Outros
Exibir por:

O silêncio dos automóveis

Se eles falassem, revelariam nosso desalmado coração.

Como seria se nossos carros pudessem falar? Dizer como foram companheiros e possibilitaram muitas das nossas aventuras. Mas não é assim, eles não falam. Porém não falam por que não podem ou por que não queremos ouvir suas histórias tristes? Eu sou mais pela segunda opinião. Os carros sofrem demais, sua conversa não é animadora.

Tudo começou em 1982, quando uma Caravan bordô saiu de São Bernardo e veio para Porto Alegre. Não ficou dois dias na concessionária. Saiu de lá carregada, a família inteira veio buscá-la. Estava orgulhosa com o seu casal jovem e dois meninos. Moravam na praça Japão e tomava banho toda semana. Um aranhão leve na lataria era sanado imediatamente. Sentia que tinha encontrado seu lugar no mundo.

Mas essa vida de viagens à praia e buscar as crianças na escola durou pouco. Sem aviso, um dia qualquer, foi levada de volta a concessionária. Nunca soube por que nem pelo que foi trocada.

Sua vida mudou. Seus novos e sucessivos donos reclamavam que ela bebia muita gasolina e ia sendo passada para frente. Mal se acostumava a uma nova garagem e já estava noutra. Nem dava tempo de se apegar. Conheceu bairros mais pobres e a periferia. Seus novos donos mal trocavam o óleo. Esqueceu o que é um tanque cheio. Autorizada nunca mais, vivia de peças usadas e improvisadas. As viagens à passeio acabaram, de madrugada fazia compras na Ceasa de dia entregava ranchos.

A maior tortura era quando uma diligência pedia ir ao aeroporto. Ficava sempre perplexa, eram muitas camionetas novas, marcas e modelos que nem suspeitava que existissem. Se sentia envergonhada por estar sem calotas. As vezes imaginava que elas quisessem saber do seu passado, da sua experiência, mas estavam todas entretidas entre si e ela nunca conseguia entrar na conversa. Notava nelas uma ponta de vergonha por serem vistas falando com uma velha.

Seu atual dono, um serralheiro, soldou na capota uma espécie de gaiola de ferro para transportar os portões que conserta e entrega. Era como uma coroa, mas significava o avesso. Para seu desespero uma dessas encomendas foi na rua em que passou seus melhores dias. Podia ver dali a casa onde um dia se sentiu tão amada.

Rezava para que o serviço terminasse. Não queria ver nem ser vista. Como sempre, quanto tememos um encontro ele acontece. Sua antiga família passou numa camionete novíssima. Menos mal que não a reconheceram. Queria morrer, mas não ali. Mal conseguiu arrastar os pneus até sua casa antes de fundir o motor.

Quando fores reclamar da brevidade da nossa existência pense nos nossos amigos automóveis, esses sim tem uma vida curta e conhecem a decadência muito rápido.

(publicado em ZH, 06.01.2014, interino do Fabricio Carpinejar)

05/01/15 |
(0)

As mãos e os pés

No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho.
No mundo do avesso do futebol, são os pés que mandam!

Quem quiser saber por que o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta terá que rebolar. Certamente a causa é multifatorial, mas arrisco uma teoria: o futebol é o reverso do mundo do trabalho. É o território do ócio, do esforço não produtivo, da competição brincalhona. No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho. Não dizemos: mão de obra, dar uma mão, botar a mão na graxa? A mão é produção e nobreza. É ela que escreve, opera máquinas e aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes, estão a serviço das artes das mãos.

No mundo do avesso são os pés que mandam, são eles que dançam, que jogam bola. No campo a mão não vale, não entra no jogo, a não ser a de Deus, como naquele dia em que, entre tantos dos seus nomes, Ele resolveu usar Diego. Pudessem tirá-la, os demais jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia à corrida. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante do futebol. Quem pode usá-las é o goleiro, mas ele é a exceção e é o masoquista do time. Ele é o mediador entre esses mundos, é o único que não pode correr pelo campo, está fixo como um trabalhador no seu setor. Brinca mas não tanto, está no pior lugar. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.

No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento eles são valorizados e podem mostrar sua força, sua pontaria, sua destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés nunca é treinada. Mão é cultura, pé é natureza. Poderíamos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia. Já no futebol, é a inteligência motora dos pés que vale. O pé, como parte mais baixa do corpo, está ligado à terra, e recebe seus encantos pela sua condição animal, sua força indomada. No campo os pés estão livres para chutar, para correr, driblar, mostrar ao mundo e às mãos seu valor.

As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, não basta trabalharem são elas que afagam, que selam pactos. São elas que deslizam pelo corpo do ser amado. Os pés querem sua parte, seu quinhão de importância, para isso ganharam os gramados de domingo.

A cabeça encontra razão motora apenas no futebol, na vida não damos cabeçadas. Usamos a cabeça para pensar a vida, mas ela fica quieta sobre os ombros e no máximo segura um chapéu e ganha um afago. Só no futebol ela pode ser animal e desferir um golpe fatal no inimigo. Com o futebol, e o uso lúdico dos pés e da cabeça, a democracia corporal se estabelece, o corpo se integra e vive a felicidade de um feriado com sol.

19/06/14 |
(1)

Os sem-gravata

Depois da revolução de costumes, um mundo cerimonioso

Sou avesso a rituais. Nada me aborrece mais do que casamentos, formaturas, missa para qualquer coisa, aniversários pomposos, tudo que pede protocolo e roupa apropriada. Vou, mas como gato no cabresto. Admito que sou um chato, que dificilmente entro na frequência das emoções alheias. Pelo menos não estou sozinho, meu desconforto traz algo da minha geração, ou pelo menos, parte dela. Deixem dizer algo em nossa defesa: não se trata de misantropia gratuita.

Quem nasceu nos anos cinquenta e sessenta viveu, fez, ou sofreu a revolução dos costumes. Depois dessa revolução o mundo nunca mais foi o mesmo. Graças a ela a vida ficou menos hipócrita, mais transparente, mais livre da opinião alheia. Mas num quesito esse movimento tomou um rumo que não imaginávamos: os rituais. Pensávamos que eles iriam declinar, que o importante era viver e não representar.

Nos anos setenta e oitenta eles andaram em baixa. Eu recusei a crisma, minha formatura foi em gabinete e, para os padrões de hoje, meu casamento foi espartano. Mas voltaram redobrados, hoje temos formatura togada de primeiro e segundo grau… quiçá de jardim de infância. Qualquer aniversário de criança é principesco, os casamentos são todos apoteóticos. A simplicidade foi esquecida.

Para usar uma gíria antiga, o mundo voltou a ser “careta”? Não creio, aliás, foi só nesse quesito que parece que engatamos a ré. Questões sobre igualdade de gênero, ou melhor, a dissolução das certezas sobre os gêneros seguem avançando. Para meu gosto o mundo não é lá grande coisa, mas está mais arejado. O que aconteceu então?

A minha geração não levou em conta os avisos de Guy Debord quando escreveu A Sociedade do Espetáculo. Ele abordava a espetacularização da política, e a mídia tratando tudo como um show. Ora, o desdobramento disso para a vida privada é uma decorrência lógica desse processo. Para o autor, a vida esvaziou-se de sentido e inflacionou-se de imagens.

Creio que os rituais não esmoreceram, e até ganharam mais prestígio, por fornecer essas imagens que atestam que a vida acontece. Inclusive a palavra ritual nem deveria ser usada, pois já não marcam uma passagem, não fazem uma descontinuidade na vida, um antes e um depois diferentes. Talvez sejam feitos em uma dose mais forte até para fazer valer algo que não consiste.

Minha geração se sente traída ao ver essas cerimônias desmedidas e por isso fica tão mal humorada quando nos exigem a gravata. Eu já estou mais conformado, talvez esses eventos não estejam esvaziados de sentido e sim sejam uma nova forma de experiência, nem melhor nem pior, outra. O mundo segue, não vou deixar de viver as emoções de meus amigos e familiares. Tento deixar de ser casmurro, já comprei as gravatas, mas ainda não sei dar nó.

31/10/13 |
(3)

A invasão zumbi

Zumbi, você ainda vai ser um… na melhor das hipóteses.

Uma dinastia pode estar chegando ao fim. Depois de reinar absoluta durante todo o século XX a primazia dos vampiros no uso da ficção de terror encontrou um adversário à altura: os zumbis chegaram. O começo foi tímido, na década de 30, quando nasceram no Haiti, e seguiram obscuros até os filmes de Romero nos anos 60, mas depois disso ganharam um impulso irresistível e crescem sem parar. Hoje o zumbi é o personagem mais usado para filmes, séries de terror e para imaginar cenários pós apocalípticos. Mas ele é muito mais do que isso, sua marca ganhou nossa imaginação: o zumbi está em games, quadrinhos, existem as “marchas zumbis” em inúmeras cidades, recentemente ganhou uma excelente revista digital: ZumbiGo! Acreditem, até comédia romântica com eles já temos (Meu namorado é um zumbi), ou seja, nenhum cenário de Halloween estará completo sem sua presença. De qualquer forma, a comparação com o vampiro não é sem interesse, afinal, sai um morto-vivo para entrar outro.

Os fanáticos por zumbis vão odiar que eu misture os passivos escravos que eles foram quando nasceram no Haiti, apenas mortos que voltavam à vida pela magia de um feiticeiro para serem usados como força de trabalho barata, aos misteriosos e organizados Caminhantes Brancos de Guerra dos Tronos. Mas estou mais interessado neste momento em suas semelhanças do que nas nuanças que os categorizam. Pois uma questão é comum, e é dessa que quero falar: eles estão mortos mas vivem, e isso partilham em comum com os vampiros.

A questão que devemos nos fazer é o que esses mortos-vivos dizem de nós? Se estão tão em voga, talvez sejam eco de recônditas questões que não nos atrevemos a pensar, e por isso elas abrem espaço na nossa consciência via fantasia.

A morte perdeu espaço na modernidade, sua antiga forma pública foi encerrada dentro de hospitais. Da mesma forma, falamos menos da finitude, e tememos o envelhecimento como crianças temem o bicho papão. Espichamos o tempo de vida, mas encolhemos a reflexão sobre a existência. Portamo-nos de forma ambígua: nos cuidamos para durar mais, mas não encaramos o fim como natural. Desprendida das antigas convenções tradicionais e sem acreditar numa transcendência, a modernidade nos confinou na hipertrofia do presente, por isso a reflexão sobre a morte não prospera. Porém somos, ainda que contra vontade, seres para a morte, a condição humana passa por isso. Se não houver reflexão sobre o tema, ele voltará para nós como sonho e pesadelo. Esses zumbis somos nós, em uma forma lúdica e rebaixada de filosofar sobre nosso destino.

O zumbi fala não só da morte como de sua fronteira: a temida velhice. Os zumbis também representam os velhos, sua incomoda lentidão, seus passos pesados, seus movimentos em câmera lenta. Se a morte nos aguarda, na melhor das hipóteses esse pesadelo vem junto com outro: ficar velho, com o corpo corrompido pelos anos. A contaminação é inevitável, todos seremos zumbis.

Qualquer plataforma mítica comporta múltiplos significados, justamente seu sucesso demostra essas camadas de possibilidades. O corpo decaído é a marca zumbi por excelência. Ora, nosso tempo nos pede um cuidado exaustivo com o corpo. Ele deve ser modelado, malhado, adequado a padrões exigentes. A forma zumbi expressa nosso cansaço com essa demanda de mimar um corpo que inevitavelmente vai decair. É como se disséssemos: vamos ser feios de uma vez, chega de privações e de trabalho forçado, essa casca de pele não vale o esforço exigido! Nesse sentido o corpo zumbi é a recusa do corpo disciplinado e diz que seguimos vivos se não o temos. O zumbi é  o protesto contra nossa vaidade excessiva e o culto a saúde.

Um fato difere categoricamente os vampiro dos zumbis: os primeiros são aristocratas e os segundos são plebeus. Certamente outro fato que o zumbi expressa é a massa. O vampiro está no topo da cadeia alimentar, literalmente se alimenta de todos e ninguém se alimenta dele. O fenômeno zumbi é a revolução francesa no território da ficção, a plebe angariando fatias de prestígio. Nossa ideologia prega a individualidade, devemos ser únicos, afinal, ser confundidos com a massa, ser ninguém, é o grande horror. O fenômeno zumbi sugere um cansaço também com essa ideologia individualista, nos aponta a luta inglória e sem sentido para despontar na multidão, como também a força dos excluídos. O mundo dos vampiros é para eleitos, o mundo zumbi é a verdadeira democracia, aceita a todos, todos seremos zumbis.

Porém a forma pejorativa de ser massa também se expressa no zumbi. Ele começou como escravo e ainda tem muito dele. Um ser sem vontade e sem cérebro, talvez por isso goste tanto de comê-lo, quem sabe ingerindo comece a ter algo dele. A civilização mecânica e burocrática, onde o pensar não tem vez e consumir é a meta, nos faz zumbis. Embora pareça na contramão de qualquer organização social, a toxicomania na sua forma mais acentuada nos deixa zumbis. Drogados são seres para os quais o mundo se esvaziou de sentido, afinal, só se interessam pelo seu objeto, sua substância mortífera. Ou alguém tem dúvida que as cracolândias não são habitadas por zumbis? O zumbi expressa tanto a obsessão nociva da droga como a anorexia do desejo, essa apatia tão comum, mas que corriqueiramente se confunde com depressão.

Zumbi rima com apocalipse, geralmente ele aparece em cenários distópicos. O mundo zumbi é inóspito. Mais por sorte do que por mérito, apenas uma família e amigos se salvam, o resto é inimigo. O olhar político nesses casos beira o simplório: nosso mundo não tem conserto nem esperança, só resta seguir vivendo numa pequena comunidade que se cuida e evitando todos os outros, já que o mundo é, de fato, muito perigoso.

Enfim, o zumbi chegou e terá uma longa vida pois possibilita expressar inúmeras ideias soltas e pensamentos que buscam uma forma. Nada nos mostra que caminhamos na direção de uma convivência mais pacífica e harmoniosa com a morte e com nosso corpo. O pensamento burocrático impera, a crença em objetos mágicos (químicos) que nos adormecerão a vontade também. O mundo nos aparece como mais perigoso e violento. O horizonte político não entusiasma. As condições são propícias para aparições zumbirescas e outras assombrações. E pior, se um zumbi não morder você, um dia teu próprio espelho o fará.

Festival de Besteiras

O Festival de Besteiras continua assolando o país

Nos anos sessenta Stanislaw Ponte Preta lançou três coletâneas de fatos que eram piadas prontas. Registrava o surto de burrice protagonizado pela ditadura no poder. Os livros chamavam-se FEBEAPÁ, sigla de: Festival de Besteiras que Assola o País. Lembro disso porque, novamente, uma parte do Brasil sente que vivemos uma época de piadas de mau gosto.

Muita gente se juntou às passeatas, mas o motor delas, o gatilho do movimento, são jovens urbanos, bem informados, conectados às redes sociais. São pessoas mais sensíveis a pautas sobre comportamento, ecologia e estilo de vida. Para eles certos fatos beiram o irreal e lhes dão a ideia de que o país está emburrecendo. As mais óbvias, que dispensam comentários, são a cura gay e a bolsa estupro, mas existem outras. A política de combate às drogas é falha, e recentemente foram aprovadas medidas que aprofundam os equívocos anteriores, nos atrelando ao modelo americano que não dá certo nem lá.

É esse mesmo pessoal que pede mais bicicletas e menos automóveis nas ruas, vê com tristeza árvores sendo derrubadas para alargar engarrafamentos. Se irrita com o crédito fácil para carros novos enquanto se usam os mesmos ônibus sucateados. Não percebe nada de novo para os velhos problemas de mobilidade urbana. Jaime Lerner disse que o carro é o cigarro do futuro e para essas pessoas esse futuro já chegou. Não enxergam o carro como charme, mas como incômodo.

Esse mesmo pessoal quer sair da caricatura do Brasil como país do samba e do futebol, por isso não sente a copa como sua. Ainda não sabem o que os representaria como o novo caráter nacional, por enquanto apenas recusam a velha marca. Pelo humor dos cartazes eles não rejeitam a alegria do carnaval nem o coletivo do futebol. Apenas querem ser outra coisa.

É claro que a crise se dá por uma questão de credibilidade, ninguém se sente representado por nada. Ela é mais que contra o governo, é contra o estado brasileiro, que se mostra surdo e corruptor. Mas esses movimentos também representam o choque do novo contra o velho. O país urbano, jovem, laico, sonhador, querendo inovar, contra o Brasil periférico, religioso, conservador e resignado. De um lado uma tentativa de crescer em harmonia com a natureza, do outro o progresso a qualquer preço que sempre foi praticado. Qual o seu lado?

26/06/13 |
(4)

Sem Facebook

Porque é impossível ser feliz sozinho, conectar-se é um hábito que nunca saiu de moda.

Das minhas relações mais próximas, só três comungam comigo não ter facebook. Não pensem que tenho críticas, sou um entusiasta, apenas não quero usar. Pouco dou conta dos meus amigos, onde vou arranjar tempo para mais? Minha etiqueta me faz responder a tudo, teria que largar o trabalho se entrasse na rede social. Só recentemente minhas filhas me convenceram que se não respondesse um spam ninguém ficaria ofendido.

A cidade ganhou a parada. Acabou o pequeno mundo onde todos se conheciam, onde não se podia esconder segredos e pecados. Viver na urbe é cruzar com desconhecidos, sentir a frieza do anonimato. Essa é a realidade da maioria.

Meu apreço com as redes sociais é por acreditar que elas são um antídoto para o isolamento urbano. São uma novidade que imita o passado, uma nova versão, por vezes mais rica, por vezes mais pobre, da antiga comunidade. Detalhe, não quero retroceder, a simpatia é pelo resgate da nossa essência social. Vivemos para o olhar dos outros, essa é a realidade simples, evidente. Quem pensa o contrário vai na conversa da literatura de auto-ajuda, que idolatra a auto-suficiência e acredita que é possível ser feliz sozinho. É uma ilusão tola, nascemos para vitrine.

Quando checamos insistentemente para saber como reagiram as nossas postagens somos desvelados no pedido amoroso. O viciado em rede social é obcecado pela sociabilidade. Está em busca de um olhar, de uma aprovação, precisa disso para existir. Ou vamos acreditar que a carência, o desespero amoroso, e a busca pelo reconhecimento são novidades da internet?

Sei que o facebook é o retrato da felicidade fingida, todos vestidos de ego de domingo, mas essa é a demanda do nosso tempo. Critique nossos costumes não o espelho. Sei também que as redes são usadas basicamente para frivolidades, é certo, mas isso somos nós. Se a vida miúda de uma cidadezinha fosse transcrita, não seria diferente. Fofoca, sabedoria de almanaque, dicas de produtos culturais, troca de impressões e às vezes até um bom conselho, além de ser um amplificador veloz para mobilizações.

Também apontam que amigos virtuais não substituem os presenciais. Todos se dão conta, justamente usam a rede na esperança de escapar dela. O objetivo final é ser visto e conhecido também fora. Usamos esse grande palco para ensaiar e se aproximar dos outros, fazer o que sempre fizemos. O facebook é a nostalgia da aldeia e sua superação.

19/06/13 |
(1)

O Papa Francisco e os Lamed Vavniks

No apoio ao novo papa, expressão da esperança mínima, presente em uma velha lenda do Talmud

Uma questão que se coloca quando lemos o Velho Testamento: por que Deus não destrói  esse nosso mundo imperfeito? Afinal, pouco O veneramos e insistimos em tantos e repetidos pecados. Por muito menos do que somos ou fazemos Ele varreu do mapa Sodoma e Gomorra. O que O deteria agora de fazer agora o mesmo conosco?

A tradição judaica tem uma boa resposta: nossa sorte estaria depositada em trinta e seis pessoas justas, os Lamed Vavniks. Essas pessoas seriam nossa salvação. Nas palavras sintéticas de Borges: “os pilares secretos do nosso universo”. Nosso mundo não é destruído porque pelo menos alguns homens retos habitam esse planeta infeliz. Seu nome vem do iídiche, mas proveniente do hebraico: “um dos trinta e seis”. Os Lamed Vavniks não sabem que o são, não sabem quem são os outros, tampouco desconfiam de sua missão. O que se sabe é que são todos muito pobres e se descobrem seu propósito morrem, sendo que imediatamente, outro é posto em seu lugar.

Várias questões se colocam: seriam todos homens? Ou existiriam mulheres Lamed Vavniks? Por que trinta e seis? Seriam todos judeus, ou Deus tem uma visão mais ampla dos seus garantes do universo? E a pergunta principal: quem criou os Lamed Vavniks? Afinal, se eles são a garantia de que Deus não nos esmague num momento de fúria, não faria muito sentido que Ele tivesse criado algo para Lhe fazer barreira posteriormente. Ou então, Deus é consciente de seus rompantes, e criou esses seres perfeitos para Lhe lembrar da esperança de que um dia viéssemos a nos corrigir. Essas questões permanecem sem resposta, mas a evocação dessa lenda me ajudou a pensar a simpatia atual pelo novo Papa Francisco.

É extraordinária a reação positiva de sua escolha entre os laicos, entre os quais me incluo. Que os católicos o recebessem bem faz sentido, depois de anos de papa sem carisma chegou um  com dose dupla. Ele transmite uma nobreza e integridade por todos os ângulos. Se vai conseguir dar novos rumos para a igreja é assunto interno aos católicos, e dos que vão à missa.

Minha questão é: por que até os não católicos simpatizaram com a escolha? É difícil explicar, mas apostaria que um dos motivos é supor que ele funcionaria como um Lamed Vavnik, versão católica. E convenhamos, o ocidente anda precisando de um. Vivemos numa era sem estadistas. Sua figura seria uma esperança mínima de uma humanidade melhor, como se existindo pelo menos um moralmente superior, nós também poderíamos ser melhores.

O homem cria utopias para suportar sua precária existência, tanto concreta como moral, parte da ideia de que em algum lugar algo melhor existe, existiu ou existirá. O horizonte do homem não poderia ser só esse. As utopias sonham nossas melhores possibilidades, figuras públicas extraordinárias também.

29/03/13 |
(1)

O Facebook e o cérebro

Talvez o Facebook e sua sociabilidade hiperativa não sejam mais do que tentativas de resgate de formas tradicionais de relacionamento!

Esses tempos escutava as aventuras de um jovem médico voluntário no Xingu. A barreira da língua era um empecilho, a lógica das queixas, e as formas inusuais de expressar o sofrimento físico também. Mas o que realmente o desafiava era como manter uma ficha médica, como aproveitar as informações dos colegas que já haviam passado por lá. Por exemplo: a ficha indicava um senhor de aproximadamente 60 anos, mas lhe traziam uma criança. Como? Simples, lhe disse o intérprete, o avô tinha um nome muito respeitado, e como gosta muito do neto, deu o seu nome a ele. Logo, agora o fulano é essa criança. O avô tomou outro nome. Como que o intérprete sabe? Ora, todos sabem, responde o intérprete. Essa troca não era um caso isolado, portanto quem quiser fazer uma ficha médica dessa população vai ter que pensar numa outra lógica, e esqueça as referências espaciais, eles são nômades.

Para nós, a troca de nome beira o inconcebível pois acreditamos que devemos, de alguma forma, nos manter iguais a nós mesmos vida afora e nosso nome faz parte disso. Aliás, mudamos tanto durante a vida que é difícil saber qual é o núcleo que responde pela nossa identidade. Em outras palavras: o que é que muda e o que permanece inalterado em nós é uma pergunta sem resposta fácil.

O exemplo acima não é único, na maior parte das sociedades tradicionais os nomes variam ao longo da vida. Geralmente nos ritos de passagem o indivíduo ganha um novo nome, mas nem só: nascimentos e mortes também costumam também suscitar novas denominações nos parentes. Ou seja, um indivíduo pode se chamar de diferentes formas durante a vida. Quem vive entre eles sabe a lógica que preside a troca e acompanha as mudanças. Essas alterações constantes, aliadas às complicadas (em comparação às nossas) relações que regem os casamentos, de quem pode casar com quem e de quem não pode nem se aproximar, ou ainda quem pertence a cada clã ou sub-clã e a que linhagem o recém-nascido pertencerá, constituem um complexo enredo social que exige bastante do cérebro.

Mas lembro essa questão a propósito duma recente pesquisa: os cientistas da University College de Londres divulgaram os resultados de uma investigação mostrando uma correlação entre certas áreas do cérebro e o número de amigos que as pessoas possuem nas redes de relacionamento virtuais. As pessoas com maior número de amigos possuem certas áreas cerebrais mais desenvolvidas. Certo, mas o que determina o que? Eles tem mais amigos por ter essa área mais desenvolvida, ou possuem essa área mais desenvolvida pelo exercício da amizade? Os pesquisadores pararam por aqui. Certamente uma nova pesquisa partirá dessa pergunta. Dada a plasticidade adaptativa do cérebro, apostaria no uso, mas isso é um palpite, teremos que esperar um outro estudo.

O que sim poderia ser considerado é um outro dado dessa questão. Do ponto de vista histórico o número de pessoas que conhecemos durante a vida mudou muito. Vivemos numa sociedade individualista, em contato com muita gente, mas com poucos deles temos laços significativos. Sabemos e temos informações sobre nossa família, que é cada vez menor, e de alguns amigos eleitos. Freqüentamos muitas pessoas, mas de poucas retemos informações como o nome, filiação e um trecho de sua vida. Já não gastamos muita energia arquivando nomes de pessoas aleatórias, suas qualidades, seus defeitos, sua história. Num passado não tão distante isso era ao avesso. As sociedades tradicionais tinham a vida social em grande conta e as informações sobre os indivíduos que delas faziam parte eram cruciais.

Acredita-se que, do ponto de vista evolutivo, a forma de funcionar em relação aos parentes, às amizades, às pessoas que conhecíamos e à importância que damos a elas, certamente sofreu mais influência desse momento histórico anterior ao nosso, pois somos – a sociedade moderna individualista – uma exceção recente no longo percurso do homem.

Nosso cérebro foi moldado, e assim funcionou durante a maior parte do tempo, em sociedades tradicionais, ou seja, conectado a uma extensa rede social, onde sabíamos tudo de todos. Mais ainda, se considerarmos que essas sociedades têm um funcionamento distinto em relação aos mortos, pois eles não são esquecidos, são honrados e lembrados em rituais, somam-se essas referências além do carrossel de nomes dos vivos. No passado, as gerações mortas também contavam no acervo da memória, das relações que precisavam manter-se articuladas, constantemente evocadas. Logo, nosso cérebro evoluiu guardando um grande número de nomes, agregados ao lugar social e à origem de cada indivíduo, pois as sociedades anteriores à nossa davam à trama da vida social suma importância.

Talvez possamos lembrar aos pesquisadores, que “escanearam” o cérebro para essa investigação, que do ponto de vista evolutivo nossa mente pode ser anômala em relação ao que fez a aventura humana. Nesse sentido, nossas capacidades sociais pareceriam atrofiadas se comparadas às sociedades anteriores. Somos introspectivos e solitários, dependemos menos do olhar coletivo, no sentido presencial, do convívio de fato, enfim, do que era a aprovação da aldeia. Esperamos nosso reconhecimento de determinados indivíduos particularmente valorizados, com quem desejamos nos identificar, raramente de todo um grupo.

As redes sociais geralmente despertam um temor difuso em pais e educadores, eles ficam sem saber se aprovam ou não ver seus jovens consumir tanto tempo conectados a ela. Queria contribuir a essa questão colocando um ingrediente: talvez o motivo pelo qual os jovens possuam uma extensa rede social nas comunidades virtuais, seja menos uma novidade, e mais um retorno a uma forma antiga de funcionamento, para a qual nosso cérebro sempre foi apto. Claro, não da mesma forma, mas usando uma capacidade de se situar e sentir-se à vontade numa ampla rede de pessoas com diferentes pesos de significação. Isso se considerarmos do ponto de vista evolutivo. Já do ponto de vista histórico, poderíamos ver algo semelhante: as redes sociais simulam a aldeia, uma comunidade onde todos se conhecem e partilham informações.

O fato de vivermos numa sociedade individualista não quer dizer que não tenhamos saudades das antigas formas de convívio. Quem sabe as redes sociais nos apontem o esgotamento, a pobreza, ou uma insuficiência das formas contemporâneas de estarmos (ou não estarmos) uns com os outros. Seria uma crítica espontânea e ingênua ao individualismo. Enquanto julgamos mal os jovens pelas suposta superficialidade da conexão com seus amigos virtuais, deixamos de ver a profundidade da intenção de criar algo novo, algo vivo, em termos de laço social.

Talvez a minha geração deva deixar a arrogância de lado e perceber que pode aprender com o que os jovens apontam, e que até mesmo possa haver uma sabedoria que nos escapa na troca de nomes dos índios do Xingu. A rapidez dos diálogos e fragilidade da imagem mutante daqueles que se expõem uns aos outros, deixando-se influenciar pelos pares e figuras de referência, reflete indivíduos em processo de transformação, permeáveis aos desafios sociais. Poderíamos supor que nossos jovens hiperconectados estejam buscando caminhos para o resgate dessa herança social, uma retomada da vida em comunidade. Com sorte e muita prática, talvez possamos ver triunfar o exercício da solidariedade e da interlocução que o convívio propicia.

17/10/12 |
(3)

Um time muito doido ou dopping ao avesso

Sobre um campeonato de futbol em um hospital psiquiátrico

Eu uso óculos. Não tenho graves deficiências, a dificuldade vem da combinação de 2,5 graus de miopia com 1,5 de astigmatismo.

Nenhum rancor, já estou acostumado, mas quando criança não dava para jogar futebol.

Até dois metros, visão perfeita; três metros, as coisas começam a se confundir; cinco metros, é um nevoeiro pior do que partida no Alfredo Jaconi durante o inverno. Continue lendo…

30/11/09 |
(0)

Maradona e a Argentina

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos [...]

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos pouco, mas nos gostamos muito e por isso fizemos um pacto. Ele torceria pelo Inter sempre, menos contra o Boca, e eu seria Boca, menos, é claro, contra o Inter. Depois acertamos o mesmo entre as seleções. Foi difícil, sabia que me custaria muito, mas fiz pela nossa amizade, torci minha alma para torcer por eles.

Continue lendo…

19/09/09 |
(0)