Comportamento
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O futebol e as mulheres

(perguntas de Camila Gonzatto para o site do Instituto Goethe)
1-O que essa paixão do brasileiro pelo futebol, enraizada tanto dentro quanto fora do país, pode nos dizer sobre nossa cultura?
Sinceramente, muito pouco. O futebol não foi criado aqui nem somos os únicos mesmerizados por ele. Claro, criamos uma maneira de jogar [...]

(perguntas de Camila Gonzatto para o site do Instituto Goethe)

1-O que essa paixão do brasileiro pelo futebol, enraizada tanto dentro quanto fora do país, pode nos dizer sobre nossa cultura?

Sinceramente, muito pouco. O futebol não foi criado aqui nem somos os únicos mesmerizados por ele. Claro, criamos uma maneira de jogar que talvez diga de nós. Jogamos com menos disciplina e aplicação que outros lugares, nosso futebol tem menos matemática e mais improviso. Nosso futebol é do desconcerto, da jogada inesperada, do improviso, da ginga, da enganação. Gostamos de nos ver como um Pedro Malazarte, um malandro enganador. Sem força nem meios, que tem que vencer pela malandragem, nosso futebol é assim, ou pelo menos quer se ver assim.

2-O imaginário do futebol sempre foi construído em torno do homem. Como fica a mulher nessa história?

O mundo foi construído ao redor do homem, apenas no século XX que isso começa a mudar. O futebol é apenas mais um espaço masculino. Alguns esportes coletivos são simulacros de guerra e o futebol se encaixa nisso, uma guerra benigna, sublimada, mas um combate. Mais uma razão para a mulher estar de fora, afinal, guerreiros eram os homens.

As mulheres vieram para o futebol como para todas as outras coisas. Como a mulher deve ser agora que tem liberdade de escolher seus caminhos? Deve criar uma maneira nova ou ocupar o território dos homens? Na verdade as duas coisas não são excludentes, e no futebol elas vieram conferir o que é que nos enfeitiça, qual a nossa paixão. Eu acredito que elas não deveriam vir. Nada contra, são bem-vindas, mas não acho que seja uma boa ideia, já basta nós homens nos idiotizarmos por uma paixão inútil.

Torcer por um time é uma experiência totêmica, pertencer a algo, carregar uma bandeira. Quando nossas insígnias de filiação a coisas mais sérias, como as políticas religiosas, nacionais enfraqueceram, as parasérias (se é que a palavra existe) ganharam relevância. O futebol é a mais importante das coisas irrelevantes. Embora haja gente tão destituída de referencias que precise levá-lo a sério. Então, por que as mulheres viriam para cá, já chega metade do planeta perdendo tempo com uma disputa que no fundo é infantil. No fundo o “meu time contra o teu time” é herdeiro da bravata infantil onde se diz: “o meu pai é melhor que o teu”.

3-Mesmo com tantas mudanças sociais e identitárias nas últimas décadas, o futebol segue sendo um assunto de homem. Como podemos pensar nos “excluídos” nesse contexto – mulheres que gostam de futebol e homens que não gostam?

Segue assunto de homem porque as mulheres que vieram se dão conta do vazio e vão embora. Algumas ficam, afinal, rende assunto, ou pegam gosto mesmo pelo precário show que é mostrado.

Não creio que eles sejam excluídas, não me faz sentido pensar assim. Ninguém as manda embora, se quiserem tem lugar para todos. A verdadeira questão é que não tem nenhum pote de ouro no fim desse arco-íris, as mulheres não perdem nada não vindo, por isso não há sentido em falar de exclusão. Não acredito que o futebol e seu entorno enriqueça alguém culturalmente, ver uma partida não é como ler um livro, como assistir uma peça, como ver um balé. O futebol pode ter uma graça e uma empolgação, mas não deixa traços maiores em cada um. Ele tenta construir uma épica num mundo chato, mas consegue muito mal, muito precariamente.

Já homens que não gostam de futebol são discriminados. É como se faltasse algo neles, como se não fossem bem homens ou não totalmente homens. Não é uma discriminação forte, mas algo parecido com um desprezo misturado com um desconcerto. A identidade de torcedor tem raízes tão fundas que quem as tem não consegue acreditar que os outros não a tenham, é como os religiosos quando estão na frente de um ateu. Estamos sempre tentando enquadrar os outros com nossa maneira de funcionar, nos projetamos no outro e tentamos entende-lo a partir disso, por isso entendemos tão pouco e tão mal a diferença.

4-Em um dos seus textos você afirma que o torcedor fanático, quando faz parte da massa e é capaz de atos de violência e amor incondicional a um time, seria a imagem do ocaso do macho tradicional?

Uma das vantagens da experiência de torcer, de ir ao estádio, de sair as ruas comemorar é sentir-se parte de algo maior. Pertencer a um coletivo e sair com ele para uma comemoração ou sair só para torcer quebra com o mundo individualista que vivemos. Naquele momento o que pulsa é outra coisa, é deixar de ser um. Ora, ser nós mesmos nos cansa, pode ser umas férias de si mesmo. Isso pode ser lúdico ou pode abrir o caminho ao pior. A massa nos dá uma energia extra mas regula nossas qualidades pelo mínimo múltiplo comum, nos rebaixa moralmente, eticamente, espiritualmente, enfim, em todas modalidades possíveis. Em conjunto, em grupo, podemos fazer coisas que jamais faríamos sozinhos. O mesmo vale para as gangues, ali ficamos diluídos e assujeitados a um humor que pode não ser o nosso.

Falo em ocaso do macho pois a questão da violência sempre definiu o homem, o arquétipo da masculinidade é o guerreiro, o soldado. Hoje os caminhos para ser homem são menos óbvios, mais pessoais, sem rituais claros. Ora, quem tem uma imagem frágil da questão masculina pode se refugiar na massa do futebol para arranjar encrenca e exercer uma violência que lhe devolveria um protagonismo viril que ele não sente que tem no resto de sua vida. Nesse sentido ser um torcedor fanático e brigão fornece uma consistência imaginária de ser homem, de ser poderoso.

5-E existem torcedoras fanáticas com essas características?

Creio que não, justamente por que uma mulher, mesmo que ame muito um time, não fica convocada a sair batendo nos outros para reafirmar qualquer coisa. Pelo menos não conheço amazonas-torcedoras. As mulheres decididamente pegam mais leve na paixão clubística. Tanto que não é incomum uma mulher trocar de time porque tem um namorado ou marido fanático e querem compartilhar com ele essa experiência. Isso agora acontece menos, as mulheres de hoje não são tão volúveis com seus times, mas segue acontecendo. Um homem jamais troca de clube, ele é fiel e é para sempre. Um homem pode trocar de profissão, de convicções políticas, até de orientação sexual, mas nunca abandonará a camiseta do seu clube. O casamento com o clube é para sempre. Para muitos existe também o time Nêmesis, o time mais odiado, o antagonista principal, aquele que ele odeia com todas as suas forças, com uma paixão quase tão grande como seu amor primordial. Eventualmente ele pode ter suas amantes distantes, uns flertes com times de longe, que eventualmente tenham as mesmas cores, ou que lembrem seu time, mas não é nada sério. O torcedor é o último fiel.

6-Você acha que já é permitido, quiçá bem visto, socialmente uma mulher gostar de futebol?

Sim, ninguém acha estranho uma mulher torcer, vestir uma camiseta e gritar desesperada. Eu acho apenas mais uma alma perdida para a falta de bom senso, mas, que posso dizer, eu gosto de futebol. Talvez eu esperasse que elas viessem a denunciar nossa paixão idiota, nossa babaquice de carregar insígnias paternas sem sentido.

7-Como é esse universo feminino do futebol, em termos de imaginário e comportamento?

Tenho uma amiga que gosta muito de futebol, vai a campo, torce, sabe de tudo. Mas o legal é que ela pega muito mais leve com isso, parece um homem no saber sobre o futebol, mas tem uma leveza que nós não temos. Como se para ela fosse mesmo uma grande brincadeira, que de fato é, mas que nem todos conseguem ver dessa maneira. Se as mulheres trouxerem, como ela, para o futebol, essa ideia de carnaval e não de embate acho que seria muito bem vindo.

Mário Corso é psicanalista e torce para o Sport Club Internacional de Porto Alegre, vulgo Colorado. Não se emociona com outros times fora o Botafogo do Rio de Janeiro (namoro discreto), e o Fussball-Club Bayer Munchen, apenas porque ganhou, de seu pai, e nem sabe de onde saiu, uma camiseta desse time quando era criança, e, é claro, o uniforme também é vermelho.

Perguntas de Camila Gonzatto

é roteirista e diretora de cinema e TV e cursa doutorado em Teoria da Literatura na PUC-RS.

24/08/15 |
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O ódio na internet

num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros

Quando usamos a palavra nazista para quem chutou um cachorro em um dia de fúria, que palavra vamos usar para quem comete regularmente crimes hediondos contra a humanidade? Mas a grande questão não é o desgaste semântico e o julgamento sumário. A pergunta mais procedente é: a internet revela a agressividade que está latente em nós ou é ela mesma que propicia um comportamento um tom acima do que já usamos?

Acredito na segunda hipótese, porque somos a primeira geração que massivamente usa a internet. Ainda não temos uma cultura de convívio, uma etiqueta peculiar para esse espaço. Recém chegados e broncos, ainda escarramos no chão e não sabemos nos comportar. Somos os inventores e as cobaias dessa nova experiência de convívio.

Agregue a isso a ausência física do interlocutor, não há corpos presentes. Quando a distância do outro aumenta, seu olhar não é visível, todas as ovelhas viram lobos e a bravata toma conta. Acrescente ainda o imediatismo, a rapidez da rede que permite fazer sem pensar. Escrever uma carta dispendia tempo, até manda-la tínhamos refletido melhor. Agora usamos o calor do momento, que é péssimo conselheiro.

As redes sociais são um meio quase de mão única: muita exposição e pouco retorno. Somos narcisistas, mas acima disso somos carentes, queremos é ser notados, admirados. Para tanto, num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros. Tendemos ao exagero, ao insólito, ao bizarro para nos destacar da massa.

Talvez a causa mais importante seja a sensação de irrelevância política dominante. O cidadão médio considera-se impotente perante a realidade. Não se sente representado por ninguém, as grandes discussões são complexas e ele pouco entende. A rede é porosa para o desabafo do seu mal estar. Acredita que pode fazer política, ainda que minúscula, com suas investidas indignadas contra tudo e todos. O efeito é apenas catártico, uma caricatura de intervenção social. Não passa de ressentimento destilado, mas alivia.

Talvez nosso olhar viciado coloque o termômetro em lugares errados. Por duas razões: o que é bom não dá manchete, e compartilhamos uma ideia difusa de que vivemos um momento de declínio moral e espiritual. Alardeamos que o tempo da utopia acabou, viveríamos a época das distopias. Acalentamos, sem nenhuma base na realidade, a crença de que enquanto civilização estaríamos, como nunca anteriormente, rumando em direção à barbárie. Procuramos indícios do mito da decadência para referendar essa tese e, para isso, nada melhor do que as besteiras ditas sem pensar na internet.

De qualquer forma, se o ministério do bom senso existisse, advertiria: aprecie as redes sociais com moderação.

Livros impróprios ou pais censores?

A literatura nunca é perigosa, muito pior é o silêncio censor.

Pergunte a um professor de literatura do ensino médio qual é o seu maior dilema em aula e a resposta provavelmente será: quais livros devo sugerir para serem lidos e debatidos. Mas atenção, a questão não é que o professor não tenha suas escolhas e preferências, seus livros de estimação, o ponto é como não ferir suscetibilidades, principalmente dos pais da garotada e raramente dos seus alunos. Se o assunto é sexo o campo é sempre minado. O resultado é que os professores se autocensuram e escolhem obras menos polêmicas, enquanto os jovens precisam buscar informação sobre sexo em outros lugares. Geralmente em becos bem mais escuros e a sós.

Saber é poder e no que toca ao sexo, nessa idade, vale como nunca, por isso os adolescentes são tão ávidos por obras que lhes forneçam alguma informação. O desafio de sua vida nesse momento é fazer laços afetivos entre seus pares que os ajudem a se desgrudar do amor dos pais. Ora, sexo, erotismo e amor se confundem na cabeça do nosso jovem, ele está a mercê de uma certa fascinação e da supervalorizada expectativa que temos sobre a questão. Seria útil se houvesse um manual de instruções, ainda que fosse vago, impreciso, imperfeito. A questão é que, por sorte, os manuais não funcionam, seu alcance é limitado.

A leitura poderia ajudar, existem obras da literatura que não fogem da raia, que tratam da questão. Como essas raramente são adotadas, os jovens as descobrem sozinhos, ou no boca boca e as leem sem discussão, ou então só com o entusiasmo dos amigos. A literatura tenta ensinar aquilo que nem os pais nem a escola conseguem. Ela mostra como a vida é complicada, como nossos pensamentos que parecem anormais são corriqueiros. Ela nos deixa menos sós, não somos os únicos a sofrer de angústia sem explicação, há outros que se sentem perdidos e sem rumo, que fazem besteiras sem saber a razão. A boa literatura é o único espelho dos abissais que são a diversidade e complexidade humanas e sua tênue fronteira com a loucura. Ela ajuda a pensar certos comportamentos, fornece novas palavras para sensações enigmáticas, renova a linguagem corrompida pela fala materialista e burocrática da política e da propaganda, funda mundos imaginários para descansarmos do presente. A riqueza de um texto tem o dom de recriar a linguagem envenenada pela banalidade do pensamento obscurantista daqueles que sabem o que é bom para os outros. Ela não necessariamente nos salva, mas fornece boas pistas para achar o fim do labirinto da adolescência.

A literatura adoraria ter tanto poder formativo como acreditam seus censores. Especialmente no sexo, é bom esclarecer que ela não cria fantasias sexuais, apenas fornece cenários que enriquecem e polemizam certas questões. Ninguém vai se tornar pervertido por saber que isso ou aquilo se faz. As fantasias que comandam a vida sexual já estão construídas num adolescente, apenas ele não as explicitou, não as explorou. Confunde-se a descoberta da própria sexualidade com a sua formatação que vem da infância. Não é sem influência, mas é como colorir um desenho que já está feito.

Na mesma linha de raciocínio: recorte algo que existe na realidade e todos conhecemos, coloque isso num lugar público visível e está feita confusão. Pode ser um beijo gay, o sexo mais banal de um casal, um adolescente fumando maconha, enfim, desejos e comportamentos nem tão incomuns ou obscuros. No julgamento de quem censura, tudo deveria permanecer oculto, como se a exposição do já existente justificasse e legitimasse esse fato.

Os pensamento censor acredita que a literatura, a propaganda, a novela não são amostras das várias formas de ser, pensam nelas como autorização e convocação à imitação. Na verdade só cumprem a função provocativa que abre portas para discutir o assunto. A questão é: quem tem medo de uma discussão? A reposta é óbvia: quem não tem argumentos senão escudado na suposta autoridade dos que pretendem nos livrar da perdição. Esses mesmos que veem o público como uns desmiolados que só esperam um exemplo para seguir.

Com o acesso à internet, hoje disponível na maioria dos lares, qualquer jovem encontra pornografia, apologia às drogas, incentivo ao suicídio, e qualquer outra bestialidade imaginável. Mas o detalhe: ali ele está sozinho, sem um adulto, sem um guia que o ajude a discriminar o que serve do que é lixo, do que destrói sua sensibilidade e embota sua inteligência.

A adolescência é um momento sem bússola. Longe de seus antigos pais protetores, que com o fim da infância perderam seus poderes, melhor deixar que eles ao menos estejam perto de alguém que já tenha mais estrada na vida. Os mestres e seus livros podem ajudar a lidar com o peso das exigências do sexo. Confie nos professores de literatura ou nos professores e orientadores que não fogem dessas discussões em aula. Talvez eles não tenham a mesma opinião que você, mas é um adulto tentando uma ponte para ajudar neófitos a discernir o sublime do vulgar no açougue que o sexo pode vir a ser para nosso adolescente. Se evitarmos as obras sobre sexualidade e erotismo nos currículos, vamos deixar que o único professor de nossos filhos na educação sexual seja a pornografia.

A maconha e o demônio

confrontando teses paranóicas de que um jornal só se posicionaria pela descriminalização por interesses comerciais.

Se você não acredita em meu Deus deve acreditar em meu demônio. Em síntese, essa é a lógica  binária e pueril que infelizmente domina hoje muitas discussões, negando que o mundo tem muitos outros tons.

Fiquei contente com a posição da Zero Hora sobre a maconha porque rompe com esse simplismo. Ela coloca-se como muitos clínicos que também enfrentam esse problema: não endossando o consumo, mas sendo favorável a liberação. O que queremos é tirar o problemas da sombra do delito para melhor enfrentá-lo. Sabemos dos perigos da legalização mas conhecemos muito bem os graves tormentos da ilegalidade.

A repressão nunca conseguiu diminuir o consumo da maconha e as ações educativas, num ambientes de proibição, tendem apenas envolvê-la numa bruma que exagera seu perigo e a torna atraente por ser pretensamente transgressiva. Acreditamos que jogar às claras e desmistifica-la é o melhor caminho.

Essa posição, que aliás é uma tendência mundial, parte de um fato simples: existe um contingente enorme de consumidores que não estão dispostos a abrir mão de seu hábito e agem com desdém aos conselhos dos profissionais de saúde. Resta-nos muda nossa abordagem para estar perto deles. Se quisermos nos aproximar desse contingente, a primeira coisa é sair da posição de verdade, da postura arrogante de quem se julga com o monopólio do saber sobre o que é bom para os outros. Essa clínica que só consegue apontar a abstinência como estratégia não funciona mais. Não podemos seguir infantilizando e subestimamos o consumidor. E mais, qualquer droga, quando afunda alguém, nunca é só ela. Ela apenas é um atalho para o pior, mas é um sofrimento, uma desesperança, uma tristeza uma depressão que realmente levam a isso.

O campo da clínica é duro porque é sempre perpassado por dúvidas, raramente somos taxativos. Mas quando vejo nossos colegas, adversários dessa posição de maior tolerância, ao invés de argumentos, sacar teorias conspiratórias, reduzindo o complexo problema das drogas à futuros lucros publicitários, disso tiro uma certeza: o que está em questão é o esgotamento teórico do paradigma repressivo.

(publicado em Zero Hora em 12/03/2015)

Fabrício e a vaia

Um jogador destemperado e uma torcida mimada.

A vaia é o vestibular do mundo adulto. Se você já recebeu e matou no peito é porque deixou a infância onde tudo eram afagos e elogios. A vida adulta é trabalho e critica, e a forma mais dura da cobrança é a vaia. Pessoalmente não acredito na sua eficácia. Ela fala mais da impotência e da falta de educação de quem a produz do que da performance de quem a recebe. Ela por si mesma não tem uma força educadora, construtiva, mas ela está aí, cada dia mais.
Fabrício anteontem não matou a vaia no peito. Ele tem o preparo para ser jogador, mas não para ator, para encenar uma personagem que o ultrapassa. Não compreendeu que as vaias fazem parte do contrato que assinou e que o futebol é também um espetáculo catártico, um catalisador de emoções, um lugar onde buscamos um sentido épico que a vida nos nega. Temos gladiadores modernos que deixamos que saiam vivos da arena, mas nem por isso cobramos menos sangue. Fabricio escutou isso do modo errado e voluntariamente abriu suas veias para nós. Seu destempero o afundou e gozamos de sua falência moral. A torcida o derrotou.
Fabricio recebia vaias pelo conjunto da obra, deixou o time na mão várias vezes com expulsões desnecessárias, comprava brigas tolas, se excedia de todas as formas. Existem jogadores que derrotam as vaias. Valdomiro usou-as para se aperfeiçoar. Trabalhou mais e mais até ser o melhor cobrador que já pisou no Beira-Rio. Não acreditava na predestinação e no talento, mas sim no trabalho exaustivo que deve ser aliado ao dom natural. Fabrício queria uma admiração sem contrapartida, um incentivo mesmo no erro. Ele não lapidou seu talento, não domou sua fúria, permaneceu como uma criança mimada e birrenta. Não entendeu que existe um outro mais mimado em campo, a torcida.
O Internacional tem uma torcida maravilhosa. Quantas vezes juntou o time do chão e o empurrou para a vitória. Mas nessa quarta feira, sem querer, deu um tiro no pé. Posou de consumidor exigente e criou mais um problema para um time ainda em montagem. Creio que o momento é de guardar as vaias para desestabilizar os adversários.
Dizem que o treinador Rubens Minelli preparava o time para enfrentar 12 adversários. Os 11 da equipe adversária e o juiz. Insistia: o juiz não é nosso amigo, ele não vai nos compreender nem nos perdoar. Ele é mais um pedra na nossa chuteira. Espero que os treinadores do Internacional não precisem dizer que temos que enfrentar 13 adversários, como o juiz, a torcida também não é nossa amiga, não vai nos compreender nem nos perdoar.

Interceptei a mensagem de um E.T.

vistos de fora, somos no mínimo engraçados!

Primeiro informe ao planeta Zorg.

Estou muito animado no meu primeiro dia no planeta Terra. Orgulhoso de ter sido escolhido para a missão de reconhecimento dessa curiosa civilização semi-inteligente.

Já posso dizer, num primeiro relance, caso queiramos entrar em contato e trazer presentes: o que eles mais precisam é de gás carbônico. Cada grande cidade possui enormes usinas fixas de produção de CO2 com gigantescas chaminés. Como isso não é suficiente, uma manobra coletiva permite uma distribuição mais eficiente a partir de pequenas usinas móveis.

Existe um ritual de solidariedade que possibilita tornar a atmosfera mais compatível com a espécie que domina o planeta. Logo que sai o sol, cada família que tem posses, pega o seu produtor móvel de CO2 e sai distribuindo fumaça em rotas aparentemente aleatórias. A solidariedade se repete perto do meio-dia e ao redor do entardecer. Os mais prestativos fazem isso em outros horários e inclusive à noite. Isso possibilita cobrir toda a extensão das cidades com uma atmosfera amigável.

É um povo de uma persistência admirável, entopem as vias e quase não saem do lugar por horas. Exceção das micro usinas, de apenas duas rodas, talvez usadas também para transporte, afinal, essas circulam.

Sem esse gás creio que eles não vivem. Por essa razão existem poucas pessoas vivendo em áreas verdes. Creio que a concentração de oxigênio lhes seja prejudicial. Talvez somente indivíduos particularmente robustos possam sobreviver em tais condições. Motivo pelo qual, eles se esforçam para derrubar as florestas produtoras de oxigênio e umidade.

Mesmo assim, com todo esse empenho, alguns precisam usar CO2 concentrado. Existe um dispositivo bem inteligente que permite uma dose direta. É um canudo fino, branco, que ao ser aceso em uma das extremidades, garante um suprimento para os mais débeis. Evidentemente, quem está em volta aproveita um pouco da fumaça.

Fora a necessidade extrema de gás carbônico, nada mais poderia explicar a audácia em usar tais dispositivos móveis. É visível um contraste extremamente desigual entre as usinas móveis, todas em metal rígido – apenas as rodas são macias – e a fragilidade dos humanos. Eles possuem corpos sem exoesqueleto, são constituídos basicamente de carbono e água, e o cerne é de uma quebradiça estrutura de cálcio.

O exercício da solidariedade da fumaça é perigosíssimo. Muitos perdem a vida pois a usinas são bólidos primitivos que, não raro, colidem entre si ou atropelam humanos e animais, causando danos irreversíveis. É de um absurdo “custo humano”, para usar o vocabulário local.

Não fosse CO2 o gás da vida, diria que nem entre as civilizações semi-inteligentes poderíamos classificar os terráqueos.

Vida interior

Perdido em pensamentos, na missa…

Devo à formação católica grande parte da minha vida interior. Sem as missas, não sei se teria desenvolvido a imaginação. Logo que comecei a frequentar a igreja, as celebrações mudaram do latim para o português, mas bem poderiam ter continuado assim, para mim seguiu soando grego. Como não entendia o ritual, as rezas prosseguiam alheias. Só restava me entreter com as janelas e os pensamentos.

Não sei se meu órgão da fé é avariado ou a se ideia de um deus zangado, ressentido e exigindo adoração nunca me fez sentido. O fato é que sempre estava na missa dividido. Tentava me conectar com aquela solenidade e não conseguia, então devaneava.

Experimentei várias fases de distração: a matemática, quando contava as pessoas multiplicando o número de bancos pela média dos ocupantes, ou calculava quantas lajotas havia no piso, ou ainda buscava descobrir a altura do teto comparando com animais de que conhecia o tamanho. A fase artística era difícil, pois sempre achei a iconografia das igrejas católicas com um pé no sinistro.

Exceção feita às poucas missas a que fui na catedral de Santa Maria, de belíssima decoração. Minha alma volúvel se deslumbrava com as pinturas de Locatelli e ali fui o mais próximo do bom católico, vencido não pela fé, e sim pela estética.

Tive também a fase da pura viagem, tédio total: nessa, simplesmente inventava histórias, conduzia as fantasias aleatórias para filmes mentais. Antecipava os cowboys justiceiros que me aguardavam na matinê, ou os piratas na sua procura obstinada por tesouros.

Mas por que ia à missa se resistia a ela? Porque me mandavam e eu obedecia, seguia os passos dos pais. Minha mãe dentro da igreja junto comigo e meu pai no fundo, às vezes saindo para fumar. Ficava no meio-termo, dentro como minha mãe e com a cabeça lá fora como meu pai.

Da cerimônia, gostava apenas da hora do Pai Nosso, a única oração que conhecia de cor e minha deixa para entrar de verdade na missa, sabendo que já estava agradavelmente no fim. As missas a que assistia com as minhas avós transmitiam uma sensação diferente. A fé delas parecia mais genuína e contagiante e transformava minha eventual companhia em alta e nobre missão. De qualquer forma, mesmo sem elas, nunca achei que perdia meu tempo. Afinal, aquela era a minha religião, ainda que pela metade. Eu não acreditava, só que a missa fazia parte fundamental do mundo dos meus sonhos.

Saía da igreja de alma leve, como quem tira botas apertadas, como quem lava e seca seus pecados logo cedo e a perspectiva da próxima só em uma semana. A luz forte da manhã de domingo prometia um dia livre e feliz. Havia uma inexplicável alegria extra, vá que Deus fosse tão generoso que abençoasse até os ateus distraídos.

19/01/15 |
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O silêncio dos automóveis

Se eles falassem, revelariam nosso desalmado coração.

Como seria se nossos carros pudessem falar? Dizer como foram companheiros e possibilitaram muitas das nossas aventuras. Mas não é assim, eles não falam. Porém não falam por que não podem ou por que não queremos ouvir suas histórias tristes? Eu sou mais pela segunda opinião. Os carros sofrem demais, sua conversa não é animadora.

Tudo começou em 1982, quando uma Caravan bordô saiu de São Bernardo e veio para Porto Alegre. Não ficou dois dias na concessionária. Saiu de lá carregada, a família inteira veio buscá-la. Estava orgulhosa com o seu casal jovem e dois meninos. Moravam na praça Japão e tomava banho toda semana. Um aranhão leve na lataria era sanado imediatamente. Sentia que tinha encontrado seu lugar no mundo.

Mas essa vida de viagens à praia e buscar as crianças na escola durou pouco. Sem aviso, um dia qualquer, foi levada de volta a concessionária. Nunca soube por que nem pelo que foi trocada.

Sua vida mudou. Seus novos e sucessivos donos reclamavam que ela bebia muita gasolina e ia sendo passada para frente. Mal se acostumava a uma nova garagem e já estava noutra. Nem dava tempo de se apegar. Conheceu bairros mais pobres e a periferia. Seus novos donos mal trocavam o óleo. Esqueceu o que é um tanque cheio. Autorizada nunca mais, vivia de peças usadas e improvisadas. As viagens à passeio acabaram, de madrugada fazia compras na Ceasa de dia entregava ranchos.

A maior tortura era quando uma diligência pedia ir ao aeroporto. Ficava sempre perplexa, eram muitas camionetas novas, marcas e modelos que nem suspeitava que existissem. Se sentia envergonhada por estar sem calotas. As vezes imaginava que elas quisessem saber do seu passado, da sua experiência, mas estavam todas entretidas entre si e ela nunca conseguia entrar na conversa. Notava nelas uma ponta de vergonha por serem vistas falando com uma velha.

Seu atual dono, um serralheiro, soldou na capota uma espécie de gaiola de ferro para transportar os portões que conserta e entrega. Era como uma coroa, mas significava o avesso. Para seu desespero uma dessas encomendas foi na rua em que passou seus melhores dias. Podia ver dali a casa onde um dia se sentiu tão amada.

Rezava para que o serviço terminasse. Não queria ver nem ser vista. Como sempre, quanto tememos um encontro ele acontece. Sua antiga família passou numa camionete novíssima. Menos mal que não a reconheceram. Queria morrer, mas não ali. Mal conseguiu arrastar os pneus até sua casa antes de fundir o motor.

Quando fores reclamar da brevidade da nossa existência pense nos nossos amigos automóveis, esses sim tem uma vida curta e conhecem a decadência muito rápido.

(publicado em ZH, 06.01.2014, interino do Fabricio Carpinejar)

05/01/15 |
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Ladrões de cavalos

Todo mundo foi nobre no passado, mas Luiz Corso sabia desmontar essa pretensão com muita graça.

Poucas coisas divertiam mais meu pai do que falar talian, o dialeto vêneto que se sobrepôs aos outros dialetos tornando-se uma língua comum aos nossos ítalo-descendentes. Sempre que podia encontrava com os conhecidos para gastar a nostalgia da sua língua mãe. Como tantos, aprendeu português na escola. Meu avô no fim da vida esqueceu o português e só falava talian, azar de quem não entendesse. Uma das minhas bisavós jamais aprendeu o português, todos que lhe interessavam falavam talian, para que falar outra coisa? Uma densa pátria cultural e afetiva comum unia essa comunidade.

Nessas tantas rodas de fala, sempre alegres, descontraídas, havia apenas um momento em que a conversa tomava um rumo que desagradava meu pai. Não lembro se ele nomeava esse fato de alguma maneira, eu hoje chamo de “nobreza retroativa”. O fato é que, vez que outra, lá pelas tantas, alguém puxava o assunto: o que tua família fazia na Itália? E então eram lembradas tradições, profissões, terras e uma pompa tal, que de forma alguma combinavam com os imigrantes que aqui aportaram. Mal comparando, sabe aquele papo de reencarnação, em que todos foram nobres ou distintos na outra vida e ninguém foi escravo nem camponês?

Ora, a esmagadora maioria de quem veio para este, na época, fim de mundo, era pobre. Não tinham terras nem posses, só esperança, às vezes um ofício e força para trabalhar. Vieram lutar contra a miséria e foram vencedores. A meu pai soava falso esconder a pobreza dos antepassados. A dureza da chegada na América fora heróica e terrível, muito sofrimento e trabalho duro. Na opinião dele, dessa epopéia deveríamos nos orgulhar, não da pátria perdida onde não tínhamos lugar, onde a crise despejou os mais vulneráveis.

Quando chegava a vez do meu pai falar da sua família na Europa, fazia um anticlímax dizendo que se perdia nos séculos desde quando, de geração em geração os Corso seguiam no mesmo negócio, todos aprendiam com os pais os segredos do ofício e de como essa tradição os unia e identificava a família na comunidade. Mas “esquecia” de falar a profissão dos antepassados, ao que um da roda insistia: mas afinal, o que faziam? A resposta era seca: “Roubávamos cavalos!” A piada desmontava o clima da nostalgia pela perda de uma Itália de fantasia.

Eu montando a cavalo sinto falta do mouse, dos botões, do retrovisor, dos pedais. Decididamente não fomos feitos um para o outro, minha intimidade com eles é pouca. Mas como nunca soube o que realmente fazíamos na Itália, meu pai era lacônico a respeito, tenho receio de que possa não ser piada. Peço então que não me convidem para conhecer seus cavalos. Tenho medo de ser assaltado por uma força atávica e, mesmo que desajeitado, sumir com a tropa. Afinal, é tradição de família!

13/12/14 |
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Tatuagens

O corpo ilustrado, visto por um destatuado.

Depois que meu cachorro se foi fiquei sozinho no quesito tatuagem. Todos são tatuados na minha casa. Inclusive me pressionam para fazer uma. Sinceramente, eu passo. As minhas razões são simples, coisa de geração, de idade. Um dos lugares onde mais me sinto à vontade é entre os da minha safra. Olho com entusiasmo as gerações que chegam, acredito serem melhores que a minha, mas fico no meu posto.

Nunca se precisou tanto do corpo para se fazer um eu. Sempre fomos desde um corpo, mas ele não precisava de tanta evidência, tanto protagonismo. Essa onda de tatuagens é similar à das academias, dos corpos esculpidos, das plásticas, dos cuidados extremados com saúde e alimentação. Hoje precisamos ser lindos, sarados e bem aprumados. Como cultivar a alma não anda em alta, apostamos as fichas no corpo. Por isso não creio que seja um modismo. Em resumo: como agora somos mais dependentes do corpo para obtermos uma significação, para sermos alguém, ilustrá-lo faz parte. Recebo pacientes cujas tatuagens foram decisivas para certas significações que de outra forma seriam difíceis.

Além disso não saberia o que tatuar. Geralmente as tatuagens são cicatrizes de uma significação, uma tentativa de fazer algo valer mais do que vale. Ou então desenhamos na pele algo que não queremos esquecer, que é nosso, mas de certa forma tem uma exterioridade. Enfim, algo que se situa na borda, está no corpo mas não entra. Como sempre ando em conflito com minhas identificações, teoricamente seria útil sublinhar alguma delas na minha pele, mas no meu caso, não tenho esperança que esse uso vá ajudar.

E há ainda a questão estética. Na minha infância tatuagem era algo marginal e transgressivo. Sem problema, eu achava isso bacana, mas acima de tudo elas eram cafonas, para usar a palavra da época. Vocês não sabem como as tatuagens melhoraram, algumas são praticamente obras de arte, enquanto as primeiras eram padrão cadeia. Mal desenhadas, mal acabadas, já nasciam tortas e desbotadas. Essa primeira impressão nunca me abandonou, tanto que emocionalmente elas me remetem primeiro a uma precariedade.

Mas a questão mais importante é a ideia de transitoriedade. Eu sei que não vou escutar as mesmas músicas a vida inteira. Meus gostos e referências mudam. Não tenho certeza que seguirei com as mesmas opiniões. Talvez as tatuagens sejam para ancorar certezas necessárias e não me sinto à vontade para tanto. Ou, pegando pelo lado da imagem, vocês já se viram em fotos antigas com roupas em que nos achávamos arrasando e hoje nos parecem cômicas? Sempre penso na tatuagem como uma roupa indespível, uma espécie de prisão a um conceito. Decididamente, a ideia de não poder ficar pelado ou retirar um signo passageiro me incomoda. Invejo quem tem o conforto de algumas permanências.

06/12/14 |
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