Cinema e TV
Exibir por:

De volta para o futuro: que o futuro arrume o passado.

21 de outubro de 2015, a data fixada no filme de 1985 na máquina do tempo em que viajou Marty, para visitar o futuro, finalmente chegou. O que fizemos dela equivale ao que os pais fizeram de seus sonhos, sempre menos de que esperavam e do que os filhos gostariam que tivessem feito!

(trecho do livro Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, Diana Corso e Mário Corso, Artmed, 2010)

Um bom exemplo do que se espera da combinação do futuro, através da geração a nossa frente, com a ciência com suas promessas, pode ser verificado no filme De volta para o futuro (dirigido por Robert Zemeckis,1985). Marty é um garoto típico dos anos 80, que sofre ao ver sua família medíocre e decadente. Ele não possui a lucidez intelectual da pequena Lisa, mas como bom adolescente percebe que a mãe está infeliz e bebe além da conta, que o pai é um fracassado, que seus irmãos se encaminham para vidas igualmente estreitas. Ele não está nada conformado com esse destino, como os outros da família parecem estar.

Marty possui um amigo, um cientista que em sua comunidade é considerado doido, a quem ele visita regularmente. Dr. Brown trabalha numa máquina do tempo, que opera dentro de um automóvel, mas quem acaba fazendo a viagem é o garoto. Diferente do viajante do romance de ficção científica A Máquina do Tempo (H. G. Wells 1895), que se depara no futuro com horripilantes respostas sobre os destinos da humanidade, Marty viaja ao passado para fazer reparos na vida privada. Ele volta apenas trinta anos, tendo como data de chegada o ano em que seus pais eram jovens e se conheceram. Como qualquer filho, ele é curioso a respeito do ponto de origem de sua família, o encontro de seus pais. Na verdade ele quer saber como eles conseguiram tão pouco e, evidentemente, influenciar o passado para evitar o triste desenlace que é a realidade atual de sua família. Como costuma ocorrer nessas incursões, alterar o passado é muito perigoso, Marty ameaça o próprio nascimento, o qual, como sabemos, é sempre fruto de um acaso que, por qualquer alteração de milímetros dos fatos, poderia não ter acontecido. Novamente ajudado pelo cientista, ao qual ele volta ao passado para informar que seu experimento deu certo, o final acaba garantindo que seus pais se encontraram e casaram, mas o fracasso crônico do pai e a insatisfação da mãe foram revertidos. Marty volta para um futuro de pais realizados e irmãos bem sucedidos. Quem dispensaria uma oportunidade dessas?

Essa aventura pelo passado foi arriscada: em suas andanças pelo tempo, aquela que virá ser a sua mãe, apaixona-se por ele, e obviamente não é fácil repelir um amor assim. Provavelmente, esse evento passado revele mais sobre o seu presente: uma mãe insatisfeita pesa sobre um filho, afinal, se o pai não dá conta da satisfação dela, se a relação não a faz feliz, essa missão recai sobre a geração seguinte? A viagem no tempo busca uma solução para a família, mas também vai em causa própria: erguer um pai para que ele dê conta das demandas maternas.

Marty está na idade de ocupar-se dos próprios assuntos amorosos e as pendências dos pais pesam como nunca nesta fase. Para ter suas histórias de amor, um filho precisa dar as costas para esses vínculos infantis, que seus pais possam abrir mão de sua presença na casa, no meio do casal, no cotidiano, nos projetos futuros. O problema é que a juventude dos filhos inclui o olhar crítico deles que abala tanto o amor próprio dos progenitores. Aliado ao confronto da vitalidade juvenil com o início da decrepitude dos pais, forma-se um conjunto de sentimentos difíceis de administrar. Para os pais é uma época em que estão sendo mais questionados por filhos que já não os idealizam, e que, em função da idade em que se encontram, acabam fazendo algum balanço. Por isso, não raro, também é nessa ocasião que se produz uma separação do casal. Nem todo casal que constituiu uma família tem condições de resgatar ou criar um projeto a dois, principalmente se este se torna necessidade a partir de um abandono: da progressiva partida dos filhos, que outrora polarizavam e dominavam a existência dos pais. É quando um filho mais precisa que seus pais se ocupem um do outro, que sejam tão leves quanto possível, que em geral também ocorre a estes atravessar por crises pessoais que arrastam toda a família num redemoinho de insatisfações.

Marty não é um garoto genial, sua diferença dos outros é a inquietude, a inconformidade com a mediocridade dos seus, assim como a curiosidade que o levou à amizade com o inventor. Ele transcende seus contemporâneos, mas apenas por ser o melhor que um adolescente pode ser: capaz de olhar o estabelecido como se não precisasse ter sido do jeito que foi, nem ser para sempre assim. É a possibilidade e mesmo a compulsão para questionar, para criticar os adultos, pela necessidade de afastar-se e diferenciar-se deles, que faz dos adolescentes (pelo menos os mais interessantes entre eles) os portadores de alguma energia de transformação. Nesse caso, não deixa de ser uma forma de sabedoria, ele é o mais lúcido de sua família, e, portanto, o único capaz de modificá-la.

O cientista maluco é aquele que oferece os instrumentos para a finalidade desse jovem, ele equivaleria ao ajudante mágico tão comum nos contos de fadas, inclusive pela sua presença em outras etapas da jornada, tal como é comum nesse tipo de personagem. Na história de Marty, a viagem no tempo, um velho sonho da ficção científica, fica a serviço de objetivos reduzidos ao universo doméstico, pelo qual é possível visualizar os mecanismos dos votos que depositamos na união das promessas da juventude com as da ciência.

Em relação ao futuro, o horizonte do presente sempre se mostra estreito, pois o futuro é potencial irrestrito, nele cabem todos os sonhos. Viver uma vida é ir vendo reduzir-se o prazo do futuro que nos é reservado, cada década transcorrida é surrupiada de um tempo no qual não estaremos mais aqui para aproveitar e testemunhar. Já o passado, pode muito bem ir sendo re-interpretado, as memórias podem ir se alinhando de forma diferente conforme a narrativa que se faz delas, isso é uma das tarefas centrais de uma análise. A única ressalva para essa liberdade de reescrever a própria história está em que os fatos em si, como doenças, suicídios, acidentes, abandonos, separações, falências, nascimentos, não podem ser suprimidos. Podemos silenciar, tentar esquecer, ignorar, mas eles continuarão existindo e produzindo efeitos. Se bem o futuro se encolhe com o tempo, o passado cresce proporcionalmente. O tempo, portanto, é a dimensão aonde vamos nos deparar com nossos maiores medos, esperanças e, especialmente, com nossa limitação.

Depois de adultos é mais fácil projetar nossos sonhos naqueles cujo reservatório de futuro é maior que o nosso, identificamo-nos com crianças e jovens, como faríamos com qualquer herói que transcendesse nossas incômodas limitações. Mais do que invejar seu potencial, esperamos deles o mesmo que Marty fez com seus pais, que eles revertam nossos fracassos com o sucesso e o conhecimento que poderão contrabandear do futuro para nós.

Esquecemos que nossos descendentes padecerão dos mesmos fardos que qualquer humano, os pais são parte desse passado que pesa sobre os filhos. É dos antepassados, tanto imediatos como remotos, que provém as determinações para as escolhas que farão. A liberdade total de caminhos, que se associa à juventude na fantasia dos adultos, absolutamente não existe. Ao fazer suas escolhas, os adolescentes não são obrigados a seguir os destinos que o inconsciente familiar lhes impõe, mas é inevitável que negociem com esse acervo que os marca, que lhes produzirá sintomas, inibições, mas também modelará seus sonhos. O passado não pode ser suprimido, ele pode ser melhor compreendido, revisto, questionado, narrado de outras formas, só não poderá ser apagado. Não carece mandar nossos filhos para o passado, até por que ele já está, admitamos ou não, impregnado neles.

Ninfomaníaca: erotismo ou pornografia?

A diferença entre erotismo e pornografia não é estética nem quantitativa, é da posição ocupada pelos amantes.

Cada tanto essa polêmica retorna, se uma obra seria pornográfica ou, caso tenha pedigree intelectual, ou ainda griffe de autor, seu charme nos levaria à arte erótica. A coincidência da atual leva de filmes como, Azul é a cor mais quente (A. Kechiche), Ninfomaníaca (Lars von Trier) e Tatuagem (Hilton Lacerda), relançou a discussão. O senso comum tende a ver a diferença entre pornografia e erotismo em termos de bom gosto, linguagem sofisticada, enfim, sutilezas dentro de um mesmo espectro. Se o autor foi feliz em ganhar um público culto é uma obra erótica, se ficou no escuro da internet é pornografia.

A psicanálise abre possibilidade para outra posição: a pornografia é facilmente identificável. Essencialmente a temos quando a fantasia sexual é vendida com a ilusão de que todo sexo é fácil, barato e sem culpa. Na pornografia o encontro do desejo com o objeto é plano e bem resolvido, encaixe perfeito. Em outras palavras, quando as inibições ficam momentaneamente esquecidas e imaginamos que podemos gozar sem envolver nossa engrenagem neurótica. Já a erótica nos vende uma excitação sexual sem o recurso do atalho: nela, cena sexual segue sendo escorregadia, como a real, é um flash que momentaneamente se abre para em seguida declinar. A erótica carrega a plausibilidade e a descontinuidade do real enquanto a pornografia é pura imaginação sem barreiras e a ilusão de um gozo sem fim.

No início de Azul é a cor mais quente há uma cena de sexo entre duas mulheres que vem causando paradoxais comoções. Entre os incomodados estão os homofóbicos e conservadores, mas também há algumas lésbicas que se declararam mal traduzidas. Ou seja, desde pontos de vista antagônicos, o filme vem proporcionando debates. Quanto a Ninfomaníaca, que aborda a compulsão sexual de uma jovem que transa no atacado, a reação tem sido mais forte do que seu recente similar masculino, Shame (S. McQueen), sobre um homem com uma vida sexual igualmente ativa e à deriva.

Ao contrário do best seller Cinquenta tons de cinza (breve nos cinemas), essas obras não se prestam a fantasias masturbatórias. Ao contrário: o filme de Lars von Trier, por exemplo, apesar do sexo explícito, não serve para animar casais sem entusiasmo, nem sequer atividades solitárias. Joe, a personagem de Trier, conta suas aventuras sexuais para um circunspecto senhor que a encontrou machucada na rua e lhe deu abrigo. Eles discutem sobre a culpa dela, da qual o bom homem tenta aliviá-la, sobre o perigo de misturar sexo com amor e a suposta frieza da auto-declarada ninfomaníaca. A solidão dela, os incansáveis encontros, seu olhar insistente de busca e sedução, são mais tristes do que provocantes. A sexualidade de Joe parece-se muito mais com a vida real do que os encontros estereotipados dos protagonistas do livro de E.L. James. Mesmo assim, para desilusão das lésbicas que não se sentiram retratadas (outras sim, viram-se representadas), o cinema, mesmo quando se aproxima da nossa natureza neurótica, mostra um sexo visto de fora, pelo buraco da fechadura.

Do ponto de vista do espectador voyeur, a cena sempre será mais convincente do que o ato em si, pois as lacunas são completadas pela sua fantasia, que enxerga o que quer ver. São essas mesmas fantasias que ajudam e atrapalham a verdadeira vida sexual: ajudam porque é para realizá-las que o desejo se acende; atrapalham porque, embora o prazer seja possível e acessível, sempre é ameaçado pelas armadilhas do medo, das ambiguidades e inibições, fazendo com que os fatos sempre fiquem em dívida com os ideais.

Erotismo e pornografia não se diferenciam por uma questão quantitativa, sendo um mais explícito que o outro, há uma questão qualitativa em jogo. Na definição de Georges Bataille, no livro denominado O Erotismo, a fantasia erótica está associada à possibilidade de entrega, de dissolução de limites, algo mais próximo do encontro letal no clássico japonês Império dos Sentidos (N. Oshima, 1976). Para Bataille, “somente o sofrimento revela a inteira significação do ser amado”, pois na dor da paixão fica claro que ao mesmo tempo em que se conquista o outro perde-se o eu.

O sofrimento a que ele se refere é a consciência de que estamos rodeados de gente mas condenados a ficar sós, a sentir-nos incompreendidos, exatamente como a triste e solitária Joe. Ou seja, quando ganhamos o outro perdemos a nós mesmos, ficando, portanto, inevitavelmente insatisfeitos. Numa gincana de corpos que se desnudam e acoplam, a personagem de Trier segue em busca do que nunca encontra: do tempero do sexo, sua suprema graça. Talvez seja mesmo para provar a impossibilidade do encontro que ela tanto se empenhe, revelando-se uma mulher fria, distante, como a própria mãe.

O horror que as cenas de sexo explícito desses filmes têm causado intriga principalmente àqueles que se perguntam por que imagens de igual impacto envolvendo violência não são condenadas. Não é tão difícil entender essa diferença de pesos e medidas, pois a violência é uma forma de dominação, enquanto o erotismo é seu oposto, seu prazer depende do grau de entrega. A violência, principalmente o assassinato, corresponde ao absoluto controle sobre o outro. Quem tem a vida alheia nas próprias mãos nunca se arriscará a cair sob seu domínio, fascínio ou influência. Nada é mais temido do que perder-se no outro, experiência que todos têm e que remonta nossa condição infantil de inermidade, dependência e desamparo.

As obras de cunho pornográfico são as que aproximam o sexo da violência, no sentido em ambos o outro está sob controle. Nelas os parceiros respondem maciçamente ao desejo do outro, um sempre tem o que o outro quer, comportam-se como previsto, não há desencontros ou dificuldades em fazer o outro gozar.

Outra fonte de desagrado é a explicitação do gozo feminino ativo, da busca da mulher por um prazer que, conforme as convenções, deveria ser provocado nela, sem deixar clara sua vontade. A posição feminina, quer ela seja ocupada por um homem ou uma mulher, está associada à fantasia de passividade: só um desejo deveria orquestrar a cena, o ativo, masculino. No filme de Trier, Joe é uma caçadora, os homens suas presas certeiras, cada um para formas diversas de satisfação, e isso revela uma face indigesta do desejo feminino.

Mais uma vez, as mulheres pagam o preço do passado de todos nós, devem calar sua vontade, por serem potencialmente “a mãe”, cujo poder é o mais temido de todos. Ela encarna a ameaça de ser devorado, descartado ou insatisfatório. Longe desses riscos, na pornografia evidencia-se um desejo que parece ser masculino, mas se sobrepõe ao gênero: tudo funciona a contento, os gritos dela (ou do parceiro “feminino”) confirmariam a potência do membro “másculo”, ativo, do casal.

Em suma, Ninfomaníaca não é pornográfico, porque é muito próximo da nossa sexualidade neurótica. Não é erótico, já que é cético quanto às ilusões amorosas de perder-se no outro. É drama, como dramáticos somos, dentro e fora dos lençóis.

(publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora em 25/01/2014)

Um tempo de homens que amam as mulheres

Fora dos clichês do feminino, mas dentro da tradição do romance policial, Lisbeth Salander é uma vitória feminista.

Detetive mulher como ela, nunca foi vista. A soporífera Miss Marple deve estar furiosa em seu túmulo. Aliás, muitos diriam que ela sequer é feminina: destemida, franzina, tatuada e cheia de piercings, aparência andrógina, bissexual assumida, sempre em guarda, carente de empatia. A fragilidade de sua figura não sugere nenhuma delicadeza, Lisbeth Salander foge totalmente aos estereótipos do gênero. Mas sim, ela é mulher, de um tipo em expansão, levando o território do feminino e da novela policial por novas trilhas, seguidas com entusiasmo por um vasto público. Essa proeza é obra de um escritor sueco, Stieg Larsson, jornalista engajado, feminista convicto, que morreu cedo, sem saber do estrondoso sucesso de sua trilogia Millenium.

Depois dos milhões de exemplares vendidos em todo mundo e dos filmes suecos, chegou a vez de Hollywood mostrar sua versão da série. No que essa história tanto agrada? A trama é boa, o herói, o jornalista Mikael Blomkvist, é um sujeito incorruptível, interessado no bem comum, contra o capitalismo selvagem e as falcatruas que ocorrem nos cantos escuros. Estávamos carentes de bons heróis, com legítima preocupação social. Porém, acreditamos que é na personagem da jovem detetive Lisbeth que reside a novidade e o segredo cativante da história.

Os livros da trilogia buscam desvendar uma série de crimes, mas o verdadeiro desafio é descobrir a história da própria Lisbeth, a origem de seu heroísmo fora de esquadro. Dos ótimos filmes suecos (Niels Oplev, 2009, o primeiro nas locadoras), infelizmente só estreou no Brasil um episódio. Os americanos providenciaram um remake, como de hábito. No lugar do charmoso e nada bonito repórter do filme original, entra o galã Daniel Craig, questão de gosto.

Na história de Larsson, o repórter investigativo Blomkvist vive o pior momento de sua carreira após ter sido vencido pelos advogados de um magnata ignóbil, cuja corrupção havia denunciado. Pontos fracos de sua investigação viabilizaram essa derrota e a revista da qual era editor chefe também teve seu prestígio abalado. Sente-se desacreditado e está financeiramente quebrado. É então chamado por um velho milionário que o incumbe de investigar um desaparecimento, ocorrido há quatro décadas, de sua sobrinha predileta e herdeira.Um mistério que não queria morrer sem ver desvendado. Ressabiado, Mikael aceita a missão mas procura se alicerçar melhor, pois teme ver suas descobertas caírem novamente em descrédito. Para lhe proporcionar uma retaguarda técnica, uma agência de detetives lhe envia seu melhor homem: Lisbeth Salander, cuja aparição é sempre impactante.

Lisbeth é uma brilhante hacker profissional, fala pouco e intimida o interlocutor com seu olhar fuzilante. Miúda mas ágil como um ninja, une a milenar curiosidade feminina a uma mente objetiva e racional. Entre as mulheres da ficção popular, as poucas super-heroínas tendem a ter seus dotes associados aos atributos físicos, são voluptuosas como a ronronante Mulher Gato, a antiga Barbarella ou Lara Croft, nascida dos games.

Lisbeth é cerebral como Sherlock Holmes, misteriosa e poderosa como uma bruxa, mas sua mágica é terrena. Semelhante a Batman, outro herói sombrio, seus poderes são fruto da obstinação e da inteligência, assim como a motivação de ambos nasce de um grande ressentimento, o dela contra os homens que não sabem amar as mulheres. Poderia ter sido criada por Mary Shelley, pois como a criatura do Dr. Frankenstein torna-se vingativa por ter crescido desamparada num ambiente violento, no caso dela onde as mulheres são violadas e feridas, e assim como ele é feita de um apanhado de pedaços. Os fragmentos com que a criatura Lisbeth se monta provém do que outrora era exclusivo dos homens: é guerreira, estrategista, sedutora, prática e insensível sempre que necessário. Qualidades tradicionalmente masculinas, das quais uma mulher ao se apropriar acaba, ainda hoje, parecendo, a seu modo, monstruosa. O susto provocado pela imagem da detetive hacker provém do mesmo medo que levou as bruxas à fogueira: o poder feminino.

A mulher sempre foi temível por deter os segredos de alcova, calcanhar de Aquiles da grandeza dos seus homens. Os bastidores foram seu reino, seu poder provinha exclusivamente da vida privada, onde se oculta a verdade de cada um, uma essência que a imagem pública esconde com zelo. É por isso que todos, Freud inclusive, não cessam de se perguntar o que querem as mulheres. No apreço delas residiria o verdadeiro valor de cada um, por isso devem ser decifradas, conquistadas e subjugadas.

Lisbeth e Mikael confundem os clichês dos gêneros. A bissexualidade de Salander, tão em voga, é um poder cobiçado, como se os mistérios do sexo, que nos é sempre oposto, pudessem tornar-se finalmente acessíveis. Seduz mais do que é seduzida, enquanto seu par, o “Dom Juan” Blomkvist, é que sucumbe aos seus encantos. Ele é o parceiro perfeito da nova mulher: sabe ser paternal e cuidador, mas permite-se depender dela se necessário. Ele é ético, confiável e fiel como se espera de um grande amigo, sensual e respeitoso, nunca compete com elas, as ama, admira e jamais as submete. No contraponto desse homem ideal estão os crápulas, que nos romances da trilogia são numerosos, desprezíveis, sendo que o próprio Blomkvist já sofreu nas mãos de um deles.

A grande repercussão da série é reflexo da vitória do feminismo e da democracia enquanto ideais, pois a missão da dupla é o exorcismo da injustiça e do poder do homens maus, representantes do antigo pai despótico, ditatorial, do machismo que estupra e reprime. Ao longo da história, homens e mulheres lutaram juntos, mas apesar delas costumarem somar forças às grandes causas libertárias, as pautas feministas eram sistematicamente esquecidas. Elas foram freqüentemente traídas pelos seus companheiros de luta, deixadas para trás, queixosas. Pode ser que isso esteja acabando. Blomkvist e alguns homens de seu tempo estão com as mulheres, já não as temem tanto. O maniqueísmo do romance policial, como nos contos de fadas, nos tranquiliza com a vitória do bem. Neste caso, da dignidade das mulheres.

Publicado no caderno Cultura, jornal Zero Hora, em 11 de fevereiro de 2012

Precisamos falar (ainda mais) sobre o Kevin

Trechos de nosso livro sobre a obra de Shriver, maravilhosamente reatualizada pelo filme de Lynne Ramsey. Nosso Oscar vai, sem dúvida, para ele!

Quando escrevíamos nosso livro, procuravamos detectar histórias que sintetizassem fantasias em circulação, que fossem uma espécie de síntese de sonhos e pesadelos coletivos, mitos úteis a uma época. Quanto às obras antigas, é fácil reconhece-las, pois o tempo é o melhor avalista. Foi quando surgiu o livro de Lionel Shriver, “Precisamos falar sobre o Kevin”, cuja leitura nos arrebatou, de tal modo que todo o primeiro ensaio do livro se dirige a ele, como fecho de ouro do que queríamos dizer. Após a publicação, seguíamos nos perguntando se a aposta tinha sido certa, o livro era genial, mas duraria? Se ele caísse no esquecimento, se fosse apenas um livro de época, brilhante mas passageiro, nossa reflexão sobre ele permaneceria útil? Acabamos de assistir ao filme incrível da diretora Lynne Ramsey, uma obra prima feita sobre ele. Neste momento, achamos que valeu. Boa oportunidade para recolocar a discussão em jogo, reproduzindo os trechos do livro sobre o Kevin, do capítulo que se encontra disponível on line em nosso site (http://www.marioedianacorso.com/psicanalise-na-terra-do-nunca/capitulos-online)

Um monstro no ninho: trechos do livro “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia” , Ed. Artmed, 2010.

Crianças demoníacas e monstruosas?

Em meados do século XX um novo monstro ganha terreno: o filho. Não estávamos em falta de figuras para o horror, ao contrário, nossa fantasia demonstra extrema criatividade em fabricar monstros. Qualquer novidade se incorpora ao nosso vasto bestiário fantástico, tanto que temos monstros de todos os tipos, encarnando todas as formas do medo, do horror, do inimaginável. Mas colocar as crianças, e principalmente as próprias, como monstros é realmente uma novidade.

A primeira metade desse século, convulsionado pelos massacres de duas guerras mundiais, mostrou o quanto somos capazes da destruição em massa, do caos, sem auxílios mágicos, sobrenaturais ou divinos. O mal foi dessacralizado, ele está entre nós. Foi em ventres humanos que se geraram os monstros que hoje nos assombram, e descobrimos quão longe podemos chegar. As crianças, os filhos, são caixinhas de surpresas: Curie, Einstein e Fleming foram filhos de alguém, mas Hitler, Mussolini e Stalin também!

Representações de crianças como sendo um problema, um incômodo, ou ainda como malditas, não são um fenômeno contemporâneo. Porém as histórias clássicas foram arranjando suas particulares maneiras de mascarar essas intenções, de suavizar o ataque. De forma velada, simbólica como nos sonhos, os contos de fadas narram vinganças dos grandes contra os pequenos, principalmente contra sua gula e o fardo de prover-lhes sustento. Aparecem como descartáveis comilões em João e Maria, onde são colocados como indignos de dividir o alimento com os pais, e acabam pagando caro pela voracidade de devorar até as paredes da casa de doces.

Em O Flautista de Hamelin o pedido da comunidade para livrar-se dos ratos pode ser lido como metafórico, pois as crianças também podem ser incômodas, parasitas inúteis. Não é por acaso então que o Flautista as leva embora pelo mesmo caminho trilhado antes pelos ratos. Estabelecendo uma equivalência simbólica, elas seriam nossos “ratinhos de estimação”.

Mas as crianças dessas histórias nunca se ocuparam do ofício da maldade. Na pior das hipóteses, elas constituíam uma personagem malcriada e egoísta, em contraponto com a boa alma da sua oponente, como a pequena heroína no clássico As Fadas de Perrault. A tarefa de representar o mal, de exercer a violência, o abandono, estava a cargo dos pais desnaturados, das madrastas, dos ogros carnívoros, de todos os malvados que deveriam ser responsáveis pelo seu crescimento. Os adultos eram os monstros, enquanto os pequenos eram as vítimas.

Também sempre houve filhos amaldiçoados, cujo nascimento acarretaria a destruição da família e do reino, como Édipo que desgraça Tebas, ou Paris que arruína Tróia, todas as mitologias conhecem personagens assim. O funesto destino dessas crianças estava marcado já antes do nascimento, geralmente devido a pecados cometidos por gerações anteriores, que agora vinham cobrar seu preço, arrastando seus pais e o reino para o desastre. De qualquer forma a maldade, o erro que iniciou a queda, precedia essas crianças que foram abandonadas para o bem dos pais. Como inutilmente fizeram Laio e Príamo, quando descartaram seus filhos, assim que souberam das profecias.

Em todas as histórias antes mencionadas, na dúvida entre uma geração e outra, os pais escolhiam a própria sobrevivência. Essa opção não é tão estranha em outra época ou culturas, como o é para nossos contemporâneos. Para nós, a proteção da criança é prioridade máxima, sendo a maternidade e a paternidade valores sociais muito importantes. Essa valorização é recente, data de poucas centenas de anos, quando o discurso moral e pedagógico passou a investir na sobrevivência e formação das gerações futuras, assim como a evolução sanitária lhes facilitou a sobrevivência. Antes, mais valia um adulto na mão do que várias crianças voando. Criança era um cidadão incerto, adulto era certíssimo.

Como para cada ação há uma reação, na vida e na ficção, vamos examinar como a atual exaltação da importância das crianças, e do papel dos pais, acarretou uma contrapartida, uma reação inconsciente, que está na origem de fantasias onde se atribui às crias humanas um valor negativo. Impedida de se exercer no discurso corrente, pois elas seriam o tesouro e a promessa da humanidade, a ambivalência em relação às crianças refugiou-se no território da fantasia.

Os exemplos são múltiplos, as fantasias de crianças-monstros estão bem disseminadas, mas escolhemos algumas, não necessariamente as melhores, mas as que fizeram um sucesso inequívoco. Sua popularidade, traduzida em permanência e difusão, nos indica que produziram algum eco social. A vantagem adicional é que contaremos com um acervo de histórias que é compartilhado, afinal, muitos as conhecem ainda que parcialmente.

Examinaremos uma vertente das fantasias relacionadas às crianças: sua origem, histórias aterrorizantes envolvendo a concepção, o parto e a criação de um monstro. Por isso, a mulher, a mãe, é uma personagem envolvida de forma inevitável. Ela surge enquanto vítima, oponente, protagonista ou causadora do mal, ou enquanto todas essas ao mesmo tempo. Consideramos que são obras eloqüentes desse viés, a gestação invasiva, satânica e alienante em O Bebê de Rosemary; o “parto” que irrompe e mata em Alien; o filho como um estranho no ninho, um cuco demoníaco, em A Profecia; ou o horror, desesperadoramente humano, presente no livro Precisamos falar sobre o Kevin.

Todos eles são alusivos, de forma direta ou indireta, à gravidez conturbada e à chegada dum filho monstruoso. Inevitável pensar, que junto ao filho maligno estamos indiretamente exorcizando sua coadjuvante inevitável, a fêmea humana, que no século XX tornou-se tão outra, tão diferente daquilo que nos séculos precedentes acostumou-se a chamar de mulher.

(da Introdução do capítulo 1, pg.29)

Um demônio demasiado humano: Precisamos falar sobre o Kevin

Para a psicanalista Helene Deutsch, há diferentes tipos de maternidade, que ela divide basicamente em dois grupos: um tipo é a mulher que desperta para uma nova vida através de seu filho, sem ter o sentimento de uma perda. Tais mulheres desenvolvem seus encantos e sua beleza somente depois do nascimento de seu primeiro filho; o outro tipo é a mulher que desde o princípio sente uma espécie de despersonalização na relação com seu filho; tais mulheres dedicam seus afetos a outros valores (erotismo, arte ou aspirações masculinas) ou esse afeto é demasiado pobre ou ambivalente em sua origem e não pode tolerar uma nova carga emotiva; o primeiro tipo estende seu eu através da criança, o segundo sente-se limitado e empobrecido1. Datado de 1944, o livro de Deutsch encontra ainda as mulheres em papéis sociais mais rígidos. Hoje, os dois tipos que ela teoriza convivem em cada mulher, junto com todas as nuances intermediárias entre eles. Em um livro chamado Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver2, uma escritora norte-americana, a literatura produziu um exemplo do que seria o segundo tipo de mulher. Nesse livro vamos encontrar a mesma trama de estranhamento anteriormente discutida, mas sem o apelo do demoníaco.

Aqui estamos sem máscaras religiosas ou fantásticas, face a face com as fantasias mais monstruosas encenadas por gente comum. Justamente, essa novela assusta por evocar “a vida como ela é”. É uma história ficcional, narrada pela mãe de um “garoto columbine”, como ficaram chamados os meninos assassinos que matam vários colegas de escola. Seu primogênito, Kevin, realizou um morticínio múltiplo, friamente calculado, de onze pessoas. Entre os mortos figura a vida pública da mãe, obviamente destruída após o evento.

Como muitas mulheres de nossa época, essa mãe não tinha pouco a perder: levava uma vida bem interessante quando a maternidade a deportou para um mundo desconhecido, cheio de novas regras e exigências. Numa espécie de idealização da vida da mulher independente, avessa à rotina encerrada e monótona da dona-de-casa, a personagem de Eva Katchadourian é uma nova-iorquina, escritora de guias de viagens para jovens, portanto, uma viajante profissional, culta e próspera. No campo amoroso ela é apresentada como igualmente bem sucedida, vivendo um casamento romântico com um homem atraente. Porém, não foi com os crimes cometidos pelo filho que a derrocada dessa vida idealizada de mulher livre começou, foi com seu nascimento, ou melhor, já durante a gestação.

Como sua homônima, a personagem bíblica, condenada a padecer após a expulsão do paraíso, Eva gestou e pariu com dor. Seu relato da experiência é tocante, o corpo começa a assumir outras cores, os seios lhe parecem ubres, a vagina, outrora fonte de prazeres, se tornou caminho para alguma parte, um lugar real, e não apenas para uma escuridão na minha cabeça. Queixa-se de ser um instrumento biológico, seu corpo deixa de ser propriedade privada, tudo o que me fazia bonita era intrínseco à maternidade, e até mesmo meu desejo de que os homens me considerassem atraente era uma maquinação de meu corpo projetada para expelir seu próprio substituto. Cruzada a soleira da maternidade, de repente você se transforma em propriedade social, no equivalente animado de um parque público. Como se vê, a obra é farta em sinceridade quanto às fantasias e contratempos da gravidez.

Corroborando seus temores, o marido de Eva a congratula pela gestação: bem vinda à sua nova vida! Nessa nova vida, sendo que ela gostava muito da velha, ela não escolherá mais como administrar seu tempo, sua alimentação. Suas prioridades serão as do feto, e ela descobre isso logo de entrada. Como uma princesa da ervilha, queixa-se do incômodo da situação: já estava me sentido vitimada, como se eu fosse uma princesa, por um organismo do tamanho de uma ervilha.

Eva desejou vagamente uma boneca, um bicho de estimação, um amigo imaginário, um substituto permanente do marido quando ele se ausentava, um troféu de sua relação, porém nasceu-lhe um novo papel social e um amo monstruoso. A vida anterior, da mulher bem sucedida e sem filhos é o paraíso perdido. Paradoxalmente, neste caso a tentação não veio da ruptura, da curiosidade e irreverência que sempre tornaram as mulheres tão perigosas. A tentação que provocou a expulsão de Eva veio do passado: desempenhar o mais tradicional papel feminino, a maternidade.

Não somos nós, é ela própria que se coloca na linhagem das mães de monstros, de que aqui nos ocupamos, ao descrever sua gestação assim: Já reparou quantos filmes retratam a gravidez como uma infestação, uma colonização sub-reptícia? O Bebê de Rosemary foi só o começo. Em Alien um extraterrestre nojento sai da barriga de John Hurt (…) Durante todo o tempo em que estive grávida de Kevin, combati a idéia de Kevin, a noção de que eu havia sido rebaixada de motorista a veículo, de proprietária a imóvel em si 3.

Uma vez nascido, o bebê Kevin foi visto pela mãe como possuindo uma personalidade própria, pré-existente, e destinada a se desencontrar com a dela. Ao contrário do marido, que esperava um filho genérico, tendo um papel pré-estabelecido para qualquer um que nascesse, para Eva não havia lugar nem para o feto idealizado. Desde o começo estabeleceu-se um duelo de subjetividades, uma tensão entre diferentes. Ele rejeitava seu leite, cujo sabor não suportava, sequer na mamadeira que tomava exclusivamente no colo do pai, chorava de forma incessante, alheio ao conforto de seus braços. As intermináveis gritarias de cólica pareciam ser exclusivamente para sua mãe, pois cessavam no instante em que o pai entrava em casa, e Eva via nisso uma intencionalidade maligna contra si.

Na primeira infância, Kevin negou-se a falar o quanto pôde, embora a mãe suspeitasse que ele estava apto para fazê-lo, e obrigou-a a lhe trocar fraldas até os seis anos, num descontrole esfincteriano que ela compreendia como mais uma forma de controlá-la, uma disposição do filho de obrigá-la a viver entre as fezes. Com o pai mantinha uma relação apagada, blasé, com a mãe de cotidiana tortura. A cumplicidade entre mãe e filho, na qual só ela parecia perceber a sordidez do espírito de seu pequeno monstro, só fez aumentar. O pai surpreende-se com as queixas da esposa, para ele Kevin era absolutamente normal, mas ela tinha certeza que isso era assim para que ela passe por louca.

A vida segue, as babás se demitem sucessivamente, os amigos o evitam, os professores o acham bizarro e ele se isola. O menino é diabólico a ponto de jamais ser pilhado, nunca é punido, faz a todos de bobos, principalmente o pai, que nunca vê o que não quer ver. A demonstração de sua perversidade só veio se comprovar com o desenlace do massacre final.

Após o banho de sangue, Eva e Kevin terminam vivendo um para o outro, continuando sua simbiose às avessas, dedicando-se e odiando-se mútua e intensamente. Nada mais lhes resta senão viver reclusos, ela transformada num fantasma, uma sombra do que fora, entocada em casa, apenas aguardando a próxima visita à penitenciária local onde ele cumpre pena pelos assassinatos. Justo ela, que sentia-se mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia4.

Entre a mãe de Damien e a de Kevin há algo em comum, é o complexo de cuco. Embora parido das suas entranhas, Kevin é um ser com idiossincrasias próprias desde seu nascimento, cuja missão foi realizada: destruir a identidade de Eva. Damien, o menino-demônio, não descansa enquanto não elimina sua progenitora, ele não quer uma mãe, quer uma adoradora dedicada, uma fanática sem personalidade como sua babá Mrs. Baylock.

Embora não tenha empreendido o projeto da maternidade contrariada como Eva, a mãe de Damien também acaba sofrendo. Ela estranha-se da personalidade e frieza de seu menino, não consegue sentir com ele a conexão que supunha que existiria. Ambas suspeitam que haja algo de errado com seus meninos. O mais antigo, o diabo, ele tem suas razões, quanto a ele não é preciso angustiar-se, pois as forças do mal que podem fazer de um filho o algoz dos pais, estão além da vontade humana. Mas esse alívio moral não existe no livro de Shriver.

Na história de Kevin a mãe foi processada e condenada pelos pais das vítimas do massacre, a sociedade a fez pagar, privando-a totalmente de seu patrimônio e prestígio, pelos crimes do filho. É sua frieza, a incapacidade de ser mãe, a grande acusada pelos crimes do filho. Essa é a maior vitória dele, afinal, destruí-la era o que ele mais queria.

No livro, cada fiapo do tecido da ambivalência do amor materno é rastreado, assim como as contradições entre a maternidade e a liberdade das mulheres. Tampouco o pai sai pagando barato, é descrito como um cidadão típico americano, fútil e superficial, cujo ofício era buscar locações para serem cenários de comerciais. Na vida familiar é exatamente assim que ele se comporta, como alguém que apenas descobre o local, ele não cria nada.

Quanto a Eva, sua profissão também é metáfora de seu modo de vincular-se: para escrever seus guias, ela investiga formas, lugares e dicas para que as pessoas possam circular pelo mundo gastando pouco e incomodando-se o menos possível. Passar muito trabalho, gastar demasiado dinheiro, ou envolver-se em contratempos, não é uma boa forma de viajar, mas são percalços inevitáveis na vida cotidiana.

Viagens incluem revezes, mas eles não devem incomodar muito além de conexões perdidas, noites mal dormidas ou refeições ruins, não chegam aos pés dos sofrimentos que se pode ter quando no trabalho, no amor ou na família ocorrem fracassos, rupturas e dores. Viajando, andamos por lugares em que ninguém nos conhece, onde nada se espera de nós e procuramos extrair o máximo de prazer da forma menos dispendiosa possível. Eva conseguia viver assim, mas não havia jeito de ser mãe com esses critérios.

Na visão do pai, Kevin cumpria o papel social do filho, era um cenário, independente de quem ele fosse, enquanto Eva faria o da mãe, apesar de quem ela havia sido. Onde ela via alguém no filho, apesar de demoníaco, ele somente observava o clichê que queria ver, ficando ainda mais distante dele do que a mãe.

Os assassinatos cometidos por Kevin5, de certa forma, fazem valer o nome da mãe. Numa estranha negociação, Eva e o marido haviam decidido que caso o filho fosse menino, ele teria o pré-nome escolhido pelo pai e carregaria o sobrenome materno, Katchadourian, que é de origem armênio. Ela argumentou que seu povo foi cruelmente massacrado e por isso mereceria ser homenageado com a nomeação de seu filho6.

Na ausência de um pai que reivindicasse um papel maior, assim como do pai de Eva pouco sabemos, o menino tomou para si, literalmente, a herança desse massacre. Apenas mudou de lado, de vítima, passou para a posição de algoz, como se fosse um armênio que vingasse seu povo. Kevin sempre parece tomar as coisas de forma literal, como o fazem as crianças e adultos com graves perturbações psíquicas.

Uma mulher sem filhos, pode sentir-se “desfilhada”, como disse certa feita uma paciente que havia passado por múltiplas e sofridas experiências de abortos provocados. Em suas associações, essa expressão reverberava enquanto alguém que carecia de uma filiação, era “desfiliada” de uma família, por não tê-la continuado. Filiar-se a uma linhagem, ao inserir seu filho nela, pode fazer parte de um pacto entre uma mulher e um homem, a partir do qual eles criam algum projeto para seu descendente. A característica da negociação entre os pais de Kevin a respeito de seu nome determinou que ele tivesse que apegar-se a algum traço, de preferência materno, para fazer-se elo, conexão, entre uma origem, uma família, o passado de um povo, e um projeto de futuro, o seu futuro. Kevin é filho de um pai-cenário e uma mãe-viajante, entre eles não há síntese.

Para delinear um papel na vida, para fazer seus planos, um filho inspira-se em suas origens. Ele pode fazer isso a partir daquilo que orgulha ou mesmo do que envergonha a seus pais e antepassados, pode tomar essa base para continuá-la ou para romper com ela, mas sua família sempre cumpre algum papel. Será melhor se isso lhe for transmitido de alguma forma explícita, senão tentará fazer sua versão, fazer-se elo de uma linhagem de algum jeito, não necessariamente de forma patética como Kevin.

A recusa de uma mulher à maternidade parece ser a ameaça visível à continuidade das famílias e o livro de Shriver é um exemplo das fantasias geradas por esse medo, do quanto isso soa ameaçador e teme-se que custe caro para a mulher e para a sociedade. Eva é incriminada pelos assassinatos de Kevin, assim como a sociedade teme as monstruosidades que podem advir da ausência do amor materno. Em suma, esse livro une-se ao coro dos que têm maus presságios sobre a falta de pendor de muitas mulheres para a maternidade. Em histórias como essa, as monstruosidades provém das mães contrariadas, por isso Eva é habitante do inferno, porque o esse filho endemoniado teria sido obra sua. Por outro lado, pode funcionar como um alerta contra a coerção social que mobiliza todas as fêmeas humanas na direção da procriação: cuidado, se elas forem forçadas, um monstro pode estar sendo gerado!

Sentimos alívio ao final das obras policiais, quando fica claro quem é o culpado e quais foram suas motivações. Essa é a função desse tipo de novela, circunscrever o mal para que possamos livrar-nos dele. Por isso, frente ao deslocamento que ocorre nessa obra, da origem do mal do diabo para uma vaga psicogênese, assim como do papel do assassino do anticristo, para um filho enlouquecido pela rejeição inconsciente dos pais, ou por qualquer outra sutileza, fica difícil dormir em paz.

1 Deutsch, Helene. La Psicologia de la Mujer, Parte II – Maternidad. Buenos Aires: Ed. Losada, 1960, Pg. 59.

2 Shriver, Lionel. Precisamos falar sobre Kevin. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2007.

3 Ibidem, pg 66, 67, 69, 71 e 76.

4 Ibidem, pg. 45

5 O livro de Shriver contém uma chave na trama, que nos absteremos de analisar para não estragar o prazer da leitura para aqueles que ainda não a fizeram.

6 Também conhecido como “Holocausto Armênio”, iniciado em abril de 1915, foi o extermínio sistemático dos armênios residentes na Turquia, punidos pela intenção de constituir uma pátria autônoma. Esse é considerado um marco histórico na experiência do genocídio, pela sua documentação e pelas provas da intenção deliberada de bani-los da face da terra. Acredita-se que morreram 1,5 milhões de armênios nesse genocídio. É interessante observar como nessa ficção o pequeno monstro é conectado com uma das experiências paradigmáticas do mal, aquele para o qual não necessitamos de mensageiros sobrenaturais, do qual nós humanos nos incumbimos pessoalmente.

O menino do pijama listrado

Sobre o filme, postado por Mário e Diana

Geralmente questionamos as indicações dos críticos de cinema, sobretudo quando se trata de filmes infantis. Essa nossa desconfiança básica ganhou um reforço quando a cotação de ”O  Menino do Pijama Listrado” na Folha de São Paulo saiu como péssimo. 

Continue lendo…

10/01/09 |
(0)

Yabba – Dabba – Doo, os Simpsons chegaram!

Sobre o filme Os Simpsons e sobre a família do século XXI

Imagine algo que passe a seguinte mensagem: os norte-americanos são ignorantes; não passam de um povo consumista e impulsivo; sua polícia é idiota e truculenta; os políticos são despreparados, corruptos e oportunistas; o judiciário perde-se em questões irrelevantes; o ensino é deficiente; a população é mal-educada e grosseira; a religião é de fachada e retrógrada; os executivos só pensam em lucro e são os verdadeiros donos do poder; a hipocrisia é a tônica das relações sociais, além disso se alimentam como porcos, bebem demais e estão poluindo descaradamente o planeta. De quem é esse discurso?

Continue lendo…

Nárnia: crônicas da infância em tempos de guerra

Sobre o filme As Crônicas de Nárnia, intersecção entre fantasia e história

Estamos na Segunda Guerra, Londres é intensamente bombardeada, não há casa segura. O governo tenta minimizar as perdas humanas evacuando as crianças para as áreas rurais. Especialistas são convocados para saber qual a idade mínima para afastar mãe e filho sem danos irreversíveis. Os psicanalistas Winnicott e Bowlby acreditam que até os dois anos de idade é melhor expor-se aos bombardeios do que se separar da mãe. O resto das crianças vai para o interior, mesmo que em situações improvisadas. Dos males o menor. Esse é o pano de fundo do primeiro movimento do filme As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa dos Estúdios Disney, que conta o primeiro livro do universo de C. S. Lewis.

Continue lendo…

Anatomia de Harry Potter

Interpretação psicanalítica dos livros de J. K. Rowling

Harry Potter revelou uma massa de crianças leitoras, cujos números não cansam de ser citados (quantas páginas, traduções, exemplares), porém as razões para tamanho apreço de seu público não foram suficientemente explicadas. Podemos dizer o óbvio: é bem escrito e a autora não cai na cilada comum de considerar as crianças como menos exigentes para com a literatura. As histórias são complicadas, com personagens complexos, viradas surpreendentes e todo um universo de fantasias criado para uso exclusivo do livro. Bem, outros autores já fizeram isso e nem sempre com os mesmos resultados, afinal, criar dimensões mágicas é  lugar comum na literatura para esta idade. Então, o que faz a diferença?

Continue lendo…

O Sexto Elemento

Sobre o filme Quinto Elemento de Luc Besson

Muitos hoje se perguntam por que trazer crianças a um mundo tão violento, porque continuar a desenvolver uma condição humana que cada vez mais revela-se egoísta e cruel. Em nome de que valeria a pena seguir vivendo e apostando na humanidade? É em torno destas questões gira o filme O Quinto Elemento (dirigido por Luc Besson, 1997).

Continue lendo…

19/01/01 |
(2)

Quem tem medo de Disney World?

Estudo psicanalítico do imaginário Disney

Com o passar dos anos, precisamos adaptar o olhar de modo a perceber que a literatura e a mitologia talvez não tenham perdido espaço, acreditamos que elas buscam outros caminhos para manter sua eficácia, este texto é uma tentativa de seguir uma destas trilhas.  Podemos muito bem alardear o simples desaparecimento das formas tradicionais de transmissão cultural e lamentar o vazio deixado pela falta das narrativas orais, do convívio com a família extensa, etc.,  e não estaremos equivocados. Porém, pensamos que devemos buscar os atos de preservação do acervo discursivo da nossa cultura lá onde se encontram  hoje, sob pena de dizermos que desapareceu algo que apenas mudou de lugar.         

Continue lendo…