Geração Harry Potter
por ocasião do lançamento do último filme da série, artigo para a Revista Carta na Escola.
O observador desavisado pode pensar o fenômeno Harry Potter apenas como um investimento bilionário da indústria cultural. De fato foi, mas só depois de ter trilhado um caminho solitário, com tropeços e sem outro incentivo que não o de ter tocado o coração dos seus primeiros leitores. Foi na base de uma difusão boca a boca que esse livro, de uma autora estreante, conseguiu seus pequenos admiradores.
Claro, depois da história se provar viável, a mídia investiu forte e fez dela o que é: marco literário da ficção para jovens. Podemos inclusive falar que existe uma “geração Harry Potter”. São jovens que estão hoje ao redor dos seus 20 anos, que nasceram em torno da década de 90 e pegaram a onda quando chegavam à puberdade ou no começo da adolescência. Em razão de que outras marcas ideológicas entraram em declínio, tornou-se comum as pessoas se referenciarem e identificarem na condição de consumidoras de certas obras literárias. O universo que J.K. Rowling criou é sem dúvida uma delas, mas esse fenômeno é partilhado por fãs, até então mais velhos, de sagas como Star Trek, O Senhor dos Anéis ou Star Wars, a galáxia distante de George Lucas. As crianças que celebrizaram o bruxinho de Rowling, além de habitar esse complexo reino mágico, o acompanharam enquanto ele nascia, com cada livro e filme aguardados ansiosamente. Ou seja, trata-se de uma geração e uma série que cresceram juntas.
Mas o que podemos aprender com o fenômeno Harry Potter? Se ele realmente fez eco em tantos é impossível que não traduza questões que estão postas para esses jovens. Uma resposta para esse encontro feliz entre obra e geração está no mais óbvio: a busca da magia, mas entender o que significa essa magia é algo que requer um esforço a mais.
Max Weber notava que a marca mais forte da modernidade foi o desencantamento do mundo, no sentido do pensamento mágico que revestia o cotidiano, a cultura e o raciocínio dos antepassados. O declínio das religiões e o avanço do pensamento científico reposicionaram o homem ante o cosmo. Mas, infelizmente, as promessas do iluminismo, da ciência, da razão, falharam.
Acreditávamos num mundo racional, no qual, graças ao avanço das ciências, as paixões humanas perniciosas estariam dominadas, mas o que realmente vivemos foram duas guerras mundiais que devastaram a Europa, supostamente o lugar mais avançado. Acrescentem-se a isso Hiroshima, Auschwitz, totalitarismos e a Guerra Fria, com sua possibilidade de um desastre nuclear em que todos perderiam. O século XX é um cemitério de promessas, como então seguir confiando em tais ideais? Assim, o apelo ao mágico dessa série ganha contornos de uma crítica nostálgica ao nosso tempo. A sobrevivência da barbárie tornou inegável que ainda existem fatos obscuros nos homens e na sociedade, que a ciência e a razão não conseguem explicar suficientemente. Representando uma forma lúdica de lidar com esse lado sombrio, a literatura nos restou como o único espaço possível da magia.
Acompanhando os acontecimentos do mundo dos bruxos e as batalhas de Potter, fica claro que Rowling está em busca de circunscrever o mal. Afinal, uma das questões que está em aberto é sobre a essência do mal. O que ele seria? Como entendê-lo e principalmente, como contê-lo? Haja feitiços suficientes para neutralizar e tentar reparar um século tão trágico como o XX!
Especialmente no Brasil, temos uma dificuldade com a ficção de inspiração mágica. Nossa literatura é essencialmente realista, com poucas exceções, e nosso pensamento político lhe faz eco. A ideia de fundo é: como, com tantos problemas sociais, poderíamos reforçar o pensamento mágico, já que este nos afastaria da nossa difícil realidade?
Por sorte os jovens não aceitaram essa prevenção absurda, que não capta a essência das possibilidades da fantasia. O mundo fantástico permite outra forma de apreensão da realidade e não um afastamento. Quem imagina o mundo encantado de Rowling como refúgio idílico onde encontraremos as bondades do Papai Noel vai se sentir traído: ele é mais assustador e perigoso que o nosso. Não existem concessões, meio termo, nem ilhas de sossego. O que encontramos lá é uma luta política contínua, com traições, mortes e golpes baixos a todo o momento. Os heróis dessa saga sofrem sem tréguas e a mensagem é que só o engajamento e a disputa corajosa podem resolver seus destinos e os daquele reino.
Apesar de usar o acervo mitológico clássico com tempero gótico, é muito provável que o cerne mítico que está embutido em Harry Potter seja indissociável da experiência europeia com o nazismo. Filosoficamente, a Segunda Guerra é uma ferida não supurada, ainda não a entendemos em todos os seus mecanismos. Acredito que a geração de agora, por meio dessa obra, a recebe de maneira indireta e mítica, por ser a primeira que não foi tocada diretamente pelos seus tentáculos de horror, perplexidade e luto.
Harry Potter trilhará o mesmo caminho de Peter Pan, Pinóquio, Alice, Dorothy e tantos outros, figurando entre os heróis infantis de todos os tempos. Seu sucesso provavelmente não se repetirá com tanta força nas próximas gerações, primeiro porque tem o sabor do ethos da que passou e também porque, por se tornar um clássico, essa história será conhecida e recomendada pelos adultos. As crianças gostam de compartilhar com seus pais as histórias que as encantaram, mas também gostam de ter um universo onde elas saibam mais, onde elas sejam mestras dos caminhos. Para a primeira geração, foi uma experiência de independência: seus pais não eram iniciados nos assuntos do bruxinho, já para os filhos desta, talvez ele se torne personagem de uma história familiar.
Há algumas décadas, Umberto Eco ponderava sobre o que aconteceria caso um professor universitário pedisse a seus alunos que fossem tão dedicados a um assunto qualquer quanto eles eram devotos ao mundo enciclopédico de Tolkien. Ele não seria seguido e certamente arranjaria uma briga e tanto. Talvez, o que possamos dizer sobre isso é que esses universos mágicos nos apaixonam também porque não somos obrigados a entrar. A porta está aberta e espiamos por suspeitar que ali vamos nos divertir, nos assustar e ter contato com dimensões do humano que só a literatura nos proporciona.
Publicado na Revista Carta na Escola
14 setembro 2011
Mas que baita segredo!
Reflexão sobre os mecanismos de eficácia da literatura de auto ajuda
Os livros de auto-ajuda andavam muito iguais uns ao outros, fazia tempo que um autor não se destacava entre a tediosa mesmice. Pois bem, a australiana Rhonda Byrne com O Segredo (Ed. Ediouro) conseguiu. Na verdade ela realmente não escreveu um livro, apenas juntou citações de vários colegas em torno de uma idéia. Como esses autores que vendem a chave do sucesso costumam apresentar-se como exemplo, o leitor pode ser levado a crer no valor do segredo que ela tem para revelar. Afinal, o livro e o filme fizeram a autora rica, conhecida no mundo todo, com uma vendagem estrondosa que segue surpreendendo.
O Analista de Bagé no divã
Reflexão sobre o personagem Analista de Bagé de Veríssimo
Para um estado de forte tradição psicanalítica, que produziu importantes analistas, não deixa de ser irônico que o mais famoso deles seja uma personagem. Para quem não sabe, lá pelo início dos anos 80, Luis Fernando Veríssimo crescia como escritor, suas crônicas ganhavam o Brasil, e o empurrão definitivo para o reconhecimento nacional foi dado pelo Analista de Bagé, seguramente a personagem mais importante de sua carreira (Ed Mort e a falecida velhinha de Taubaté que me perdoem).
O mito de Fausto
Sobre o nascimento do mito de Fausto
Fausto firmou-se como um mito moderno, nele o homem estaria disposto a perder-se para saber, para dominar a natureza e conhecer os segredos do universo. Ele representa o anseio humano pelo poder e pelo saber e também que saber é poder. Porém esta versão é fruto de uma longa jornada. Nos primeiros movimentos, quando do surgimento do mito, Fausto buscava só uma vida melhor, facilidades e riquezas, é a literatura que o vai espiritualizando, fazendo com que busque mais a ciência dos que os prazeres terrenos.
O psicanalista era o culpado
Comentários sobre o livro A consciência de Zeno de Italo Svevo
“A Consciência de Zeno”, de Italo Svevo, esteve muitos anos fora de catálogo. Para nossa sorte a Editora Nova Fronteira trouxe o livro de volta numa tradução bem caprichada de Ivo Barroso e um interessante posfácio de Alfredo Bosi.
Eu me amo
Sobre a literatura de auto ajuda
O título é uma lembrança de uma música homônina do Ultraje a Rigor que satiriza o narcisismo contemporâneo. A música é simples, um sujeito vivia triste e sem sentido, eis que descobre a maravilha que ele próprio é e passa a amar-se a ponto de não mais poder viver sem si mesmo. A letra é muito feliz, pega nesse escracho o absurdo do narcisismo contemporâneo.
Individualistas, como cada dia mais somos, partimos da crença que boa parte de nossos problemas poderiam ser resolvidos se tivéssemos uma boa autoestima. Então assim seguimos, buscando ser um objeto o suficiente bom para podermos nos amar e ganhar mais independência dos outros.
Essa concepção é a mola mestra dos conselhos de nossas comadres e de uma literatura bem em voga: os manuais de auto-ajuda. Quanto às comadres, tudo bem, estão imersas em seu próprio tempo, é isso mesmo que iriam dizer, porém quanto à literatura é necessário uma crítica, afinal, mostram-se vendendo uma sabedoria “científica”.
Infelizmente o narcisismo não é binário, assim fosse, nossos problemas estariam resolvidos, todos nos amaríamos a nós mesmo e seríamos felizes para sempre. O narcisismo precisa ser pensado sempre a três termos: eu, mim mesmo e o outro. O raciocínio comum pega um eixo com dois elementos que correm em um polo: ser ou não bom para si mesmo enquanto objeto. O que fica elidido desse raciocício é o outro, ora se somos amados pelos outros então nos julgamos bons para sermos amados por nós mesmos e caso contrário não.
O problema é que somos tão individualistas e tão narcisistas que não admitimos o quanto somos dependentes. Sonhamos em ser ermitões espirituais, não depender do reconhecimento alheio para nada. Seria uma boa idéia senão pelo detalhe de vivermos em sociedade. O delírio individualista que os manuais de auto-ajuda apontam é este: cada um deveria ser uma célula independente, seria o seu próprio mestre e o seu próprio amante. Se o julgamento do outro não te convém julgue você mesmo, se a alteridade não te favorece suprima-a.
Isso pode funcionar por que é o canto de sereia que queremos ouvir, gostamos de fantasiar que querer é poder e que alguém determinado não tem limites. Gostamos de pensar que poderíamos ser uma fortaleza psíquica cheia de vontade, com uma energia sem fim. Não é difícil sentir-se assim, é algo que todos podemos em algum momento experimentar, pois trata-se dos momentos em que estamos identificados ao nosso ideal de ego. Ora, a estratégia do discurso de autoajuda pega esse caminho e faz uma espécie de doping psíquico. Deste modo cada um é levado a creer que ele é esse ideal e desde aí deve considerar seu ponto de vista, este seria o eixo de sua personalidade, toma-se a parte pelo todo. Nossas fraquezas, dificuldades, contradições, inibições não contam nessa nova matemática, isso fica elidido para poder inflacionar o ego.
Evidente que não é sem custo esta operação, quem acreditar nisso vai ficar jogado numa dinâmica maníaco-depressiva. Cada vez que o sujeito esbarra na realidade tropeça e cai, para sair da depressão reiventa a miragem narcísica e segue até o próximo tombo.
“É preciso estar bem consigo para estar bem com os outros”, todos já ouvimos esse conselho, ele não é falso em sí, ele é falso na raiz, não há essa dicotomia entre o eu e os outros por que não há eu sem outro, é uma impossibilidade até lógica. A psicologia não pode assumir sem crítica os valores do individualismo contemporâneo e transformá-los em conceitos como é feito ao redor do termo auto-estima.O que precisa ser lembrado é que a rigor, a auto-estima não existe. Existe enquanto uma auto-percepção mas não como uma entidade dinâmica. A miragem da auto-estima faz parte do discurso narcisista de colocar o ego como medida de todas as coisas.
Hoje é mais fácil e mais comum ouvir que se tem a autoestima baixa do que pensar que é o nosso desacerto com os semelhantes que nos causam problemas. Revirando um pouco, o que vem atrás desta queixa de insuficiência narcísica é alguém que se sente menos amado, que não se julga reconhecido como supõe que deveria mas não enuncia como uma falta ao outro e sim como uma insuficiência sua consigo próprio. Se “os outros não me amam” é lido como: “eu não me amo”, “eles não me reconhecem” vira: “eu não estou a altura de mim mesmo, não correspondo ao que sonhei para mim”. Ou seja o seletor de interpretação ficou trancado no eixo do imaginário narcísico.
Sartre dizia que o inferno são os outros, não sei se podemos desmenti-lo, estaria mais a ponto de concordar mas a questão não está posta como opção, não temos escolha, a saída será sempre considerando as alteridades. Para contrabalançar podemos lembrar Vinicius: “a vida é a arte do encontro” e posso lhes assegurar, os livros de auto-ajuda são manuais de desencontros.

Mário Corso é psicanalista, membro da APPOA (Associação Psicanalítica de Porto Alegre). Formado em psicologia pela UFRGS, trabalha com adolescentes e adultos. Em 2002 lançou Monstruário – Inventário de Entidades Imaginárias e de Mitos Brasileiros pela editora Tomo, Menção Honrosa do prêmio Jabuti, numa tentativa de revitalizar figuras esquecidas do folclore nacional. Publicou o livro Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis, em 2005, e Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia, em 2010, ambos pela Ed. Artmed, escritos em parceria com sua esposa Diana Corso. Publica artigos, ensaios e crônicas em diversos meios de comunicação. 




