Comportamento
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Quem merece presente de aniversário?

Talvez o dia da mãe devesse ser também o do nosso aniversário…

Nunca entendi a tradição dos presentes de aniversário. Claro que gosto de ganhá-los. Aprecio mesmo, fico deveras feliz. Acredito que estou sendo reconhecido. Aproveito para agradecer todos os presentes que já ganhei e que venha a ganhar.

Afinal, é o dia da minha fundação – meu dia portanto. O dia de ser centro do universo e tudo mais. O dia do porre narcísico autorizado e registrado em cartório. Sei que mereço festa, sei que todos a merecem.

O bom ou mau humor com que atravessamos nosso aniversário não depende do conceito que temos dele, se respeitamos – ou não – essa data, mas sim por como acreditamos ter sido recebidos por nossos pais. Revivemos nessa ocasião o cenário imaginário da nossa chegada na família. É um renascimento, é viver outra vez a vontade, a benção e o milagre que nos pôs no mundo. O aniversário celebra a força do desejo que nos fez existir.

Aniversário, portanto, nunca é pouca coisa. Como poderia não ser, se é a expressão do mito que nos funda? Por isso, queiramos ou não, o aniversário é um vórtice emocional. Por isso têm quem não goste nem consiga celebrar. Por isso os desejos mancos fazem aniversários aos tropeços.

Mas voltando a pergunta anterior, quem merece presente? A vida já é um presente. Nos foi dado o privilégio de sair do nada e abrir uma janela para o cosmo. Devemos ganhar mais um presente, ou retribuir a quem nos deu o mais importante?

Quem deveria ganhar um presente no nosso aniversário é nossa mãe. Aposto que tem um pai levantando a mão no fundo da sala dizendo: – e eu? Sim, você faz parte da equação, mas não foi teu corpo que abrigou um alien mal-educado e inconveniente. Não foi teu corpo, estufado até o limite, que um dia quase se rasgou para parir um ser birrento e chorão.

Winnicott falava que as mães passam por uma “loucura necessária” para nos ter. Depois de lhes exaurir fisicamente, psiquicamente as levamos ao portão do desatino. Tenho mais vontade de mandar flores para minha mãe no dia do meu aniversário do que no dia das mães.

12/05/18 |
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O tudologista e o churrasco

Uma das versões do chato, aquele que nos brinda com sua absoluta sapiência sobre o irrelevante.

Para quem ainda não sabe, o tudologista é o especialista em tudo. Se você perguntar: tudo, mas como assim? Em qual área? Já são sinais que não entendeu o conceito, tudo é tudo mesmo. O verdadeiro tudologista tem resposta ou opinião sobre qualquer assunto.

Existem duas classes de tudologistas, os práticos e os filosóficos. Embora os dois dominem os segredos do cosmo, os práticos são mais atentos aos detalhes do cotidiano, de como chegar ao cerne da sabedoria e de tudo mais através do banal. Encontramos com mais frequência este primeiro exemplar de pedagogo obstinado, que nos ensina a fazer melhor todas as rotinas da vida. Já o tudologista filosófico está consertando o mundo na internet.

Esses dias tive a felicidade de ter um tudologista ao meu lado, na churrasqueira. Ele me ensinou a essência do processo do cozimento da carne, e a transcendência dos meus pequenos gestos. Foi preciso humildade e calma, ainda mais tendo uma faca de carne na mão, pois o mestre me apontou falhas imperdoáveis na condução do preparo da refeição.

A primeira coisa que descobri foi que fiz o fogo errado. Não que não fosse fogo, mas ele me apontou como desperdicei tempo e energia não propiciando o melhor rendimento térmico. Para salgar a carne outra lição de fisiologia e química aplicada à culinária. O tempo e a quantidade usadas estavam errados em vários itens. Senti que não cozinhava, apenas desperdiçava recursos úteis ao planeta. A filosofia de fundo é que existem mil maneiras de fazer algo, mas só uma é a certa: no caso a dele.

Pelo menos o desperdício não era tão grande, pois, como ele me explicou, a carne comprada não era grande coisa, nem adequada para a ocasião. Pelo aspecto, aroma, cor, textura, precisão do corte e outros quesitos tais, era um bagulho que um espertalhão passou para um trouxa, no caso eu, que não entende nada do assunto.

Ao espetar a carne mais uma revelação. Não deveria ser nem tão rente, nem da maneira que fiz. Decididamente não sei nada sobre feixes de fibras e a penetração do calor na carne. Nem como, nem quanto e muito menos por onde a gordura deveria escorrer. Não adianta dizer: então você espeta! Acontece que o tudologista não faz, ele ensina, esse é seu papel no mundo.

O tudologista é um missionário de seu saber, um professor nato que brinda os outros com sua sapiência. O tudologista sabe que o caminho da boa pedagogia é a paciência, ele pode te repetir a explicação mil vezes, e se chegar uma nova pessoa no recinto ele recomeça do princípio. Os tudologistas não cansam, a verdade lhes dá uma energia infinita. Por isso um conselho: não contrarie um tudologista.

Fiz o churrasco enquanto ele explicava para as mulheres a alquimia da verdadeira maionese. Só escutava, ao longe, como os colóides são sensíveis ao ritmo do fouet e os riscos da acidez elevada dos óleos de oliva.

Mas existe uma generosidade extra do tudologista que se expressa na prática: por mais que a comida seja errada do começo ao fim, ele, com seu apetite, redime o cozinheiro das críticas.

Como forma de respeito, apesar do meu fracasso como assador e anfitrião, ele comeu muito. Também, dentro desse mesmo espírito construtivo e apoiador, bebeu bastante da cerveja. Embora já tivesse ressaltado que ela não harmonizava com essa carne, nem a com a temperatura do dia, nem estava na temperatura certa e que tampouco é correto tomá-la nessa estação. O estômago do tudologista abençoa nossos esforços e perdoa nossos erros. Em seu âmago, ele só deseja nosso bem.

O peso da morte

Um peso insuportável, mas dá-se jeito de carregar.

Eu sempre me senti afortunado por ter convivido com todos os meus avós e alguns bisavós. É bom saber de onde saímos e sentir-se um fio de um rio mais largo, perceber-se a somatória de sonhos, encontros, acertos e erros dos nossos antepassados.

A parte chata são as despedidas. Foram muitos enterros, chorei em muitos velórios, mas até perder meu avô paterno nunca tinha carregado um caixão. Herdei meu nome desse avô, acreditava por isso que nossa ligação era, de alguma forma, especial. Na hora de pegar na alça, dei uma curva no meu pai e cheguei primeiro. Escolhi a do meio, de tal forma que pudesse pegar com a mão direita.

Meu avô penou muito nos seus últimos dias e perdeu muito peso. Estava feito um passarinho quando se foi. Pensava que levá-lo seria fácil. Que nada, parecia um caixão ao avesso, alças de madeira e estrutura em bronze. Tirei de rio canoas alagadas mais leves do que aquilo. Ajudei a içar fusca atolado com menos dificuldade. Era mesmo meu avô, ou pegamos por equívoco o féretro de Buda?

Fora eu e meu primo Jones, do outro lado, também ao centro, os outros voluntários eram contemporâneos do falecido e a idade somada creio que ultrapassava a do Brasil. Um dos amigos saíra do hospital especialmente para ir prestar as honras. Ele estava na minha frente e, apesar de pensar que segurava a alça, na verdade a usava de bengala. Isso é o que eu enxergava, vá saber como era o resto da quadrilha.

Solene mas desengonçado, o cortejo me fazia sentir dentro de uma missão do exército Brancaleone. O pequeno trecho entre a capela onde era velado e a igreja de Dois Lajeados para missa de corpo presente parecia intransponível. Os cem metros viraram quilômetros. A escadaria da igreja foi o teste final. Já imaginava o vexame de rolar escada abaixo com o caixão, meu avô e seus amigos.

Foi uma missa tocante para todos e sinistra para mim. Não é fácil ouvir uma cerimônia em que se lembram as virtudes do finado Mário Corso. Quando levamos o nome do falecido, a cerimônia parece um ensaio para a nossa vez. Finda a missa, restava levar o ataúde ao cemitério.

Quando terminei a tarefa, exaurido, comentei com meu primo nossa empreitada e reclamei do peso. Ele estava tão exausto quanto eu. Um senhor de idade, que ouviu de soslaio a nossa conversa, se dirigiu a nós com a autoridade de quem já segurou muitas alças:

– Mas vocês não entendem nada mesmo. É sempre assim, é o peso da morte. Não existe caixão leve!

11/06/16 |
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Reengenharia emocional

A linguagem de negócios, adaptada às emoções e afetos, cria situações cômicas.

A crise chegou. É hora de enxugar despesas. Mas cortar onde? Hoje vamos citar uma fonte enorme de gastos: os amigos. A amizade é cara em termos de tempo e dinheiro. Todos temos amigos supérfluos, sempre dá para cortar alguns mantendo a mesma produtividade afetiva.

Imagine o que vai economizar com presentes de Natal, Páscoa, aniversários, casamentos, flores. Sem contar as saídas para chope, almoço, happy hour. Some a conta com o táxi, as gorjetas, e as roupas que somos obrigados a comprar para enfrentar a vida social. Enfim, amigos são certeza de despesa. Fazer um downsizing na cota de amigos é fundamental.

É um erro dizer que amigo é um capital, pois amigos não se podem vender e quanto mais camaradas, mais despesa. Amigos são na verdade um anticapital.

Vale mais privilegiar as redes sociais: por muitíssimo menos investimento temos muito mais amigos. Três emoticons grátis te resolvem um aniversário. Pense nisso.

Porém ainda não é hábito demitir os amigos. Mesmo que possamos oferecer boas cartas de referência, ou dar bons retornos dizendo que eles certamente acharão outras pessoas que saberão usar melhor sua expertise como amigos, o melhor é fazer com que voluntariamente eles se afastem.

Lembre-se: isso é uma medida altruísta pois eles também vão fazer uma boa economia. Você está apenas tomando uma atitude proativa para o saneamento da gestão doméstica de ambos. Medidas singelas podem ajudar nesse reescalonamento afetivo.

No caso da amizade ser com uma mulher é simples: diga que ela está gorda. Se ela perdeu peso diga que esse emagrecimento lhe envelheceu. Insista no tema e vai ser menos uma. Se tiveres dificuldade para falar, no próximo aniversário lhe dê uma roupa com um número bem maior. Te asseguro que é um gasto que não vai se repetir.

Com amigo homem é mais complexo. Sei de quem convidou vários para um churrasco e serviu só cerveja sem álcool. Conseguiu de um golpe se livrar de vários. E se ainda assim algum deles insistir, convide-o para jogar futebol na tua turma e deixe-o no banco até faltarem três minutos de jogo. Quando ele entrar diga: - vai lá e arrasa. Se ainda assim ele não entender, comece a lhe pedir o carro emprestado. Devolva com o tanque vazio e reclame muito de que droga de carro é esse.

Para os muito resilientes, de ambos os sexos, sempre se pode dizer: - como o teu (tua) ex tinha razão, você é mesmo teimoso(a). Na falta de ex: - tua mãe está muito certa no que ela diz de ti.

Na próxima semana dicas de cortando despesas na família. Será que o totó já não viveu o suficiente? Plano de saúde para o vovô se ele já está tão velho? Ainda vale fazer universidade? Estudar inglês agora que existe o google translate?

Mobbing

Retratamos a natureza à nossa (pior) imagem e semelhança.

Nas madrugadas insones assisto documentários sobre vida selvagem. Creio que seja herança da coleção Os Bichos da Editora Abril. Os programas me relançam na mesma magia que era receber os fascículos durante a infância, reavivam o entusiasmo com a diversidade da vida animal.

Passeio na savanas africanas, nos desertos da Mongólia, no gelo da Groelândia. Aprendo superficialmente sobre focas, mustelídeos, formigas carnívoras. Eu sei o que é um Ocapi, algo entre a zebra e a girafa, e você o conhece? Assisto pequenos dramas animais de sobrevivência, a briga dura pela comida da cada dia, o perigo que espreita em cada passo. Enfim, é coisa para corações fortes, destemidos.

Esses programas estão mais para romantismo naturalista do que para biologia. De qualquer forma, mesmo com toda essa plêiade de animais e seus comportamentos, é raro trazerem episódios de mobbing, tanto mais por que andando nos campos e nas nossas estradas gaúchas, é o que eu mais vejo. Já explico: trata-se de um termo da etologia, proveniente da ornitologia, por ser onde mais se verifica, mas que é usado para todos os animais. Diz-se de quando animais menores se unem para atacar animais maiores, geralmente seus predadores. Seres menos preparados para o embate, fazem valer seu número ou destreza para atacar, cercar, intimidar e afastar adversários mais fortes.

Aqui no sul é comum ver falconídeos serem bicados por pássaros que têm nem metade do seu tamanho. Qualquer vaqueano acostumado às lides do campo conhece esse mecanismo de sindicalismo animal. Nem precisa ser um gado nelore, mais tinhoso, mesmo as raças flor de mansas podem pregar peças em quem entra em seus domínios desavisado, a pé, ou sem um cachorro ativo. O gado encara e pode vir a cercar o invasor, especialmente se houver cria.

Mas voltando aos programas de TV, porque comportamentos de mobbing aparecem tão pouco? Geralmente vemos felinos caçar suas presas, águias capturando coelhos, o bote da cobra no sapo, e é claro, isso é a natureza, mas isso não é toda a natureza. A natureza é seca, selvagem, o encanto está só nos nossos olhos, mas nós a fazemos falar se editarmos as cenas. Creio que esses documentários dizem mais da nossa sociedade, onde o pequeno e o fraco não tem vez, do que da natureza em si.

Nos identificamos e fascinamos com os predadores porque assim procedemos com a natureza: somos o lobo do homem e do planeta. Assistimos aos programas para nos convencer e justificar que esse é o inevitável ciclo da vida e que não haveria escolha. Bom, se fosse para isso, não teria sido necessário descer das árvores, seguiríamos como macacos. Se fizemos uma civilização, certamente não foi para incensar os predadores, mas é o que mais temos visto.

Cabeça aberta

Quem defende a legalização não é ingênuo quanto ao efeito nocivo das drogas.

Uma das dificuldades de quem luta pela descriminalização das drogas é o raciocínio simplista do outro lado, que nos acusa de desconhecer o poder mortífero, a capacidade de desagregação, que elas podem causar. Infelizmente, conheço e de todas as formas: profissionalmente em maior grau, mas também por problemas com amigos e desastres nas famílias. Os raios caem em todos os lugares. Quem defende a descriminalização não é ingênuo, apenas quer a luz do dia para tratar um problema que habita a sombra, enriquece o crime organizado e mantém quem precisa de ajuda longe dos serviços de saúde.

Esses dias o jornalista Paulo Germano fez o que me parece a atitude mais correta e corajosa para desestimular a glamourização que a maconha anda recebendo agora que se pensa em sua legalização. Ele nos conta sobre sua trajetória de usuário que, se não é tão típica, tampouco é incomum. Para ele, tudo começou muito bem, uma explosão de criatividade e energia, mas logo desenvolveu uma ideação paranoide, acreditava que todos o observavam. Depois disso foi inundado por uma apatia e lentidão de pensamento que durou algum tempo. Em resumo, travou sua vida.

Como qualquer droga, legal e ilegal, o efeito da maconha corresponde a um espectro, não existe uma maneira única do corpo recebê-la. Uma minoria desenvolve essa paranoia tão bem contada por Paulo, mas na maior parte dos casos ela funciona como ansiolítico, por isso seu uso é tão popular. Também é típico o desenvolvimento de quadros de síndrome do pânico ou até o desencadeamento de graves crises psicóticas. Atenção, ela não cria uma psicose, a fragilidade já estava ali, apenas a droga solta os tênues fios que mantinham o sujeito ligado à terra. O que se produz já provem de nós, apenas encontra frestas mais abertas para sair e nos desestruturar.

O que realmente prende a maioria dos usuários à maconha é seu poder de baixar a ansiedade, pois ela relaxa. Quem não quer ser acalmado, baixar o giro da angústia de viver? Há adultos que mantiveram seu uso desde a juventude para fins recreativos e quando isso é feito ocasionalmente não traz prejuízo mensurável, já quando o uso é diário e contínuo, paralisa a vida. A questão é simples: a ansiedade nos perturba, nos desacomoda, mas ao mesmo tempo ela pode ser o motor de mudanças, nem toda ansiedade é ruim. Quando usamos uma droga que corta a chave geral da angústia, ela suprime também a inquietude de onde provém a força necessária para ir adiante. Por isso a maconha estaciona o sujeito. Essa parada pode ser de uns dias, uns meses, uns anos, décadas… A menos que alguém acredite que essa fuga do mundo é a melhor forma de existência. A situação não é muito diferente do uso legalizado e compulsivo de medicamentos calmantes, tristemente comum hoje em dia.

Mas existe outro modo insidioso da maconha prejudicar, que é quando atinge a cognição. A droga age como se devolvesse o olhar infantil de assombro que perdemos: uma certa aura de magia que só as crianças encontram no mundo. Como ela rebaixa a cognição para estágios anteriores, infantis, sentimo-nos inteligentes em perceber como “realmente” as coisas funcionam. A maconha permite grandes sacações do óbvio, e graças a esses insights “geniais”, parecemos, aos nossos próprios olhos, como mais espertos do que antes. Que alguém possa divertir-se com essa condição tudo bem, mas achar que está fazendo uma viagem descobridora e brilhante é outro passo. Basta ver as anotações feitas durante o barato, no outro dia se revelam pueris.

A criatividade é algo extremante valorizado e alguns usuários defendem que o uso os deixa com a cabeça aberta para pensar o novo. De fato, ela faz com que abandonemos a lógica habitual e possamos trilhar uma via associativa. Para inventar esse seria o bom caminho. Porém, com o uso contínuo essa forma de pensamento torna-se o próprio modo de pensar. O raciocínio afetado pela maconha, em certos momentos, faz ligações meramente associativas como se fossem conexões lógicas, e as toma como parte integrante de um fio de sentido.          Nada tenho contra a associação, é exatamente isso o que peço para meus pacientes fazerem  no divã, porém na expectativa de que eles estejam com a mente desperta para colher os resultados dessa viagem. Já para entender o mundo, elaborar as relações entre as pessoas, o pensamento associativo não passa de errância mental. Quando o uso é abusivo a maconha emburrece. Ela induz a um déficit de atenção em pessoas que não padecem dele e quem já tem dificuldades nesse campo fica mais atrapalhado. A criatividade é fruto de grande esforço, perseverança, trabalho e não de grandes ideias que surgem repentinamente na cabeça, mas esse é um mito difícil de desmontar.

O prazer que se ganha com a vida em ordem e o dever cumprido é ralo. Há uma espécie de lógica de loteria que cerca os mistérios da felicidade. O usuário de droga intui isso, ele quer esse “a mais” que supõe que a droga lhe daria, ele disporia de um atalho para um gozo maior. A droga fornece esse brinde da vida que é a felicidade, mas só no começo. A longo prazo essa é uma promessa que não se cumpre e deixa os usuários nos desvãos, ignorantes do rumo da vida.

Um dos motes do texto do Paulo foi o anúncio da pop star Rihanna orgulhando-se de lançar sua futura marca de maconha. Uma celebridade ligada a esse produto me lembra as antigas propagandas de cigarro totalmente sem noção: “Mais Médicos fumam Camel do que outro cigarro”. Mas fazer o que, vivemos numa sociedade que permite propaganda de cerveja, que ainda por cima é sexista. Só o tempo vai nos permitir ver que estrago faz associar figuras de prestígio ao proselitismo do uso de drogas, lícitas e ilícitas.

Se você quer abrir sua cabeça não tente a maconha, tente estudar, uma leitura, ouvir uma música, conversar com gente que pensa diferente… Cabeça aberta é cabeça desperta.

14/12/15 |
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Quem criou a selfie?

Isso de prestar contas de tudo o que se faz, não pode ser coisa de gente grande…

Conversava com minha filha sobre as modas das selfies (a foto de autorretrato) e essas outras fotos que estão na moda, como, por exemplo, fotografar o que se come. As fotos antes disso supunham um olhar sobre nós, ou seja, alguém parou para nos registrar. Nas de agora, o olhar externo é posterior. De certa forma essas fotos são o pedido de um olhar.

Dizia a ela que isso era uma forma de egolatria desenfreada. Mas Júlia propôs outra abordagem. O problema, diz ela, é que não fazemos as perguntas certas: quem realmente se interessa pelo teu sorriso? Quem quer saber com qual roupa estás, se é bem abrigada e decente para a ocasião, se estás penteado ou despenteado? Quem quer saber com quem estás saindo e se são boas pessoas? Quem quer saber o que estás comendo? Especialmente isso, pensa bem, quem mais se interessaria pelo que tem no teu prato?

Acho que o leitor agora já começa a perceber a resposta que eu também pensei: mamãe! Sim, só ela sempre tem olhos para nós e nossas gracinhas. Quem mais neste planeta vai querer ver se tem ou não brócolis no prato fotografado? Se ele é equilibrado ou estamos comendo porcarias?
Definitivamente, essas fotos foram criadas e desenvolvidas para discretamente alimentar as mães de informação. Elas não comentam para que você se iluda de que elas não sabem. Algumas até têm um discurso de que não dominam a tecnologia e depois são flagradas manejando laptos e tablets de última geração, com arquivos bem classificados com todas as fotos por dia e local.

A verdadeira questão é saber qual foi a organização materna que lançou e desenvolveu a ideia das selfies para poder melhor exercer seu controle. Sei que muitos de vocês estão pensando que só pode ser coisa do setor de inteligência das Iidiches Mames, as mães judias organizadas. Elas estão na primeira linha das suspeitas. Mas não esqueçam da força e organização da Mamma Mia, a associação secreta das mães italianas, a única instituição na Itália que até a máfia respeita. Ela é séria candidata a ter sido o cérebro.

Como a tecnologia é americana, fica a suspeita se não seria algo da Mother Hen, ligada à CIA, ou da Helicopter Mom, mais próxima do FBI. Por outro lado, desde que a Merkel chegou ao poder, a DGM (Deutschen Glucken-Mütter) ganhou muita força política, pode ser dela. Há quem diga que é coisa maior, da OMU, braço secreto da ONU que congrega as mães do mundo inteiro.

* Mário Corso substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias em 05.11.2015.

Machismo na cozinha

Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a escravas de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos!

Valentina é uma menina que ganhou notoriedade pelo programa MasterChef Júnior. Ela tem a aparência de sua idade, 12 anos. Veste-se de forma adequada, sua fala e expressões são as de uma púbere comum. É graciosa, como  muitas meninas nessa fase. Mas o protagonismo que ganhou deve-se a manifestações agressivas de cunho sexual de que foi vítima na internet. A questão é: o que a fez uma garota, participante de um programa de culinária, ser alvo dessas agressões? Se alguém conseguiu ver nela qualquer tipo de insinuação, essa pessoa é um prodígio de desconhecimento de si, afinal, toma como de fora o que lhe brota de dentro.

Certos homens, por uma insegurança básica de sua masculinidade, acreditam que toda e qualquer exposição feminina que existe, ou que eles supõem que exista, como nesse caso, é para lhes provocar. Como se elas estivessem apenas esperando o seu olhar. Uma vez que se acreditaram provocados, devem agir, demostrar sua macheza, mostrar de que falta de fibra são feitos. É uma típica atitude erotomaníaca, no sentido de projetar seu desejo e suas fantasias no outro. Frente a esse tipo de atitude, de sentirem-se convocados a uma cena que não lhes diz respeito, temos duas possibilidades: os primeiros não necessariamente são abusadores reais, ficam fantasiando e agindo nas sombras, na internet, por exemplo. As redes sociais são o paraíso para os covardes, desse e de todos os tipos, lá não há uma responsabilização direta sobre as agressões. E no espaço virtual começa e termina sua ação constrangedora. Seu dano não é pequeno porque cria uma atmosfera de violência sexual, uma cultura do abuso.

Mas vamos aos piores, o abusadores, os pedófilos. Eles não fazem proselitismo, não latem, eles mordem, por isso são quietos. O que apreciam é a ingenuidade da vítima. Seu gozo necessita dessa assimetria de posições, não é só de força física e de idade, mas principalmente de experiência. Eles querem sentir-se como mestres, iniciadores, a inocência e a surpresa da vítima aumentam-lhes o efeito prazeroso: quanto mais frágil seu objeto, maior o gozo. Arriscam, em termos legais, para não arriscar-se onde sentem-se realmente frágeis: na entrega erótica, não têm peito de enfrentar alguém em pé de igualdade. A escolha de objeto diz muito de nós, pois há uma certa identificação com o parceiro. Por isso pode-se dizer que o abusador procura parceiros onde parou sua maturidade sexual. A sexualidade adulta põem a maioria dos pedófilos a correr, sem um poder tão grande, como ele consegue com uma criança, eles ficam sendo os fracos e impotentes que sua equação sexual particular requer.

A lógica da proteção de que se Valentina não estivesse na TV nada disso aconteceria é a lógica da burca. Esse tipo de cerceamento da circulação social de meninas e mulheres pressupõe que sua presença produz uma inevitável e incontrolável mobilização do desejo masculino. Na sua selvageria auto-complacente, eles exigem que as mulheres fiquem presas para não serem perturbados. Promovem o exibicionismo da macheza por temor dos efeitos impactantes que o corpo feminino lhes produz. Esse tipo de agressor tem medo das mulheres e reage com a violência das feras acuadas.

Talvez a televisão, assim como a internet, sejam uma forma de exposição forte para alguém pequeno, porém, as crianças gostam de ver-se protagonistas de suas atrações. Seria triste se a televisão só mostrasse adultos. É claro que os critérios têm que ser rigorosos, mas já tivemos muitas experiências de exposição erótica de adolescentes no passado da TV e MasterChef Júnior está longe de ser uma delas.

O programa de que Valentina participa não é como os realities shows da versão adulta, onde a humilhação e a concorrência ao estilo dedo no olho parece ser parte integrante do show. A versão mirim é adequada à infância, com mais carinho e elogios do que outras coisas. Não classificaria o programa como educativo, mas que ele coloca questões sobre como criamos nossos filhos. A ideia de proteção da infância é correta, mas muitas vezes exageramos na dose, deixando as crianças fora das experiências da vida, meros espectadores do mundo adulto.

Crianças na cozinha, sempre que supervisionados, me parece uma grande ideia. A comida deixa de ser mágica, elas descobrem o trabalho que qualquer coisa dá, o esforço requerido. A arte culinária pede uma boa dose de concentração, uma sincronização da inteligência motora com a intuição, com a percepção sensorial, é preciso pensar quantidades e tempos de preparo, enfim, não é uma ciência fácil. E deve ser bem mais fácil ensinar química, física e biologia para quem já pilotou um laboratório simples, que é uma cozinha, do que para quem nunca entrou nela.

A culinária entrou na moda quando a classe média, incluindo os homens, tiveram que cozinhar. Enquanto isso era coisa de empregados e mulheres era algo menor. Só que agora as mulheres abandonaram a vocação unívoca para as panelas e, por causa das legislações trabalhistas, este ofício tornou-se oneroso. A consequência, ótima aliás, é que a alienação culinária é menor até entre os adultos mais abastados, como todos têm que se virar um pouco no fogão, cozinhar tornou-se chique.

Na ocupação da cozinha por homens e crianças encontramos a inversa do machismo que confina a feminilidade à vida privada. Elas saíram, eles entraram. As crianças, por sua vez, conscientizadas de que a alimentação é algo no qual se pode ser ativo, deixam de comer como quem mama, o que se lhe puser na boca. Assim a obesidade e as doenças decorrentes da alienação do ato de comer certamente diminuirão. Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a serem uma escrava de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos. Vivemos um momento de reação a essas conquistas, mas elas são irreversíveis.

Vaidades

Quanto mais tentamos reter, mais perdemos. As perdas precisam ser aceitas.

Quando os irmãos se dão, vão se entender toda a vida, quando se odeiam, nunca encontrarão a paz. Está é a triste sina, os meios-termos raramente comparecem. César e Augusto eram do primeiro grupo. Herdaram o nome do avô paterno, cada um a metade, e seguiram juntos como fossem um só nome, um só destino. No princípio, a idade não ajudou, tinham seis anos de diferença. Não brincaram na infância um com o outro, mas foi a única coisa que não partilharam. No colégio, César cuidava do caçula Augusto e cuidou dele até o fim da vida.

Reergueram a empresa familiar, casaram-se e tiveram filhos. Tudo seria feliz se os desmandos da vida não interviessem. Na meia-idade, um câncer arrancou César de Augusto. O caçula pensou que não pudesse seguir vivendo. Pela primeira vez, sentiu-se só. Perderam os pais, sofreram juntos e não fora fácil, mas agora, quem seria seu ombro?

No dia do velório, estava com a viúva e as sobrinhas. Ajudou a escolher o derradeiro terno. Na frente do guarda-roupa, foi tomado por uma sovinice. Sempre compartilharam roupas, os empréstimos de casacos, ternos e sapatos às vezes não voltavam ao dono original. Fazia parte da cumplicidade esse uso comum de roupas, tinham o mesmo tamanho e, de certa forma, era como se o partilhar lhes assegurasse uma proximidade que nunca estaria ausente.

Escolheu para sudário do irmão um terno que fora um erro. Era mal cortado, cor chamativa, fora de moda, enfim, aquela roupa que fica quadrada em qualquer um. Nunca entendeu como seu irmão, tão cioso da aparência, não se desfizera daquela porcaria. Mas, pensava ele pragmaticamente, pelo menos para isso serve. Sabia que nada do irmão herdaria senão as roupas. Perdera seu parceiro, mas esses objetos do falecido seriam seu consolo. Uma franja de amarga felicidade lhe percorreu quando pensou no seu armário duplicado.

O mais duro nos espólios são as roupas, difícil imaginá-las sem o corpo que se foi. Mas suspeito que preenchê-las teria sido a intenção de Augusto, fazer algo do irmão sobreviver através de suas vestes para retê-lo um pouco mais.

Na noite seguinte ao enterro, Augusto teve um pesadelo. Seu irmão lhe apareceu vestindo o terno horroroso e lhe disse: “Você me fez passar a eternidade dessa forma?”. Augusto entendeu seu erro imediatamente. Fora fiel ao irmão a vida inteira, mas por vaidade vacilou na última hora. Sem saber o que fazer, se desfez de todas as roupas, as do irmão e as suas. Começou a vestir-se despojadamente. Só usava roupas e sapatos informais e baratos. O mais humilde dos seus funcionários se vestia melhor. Disse que no começo foi duro, mas depois uma espécie de libertação. Só assim se sentia em paz com César.

Quando Augusto me contou sua história, a primeira frase foi de uma sabedoria que não devemos esquecer: “Nem a morte desativa a vaidade, melhor livrar-se dela em vida”.

* Mário Corso substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias em 29/10/2015.


Cordialidades

A cordialidade, palavra simpática, é a cilada da cultura brasileira.

Cordialidades

A qual restaurante você voltaria?

O primeiro é honesto, pontual, tem o preço justo e a qualidade irrepreensível, mas é impessoal, o garçom não mostra os dentes. Mesmo que você retorne, ninguém demonstra te conhecer, apenas te servem. Você é mais um entre tantos clientes.

No segundo, tanto o garçom quanto o dono te recebem com sorrisos. A qualidade é boa, mas nem sempre. Nada grave, atrasos e erros aqui e ali. Porém, a cortesia do garçom reconhecendo a falha desarma qualquer reclamação. Todos te chamam pelo nome, perguntam pela família e sabem teu time.

Se você descarta o primeiro por ser gelado e sente-se melhor no segundo, perdoando certas falhas, você é bem brasileiro. Era isso que Sérgio Buarque de Holanda, retomando o termo de outros pensadores, definia como a “cordialidade” brasileira. Ele escreveu que no Brasil os laços pessoais se sobrepõem aos mecanismos de eficácia. Nesse exemplo, o brasileiro quer algo além da refeição, ser bem recebido pode ser mais importante do que a comida. Já um estrangeiro vai a um restaurante querendo comer bem e não considera prioritário que o garçom goste dele, afinal, é uma relação comercial. Se o funcionário for simpático melhor, mas o importante é o serviço.

Para compreender o conceito de Holanda, transporte esse mecanismo para os outros cenários da vida: a relação com a trabalhadora doméstica, com o médico, com o advogado. Todos querem sentir-se íntimos daqueles com os quais têm, de fato, apenas um laço de prestação de serviços. Essa aversão à impessoalidade instaura uma proximidade nem sempre viável, que pode inclusive atrapalhar, mas o brasileiro está disposto a ceder um pouco da qualidade em troca de uma manifestação que o faça sentir-se próximo. Para dar-se bem aqui, é preciso investir na relação com o cliente, priorizando isso sobre a eficiência. Os estrangeiros que desembarcam aqui para negócios ficam pasmos ao descobrir que, para ganhar um cliente, às vezes é necessário fazer um amigo. O brasileiro resiste ao anonimato natural do capitalismo.

Por tocar de ouvido, sem ler o conceito, a maioria de nós entendeu a ideia de cordialidade como sendo uma peculiar amorosidade, uma tendência à gentileza. Seríamos, nesse caso, um povo afetuoso. Lembro desse conceito, tão mal compreendido, porque o Brasil anda particularmente violento e muitos dizem que não somos mais cordiais. A questão é que somos cordiais e, por isso mesmo, violentos. Cordialidade vem do latim corda, coração. No caso, significa reagir emocionalmente frente a algo que poderia ser respondido com a cabeça. A violência é a suspensão da razão, é o extravasamento da emoção. Por isso, infelizmente, ao contrário do que pareceria, ela está mais próxima da cordialidade do que da frieza, da indiferença. O coração não é bom governante.

(coluna publicada em Zero Hora em 22 de outubro 2015, interino de Luís Fernando Veríssimo)