Cinema e TV
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Machismo na cozinha

Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a escravas de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos!

Valentina é uma menina que ganhou notoriedade pelo programa MasterChef Júnior. Ela tem a aparência de sua idade, 12 anos. Veste-se de forma adequada, sua fala e expressões são as de uma púbere comum. É graciosa, como  muitas meninas nessa fase. Mas o protagonismo que ganhou deve-se a manifestações agressivas de cunho sexual de que foi vítima na internet. A questão é: o que a fez uma garota, participante de um programa de culinária, ser alvo dessas agressões? Se alguém conseguiu ver nela qualquer tipo de insinuação, essa pessoa é um prodígio de desconhecimento de si, afinal, toma como de fora o que lhe brota de dentro.

Certos homens, por uma insegurança básica de sua masculinidade, acreditam que toda e qualquer exposição feminina que existe, ou que eles supõem que exista, como nesse caso, é para lhes provocar. Como se elas estivessem apenas esperando o seu olhar. Uma vez que se acreditaram provocados, devem agir, demostrar sua macheza, mostrar de que falta de fibra são feitos. É uma típica atitude erotomaníaca, no sentido de projetar seu desejo e suas fantasias no outro. Frente a esse tipo de atitude, de sentirem-se convocados a uma cena que não lhes diz respeito, temos duas possibilidades: os primeiros não necessariamente são abusadores reais, ficam fantasiando e agindo nas sombras, na internet, por exemplo. As redes sociais são o paraíso para os covardes, desse e de todos os tipos, lá não há uma responsabilização direta sobre as agressões. E no espaço virtual começa e termina sua ação constrangedora. Seu dano não é pequeno porque cria uma atmosfera de violência sexual, uma cultura do abuso.

Mas vamos aos piores, o abusadores, os pedófilos. Eles não fazem proselitismo, não latem, eles mordem, por isso são quietos. O que apreciam é a ingenuidade da vítima. Seu gozo necessita dessa assimetria de posições, não é só de força física e de idade, mas principalmente de experiência. Eles querem sentir-se como mestres, iniciadores, a inocência e a surpresa da vítima aumentam-lhes o efeito prazeroso: quanto mais frágil seu objeto, maior o gozo. Arriscam, em termos legais, para não arriscar-se onde sentem-se realmente frágeis: na entrega erótica, não têm peito de enfrentar alguém em pé de igualdade. A escolha de objeto diz muito de nós, pois há uma certa identificação com o parceiro. Por isso pode-se dizer que o abusador procura parceiros onde parou sua maturidade sexual. A sexualidade adulta põem a maioria dos pedófilos a correr, sem um poder tão grande, como ele consegue com uma criança, eles ficam sendo os fracos e impotentes que sua equação sexual particular requer.

A lógica da proteção de que se Valentina não estivesse na TV nada disso aconteceria é a lógica da burca. Esse tipo de cerceamento da circulação social de meninas e mulheres pressupõe que sua presença produz uma inevitável e incontrolável mobilização do desejo masculino. Na sua selvageria auto-complacente, eles exigem que as mulheres fiquem presas para não serem perturbados. Promovem o exibicionismo da macheza por temor dos efeitos impactantes que o corpo feminino lhes produz. Esse tipo de agressor tem medo das mulheres e reage com a violência das feras acuadas.

Talvez a televisão, assim como a internet, sejam uma forma de exposição forte para alguém pequeno, porém, as crianças gostam de ver-se protagonistas de suas atrações. Seria triste se a televisão só mostrasse adultos. É claro que os critérios têm que ser rigorosos, mas já tivemos muitas experiências de exposição erótica de adolescentes no passado da TV e MasterChef Júnior está longe de ser uma delas.

O programa de que Valentina participa não é como os realities shows da versão adulta, onde a humilhação e a concorrência ao estilo dedo no olho parece ser parte integrante do show. A versão mirim é adequada à infância, com mais carinho e elogios do que outras coisas. Não classificaria o programa como educativo, mas que ele coloca questões sobre como criamos nossos filhos. A ideia de proteção da infância é correta, mas muitas vezes exageramos na dose, deixando as crianças fora das experiências da vida, meros espectadores do mundo adulto.

Crianças na cozinha, sempre que supervisionados, me parece uma grande ideia. A comida deixa de ser mágica, elas descobrem o trabalho que qualquer coisa dá, o esforço requerido. A arte culinária pede uma boa dose de concentração, uma sincronização da inteligência motora com a intuição, com a percepção sensorial, é preciso pensar quantidades e tempos de preparo, enfim, não é uma ciência fácil. E deve ser bem mais fácil ensinar química, física e biologia para quem já pilotou um laboratório simples, que é uma cozinha, do que para quem nunca entrou nela.

A culinária entrou na moda quando a classe média, incluindo os homens, tiveram que cozinhar. Enquanto isso era coisa de empregados e mulheres era algo menor. Só que agora as mulheres abandonaram a vocação unívoca para as panelas e, por causa das legislações trabalhistas, este ofício tornou-se oneroso. A consequência, ótima aliás, é que a alienação culinária é menor até entre os adultos mais abastados, como todos têm que se virar um pouco no fogão, cozinhar tornou-se chique.

Na ocupação da cozinha por homens e crianças encontramos a inversa do machismo que confina a feminilidade à vida privada. Elas saíram, eles entraram. As crianças, por sua vez, conscientizadas de que a alimentação é algo no qual se pode ser ativo, deixam de comer como quem mama, o que se lhe puser na boca. Assim a obesidade e as doenças decorrentes da alienação do ato de comer certamente diminuirão. Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a serem uma escrava de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos. Vivemos um momento de reação a essas conquistas, mas elas são irreversíveis.

A invasão zumbi

Zumbi, você ainda vai ser um… na melhor das hipóteses.

Uma dinastia pode estar chegando ao fim. Depois de reinar absoluta durante todo o século XX a primazia dos vampiros no uso da ficção de terror encontrou um adversário à altura: os zumbis chegaram. O começo foi tímido, na década de 30, quando nasceram no Haiti, e seguiram obscuros até os filmes de Romero nos anos 60, mas depois disso ganharam um impulso irresistível e crescem sem parar. Hoje o zumbi é o personagem mais usado para filmes, séries de terror e para imaginar cenários pós apocalípticos. Mas ele é muito mais do que isso, sua marca ganhou nossa imaginação: o zumbi está em games, quadrinhos, existem as “marchas zumbis” em inúmeras cidades, recentemente ganhou uma excelente revista digital: ZumbiGo! Acreditem, até comédia romântica com eles já temos (Meu namorado é um zumbi), ou seja, nenhum cenário de Halloween estará completo sem sua presença. De qualquer forma, a comparação com o vampiro não é sem interesse, afinal, sai um morto-vivo para entrar outro.

Os fanáticos por zumbis vão odiar que eu misture os passivos escravos que eles foram quando nasceram no Haiti, apenas mortos que voltavam à vida pela magia de um feiticeiro para serem usados como força de trabalho barata, aos misteriosos e organizados Caminhantes Brancos de Guerra dos Tronos. Mas estou mais interessado neste momento em suas semelhanças do que nas nuanças que os categorizam. Pois uma questão é comum, e é dessa que quero falar: eles estão mortos mas vivem, e isso partilham em comum com os vampiros.

A questão que devemos nos fazer é o que esses mortos-vivos dizem de nós? Se estão tão em voga, talvez sejam eco de recônditas questões que não nos atrevemos a pensar, e por isso elas abrem espaço na nossa consciência via fantasia.

A morte perdeu espaço na modernidade, sua antiga forma pública foi encerrada dentro de hospitais. Da mesma forma, falamos menos da finitude, e tememos o envelhecimento como crianças temem o bicho papão. Espichamos o tempo de vida, mas encolhemos a reflexão sobre a existência. Portamo-nos de forma ambígua: nos cuidamos para durar mais, mas não encaramos o fim como natural. Desprendida das antigas convenções tradicionais e sem acreditar numa transcendência, a modernidade nos confinou na hipertrofia do presente, por isso a reflexão sobre a morte não prospera. Porém somos, ainda que contra vontade, seres para a morte, a condição humana passa por isso. Se não houver reflexão sobre o tema, ele voltará para nós como sonho e pesadelo. Esses zumbis somos nós, em uma forma lúdica e rebaixada de filosofar sobre nosso destino.

O zumbi fala não só da morte como de sua fronteira: a temida velhice. Os zumbis também representam os velhos, sua incomoda lentidão, seus passos pesados, seus movimentos em câmera lenta. Se a morte nos aguarda, na melhor das hipóteses esse pesadelo vem junto com outro: ficar velho, com o corpo corrompido pelos anos. A contaminação é inevitável, todos seremos zumbis.

Qualquer plataforma mítica comporta múltiplos significados, justamente seu sucesso demostra essas camadas de possibilidades. O corpo decaído é a marca zumbi por excelência. Ora, nosso tempo nos pede um cuidado exaustivo com o corpo. Ele deve ser modelado, malhado, adequado a padrões exigentes. A forma zumbi expressa nosso cansaço com essa demanda de mimar um corpo que inevitavelmente vai decair. É como se disséssemos: vamos ser feios de uma vez, chega de privações e de trabalho forçado, essa casca de pele não vale o esforço exigido! Nesse sentido o corpo zumbi é a recusa do corpo disciplinado e diz que seguimos vivos se não o temos. O zumbi é  o protesto contra nossa vaidade excessiva e o culto a saúde.

Um fato difere categoricamente os vampiro dos zumbis: os primeiros são aristocratas e os segundos são plebeus. Certamente outro fato que o zumbi expressa é a massa. O vampiro está no topo da cadeia alimentar, literalmente se alimenta de todos e ninguém se alimenta dele. O fenômeno zumbi é a revolução francesa no território da ficção, a plebe angariando fatias de prestígio. Nossa ideologia prega a individualidade, devemos ser únicos, afinal, ser confundidos com a massa, ser ninguém, é o grande horror. O fenômeno zumbi sugere um cansaço também com essa ideologia individualista, nos aponta a luta inglória e sem sentido para despontar na multidão, como também a força dos excluídos. O mundo dos vampiros é para eleitos, o mundo zumbi é a verdadeira democracia, aceita a todos, todos seremos zumbis.

Porém a forma pejorativa de ser massa também se expressa no zumbi. Ele começou como escravo e ainda tem muito dele. Um ser sem vontade e sem cérebro, talvez por isso goste tanto de comê-lo, quem sabe ingerindo comece a ter algo dele. A civilização mecânica e burocrática, onde o pensar não tem vez e consumir é a meta, nos faz zumbis. Embora pareça na contramão de qualquer organização social, a toxicomania na sua forma mais acentuada nos deixa zumbis. Drogados são seres para os quais o mundo se esvaziou de sentido, afinal, só se interessam pelo seu objeto, sua substância mortífera. Ou alguém tem dúvida que as cracolândias não são habitadas por zumbis? O zumbi expressa tanto a obsessão nociva da droga como a anorexia do desejo, essa apatia tão comum, mas que corriqueiramente se confunde com depressão.

Zumbi rima com apocalipse, geralmente ele aparece em cenários distópicos. O mundo zumbi é inóspito. Mais por sorte do que por mérito, apenas uma família e amigos se salvam, o resto é inimigo. O olhar político nesses casos beira o simplório: nosso mundo não tem conserto nem esperança, só resta seguir vivendo numa pequena comunidade que se cuida e evitando todos os outros, já que o mundo é, de fato, muito perigoso.

Enfim, o zumbi chegou e terá uma longa vida pois possibilita expressar inúmeras ideias soltas e pensamentos que buscam uma forma. Nada nos mostra que caminhamos na direção de uma convivência mais pacífica e harmoniosa com a morte e com nosso corpo. O pensamento burocrático impera, a crença em objetos mágicos (químicos) que nos adormecerão a vontade também. O mundo nos aparece como mais perigoso e violento. O horizonte político não entusiasma. As condições são propícias para aparições zumbirescas e outras assombrações. E pior, se um zumbi não morder você, um dia teu próprio espelho o fará.

Sherlock Holmes das grandes causas

De detetive excêntrico a super-herói: as transformações de um personagem que foi convocado a salvar o mundo.

As crianças gostam de contos de fada pois eles lhe transmitem uma confiança no mundo: tranquiliza-as a certeza de que no fim tudo que descarrilhou voltará ao normal. Não importa o quanto o herói sofra, quantas perdas tenha, haverá uma reviravolta que colocará tudo outra vez em equilíbrio. Crescemos e seguimos pedindo à ficção garantias que a justiça triunfará, que os bons serão recompensados e os maus pagarão suas faltas. No romance policial o mal é rasteado, esquadrinhado, compreendido e finalmente vencido. Como já não temos o olhar onisciente de um deus sobre nossas faltas, criamos a ideia de que a ciência e seus métodos, aliados a homens especialmente inteligentes, descobrirão tudo. O que nos amedronta virá a luz e será eliminado. Graças a essa linhagem de homens brilhantes e implacáveis seria impossível esconder um crime, assim como era enganar os deuses. O romance policial é o conto de fada dos adultos e o detetive é seu deus decaído. Essa ficção cria um cosmo onde os fatos no princípio não fazem sentido, mas que um olhar esperto juntas as pontas soltas, desvela a maldade e a domina. Não sabemos bem qual é a face do mal, nem o número seus demônios, mas ele é vencível. E mais, o mundo não é caótico, não é som e fúria gratuita, sabendo ler os fatos ele teria um sentido.

Consideramos Edgar Alan Poe o criador do romance policial, mas o maior detetive, arquétipo de todos os que seguiram, nos foi dado por Conan Doyle com seu impagável Sherlock Holmes. Esse detetive transcendeu seu criador e a obra que o originou. Como outras personagens que se tornaram ícones, ganhou contornos de um mito contemporâneo. Por isso muitos se apropriam dele para lhe atribuir novas aventuras. Um mito é um instrumento que ajuda a pensar, uma fantasia a serviço da subjetividade de cada época. Ele muda ao sabor das transformações dos modos de ser e de conceber o mundo e revela um pouco de nós mesmos, de nossos anseios e angústias.

Por ser o melhor, Holmes possui todas as características que distinguem e definem o detetive. Além das óbvias, como inteligência aguda, rapidez de raciocínio, conhecimento enciclopédico, excentricidades aleatórias, eles tendem a ser assexuados. Os grandes detetives não têm família, não se envolvem com namoradas, ou então são passageiros seus affairs. Possuem uma misoginia difusa, tudo indica que as mulheres atrapalham a concentração, essa atitude retoma na modernidade a antiga ideia que sexo e pensamento sério não andam juntos. As mulheres seriam mundanas demais e por isso atrapalham os voos mais altos do pensamento. Como na antigas religiões, é preciso estar puro para ascender ao sagrado e a verdade.

Um dado que pouco nos damos conta é a revolução do pensamento que Conan Doyle nos propõe, e talvez essa seja uma das razões não explícitas de seu sucesso. O modo de pensar comum na virada do século XIX para o XX era partir do todo e então deduzir o particular. Doyle pega no ar a mudança em curso de paradigma e nos demonstra, de forma acessível, a possibilidade de chegar à verdade através de pequenos indícios, pistas infinitesimais em que antes não reparávamos. Hoje é fácil, depois do DNA, acreditar que as pequenas coisas têm assinatura, no começo do século passado era apenas uma intuição.

Mas o que a última versão de Sherlock, os dois filmes de Guy Ritchie, mantêm do original? Ainda é o nosso Holmes? Creio que sim, as características da sua personalidade foram mais mantidas que as do gênero policial. Os filmes estão mais próximos dos romances de aventura. No romance policial o crime já está dado, basta decifrá-lo, enquanto na aventura o mal está em curso e cabe ao herói alterar seu curso. Além disso, o Holmes de nossa época pede um equilíbrio maior entre corpo e cérebro. Hoje um herói de poltrona, sem músculos e agilidade seria impensável. O mesmo se dá em relação a Watson que passa a ser mais esperto e participativo, nosso tempo anti-aristocrático não suporta parcerias tão assimétricas.

Quanto aos objetivos, Holmes alargou seu horizontes: agora as grandes causas lhe interessam. Ao invés de assassinos pérfidos isolados, roubos e intrigas, na sua versão atual a meta é a estabilidade política da Inglaterra e evitar a primeira guerra mundial. Repaginado, ele sai da esfera policial e chega na política, agora é um herói mais elevado e politicamente correto. Sua inteligência está a serviço do bem de todos, portanto, podemos dormir mais sossegados.

publicado na revista Carta na Escola, março de 2012

18/04/12 |
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Geração Harry Potter

por ocasião do lançamento do último filme da série, artigo para a Revista Carta na Escola.

O observador desavisado pode pensar o fenômeno Harry Potter apenas como um investimento bilionário da indústria cultural. De fato foi, mas só depois de ter trilhado um caminho solitário, com tropeços e sem outro incentivo que não o de ter tocado o coração dos seus primeiros leitores. Foi na base de uma difusão boca a boca que esse livro, de uma autora estreante, conseguiu seus pequenos admiradores.

Claro, depois da história se provar viável, a mídia investiu forte e fez dela o que é: marco literário da ficção para jovens. Podemos inclusive falar que existe uma “geração Harry Potter”. São jovens que estão hoje ao redor dos seus 20 anos, que nasceram em torno da década de 90 e pegaram a onda quando chegavam à puberdade ou no começo da adolescência. Em razão de que outras marcas ideológicas entraram em declínio, tornou-se comum as pessoas se referenciarem e identificarem na condição de consumidoras de certas obras literárias. O universo que J.K. Rowling criou é sem dúvida uma delas, mas esse fenômeno é partilhado por fãs, até então mais velhos, de sagas como Star Trek, O Senhor dos Anéis ou Star Wars, a galáxia distante de George Lucas. As crianças que celebrizaram o bruxinho de Rowling, além de habitar esse complexo reino mágico, o acompanharam enquanto ele nascia, com cada livro e filme aguardados ansiosamente. Ou seja, trata-se de uma geração e uma série que cresceram juntas.

Mas o que podemos aprender com o fenômeno Harry Potter? Se ele realmente fez eco em tantos é impossível que não traduza questões que estão postas para esses jovens. Uma resposta para esse encontro feliz entre obra e geração está no mais óbvio: a busca da magia, mas entender o que significa essa magia é algo que requer um esforço a mais.

Max Weber notava que a marca mais forte da modernidade foi o desencantamento do mundo, no sentido do pensamento mágico que revestia o cotidiano, a cultura e o raciocínio dos antepassados. O declínio das religiões e o avanço do pensamento científico reposicionaram o homem ante o cosmo. Mas, infelizmente, as promessas do iluminismo, da ciência, da razão, falharam.

Acreditávamos num mundo racional, no qual, graças ao avanço das ciências, as paixões humanas perniciosas estariam dominadas, mas o que realmente vivemos foram duas guerras mundiais que devastaram a Europa, supostamente o lugar mais avançado. Acrescentem-se a isso Hiroshima, Auschwitz, totalitarismos e a Guerra Fria, com sua possibilidade de um desastre nuclear em que todos perderiam. O século XX é um cemitério de promessas, como então seguir confiando em tais ideais? Assim, o apelo ao mágico dessa série ganha contornos de uma crítica nostálgica ao nosso tempo. A sobrevivência da barbárie tornou inegável que ainda existem fatos obscuros nos homens e na sociedade, que a ciência e a razão não conseguem explicar suficientemente. Representando uma forma lúdica de lidar com esse lado sombrio, a literatura nos restou como o único espaço possível da magia.

Acompanhando os acontecimentos do mundo dos bruxos e as batalhas de Potter, fica claro que Rowling está em busca de circunscrever o mal. Afinal, uma das questões que está em aberto é sobre a essência do mal. O que ele seria? Como entendê-lo e principalmente, como contê-lo? Haja feitiços suficientes para neutralizar e tentar reparar um século tão trágico como o XX!

Especialmente no Brasil, temos uma dificuldade com a ficção de inspiração mágica. Nossa literatura é essencialmente realista, com poucas exceções, e nosso pensamento político lhe faz eco. A ideia de fundo é: como, com tantos problemas sociais, poderíamos reforçar o pensamento mágico, já que este nos afastaria da nossa difícil realidade?

Por sorte os jovens não aceitaram essa prevenção absurda, que não capta a essência das possibilidades da fantasia. O mundo fantástico permite outra forma de apreensão da realidade e não um afastamento. Quem imagina o mundo encantado de Rowling como refúgio idílico onde encontraremos as bondades do Papai Noel vai se sentir traído: ele é mais assustador e perigoso que o nosso. Não existem concessões, meio termo, nem ilhas de sossego. O que encontramos lá é uma luta política contínua, com traições, mortes e golpes baixos a todo o momento. Os heróis dessa saga sofrem sem tréguas e a mensagem é que só o engajamento e a disputa corajosa podem resolver seus destinos e os daquele reino.

Apesar de usar o acervo mitológico clássico com tempero gótico, é muito provável que o cerne mítico que está embutido em Harry Potter seja indissociável da experiência europeia com o nazismo. Filosoficamente, a Segunda Guerra é uma ferida não supurada, ainda não a entendemos em todos os seus mecanismos. Acredito que a geração de agora, por meio dessa obra, a recebe de maneira indireta e mítica, por ser a primeira que não foi tocada diretamente pelos seus tentáculos de horror, perplexidade e luto.

Harry Potter trilhará o mesmo caminho de Peter Pan, Pinóquio, Alice, Dorothy e tantos outros, figurando entre os heróis infantis de todos os tempos. Seu sucesso provavelmente não se repetirá com tanta força nas próximas gerações, primeiro porque tem o sabor do ethos da que passou e também porque, por se tornar um clássico, essa história será conhecida e recomendada pelos adultos. As crianças gostam de compartilhar com seus pais as histórias que as encantaram, mas também gostam de ter um universo onde elas saibam mais, onde elas sejam mestras dos caminhos. Para a primeira geração, foi uma experiência de independência: seus pais não eram iniciados nos assuntos do bruxinho, já para os filhos desta, talvez ele se torne personagem de uma história familiar.

Há algumas décadas, Umberto Eco ponderava sobre o que aconteceria caso um professor universitário pedisse a seus alunos que fossem tão dedicados a um assunto qualquer quanto eles eram devotos ao mundo enciclopédico de Tolkien. Ele não seria seguido e certamente arranjaria uma briga e tanto. Talvez, o que possamos dizer sobre isso é que esses universos mágicos nos apaixonam também porque não somos obrigados a entrar. A porta está aberta e espiamos por suspeitar que ali vamos nos divertir, nos assustar e ter contato com dimensões do humano que só a literatura nos proporciona.

Publicado na Revista Carta na Escola

14 setembro 2011

Ainda o Dr. House

Análise desse personagem da série de TV homônima

Duas semanas atrás, a jornalista Cris Gutkoski escreveu sobre o seriado House neste caderno. Não é réplica nem espero tréplica, é apenas continuação. Gostei do artigo, gosto da série, então emendo umas linhas que espero estejam à altura dele. Não tenho o mesmo entusiasmo de fã com a série que a Cris, mas, como ela, penso que o seriado dá mesmo o que falar.

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12/12/09 |
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Pornografia dos abismos da alma

Sobre o filme Anticristo

A impressão de Anticristo de Lars von Trier é que os demônios foram conjurados à toa. Eles comparecem, assombram, mas dizem pouco. As cenas são magníficas, e algumas inesquecíveis, a questão é que o enredo não convence. O filme produz mal estar, mas realmente não nos faz pensar numa direção diferente, é um sofrimento gratuito, uma pornografia dos abismos da alma para render pouco.

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10/10/09 |
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Torcida na platéia: Nada vai nos separar

Postado por mário

Ontem, sexta-feira, dia 21 de agosto estreou o filme: Nada vai nos separar – Os cem anos do S. C. Internacional. Tive a sorte e o prazer de ver na pré-estréia (mais sorte ainda de sentar atrás do Valdomiro).
Fui bem recomendado para levar lenços para as lágrimas. Não levei e nem foi necessário, eu me seguro (mas se você é do tipo que chora em casamentos, filme de animais e propaganda de margarina leve, uma toalha de banho), porém meu coração parecia num eletrocardiograma de esforço. Colorados cardíacos devem evitar o filme.

Basicamente temos a história sucinta do time, na boca de historiadores e depois de torcedores e jogadores que marcaram época. Entremeado, é claro, nos gols e momentos decisivos. Simples, mas a genialidade foi em como juntar tudo isso. A quantidade de informação é extraordinária, é um primor de montagem. São inúmeros planos e o espectador não se perde, o filme vai deixando esperas para reatá-as logo em seguida. O acerto está no equilíbrio, na concepção de clube que a equipe que fez o filme tem, ou seja, mostrou a história da interação do clube e do time com a sua torcida. É a história de uma paixão centenária, o resto é decorrência.

Você já tentou escutar um desses discos que são um apanhado dos clássicos mais famosos, uma espécie de pizza 24 sabores de música só com o recorte dos allegros de cada peça. É um saco! A música sem os andantes e os adágios não funciona. O Fischer, o roteirista, sabe que nada seria mais enjoado e raso do que uma coleção ufanista de gols, por isso as conquistas e os gols estão no contexto do momento. Eles não nos pouparam dos momentos duros do time, da década perdida (anos 90), das grandes derrotas, mas só nos recordam para preparar o clima, para revivermos os últimos títulos praticamente com a emoção engasgada que estávamos naquele momento.

Mas a comparação do filme com uma sinfonia não é por acaso, as músicas escolhidas, o hino tocado em vários arranjos, de diversas formas, ajuda na construção do clima. Dois dias depois e a trilha sonora não me sai da cabeça.
Vá com a bandeira, a emoção é de fim de campeonato.

Postado nos blogs Rolo Compressor e Terra do Nunca em agosto de 2009

19/08/09 |
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Heróis de ontem e hoje

Sobre o filme 300 de Esparta

Partimos duma constatação, o filme 300 é um sucesso. Parte da crítica o odiou, eu não sei o que esperavam de uma versão juvenil da batalha de Termópilas, francamente inspirada numa versão em quadrinhos de Frank Miller. Como fui munido duma expectativa rebaixada, e sabendo que a ficção e os fatos se mesclam e alimentam-se mutuamente nesses casos, me diverti bastante. Certas passagens da história, por sua força exemplar, ganham contornos míticos, e como os mitos, elas resistem às piores traduções. Afinal estamos diante dum clássico da história ocidental, o heroísmo de Leônidas e seus bravos.

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19/04/07 |
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Quem está perdido?

Sobre seriado Lost

Moramos numa ilhota de grata ignorância, circundados pelas negras águas do infinito e não nos está predestinado  empreender longas travessias. H. P. Lovecraft

Se você ainda não ouviu falar de Lost, um seriado americano (da ABC, no cabo pela AXN, na aberta passa na Globo), prepare-se: com a participação de Rodrigo Santoro na temporada que estréia em Março, provavelmente haverá mais brasileiros aderindo à “lostmania”.

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03/03/07 |
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