Comportamento
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Corpos ilustrados e enfeitados: tatuagens e marcas corporais (por Mário e Diana Corso)

A cuidadosa arquitetura do corpo, hoje imprescindível na construção da identidade.

Tatuagem é vestimenta definitiva, é um adorno perene. Quando alguém se tatua, é comum ser alertado dos perigos do arrependimento, pois livrar-se dos traços colocados sobre a pele é difícil, caro e doloroso. Porém o aviso é inútil, pois o efeito que se quer produzir com a tatuagem é justamente o de ser um traço que não pode ser apagado ou ignorado. Da mesma forma, piercings e alargadores de orelhas, assim como escarificações e outras modificações corporais visam introduzir enfeites ou marcas que passem a fazer parte do corpo, diferentes dos enfeites e joias dos quais é previsível e possível se despir. Por que teriam eles se tornado tão comuns e característicos dos jovens, assim como em alguns adultos, constituindo um fenômeno que não dá mostras de arrefecer?

Fazer inscrições, traços e alterações decorativas definitivos na pele não é de hoje, é impossível datar seu começo e os usos são os mais variados, desde diferenciar clãs entre uma população até marcar crianças para serem reconhecidas em caso de rapto. O uso do corpo para portar mensagens simbólicas com cicatrizes e pigmentos é transcultural e milenar. Durante muito tempo, em nossa civilização, houve um declínio dessas manifestações dado o predomínio das influências religiosas. Especialmente as tatuagens costumavam ser de uso não mais que eventual na população em geral, embora tenham se mantido presentes nos grupos marginais e em instituições fechadas. Por isso, fora raras exceções, um corpo marcado tenderia a ser pensado como fora do sistema.

Durante as últimas duas décadas vemos uma mudança significativa quanto ao uso da superfície corporal para fins estéticos e ou simbólicos. Especialmente entre os jovens há um grande incremento de tatuagens. Os piercings acompanharam a tendência, e em menor escala, mas nessa mesma direção, as escarificações para fins decorativos e os implantes subcutâneos.

Tentaremos entender esse fenômeno dentro de um contexto maior quanto à significação que o corpo ganhou nos últimos tempos. Nossa questão é descobrir o que mudou: estaríamos apenas diante de um uso mais livre, como se nos reapropriássemos de nossos corpos depois de um inverno de repressão religiosa, ou existem novidades no estatuto do uso do corpo como apoio à subjetivação?

É difícil fazer interpretações generalizadoras quanto à disseminação dessas formas de uso da superfície corporal, no entanto, acreditamos que certas linhas de força podem ajudar a entender o fenômeno. Analisaremos aqui três questões que nos aproximam da compreensão do crescimento da prática das marcas corporais.

Primeiro, o corpo nos parece ser hoje palco imprescindível na construção da identidade, com maior importância do que já teve. Fazer-se a si mesmo, passa por uma cuidadosa arquitetura do próprio corpo, ao qual serão agregados os valores e, portanto, as modificações necessárias para a identidade que se quer, ou se consegue portar. Por isso, cada vez mais os enfeites serão pensados como parte indissociável de si, constitutivos, formadores de personalidade. Consideramos a tatuagem como uma forma de inscrição na pele de conteúdos que se sente prazer de ressaltar, mostrar, ou que têm maior necessidade de consolidar-se no interior do sujeito. Aqui estamos no terreno do caso a caso, não existem simbolismos fixos, cada marca corporal vai ter um significado para cada sujeito.

Segundo, acreditamos que a pele demarcada pelo seu dono constitui uma forma de fazer resistência ao olhar invasivo da sociedade atual, pois hoje nos é imposto transitar com os corpos perfeitos e seminus. As liberdades que conseguimos para várias coisas, não se estabeleceram ao nível do corpo, ou mesmo houve um retrocesso em relação à autonomia possível. Vemos nas últimas décadas um incremento de exigências dirigidas a um corpo que deve ser trabalhado e disciplinado. Portanto um olhar para conferir a relação dos corpos enfeitados com essas exigências seria interessante.

Por último, as dificuldades de crescimento dos jovens, que hoje vêm-se amarrados por décadas à casa paterna, criam a necessidade de colocar no próprio corpo algum limite a esse amor que não se descola deles. Trata-se de diferentes tentativas de delimitação de uma identidade, nesse caso, no limiar da pele. Esse vínculo indissociável e sufocante entre as diferentes gerações sucedeu ao conflito e ao abismo entre adultos e jovens que existia em um passado recente. Faz poucas décadas, os adultos e os adolescentes falavam línguas diferentes, praticavam costumes diversos e viam-se com os olhos críticos do choque entre culturas. Hoje, herdeiro da estética unissex lançada pelos Hippies, temos o que poderíamos chamar de estilo “unigeracional”. Este consiste na eliminação de traços diferenciais de diversos momentos da vida, como outrora eram as calças que com o crescimento deixavam de ser curtas.

Observamos a intensa identificação dos adultos com a geração que os sucede e o medo deles de afastar-se dos jovens. Temem ser deixados à mercê da maturidade e do envelhecimento. Os filhos têm dificuldades para sair, enquanto os pais não estão prontos para ficar longe de sua juventude. O embaralhamento das gerações e a proximidade física gera mecanismos de afastamento e diferenciação.

São três eixos, três tentativas de aproximação com algo que é tão recente, ainda em construção. É arriscado tirar conclusões sobre uma situação que ainda não teve tempo de dizer a que veio, mas vamos tentar.

Para sempre

A experiência clínica é eloquente de que as tatuagens sempre portam um sentido, porém, seu significado mais profundo e sua relação com o sujeito são múltiplos e provavelmente do tipo inefável. Pode ser uma significação consciente, mas que pede um apoio real, por exemplo, um luto em que a pessoa tatua um nome ou um signo que remete ao falecido. É comum encontrarmos tatuados o nome de irmãos que morreram jovens, assim como de pais perdidos precocemente, ou filhos que partiram sem ter tempo de terminar de crescer. Todos sabemos da dificuldade de um luto assim e a tatuagem permite uma dupla operação: o falecido não será esquecido, mas como está na pele, a cabeça pode se ocupar de outra coisas. Diríamos que a inscrição facilita o luto, pois nesses casos é necessário esquecer um pouco para seguir a vida.

Nesses casos em que a morte assume um caráter traumático, a dificuldade de assimilar algo que chega a beirar o impossível é ajudada por uma marca corporal. O medo e a necessidade de esquecer fazem com que se use um signo indelével, e fica-se sem chance de perder essa memória. Se algo não consegue entrar, se não temos um lugar para tal fato, é melhor que fique na borda do que em lugar nenhum.

Acreditamos que todos lembram que Freud dizia que a morte não tem representação inconsciente. Como nesses casos trata-se de uma representação de árdua assimilação, a marca corporal é tanto uma tentativa de simbolização como a resistência a significações quase impossíveis.

Ficando no limite da pele, as tatuagens corporais penetram, alteram a superfície, mas pouco se aprofundam. Embora passem a fazer parte da imagem, portanto do sujeito, os conteúdos representados por essas marcas, quer sejam lembranças, sentimentos, ou questões pendentes, não habitam o interior do seu portador, como o faria um pensamento, ocupando sua mente. Eles estão sempre lá, mas não passam da porta, comportam-se assim como traumas, sendo resistentes à significação, tanto quanto insistentes em sua presença.

Pensando as neuroses de guerra e traumáticas, Freud1 lembrava que os mais afetados pelo horror do que tinham vivido eram os que não portavam nenhuma marca visível[*]. Quem ficou com uma cicatriz, uma lesão, ou perdeu um membro, paradoxalmente, estava menos vulnerável às más lembranças. Ora, um dos dramas de quem passou por experiências limites é não encontrar interlocutores que tenham verdadeira empatia com suas memórias. Nesse caso a marca no corpo cristalizava o intransmissível da sua experiência de horror. Os traços visíveis do sofrimento ajudam a certificar-se de que aquilo realmente ocorreu, ou seja, aquela dor procede.

Saindo do campo do traumático, de interpretação mais direta, geralmente as tatuagens e marcas tendem a ser mais enigmáticas. São símbolos evocativos de uma trajetória, de virilidade, de feminilidade ou ainda de filiação: ressaltam algo que necessita ser visível e óbvio. Esse tipo de tatuagem costuma ser acompanhada de um discurso que a justifica mas que nem por isso a esgota. Como todo ato, fazer uma tatuagem, quando submetido à análise revela uma outra camada.

Um exemplo: um rapaz que tatuou um enorme dragão, tomando todo seu braço, o qual envolve o símbolo do seu time de futebol. Diz que se identifica com time, e com o dragão por tratar-se de ser um ser que ninguém derrota. No decorrer de seu tratamento isso se confirma, mas evoca também uma garra e virilidade que não vê no próprio pai, o que o fazia sofrer. A tatuagem lhe garante algo que deveria vir da filiação, mas que precisou de um apoio externo, como que fundando-se a si mesmo ao imprimir esse valor agregado na própria pele. Um time de futebol é um simulacro de totem paterno, algo para se pertencer e amar; já o dragão representa a agressividade que gostaria que o pai tivesse frente à vida e frente à mulher. Mais adiante, sem negar essa função, ele diz que a mãe se afastou muito dele desde que fez a tatuagem pois a achou horrível, excessiva. Isso era o que ele não sabia que queria, só depois deu-se conta que a imagem o ajudou na separação de uma mãe extremamente invasiva. Deixou de ser o bonitinho da mamãe, agora aquele corpo já não era mais infantil nem se apoiava tanto olhar materno. A tatuagem foi necessária para reposicionar o corpo fora da infância, fora da aprovação materna e com marcas de filiação ao pai.

Um exemplo de linhagem similar, mas com objetivo contrário, encontra-se numa tatuagem da palavra “nômade” em torno do umbigo. Sobre ela, o jovem em questão diz: – “não me sinto ligado a nenhum lugar ou país, sinto que onde deito minha cabeça é meu lar. Nada me acorrenta”2. Como se vê, quando nenhum lugar nos acolhe, resta o cordão umbilical como única corrente capaz de ligar o sujeito ao território chamado mãe.

Esses casos sugerem que uma tatuagem não é exatamente uma decisão consciente, ela é como um sonho, uma produção sintomática a respeito dos quais temos pistas, mas não uma compreensão sobre o significado do que sonhamos, estamos fazendo ou pensando. Porém, diferente dos sonhos, que se dissipam ou nos escapam, dos sintomas que subvertem certos caminhos ou momentos da vida, as marcas corporais chegam para ficar. Elas passam a fazer parte da pele, da imagem, perpetuam um simbolismo pessoal que nunca se despe.

Os jovens têm uma peculiar relação com a poesia, graças a sua característica de dizer sempre mais do que saberíamos explicar. Ao caráter enigmático e evocativo das letras, próprio da escrita poética, deve-se, em parte, a importância da música na cultura adolescente. Uma boa estrofe parece compreender-nos mais do que ser compreendida.       Essa forma de arte bem pode ilustrar a força de muitas dessas imagens, que são charadas que funcionam como auto-descrições, por vezes em palavras, outras em imagens, ou mesmo no casamento das linguagens escrita e visual.

A arte permite um encontro do inconsciente do autor com o daquele que frui dela, que ocorre fora da consciência e é tão efetivo quanto inexplicável. Nesse sentido, o artista seria o próprio sujeito, sua pele a superfície, a tela, o tatuador o instrumento dessa obra que se oferecerá a todos para sempre.

Tatuagens podem ser poucas, ímpares, delicadas ou recobrir quase toda a superfície do corpo. De qualquer maneira, mesmo os mais discretos ponderam fazer novas ilustrações no corpo, enquanto os mais entusiastas o encaram sua pele como uma obra em curso. Apesar de ser um processo doloroso, é com júbilo que a perspectiva de novas tatuagens se coloca para os que iniciaram nelas, pois trata-se da aquisição de uma forma de expressão, um novo recurso para simbolizar conteúdos difíceis de assimilar ou que se deseja perpetuar.

O tatuador é escolhido pelo seu estilo e capacidade de traduzir os desejos do cliente, é um trabalho colaborativo. Eles discutem a obra, as cores, tamanho, tipo de traçado e sombreado, localização, por vezes trabalham sobre a base de uma figura pré-estabelecida, por outras, o tatuador produz a imagem que ilustra o desejo do cliente. O tatuador é mais do que um artista (por vezes eles se autodefinem como artesãos), é um intérprete, capaz de gravar na pele do interessado o que ele supõe que o olhar dos outros quer ver ou vê nele.

Tudo o que é difícil de internalizar, quer seja por insuportável, como um luto ou trauma, quer por ser um vínculo frágil, quer por ser importante e incompreensível, poderá ter o destino de ser escrito sobre a pele. Assim fazem os amantes, principalmente quando temem a fugacidade das relações, tatuando os nomes dos que querem que sejam para sempre seus, o que em geral deixa-os com um problema quando a paixão acaba. Nesse caso, a intenção era justamente solidificar algo que deveria durar, lembrar aos dois que deveriam insistir na relação.

Da mesma forma, chama a atenção o fato que muitos pais têm tatuado o nome dos seus filhos, como forma de consolidar esse vínculo. Antigamente era a palavra “mãe” que víamos tatuada nos braços dos marinheiros, prisioneiros, daqueles que não tinham paradeiro, órfãos de pátria ou casa *[†]. Essa inversão, na qual não são mais os filhos desgarrados que se tatuam, mas sim os pais amorosos, leva-nos a questionar em que tipo de exílio sentem-se os pais hoje, para precisar carregar seus filhos na pele, evitando perder-se deles.

Práticas de apropriação do corpo

O corpo funciona como uma superfície onde se descreve e explicita nossa identidade. Se o hábito não faz o monge, ou seja, parecer com algo não garante que se é tal coisa, em contrapartida podemos afirmar que o monge não se faz sem os trajes que o caracterizam.

Em nenhum momento de nossa existência nos deixam estar nus: somos vestidos já ao nascer e mesmo após morrer. Ao chegar e partir nos arrumam conforme a tradição ou costumes em que vivemos, quer sejam panos rituais ou roupas enfeitadas, não há momento da vida cujas leis suntuárias não regulem a apresentação do corpo. Em determinadas épocas observam-se regras fixas sobre o que usar nesses casos, porém constatamos uma crescente tendência à personalização desses momentos de iniciação e luto.

A primeira roupa que se recebe tem hoje a forma dos sonhos dos pais investidos no filho, enquanto a última será uma tentativa de representar o que fomos, ou melhor, o que pensam que teríamos sido. Ao nascer, o menino será caracterizado com a cor do time do pai, a menina usará babados ou cores mais ousadas conforme for a fantasia de feminilidade da família. Os mortos usarão uma vestimenta que lhes era peculiar, um terno ou vestido enfeitado com os quais raramente foram vistos, a farda de seu ofício, seus enfeites, poderá ser apresentado de modo formal para sua última jornada, ou carregará aquilo que o faz parecer autêntico, similar à vida que o abandonou.

Nesses momentos iniciais e finais de nossa vida não escolhemos, mas ao crescer tendemos a opinar cada vez mais sobre a indumentária, a forma de dispor sobre os cabelos e pelos, a administração do que é visível e invisível. Vamos apropriando-nos do que supomos ter que ser, construindo nossa versão disso, ou seja, o que conseguirmos transformar em parâmetros pessoais. Houve tempos de menos liberdades, formas mais rígidas de pautar a imagem corporal, hoje aparentemente somos donos do destino de nossa imagem. Ou pelo menos, aparentemente donos.

A mulher que se submetia ao rigor do sufocante espartilho, em nosso imaginário equivale à pior representação da submissão feminina às regras de vestimenta que a oprimiam. Paradoxalmente, ela vivia uma liberdade que hoje não mais existe: ao chegar em casa após a festa ou cerimônia, uma senhora desatava as cordas e liberava suas carnes. Confinadas por estarem mal distribuídas, suas gorduras eram libertadas para que retornassem ao seu lugar: o ventre avultava, os seios podiam abandonar a posição de sentido. Hoje, ao chegar da festa, o desnudar-se revela outros espartilhos, desta vez internos: a barriga negativa, os seios fartos e duros, as curvas delineadas corretamente não deveriam desaparecer. Enquanto ideal, a nudez não mais se contrapõe à vestimenta.

A cultura de opressão dos corpos vai e vem, em geral ao sabor da cotação das liberdades sexuais, às quais são sempre associados. É interessante essa ideia de que o corpo se formata univocamente ao sabor do erotismo próprio a cada época, recobrindo maciçamente os prováveis objetos de desejo em culturas mais rígidas, ou editando o olhar em tempos que se dizem mais libertos. Mesmo nesses, homens e mulheres vivem preocupados em mostrar curvas e músculos os lugares certos e cuidadosamente delineados e sugeridos, emoldurados pelas roupas.

O sexo é leitura soberana sobre os outros usos do corpo porque nele fica encerrado o olhar alheio como razão de ser de uma imagem. Na condição de objeto de desejo sexual é como se existíssemos integralmente para ser o que alguém gostaria que fossemos. A maior revolução sexual hoje passa pela liberação do corpo, do qual o sujeito se reivindica proprietário, quer seja em debates sobre o aborto, assim como nas pouco toleradas indefinições ou escolhas diferenciadas de gênero.

Herdeiros da revolução de costumes dos anos sessenta, considerada a melhor sucedida entre as tantas reviravoltas do atribulado século XX, os corpos pareciam ter se libertado das regras que os escondiam e pautavam. O sexo livre, o direito da andar nus, de não depilar-se, os longos cabelos que caracterizavam a cultura do Unissex, teriam aberto precedentes para novas formas de expressão corporal. Mas a história sempre nos presenteia com fluxos e contrafluxos e os anos oitenta viram nascer uma nova paixão pela disciplina dos exercícios, das corridas, das dietas. Com ela vieram a anorexia, a bulimia, a crescente obsessão pelas plásticas.

Os jovens, que poderiam ser considerados netos da geração de Woodstock, também andam com pouca roupa, mas de modo diferente ao de seus vovôs Hippies. Alheios à temperatura externa, tentam andar por aí com as pernas, coxas, barriga e ombros sempre expostos: meninos em calções, mesmo no inverno, garotas com a barriga à mostra e saias tão curtas e apertadas que surpreenderiam a própria Mary Quant. As gestantes orgulham-se de exibir o ventre abaulado, que antigamente ocultavam sob recatadas batas, enquanto os mais velhos tentam manter um corpo que pareça jovem o suficiente para envergar a indumentária adolescente. Nunca fomos tão obrigatoriamente pelados.

É preciso ter uma disciplina espartana para dar conta do ideal de corpo cultivado e despido, da menina magérrima, de cabelo alisado por produtos químicos e do jovem malhado. Plásticas, remédios que inibam a fome e uso de anabolizantes não são parceiros incomuns nessa cruzada pela perfeição da imagem. Outrora era a gordura que representava a opulência, assim como a pele alva significava o ócio dos nobres. Hoje a magreza, o bronzeado, músculos não vêm do trabalho em si, mas dão um bom trabalho para serem montados, são atributos que igualmente mostram que seu proprietário tem muito tempo livre. Vestimentas e formas do corpo são como uma linguagem, dizem do seu portador como um discurso de auto-apresentação.

Tão disciplinados e expostos estão esses corpos, que, como forma de defesa ou de reapropriação, precisam ficar recobertos de insígnias “indespíveis”, fronteiras últimas sobre as quais o olhar insistente e desejável dos outros não passará. A pele tatuada, permanecerá para sempre oculta sob o pigmento, o olhar que pousa nela será conduzido ao ponto em que seu dono espera encontrá-lo.

Nas imagens ou letras gravadas permanentemente na pele há uma mensagem, quer seja de sedução, talvez ameaçadora, intimidatória, ou um nome que marca uma relação afetiva, amorosa ou familiar. São imagens ou palavras que definem as convicções e os vínculos do portador. O sujeito tatuado não será desprovido desse símbolo que escolheu para si, não se desnudará dele jamais, faz parte do seu corpo, por escolha. Na tatuagem há uma demarcação territorial, um limite para o olhar.

Nesse sentido, a tatuagem e a colocação de piercings, que são também enfeites permanentes, comungam mas também divergem de outras transformações corporais que visam adequar o corpo à norma, como as plásticas, implantes de silicone, preenchimentos, dietas e musculação. Todas essas modificações visam modelar a própria imagem com o objetivo de encarnar indicativos do Ideal do Eu, ou seja, nossa resposta ao que supomos ter que ser.

Quando nos aproximamos da norma, construímos um corpo obediente, sempre alerta ao ideal vigente, cuja forma seja uma flecha certeira em direção àquilo que se convencionou como desejável. Já nas inscrições, perfurações e escarificações em geral, a intervenção visa demarcar uma peculiaridade. É como assinar sobre si mesmo, fazer-se obra da própria imaginação. Se algum desses enfeites produz desejo, jamais será genérico, nem tampouco passará do limite que a pigmentação ou a presença do metal impõe.

O hábito corrente de usar alargadores de orelha leva o piercing a uma categoria mais profunda. Como qualquer brinco, ao ser retirado um piercing deixará apenas um orifício, enquanto o alargador ao sair deixará um lóbulo deformado, por isso passa a fazer parte do corpo do sujeito, como os alargadores de lábios dos índios Botocudos.

Ao contrário do corpo obediente construído pelos frequentadores de academia e cinzelado pelos cirurgiões plásticos, o corpo tatuado ou perfurado possui-se a si mesmo. Evidentemente, que um piercing pendente de um umbigo, por mais clichê que tenha se tornado, representa uma possessão pessoal da sua dona (é um adereço predominantemente feminino). É uma obstrução disfarçada do olhar, que revela o orifício, enfeitando-o, mas afasta o olhar e o toque com sua assinatura de metal brilhante.                Mesmo os mais acostumados sabem que aquilo foi um ritual de dor, de ferimento e que daquele pedaço de corpo tão a mercê dos outros, o dono se apossou de forma corajosa.

Prisioneiros dos sonhos dos pais

Nunca foi tão árduo crescer. Os jovens têm grande dificuldade de escolher um caminho, sentem que se desejarem algo específico estarão perdendo inúmeras outras oportunidades de prazer e realização. Para manter todas essas supostas potencialidades, suas vidas acabam tornando-se eternas promessas que tendem à frustração. Os pais também têm dificuldade de crescer, pois temem a velhice, o desafio de reprogramar a vida quando restam-lhes menos opções, pois já fizeram algumas escolhas e nem todas são reversíveis. Nesse sentido, a infantilização dos filhos serve aos pais como tentativa de parar a corrida do tempo. Fabricam-se marmanjos criados, vivendo com a família, mas alguma coisa neles tenta rebelar-se contra essa impossibilidade de tomar sua vida nas mãos e partir para fazer dela nada mais que o possível.

Para os filhos, colocam-se em paralelo duas demandas impraticáveis: de ser feliz e original. A primeira é a de garantir que se alcançará a felicidade através das escolhas certas, quer sejam amorosas ou laborais. Os pais fantasiam que a eles faltaram oportunidade e liberdade para traçar os caminhos conforme seu desejo, por isso supõem que com subsídios e sem restrições seu filho alcançará metas em relação às quais eles sentem-se em dívida.

A demanda de ser feliz traduz-se na proposta tão comum, que brota com naturalidade dos lábios de qualquer pai contemporâneo, quando afirma a seus filhos: “escolha o que quiseres para tua vida, só me importa que sejas feliz”. Obviamente a felicidade é a única garantia de sucesso que o filho não pode oferecer ao pai, pois ela é fugaz e geralmente passa despercebida. Sem falar que é intransitiva: ser feliz como? Não aponta para nada e pede tudo.

A segunda exigência é a de que cada gesto, atividade ou obra seja uma pequena revolução, estando uma suposta criatividade no topo dos atributos mais desejáveis na trajetória de uma vida. Dessa forma, cria-se uma cultura onde a rotina, o tédio e a entrega a qualquer escolha que tenha sido feita são vistas e temidas como expressões de acomodação e mediocridade, quando não de falta de inteligência.

A combatida epidemia de hiperatividade, o problema dos sujeitos que não se focam onde deveriam, é sintomática de um tempo onde é considerado menor deter-se sobre qualquer coisa, no qual não se pode parar3 **[‡]. O problema é que a maior parte das escolhas, principalmente as mais visadas, que são o amor e o trabalho, decorrem de uma solução de compromisso entre desejos e exigências culturais e familiares.

Nossa vocação, assim como os vínculos que constituímos, na prática são expressões que podem ser consideradas mais sintomáticas do que símbolo de liberdade. Cada um faz o que pode, negociando entre o que supõe que se espera dele, o que ele se julga capaz, seus temores, inibições, os desejos que consegue assumir e as oportunidades que surgem. Sobre esses caminhos, que mais nos escolhem do que são escolhidos, o sujeito poderá fundar uma reflexão, criar uma versão ou até uma reação a eles, mas precisará acabar reconhecendo que ninguém tem um leque de opções tão amplo quanto se imagina.

Ao contrário das décadas anteriores, não há hoje um impulso de sair de casa. Pais e filhos já não disputam valores, e sim territórios. A discussão já não é sobre o que pode ou não pode, mas quando vai se poder. Sexo na casa dos pais já não é tabu, consumir drogas ditas leves como maconha também não. “Para que sair de casa, se bem ou mal, posso tudo lá dentro?”, pensam os jovens, aderindo, sem dar-se conta, à demanda de procrastinar o crescimento.

A permanência junto aos pais alongou-se. Colocar marcas corporais, em muitos desses casos, é uma tentativa de afastar esse corpo crescido do zelo parental que se prolonga em moços e moças que têm segurança, casa, comida e roupa lavada, quando já poderiam estar providenciando tudo isso por conta própria. Frente a isso, muitas vezes fazer uma tatuagem, colocar-se piercings, são tentativas de demarcação do território corporal.

Numa vida na qual os pais se apossam tão gulosamente do destino dos filhos, em que vampirizam sua juventude, não surpreende que o corpo seja a última fronteira de si, de possessão pessoal. Trata-se daqueles que, embora possam estar entre os que “têm tudo”, não têm mais do que seu computador, um quarto ou cama, em geral arrumados pela mãe, como lugar próprio, por isso precisam recuar as defesas para o derradeiro território do corpo.

A pele é, neste caso, um limite último para a invasão e as marcas são tentativas de cercar essa propriedade. Trata-se de uma forma de rebeldia bastante regressiva, pois almeja-se muito pouco além de que gerir a própria superfície, o que deixa os outros com grande liberdade sobre o resto de suas vidas. É uma situação muito similares à nudez desejável na indumentária dos jovens. Estes, obrigados a expor partes do seu corpo supostamente perfeito, por ser de pouco uso, ao olhar dos outros, pelo menos as enfeitam com marcas que lembram: esta barriga, este torso, este braço, esta virilha, são meus, ou “são mim”, como diria o psicanalista Ricardo Rodulfo.

Ele lembra-nos que a “formação de superfície” é uma das funções do brincar5. Conforme o autor, para o bebê faz parte dessa atividade de delimitação de si o recobrimento, para o qual ele tratará de se besuntar, de espalhar suas babas, papas e cacas. O pequeno coloca todos esses revestimentos sobre sua pele e acontece mesmo dele ficar desorganizado ou furioso quando a higiene o priva disso. Com esse recurso, o bebê não demarca algo que ele tem, mas sim algo que ele é. Tatuar-se, desenhar a própria pele, poderia ser entendida como atividade herdeira dessa forma rudimentar de brincar, pois a infância deixa restos que carregamos ao longo de toda a vida.

A tatuagem é uma mistura da atividade de desenhar, ou mesmo de brincar, quando se viabiliza uma expressão imaginária para os desejos e conflitos, utilizando esses recursos primitivos de formação de imagem corporal. Se puder funcionar como uma formação de superfície que ninguém poderá limpar, talvez seja como a vingança do filho que já cresceu contra uma nova versão da higiene materna inclemente. Pode, nesse caso, operar tentativas de resistência contra o caráter prepotente das expectativas alheias, e mesmo ser uma forma de proteger-se e minimizar a força da imposição dos sonhos de adultos que se sentem tão invejosos e maravilhados com sua adolescência. Através dessas práticas artísticas de intervenção corporal, os jovens tentam resistir, para ficar menos à mercê, evitando que sua mente seja tratada como antes faziam os cuidadores, que dispunham do seu frágil corpo de bebê.

O corpo cresce numa tensão ambígua, entre a alienação e a separação, ou seja, entre constituir-se apoiado num olhar de fora, a função especular do olhar materno, e a necessidade da demarcação pessoal. Esta última é uma tentativa de separação entre o dentro e o fora do corpo, entre o íntimo e o público. É aqui que uma certa rebeldia nos gostos, a irreverência indumentária dos jovens, a colocação de um piercing, uma tatuagem, uma alteração na pele, podem ser tentativas de fabricar essa assinatura.

Uma assinatura é uma forma pessoal de grafar-nos. Ao mesmo tempo em que aceitamos o nome que nos deram e os códigos da lecto-escritura que nos ensinaram, ao criar uma assinatura descobrimos um modo de escrever o nome que é original e particular. Já um apelido é uma corruptela do nome próprio, é um nome recebido a partir de nossos atos entre os pares e familiares.

As tatuagens e demais marcas corporais fazem com o corpo o que a assinatura e o apelido fazem com a nomeação. Elas são uma personalização, ao mesmo tempo que uma forma de aceitar e acrescentar à nossa identidade, de forma digerida, a influência dos outros.

Traços de conclusão

Os jovens tatuados são filhos e netos de adultos que se horrorizam ao ter seu corpo marcado pela vida. Lutam contra rugas e traços de expressão, como se o envelhecimento fosse uma gradual possessão a exorcizar. Em contrapartida, a tatuagem chega como uma marca indelével do vivido: “Vejo meu corpo como um livro, as tatuagens estão lá para documentar diferentes momentos e histórias da minha vida”, declarou um jovem inglês de 31 anos5. Trata-se de desenhos e inscrições que funcionam como uma estilização das marcas do tempo, como uma ruga bonita. Vai nesse sentido a afirmação de uma jovem que, habituada a lutar contra a acne, colocou um piercing que dizia ser “sua espinha bonita”, mostrando que ao introduzir uma marca pode-se de fazer ativamente o que o tempo e as doenças submetem um corpo passivo.

Tatuar-se é uma forma lúdica de introduzir mudanças que também ocorreriam no decurso da vida. É o oposto, ou talvez um diálogo, com o hábito das plásticas, que quer manter o corpo ilusoriamente intacto. Se para os tatuados seu corpo é uma tela pintada, para os entusiastas das plásticas ela deve permanecer sempre em branco. Poderíamos pensar as tatuagens, adereços e modificações corporais como reação a esses hábitos disciplinares do corpo, o corpo tatuado como o contraponto ao corpo de academia. Enquanto um é singular, único, o outro tenta adequar-se a padrões estabelecidos. São atitudes antagônicas mas que respondem à mesma demanda de montar uma aparência compatível com uma identidade socialmente desejável. Ambos são uma tentativa de resposta às questões suscitadas pelo olhar do outro.

A vida é passageira e ela anda mais rápido que nossa capacidade de compreendê-la, produz mais eventos do que temos condições de armazenar. Alguns tatuados, fazem de sua pele sua autobiografia. A cada nova figura, inscrição, vão acrescentando as marcas do vivido, os nomes das pessoas amadas, as referências culturais e posicionamentos políticos importantes.

Muitas dessas pessoas voltam-se para a tatuagem como uma forma de arte, fazem dela um ofício, constituem grupos de tatuados e chegam a ter todo o corpo recoberto dessas citações. Nessa forma extrema, confirma-se a condição de linguagem e de estabelecimento de identidade dessa prática, que se estende a outras formas de modificação corporal. Se da vida pouco se leva, pois as transcendências estão em remissão, e só temos esse corpo, como forma de “eu”, não nos estranha que tantos estejam a escrever nele o que não pode e não deve ser esquecido.

Levando em conta a tendência histórica, os tempos são de incremento do individualismo, ou seja, cada vez mais uma subjetividade se apoia menos nos outros que a circundam, extrai menos significação dos grupos a que pertence, e joga-se na ilusão de ser único e singular num mundo tão plural. Ora, nesse sentido as marcas corporais ajudam muito a ser um exemplar especial e ímpar. É preciso tomar cuidado para não confundir individualismo com narcisismo, como tantas vezes ocorre: esses corpos enfeitados estão numa perspectiva do olhar dos outros, eles não se esgotam em si mesmos, incluem esse olhar em sua constituição.

São tempos em que tudo que é recebido precisa ser personalizado. Ninguém se permitiria ser meramente uma consequência de sua origem, educação, desejo dos pais, hábitos e costumes de um lugar. Todos querem orgulhar-se das versões particulares que produziram, a partir de uma herança que nem sempre reconhecem. O “fazer-se a si mesmo” deixou de denominar, como originalmente acontecia, uma ascensão social que seja fruto de esforços e capacidades do sujeito, que o levaram além do que sua origem lhe proporcionaria.

Hoje é preciso fazer-se lançando as próprias bases, pelo menos é isso que se gosta de acreditar. Para tanto é preciso formatar um corpo, construir uma identidade sexual, ser parcimonioso em relação às formas de vincular-se com os familiares, principalmente os antepassados, questionar e revolucionar a hierarquia. O mesmo ocorre com o conhecimento que passa de geração em geração: outrora mediado pela valorização da experiência dos mais velhos ou antepassados, hoje precisa funcionar como um saber disponível que o sujeito em formação vai dispor, questionar e usar à sua medida. Tudo deve ser ativo, criativo e de preferência original. Dessa forma, a “desnaturalização” das identidades sexuais, assim como etárias, responde a esse modo de funcionamento6 ***[§]. Cada um encontrará sua forma entre os parâmetros da feminilidade e masculinidade, assim como entre as condutas esperadas para cada época da vida, de preferência subvertendo essas expectativas sociais de um modo sempre pessoal e particular.

Vivemos uma explosão de identidades sexuais, que já foram definidas apressadamente como uma recusa à castração, a submeter-se o que o acaso genético nos deu. Seria, no entanto, mais produtivo entender esses fenômenos como um sintoma do paroxismo dos tempos individualistas, nos quais se espera que cada um se torne algo, faça a si mesmo, à sua própria medida. Então, por que não, definir sua própria identidade sexual? Por que não modificar o corpo e “fazer-se”?

As marcas corporais, portanto, devem ser entendidas nesse contexto maior, no qual hoje nos apoiamos mais em nossos corpos para ser alguém. Acreditamos que fazem parte do mesmo quadro histórico que produz tantas academias, dietas, disciplina corporal. Há uma preocupação obsedante com a saúde e com a aparência, que redunda num exagerado cuidado com o corpo. Talvez essas diligências apontem para novas formas de subjetivação cujos significados ainda nos escapam. Por isso, seria uma pena simplesmente encaixá-las em velhas fórmulas. Por que não permitir que essas novidades também tracem, imprimam, ilustrem novas sutilezas para pensar a juventude, a sexuação, a construção da identidade social?

Referências

1. Freud  Sigmund. In:  Além do Princípio do Prazer. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1976. p. 23.

2. Macnaughton  Alex. London Tattoos. Munich-London-New York: Prestel Verlag, 2011, p. 17.

3. Kehl  Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009, P.276

4. Rodulfo Ricardo. O brincar e o significante: um estudo psicanalítico sobre a constituição precoce. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

5. Macnaughton  Alex. London Tattoos. Munich-London-New York: Prestel Verlag, 2011, p. 17.

6. Costa Ana Maria Medeiros. In: “Se fazer” tatuar: traço e escrita das bordas corporais. Revista Estilos da Clínica, 2002, Vol. VII, número 12, p.60.

(texto publicado na Revista Brasileira de Psicoterapia 16(1):138-150)


[*] …um ferimento ou dano inflingido simultaneamente operam, via de regra, contra o desenvolvimento de uma neurose.

*[†] Trabalhei na década de 80 com perícias no sistema prisional gaúcho, foi onde constatei um bom número de prisioneiros que tatuavam a palavra mãe ou o nome da sua progenitora. (nota de Mário Corso).

***Maria Rita Kehl faz essa leitura da hiperatividade, considerando-a sintomática de sujeitos que dão seu melhor para corresponder a essa demanda de ser tudo: “ São crianças acossadas pela demanda, cujo tempo psíquico foi atropelado pelo excesso de investimento da mãe e dos outros adultos à sua volta.”

****A psicanalista Ana Maria da Costa lembra que essa desnaturalização é intrínseca à constituição do sujeito: “não há um suporte natural para nosso corpo e, por outro lado, não há assimilação completa da representação do nosso corpo. Por essa razão estamos sempre fazendo passagens, traduções, interpretações. Temos sempre que inventar possibilidades de inclusão, ou formas diferentes de circulação.”  Portanto, trata-se de investigar as características que, em cada época, essa insuficiência da representação do próprio corpo vai assumindo.

Barbies Monstruosas

Seja você mesma, seja única, seja uma monstra! (interpretando as Monster High)

Frankie Stein é uma garota interessada em moda, só tem um inconveniente: as vezes se desmonta. Sem problemas, depois se recostura. Draculaura é uma vampirinha vegetariana que precisa lidar com a dificuldade de não se enxergar no espelho, enquanto Clawdeen Wolf tem problemas que não há depilação no mundo que resolva. Um dos amigos destas e de tantas outras garotas diferentes é Jackson Jekill, que evidentemente sofre de dupla personalidade.

Essas personagens são bonecas, você já deve ter visto alguma nas mãos de uma menina ou em uma vitrine de loja, fazem parte da coleção das Monster High, produto da Mattel. Elas servem para brincar de vestir e desvestir como qualquer boneca. Poderíamos, por isso, colocá-las na vala comum dos brinquedos que servem mais para ostentar e para garantir a transmissão dos clichês femininos do que para brincar. Porém, seria uma pena fazer isso sem parar para olhá-las melhor.

Por trás da sua aparência de patricinhas, essas bonecas importam algo das conquistas do universo do Shrek para dentro dos tradicionalmente estereotipados brinquedos para meninas. Mesmo quando confinadas ao universo restrito de roupa e casa das Barbies, definitivamente, nossas meninas já não são as mesmas. Pelo menos na aparência. Claro, nem todas as barreiras caem, infelizmente as Monster High são todas magérrimas, a gordura ainda é imperdoável até entre as monstras.

As crianças contemporâneas têm insistido em seu gosto pelo susto, assim como pelo monstruoso, pelo que é feio. O ogro verde mostrou que o feio pode ser bem mais bonito, que o desejo de perfeição e a discriminação ao que foge do padrão podem ser a verdadeira feiura, que o que dá medo pode ser interessante. Além de que as pessoas de verdade fazem pum, têm chulé, mexem no nariz e isso não as torna monstruosas.

O medo é um importante instrumento para organizar o mundo: através dele classificamos o que é perigoso e o que é confiável, o que é seguro e o que inspira cuidados. Sabendo o que temer podemos também relaxar quando estamos longe e a salvo do que nos apavora. O medo nos livra da angústia que é mais insuportável. Por ser constituída de sensações vagas, portanto não ter um objeto claro que represente a ameaça, ela nos deixa reféns de tudo, é puro sofrimento. Quando elegemos algo para ter medo nos livramos dela.

As Monster High são uma amálgama de todos esses elementos: as bonecas tradicionais, a importância do susto, a abertura aos diferentes padrões de beleza e de comportamento. Vampiros, múmias e zumbis são mortos, lobisomens são obrigados a se comportarem como animais, frankensteins são assustadoramente remendados: como vemos, maldição e morte estão longe de serem tabus para as crianças contemporâneas. Elas deixam explícito seu gosto pelo terror, assim como pelo monstruoso, pelo que é considerado feio. Como os mexicanos que no seu Dia dos Mortos brincam e festejam com o que mais tememos, as crianças estão nos lembrando que não adianta colocar o que assusta, questiona e impressiona para baixo do tapete, pois aí sim é que vai nos assombrar. Seja ativo com o medo, como diz o lema do grupo: “Be yourself, be unique, be a monster”.

Ora, um dos temas de quem está transitando entre o fim da infância e entrando na adolescência, ou seja, o árido e áspero território da puberdade, é justamente a questão da imagem corporal. Nesse momento estamos mais frágeis quanto ao lugar que nosso corpo ocupa, e como somos vistos pelo outro. É a época da feiura, senão real pelo manos fantasiada, e também quando afloram problemas de dismorfofobia (ver-se deformado). São também comuns versões mais brandas desse litígio com o próprio corpo, como por exemplo engordar de tal forma que as curvas sexuais fiquem borradas e com o corpo ainda não tão sexuado como o corpo infantil que foi recém abandonado, assim como emagrecer a ponto de eliminar todos os volumes. Enfim, que uma boneca traga esse tema, que capte o mal-estar com o corpo da puberdade não é de se espantar, poderíamos até pensar o contrário, como que elas só chegaram agora.

Outra questão que as Barbies e outras bonecas não trazem é a forte marca da herança. Essas senhoritas monstruosas são como seus pais, trazem na carne uma história que não se pode negar. Embora em nosso tempo a maior parte das pessoas se iluda que devemos ser desenraizados de nossos pais, fazermos nós mesmos nossas trajetória, é óbvio que não partimos do zero.

De certa forma, o peso dos nossos pais é uma maldição a carregar. Entenda-se maldição dentro do universo das crenças contemporâneas, se negamos a sociedade tradicional, onde éramos uma continuidade lógica dos nossos antepassados, hoje eles são um pesadelo para nossa tarefa de construir-se por si mesmo. Essas bonecas retomam o peso da origem que recalcamos com tanta força. Na verdade, só admitimos uma herança no terreno formal e frio da genética, mesmo assim sob a forma de doenças herdadas, portanto, persiste a ideia da maldição. Pelo menos as crianças estão se permitindo brincar de serem marcadas por um destino

Os clichês da identidade feminina não vão cair do dia para a noite, mas enquanto meninas não costumam brincar de carrinhos, nem meninos de boneca, essa profanação estética ao modo de Barbies monstruosas já vem a calhar. Meninas também querem acesso livre ao mundo monstruoso e fantástico, chega de cor de rosa, que já não condiz com o tipo de mulher corajosa, franca e guerreira que irão se tornar. Por que não, então, brincar de bonecas no trem fantasma?

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Ninfomaníaca: erotismo ou pornografia?

A diferença entre erotismo e pornografia não é estética nem quantitativa, é da posição ocupada pelos amantes.

Cada tanto essa polêmica retorna, se uma obra seria pornográfica ou, caso tenha pedigree intelectual, ou ainda griffe de autor, seu charme nos levaria à arte erótica. A coincidência da atual leva de filmes como, Azul é a cor mais quente (A. Kechiche), Ninfomaníaca (Lars von Trier) e Tatuagem (Hilton Lacerda), relançou a discussão. O senso comum tende a ver a diferença entre pornografia e erotismo em termos de bom gosto, linguagem sofisticada, enfim, sutilezas dentro de um mesmo espectro. Se o autor foi feliz em ganhar um público culto é uma obra erótica, se ficou no escuro da internet é pornografia.

A psicanálise abre possibilidade para outra posição: a pornografia é facilmente identificável. Essencialmente a temos quando a fantasia sexual é vendida com a ilusão de que todo sexo é fácil, barato e sem culpa. Na pornografia o encontro do desejo com o objeto é plano e bem resolvido, encaixe perfeito. Em outras palavras, quando as inibições ficam momentaneamente esquecidas e imaginamos que podemos gozar sem envolver nossa engrenagem neurótica. Já a erótica nos vende uma excitação sexual sem o recurso do atalho: nela, cena sexual segue sendo escorregadia, como a real, é um flash que momentaneamente se abre para em seguida declinar. A erótica carrega a plausibilidade e a descontinuidade do real enquanto a pornografia é pura imaginação sem barreiras e a ilusão de um gozo sem fim.

No início de Azul é a cor mais quente há uma cena de sexo entre duas mulheres que vem causando paradoxais comoções. Entre os incomodados estão os homofóbicos e conservadores, mas também há algumas lésbicas que se declararam mal traduzidas. Ou seja, desde pontos de vista antagônicos, o filme vem proporcionando debates. Quanto a Ninfomaníaca, que aborda a compulsão sexual de uma jovem que transa no atacado, a reação tem sido mais forte do que seu recente similar masculino, Shame (S. McQueen), sobre um homem com uma vida sexual igualmente ativa e à deriva.

Ao contrário do best seller Cinquenta tons de cinza (breve nos cinemas), essas obras não se prestam a fantasias masturbatórias. Ao contrário: o filme de Lars von Trier, por exemplo, apesar do sexo explícito, não serve para animar casais sem entusiasmo, nem sequer atividades solitárias. Joe, a personagem de Trier, conta suas aventuras sexuais para um circunspecto senhor que a encontrou machucada na rua e lhe deu abrigo. Eles discutem sobre a culpa dela, da qual o bom homem tenta aliviá-la, sobre o perigo de misturar sexo com amor e a suposta frieza da auto-declarada ninfomaníaca. A solidão dela, os incansáveis encontros, seu olhar insistente de busca e sedução, são mais tristes do que provocantes. A sexualidade de Joe parece-se muito mais com a vida real do que os encontros estereotipados dos protagonistas do livro de E.L. James. Mesmo assim, para desilusão das lésbicas que não se sentiram retratadas (outras sim, viram-se representadas), o cinema, mesmo quando se aproxima da nossa natureza neurótica, mostra um sexo visto de fora, pelo buraco da fechadura.

Do ponto de vista do espectador voyeur, a cena sempre será mais convincente do que o ato em si, pois as lacunas são completadas pela sua fantasia, que enxerga o que quer ver. São essas mesmas fantasias que ajudam e atrapalham a verdadeira vida sexual: ajudam porque é para realizá-las que o desejo se acende; atrapalham porque, embora o prazer seja possível e acessível, sempre é ameaçado pelas armadilhas do medo, das ambiguidades e inibições, fazendo com que os fatos sempre fiquem em dívida com os ideais.

Erotismo e pornografia não se diferenciam por uma questão quantitativa, sendo um mais explícito que o outro, há uma questão qualitativa em jogo. Na definição de Georges Bataille, no livro denominado O Erotismo, a fantasia erótica está associada à possibilidade de entrega, de dissolução de limites, algo mais próximo do encontro letal no clássico japonês Império dos Sentidos (N. Oshima, 1976). Para Bataille, “somente o sofrimento revela a inteira significação do ser amado”, pois na dor da paixão fica claro que ao mesmo tempo em que se conquista o outro perde-se o eu.

O sofrimento a que ele se refere é a consciência de que estamos rodeados de gente mas condenados a ficar sós, a sentir-nos incompreendidos, exatamente como a triste e solitária Joe. Ou seja, quando ganhamos o outro perdemos a nós mesmos, ficando, portanto, inevitavelmente insatisfeitos. Numa gincana de corpos que se desnudam e acoplam, a personagem de Trier segue em busca do que nunca encontra: do tempero do sexo, sua suprema graça. Talvez seja mesmo para provar a impossibilidade do encontro que ela tanto se empenhe, revelando-se uma mulher fria, distante, como a própria mãe.

O horror que as cenas de sexo explícito desses filmes têm causado intriga principalmente àqueles que se perguntam por que imagens de igual impacto envolvendo violência não são condenadas. Não é tão difícil entender essa diferença de pesos e medidas, pois a violência é uma forma de dominação, enquanto o erotismo é seu oposto, seu prazer depende do grau de entrega. A violência, principalmente o assassinato, corresponde ao absoluto controle sobre o outro. Quem tem a vida alheia nas próprias mãos nunca se arriscará a cair sob seu domínio, fascínio ou influência. Nada é mais temido do que perder-se no outro, experiência que todos têm e que remonta nossa condição infantil de inermidade, dependência e desamparo.

As obras de cunho pornográfico são as que aproximam o sexo da violência, no sentido em ambos o outro está sob controle. Nelas os parceiros respondem maciçamente ao desejo do outro, um sempre tem o que o outro quer, comportam-se como previsto, não há desencontros ou dificuldades em fazer o outro gozar.

Outra fonte de desagrado é a explicitação do gozo feminino ativo, da busca da mulher por um prazer que, conforme as convenções, deveria ser provocado nela, sem deixar clara sua vontade. A posição feminina, quer ela seja ocupada por um homem ou uma mulher, está associada à fantasia de passividade: só um desejo deveria orquestrar a cena, o ativo, masculino. No filme de Trier, Joe é uma caçadora, os homens suas presas certeiras, cada um para formas diversas de satisfação, e isso revela uma face indigesta do desejo feminino.

Mais uma vez, as mulheres pagam o preço do passado de todos nós, devem calar sua vontade, por serem potencialmente “a mãe”, cujo poder é o mais temido de todos. Ela encarna a ameaça de ser devorado, descartado ou insatisfatório. Longe desses riscos, na pornografia evidencia-se um desejo que parece ser masculino, mas se sobrepõe ao gênero: tudo funciona a contento, os gritos dela (ou do parceiro “feminino”) confirmariam a potência do membro “másculo”, ativo, do casal.

Em suma, Ninfomaníaca não é pornográfico, porque é muito próximo da nossa sexualidade neurótica. Não é erótico, já que é cético quanto às ilusões amorosas de perder-se no outro. É drama, como dramáticos somos, dentro e fora dos lençóis.

(publicado no caderno Cultura do jornal Zero Hora em 25/01/2014)

A maconha e o apocalipse

A grande vantagem de demonizar algumas substâncias e culpá-las pela nossa miséria é a de nos colocar fora da equação.

Para o gaúcho o Uruguai é uma espécie de extensão territorial, frequenta suas praias geladas e sua hospitalidade quente, além de achar que fala espanhol. Essa familiaridade não impede que lá usufrua da sensação de estrangeiridade, já que de fato é outra cultura. Entre as várias diferenças a se observar, está a idade média do uruguaio. Parece um país de velhos. Os anos de chumbo, aliados a uma longa crise, varreram gerações de jovens do país, quadro que recentemente mudou. Portanto, não há motivos para crer que a liberação regulamentada da maconha, se for aprovada pelo senado uruguaio, vá transformar essa terra numa Woodstock permanente. Diria que o país é mais conservador que o nosso quanto aos costumes.

É bom esclarecer, pois o mero anúncio dessa possibilidade despertou uma onda de medo desproporcional. Muitas pessoas, em geral leigas nessa questão, vaticinam o pior. A questão das drogas facilmente abandona o patamar da razoabilidade: quando se trata de diferentes formas de gozo a paranóia assombra o pensamento. Dividimos o mundo entre quem goza assim ou assado, o que pode e o que não pode, tememos desejos não catalogados e ainda não domados, o velho problema da tentação.

Sucumbimos ao pânico imaginário de, se experimentadas, essas formas diferentes de prazer nos dominarão, ignorando que somos mais fracos na fantasia do que na prática. Torcemos os dados e as experiências para explicar nossas crenças de que gozos não admitidos põe em risco a civilização. O álcool e o cigarro não trouxeram o apocalipse, mas a maconha o faria, o sexo livre após a pílula não nos jogou na devassidão, mas os homossexuais o fariam. O padre interior que (todos) temos é convocado a vociferar contra a decadência que estaria à nossa porta.

O que pode fazer possível essa nova postura do Uruguai frente à maconha é puro pragmatismo, buscando uma solução para o consumo endêmico dessa droga. Duas questões de fundo os auxiliam nessa decisão: a tradição laica do país é muito marcante, o que os religiosos pensam não pesa; segundo ponto, eles são mais críticos do que nós na importação do modelo americano de saúde mental, contaminado de um moralismo puritano, sob uma fachada científica. No Brasil, aderimos com entusiasmo a essas ideias que economizam variáveis e superestimam a influência química. Isso nos impede de buscar, como o país vizinho, alternativas ao modelo fracassado da tolerância zero e criminalização de tudo que tem relação com as drogas.

O tráfico é uma hidra, podem cortar as cabeças que elas rebrotam automaticamente. Enquanto existir demanda e proibição haverá tráfico. Tanto aqui como em lugares com polícias melhores. Temos a ilusão que a repressão deixaria nossos jovens longe da droga. Isso não resiste a qualquer prova de realidade, qualquer um que queira fumar maconha consegue sem delongas. Apenas deixamos os usuários mais próximos de péssimas companhias e transformamos a droga em ótimo negócio.

O que o Uruguai quer fazer é parar de se enganar e encarar isso como uma realidade que precisa outra abordagem. A maioria dos que fumam não quer parar e não se acha um drogado. Consideram que, se álcool e fumo, drogas comprovadamente perniciosas, são livres, por que não a deles? E dizem mais: se nem todo consumo de álcool é alcoolismo, porque qualquer consumo de maconha seria drogadição?

A maconha está envolta em dois mitos. Primeiro o de que seria uma droga leve, pelo fato de praticamente não fazer internações. Sim, mas como os efeitos não são agudos, ela pode fazer um estrago crônico. Não é sem conseqüências acostumar-se a anestesiar a vida, cortando a angustia produtiva que nos impulsiona e coloca questões. É bom lembrar que se pode fazer o mesmo também com antidepressivos e ansiolíticos tomados sem indicação correta. O outro mito é que ela seria uma porta de entrada para drogas mais nocivas. O contato com essa população, especialmente os que fazem uso recreativo e eventual, não nos dá margem para pensar isso. Aliás, várias vezes encontramos o contrário: quem usa maconha para ficar longe de outras, especialmente da cocaína, de maior potencial destrutivo. Se for para pensar em porta, o álcool de longe parece ser a mais escancarada.

Talvez o Uruguai tente sair desse conto da carochinha que o drogado é fruto de um simples encontro com a droga e que essa substância é um canto de sereia que o captura para uma forma de gozo aprisionante e irrecusável. As pessoas não se tornam toxicômanas apenas porque as drogas existem, isso ocorre porque algo vai muito mal com elas, estão sem rumo e acima de tudo estão desencantadas com a própria trajetória e com a vida. As drogas são automedicações contra a dor de existir. Tanto que as desintoxicações não funcionam se não houver uma retomada mínima de alguma significação para suas vidas. Sem a droga apenas retornam às suas existências vazias, por isso tantos recaem.

A grande vantagem de demonizar algumas substâncias e culpá-las pela nossa miséria é a de nos colocar fora da equação. Enquanto pais não precisamos nos confrontar com a educação falha, omissa, ou vazia de sentido e valores que proporcionamos. Tampouco precisamos olhar para as drogas lícitas, largamente usadas e abusadas, mas que sendo “receitadas” seriam menos aditivas ou daninhas. Nem refletiremos sobre o preço que pagamos por viver numa sociedade baseada no consumo supérfluo, que acredita que é a felicidade se compra com gadgets. A droga é apenas uma modalidade de consumo específica, mas o fundamento é o mesmo: existiria um objeto que possibilitaria um atalho para a felicidade. Ou seja, buscamos um sentido fora dos laços humanos para nos satisfazer. O drogado é um consumidor levado às extremas consequências. Dar todo esse poder a um objeto é uma mentira atraente, tão logo desmascarada pela urgência de continuar consumindo. Qualquer comprador conhece a sensação de saciedade triste, passada a novidade. Toxicômanos, o que não é o caso de todos os usuários de determinada substância, são apenas aqueles cuja vida se reduziu a muito pouco, a uma luta inglória contra o próprio vazio, uma sucessão interminável de encontros com seu objeto de obsessão, de saciedades, que deixam lugar a um buraco ainda maior. Por isso os drogados são descontrolados, porque sem esse encontro, e mais a cada novo encontro, descobrem-se nada, ninguém. O detalhe é que não se cai nessa tentação de reduzir-se a tão pouco sem sentir-se já previamente miserável de valores e de esperança.

O pânico de que a maconha leve massas de jovens à drogadição se baseia na ignorância de que o que leva alguém a ser assim não é uma droga mais leve, consumida anteriormente, mas sim uma subjetividade de horizontes mínimos. A saída para quem se sente e espera tão pouco, acaba sendo a de levar uma existência dedicada a esse prazer agoniado, ao encontro dessa paixão simplória. Se partirmos do pressuposto de que essa tentação é tão irresistível para tantos, o leitor há de convir: o problema não são as drogas, somos nós.

A cura da homofobia

Os territórios dos sexos nunca foram tão indefinidos e isso deixa muita gente confusa, além de produzir fobias. Como diz o nome, trata-se de “homofobias”: pessoas que sentem temor, não podem conviver, saber a respeito ou aproximar-se de outras que desejam os do seu sexo.

Em 1999 o Conselho Federal de Psicologia baixou uma resolução sobre a questão de curar homossexuais. O objetivo era impedir que se usasse uma ciência, a psicologia no caso, para proselitismo preconceituoso, vindo de setores religiosos e conservadores. Tal ato seria desnecessário se não existissem profissionais que confundiam crenças pessoais com indicações terapêuticas. Resumindo: o que o CFP diz é que não se pode curar algo que não seja uma doença. Na verdade apenas traz ao Brasil o que já é consenso em quase todos países ocidentais: não existe nenhuma teoria psicológica ou psiquiátrica séria que defenda tal posição. A questão volta à discussão agora que setores políticos, especialmente os evangélicos, insistem em rever a questão.

O objetivo da derrubada dessa resolução seria dar aos profissionais da saúde o “direito” de considerar o desejo por pessoas do mesmo sexo como um sintoma a ser curado, uma doença a ser combatida. Isso possibilitaria aos psicólogos religiosos agir em nome de sua formação acadêmica para tratar como doença uma forma de amar. Isso não encontra respaldo em nenhum conhecimento que eles possam ter adquirido na universidade. Em outras palavras, se alguém quer combater a homossexualidade, que o faça sem o aval da academia e do órgão regulador da profissão.

É de se perguntar por que é um problema tão grande para uns o fato de outros amarem pessoas do mesmo sexo? O desejo de homens por outros homens e mulheres por mulheres é velho como a história da humanidade. Por que tanto estardalhaço em torno disso? Por que dedicar tanta energia a combater modos de amar e desejar?

As piores repressões incidem sobre os desejos que sentimos como mais insidiosos, tentadores. Se antes a fidelidade era o grande tema, pois tratava-se de defender a permanência do casamento tradicional, agora a identidade sexual parece se o ponto mais frágil do edifício subjetivo. A ambiguidade sexual é hoje um fato em nossas roupas e condutas, mulheres usam calças, homens colocam brincos, todos trabalham nos ofícios que quiserem e ter um filho não condena ninguém à prisão doméstica.

Os territórios dos sexos nunca foram tão indefinidos e isso deixa muita gente confusa, além de produzir fobias. Como diz o nome, trata-se de “homofobias”: pessoas que sentem temor, não podem conviver, saber a respeito ou aproximar-se de outras que desejam os do seu sexo. Esses sujeitos frágeis estão assim preocupados com o embaralhamento dos territórios dos gêneros porque, no âmago, sabem ou intuem, que as fronteiras são arbitrárias, não há nada que nos obrigue a ser ou desejar de determinada forma. Podem clamar à vontade pela obviedade da anatomia, pela necessária complementariedade do pênis e da vagina, pela fecundidade macho-fêmea. Isso nunca foi unívoco para o desejo dos humanos e nunca será.

Usa-se hoje falar de gênero em vez de sexo, essa forma de se expressar comporta a compreensão de que a anatomia não é um destino, que há múltiplas variações para os pensamentos que guiarão a vida sexual e a forma de se parecer. Os psicanalistas insistem em “caso a caso”, porque é assim.

É fundamental que se tenha claro que quando falamos de “homo”, “hétero” ou “bi” sexuais, estamos necessariamente misturando canais, pelo menos dois são mais claros. Por um lado há a identidade sexual. Ela se constrói de tal modo em que o comportamento e aparência de uma pessoa pode ou não corresponder à expectativa do sexo em que se nasceu: nos tornaremos homens másculos ou afeminados, mulheres masculinizadas ou femininas. Neste caso, um homem pode, por exemplo, parecer-se com o sexo oposto, mas também amar alguém do sexo oposto. Não é preciso parecer um machão para amar as mulheres. Isso ocorre porque o desejo sexual, é o outro lado, uma segunda questão, que não necessariamente se articula com a identidade. Portanto, um homem pode parecer feminino e gostar de mulheres, assim como uma mulher ter uma aparência e comportamento viris e interessar-se por homens. Pode também um homem gay, que deseja outros homens, ser muito mais macho que muito hétero e entre as lésbicas é muito comum que sejam delicadamente femininas.

A sigla LGBTTT não é assim comprida por acaso, pois a obrigação de parecer-se com o sexo em que se nasceu e de desejar o sexo oposto são questionados por lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. Cada uma dessas letrinhas abre para um universo variado de formas de ser e amar. Ao nascer, se não formos hermafroditas, nosso corpo nos remete a um destino social, uma forma de ser e de amar. É (ou era) esperado que fossemos nos construir à imagem e semelhança do sexo em que nascemos e que estejamos interessados pelo sexo oposto, sem maiores vacilações e questionamentos. Mas nunca é tão simples assim. Para começo de conversa, temos uma complicada história de amor com o progenitor do nosso mesmo sexo, em relação ao qual temos desejos, vontade de ser amados e escolhidos por ele.

Quanto à aparência, juntamos traços da mãe e do pai, ou daqueles que cumpram essas funções em nossa vida, misturamos com vivências que incluem outras personagens marcantes (professores, amigos da família, outros parentes) e com isso montamos nossa identidade. Essa mistura toda inclui, obviamente, pessoas de vários gêneros. Antes de chegar à vida amorosa propriamente dita, as amizades na infância e na puberdade muitas vezes são sofridíssimas histórias de amor homoerótico. Meninas padecem pelo abandono amoroso das amigas, meninos se escolhem e discriminam, para tristeza de uns e outros, sem que nenhum dos envolvidos vá necessariamente se tornar gay mais adiante.

Ao longo da vida, podemos até mudar aquilo que nós mesmos pensávamos sobre nossa escolha amorosa e erótica (homo ou hétero), ou sobre nossa aparência (feminina, viril ou andrógina) em função de um processo, de experiências, encontros. Também pode acontecer de crescermos com certezas (ou suspeitas) a respeito disso desde pequenos. Há aqueles que chamamos de bissexuais porque descobriram um amor no seu mesmo sexo, e então, quando esse amor termina, voltarão à condição anterior. A sexualidade e a construção da identidade de gênero são imprevisíveis, a única certeza é o adeus às certezas.

Por isso, hoje tantos jovens têm ousado explicitar essa mobilidade, essa ambivalência sexual. Estão mais liberados para viver a complexidade de como ser a amar. Não se trata de algo criado pelos nossos tempos mais liberais, trata-se de dar visibilidade a algo que ficava nos subterrâneos, que era vivido clandestinamente, culposamente, ou era reprimido gerando quadros psíquicos variados, não raro graves e incapacitantes. Essa nova liberdade não inibe nem propicia o surgimento de homossexuais, apenas evita neuroses.

Raramente recebemos pacientes que se queixem da forma como desejam, isso é para todos nós uma força que nos impulsiona e se impõe. Os motivos de consulta, que movem experiências terapêuticas, em geral dizem respeito à relação da pessoa e do seu meio com esse desejo. Um homem dificilmente buscará tratamento por desejar outros homens, mas o fará porque isso o faz sentir diminuído frente à família, os colegas de trabalho ou estudo. Portanto, é o preconceito, é a ilegitimidade do desejo, que certamente leva ao sofrimento psíquico. Amores proibidos dóem por serem proibidos, não por serem amores.

A homossexualidade não é uma doença a ser curada, ela não passa de uma forma de desejar. Já a homofobia talvez inspire cuidados terapêuticos. A ajuda psicológica deve ser dispensada para aqueles que apresentam uma vida limitada por uma relação conflitiva com os próprios desejos. Precisam de ajuda os que sofrem quando entram em contato com algo que lhes lembra pensamentos inconfessos, com os quais não conseguem conviver, os que são assombrados por dúvidas para as quais não têm resposta. A fobia é uma dessas formas de sofrimento, na qual alguém fica fixado em algo que lhe produz horror e fascínio. Todo mundo tem alguma, mas quando elas se tornam fortes e assumem muita importância na vida de alguém acabam sendo motivo de consulta. Por sorte fobia tem cura, não é fácil, mas muitos já conseguiram.

Exposição no TEDX sobre felicidade

A obrigação de ser feliz transmitida de pais para filhos, as ilusões que nos escravizam, as drogas que prometem, entre as quais certas formas do amor

http://www.youtube.com/watch?v=K-1_mhlEziM&sns=tw …

Um tempo de homens que amam as mulheres

Fora dos clichês do feminino, mas dentro da tradição do romance policial, Lisbeth Salander é uma vitória feminista.

Detetive mulher como ela, nunca foi vista. A soporífera Miss Marple deve estar furiosa em seu túmulo. Aliás, muitos diriam que ela sequer é feminina: destemida, franzina, tatuada e cheia de piercings, aparência andrógina, bissexual assumida, sempre em guarda, carente de empatia. A fragilidade de sua figura não sugere nenhuma delicadeza, Lisbeth Salander foge totalmente aos estereótipos do gênero. Mas sim, ela é mulher, de um tipo em expansão, levando o território do feminino e da novela policial por novas trilhas, seguidas com entusiasmo por um vasto público. Essa proeza é obra de um escritor sueco, Stieg Larsson, jornalista engajado, feminista convicto, que morreu cedo, sem saber do estrondoso sucesso de sua trilogia Millenium.

Depois dos milhões de exemplares vendidos em todo mundo e dos filmes suecos, chegou a vez de Hollywood mostrar sua versão da série. No que essa história tanto agrada? A trama é boa, o herói, o jornalista Mikael Blomkvist, é um sujeito incorruptível, interessado no bem comum, contra o capitalismo selvagem e as falcatruas que ocorrem nos cantos escuros. Estávamos carentes de bons heróis, com legítima preocupação social. Porém, acreditamos que é na personagem da jovem detetive Lisbeth que reside a novidade e o segredo cativante da história.

Os livros da trilogia buscam desvendar uma série de crimes, mas o verdadeiro desafio é descobrir a história da própria Lisbeth, a origem de seu heroísmo fora de esquadro. Dos ótimos filmes suecos (Niels Oplev, 2009, o primeiro nas locadoras), infelizmente só estreou no Brasil um episódio. Os americanos providenciaram um remake, como de hábito. No lugar do charmoso e nada bonito repórter do filme original, entra o galã Daniel Craig, questão de gosto.

Na história de Larsson, o repórter investigativo Blomkvist vive o pior momento de sua carreira após ter sido vencido pelos advogados de um magnata ignóbil, cuja corrupção havia denunciado. Pontos fracos de sua investigação viabilizaram essa derrota e a revista da qual era editor chefe também teve seu prestígio abalado. Sente-se desacreditado e está financeiramente quebrado. É então chamado por um velho milionário que o incumbe de investigar um desaparecimento, ocorrido há quatro décadas, de sua sobrinha predileta e herdeira.Um mistério que não queria morrer sem ver desvendado. Ressabiado, Mikael aceita a missão mas procura se alicerçar melhor, pois teme ver suas descobertas caírem novamente em descrédito. Para lhe proporcionar uma retaguarda técnica, uma agência de detetives lhe envia seu melhor homem: Lisbeth Salander, cuja aparição é sempre impactante.

Lisbeth é uma brilhante hacker profissional, fala pouco e intimida o interlocutor com seu olhar fuzilante. Miúda mas ágil como um ninja, une a milenar curiosidade feminina a uma mente objetiva e racional. Entre as mulheres da ficção popular, as poucas super-heroínas tendem a ter seus dotes associados aos atributos físicos, são voluptuosas como a ronronante Mulher Gato, a antiga Barbarella ou Lara Croft, nascida dos games.

Lisbeth é cerebral como Sherlock Holmes, misteriosa e poderosa como uma bruxa, mas sua mágica é terrena. Semelhante a Batman, outro herói sombrio, seus poderes são fruto da obstinação e da inteligência, assim como a motivação de ambos nasce de um grande ressentimento, o dela contra os homens que não sabem amar as mulheres. Poderia ter sido criada por Mary Shelley, pois como a criatura do Dr. Frankenstein torna-se vingativa por ter crescido desamparada num ambiente violento, no caso dela onde as mulheres são violadas e feridas, e assim como ele é feita de um apanhado de pedaços. Os fragmentos com que a criatura Lisbeth se monta provém do que outrora era exclusivo dos homens: é guerreira, estrategista, sedutora, prática e insensível sempre que necessário. Qualidades tradicionalmente masculinas, das quais uma mulher ao se apropriar acaba, ainda hoje, parecendo, a seu modo, monstruosa. O susto provocado pela imagem da detetive hacker provém do mesmo medo que levou as bruxas à fogueira: o poder feminino.

A mulher sempre foi temível por deter os segredos de alcova, calcanhar de Aquiles da grandeza dos seus homens. Os bastidores foram seu reino, seu poder provinha exclusivamente da vida privada, onde se oculta a verdade de cada um, uma essência que a imagem pública esconde com zelo. É por isso que todos, Freud inclusive, não cessam de se perguntar o que querem as mulheres. No apreço delas residiria o verdadeiro valor de cada um, por isso devem ser decifradas, conquistadas e subjugadas.

Lisbeth e Mikael confundem os clichês dos gêneros. A bissexualidade de Salander, tão em voga, é um poder cobiçado, como se os mistérios do sexo, que nos é sempre oposto, pudessem tornar-se finalmente acessíveis. Seduz mais do que é seduzida, enquanto seu par, o “Dom Juan” Blomkvist, é que sucumbe aos seus encantos. Ele é o parceiro perfeito da nova mulher: sabe ser paternal e cuidador, mas permite-se depender dela se necessário. Ele é ético, confiável e fiel como se espera de um grande amigo, sensual e respeitoso, nunca compete com elas, as ama, admira e jamais as submete. No contraponto desse homem ideal estão os crápulas, que nos romances da trilogia são numerosos, desprezíveis, sendo que o próprio Blomkvist já sofreu nas mãos de um deles.

A grande repercussão da série é reflexo da vitória do feminismo e da democracia enquanto ideais, pois a missão da dupla é o exorcismo da injustiça e do poder do homens maus, representantes do antigo pai despótico, ditatorial, do machismo que estupra e reprime. Ao longo da história, homens e mulheres lutaram juntos, mas apesar delas costumarem somar forças às grandes causas libertárias, as pautas feministas eram sistematicamente esquecidas. Elas foram freqüentemente traídas pelos seus companheiros de luta, deixadas para trás, queixosas. Pode ser que isso esteja acabando. Blomkvist e alguns homens de seu tempo estão com as mulheres, já não as temem tanto. O maniqueísmo do romance policial, como nos contos de fadas, nos tranquiliza com a vitória do bem. Neste caso, da dignidade das mulheres.

Publicado no caderno Cultura, jornal Zero Hora, em 11 de fevereiro de 2012

Precisamos falar (ainda mais) sobre o Kevin

Trechos de nosso livro sobre a obra de Shriver, maravilhosamente reatualizada pelo filme de Lynne Ramsey. Nosso Oscar vai, sem dúvida, para ele!

Quando escrevíamos nosso livro, procuravamos detectar histórias que sintetizassem fantasias em circulação, que fossem uma espécie de síntese de sonhos e pesadelos coletivos, mitos úteis a uma época. Quanto às obras antigas, é fácil reconhece-las, pois o tempo é o melhor avalista. Foi quando surgiu o livro de Lionel Shriver, “Precisamos falar sobre o Kevin”, cuja leitura nos arrebatou, de tal modo que todo o primeiro ensaio do livro se dirige a ele, como fecho de ouro do que queríamos dizer. Após a publicação, seguíamos nos perguntando se a aposta tinha sido certa, o livro era genial, mas duraria? Se ele caísse no esquecimento, se fosse apenas um livro de época, brilhante mas passageiro, nossa reflexão sobre ele permaneceria útil? Acabamos de assistir ao filme incrível da diretora Lynne Ramsey, uma obra prima feita sobre ele. Neste momento, achamos que valeu. Boa oportunidade para recolocar a discussão em jogo, reproduzindo os trechos do livro sobre o Kevin, do capítulo que se encontra disponível on line em nosso site (http://www.marioedianacorso.com/psicanalise-na-terra-do-nunca/capitulos-online)

Um monstro no ninho: trechos do livro “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia” , Ed. Artmed, 2010.

Crianças demoníacas e monstruosas?

Em meados do século XX um novo monstro ganha terreno: o filho. Não estávamos em falta de figuras para o horror, ao contrário, nossa fantasia demonstra extrema criatividade em fabricar monstros. Qualquer novidade se incorpora ao nosso vasto bestiário fantástico, tanto que temos monstros de todos os tipos, encarnando todas as formas do medo, do horror, do inimaginável. Mas colocar as crianças, e principalmente as próprias, como monstros é realmente uma novidade.

A primeira metade desse século, convulsionado pelos massacres de duas guerras mundiais, mostrou o quanto somos capazes da destruição em massa, do caos, sem auxílios mágicos, sobrenaturais ou divinos. O mal foi dessacralizado, ele está entre nós. Foi em ventres humanos que se geraram os monstros que hoje nos assombram, e descobrimos quão longe podemos chegar. As crianças, os filhos, são caixinhas de surpresas: Curie, Einstein e Fleming foram filhos de alguém, mas Hitler, Mussolini e Stalin também!

Representações de crianças como sendo um problema, um incômodo, ou ainda como malditas, não são um fenômeno contemporâneo. Porém as histórias clássicas foram arranjando suas particulares maneiras de mascarar essas intenções, de suavizar o ataque. De forma velada, simbólica como nos sonhos, os contos de fadas narram vinganças dos grandes contra os pequenos, principalmente contra sua gula e o fardo de prover-lhes sustento. Aparecem como descartáveis comilões em João e Maria, onde são colocados como indignos de dividir o alimento com os pais, e acabam pagando caro pela voracidade de devorar até as paredes da casa de doces.

Em O Flautista de Hamelin o pedido da comunidade para livrar-se dos ratos pode ser lido como metafórico, pois as crianças também podem ser incômodas, parasitas inúteis. Não é por acaso então que o Flautista as leva embora pelo mesmo caminho trilhado antes pelos ratos. Estabelecendo uma equivalência simbólica, elas seriam nossos “ratinhos de estimação”.

Mas as crianças dessas histórias nunca se ocuparam do ofício da maldade. Na pior das hipóteses, elas constituíam uma personagem malcriada e egoísta, em contraponto com a boa alma da sua oponente, como a pequena heroína no clássico As Fadas de Perrault. A tarefa de representar o mal, de exercer a violência, o abandono, estava a cargo dos pais desnaturados, das madrastas, dos ogros carnívoros, de todos os malvados que deveriam ser responsáveis pelo seu crescimento. Os adultos eram os monstros, enquanto os pequenos eram as vítimas.

Também sempre houve filhos amaldiçoados, cujo nascimento acarretaria a destruição da família e do reino, como Édipo que desgraça Tebas, ou Paris que arruína Tróia, todas as mitologias conhecem personagens assim. O funesto destino dessas crianças estava marcado já antes do nascimento, geralmente devido a pecados cometidos por gerações anteriores, que agora vinham cobrar seu preço, arrastando seus pais e o reino para o desastre. De qualquer forma a maldade, o erro que iniciou a queda, precedia essas crianças que foram abandonadas para o bem dos pais. Como inutilmente fizeram Laio e Príamo, quando descartaram seus filhos, assim que souberam das profecias.

Em todas as histórias antes mencionadas, na dúvida entre uma geração e outra, os pais escolhiam a própria sobrevivência. Essa opção não é tão estranha em outra época ou culturas, como o é para nossos contemporâneos. Para nós, a proteção da criança é prioridade máxima, sendo a maternidade e a paternidade valores sociais muito importantes. Essa valorização é recente, data de poucas centenas de anos, quando o discurso moral e pedagógico passou a investir na sobrevivência e formação das gerações futuras, assim como a evolução sanitária lhes facilitou a sobrevivência. Antes, mais valia um adulto na mão do que várias crianças voando. Criança era um cidadão incerto, adulto era certíssimo.

Como para cada ação há uma reação, na vida e na ficção, vamos examinar como a atual exaltação da importância das crianças, e do papel dos pais, acarretou uma contrapartida, uma reação inconsciente, que está na origem de fantasias onde se atribui às crias humanas um valor negativo. Impedida de se exercer no discurso corrente, pois elas seriam o tesouro e a promessa da humanidade, a ambivalência em relação às crianças refugiou-se no território da fantasia.

Os exemplos são múltiplos, as fantasias de crianças-monstros estão bem disseminadas, mas escolhemos algumas, não necessariamente as melhores, mas as que fizeram um sucesso inequívoco. Sua popularidade, traduzida em permanência e difusão, nos indica que produziram algum eco social. A vantagem adicional é que contaremos com um acervo de histórias que é compartilhado, afinal, muitos as conhecem ainda que parcialmente.

Examinaremos uma vertente das fantasias relacionadas às crianças: sua origem, histórias aterrorizantes envolvendo a concepção, o parto e a criação de um monstro. Por isso, a mulher, a mãe, é uma personagem envolvida de forma inevitável. Ela surge enquanto vítima, oponente, protagonista ou causadora do mal, ou enquanto todas essas ao mesmo tempo. Consideramos que são obras eloqüentes desse viés, a gestação invasiva, satânica e alienante em O Bebê de Rosemary; o “parto” que irrompe e mata em Alien; o filho como um estranho no ninho, um cuco demoníaco, em A Profecia; ou o horror, desesperadoramente humano, presente no livro Precisamos falar sobre o Kevin.

Todos eles são alusivos, de forma direta ou indireta, à gravidez conturbada e à chegada dum filho monstruoso. Inevitável pensar, que junto ao filho maligno estamos indiretamente exorcizando sua coadjuvante inevitável, a fêmea humana, que no século XX tornou-se tão outra, tão diferente daquilo que nos séculos precedentes acostumou-se a chamar de mulher.

(da Introdução do capítulo 1, pg.29)

Um demônio demasiado humano: Precisamos falar sobre o Kevin

Para a psicanalista Helene Deutsch, há diferentes tipos de maternidade, que ela divide basicamente em dois grupos: um tipo é a mulher que desperta para uma nova vida através de seu filho, sem ter o sentimento de uma perda. Tais mulheres desenvolvem seus encantos e sua beleza somente depois do nascimento de seu primeiro filho; o outro tipo é a mulher que desde o princípio sente uma espécie de despersonalização na relação com seu filho; tais mulheres dedicam seus afetos a outros valores (erotismo, arte ou aspirações masculinas) ou esse afeto é demasiado pobre ou ambivalente em sua origem e não pode tolerar uma nova carga emotiva; o primeiro tipo estende seu eu através da criança, o segundo sente-se limitado e empobrecido1. Datado de 1944, o livro de Deutsch encontra ainda as mulheres em papéis sociais mais rígidos. Hoje, os dois tipos que ela teoriza convivem em cada mulher, junto com todas as nuances intermediárias entre eles. Em um livro chamado Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver2, uma escritora norte-americana, a literatura produziu um exemplo do que seria o segundo tipo de mulher. Nesse livro vamos encontrar a mesma trama de estranhamento anteriormente discutida, mas sem o apelo do demoníaco.

Aqui estamos sem máscaras religiosas ou fantásticas, face a face com as fantasias mais monstruosas encenadas por gente comum. Justamente, essa novela assusta por evocar “a vida como ela é”. É uma história ficcional, narrada pela mãe de um “garoto columbine”, como ficaram chamados os meninos assassinos que matam vários colegas de escola. Seu primogênito, Kevin, realizou um morticínio múltiplo, friamente calculado, de onze pessoas. Entre os mortos figura a vida pública da mãe, obviamente destruída após o evento.

Como muitas mulheres de nossa época, essa mãe não tinha pouco a perder: levava uma vida bem interessante quando a maternidade a deportou para um mundo desconhecido, cheio de novas regras e exigências. Numa espécie de idealização da vida da mulher independente, avessa à rotina encerrada e monótona da dona-de-casa, a personagem de Eva Katchadourian é uma nova-iorquina, escritora de guias de viagens para jovens, portanto, uma viajante profissional, culta e próspera. No campo amoroso ela é apresentada como igualmente bem sucedida, vivendo um casamento romântico com um homem atraente. Porém, não foi com os crimes cometidos pelo filho que a derrocada dessa vida idealizada de mulher livre começou, foi com seu nascimento, ou melhor, já durante a gestação.

Como sua homônima, a personagem bíblica, condenada a padecer após a expulsão do paraíso, Eva gestou e pariu com dor. Seu relato da experiência é tocante, o corpo começa a assumir outras cores, os seios lhe parecem ubres, a vagina, outrora fonte de prazeres, se tornou caminho para alguma parte, um lugar real, e não apenas para uma escuridão na minha cabeça. Queixa-se de ser um instrumento biológico, seu corpo deixa de ser propriedade privada, tudo o que me fazia bonita era intrínseco à maternidade, e até mesmo meu desejo de que os homens me considerassem atraente era uma maquinação de meu corpo projetada para expelir seu próprio substituto. Cruzada a soleira da maternidade, de repente você se transforma em propriedade social, no equivalente animado de um parque público. Como se vê, a obra é farta em sinceridade quanto às fantasias e contratempos da gravidez.

Corroborando seus temores, o marido de Eva a congratula pela gestação: bem vinda à sua nova vida! Nessa nova vida, sendo que ela gostava muito da velha, ela não escolherá mais como administrar seu tempo, sua alimentação. Suas prioridades serão as do feto, e ela descobre isso logo de entrada. Como uma princesa da ervilha, queixa-se do incômodo da situação: já estava me sentido vitimada, como se eu fosse uma princesa, por um organismo do tamanho de uma ervilha.

Eva desejou vagamente uma boneca, um bicho de estimação, um amigo imaginário, um substituto permanente do marido quando ele se ausentava, um troféu de sua relação, porém nasceu-lhe um novo papel social e um amo monstruoso. A vida anterior, da mulher bem sucedida e sem filhos é o paraíso perdido. Paradoxalmente, neste caso a tentação não veio da ruptura, da curiosidade e irreverência que sempre tornaram as mulheres tão perigosas. A tentação que provocou a expulsão de Eva veio do passado: desempenhar o mais tradicional papel feminino, a maternidade.

Não somos nós, é ela própria que se coloca na linhagem das mães de monstros, de que aqui nos ocupamos, ao descrever sua gestação assim: Já reparou quantos filmes retratam a gravidez como uma infestação, uma colonização sub-reptícia? O Bebê de Rosemary foi só o começo. Em Alien um extraterrestre nojento sai da barriga de John Hurt (…) Durante todo o tempo em que estive grávida de Kevin, combati a idéia de Kevin, a noção de que eu havia sido rebaixada de motorista a veículo, de proprietária a imóvel em si 3.

Uma vez nascido, o bebê Kevin foi visto pela mãe como possuindo uma personalidade própria, pré-existente, e destinada a se desencontrar com a dela. Ao contrário do marido, que esperava um filho genérico, tendo um papel pré-estabelecido para qualquer um que nascesse, para Eva não havia lugar nem para o feto idealizado. Desde o começo estabeleceu-se um duelo de subjetividades, uma tensão entre diferentes. Ele rejeitava seu leite, cujo sabor não suportava, sequer na mamadeira que tomava exclusivamente no colo do pai, chorava de forma incessante, alheio ao conforto de seus braços. As intermináveis gritarias de cólica pareciam ser exclusivamente para sua mãe, pois cessavam no instante em que o pai entrava em casa, e Eva via nisso uma intencionalidade maligna contra si.

Na primeira infância, Kevin negou-se a falar o quanto pôde, embora a mãe suspeitasse que ele estava apto para fazê-lo, e obrigou-a a lhe trocar fraldas até os seis anos, num descontrole esfincteriano que ela compreendia como mais uma forma de controlá-la, uma disposição do filho de obrigá-la a viver entre as fezes. Com o pai mantinha uma relação apagada, blasé, com a mãe de cotidiana tortura. A cumplicidade entre mãe e filho, na qual só ela parecia perceber a sordidez do espírito de seu pequeno monstro, só fez aumentar. O pai surpreende-se com as queixas da esposa, para ele Kevin era absolutamente normal, mas ela tinha certeza que isso era assim para que ela passe por louca.

A vida segue, as babás se demitem sucessivamente, os amigos o evitam, os professores o acham bizarro e ele se isola. O menino é diabólico a ponto de jamais ser pilhado, nunca é punido, faz a todos de bobos, principalmente o pai, que nunca vê o que não quer ver. A demonstração de sua perversidade só veio se comprovar com o desenlace do massacre final.

Após o banho de sangue, Eva e Kevin terminam vivendo um para o outro, continuando sua simbiose às avessas, dedicando-se e odiando-se mútua e intensamente. Nada mais lhes resta senão viver reclusos, ela transformada num fantasma, uma sombra do que fora, entocada em casa, apenas aguardando a próxima visita à penitenciária local onde ele cumpre pena pelos assassinatos. Justo ela, que sentia-se mortificada com a perspectiva de me ver irremediavelmente encurralada na história alheia4.

Entre a mãe de Damien e a de Kevin há algo em comum, é o complexo de cuco. Embora parido das suas entranhas, Kevin é um ser com idiossincrasias próprias desde seu nascimento, cuja missão foi realizada: destruir a identidade de Eva. Damien, o menino-demônio, não descansa enquanto não elimina sua progenitora, ele não quer uma mãe, quer uma adoradora dedicada, uma fanática sem personalidade como sua babá Mrs. Baylock.

Embora não tenha empreendido o projeto da maternidade contrariada como Eva, a mãe de Damien também acaba sofrendo. Ela estranha-se da personalidade e frieza de seu menino, não consegue sentir com ele a conexão que supunha que existiria. Ambas suspeitam que haja algo de errado com seus meninos. O mais antigo, o diabo, ele tem suas razões, quanto a ele não é preciso angustiar-se, pois as forças do mal que podem fazer de um filho o algoz dos pais, estão além da vontade humana. Mas esse alívio moral não existe no livro de Shriver.

Na história de Kevin a mãe foi processada e condenada pelos pais das vítimas do massacre, a sociedade a fez pagar, privando-a totalmente de seu patrimônio e prestígio, pelos crimes do filho. É sua frieza, a incapacidade de ser mãe, a grande acusada pelos crimes do filho. Essa é a maior vitória dele, afinal, destruí-la era o que ele mais queria.

No livro, cada fiapo do tecido da ambivalência do amor materno é rastreado, assim como as contradições entre a maternidade e a liberdade das mulheres. Tampouco o pai sai pagando barato, é descrito como um cidadão típico americano, fútil e superficial, cujo ofício era buscar locações para serem cenários de comerciais. Na vida familiar é exatamente assim que ele se comporta, como alguém que apenas descobre o local, ele não cria nada.

Quanto a Eva, sua profissão também é metáfora de seu modo de vincular-se: para escrever seus guias, ela investiga formas, lugares e dicas para que as pessoas possam circular pelo mundo gastando pouco e incomodando-se o menos possível. Passar muito trabalho, gastar demasiado dinheiro, ou envolver-se em contratempos, não é uma boa forma de viajar, mas são percalços inevitáveis na vida cotidiana.

Viagens incluem revezes, mas eles não devem incomodar muito além de conexões perdidas, noites mal dormidas ou refeições ruins, não chegam aos pés dos sofrimentos que se pode ter quando no trabalho, no amor ou na família ocorrem fracassos, rupturas e dores. Viajando, andamos por lugares em que ninguém nos conhece, onde nada se espera de nós e procuramos extrair o máximo de prazer da forma menos dispendiosa possível. Eva conseguia viver assim, mas não havia jeito de ser mãe com esses critérios.

Na visão do pai, Kevin cumpria o papel social do filho, era um cenário, independente de quem ele fosse, enquanto Eva faria o da mãe, apesar de quem ela havia sido. Onde ela via alguém no filho, apesar de demoníaco, ele somente observava o clichê que queria ver, ficando ainda mais distante dele do que a mãe.

Os assassinatos cometidos por Kevin5, de certa forma, fazem valer o nome da mãe. Numa estranha negociação, Eva e o marido haviam decidido que caso o filho fosse menino, ele teria o pré-nome escolhido pelo pai e carregaria o sobrenome materno, Katchadourian, que é de origem armênio. Ela argumentou que seu povo foi cruelmente massacrado e por isso mereceria ser homenageado com a nomeação de seu filho6.

Na ausência de um pai que reivindicasse um papel maior, assim como do pai de Eva pouco sabemos, o menino tomou para si, literalmente, a herança desse massacre. Apenas mudou de lado, de vítima, passou para a posição de algoz, como se fosse um armênio que vingasse seu povo. Kevin sempre parece tomar as coisas de forma literal, como o fazem as crianças e adultos com graves perturbações psíquicas.

Uma mulher sem filhos, pode sentir-se “desfilhada”, como disse certa feita uma paciente que havia passado por múltiplas e sofridas experiências de abortos provocados. Em suas associações, essa expressão reverberava enquanto alguém que carecia de uma filiação, era “desfiliada” de uma família, por não tê-la continuado. Filiar-se a uma linhagem, ao inserir seu filho nela, pode fazer parte de um pacto entre uma mulher e um homem, a partir do qual eles criam algum projeto para seu descendente. A característica da negociação entre os pais de Kevin a respeito de seu nome determinou que ele tivesse que apegar-se a algum traço, de preferência materno, para fazer-se elo, conexão, entre uma origem, uma família, o passado de um povo, e um projeto de futuro, o seu futuro. Kevin é filho de um pai-cenário e uma mãe-viajante, entre eles não há síntese.

Para delinear um papel na vida, para fazer seus planos, um filho inspira-se em suas origens. Ele pode fazer isso a partir daquilo que orgulha ou mesmo do que envergonha a seus pais e antepassados, pode tomar essa base para continuá-la ou para romper com ela, mas sua família sempre cumpre algum papel. Será melhor se isso lhe for transmitido de alguma forma explícita, senão tentará fazer sua versão, fazer-se elo de uma linhagem de algum jeito, não necessariamente de forma patética como Kevin.

A recusa de uma mulher à maternidade parece ser a ameaça visível à continuidade das famílias e o livro de Shriver é um exemplo das fantasias geradas por esse medo, do quanto isso soa ameaçador e teme-se que custe caro para a mulher e para a sociedade. Eva é incriminada pelos assassinatos de Kevin, assim como a sociedade teme as monstruosidades que podem advir da ausência do amor materno. Em suma, esse livro une-se ao coro dos que têm maus presságios sobre a falta de pendor de muitas mulheres para a maternidade. Em histórias como essa, as monstruosidades provém das mães contrariadas, por isso Eva é habitante do inferno, porque o esse filho endemoniado teria sido obra sua. Por outro lado, pode funcionar como um alerta contra a coerção social que mobiliza todas as fêmeas humanas na direção da procriação: cuidado, se elas forem forçadas, um monstro pode estar sendo gerado!

Sentimos alívio ao final das obras policiais, quando fica claro quem é o culpado e quais foram suas motivações. Essa é a função desse tipo de novela, circunscrever o mal para que possamos livrar-nos dele. Por isso, frente ao deslocamento que ocorre nessa obra, da origem do mal do diabo para uma vaga psicogênese, assim como do papel do assassino do anticristo, para um filho enlouquecido pela rejeição inconsciente dos pais, ou por qualquer outra sutileza, fica difícil dormir em paz.

1 Deutsch, Helene. La Psicologia de la Mujer, Parte II – Maternidad. Buenos Aires: Ed. Losada, 1960, Pg. 59.

2 Shriver, Lionel. Precisamos falar sobre Kevin. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2007.

3 Ibidem, pg 66, 67, 69, 71 e 76.

4 Ibidem, pg. 45

5 O livro de Shriver contém uma chave na trama, que nos absteremos de analisar para não estragar o prazer da leitura para aqueles que ainda não a fizeram.

6 Também conhecido como “Holocausto Armênio”, iniciado em abril de 1915, foi o extermínio sistemático dos armênios residentes na Turquia, punidos pela intenção de constituir uma pátria autônoma. Esse é considerado um marco histórico na experiência do genocídio, pela sua documentação e pelas provas da intenção deliberada de bani-los da face da terra. Acredita-se que morreram 1,5 milhões de armênios nesse genocídio. É interessante observar como nessa ficção o pequeno monstro é conectado com uma das experiências paradigmáticas do mal, aquele para o qual não necessitamos de mensageiros sobrenaturais, do qual nós humanos nos incumbimos pessoalmente.

Complexo de Nardoni

Sobre o sacrifíco dos filhos de relações anteriores

A mitologia geralmente nos ajuda nas tragédias humanas: sempre podemos invocar uma personagem prototípica para uma situação real. Os romanos tinham as Fúrias (para os gregos Eríneas), terríveis deusas da vingança. Mas não era qualquer vingança que as despertavam, elas infernizavam a vida de quem derramou o sangue de seu sangue. E elas estavam lá, do lado de fora do tribunal, onde era julgado o casal Nardoni, havia uma multidão “enfurecida”, que não fazia outra coisa que esperar para linchar.

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19/03/10 |
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Eu me inscrevo, me descrevo: escrevendo em mim

Sobre tatuagens e outras marcas corporais

O hábito de enfeitar o próprio corpo com cicatrizes e pigmentos é trans-cultural e milenar, e agora é moda juvenil no mundo globalizado. As tatuagens, que costumavam ser de uso eventual na população em geral, e de uso massivo apenas em grupos marginais e de instituições fechadas, ganharam um novo e amplo público nessas últimas duas décadas. Os piercings acompanharam a tendência, e em menor escala, mas nessa mesma direção, as escarificações para fins decorativos e os implantes subcutâneos.

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