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A falta que faz um louco

Sobre a importância do jogador insano para um time de futebol

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

A seleção de Dunga está cheia de bons jogadores, alguns craques como Kaká e Robinho, mas falta o louco.

O louco é a carta essencial do Tarô para o time brilhar. Não é um jogador comum, mas o imprevisível, que pode sair driblando cinco e fintar uma muralha com cisco de calcanhar.

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18/04/10 |
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Ainda o Dr. House

Análise desse personagem da série de TV homônima

Duas semanas atrás, a jornalista Cris Gutkoski escreveu sobre o seriado House neste caderno. Não é réplica nem espero tréplica, é apenas continuação. Gostei do artigo, gosto da série, então emendo umas linhas que espero estejam à altura dele. Não tenho o mesmo entusiasmo de fã com a série que a Cris, mas, como ela, penso que o seriado dá mesmo o que falar.

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12/12/09 |
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Homossexualidade debaixo do tapete do gramado

Sobre homofobia no futebol

Fabrício Carpinejar e Mário Corso

Não há sequer um jogador de futebol que se assumiu gay no Brasil.

Não houve um único homem de fibra que disse em qualquer microfone de qualquer rádio em qualquer partida: Queria mandar um abraço ao meu marido

Já entendi a resposta, não temos que misturar a vida pública com a pessoal. O trauma é que não existe vida pessoal até o momento, nem para ser misturada. Não há um único gay declarado. Temos cinco Copas do Mundo, somos eleitos o melhor toque de bola da terra, e não localizamos um gay jogando na Primeira, na Segunda e na Terceira Divisão, tampouco nos campeonatos regionais. Não é estranho?

Não é o caso de sair do armário, é para sair do arquivo secreto. Em toda profissão, encontraremos profissionais gays bem sucedidos, resolvidos, abertos. Menos no futebol.

É um mistério – para não dizer um escândalo – a homofobia.

Procuramos bares e festas gays, músicas e filmes gays, amigos e confidentes gays, não conseguimos pensar nossa vida sem a transparência sexual e emocional, porém não sentimos que há alguma coisa errada nos gramados. Como? A ausência não é natural. É forçada, ensaiada, recalcada. Desse jeito, os estádios brasileiros são campos de concentração. É uma omissão digna de Fidel Castro, que perseguiu milhares de militantes.
  
Jogador não se assume gay, é acusado. Gay ainda é visto como uma acusação no futebol. Uma ofensa ao rival. Nenhum atleta se expressou publicamente com medo do boicote, com medo de ficar no banco, com medo de ser descartado do elenco, com medo de represália na família.

Ser gay no futebol permanece como fofoca, maledicência, safadeza. Onde estamos? Quando não é inferiorizado por ataques, vira folclore. Anedotário. 

Persevera um tabu católico de que o gay é um desvio da natureza, um problema psicológico, uma doença física. Convenhamos, vamos falar sério. Como gente grande. Técnicos não abrem a boca, dirigentes fingem que não é censura, comentaristas aceitam a armação purista.

Será que temem um jogador gay tomando banho no vestiário, convivendo com colegas seminus? Será que imaginam que ele atacará? Que ficará olhando, flertando? Que vai derrubar o sabonete de propósito?

Mas, então, os clubes de piscina devem ser fechados. Não inauguramos o respeito, não aprendemos sobre intimidade. É uma desonra confundir gay com tarado. É uma distorção confundi-lo com promíscuo.

Craque pode se encontrar em motel com travestis, só não pode ser homossexual.

Sabe o que é isso? Covardia da própria masculinidade.

Avançamos no combate ao racismo na torcida, mas liberamos os gritos de bicha e de veado. Inclusive incentivamos as crianças a cantar. Isso não é liberdade de expressão, é crime. Coerção coletiva, disposta a humilhar, é crime.

Não adianta modernizar as arenas para a Copa de 2014 se não modernizarmos a moral.

A bobagem que se conta é que os gays não jogam futebol. É preciso ter um desconhecimento total do assunto para apoiar tal ingenuidade perversa. Gay joga futebol, nem melhor nem pior, joga como qualquer um.

No imaginário gay é necessariamente mulherzinha. Quer dizer, não tem virilidade, não tem desenvoltura para esportes de macho. Ocorre que gay é plural, tem tudo que é tipo de gay. Uma das possibilidades entre os gays é partilhar identificação com uma mulher forte na sua história (geralmente a mãe) e então se parecer com ela. Identificação não é tudo, aliás, às vezes não é nada. Muitos homens, pais de família, apaixonados por mulheres, com forte elo feminino, não desejam beijar um homem, nunca passou o apelo pelo corpo.

O problema é que ser gay não está na identificação, e sim na escolha do objeto erótico. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, não se aproximam nem se contaminam.

Um gay pode ter uma forte identificação com seu pai, voz grossa, partir para porrada por qualquer coisa, ser da tropa de choque, mas desejar homens para transar.

E sobejam os casos mistos, ter uma identificação feminina e ao mesmo tempo uma escolha de objeto homo-erótico.

Nelson Rodrigues afirmava que dentro de homem existe sua infância enterrada feito sapo de macumba. O que faltou dizer é que também está enterrado em cada um de nós o nosso oposto, o sócio minoritário das nossas escolhas, é ele que treme quando o assunto é gay. Quanto pior enterrado, quanto maior esse sapo, mais vai reprimir nos outros para reprimir em si mesmo.

Será que não há também torcedor gay no país? Que vida esse torcedor está defendendo no estádio

Publicado no blog “futebol é literatura” em 10.12.2009

10/12/09 |
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Um time muito doido ou dopping ao avesso

Sobre um campeonato de futbol em um hospital psiquiátrico

Eu uso óculos. Não tenho graves deficiências, a dificuldade vem da combinação de 2,5 graus de miopia com 1,5 de astigmatismo.

Nenhum rancor, já estou acostumado, mas quando criança não dava para jogar futebol.

Até dois metros, visão perfeita; três metros, as coisas começam a se confundir; cinco metros, é um nevoeiro pior do que partida no Alfredo Jaconi durante o inverno. Continue lendo…

30/11/09 |
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Caixinha de surpresas ou urna de cinzas?

Resenha de dicionário de lugares comuns

O jornalista Humberto Werneck juntou durante anos os lugares comuns da nossa língua. Resultou no “O Pai dos Burros – Dicionário de lugares-comuns e frases feitas” (Editora Arquipélago, 2009), um livro imprescindível para quem escreve, está ali tudo que deve ser evitado.

Adivinhem o verbete com maior número de entradas?

Futebol, é claro. Veja abaixo:

A magia do futebol
Achei que já tinha visto tudo em futebol
Futebol é assim mesmo

Futebol é bola na rede
Futebol não tem lógica
Jogar o seu melhor futebol
Jogar um futebol burocrático
O futebol campeão do mundo

O futebol é uma paixão nacional
O futebol é o ópio do povo

O futebol é uma caixinha de surpresas
O futebol tem dessas coisas
O melhor futebol do mundo

Começamos esse blog para falar do esporte de outra maneira, com outras palavras. O “rude esporte bretão” parece ter seu dialeto próprio, suas expressões cansadas e suas máximas ainda mais desgastadas. O dever do escritor é renovar e arejar a linguagem. Conseguir vencer a preguiça conclusiva e inventar novas expressões. O leitor que nos diga se conseguimos trocar o para-choque do caminhão.

Falta ainda alguém escrever um manual da lógica própria ao futebol. Por exemplo: “o gol veio na hora certa”. Vocês já viram um gol vindo na hora errada? Um técnico pedir a anulação do gol que teria chegado em um momento errado? O capitão xingar o jogador que colocou para dentro quando não podia?

Tem muito mais: “se entrasse era gol” anuncia o locutor eufórico. Alguém soube dum gol sem entrar?

Uma das origens do besteirol no futebol é fácil de apontar: a televisão. O locutor de rádio é um artista, ele tenta recriar uma cena e uma emoção que o ouvinte não está vendo. Quando assistimos o jogo na TV é quase como estar no estádio. O futebol não precisa de legendas, tal qual um filme mudo todos o entendem. Ele é explícito, a narração na TV é inútil, é uma fala que já nasce vazia. Apenas ninguém tem a coragem de deixar esse espaço vazio. Ok, quem sabe, como nos filmes mudos, um pianista que faça de improviso um fundo musical que interprete a alma da partida. Ou então podiam apenas gritar gol ou amaldiçoar o juiz. Nada disso, e ainda chamam comentaristas para ajudar a preencher o que está transbordando, só pode resultar numa enchente de obviedades.

“O Pai dos Burros” é o cemitério do dicionário. Um cemitério lotado, já é o momento do clichê aderir à cremação.

Publicado no blog “Futebol é literatura” em 26.11.2009

26/11/09 |
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Depressão: a face contemporânea do mal-estar na civilização

Resenha do livro de Maria Rita Kehl

Com esse título, na próxima segunda-feira, a psicanalista Maria Rita Kehl estará na cidade para falar no Fronteiras do Pensamento. Maria Rita é autora de muitos títulos, que se ocupam de conjugar a psicanálise com nosso tempo, desde a feminilidade, o laço fraterno, assim como arte, juventude e muito mais. Desta vez ela irá ao cerne de um de nossos grandes temas, centro de temores, preocupações: a depressão. Seu novo livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões é uma oportunidade de aprofundar-se no tema. A autora depreende do tema importantes considerações sobre a modalidade do mal-estar contemporâneo. Desta forma, ela compreende, mas também transcende o problema das depressões como um quadro psicopatológico.

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24/10/09 |
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Qual é a visão geral que os jovens têm da morte

Entrevista Unissinos em outubro 2009

UNISINOS- Como entender o fascínio que alguns jovens têm pela morte? Que aspecto da morte pode fascinar um ser no auge da vida? É possível falar em um “flerte” entre suicídio e adolescência?

Mário Corso – Eu não acredito que o fascínio pela morte seja maior na adolescência, apenas este encontro é mais perigoso. Uma psicanalista francesa, F. Dolto, usa uma imagem para falar da adolescência que me parece muito precisa, ela fala de “complexo de lagosta”. As lagostas, por possuírem um exoesqueleto, têm a necessidade de trocá-lo para poder seguir crescendo, e então durante um tempo em que abandonam a carapaça a até que a nova endureça estão desprotegidas de ataques de certos predadores, estão mais vulneráveis. A imagem é perfeita para descrever a adolescência, são eles que estão mais frágeis e então são presas mais fáceis de tudo, logo, também da morte.

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19/10/09 |
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Pornografia dos abismos da alma

Sobre o filme Anticristo

A impressão de Anticristo de Lars von Trier é que os demônios foram conjurados à toa. Eles comparecem, assombram, mas dizem pouco. As cenas são magníficas, e algumas inesquecíveis, a questão é que o enredo não convence. O filme produz mal estar, mas realmente não nos faz pensar numa direção diferente, é um sofrimento gratuito, uma pornografia dos abismos da alma para render pouco.

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10/10/09 |
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Maradona e a Argentina

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos [...]

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos pouco, mas nos gostamos muito e por isso fizemos um pacto. Ele torceria pelo Inter sempre, menos contra o Boca, e eu seria Boca, menos, é claro, contra o Inter. Depois acertamos o mesmo entre as seleções. Foi difícil, sabia que me custaria muito, mas fiz pela nossa amizade, torci minha alma para torcer por eles.

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19/09/09 |
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Torcida na platéia: Nada vai nos separar

Postado por mário

Ontem, sexta-feira, dia 21 de agosto estreou o filme: Nada vai nos separar – Os cem anos do S. C. Internacional. Tive a sorte e o prazer de ver na pré-estréia (mais sorte ainda de sentar atrás do Valdomiro).
Fui bem recomendado para levar lenços para as lágrimas. Não levei e nem foi necessário, eu me seguro (mas se você é do tipo que chora em casamentos, filme de animais e propaganda de margarina leve, uma toalha de banho), porém meu coração parecia num eletrocardiograma de esforço. Colorados cardíacos devem evitar o filme.

Basicamente temos a história sucinta do time, na boca de historiadores e depois de torcedores e jogadores que marcaram época. Entremeado, é claro, nos gols e momentos decisivos. Simples, mas a genialidade foi em como juntar tudo isso. A quantidade de informação é extraordinária, é um primor de montagem. São inúmeros planos e o espectador não se perde, o filme vai deixando esperas para reatá-as logo em seguida. O acerto está no equilíbrio, na concepção de clube que a equipe que fez o filme tem, ou seja, mostrou a história da interação do clube e do time com a sua torcida. É a história de uma paixão centenária, o resto é decorrência.

Você já tentou escutar um desses discos que são um apanhado dos clássicos mais famosos, uma espécie de pizza 24 sabores de música só com o recorte dos allegros de cada peça. É um saco! A música sem os andantes e os adágios não funciona. O Fischer, o roteirista, sabe que nada seria mais enjoado e raso do que uma coleção ufanista de gols, por isso as conquistas e os gols estão no contexto do momento. Eles não nos pouparam dos momentos duros do time, da década perdida (anos 90), das grandes derrotas, mas só nos recordam para preparar o clima, para revivermos os últimos títulos praticamente com a emoção engasgada que estávamos naquele momento.

Mas a comparação do filme com uma sinfonia não é por acaso, as músicas escolhidas, o hino tocado em vários arranjos, de diversas formas, ajuda na construção do clima. Dois dias depois e a trilha sonora não me sai da cabeça.
Vá com a bandeira, a emoção é de fim de campeonato.

Postado nos blogs Rolo Compressor e Terra do Nunca em agosto de 2009

19/08/09 |
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