ele se refere ao “pai mítico”, que é “a imagem do pai como soberano, isto é, correspondente ao desejo da criança. [...] A esse pai criador tem-se, sem dúvida, muitas críticas a fazer, por não ter realizado tudo, tudo o que poderia fazer, se ele o quisesse”.
Convém lembrar que é mais comum que as coisas mudem de lugar do que desapareçam, o famoso “nada se perde, tudo se transforma”. Assim ocorre com a figura do pai que nos cobra nada menos do que a perfeição, parâmetro imaginário com o qual precisamos nos medir, para motivar-nos a querer viver e ser mais do que conseguimos até então. Nessa fantasia do que deveria ser um pai de verdade, alguém poderoso a ponto de fazer-nos perfeitos, à semelhança de suas expectativas superlativas, coisa que nenhum homem consegue encarnar, vê-se o jogo de empurra-empurra do ideal e da cobrança, mediante a qual, ninguém está à altura do seu papel, nem de pai, nem de filho.
Constatamos o deslocamento de exigências que outrora eram atribuídas ao pai para um lugar maior. Boa metáfora para entender esse movimento, pode ser encontrada em um dos episódios do filme Contos de Nova York, de 1989, dirigido por Woody Allen. Essa história trata de um homem que tinha uma mãe tão opressiva, que não o deixava viver. Certo dia, para sua felicidade, ela magicamente some de sua vida. Porém, após um breve alívio, ela reaparece, só que agora ela já não é mais de carne e osso: a mãe transformou-se em uma entidade gigantesca que paira sobre o céu da cidade demandando as mesmas coisas que antes, mas agora é imensa, onipresente e pior, tece seus comentários inadequados em alto e bom som, em pleno firmamento de Nova York, constrangendo o pobre filho acuado frente a todos. Com o pai aconteceu algo análogo: desbancamos o pai que fumava cachimbo na sala, a encarnação do poder doméstico, mas ele reapareceu em todos os lugares exigindo o máximo de nosso desempenho, a eficiência das nossas condutas e o alinhamento militar de nossos corpos.
Não é somente sobre o filho que pesa essa difusa e onipresente exigência de performance, o pai também vive sob sua opressão. Ela se exerce sob a forma da comparação com uma figura paterna improvável: um pai próximo, dedicado à família, priorizando-a sobre todas as coisas, mas que ao mesmo tempo angariasse grande reconhecimento público. Esse pai tem que impor respeito sem ser autoritário, e ainda ser respeitável como um adulto, mas colocar-se próximo do filho como se fosse um amigo, em suma, um verdadeiro homem elástico.
São frequentes os filmes, em geral comédias infanto-juvenis, nos quais um medíocre marido e pai de família tem uma personalidade secreta, na qual é um incrível espião ou super-herói. Essas duas personalidades, a doméstica de pai próximo e abnegado, e a pública, de aventureiro, corajoso e bem-sucedido, são obviamente incompatíveis, por isso se alternam; quando uma aparece ofusca a outra. No entanto, espera-se que cada pai as unifique, e cada homem exige isso de si mesmo ao tornar-se pai. Não surpreende que frente a tal desafio a maior parte dos homens sinta-se aquém, ou, na pior das hipóteses, até desista.
Não bastasse a derrocada de qualquer idealização possível da condição humana, um novo desafio nos espera. Outrora, a dissociação entre a vida privada e a pública produziu muitos descaminhos, muita hipocrisia, mas também algumas facilidades. As mulheres presas entre lençóis, fogões e fofocas podiam até almejar e fantasiar com aventuras no mundo lá fora, mas não precisavam enfrentá-lo. Já os homens podiam ser como um rei em seu lar e tratar a esposa e os filhos como súditos, sem precisar explicar-se pelo que faziam lá fora, enquanto trabalhadores e cidadãos. Além disso, no mundo externo ninguém estava interessado em saber se um homem era bom pai e marido compreensivo, se no lar comportava-se de modo democrático e sensível. Hoje, o pai é, ou deveria ser, reflexo do cidadão e vice-versa. De certa forma, é uma queda das máscaras. Apesar de adorarmos dizer que habitamos um mundo de aparências, acreditamos que não é bem assim. Claro que vivemos para parecer algo, mas hoje não serve o enchimento do paletó, é preciso que o homem tenha músculos por baixo. Quanto à mulher, que podia restringir-se a ser mãe e imaginar-se executiva, intelectual, artista, cientista, e isso não passava de um sonho impossível, hoje tem como desafio a possibilidade de realizar essas fantasias. Frente a isso, passa a pensar que se quiser valer algo dentro de sua família terá também ela que chegar em casa carregando seus louros.
Para os criadores dos Simpsons não há muitas saídas: as inquietudes devem ser afastadas ou abafadas com algum tipo de anestesia mental. Os adultos dessas histórias abusam desses recursos. Há um alinhamento nas posições de pais e filhos, que se comportam como se pudessem ignorar tamanhas e inclementes exigências sociais de performances de sucesso. Comportando-se como a raposa da fábula, que despreza as uvas que não consegue pegar, as diferentes gerações tentam alinhar-se em um posicionamento hedonista, infantil e alienado, como se fosse possível ignorar os rumos que estão sendo tomados pelo mundo em que vivemos e nosso papel nessa condução.
Homer é o mesmo medíocre como pai e como cidadão: tenta ser o mais omisso possível e quando sua intervenção é inevitável, procura livrar-se imediatamente dessa demanda insuportável. A conduta de Lisa, cidadã consciente e crítica, capaz de dedicar-se a uma tarefa de transformação na qual ela acredite, é justamente o contraponto com essa paixão pela alienação de seus pais, do irmão e dos habitantes de Springfield. Por outro lado, essa omissão dos pais e cidadãos por vezes é uma forma de defesa a uma vida pública opressiva, que deixa quase nenhum espaço para a privacidade, que abomina a solidão e confunde reflexão com depressão e timidez. Impossível ter saudade do pai patrão, das casas que pareciam reformatórios, porém, os adultos que precisam tornar-se e manter-se pais parecem ter colado na testa uma mensagem jocosa que pode ser vista em alguns carros: “não me siga, também estou perdido”. Enquanto isso, nas imagens e textos midiáticos, como um firmamento virtual, alguém recita instruções precisas sobre o que se deve ser e parecer, como uma voz paterna. Talvez se trate do grande irmão, diria Orwell.

TODA FAMÍLIA É UMA ILHA (trechos do Capítulo II do livro “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia)

Em tempos de bem vinda ressurreição do saudoso (para estes autores) seriado “Perdidos no Espaço”, disponibilizamos um trecho do livro “Psicanálise na Terra do Nunca” (Ed. Artmed, 2010) escritos sobre ele. Porque sentimo-nos náufragos, toda família sonha ser uma ilha.

Na intimidade de um casal, ao longo de uma relação, ocorrem inúmeros e mutantes sentimentos de amor e ódio, indiferença e abnegação, tanto entre eles quanto em relação aos filhos que compartilham. Os filhos, por sua vez, também amam e odeiam àqueles que foram tudo para eles no início da vida, resultando em uma pesada carga de sentimentos tão ambíguos quanto fortes. Por isso a família contemporânea é dramática, intensa e complexa, como toda relação baseada no amor.
O hábito de fantasiar com a família que gostaríamos de ter tido, serve também para acusar a nossa pelas insuficiências que possui. É dessa fonte que bebem uma série de fantasias nostálgicas, onde são retratadas famílias de épocas passadas, nas quais encontramos toda a harmonia de que a realidade nos privaria. Provavelmente a crise e a queixa sobre a família é um fenômeno tão antigo quanto a própria família nuclear.
Fenômenos típicos dessa ficção nostálgica são duas famílias isoladas, ilhadas frente a um meio hostil, ambas inspiradas no relato do náufrago Robinson Crusoe (escrito por Daniel Defoe, em1719): são os Robinson Suíços, de um livro de Johan David Wyss, em 1812, e uma família de Robinson futuristas, do seriado americano Perdidos no Espaço, de 1965. Ambas as famílias reproduzem o isolamento e a luta do pioneiro de Defoe, abandonado pela civilização, administrando seus destroços e conhecimentos com perseverança e sabedoria. Na verdade, analisaremos neste ensaio histórias de três famílias ficcionais, a terceira é de um seriado americano muito popular na década de 1970, chamado Os Waltons, cujos episódios variam em torno da vida cotidiana de uma família interiorana da década de 1930. Embora esta jamais tenha se autointitulado uma família “Robinson”, como no caso das anteriores, consideramos que pode ser uma espécie de elo encontrado entre aquelas histórias de náufragos, factualmente isolados e a família nuclear contemporânea. A família dos Waltons era integrada na comunidade, mas fechada enquanto núcleo de resistência afetiva. Essas histórias são fantasias que se alimentam da nossa relação queixosa com a família possível, aquela que realmente constituímos e nos constituiu.

I – A Família Robinson: Robinsons Suiços

Relato de um Náufrago: o primeiro Robinson

A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoe, de York, marinheiro: que viveu vinte e oito anos totalmente só em uma ilha não habitada na costa da América, próximo à embocadura do grande rio Orenoco; e que foi lançado à praia em virtude de um naufrágio, em que todos os homens pereceram exceto ele mesmo. Seguido de um relato sobre como ao final foi estranhamente libertado por piratas. Escrito por ele mesmo. Foi com esse longo nome de batismo que a história de Robinson Crusoe chegou ao público, abrindo novos caminhos para a literatura.
O romance de Daniel Defoe relata em detalhes obsessivos, que ele assegura terem sido extraídos da vida real, a sobrevivência prática do náufrago: como construiu sua moradia, o que ele comia, seu sistema de defesa, caçadas, problemas de saúde, religiosidade. A aventura mesmo, as viradas na história, ficam congeladas por décadas, pois o primeiro evento empolgante é o surgimento de Sexta-feira, companheiro tardio de desventuras. O resgate não chega e tudo depende do protagonista, que sequer é verdadeiramente heroico, pois sua força não lhe traz outra glória além da oportunidade de sobreviver.
A novidade literária de Defoe foi elevar a perseverança humana à condição de destino heroico, assim como de considerar relevantes para o leitor as miudezas e mazelas da vida cotidiana. Crusoe narrou o ato de comer, dormir, sua higiene e cuidados de saúde. Definitivamente, revelou-se possível fabricar um mito com material prosaico, uma história tão simples que conquistou inusitada popularidade e rivalizou com os relatos mágicos e fantásticos, cheios de atos de bravura, paixões ou traição, das narrativas míticas ou folclóricas até aquela data. O homem só e sua determinação conquistaram seu lugar na arte, como o náufrago fez com sua ilha, por isso Crusoe é considerado por certos autores como primeiro herói do romance moderno e do individualismo.
Tenhamos ou não frequentado as páginas de Defoe, todos conhecemos essa história. Ela provavelmente se confunde com todas suas versões e a obra dilui-se em corruptelas, citações e adaptações infanto-juvenis. Hoje não é improvável que a narrativa de Defoe se misture com imagem de Tom Hanks e sua bola de basquete, na versão cinematográfica de Náufrago. Histórias oportunas sempre se afastam de sua versão original e geram uma rede imaginária que as amplia e esparge.

A família Stark

Um século depois, Johann David Wyss, um pastor suíço, criou uma história para distrair e instruir seus quatro filhos. Era uma adaptação da história de Crusoe, na qual uma família assumia o papel do náufrago. Fora essa modificação, o relato dos Robinson Suíços repete a fórmula da personagem de Defoe, na narrativa de cada detalhe da organização da vida na ilha. A história familiar foi tornada livro vários anos depois, quando um destes meninos, Johann Rudolf Wyss, já homem, concluiu e editou o manuscrito inacabado do pai. Dali em diante, vários tradutores foram ampliando e adaptando essa história para diversos públicos, incluindo uma versão cinematográfica dos estúdios Disney.
Esta história acabou sendo a soma de todas as suas versões, por isso convém tratá-la como um mito que se recria, adapta e transforma mantendo um núcleo comum, um cerne, uma essência que o torna reconhecível. A história da família suíça que naufraga em uma ilha tropical e de como eles se organizam para sobreviver, possui pouca ou nenhuma relevância em função de seu estilo literário, ao contrário da obra de Defoe, que lança a pedra fundamental de uma tendência ficcional. Considerado literatura infanto-juvenil, o texto é fraco, mesmo porque entre tantas versões ele quase se perde. Importante mesmo é a fórmula que inventa: a colocação de um grupo familiar restrito, composto apenas pelos pais e filhos, na condição de náufragos solitários, a vitória dessa família isolada do mundo sobre os revezes da natureza, ou seja, agora a família é a personagem principal. Se a partir da obra de Defoe podíamos pensar na metáfora de que todo homem é uma ilha, a partir do relato de Johann Wyss consideramos que toda família também o é.
Não se trata de um isolamento possível, mas sim fantasiado, como parte de um voto de autonomia, tão caro à sociedade que se desenvolveu a partir dos tempos modernos. Essa fantasia só tornou-se possível à medida que se rompeu com a univocidade com que a tradição fazia o homem: dificilmente, em tempos antigos ou medievais, alguém buscaria um destino que rompesse com seus antepassados ou transcendesse sua cultura de origem.
O ideal do self made man, que acredita ter vencido sozinho, apesar de suas origens, como se fosse possível partir de lugar nenhum, é uma marca do individualismo triunfante. Não há como negar: ilhar-se é impossível, todos temos ponto de origem, assim como nosso destino é ligado ao de todos. Porém, prezamos acima de tudo a fantasia de pensar-nos isolados, senhores de nossas escolhas, independentes de um meio que poderíamos domesticar para nosso uso, embora nos seja hostil.
O livro do filho do pastor Wyss é também um libelo pedagógico (em seus ideais, comparável a Emile, de 1762, de Rousseau), é o relato ficcional de uma experiência de formação. O naufrágio retira as crianças do contexto social e as coloca em contato com a natureza e as exigências de lidar com os desafios práticos de uma vida mais rudimentar. Orientadas pela figura de um pai-tutor compreensivo e culto, elas poderão desenvolver suas capacidades naturais, longe das deformações da sociedade e suas dubiedades morais. O isolamento da família, assim como a forte presença das reflexões teológico-pedagógicas do pai, oportunizam o diálogo entre o pupilo que desabrocha e a figura paterna que o auxilia a elaborar experiências, transformando-as em lições.
A experiência da paternidade é uma gestão cada vez mais socialmente controlada: partindo do poder quase absoluto que já teve, onde a autoridade paterna podia equivaler à lei em diversas situações, encaminhamo-nos para a realidade contemporânea, na qual não somente o pai precisa de reconhecimento legal para sê-lo, como ainda é vigiado pelo estado, pelos profissionais de saúde e educação, assim como criticado pelas mulheres. Nesse contexto, o sonho do pastor Wyss, de um pai livre dessa pressão social para incumbir-se da condução dos filhos, não soa estranho. Embora datado do início do Século XIX, trata-se de um pai contemporâneo, pois se ocupa pessoalmente da educação dos filhos, enquanto retém a liberdade do pai do passado, já que a vigilância externa fica suprimida pelo isolamento dos náufragos. Essa é outra característica que serve de estímulo a essa fantasia de família insular: a volta da autonomia dos pais, hoje tão criticados e vigiados por todos.
Do livro original, com suas enfadonhas lições de otimismo protestante, como resultado de um lento e contínuo processo de transformação, os tradutores foram inclinando a história para um relato mais pragmático de aventuras, nas quais a ênfase acabou colocada no contraponto entre a adversidade do meio e a eficiência do grupo familiar para enfrentá-las. O enfoque original na força da fé e nos ensinamentos paternos foi dando lugar a outra aposta: na família enquanto grupo de referência e abrigo, equipe vencedora no combate contra a natureza selvagem. Versões posteriores incluíram até homens maus, como os piratas, cuja presença ameaçadora servia para realçar a integridade moral dos Stark (que era o nome de família dos Robinson Suíços).
A liberdade tomada por múltiplos tradutores, adaptadores e diretores de cinema para transformar essa história ao seu bel prazer é surpreendente. É isso o que empresta a essa trama a característica de fantasia compartilhada, espécie de mito contemporâneo, flexível para ser reescrito de diversas formas. Cabe-nos detectar qual é o núcleo comum, a parte dessa trama que, a partir do relato do pastor Wyss, vai dando lugar às variações posteriores.
A família Stark é levada a emigrar para a Nova Zelândia, fugindo de complicações político-econômicas da Europa pós Revolução Francesa, ou conforme a versão para os Estados Unidos, em busca de uma herança. Ela é composta por Joe Stark, um pacato cidadão de Berna, sua esposa Elisabeth, uma mulher fabril e inteligente, e quatro filhos homens, meninos de boa índole, criativos, travessos, mas dóceis. Pouco ficamos sabendo sobre a vida que levavam na Suíça, dos outros passageiros ou tripulantes do barco naufragado, o foco é apenas na fé e na harmonia familiar. O resto do mundo sucumbe da mesma forma como a grande tempestade liquidou com os outros viajantes do navio.
Não acompanhamos maiores conflitos nem questionamentos dos membros da família Stark sobre a eminente transposição ao novo mundo, a respeito do qual deveriam certamente nutrir fantasias, ou mesmo saudades da Suíça perdida. Talvez algum comentário, uma breve inquietação, à qual logo se acrescenta imediatamente um rápido consolo e um momento de confraternização familiar agradável. Mais ainda, o convívio com uma ilha tropical, cuja natureza exuberante é capaz de impactar qualquer um, é rapidamente assimilado pela família. Surpreendentemente eles parecem saber identificar os alimentos e animais. Tudo o que encontram é facilmente classificado em comestível, cultivável ou utilizável para construir. Os animais são para caça, de criação ou domesticados. A família relaciona-se com a natureza de forma pragmática.
Os meninos, cheios de saúde e energia, até cometem algumas irreverências, preocupando pais e irmãos quando ousam partir em uma excursão arriscada e não previamente autorizada, mas a família jamais os repreende, pelo contrário, suas ousadias sempre redundam em algum tipo de descoberta que enriquece o grupo. É uma família tão boa que teria tudo para matar o leitor de tédio.
É intrigante como um relato construído a partir de personagens tão planos pode tornar-se um clássico. Mas o tédio não acontece e o livro seguiu fazendo carreira através da infância e puberdade de inúmeras gerações, sua história incorporou-se ao acervo comum das referências culturais. Esse sucesso decorre do acerto da fantasia, que apresenta sob forma de ficção todas as qualidades desse ideal, que se inaugura e consagra ao longo do Século XIX: o “casamento de companheirismo” fundador de uma família que funciona como uma “fortaleza emocional”.
É importante lembrar que algumas coisas que parecem óbvias para nosso tempo eram impensáveis em épocas não tão remotas. Por exemplo, supor que o casal possa ter uma relação fraterna e que a formação moral dos novos cristãos esteja aos cuidados de uma dupla de leigos, um dos quais é uma mulher. Mais difícil ainda é conceber que essa esposa seja instruída e conselheira nos assuntos mundanos que preocupam seu marido. Seria inacreditável que ele admitisse publicamente essa influência feminina e ainda que encontre na família apoio emocional em momentos de fraqueza, que eles sejam do conhecimento da esposa e filhos, chegando ao ponto de supor que haja amor e até desejo em relação à mulher oficial, mãe dos herdeiros. Em termos de vida doméstica essas novidades não possuem nem 200 anos.
Essa forma de organização familiar caracteriza-se pela educação das crianças por uma mãe instruída, capaz de prepará-las para representar a família em um mundo cada vez mais competitivo. A esposa do Século XIX já se beneficia com a incorporação das conquistas das primeiras feministas, mesmo que nunca tivesse ouvido falar das ideias delas, ou até discordasse radicalmente. A posição das mulheres se valorizou graças aos debates e reivindicações de igualdade, liberdade e fraternidade da Revolução Francesa aplicados também à desigualdade entre os sexos, conduzidos por visionárias como Olympe de Gouges e Mary Wollstonecraft .
A luta feminista foi absorvida pela instituição familiar, ao invés de ajudar as mulheres a romper com ela, como se supunha que poderia ocorrer. Dentro do casamento, elas passaram a ter uma importância social maior, que se encontra muito bem retratada na dinâmica da família Stark. A voz de Elisabeth é sempre um exemplo de sabedoria e ponderação, é também dela que partem muitas das boas ideias que solucionarão os problemas do grupo, assim como exigências em termos de segurança e higiene, cuja importância sempre é confirmada. Como diria a historiadora Michelle Perrot, o feminismo age por uma sucessão de ondas, de tal forma que há os momentos de ruptura, cujas novidades, na sequência, são incorporadas na vida das pessoas comuns.

Freud, conflitos no lugar da ilusão

A família retratada por Wyss também ilustra o isolamento do núcleo composto apenas por pais e filhos, cada vez mais distanciado de avós, tios e primos. É a vitória do modelo de família nuclear sobre o da família extensiva. A psicanálise, inventada no final do século vivido pelos náufragos de Wyss, já toma como estabelecida a ideia de uma família centrada no cotidiano íntimo e cálido de pais e filhos convivendo como célula individualizada do contexto social.
Mas nem tudo é harmonia como quer Wyss; dentro desse caldo de cultura Freud constatou que germinavam as tramas amorosas, as neuroses e complexos que faziam sofrer seus participantes. Convém lembrar quão recente era esse núcleo diagnosticado por ele, quão rapidamente a harmonia proclamada pelos náufragos suíços revelou-se uma complicada rede de encontros e desentendimentos amorosos.
Pelo jeito, a família nuclear já nasceu complexa, talvez por isso a história de Wyss tenha feito tanto e duradouro sucesso, por propor uma família onde os vínculos amorosos e as identificações necessárias para crescer fluíam sem obstruções, problemas, ruídos ou sofrimentos. Afinal, cada nova família constituída baseia-se na esperança de que tudo vai dar certo, de que está se fundando um grupo capaz de enfrentar os piores contratempos, capaz de sobreviver por seus próprios meios, mesmo quando abandonado, esquecido e ameaçado pelo mundo externo. Esse grupo autossustentável, cujos membros só nutririam boa vontade uns com os outros, é o ideal de família de cada um de nós, é a intenção de cada casal que encomenda seu primeiro rebento, é o sonho de cada filho que se queixa dos seus pais, e destes quando criticam seus filhos.
Toda família gostaria de ser como os Stark, embora, na prática, pouco nos aproximamos disso. Essa foi a dolorosa descoberta da psicanálise quando encontrou no destino de Édipo, da tragédia escrita por Sófocles, uma boa metáfora para a família nuclear. A tragédia grega não reflete a vida real de família alguma, porém revela, como em um raio-X, o esqueleto das ligações amorosas e perigosas, que são tão inadmissíveis quanto fundamentais, principalmente os desejos incestuosos e letais que circulam entre pais e filhos.
Através de Édipo e Jocasta, nessa descrição psicanalítica de uma família literária cujo destino era a catástrofe, Freud realiza a antítese de Wyss, ao descrever o naufrágio dos vínculos. Após a psicanálise, passamos a ver a família de forma menos pueril: refletida também no aspecto insuportável do convívio, nos desejos proibidos e inadmissíveis que ele suscita, no necessário rompimento entre as gerações e nas previsíveis mágoas remanescentes da relação entre pais, filhos e irmãos. Crescer passa, a partir de então, a ser compreendido como parte da elaboração de uma complexa relação amorosa e uma ruidosa separação. Porém, mesmo que pareça complicado demais crescer, procriar e viver, ainda enfrentar os conflitos é a melhor solução. Evitá-los, permanecer “na ilha”, atrelado aos vínculos originais, tentando manter um idílio primitivo que na prática é ilusório, equivale a sofrer dolorosas consequências: sintomas neuróticos que encenam conflitos que tentamos manter afastados da consciência nos pregam peças, assim como as inibições para amar e trabalhar nos acometem; e isso nas melhores saídas, pois para os filhos que nunca crescem, que não constituem alguma autonomia psíquica e ou física, a vida pode ser bem hostil e impossível de ser enfrentada.
O relato das aventuras da família Stark tornou-se uma espécie de mito, que sintetiza a ilusão de uma família autossuficiente, encerrada sobre si mesma, isenta de conflitos, na qual os filhos jamais se afastam e ninguém nem nada chega para resgatá-los da prisão familiar. Assim é a família fantasiada pelos casais durante a gestação e relativamente preservada pelos pais de bebês ou de crianças muito pequenas. Nos primórdios da experiência parental, eles sabem ser o centro do mundo de seus bebês, fonte de todo o bem estar, causa de todos os problemas e até protagonistas dos conflitos que possam surgir.
De certa forma, ao colocar o amor incestuoso entre pais e filhos no coração dos complexos que expressam o conteúdo inconsciente, Freud realiza, nem que seja negativamente, esse sentimento dos pais de ser o centro, influência indelével, na vida dos filhos. Diz o ditado popular: “falem mal de mim, mas falem”, ressaltando essa necessidade de estar no centro das atenções a qualquer custo. O mesmo ocorre com os pais, quer seja como tutores geniais, guias espirituais ou dedicados cuidadores, quer seja como opressivos, descuidados ou incapazes de compreender os filhos, esperam que, por bem ou por mal, sejam centrais na vida dos filhos.
Versões contemporâneas dos Robinson Suíços já incluem a partida de alguns dos filhos, um pouco mais crescidos, assim como a formação de um casal entre o filho mais velho com uma jovem náufraga órfã, providencialmente encontrada em uma excursão pela ilha. A versão da tradutora suíça Isabelle de Montolieu para o francês praticamente reescreveu a obra. Ela inclui a necessidade de sucessão de gerações até entre os animais, pois os dois cães encontrados no barco originalmente eram machos, como os filhos dos Stark, e a partir dessa versão tornam-se um casal e têm filhotes. Dessa forma, essa história adapta-se enquanto fantasia coletiva, introduzindo algumas amenizações no confinamento dos Robinson Suíços. Mesmo refletindo a situação das famílias de crianças pequenas que inicialmente crescem restritas aos cuidados e referências dos pais, foi necessária para os leitores a garantia de que se tratava de uma família e não de um labirinto sem saída.

O pequeno reino da família nuclear

Chegada à ilha, a família Stark adaptou-se ao ambiente e transformou-o para seu uso, utilizando para isso todos os conhecimentos e instrumentos que traziam e puderam salvar dos destroços do navio. Foram por isso gratos a Deus, a quem atribuíam a dádiva da salvação, e à instrução que tiveram, que lhes permitia construir casas, pontes, barcos, armadilhas, reconhecer animais e plantas, saber criá-los e prepará-los como alimento. Eles traziam toda a bagagem que o velho mundo podia lhes dar: a fé, a ética e a formação, assim como alguns de seus objetos, mas utilizaram tudo isso para fundar um novo mundo, desbravaram e ocuparam a ilha, construíram sua cidade particular como os colonos que fundaram a América, mas, diferente deles, ao invés de fundar uma nação, usufruíam da supressão de qualquer vínculo social. Como Crusoe, mais do que esperar dos outros humanos a salvação, estes representavam o perigo que materializou-se sob a forma dos piratas. Em algumas traduções-versões dessa história, o destino do navio naufragado que havia sido imaginado originalmente por Wyss como sendo a Austrália, tornou-se os Estados Unidos. Em ambos os casos, tratava-se de colônias, mas a América do Norte foi sonhada e fundada, mais do as outras, como um novo mundo.
A ideia dos pioneiros, fundadores de um novo mundo, é um modo de vida que funciona de forma absolutamente inversa à da sociedade europeia pré-iluminista, organizada através de sucessões hereditárias, com suas hierarquias rígidas e castas medievais. Nascer em uma posição era praticamente um destino, morrer-se-ia nela. Após a era das revoluções (a Industrial e a Francesa), cada ser humano pode tentar constituir sua fortuna, seu pensamento, seu modo de vida, enfim, seu próprio reino particular. A reprodução, antigamente destinada a manter, preservar, dar continuidade a uma tradição, um patrimônio, passa a dar origem a um voto de refundação. Cada nova família carrega em si o sonho de fundar algo novo, sua pequena dinastia, nem que ela dure apenas uma geração, até que o sonho de cada um de seus filhos a suplante. A ilha da família Stark engloba o reino de uma só família.
Hoje ainda nos debatemos com a fantasia em que cada núcleo familiar pode e deve constituir-se em um pequeno reino de curta duração. As histórias folclóricas de reis e rainhas, que refletiam uma nobreza que ainda existia nos tempos em que elas se transmitiam por relato oral, passaram a ser dedicadas às crianças e deram lugar a uma identificação imediata destas com os príncipes e princesas, dos pais com os monarcas e de sua casa com o castelo real.
Tal expectativa de constituir um reino autônomo e de ocupar posição tão poderosa e elevada só serve para frustrar os pais, que no máximo possuem alguns aspectos da sua personalidade ou feitos da sua vida que são apreciados pelos filhos, graças aos quais ocupam um lugar de identificação para eles. Frustração também para estes últimos, que jamais herdam grande coisa, fora cálidas lembranças de infância e algumas lições de vida, quando muito. Nada que se pareça a um reino ou um título de nobreza.
A fantasia chamada por Freud de Romance familiar do neurótico lida justamente com essa distância entre o tanto que se espera e o pouco que se consegue na relação entre pais e filhos. Nela, temos um devaneio no qual imaginamos que na verdade somos filhos adotivos daqueles que sempre consideramos como nossos pais. Para nosso grande alívio, fantasiamos que descobrimos que na verdade seríamos herdeiros de gente de melhor estirpe, que apareceria para nos resgatar do contexto medíocre que a vida nos reservou. Para não dizer que essa é uma fantasia fora de moda, é justamente a base do milionário sucesso de Harry Potter, o qual no fim de uma infância miserável descobre ser famoso, pertencente a uma importante linhagem de bruxos, rico e pode distanciar-se da vida simplória dos parentes entre os quais cresceu.
Hoje, a prática mais disseminada das adoções, principalmente as internacionais, nas quais famílias de lugares mais prósperos resgatam crianças dos diversos infernos que a humanidade mantém sobre a terra, provavelmente está transformando essa fantasia. Se Freud reescrevesse seu texto e atualizasse essa fantasia, provavelmente a família idealizada viria sob a forma do desejo de que alguma celebridade tivesse retirado do ostracismo o filho queixoso da família que lhe tocou. Nossa nobreza agora é outra, formada por ídolos pop, mas, independente dessa mudança aparente, as famílias continuam parecendo pequenas para abrigar os sonhos de grandeza e sucesso dos indivíduos contemporâneos.

Patriarca diplomático

Nossa família ideal é liderada por um pai não mais despótico, agora ele é um diplomata. Esse pai ideal entra no Século XXI como um companheiro exemplar, cujos atributos devem incluir paciência, sensibilidade, senso de justiça, enfim, quase um monge, tão perfeito e equilibrado que não parece humano. Ele mostra-se capaz de administrar a tendência à super-proteção materna, compreende que seus rebentos são frágeis e precisam sentir-se seguros, mas ajuda a mulher a ter força para empurrá-los para fora do ninho quando precisam aprender a voar. Ele também se angustia, como a mãe, mas transmite segurança, impõe limites, é o mediador entre o colo materno e o mundo externo.
Esse pai confia pouco na força dos seus próprios ensinamentos, já que os recebeu de sua família de origem, e sabe que foram insuficientes. Frente a um mundo que vive mudanças vertiginosas na tecnologia e nos costumes, ele acredita que os parâmetros, conhecimentos e experiências de uma geração não servem tão bem assim para a seguinte. Por isso não raro sente-se incapaz para a paternidade, assim como sente medo pela incapacidade dos filhos de se sobrepor aos riscos da vida e não sabe muito bem como ajudá-los a crescer.
Essas incertezas são superadas através de uma renovada confiança nos vínculos, na riqueza das crianças, sempre consideradas inteligentíssimas pelos seus pais. Graças a esses incríveis dons que atribuem aos filhos, aliado à pouca estima das capacidades e pensamento dos pais, conclui-se que caberia aos adultos mais pastorear do que inculcar ou reprimir, como acreditava-se anteriormente. O pai não dá mais sermões, ele explica, quase suplica que levem em conta suas opiniões. Quanto menos seguros para criar seus filhos as famílias se sentem, mais elas apostam na própria criança, na sua suposta boa natureza e em intenções e projetos pedagógicos que possam administrar esses potenciais. A educação familiar vai tornando-se cada vez mais nivelada e socrática.
De certa forma, esse era o ideal já apontado pelos Robinson Suíços, por isso eles representaram uma fantasia que acompanhou as crianças e jovens dos séculos seguintes. Por mais que a história seja pueril na forma, ela acertou no conteúdo: o retrato dessa nova família era adequado. Os casais que tentam formar suas famílias tendem a essa fórmula, pois, o mundo lá fora, seja uma sociedade capitalista competitiva ou uma ilha tropical, é visto como um meio hostil a ser conquistado e dominado pelo grupo, para tanto, nada como uma boa equipe familiar.

Readmitidos no paraíso

Adão e Eva, os pais primordiais, foram banidos do paraíso quando expressaram seu descontentamento com os horizontes oferecidos pelo senhor. A família Stark faz o movimento contrário, do grande mundo passam ao reduzido e solitário espaço de uma ilha desabitada. Ao invés de voltar-se para a possibilidade do resgate, de tentar construir algum meio que os transportasse de volta à civilização da qual se perderam, eles investem toda sua energia na construção de espaços para a adaptação mútua entre a família e o ambiente.
Entre todas essas versões, permanece comum e sempre presente a resignação religiosa e bem-humorada dos membros da família, que jamais se revoltam contra o destino, quando sonham é com coisas que a ilha oferece, como uma casa na árvore, pérolas ou aventuras no local. As saudades do mundo perdido praticamente não lhes assombram a alma, apenas como temores a serem reconfortados com fé e aconchego familiar. Parece que Adão e Eva se acomodaram no paraíso e que o inferno ficou para trás.
Quando constataram que o naufrágio era inevitável, os marinheiros conclamaram a tripulação e passageiros aos botes, gritando “estamos perdidos”. Os membros da família Robinson estavam de fato perdidos do resto, em parte pelas ondas que jogavam o pai, que saíra para verificar o que se passava, de um lado para o outro, em parte porque os outros estavam isolados na cabine rezando. Perdidos da própria tripulação, mas encontrados entre si, em família, os Stark tornaram-se os náufragos escolhidos pelo Senhor para sobreviver. Ao contrário do resto das pessoas do navio que embarcaram nos botes e foram engolidas pela tempestade, eles encontraram a paz daquele que reza e espera a salvação.
Eles acreditaram que Deus ouviu suas preces, tal qual o fez ao escolher Noé. Só que na história bíblica, Noé foi designado para uma refundação, uma purificação dos homens cuja má índole tornou necessária uma seleção divina. No caso de Noé é também uma família, núcleo fundador do novo rebanho do Senhor. Os outros sucumbem nas águas, mas a família escolhida se salva e recomeça o trabalho de domesticação da natureza. Já os Stark salvam-se, mas sua missão não transcende os horizontes da própria família, ilhada em seus objetivos particulares de sobrevivência. Enquanto Noé e os seus significam um princípio, uma confiança retirada da mão dos homens corruptos e recolocada em uma família de justos, na nossa história não há transcendências nem utopias: os objetivos são pessoais, restritos ao usufruto grupal.
Em relação aos recursos naturais da ilha tropical, os Robinson não cessam de se surpreender e de festejar cada descoberta de um novo animal ou alimento, dos quais se servem com a tranquilidade dos protegidos do Senhor. A família enfim torna-se obediente, satisfeita com os recursos da ilha, nomeando criaturas e lugares do dadivoso paraíso insular. Por isso, quando o resgate por fim chega, somente querem partir alguns dos filhos mais velhos, pois os pais e as crianças não concebem lugar melhor do que esse. Por serem todos crentes, construtivos e essencialmente bons, os Robinson Suíços possuíam um forte aliado no céu. Mesmo que a ilha apresentasse alguns desafios e hostilidades, nenhum deles morre ou se machuca, há somente alguns sustos e o alívio posterior.
A autoria proveniente de um pastor protestante, assim como a época revoltosa do mundo em que foi concebida, tornam essa história boa representante do reflexo na vida privada das novas liberdades conquistadas na vida pública. As turbulências políticas demoveram qualquer certeza de que o ponto de origem de alguém selasse seu destino, pois quem nasceu para soberano havia sido decapitado por aqueles cuja função seria servi-lo eternamente, valendo o contrário, quando um imperador podia fazer-se do nada. Nesse mesmo espírito de abalo das estruturas, ocorreu que a fé, face às dissidências luteranas que corroeram o império católico, mudou-se das catedrais para os ritos despojados, ficando Deus ao alcance dos homens comuns e as virtudes do trabalho acabaram ocupando o lugar no altar que outrora era dos bem-nascidos.
A partir da era das revoluções, o poder passou a resultar de uma complicada conjuntura política e econômica, diferente das disputas e alianças entre nobres, assim como o lugar no céu já não estava tão fácil de comprar com oferendas econômicas ou de favores aos sacerdotes de plantão. A fé, pós-protestantismo, passa a ser o resultado de um acordo pessoal, que ocorre na consciência de cada um, entre seus desejos, atos e crenças; a vida eterna, portanto, é o fruto dessa negociação.
O próprio livro de Defoe, escrito no início da revolução industrial, situa-se no sentido contrário das relações de produção que ali nasciam e se consagrariam nos séculos seguintes. A vida atarefada e o ambiente estruturado no qual Robinson Crusoe planta, caça, estoca e organiza o fruto de seus esforços é o oposto do trabalho alienado e fragmentado da linha de produção industrial. Crusoe se regozija com todas as fases da produção de seus bens e alimentos, possui os instrumentos, as terras e armazena os produtos resultantes desse sistema que ele controla em todas suas etapas.
O mundo de Crusoe na ilha reflete uma realidade econômica idealizada, justamente porque está em extinção. Como sempre que algo se torna uma história a ser contada é porque já é passado, ou ainda é futuro, pois as fantasias ilustram melhor os sonhos do que a realidade. Mesmo quando somos realistas em nossos relatos, não é a realidade que retratamos na ficção, não é a veracidade dos fatos, mas sim a de nossos desejos, principalmente os que nos são mais inadmissíveis e incompreendidos, que aparecerá retratada. Fantasiar é uma forma de pensar o que ainda não se compreendeu.
Embora seja um escrito aparentemente pouco fantasioso em seu estilo, quase um relatório minucioso da rotina de sobrevivência do náufrago, é sobre uma relação já perdida com o produto de seu trabalho que Defoe escreve, o universo de Crusoe é pura fantasia, um sonho literário. O mesmo se aplica à família, que antes dos ideais iluministas que trocaram tudo de lugar, tendia a viver restrita a um espaço geográfico, fabricando os produtos para atender suas necessidades, unida em torno de um destino comum, por mais miserável que ele fosse. Nesse sentido, a história dos Robinson Suíços embora quase centenária é também nostálgica.
O pastor Wyss encabeça um núcleo que bem serve às famílias contemporâneas, representando as fantasias compensatórias à dissolução e ao desencontro que o regime de trabalho exigente e a pressa em que se vive lhes impõem. Uma família é hoje um grupo mantido unido também através da exaltação do ideal familiar, da idealização dessa missão e da resistência à realidade que já era tão mutante no Século XIX. Desde então, cada família que se cria e mantém, o faz em contraposição à realidade externa, que separa seus membros, os afasta do convívio comum, os leva a trabalhar em processos alienantes. Uma criança hoje não somente passa o dia longe de seus pais, como também tampouco saberia dizer exatamente onde eles estão, nem o que estão fazendo.
Quanto mais nossa vida real for distante da ilha onde a família vive e produz unida, mais essa história sobrevive como um conto de fadas: “era uma vez” um grupo familiar onde todos viviam sempre juntos, em harmonia entre si e com a natureza em seu redor. Os Robinson Suíços vencem as adversidades do naufrágio, provando a suficiência do grupo familiar, assim como a necessidade, agora subjetiva, de afastamento de influências e tentações que fizessem qualquer um de seus membros diferenciarem-se do resto, que o levassem a sonhar além dos paradigmas conhecidos pelos progenitores. Quanto mais frágil é a realidade da família, mais exigiremos do mito, quanto mais pobre a realidade, mais a fantasia será convocada e necessariamente será suntuosa.

II – Ilhados no cosmos: Perdidos nos espaço

Em 1965 é a vez de outra família Robinson naufragar. Desta vez trata-se de uma série de televisão e a família é de norte-americanos que estão Perdidos no Espaço (Lost in Space, de Irwin Allen, chegou a ter 83 episódios). Trata-se de uma missão americana de colonização de um planeta na constelação de Alfa Centauro, ambientada em um futuro que naquela época parecia longínquo: 1997. Conforme a projeção dos anos de 60, não havia muitas dúvidas de que no final do Século XX vestiríamos malhas prateadas e habitaríamos casas servidas por robôs, em um ambiente que agradaria aos Jetsons . Além disso, dominaríamos as viagens espaciais tripuladas, e com isso resolveríamos nosso problema de superpopulação colonizando o universo.
O casal John e Maureen Robinson parte nessa jornada, acompanhado das filhas Judy, Penny e do caçula Will, menino de uns 10 anos, cuja curiosidade e travessuras propiciam as tramas de muitos episódios. Com eles viaja também um piloto, Don West, rapaz charmoso, destinado a namorar a loirinha Judy. Mas a fonte de toda a confusão, que transforma uma missão de colonização em um naufrágio, repousa em uma personagem nada familiar: um espião, provavelmente russo…
O culpado era Zachary Smith, ou Doutor Smith, como ficou conhecido, protagonizado por Jonathan Harris. Esse vilão saído da guerra fria embarca sorrateiramente com o objetivo de sabotar a missão, reprogramando o robô para destruir a nave, saindo antes da partida. Tudo dá errado: o robô entra em pane e a decolagem acaba ocorrendo com Smith a bordo. Todos esses contratempos provocam o descontrole da nave, que sai da rota prevista e passa a navegar à deriva no espaço sideral.
Na maior parte dos episódios eles encontram-se ilhados em um ou outro planeta, todos inóspitos, envolvidos na tarefa de reparar a nave e sobreviver. Ou ainda navegam perdidos no espaço, na tentativa de voltar à missão original. Não há dúvidas neste seriado quanto à existência de vida lá fora: o espaço sideral possui inúmeros habitantes bizarros, a maior parte deles humanóides, dotados de poderes, tecnologias e índoles quase sempre malignas. Na melhor das hipóteses, o extraterrestre será apenas estranho e a confusão se gerará a partir de um mal-entendido, mas neste e em outros casos, não há dúvida das constantes más intenções do Dr. Smith.
A ilha da família suíça era abençoada por Deus, mas após duas guerras mundiais, bombas nucleares e milhões de mortos que incluem os horrores do holocausto, já não é mais possível tanto otimismo. O universo onde navegam os Robinson americanos é perigoso, quando lhes fornece provisões é a contragosto, e os encontros com outras criaturas raramente são amistosos. Por outro lado, apesar do ambiente externo hostil, seria impensável nessa trama que os problemas tivessem origem endógena. A família para esses astronautas é sinônima de abrigo, o encrenqueiro é um estrangeiro, pois o elemento que rompe a harmonia deve vir de fora.
A nave, que poderia ser sua ilha segura, vive estragando e descontrolando-se, é um frágil barquinho a mercê em um mar furioso. Mas esses são riscos com os quais os tripulantes a bordo estão prontos para lidar. Já as sabotagens provenientes das armações do Dr. Smith, sempre tramando contra seus companheiros de viagem em troca de tesouros, ou da promessa de transporte de volta à terra, envolvem perigos maiores, situações que ameaçam a integridade de todos e da nave. Seu companheiro de confusões, que escapa ao controle dos adultos, é o menino Will e em segundo plano sua irmã Penny. Juntos, o espião sabotador e o menino curioso e aventureiro fragilizam a segurança da família.
Os filhos dos Robinsons Suíços também davam suas escapadas, excursionavam por lugares proibidos, passavam a noite fora, causavam preocupação a seus pais. Jovens e crianças são assim mesmo: cheios de iniciativas e inconscientes dos riscos que correm. Porém, na história dos náufragos do Século XIX, a força da figura paterna e da onipresença divina era tão grande, que as travessuras dos garotos somente acarretavam preocupação, no máximo uma noite maldormida, e eram em geral coroadas por alguma novidade que beneficiava a família. Por mais ameaçadora que fosse a situação, o leitor sente-se partilhando com o pastor que escreveu a obra a confiança na proteção divina. Todos os contratempos naquela história, mesmo os originários do indomável espírito aventureiro dos jovens, acabavam somando para a família em bens, conhecimento do lugar ou experiência. Na ilha dos náufragos suíços, tudo termina em um belo jantar, onde a Sra. Stark preparava pratos exóticos com as iguarias da ilha.
O mesmo ocorre com Will e Penny. A menina é uma personagem mais apagada, cujas travessuras são provocadas principalmente devido à compaixão e sensibilidade femininas, aliadas à sua ingenuidade. Vê-se bem que na década de 1960 as meninas não tinham um lobby tão forte. Hoje seria impensável que não houvesse uma aventureira menina, tão ou mais ousada e inteligente que seu irmão. As travessuras de Will são perigosas, mas como as dos rapazes suíços, não poucas vezes resultam em descobertas importantes para o grupo. O que surpreende em ambas as famílias é sua capacidade de neutralizar qualquer fonte de conflito: tudo é compreensível, não há lugar para mágoas nem desconfianças, jamais pensam mal uns dos outros. Às vezes até parece que a subjetividade do robô seria mais sofisticada que a dos humanos.
Para nossa sorte, a família possui um inimigo a bordo: Dr. Smith, o espião astuto, mas trapalhão, um peso morto, que não partilha da faina diária de manutenção da nave, da subsistência e busca de rumo. Enquanto a família e o major viviam de forma parecida com os suíços na ilha, trabalhando e inventando soluções e melhorias para o grupo, Dr. Smith é um preguiçoso, um inútil, egoísta e desleal.
Esse tipo de inimigo é consonante com o clima paranoico, próprio da guerra fria, no qual a prosperidade americana pós-guerra se desenvolveu. A família suíça se fecha em uma experiência de autossuficiência do grupo, que unido na sua fé compartilhada, em um ambiente fabril e de mútua colaboração poderia vencer a natureza indomada. Por sua vez, os Robinsons americanos se deixam envolver pela fantasia de pertencer a um grupo ideal, em oposição a um inimigo externo bem delineado que para seu país eram os comunistas. Dificilmente um sistema de crenças mantém-se sem situar um opositor bem visível. Neste caso, trata-se de um contraponto ao american way of life, cujo oponente encarnado por uma personagem tão detestável como Dr. Smith, certamente tornaria a visão de mundo dos náufragos americanos muito mais atraente. O problema do homem, a origem do naufrágio, são agora os “homens maus” do outro lado da cortina de ferro, os que pensam um mundo diferente. À natureza não cabe mais o papel nem de vilã, nem de provedora.
Os americanos perdidos no espaço constituíram o canto do cisne da harmonia familiar, os últimos Robinson. Depois deles houve outras tentativas, outros enredos envolvendo famílias tentaram mostrar a força do seu vínculo, porém já abrigavam dentro de si o conflito de gerações.
As crianças dos anos de 1960, contemporâneas à série, viviam rodeadas de recém criadas geringonças automáticas que facilitavam a vida cotidiana. Os carros espaçosos e coloridos consumiam litros de petróleo no ir e vir das famílias que prosperavam. A oferta de todo tipo de máquinas domésticas para cozinhar, triturar, encerar, lavar, limpar ou cortar grama, tornava o consumo a grande meta da vida cotidiana. A televisão, cada vez com mais canais, foi se constituindo em um membro da família, se não o mais importante, certamente o mais “ouvido”. Com a prosperidade industrial conquistada após a segunda guerra, descobertas científicas transformaram-se maciçamente em recursos tecnológicos voltados para o bem-estar dos mais favorecidos. Esse fascínio tecnológico encontra-se sintetizado na figura do robô, cuja presença protagonizava todos os episódios, opinando e derramando sabedoria “científica” como a televisão faz até hoje.

O filho e o traidor

A partir da segunda metade do século passado, as famílias sentiam-se inseguras para preparar seus filhos para um mundo que as fascinava e assustava. O mundo evolui demasiado rápido, os adultos “sucateiam” com a mesma velocidade das máquinas, cada geração torna-se rapidamente um modelo superado, inferior aos novos lançamentos, dotados de novos recursos: as crianças e os adolescentes. O menino Will é travesso, mas também é excepcionalmente inteligente e frequentemente pensa soluções criativas que salvam o grupo. Era com ele que os telespectadores se identificavam. As outras personagens parecem figurantes perto da riqueza da dupla de encrenqueiros, Will e Smith, que anima o programa.
O Doutor Smith é mais complexo do que a simples figura do traidor, pois ele é companheiro constante do menino, o único que realmente sabe onde ele está e no que está metido. Em geral, ambos são designados para cuidar da mesma tarefa ou mesmo vigiar um ao outro. Há inclusive episódios nos quais Smith revela uma particular sensibilidade para os anseios do menino: ele é o único que percebe quando Will passa por uma crise pré-adolescente e que dialoga com seus questionamentos. Seria difícil compreender semelhante modulação em um seriado de personagens tão simplórias, como bem cabe ao papel de mais uma estereotipada família de náufragos fabris e otimistas.
Provavelmente, Will e Smith são personagens mais próximas entre si e mais identificados um com o outro do que parece. Em termos de convívio, é fato que o menino passa mais tempo com o ardiloso trapaceiro do que com seus simpáticos familiares. O espião mais se assemelha a um avô meio maligno: ele é de fato mais velho, queixa-se de dores nas costas e cansa-se rapidamente. Por essa condição de velho, além de preguiçoso, não se ocupa da faina diária da família e fica disponível para a criança curiosa, que não se resigna a ficar encerrada dentro do acampamento familiar. Nas suas aventuras enfrenta perigos dos quais sua família não fica nem sabendo, ou só descobre quando a confusão já é grande.
O que faz do Dr. Smith um potencial companheiro de aventuras para Will é justamente sua posição externa e avessa à família. Ele é um velho, por isso pode ser ridículo e fraco, a personagem bufão colocada como oposto aos adultos mocinhos. Porém, por ser um traidor, torna-se uma figura ativa e encontra energias para buscar no mundo lá fora formas de satisfazer suas ambições de enriquecer e voltar à terra. Cheia de possibilidades, a figura de Smith mistura-se bem com a “traição” que o jovem precisa cometer para desejar além dos horizontes do quintal familiar.
Enquanto todos os adultos responsáveis estão envolvidos com as coisas necessárias da sobrevivência, Will, por ser criança, Penny, por ser uma jovem sensível, e Smith, por ser traidor, ocupam-se de desbravar os planetas em que sua nave pousa ou outras dimensões às quais são jogados. Graças a isso, podem conhecer alienígenas, encontrar máquinas e lugares surpreendentes e muitos monstros assustadores, além de piratas, donos de circo, mercadores, princesas, cavalheiros, inventores malucos e todo tipo de personagem que a imaginação possa invocar. Na maioria das vezes, os adultos são convocados na última hora para salvar a situação e reverter a confusão. Graças a isso, participam também das aventuras e ficam sabendo por onde andaram seus travessos rebentos. Na verdade, o fator de risco e emoção, a fonte da aventura, para esta família está colocado do lado de fora da sua missão de retorno e sobrevivência, reside na irresponsabilidade e ingenuidade das crianças, na ganância do velho traidor, no desconhecido a ser desbravado pelos membros não responsáveis do grupo.
Embora o seriado hoje pareça ridículo, com seus cenários de papel, seus risíveis monstros de látex e ritmo arrastado, a temática é extremamente contemporânea. A globalização e a agilidade das descobertas tecnológicas propiciam às crianças e aos jovens explorar um mundo que transcende totalmente a circunferência da nave familiar. Os pais estão muito ocupados em sobreviver e subsistir e facilmente tornam-se defasados. As crianças e os jovens, que poderiam ser considerados “traidores” como Smith e Will, abandonam, rompem e fazem com que os adultos sintam-se frágeis, desconectados e insuficientes para educá-los.
Mais do que alienígenas e viagens interplanetárias, hoje é a internet, que captura a atenção desses jovens traidores. A família nuclear, ninho idealizado, sede das fantasias românticas que se materializam em frustrações e queixas, tenta resistir, sobreviver, enquanto, em seu próprio seio, em uma inocente tela, o estrangeiro se materializa. Não há mais como prender aos mais jovens em uma rede de referências familiares, uma teia muito maior espera para capturá-los. Sempre se disse que os filhos não são dos pais, são do mundo, serão um dia abduzidos por ele. Hoje poderíamos dizer que eles já nascem em um mundo no qual os pais podem até reinar nos primórdios, mas em breve tornar-se-ão alienígenas. Sobra, incólume, a eterna fantasia da família insular, como uma miragem, um oásis virtual. Isso vale na hora de engajar-se na aventura de viver, é dali que vem os desafios, mas a família não resiste enquanto ideal à toa: ela ainda é um refúgio, um lugar último, o único que deveria nos receber nos momentos de fraqueza. Muitos grupos familiares passam longe dessas atribuições, neles seus membros em vez de acolherem somam-se às hostilidades que a vida já reserva para todos: não se cuidam quando doentes, não se consolam quando tristes, não se valorizam uns aos outros. Qualquer família, por mais dedicada que seja, deixará a desejar nesses itens, porque um ideal está aí justamente para empalidecer a realidade com seu brilho e a idealização da família surpreendentemente tem sobrevivido a todas as intempéries.

O insuportável do corpo feminino

Com quantos tabus não se faz um corpo feminino?

Por muitos séculos perdurou a ideia de um sexo único e a mulher seria um homem com órgãos sexuais internalizados, o que a tornava incompleta, inferior.
É espantoso o tempo que a ciência e a medicina demoraram para descobrir como funcionava a reprodução humana. As especulações sobre o ainda misterioso prazer sexual das mulheres e as teorias delirantes sobre o tema perduraram por séculos.
O corpo feminino está cercado de tabus; há muito nele que não se sabe e muito que não se quer saber. Por que? A psicanalista Diana Corso nos conduz a uma reflexão do que pode ser “o insuportável do corpo feminino”, programa da série: “A sexualidade como ela é” de curadoria de Fabricio Carpinejar.
Café filosófico CPFL
Publicado a 04/12/2016
para assistir, copie e cole este link:

https://www.youtube.com/watch?v=oHiLo8nTyT0&t=2s

25/11/17 |
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Novos pais, novos filhos

A reinvenção da parentalidade e da intimidade doméstica

Café Filosófico CPFL
Publicado a 13/04/2017

Acabou a era da estabilidade no casamento, casa-se com essa esperança, mas poucos estão dispostos a grandes sacrifícios para esse fim. A parentalidade e a intimidade doméstica precisaram ser reinventadas depois de retiradas dos clichês familiares nos quais repousavam. A força das famílias contemporâneas nasce de laços distantes da hierarquia e da tradição.

Desde as histórias tradicionais de crianças que se fizeram sozinhas como as garotas de ‘O Jardim secreto’ e ‘Matilda’, até o irreverente menino de ‘Onde vivem os monstros’, elas tiraram forças para seguir adiante a partir da capacidade de fantasiar e brincar. Entre esses recursos de criatividade e magia, o humor, que chegou até mesmo a transformar os clássicos contos de fadas, é a grande estrela, através da qual a autoridade parental é invocada e contestada ao mesmo tempo.

Neste Café Filosófico, os psicanalistas Diana Corso e Mário Corso discutem sobre os diversos tipos de pais e filhos da atualidade.
Copie e cole este link para acessar:

https://www.youtube.com/watch?v=XuH4i4Y3I-s

25/11/17 |
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Felicidade é? (palestra no TEDX Laçador, legendada)

https://www.youtube.com/watch?v=K-1_mhlEziM

https://www.youtube.com/watch?v=K-1_mhlEziM

22/08/17 |
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De volta para o futuro: que o futuro arrume o passado.

21 de outubro de 2015, a data fixada no filme de 1985 na máquina do tempo em que viajou Marty, para visitar o futuro, finalmente chegou. O que fizemos dela equivale ao que os pais fizeram de seus sonhos, sempre menos de que esperavam e do que os filhos gostariam que tivessem feito!

(trecho do livro Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, Diana Corso e Mário Corso, Artmed, 2010)

Um bom exemplo do que se espera da combinação do futuro, através da geração a nossa frente, com a ciência com suas promessas, pode ser verificado no filme De volta para o futuro (dirigido por Robert Zemeckis,1985). Marty é um garoto típico dos anos 80, que sofre ao ver sua família medíocre e decadente. Ele não possui a lucidez intelectual da pequena Lisa, mas como bom adolescente percebe que a mãe está infeliz e bebe além da conta, que o pai é um fracassado, que seus irmãos se encaminham para vidas igualmente estreitas. Ele não está nada conformado com esse destino, como os outros da família parecem estar.

Marty possui um amigo, um cientista que em sua comunidade é considerado doido, a quem ele visita regularmente. Dr. Brown trabalha numa máquina do tempo, que opera dentro de um automóvel, mas quem acaba fazendo a viagem é o garoto. Diferente do viajante do romance de ficção científica A Máquina do Tempo (H. G. Wells 1895), que se depara no futuro com horripilantes respostas sobre os destinos da humanidade, Marty viaja ao passado para fazer reparos na vida privada. Ele volta apenas trinta anos, tendo como data de chegada o ano em que seus pais eram jovens e se conheceram. Como qualquer filho, ele é curioso a respeito do ponto de origem de sua família, o encontro de seus pais. Na verdade ele quer saber como eles conseguiram tão pouco e, evidentemente, influenciar o passado para evitar o triste desenlace que é a realidade atual de sua família. Como costuma ocorrer nessas incursões, alterar o passado é muito perigoso, Marty ameaça o próprio nascimento, o qual, como sabemos, é sempre fruto de um acaso que, por qualquer alteração de milímetros dos fatos, poderia não ter acontecido. Novamente ajudado pelo cientista, ao qual ele volta ao passado para informar que seu experimento deu certo, o final acaba garantindo que seus pais se encontraram e casaram, mas o fracasso crônico do pai e a insatisfação da mãe foram revertidos. Marty volta para um futuro de pais realizados e irmãos bem sucedidos. Quem dispensaria uma oportunidade dessas?

Essa aventura pelo passado foi arriscada: em suas andanças pelo tempo, aquela que virá ser a sua mãe, apaixona-se por ele, e obviamente não é fácil repelir um amor assim. Provavelmente, esse evento passado revele mais sobre o seu presente: uma mãe insatisfeita pesa sobre um filho, afinal, se o pai não dá conta da satisfação dela, se a relação não a faz feliz, essa missão recai sobre a geração seguinte? A viagem no tempo busca uma solução para a família, mas também vai em causa própria: erguer um pai para que ele dê conta das demandas maternas.

Marty está na idade de ocupar-se dos próprios assuntos amorosos e as pendências dos pais pesam como nunca nesta fase. Para ter suas histórias de amor, um filho precisa dar as costas para esses vínculos infantis, que seus pais possam abrir mão de sua presença na casa, no meio do casal, no cotidiano, nos projetos futuros. O problema é que a juventude dos filhos inclui o olhar crítico deles que abala tanto o amor próprio dos progenitores. Aliado ao confronto da vitalidade juvenil com o início da decrepitude dos pais, forma-se um conjunto de sentimentos difíceis de administrar. Para os pais é uma época em que estão sendo mais questionados por filhos que já não os idealizam, e que, em função da idade em que se encontram, acabam fazendo algum balanço. Por isso, não raro, também é nessa ocasião que se produz uma separação do casal. Nem todo casal que constituiu uma família tem condições de resgatar ou criar um projeto a dois, principalmente se este se torna necessidade a partir de um abandono: da progressiva partida dos filhos, que outrora polarizavam e dominavam a existência dos pais. É quando um filho mais precisa que seus pais se ocupem um do outro, que sejam tão leves quanto possível, que em geral também ocorre a estes atravessar por crises pessoais que arrastam toda a família num redemoinho de insatisfações.

Marty não é um garoto genial, sua diferença dos outros é a inquietude, a inconformidade com a mediocridade dos seus, assim como a curiosidade que o levou à amizade com o inventor. Ele transcende seus contemporâneos, mas apenas por ser o melhor que um adolescente pode ser: capaz de olhar o estabelecido como se não precisasse ter sido do jeito que foi, nem ser para sempre assim. É a possibilidade e mesmo a compulsão para questionar, para criticar os adultos, pela necessidade de afastar-se e diferenciar-se deles, que faz dos adolescentes (pelo menos os mais interessantes entre eles) os portadores de alguma energia de transformação. Nesse caso, não deixa de ser uma forma de sabedoria, ele é o mais lúcido de sua família, e, portanto, o único capaz de modificá-la.

O cientista maluco é aquele que oferece os instrumentos para a finalidade desse jovem, ele equivaleria ao ajudante mágico tão comum nos contos de fadas, inclusive pela sua presença em outras etapas da jornada, tal como é comum nesse tipo de personagem. Na história de Marty, a viagem no tempo, um velho sonho da ficção científica, fica a serviço de objetivos reduzidos ao universo doméstico, pelo qual é possível visualizar os mecanismos dos votos que depositamos na união das promessas da juventude com as da ciência.

Em relação ao futuro, o horizonte do presente sempre se mostra estreito, pois o futuro é potencial irrestrito, nele cabem todos os sonhos. Viver uma vida é ir vendo reduzir-se o prazo do futuro que nos é reservado, cada década transcorrida é surrupiada de um tempo no qual não estaremos mais aqui para aproveitar e testemunhar. Já o passado, pode muito bem ir sendo re-interpretado, as memórias podem ir se alinhando de forma diferente conforme a narrativa que se faz delas, isso é uma das tarefas centrais de uma análise. A única ressalva para essa liberdade de reescrever a própria história está em que os fatos em si, como doenças, suicídios, acidentes, abandonos, separações, falências, nascimentos, não podem ser suprimidos. Podemos silenciar, tentar esquecer, ignorar, mas eles continuarão existindo e produzindo efeitos. Se bem o futuro se encolhe com o tempo, o passado cresce proporcionalmente. O tempo, portanto, é a dimensão aonde vamos nos deparar com nossos maiores medos, esperanças e, especialmente, com nossa limitação.

Depois de adultos é mais fácil projetar nossos sonhos naqueles cujo reservatório de futuro é maior que o nosso, identificamo-nos com crianças e jovens, como faríamos com qualquer herói que transcendesse nossas incômodas limitações. Mais do que invejar seu potencial, esperamos deles o mesmo que Marty fez com seus pais, que eles revertam nossos fracassos com o sucesso e o conhecimento que poderão contrabandear do futuro para nós.

Esquecemos que nossos descendentes padecerão dos mesmos fardos que qualquer humano, os pais são parte desse passado que pesa sobre os filhos. É dos antepassados, tanto imediatos como remotos, que provém as determinações para as escolhas que farão. A liberdade total de caminhos, que se associa à juventude na fantasia dos adultos, absolutamente não existe. Ao fazer suas escolhas, os adolescentes não são obrigados a seguir os destinos que o inconsciente familiar lhes impõe, mas é inevitável que negociem com esse acervo que os marca, que lhes produzirá sintomas, inibições, mas também modelará seus sonhos. O passado não pode ser suprimido, ele pode ser melhor compreendido, revisto, questionado, narrado de outras formas, só não poderá ser apagado. Não carece mandar nossos filhos para o passado, até por que ele já está, admitamos ou não, impregnado neles.

Corpos ilustrados e enfeitados: tatuagens e marcas corporais (por Mário e Diana Corso)

A cuidadosa arquitetura do corpo, hoje imprescindível na construção da identidade.

Tatuagem é vestimenta definitiva, é um adorno perene. Quando alguém se tatua, é comum ser alertado dos perigos do arrependimento, pois livrar-se dos traços colocados sobre a pele é difícil, caro e doloroso. Porém o aviso é inútil, pois o efeito que se quer produzir com a tatuagem é justamente o de ser um traço que não pode ser apagado ou ignorado. Da mesma forma, piercings e alargadores de orelhas, assim como escarificações e outras modificações corporais visam introduzir enfeites ou marcas que passem a fazer parte do corpo, diferentes dos enfeites e joias dos quais é previsível e possível se despir. Por que teriam eles se tornado tão comuns e característicos dos jovens, assim como em alguns adultos, constituindo um fenômeno que não dá mostras de arrefecer?

Fazer inscrições, traços e alterações decorativas definitivos na pele não é de hoje, é impossível datar seu começo e os usos são os mais variados, desde diferenciar clãs entre uma população até marcar crianças para serem reconhecidas em caso de rapto. O uso do corpo para portar mensagens simbólicas com cicatrizes e pigmentos é transcultural e milenar. Durante muito tempo, em nossa civilização, houve um declínio dessas manifestações dado o predomínio das influências religiosas. Especialmente as tatuagens costumavam ser de uso não mais que eventual na população em geral, embora tenham se mantido presentes nos grupos marginais e em instituições fechadas. Por isso, fora raras exceções, um corpo marcado tenderia a ser pensado como fora do sistema.

Durante as últimas duas décadas vemos uma mudança significativa quanto ao uso da superfície corporal para fins estéticos e ou simbólicos. Especialmente entre os jovens há um grande incremento de tatuagens. Os piercings acompanharam a tendência, e em menor escala, mas nessa mesma direção, as escarificações para fins decorativos e os implantes subcutâneos.

Tentaremos entender esse fenômeno dentro de um contexto maior quanto à significação que o corpo ganhou nos últimos tempos. Nossa questão é descobrir o que mudou: estaríamos apenas diante de um uso mais livre, como se nos reapropriássemos de nossos corpos depois de um inverno de repressão religiosa, ou existem novidades no estatuto do uso do corpo como apoio à subjetivação?

É difícil fazer interpretações generalizadoras quanto à disseminação dessas formas de uso da superfície corporal, no entanto, acreditamos que certas linhas de força podem ajudar a entender o fenômeno. Analisaremos aqui três questões que nos aproximam da compreensão do crescimento da prática das marcas corporais.

Primeiro, o corpo nos parece ser hoje palco imprescindível na construção da identidade, com maior importância do que já teve. Fazer-se a si mesmo, passa por uma cuidadosa arquitetura do próprio corpo, ao qual serão agregados os valores e, portanto, as modificações necessárias para a identidade que se quer, ou se consegue portar. Por isso, cada vez mais os enfeites serão pensados como parte indissociável de si, constitutivos, formadores de personalidade. Consideramos a tatuagem como uma forma de inscrição na pele de conteúdos que se sente prazer de ressaltar, mostrar, ou que têm maior necessidade de consolidar-se no interior do sujeito. Aqui estamos no terreno do caso a caso, não existem simbolismos fixos, cada marca corporal vai ter um significado para cada sujeito.

Segundo, acreditamos que a pele demarcada pelo seu dono constitui uma forma de fazer resistência ao olhar invasivo da sociedade atual, pois hoje nos é imposto transitar com os corpos perfeitos e seminus. As liberdades que conseguimos para várias coisas, não se estabeleceram ao nível do corpo, ou mesmo houve um retrocesso em relação à autonomia possível. Vemos nas últimas décadas um incremento de exigências dirigidas a um corpo que deve ser trabalhado e disciplinado. Portanto um olhar para conferir a relação dos corpos enfeitados com essas exigências seria interessante.

Por último, as dificuldades de crescimento dos jovens, que hoje vêm-se amarrados por décadas à casa paterna, criam a necessidade de colocar no próprio corpo algum limite a esse amor que não se descola deles. Trata-se de diferentes tentativas de delimitação de uma identidade, nesse caso, no limiar da pele. Esse vínculo indissociável e sufocante entre as diferentes gerações sucedeu ao conflito e ao abismo entre adultos e jovens que existia em um passado recente. Faz poucas décadas, os adultos e os adolescentes falavam línguas diferentes, praticavam costumes diversos e viam-se com os olhos críticos do choque entre culturas. Hoje, herdeiro da estética unissex lançada pelos Hippies, temos o que poderíamos chamar de estilo “unigeracional”. Este consiste na eliminação de traços diferenciais de diversos momentos da vida, como outrora eram as calças que com o crescimento deixavam de ser curtas.

Observamos a intensa identificação dos adultos com a geração que os sucede e o medo deles de afastar-se dos jovens. Temem ser deixados à mercê da maturidade e do envelhecimento. Os filhos têm dificuldades para sair, enquanto os pais não estão prontos para ficar longe de sua juventude. O embaralhamento das gerações e a proximidade física gera mecanismos de afastamento e diferenciação.

São três eixos, três tentativas de aproximação com algo que é tão recente, ainda em construção. É arriscado tirar conclusões sobre uma situação que ainda não teve tempo de dizer a que veio, mas vamos tentar.

Para sempre

A experiência clínica é eloquente de que as tatuagens sempre portam um sentido, porém, seu significado mais profundo e sua relação com o sujeito são múltiplos e provavelmente do tipo inefável. Pode ser uma significação consciente, mas que pede um apoio real, por exemplo, um luto em que a pessoa tatua um nome ou um signo que remete ao falecido. É comum encontrarmos tatuados o nome de irmãos que morreram jovens, assim como de pais perdidos precocemente, ou filhos que partiram sem ter tempo de terminar de crescer. Todos sabemos da dificuldade de um luto assim e a tatuagem permite uma dupla operação: o falecido não será esquecido, mas como está na pele, a cabeça pode se ocupar de outra coisas. Diríamos que a inscrição facilita o luto, pois nesses casos é necessário esquecer um pouco para seguir a vida.

Nesses casos em que a morte assume um caráter traumático, a dificuldade de assimilar algo que chega a beirar o impossível é ajudada por uma marca corporal. O medo e a necessidade de esquecer fazem com que se use um signo indelével, e fica-se sem chance de perder essa memória. Se algo não consegue entrar, se não temos um lugar para tal fato, é melhor que fique na borda do que em lugar nenhum.

Acreditamos que todos lembram que Freud dizia que a morte não tem representação inconsciente. Como nesses casos trata-se de uma representação de árdua assimilação, a marca corporal é tanto uma tentativa de simbolização como a resistência a significações quase impossíveis.

Ficando no limite da pele, as tatuagens corporais penetram, alteram a superfície, mas pouco se aprofundam. Embora passem a fazer parte da imagem, portanto do sujeito, os conteúdos representados por essas marcas, quer sejam lembranças, sentimentos, ou questões pendentes, não habitam o interior do seu portador, como o faria um pensamento, ocupando sua mente. Eles estão sempre lá, mas não passam da porta, comportam-se assim como traumas, sendo resistentes à significação, tanto quanto insistentes em sua presença.

Pensando as neuroses de guerra e traumáticas, Freud1 lembrava que os mais afetados pelo horror do que tinham vivido eram os que não portavam nenhuma marca visível[*]. Quem ficou com uma cicatriz, uma lesão, ou perdeu um membro, paradoxalmente, estava menos vulnerável às más lembranças. Ora, um dos dramas de quem passou por experiências limites é não encontrar interlocutores que tenham verdadeira empatia com suas memórias. Nesse caso a marca no corpo cristalizava o intransmissível da sua experiência de horror. Os traços visíveis do sofrimento ajudam a certificar-se de que aquilo realmente ocorreu, ou seja, aquela dor procede.

Saindo do campo do traumático, de interpretação mais direta, geralmente as tatuagens e marcas tendem a ser mais enigmáticas. São símbolos evocativos de uma trajetória, de virilidade, de feminilidade ou ainda de filiação: ressaltam algo que necessita ser visível e óbvio. Esse tipo de tatuagem costuma ser acompanhada de um discurso que a justifica mas que nem por isso a esgota. Como todo ato, fazer uma tatuagem, quando submetido à análise revela uma outra camada.

Um exemplo: um rapaz que tatuou um enorme dragão, tomando todo seu braço, o qual envolve o símbolo do seu time de futebol. Diz que se identifica com time, e com o dragão por tratar-se de ser um ser que ninguém derrota. No decorrer de seu tratamento isso se confirma, mas evoca também uma garra e virilidade que não vê no próprio pai, o que o fazia sofrer. A tatuagem lhe garante algo que deveria vir da filiação, mas que precisou de um apoio externo, como que fundando-se a si mesmo ao imprimir esse valor agregado na própria pele. Um time de futebol é um simulacro de totem paterno, algo para se pertencer e amar; já o dragão representa a agressividade que gostaria que o pai tivesse frente à vida e frente à mulher. Mais adiante, sem negar essa função, ele diz que a mãe se afastou muito dele desde que fez a tatuagem pois a achou horrível, excessiva. Isso era o que ele não sabia que queria, só depois deu-se conta que a imagem o ajudou na separação de uma mãe extremamente invasiva. Deixou de ser o bonitinho da mamãe, agora aquele corpo já não era mais infantil nem se apoiava tanto olhar materno. A tatuagem foi necessária para reposicionar o corpo fora da infância, fora da aprovação materna e com marcas de filiação ao pai.

Um exemplo de linhagem similar, mas com objetivo contrário, encontra-se numa tatuagem da palavra “nômade” em torno do umbigo. Sobre ela, o jovem em questão diz: – “não me sinto ligado a nenhum lugar ou país, sinto que onde deito minha cabeça é meu lar. Nada me acorrenta”2. Como se vê, quando nenhum lugar nos acolhe, resta o cordão umbilical como única corrente capaz de ligar o sujeito ao território chamado mãe.

Esses casos sugerem que uma tatuagem não é exatamente uma decisão consciente, ela é como um sonho, uma produção sintomática a respeito dos quais temos pistas, mas não uma compreensão sobre o significado do que sonhamos, estamos fazendo ou pensando. Porém, diferente dos sonhos, que se dissipam ou nos escapam, dos sintomas que subvertem certos caminhos ou momentos da vida, as marcas corporais chegam para ficar. Elas passam a fazer parte da pele, da imagem, perpetuam um simbolismo pessoal que nunca se despe.

Os jovens têm uma peculiar relação com a poesia, graças a sua característica de dizer sempre mais do que saberíamos explicar. Ao caráter enigmático e evocativo das letras, próprio da escrita poética, deve-se, em parte, a importância da música na cultura adolescente. Uma boa estrofe parece compreender-nos mais do que ser compreendida.       Essa forma de arte bem pode ilustrar a força de muitas dessas imagens, que são charadas que funcionam como auto-descrições, por vezes em palavras, outras em imagens, ou mesmo no casamento das linguagens escrita e visual.

A arte permite um encontro do inconsciente do autor com o daquele que frui dela, que ocorre fora da consciência e é tão efetivo quanto inexplicável. Nesse sentido, o artista seria o próprio sujeito, sua pele a superfície, a tela, o tatuador o instrumento dessa obra que se oferecerá a todos para sempre.

Tatuagens podem ser poucas, ímpares, delicadas ou recobrir quase toda a superfície do corpo. De qualquer maneira, mesmo os mais discretos ponderam fazer novas ilustrações no corpo, enquanto os mais entusiastas o encaram sua pele como uma obra em curso. Apesar de ser um processo doloroso, é com júbilo que a perspectiva de novas tatuagens se coloca para os que iniciaram nelas, pois trata-se da aquisição de uma forma de expressão, um novo recurso para simbolizar conteúdos difíceis de assimilar ou que se deseja perpetuar.

O tatuador é escolhido pelo seu estilo e capacidade de traduzir os desejos do cliente, é um trabalho colaborativo. Eles discutem a obra, as cores, tamanho, tipo de traçado e sombreado, localização, por vezes trabalham sobre a base de uma figura pré-estabelecida, por outras, o tatuador produz a imagem que ilustra o desejo do cliente. O tatuador é mais do que um artista (por vezes eles se autodefinem como artesãos), é um intérprete, capaz de gravar na pele do interessado o que ele supõe que o olhar dos outros quer ver ou vê nele.

Tudo o que é difícil de internalizar, quer seja por insuportável, como um luto ou trauma, quer por ser um vínculo frágil, quer por ser importante e incompreensível, poderá ter o destino de ser escrito sobre a pele. Assim fazem os amantes, principalmente quando temem a fugacidade das relações, tatuando os nomes dos que querem que sejam para sempre seus, o que em geral deixa-os com um problema quando a paixão acaba. Nesse caso, a intenção era justamente solidificar algo que deveria durar, lembrar aos dois que deveriam insistir na relação.

Da mesma forma, chama a atenção o fato que muitos pais têm tatuado o nome dos seus filhos, como forma de consolidar esse vínculo. Antigamente era a palavra “mãe” que víamos tatuada nos braços dos marinheiros, prisioneiros, daqueles que não tinham paradeiro, órfãos de pátria ou casa *[†]. Essa inversão, na qual não são mais os filhos desgarrados que se tatuam, mas sim os pais amorosos, leva-nos a questionar em que tipo de exílio sentem-se os pais hoje, para precisar carregar seus filhos na pele, evitando perder-se deles.

Práticas de apropriação do corpo

O corpo funciona como uma superfície onde se descreve e explicita nossa identidade. Se o hábito não faz o monge, ou seja, parecer com algo não garante que se é tal coisa, em contrapartida podemos afirmar que o monge não se faz sem os trajes que o caracterizam.

Em nenhum momento de nossa existência nos deixam estar nus: somos vestidos já ao nascer e mesmo após morrer. Ao chegar e partir nos arrumam conforme a tradição ou costumes em que vivemos, quer sejam panos rituais ou roupas enfeitadas, não há momento da vida cujas leis suntuárias não regulem a apresentação do corpo. Em determinadas épocas observam-se regras fixas sobre o que usar nesses casos, porém constatamos uma crescente tendência à personalização desses momentos de iniciação e luto.

A primeira roupa que se recebe tem hoje a forma dos sonhos dos pais investidos no filho, enquanto a última será uma tentativa de representar o que fomos, ou melhor, o que pensam que teríamos sido. Ao nascer, o menino será caracterizado com a cor do time do pai, a menina usará babados ou cores mais ousadas conforme for a fantasia de feminilidade da família. Os mortos usarão uma vestimenta que lhes era peculiar, um terno ou vestido enfeitado com os quais raramente foram vistos, a farda de seu ofício, seus enfeites, poderá ser apresentado de modo formal para sua última jornada, ou carregará aquilo que o faz parecer autêntico, similar à vida que o abandonou.

Nesses momentos iniciais e finais de nossa vida não escolhemos, mas ao crescer tendemos a opinar cada vez mais sobre a indumentária, a forma de dispor sobre os cabelos e pelos, a administração do que é visível e invisível. Vamos apropriando-nos do que supomos ter que ser, construindo nossa versão disso, ou seja, o que conseguirmos transformar em parâmetros pessoais. Houve tempos de menos liberdades, formas mais rígidas de pautar a imagem corporal, hoje aparentemente somos donos do destino de nossa imagem. Ou pelo menos, aparentemente donos.

A mulher que se submetia ao rigor do sufocante espartilho, em nosso imaginário equivale à pior representação da submissão feminina às regras de vestimenta que a oprimiam. Paradoxalmente, ela vivia uma liberdade que hoje não mais existe: ao chegar em casa após a festa ou cerimônia, uma senhora desatava as cordas e liberava suas carnes. Confinadas por estarem mal distribuídas, suas gorduras eram libertadas para que retornassem ao seu lugar: o ventre avultava, os seios podiam abandonar a posição de sentido. Hoje, ao chegar da festa, o desnudar-se revela outros espartilhos, desta vez internos: a barriga negativa, os seios fartos e duros, as curvas delineadas corretamente não deveriam desaparecer. Enquanto ideal, a nudez não mais se contrapõe à vestimenta.

A cultura de opressão dos corpos vai e vem, em geral ao sabor da cotação das liberdades sexuais, às quais são sempre associados. É interessante essa ideia de que o corpo se formata univocamente ao sabor do erotismo próprio a cada época, recobrindo maciçamente os prováveis objetos de desejo em culturas mais rígidas, ou editando o olhar em tempos que se dizem mais libertos. Mesmo nesses, homens e mulheres vivem preocupados em mostrar curvas e músculos os lugares certos e cuidadosamente delineados e sugeridos, emoldurados pelas roupas.

O sexo é leitura soberana sobre os outros usos do corpo porque nele fica encerrado o olhar alheio como razão de ser de uma imagem. Na condição de objeto de desejo sexual é como se existíssemos integralmente para ser o que alguém gostaria que fossemos. A maior revolução sexual hoje passa pela liberação do corpo, do qual o sujeito se reivindica proprietário, quer seja em debates sobre o aborto, assim como nas pouco toleradas indefinições ou escolhas diferenciadas de gênero.

Herdeiros da revolução de costumes dos anos sessenta, considerada a melhor sucedida entre as tantas reviravoltas do atribulado século XX, os corpos pareciam ter se libertado das regras que os escondiam e pautavam. O sexo livre, o direito da andar nus, de não depilar-se, os longos cabelos que caracterizavam a cultura do Unissex, teriam aberto precedentes para novas formas de expressão corporal. Mas a história sempre nos presenteia com fluxos e contrafluxos e os anos oitenta viram nascer uma nova paixão pela disciplina dos exercícios, das corridas, das dietas. Com ela vieram a anorexia, a bulimia, a crescente obsessão pelas plásticas.

Os jovens, que poderiam ser considerados netos da geração de Woodstock, também andam com pouca roupa, mas de modo diferente ao de seus vovôs Hippies. Alheios à temperatura externa, tentam andar por aí com as pernas, coxas, barriga e ombros sempre expostos: meninos em calções, mesmo no inverno, garotas com a barriga à mostra e saias tão curtas e apertadas que surpreenderiam a própria Mary Quant. As gestantes orgulham-se de exibir o ventre abaulado, que antigamente ocultavam sob recatadas batas, enquanto os mais velhos tentam manter um corpo que pareça jovem o suficiente para envergar a indumentária adolescente. Nunca fomos tão obrigatoriamente pelados.

É preciso ter uma disciplina espartana para dar conta do ideal de corpo cultivado e despido, da menina magérrima, de cabelo alisado por produtos químicos e do jovem malhado. Plásticas, remédios que inibam a fome e uso de anabolizantes não são parceiros incomuns nessa cruzada pela perfeição da imagem. Outrora era a gordura que representava a opulência, assim como a pele alva significava o ócio dos nobres. Hoje a magreza, o bronzeado, músculos não vêm do trabalho em si, mas dão um bom trabalho para serem montados, são atributos que igualmente mostram que seu proprietário tem muito tempo livre. Vestimentas e formas do corpo são como uma linguagem, dizem do seu portador como um discurso de auto-apresentação.

Tão disciplinados e expostos estão esses corpos, que, como forma de defesa ou de reapropriação, precisam ficar recobertos de insígnias “indespíveis”, fronteiras últimas sobre as quais o olhar insistente e desejável dos outros não passará. A pele tatuada, permanecerá para sempre oculta sob o pigmento, o olhar que pousa nela será conduzido ao ponto em que seu dono espera encontrá-lo.

Nas imagens ou letras gravadas permanentemente na pele há uma mensagem, quer seja de sedução, talvez ameaçadora, intimidatória, ou um nome que marca uma relação afetiva, amorosa ou familiar. São imagens ou palavras que definem as convicções e os vínculos do portador. O sujeito tatuado não será desprovido desse símbolo que escolheu para si, não se desnudará dele jamais, faz parte do seu corpo, por escolha. Na tatuagem há uma demarcação territorial, um limite para o olhar.

Nesse sentido, a tatuagem e a colocação de piercings, que são também enfeites permanentes, comungam mas também divergem de outras transformações corporais que visam adequar o corpo à norma, como as plásticas, implantes de silicone, preenchimentos, dietas e musculação. Todas essas modificações visam modelar a própria imagem com o objetivo de encarnar indicativos do Ideal do Eu, ou seja, nossa resposta ao que supomos ter que ser.

Quando nos aproximamos da norma, construímos um corpo obediente, sempre alerta ao ideal vigente, cuja forma seja uma flecha certeira em direção àquilo que se convencionou como desejável. Já nas inscrições, perfurações e escarificações em geral, a intervenção visa demarcar uma peculiaridade. É como assinar sobre si mesmo, fazer-se obra da própria imaginação. Se algum desses enfeites produz desejo, jamais será genérico, nem tampouco passará do limite que a pigmentação ou a presença do metal impõe.

O hábito corrente de usar alargadores de orelha leva o piercing a uma categoria mais profunda. Como qualquer brinco, ao ser retirado um piercing deixará apenas um orifício, enquanto o alargador ao sair deixará um lóbulo deformado, por isso passa a fazer parte do corpo do sujeito, como os alargadores de lábios dos índios Botocudos.

Ao contrário do corpo obediente construído pelos frequentadores de academia e cinzelado pelos cirurgiões plásticos, o corpo tatuado ou perfurado possui-se a si mesmo. Evidentemente, que um piercing pendente de um umbigo, por mais clichê que tenha se tornado, representa uma possessão pessoal da sua dona (é um adereço predominantemente feminino). É uma obstrução disfarçada do olhar, que revela o orifício, enfeitando-o, mas afasta o olhar e o toque com sua assinatura de metal brilhante.                Mesmo os mais acostumados sabem que aquilo foi um ritual de dor, de ferimento e que daquele pedaço de corpo tão a mercê dos outros, o dono se apossou de forma corajosa.

Prisioneiros dos sonhos dos pais

Nunca foi tão árduo crescer. Os jovens têm grande dificuldade de escolher um caminho, sentem que se desejarem algo específico estarão perdendo inúmeras outras oportunidades de prazer e realização. Para manter todas essas supostas potencialidades, suas vidas acabam tornando-se eternas promessas que tendem à frustração. Os pais também têm dificuldade de crescer, pois temem a velhice, o desafio de reprogramar a vida quando restam-lhes menos opções, pois já fizeram algumas escolhas e nem todas são reversíveis. Nesse sentido, a infantilização dos filhos serve aos pais como tentativa de parar a corrida do tempo. Fabricam-se marmanjos criados, vivendo com a família, mas alguma coisa neles tenta rebelar-se contra essa impossibilidade de tomar sua vida nas mãos e partir para fazer dela nada mais que o possível.

Para os filhos, colocam-se em paralelo duas demandas impraticáveis: de ser feliz e original. A primeira é a de garantir que se alcançará a felicidade através das escolhas certas, quer sejam amorosas ou laborais. Os pais fantasiam que a eles faltaram oportunidade e liberdade para traçar os caminhos conforme seu desejo, por isso supõem que com subsídios e sem restrições seu filho alcançará metas em relação às quais eles sentem-se em dívida.

A demanda de ser feliz traduz-se na proposta tão comum, que brota com naturalidade dos lábios de qualquer pai contemporâneo, quando afirma a seus filhos: “escolha o que quiseres para tua vida, só me importa que sejas feliz”. Obviamente a felicidade é a única garantia de sucesso que o filho não pode oferecer ao pai, pois ela é fugaz e geralmente passa despercebida. Sem falar que é intransitiva: ser feliz como? Não aponta para nada e pede tudo.

A segunda exigência é a de que cada gesto, atividade ou obra seja uma pequena revolução, estando uma suposta criatividade no topo dos atributos mais desejáveis na trajetória de uma vida. Dessa forma, cria-se uma cultura onde a rotina, o tédio e a entrega a qualquer escolha que tenha sido feita são vistas e temidas como expressões de acomodação e mediocridade, quando não de falta de inteligência.

A combatida epidemia de hiperatividade, o problema dos sujeitos que não se focam onde deveriam, é sintomática de um tempo onde é considerado menor deter-se sobre qualquer coisa, no qual não se pode parar3 **[‡]. O problema é que a maior parte das escolhas, principalmente as mais visadas, que são o amor e o trabalho, decorrem de uma solução de compromisso entre desejos e exigências culturais e familiares.

Nossa vocação, assim como os vínculos que constituímos, na prática são expressões que podem ser consideradas mais sintomáticas do que símbolo de liberdade. Cada um faz o que pode, negociando entre o que supõe que se espera dele, o que ele se julga capaz, seus temores, inibições, os desejos que consegue assumir e as oportunidades que surgem. Sobre esses caminhos, que mais nos escolhem do que são escolhidos, o sujeito poderá fundar uma reflexão, criar uma versão ou até uma reação a eles, mas precisará acabar reconhecendo que ninguém tem um leque de opções tão amplo quanto se imagina.

Ao contrário das décadas anteriores, não há hoje um impulso de sair de casa. Pais e filhos já não disputam valores, e sim territórios. A discussão já não é sobre o que pode ou não pode, mas quando vai se poder. Sexo na casa dos pais já não é tabu, consumir drogas ditas leves como maconha também não. “Para que sair de casa, se bem ou mal, posso tudo lá dentro?”, pensam os jovens, aderindo, sem dar-se conta, à demanda de procrastinar o crescimento.

A permanência junto aos pais alongou-se. Colocar marcas corporais, em muitos desses casos, é uma tentativa de afastar esse corpo crescido do zelo parental que se prolonga em moços e moças que têm segurança, casa, comida e roupa lavada, quando já poderiam estar providenciando tudo isso por conta própria. Frente a isso, muitas vezes fazer uma tatuagem, colocar-se piercings, são tentativas de demarcação do território corporal.

Numa vida na qual os pais se apossam tão gulosamente do destino dos filhos, em que vampirizam sua juventude, não surpreende que o corpo seja a última fronteira de si, de possessão pessoal. Trata-se daqueles que, embora possam estar entre os que “têm tudo”, não têm mais do que seu computador, um quarto ou cama, em geral arrumados pela mãe, como lugar próprio, por isso precisam recuar as defesas para o derradeiro território do corpo.

A pele é, neste caso, um limite último para a invasão e as marcas são tentativas de cercar essa propriedade. Trata-se de uma forma de rebeldia bastante regressiva, pois almeja-se muito pouco além de que gerir a própria superfície, o que deixa os outros com grande liberdade sobre o resto de suas vidas. É uma situação muito similares à nudez desejável na indumentária dos jovens. Estes, obrigados a expor partes do seu corpo supostamente perfeito, por ser de pouco uso, ao olhar dos outros, pelo menos as enfeitam com marcas que lembram: esta barriga, este torso, este braço, esta virilha, são meus, ou “são mim”, como diria o psicanalista Ricardo Rodulfo.

Ele lembra-nos que a “formação de superfície” é uma das funções do brincar5. Conforme o autor, para o bebê faz parte dessa atividade de delimitação de si o recobrimento, para o qual ele tratará de se besuntar, de espalhar suas babas, papas e cacas. O pequeno coloca todos esses revestimentos sobre sua pele e acontece mesmo dele ficar desorganizado ou furioso quando a higiene o priva disso. Com esse recurso, o bebê não demarca algo que ele tem, mas sim algo que ele é. Tatuar-se, desenhar a própria pele, poderia ser entendida como atividade herdeira dessa forma rudimentar de brincar, pois a infância deixa restos que carregamos ao longo de toda a vida.

A tatuagem é uma mistura da atividade de desenhar, ou mesmo de brincar, quando se viabiliza uma expressão imaginária para os desejos e conflitos, utilizando esses recursos primitivos de formação de imagem corporal. Se puder funcionar como uma formação de superfície que ninguém poderá limpar, talvez seja como a vingança do filho que já cresceu contra uma nova versão da higiene materna inclemente. Pode, nesse caso, operar tentativas de resistência contra o caráter prepotente das expectativas alheias, e mesmo ser uma forma de proteger-se e minimizar a força da imposição dos sonhos de adultos que se sentem tão invejosos e maravilhados com sua adolescência. Através dessas práticas artísticas de intervenção corporal, os jovens tentam resistir, para ficar menos à mercê, evitando que sua mente seja tratada como antes faziam os cuidadores, que dispunham do seu frágil corpo de bebê.

O corpo cresce numa tensão ambígua, entre a alienação e a separação, ou seja, entre constituir-se apoiado num olhar de fora, a função especular do olhar materno, e a necessidade da demarcação pessoal. Esta última é uma tentativa de separação entre o dentro e o fora do corpo, entre o íntimo e o público. É aqui que uma certa rebeldia nos gostos, a irreverência indumentária dos jovens, a colocação de um piercing, uma tatuagem, uma alteração na pele, podem ser tentativas de fabricar essa assinatura.

Uma assinatura é uma forma pessoal de grafar-nos. Ao mesmo tempo em que aceitamos o nome que nos deram e os códigos da lecto-escritura que nos ensinaram, ao criar uma assinatura descobrimos um modo de escrever o nome que é original e particular. Já um apelido é uma corruptela do nome próprio, é um nome recebido a partir de nossos atos entre os pares e familiares.

As tatuagens e demais marcas corporais fazem com o corpo o que a assinatura e o apelido fazem com a nomeação. Elas são uma personalização, ao mesmo tempo que uma forma de aceitar e acrescentar à nossa identidade, de forma digerida, a influência dos outros.

Traços de conclusão

Os jovens tatuados são filhos e netos de adultos que se horrorizam ao ter seu corpo marcado pela vida. Lutam contra rugas e traços de expressão, como se o envelhecimento fosse uma gradual possessão a exorcizar. Em contrapartida, a tatuagem chega como uma marca indelével do vivido: “Vejo meu corpo como um livro, as tatuagens estão lá para documentar diferentes momentos e histórias da minha vida”, declarou um jovem inglês de 31 anos5. Trata-se de desenhos e inscrições que funcionam como uma estilização das marcas do tempo, como uma ruga bonita. Vai nesse sentido a afirmação de uma jovem que, habituada a lutar contra a acne, colocou um piercing que dizia ser “sua espinha bonita”, mostrando que ao introduzir uma marca pode-se de fazer ativamente o que o tempo e as doenças submetem um corpo passivo.

Tatuar-se é uma forma lúdica de introduzir mudanças que também ocorreriam no decurso da vida. É o oposto, ou talvez um diálogo, com o hábito das plásticas, que quer manter o corpo ilusoriamente intacto. Se para os tatuados seu corpo é uma tela pintada, para os entusiastas das plásticas ela deve permanecer sempre em branco. Poderíamos pensar as tatuagens, adereços e modificações corporais como reação a esses hábitos disciplinares do corpo, o corpo tatuado como o contraponto ao corpo de academia. Enquanto um é singular, único, o outro tenta adequar-se a padrões estabelecidos. São atitudes antagônicas mas que respondem à mesma demanda de montar uma aparência compatível com uma identidade socialmente desejável. Ambos são uma tentativa de resposta às questões suscitadas pelo olhar do outro.

A vida é passageira e ela anda mais rápido que nossa capacidade de compreendê-la, produz mais eventos do que temos condições de armazenar. Alguns tatuados, fazem de sua pele sua autobiografia. A cada nova figura, inscrição, vão acrescentando as marcas do vivido, os nomes das pessoas amadas, as referências culturais e posicionamentos políticos importantes.

Muitas dessas pessoas voltam-se para a tatuagem como uma forma de arte, fazem dela um ofício, constituem grupos de tatuados e chegam a ter todo o corpo recoberto dessas citações. Nessa forma extrema, confirma-se a condição de linguagem e de estabelecimento de identidade dessa prática, que se estende a outras formas de modificação corporal. Se da vida pouco se leva, pois as transcendências estão em remissão, e só temos esse corpo, como forma de “eu”, não nos estranha que tantos estejam a escrever nele o que não pode e não deve ser esquecido.

Levando em conta a tendência histórica, os tempos são de incremento do individualismo, ou seja, cada vez mais uma subjetividade se apoia menos nos outros que a circundam, extrai menos significação dos grupos a que pertence, e joga-se na ilusão de ser único e singular num mundo tão plural. Ora, nesse sentido as marcas corporais ajudam muito a ser um exemplar especial e ímpar. É preciso tomar cuidado para não confundir individualismo com narcisismo, como tantas vezes ocorre: esses corpos enfeitados estão numa perspectiva do olhar dos outros, eles não se esgotam em si mesmos, incluem esse olhar em sua constituição.

São tempos em que tudo que é recebido precisa ser personalizado. Ninguém se permitiria ser meramente uma consequência de sua origem, educação, desejo dos pais, hábitos e costumes de um lugar. Todos querem orgulhar-se das versões particulares que produziram, a partir de uma herança que nem sempre reconhecem. O “fazer-se a si mesmo” deixou de denominar, como originalmente acontecia, uma ascensão social que seja fruto de esforços e capacidades do sujeito, que o levaram além do que sua origem lhe proporcionaria.

Hoje é preciso fazer-se lançando as próprias bases, pelo menos é isso que se gosta de acreditar. Para tanto é preciso formatar um corpo, construir uma identidade sexual, ser parcimonioso em relação às formas de vincular-se com os familiares, principalmente os antepassados, questionar e revolucionar a hierarquia. O mesmo ocorre com o conhecimento que passa de geração em geração: outrora mediado pela valorização da experiência dos mais velhos ou antepassados, hoje precisa funcionar como um saber disponível que o sujeito em formação vai dispor, questionar e usar à sua medida. Tudo deve ser ativo, criativo e de preferência original. Dessa forma, a “desnaturalização” das identidades sexuais, assim como etárias, responde a esse modo de funcionamento6 ***[§]. Cada um encontrará sua forma entre os parâmetros da feminilidade e masculinidade, assim como entre as condutas esperadas para cada época da vida, de preferência subvertendo essas expectativas sociais de um modo sempre pessoal e particular.

Vivemos uma explosão de identidades sexuais, que já foram definidas apressadamente como uma recusa à castração, a submeter-se o que o acaso genético nos deu. Seria, no entanto, mais produtivo entender esses fenômenos como um sintoma do paroxismo dos tempos individualistas, nos quais se espera que cada um se torne algo, faça a si mesmo, à sua própria medida. Então, por que não, definir sua própria identidade sexual? Por que não modificar o corpo e “fazer-se”?

As marcas corporais, portanto, devem ser entendidas nesse contexto maior, no qual hoje nos apoiamos mais em nossos corpos para ser alguém. Acreditamos que fazem parte do mesmo quadro histórico que produz tantas academias, dietas, disciplina corporal. Há uma preocupação obsedante com a saúde e com a aparência, que redunda num exagerado cuidado com o corpo. Talvez essas diligências apontem para novas formas de subjetivação cujos significados ainda nos escapam. Por isso, seria uma pena simplesmente encaixá-las em velhas fórmulas. Por que não permitir que essas novidades também tracem, imprimam, ilustrem novas sutilezas para pensar a juventude, a sexuação, a construção da identidade social?

Referências

1. Freud  Sigmund. In:  Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976. p. 23.

2. Macnaughton  Alex. London Tattoos. Munich-London-New York: Prestel Verlag, 2011, p. 17.

3. Kehl  Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009, P.276

4. Rodulfo Ricardo. O brincar e o significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição precoce. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

5. Macnaughton  Alex. London Tattoos. Munich-London-New York: Prestel Verlag, 2011, p. 17.

6. Costa Ana Maria Medeiros. In: “Se fazer” tatuar: traço e escrita das bordas corporais. Revista Estilos da Clínica, 2002, Vol. VII, número 12, p.60.

(texto publicado na Revista Brasileira de Psicoterapia 16(1):138-150)


[*] …um ferimento ou dano inflingido simultaneamente operam, via de regra, contra o desenvolvimento de uma neurose.

*[†] Trabalhei na década de 80 com perícias no sistema prisional gaúcho, foi onde constatei um bom número de prisioneiros que tatuavam a palavra mãe ou o nome da sua progenitora. (nota de Mário Corso).

***Maria Rita Kehl faz essa leitura da hiperatividade, considerando-a sintomática de sujeitos que dão seu melhor para corresponder a essa demanda de ser tudo: “ São crianças acossadas pela demanda, cujo tempo psíquico foi atropelado pelo excesso de investimento da mãe e dos outros adultos à sua volta.”

****A psicanalista Ana Maria da Costa lembra que essa desnaturalização é intrínseca à constituição do sujeito: “não há um suporte natural para nosso corpo e, por outro lado, não há assimilação completa da representação do nosso corpo. Por essa razão estamos sempre fazendo passagens, traduções, interpretações. Temos sempre que inventar possibilidades de inclusão, ou formas diferentes de circulação.”  Portanto, trata-se de investigar as características que, em cada época, essa insuficiência da representação do próprio corpo vai assumindo.

Homenagem a Mauricio de Sousa na Feira do Livro de Porto Alegre (Por Mário e Diana Corso)

Dia 07 de novembro de 2014, o cartunista Mauricio de Sousa foi homenageado na Feira do livro de Porto Alegre. Tivemos a honra de redigir o texto que lhe foi lido na ocasião, boa oportunidade para agradecer pela sua presença na infância de todos nós!

Não é nada difícil saber quem é Mauricio de Sousa, ele está a céu aberto em seus personagens. Quem lê até pensa que são seus filhos que estão na sua obra e, sim, de fato estão, mas principalmente nela encontramos as diversas conjugações do seu criador.

Mauricio é Chico Bento, esse Pedro Malazarte adocicado. Resgata seu passado no interior, sua conexão com o Brasil rural. Chico é só aparentemente tosco. É aluno esforçado, mas sempre longe do reconhecimento da professora. Ele lembra o tanto que a vida prática ensina, por fora do quadro negro, longe das tecnologias e das supostas espertezas dos que moram na cidade grande.

Mauricio é Bidu, seu alter ego filosófico. Um cachorro que está sempre colocando-se questões sobre a existência. É um observador tão arguto do comportamento de humanos e caninos, muitas vezes uns fantasiados dos outros, que sociólogos e psicólogos poderiam encontrar em suas aventuras e ponderações motivos para refletir.

A fragilidade de Mauricio se expressa em Horácio. Ele é um dinossaurinho fruto de um ovo chocado ao sol, símbolo da nossa orfandade e inadequação. Afinal, nós brasileiros somos como  ele, que sente-se todo errado por ser um tiranossauro pacífico e vegetariano. Horácio não seguiu seu destino genético, nem nós, pois nossas origens apontam para todos os lados. Não somos exatamente nada, miscigenamos inúmeras referências, e com Horácio descobrimos que por isso mesmo podemos ser tanta coisa.

Mauricio é corajoso e não tem medo de assuntos difíceis. Conseguiu um olhar delicado e verdadeiro sobre a loucura. O Louco, com seus delírios surrealistas e poéticos, encara o mundo a partir de outra lógica, sonha acordado. A Morte também não é um tabu, é uma personagem, que cumpre sua missão de abordar o inevitável e o que assusta, contando para isso com a ajuda da turma assombrosa do Penadinho. Desse modo, os limites da razão e da vida não se tornam fantasmas apavorantes, eles podem ser abordados com a proteção da fantasia e do humor.

Mas Mauricio sobretudo é o Cebolinha, irmão mais velho da turma, por ter sido o primeiro. Perseverante em sua coragem sem fundamento, ele perde para Mônica todas as vezes mas nunca desiste. Em sua cruzada quixotesca ele acredita na vitória da inteligência sobre a força física. Sabe que no fim da história sempre vai apanhar, mas sua mente insiste em trabalhar em  mais um plano genial, pois falta-lhe cabelo na mesma proporção em que sobram-lhe ideias. Quem faz cultura neste país tem que ter algo de Cebolinha, pois sabe que vai apanhar muito até dar certo. E pode também apanhar justamente por ter dado certo…

Mauricio está também no Cascão, o melhor e mais sujo amigo do Cebolinha. É fóbico de água, como todos nós que temos grandes medos de coisas triviais. As crianças somente são mais sinceras a esse respeito. Cascão tem uma alma límpida, é capaz de grandes gestos fraternos. A sujeira de fora, descobrimos, não reflete a de dentro: as crianças fazem muita bagunça, espalham e recobrem as superfícies que encontram seja com baba, comida ou tinta, mas a sujeira delas não é nada. Por isso o poluidor Capitão Feio é grande como nós, pois é preciso ser uma pessoa grande para fazer algo realmente sujo. Os artistas são, nesse ponto, sempre crianças, recobrem o mundo com suas cores, metáforas, com a imaginação que deixa tudo mais interessante de se ver, cheio de vida.

Mauricio está também na sua Mônica, uma das pioneiras do feminismo nos quadrinhos. Ao contrário das mamães da turma, uma geração ainda dedicada ao trabalho doméstico, para ela não há barreiras. É forte e o exercício do poder parece-lhe natural. Mônica manda em todo mundo, mas nunca usa isso para o mal nem tem ganância de poder, como é o caso de seu rival semi-careca.

Mauricio confia nas novas gerações de trabalhadores e líderes femininas, pois Monica e Magali são justas, compreensivas e ambas estão longe da imagem de fraqueza associada às mulheres. Monica representa a força natural delas e Magali a intransigência dos seus desejos. Nunca contrarie uma mulher, porque ela é naturalmente forte, franca e obstinada, parece dizer. Respeitá-las assim é como utilizar do feminino seu melhor lado: escritores são também, nesse ponto, femininos, desenvolvem uma sabedoria oriunda das sutilezas das pessoas e da vida aparentemente banal. Um olhar tão profundo sobre a verdadeira infância teria sido impossível sem um acesso ao tipo de inteligência desenvolvido pelas mulheres.

Já a gula da Magali não é do Mauricio, é de todos nós com essa obra aberta e imensa que é a vida em quadrinhos da turma do Bairro do Limoeiro e tantas outras. Seremos para sempre insaciáveis de mais e mais histórias. Quando crianças, conseguimos consumi-las em quantidades estratosféricas e estamos sempre querendo mais. Sempre há lugar para mais uma revista da Turma da Mônica, mesmo que tenhamos crescido. Se as crianças são o futuro de um país, as nossas já nascem abastadas, herdeiras da fortuna imaginária criada por Monteiro Lobato e Mauricio de Sousa. Graças a eles somos de muito melhor prognóstico.

09/11/14 |
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Barbies Monstruosas

Seja você mesma, seja única, seja uma monstra! (interpretando as Monster High)

Frankie Stein é uma garota interessada em moda, só tem um inconveniente: as vezes se desmonta. Sem problemas, depois se recostura. Draculaura é uma vampirinha vegetariana que precisa lidar com a dificuldade de não se enxergar no espelho, enquanto Clawdeen Wolf tem problemas que não há depilação no mundo que resolva. Um dos amigos destas e de tantas outras garotas diferentes é Jackson Jekill, que evidentemente sofre de dupla personalidade.

Essas personagens são bonecas, você já deve ter visto alguma nas mãos de uma menina ou em uma vitrine de loja, fazem parte da coleção das Monster High, produto da Mattel. Elas servem para brincar de vestir e desvestir como qualquer boneca. Poderíamos, por isso, colocá-las na vala comum dos brinquedos que servem mais para ostentar e para garantir a transmissão dos clichês femininos do que para brincar. Porém, seria uma pena fazer isso sem parar para olhá-las melhor.

Por trás da sua aparência de patricinhas, essas bonecas importam algo das conquistas do universo do Shrek para dentro dos tradicionalmente estereotipados brinquedos para meninas. Mesmo quando confinadas ao universo restrito de roupa e casa das Barbies, definitivamente, nossas meninas já não são as mesmas. Pelo menos na aparência. Claro, nem todas as barreiras caem, infelizmente as Monster High são todas magérrimas, a gordura ainda é imperdoável até entre as monstras.

As crianças contemporâneas têm insistido em seu gosto pelo susto, assim como pelo monstruoso, pelo que é feio. O ogro verde mostrou que o feio pode ser bem mais bonito, que o desejo de perfeição e a discriminação ao que foge do padrão podem ser a verdadeira feiura, que o que dá medo pode ser interessante. Além de que as pessoas de verdade fazem pum, têm chulé, mexem no nariz e isso não as torna monstruosas.

O medo é um importante instrumento para organizar o mundo: através dele classificamos o que é perigoso e o que é confiável, o que é seguro e o que inspira cuidados. Sabendo o que temer podemos também relaxar quando estamos longe e a salvo do que nos apavora. O medo nos livra da angústia que é mais insuportável. Por ser constituída de sensações vagas, portanto não ter um objeto claro que represente a ameaça, ela nos deixa reféns de tudo, é puro sofrimento. Quando elegemos algo para ter medo nos livramos dela.

As Monster High são uma amálgama de todos esses elementos: as bonecas tradicionais, a importância do susto, a abertura aos diferentes padrões de beleza e de comportamento. Vampiros, múmias e zumbis são mortos, lobisomens são obrigados a se comportarem como animais, frankensteins são assustadoramente remendados: como vemos, maldição e morte estão longe de serem tabus para as crianças contemporâneas. Elas deixam explícito seu gosto pelo terror, assim como pelo monstruoso, pelo que é considerado feio. Como os mexicanos que no seu Dia dos Mortos brincam e festejam com o que mais tememos, as crianças estão nos lembrando que não adianta colocar o que assusta, questiona e impressiona para baixo do tapete, pois aí sim é que vai nos assombrar. Seja ativo com o medo, como diz o lema do grupo: “Be yourself, be unique, be a monster”.

Ora, um dos temas de quem está transitando entre o fim da infância e entrando na adolescência, ou seja, o árido e áspero território da puberdade, é justamente a questão da imagem corporal. Nesse momento estamos mais frágeis quanto ao lugar que nosso corpo ocupa, e como somos vistos pelo outro. É a época da feiura, senão real pelo manos fantasiada, e também quando afloram problemas de dismorfofobia (ver-se deformado). São também comuns versões mais brandas desse litígio com o próprio corpo, como por exemplo engordar de tal forma que as curvas sexuais fiquem borradas e com o corpo ainda não tão sexuado como o corpo infantil que foi recém abandonado, assim como emagrecer a ponto de eliminar todos os volumes. Enfim, que uma boneca traga esse tema, que capte o mal-estar com o corpo da puberdade não é de se espantar, poderíamos até pensar o contrário, como que elas só chegaram agora.

Outra questão que as Barbies e outras bonecas não trazem é a forte marca da herança. Essas senhoritas monstruosas são como seus pais, trazem na carne uma história que não se pode negar. Embora em nosso tempo a maior parte das pessoas se iluda que devemos ser desenraizados de nossos pais, fazermos nós mesmos nossas trajetória, é óbvio que não partimos do zero.

De certa forma, o peso dos nossos pais é uma maldição a carregar. Entenda-se maldição dentro do universo das crenças contemporâneas, se negamos a sociedade tradicional, onde éramos uma continuidade lógica dos nossos antepassados, hoje eles são um pesadelo para nossa tarefa de construir-se por si mesmo. Essas bonecas retomam o peso da origem que recalcamos com tanta força. Na verdade, só admitimos uma herança no terreno formal e frio da genética, mesmo assim sob a forma de doenças herdadas, portanto, persiste a ideia da maldição. Pelo menos as crianças estão se permitindo brincar de serem marcadas por um destino

Os clichês da identidade feminina não vão cair do dia para a noite, mas enquanto meninas não costumam brincar de carrinhos, nem meninos de boneca, essa profanação estética ao modo de Barbies monstruosas já vem a calhar. Meninas também querem acesso livre ao mundo monstruoso e fantástico, chega de cor de rosa, que já não condiz com o tipo de mulher corajosa, franca e guerreira que irão se tornar. Por que não, então, brincar de bonecas no trem fantasma?

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Ninfomaníaca: erotismo ou pornografia?

A diferença entre erotismo e pornografia não é estética nem quantitativa, é da posição ocupada pelos amantes.

Cada tanto essa polêmica retorna, se uma obra seria pornográfica ou, caso tenha pedigree intelectual, ou ainda griffe de autor, seu charme nos levaria à arte erótica. A coincidência da atual leva de filmes como, Azul é a cor mais quente (A. Kechiche), Ninfomaníaca (Lars von Trier) e Tatuagem (Hilton Lacerda), relançou a discussão. O senso comum tende a ver a diferença entre pornografia e erotismo em termos de bom gosto, linguagem sofisticada, enfim, sutilezas dentro de um mesmo espectro. Se o autor foi feliz em ganhar um público culto é uma obra erótica, se ficou no escuro da internet é pornografia.

A psicanálise abre possibilidade para outra posição: a pornografia é facilmente identificável. Essencialmente a temos quando a fantasia sexual é vendida com a ilusão de que todo sexo é fácil, barato e sem culpa. Na pornografia o encontro do desejo com o objeto é plano e bem resolvido, encaixe perfeito. Em outras palavras, quando as inibições ficam momentaneamente esquecidas e imaginamos que podemos gozar sem envolver nossa engrenagem neurótica. Já a erótica nos vende uma excitação sexual sem o recurso do atalho: nela, cena sexual segue sendo escorregadia, como a real, é um flash que momentaneamente se abre para em seguida declinar. A erótica carrega a plausibilidade e a descontinuidade do real enquanto a pornografia é pura imaginação sem barreiras e a ilusão de um gozo sem fim.

No início de Azul é a cor mais quente há uma cena de sexo entre duas mulheres que vem causando paradoxais comoções. Entre os incomodados estão os homofóbicos e conservadores, mas também há algumas lésbicas que se declararam mal traduzidas. Ou seja, desde pontos de vista antagônicos, o filme vem proporcionando debates. Quanto a Ninfomaníaca, que aborda a compulsão sexual de uma jovem que transa no atacado, a reação tem sido mais forte do que seu recente similar masculino, Shame (S. McQueen), sobre um homem com uma vida sexual igualmente ativa e à deriva.

Ao contrário do best seller Cinquenta tons de cinza (breve nos cinemas), essas obras não se prestam a fantasias masturbatórias. Ao contrário: o filme de Lars von Trier, por exemplo, apesar do sexo explícito, não serve para animar casais sem entusiasmo, nem sequer atividades solitárias. Joe, a personagem de Trier, conta suas aventuras sexuais para um circunspecto senhor que a encontrou machucada na rua e lhe deu abrigo. Eles discutem sobre a culpa dela, da qual o bom homem tenta aliviá-la, sobre o perigo de misturar sexo com amor e a suposta frieza da auto-declarada ninfomaníaca. A solidão dela, os incansáveis encontros, seu olhar insistente de busca e sedução, são mais tristes do que provocantes. A sexualidade de Joe parece-se muito mais com a vida real do que os encontros estereotipados dos protagonistas do livro de E.L. James. Mesmo assim, para desilusão das lésbicas que não se sentiram retratadas (outras sim, viram-se representadas), o cinema, mesmo quando se aproxima da nossa natureza neurótica, mostra um sexo visto de fora, pelo buraco da fechadura.

Do ponto de vista do espectador voyeur, a cena sempre será mais convincente do que o ato em si, pois as lacunas são completadas pela sua fantasia, que enxerga o que quer ver. São essas mesmas fantasias que ajudam e atrapalham a verdadeira vida sexual: ajudam porque é para realizá-las que o desejo se acende; atrapalham porque, embora o prazer seja possível e acessível, sempre é ameaçado pelas armadilhas do medo, das ambiguidades e inibições, fazendo com que os fatos sempre fiquem em dívida com os ideais.

Erotismo e pornografia não se diferenciam por uma questão quantitativa, sendo um mais explícito que o outro, há uma questão qualitativa em jogo. Na definição de Georges Bataille, no livro denominado O Erotismo, a fantasia erótica está associada à possibilidade de entrega, de dissolução de limites, algo mais próximo do encontro letal no clássico japonês Império dos Sentidos (N. Oshima, 1976). Para Bataille, “somente o sofrimento revela a inteira significação do ser amado”, pois na dor da paixão fica claro que ao mesmo tempo em que se conquista o outro perde-se o eu.

O sofrimento a que ele se refere é a consciência de que estamos rodeados de gente mas condenados a ficar sós, a sentir-nos incompreendidos, exatamente como a triste e solitária Joe. Ou seja, quando ganhamos o outro perdemos a nós mesmos, ficando, portanto, inevitavelmente insatisfeitos. Numa gincana de corpos que se desnudam e acoplam, a personagem de Trier segue em busca do que nunca encontra: do tempero do sexo, sua suprema graça. Talvez seja mesmo para provar a impossibilidade do encontro que ela tanto se empenhe, revelando-se uma mulher fria, distante, como a própria mãe.

O horror que as cenas de sexo explícito desses filmes têm causado intriga principalmente àqueles que se perguntam por que imagens de igual impacto envolvendo violência não são condenadas. Não é tão difícil entender essa diferença de pesos e medidas, pois a violência é uma forma de dominação, enquanto o erotismo é seu oposto, seu prazer depende do grau de entrega. A violência, principalmente o assassinato, corresponde ao absoluto controle sobre o outro. Quem tem a vida alheia nas próprias mãos nunca se arriscará a cair sob seu domínio, fascínio ou influência. Nada é mais temido do que perder-se no outro, experiência que todos têm e que remonta nossa condição infantil de inermidade, dependência e desamparo.

As obras de cunho pornográfico são as que aproximam o sexo da violência, no sentido em ambos o outro está sob controle. Nelas os parceiros respondem maciçamente ao desejo do outro, um sempre tem o que o outro quer, comportam-se como previsto, não há desencontros ou dificuldades em fazer o outro gozar.

Outra fonte de desagrado é a explicitação do gozo feminino ativo, da busca da mulher por um prazer que, conforme as convenções, deveria ser provocado nela, sem deixar clara sua vontade. A posição feminina, quer ela seja ocupada por um homem ou uma mulher, está associada à fantasia de passividade: só um desejo deveria orquestrar a cena, o ativo, masculino. No filme de Trier, Joe é uma caçadora, os homens suas presas certeiras, cada um para formas diversas de satisfação, e isso revela uma face indigesta do desejo feminino.

Mais uma vez, as mulheres pagam o preço do passado de todos nós, devem calar sua vontade, por serem potencialmente “a mãe”, cujo poder é o mais temido de todos. Ela encarna a ameaça de ser devorado, descartado ou insatisfatório. Longe desses riscos, na pornografia evidencia-se um desejo que parece ser masculino, mas se sobrepõe ao gênero: tudo funciona a contento, os gritos dela (ou do parceiro “feminino”) confirmariam a potência do membro “másculo”, ativo, do casal.

Em suma, Ninfomaníaca não é pornográfico, porque é muito próximo da nossa sexualidade neurótica. Não é erótico, já que é cético quanto às ilusões amorosas de perder-se no outro. É drama, como dramáticos somos, dentro e fora dos lençóis.

(publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora em 25/01/2014)