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O ódio na internet

num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros

Quando usamos a palavra nazista para quem chutou um cachorro em um dia de fúria, que palavra vamos usar para quem comete regularmente crimes hediondos contra a humanidade? Mas a grande questão não é o desgaste semântico e o julgamento sumário. A pergunta mais procedente é: a internet revela a agressividade que está latente em nós ou é ela mesma que propicia um comportamento um tom acima do que já usamos?

Acredito na segunda hipótese, porque somos a primeira geração que massivamente usa a internet. Ainda não temos uma cultura de convívio, uma etiqueta peculiar para esse espaço. Recém chegados e broncos, ainda escarramos no chão e não sabemos nos comportar. Somos os inventores e as cobaias dessa nova experiência de convívio.

Agregue a isso a ausência física do interlocutor, não há corpos presentes. Quando a distância do outro aumenta, seu olhar não é visível, todas as ovelhas viram lobos e a bravata toma conta. Acrescente ainda o imediatismo, a rapidez da rede que permite fazer sem pensar. Escrever uma carta dispendia tempo, até manda-la tínhamos refletido melhor. Agora usamos o calor do momento, que é péssimo conselheiro.

As redes sociais são um meio quase de mão única: muita exposição e pouco retorno. Somos narcisistas, mas acima disso somos carentes, queremos é ser notados, admirados. Para tanto, num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros. Tendemos ao exagero, ao insólito, ao bizarro para nos destacar da massa.

Talvez a causa mais importante seja a sensação de irrelevância política dominante. O cidadão médio considera-se impotente perante a realidade. Não se sente representado por ninguém, as grandes discussões são complexas e ele pouco entende. A rede é porosa para o desabafo do seu mal estar. Acredita que pode fazer política, ainda que minúscula, com suas investidas indignadas contra tudo e todos. O efeito é apenas catártico, uma caricatura de intervenção social. Não passa de ressentimento destilado, mas alivia.

Talvez nosso olhar viciado coloque o termômetro em lugares errados. Por duas razões: o que é bom não dá manchete, e compartilhamos uma ideia difusa de que vivemos um momento de declínio moral e espiritual. Alardeamos que o tempo da utopia acabou, viveríamos a época das distopias. Acalentamos, sem nenhuma base na realidade, a crença de que enquanto civilização estaríamos, como nunca anteriormente, rumando em direção à barbárie. Procuramos indícios do mito da decadência para referendar essa tese e, para isso, nada melhor do que as besteiras ditas sem pensar na internet.

De qualquer forma, se o ministério do bom senso existisse, advertiria: aprecie as redes sociais com moderação.

Farofa

Farofa, um amor duradouro que vem da infância

Tenho amigos apiedados de uma confraria que se esforçam em melhorar meu paladar. Querem me resgatar da simplicidade culinária. Sabem que meu cérebro pode fazer algumas ligações menos óbvias, dizer algo engraçado, coerente, ou mesmo original, mas meu estômago é unidimensional e primitivo. Cevado a prato feito da Borges e a bandejão do RU.

Por instinto gosto de comida de restaurante de estrada, de boteco. Gosto de galinha com farofa, de carreteiro, de feijoada, de dobradinha com vinho de garrafão, polenta com molho vermelho, costela gorda com salada de batata. Claro, com variações gourmet. Por exemplo, o melhor carreteiro é o feito com as sobras do churrasco, desde que tenha sobrado também linguiça, esse é o segredo.

Com meus amigos provei quitutes requintadíssimos com nomes improváveis. Adorei, repetiria outra vez, especialmente a companhia, mas nem ao menos lembro exatamente o que era e muito menos como eles o chamavam. Um dos últimos pratos dessa empreitada civilizatória fraterna levou dias de esmerada preparação e me deixou recordações fugazes. Era uma papa-fina francesa que eu comeria outra vez, lambendo os beiços, mas, e essa é a questão: com o mesmo entusiasmo com que enfiaria os dentes numa galinha de televisão de cachorro bem tostadinha. Eu sou daqueles que pode ser feliz comendo em pé um x-tudo de trailer sem esboçar qualquer medo da maionese.

Não levo jeito para chique, meu negócio é farofa. E, é claro, farofa pede acompanhamento. A feijoada, por exemplo, não é exatamente um prato. Na minha particular filosofia culinária ela é a melhor maneira de comer farofa. O feijão tem que ser maravilhoso para sublinhar meu astro principal: a farofa.

Considero a farofa a contribuição culinária do Brasil ao mundo. Ela deveria ser tombada como patrimônio da humanidade. Imagino os estrangeiros como aqueles coitados que não conhecem suas benesses. A única outra profissão que considerei foi de faroffalier, o sommelier das farofas. Mas ao mesmo tempo uma preocupação: imagine se o mundo descobrisse essa preciosidade, a que preço ela chegaria? Como seria um mercado negro da farinha de mandioca?

Estou preso a um um gosto infantil e interiorano, acorrentado afetivamente ao fogão à lenha das minha avós. Em tantas coisa rompi com o passado, mas na mesa sigo sendo uma criança. Resta assumir o cardápio infantil e jeca, invejando os amigos que ultrapassaram meu horizonte de sanduiche de mortadela com margarina. Devem enxergar mais longe, perceber sutilezas do mundo que me escapam.

Para você que é como eu: não adianta insistir, desista. Estômago que nasceu para farofa nunca chegará a apreciar um bom frufru de pripripri. Nem ao menos distinguir um bom quiqui de bonjour de um bonsoir de creuset.

27/07/15 |
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Dio come ti amo

O jeito enviesadamente lúcido com que as crianças lêem o mundo.

A promoção era irresistível: em troca de dois rótulos de Omo, uma entrada para ver o filme Dio come ti amo. Para quem não é da época, enchia cinemas como um Titanic. Tempos do blockbuster à parmegiana.

Elvira, a moça que trabalhava lá em casa, não pestanejou, recortou as embalagens e não pensava em outra coisa. O problema é que a barbada só valia nas matinés de dia de semana. Como fazer se uma das suas tarefas era cuidar de mim? Simples, levar-me junto.

E lá nos fomos, Elvira, eu e uma centena de outras jovens mulheres com seus passaportes de caixa de sabão em pó. Marca séria, além de lavar ainda mais branco, levava suas clientes fiéis ao cinema.

Esperto, saquei que se tratava de um filme religioso. Já tinha visto outros na escola. Seria mais uma mensagem sobre a benevolência do nosso criador e como Ele, apesar de não sermos merecedores, nos atura e nos ama. Enfim, fiquei contente com a quebra de rotina e, de inhapa, alimento espiritual.

O filme era italiano, percebi pelo título. Na minha família se falava um pouco de italiano. O que me ajudou na tradução de Dio foi o Porco Dio, uma das palavras de entusiasmo que escutava dos meus adultos, uma espécie de interjeição, servia para sublinhar momentos. Nunca entendi bem o sentido, duas coisas opostas, mas o padre nos dizia que religião é fé e fé é mistério. Portanto, existem coisas da religião que não entendemos. No meu caso particular, o mistério da fé se apresentava no Porco Dio. De qual natureza de Deus estavam a falar? Lembro também um expressivo e enigmático campo semântico que envolvia hóstia e cachorros, mas isso é outra história…

Na matiné eu era o mais jovem da fila, talvez o único representante masculino e, ao meu ver, também o único que se comportava bem diante de um momento solene. Havia uma excitação no ar, estavam todas algariadas. Esperava mais seriedade, na missa ninguém se comporta assim.

O porteiro fez uma cara feia para mim. Não sei se era porque eu não tinha os cupons mágicos mas, pressionado pela multidão, e pela conversa da Elvira sobre a premência e importância dela ver o filme, entramos. Depois Elvira me contou que ela e o porteiro eram conhecidos e outras coisas.

Começou o filme. Porco Dio, que religião estranha! Seria a mesma que a minha? Haviam muitos olhares e muitos beijos, muitos e demorados beijos. Mas, na essência, era uma religião do amor, não havia dúvida. Havia uma moça que amava muito a Deus e a um rapaz e cantava isso para todos. Para não estragar a surpresa de quem não viu, não conto com quem ela ficou. Enfim, um enredo positivo, comovente, muitas choravam. Por isso não entendi porque minha mãe, quando soube que fui ver essa mensagem de fé e esperança no amor de Deus e dos homens, ficou tão braba com a Elvira. Coisas de mãe são como a fé, cheias de mistérios.

18/07/15 |
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Livros impróprios ou pais censores?

A literatura nunca é perigosa, muito pior é o silêncio censor.

Pergunte a um professor de literatura do ensino médio qual é o seu maior dilema em aula e a resposta provavelmente será: quais livros devo sugerir para serem lidos e debatidos. Mas atenção, a questão não é que o professor não tenha suas escolhas e preferências, seus livros de estimação, o ponto é como não ferir suscetibilidades, principalmente dos pais da garotada e raramente dos seus alunos. Se o assunto é sexo o campo é sempre minado. O resultado é que os professores se autocensuram e escolhem obras menos polêmicas, enquanto os jovens precisam buscar informação sobre sexo em outros lugares. Geralmente em becos bem mais escuros e a sós.

Saber é poder e no que toca ao sexo, nessa idade, vale como nunca, por isso os adolescentes são tão ávidos por obras que lhes forneçam alguma informação. O desafio de sua vida nesse momento é fazer laços afetivos entre seus pares que os ajudem a se desgrudar do amor dos pais. Ora, sexo, erotismo e amor se confundem na cabeça do nosso jovem, ele está a mercê de uma certa fascinação e da supervalorizada expectativa que temos sobre a questão. Seria útil se houvesse um manual de instruções, ainda que fosse vago, impreciso, imperfeito. A questão é que, por sorte, os manuais não funcionam, seu alcance é limitado.

A leitura poderia ajudar, existem obras da literatura que não fogem da raia, que tratam da questão. Como essas raramente são adotadas, os jovens as descobrem sozinhos, ou no boca boca e as leem sem discussão, ou então só com o entusiasmo dos amigos. A literatura tenta ensinar aquilo que nem os pais nem a escola conseguem. Ela mostra como a vida é complicada, como nossos pensamentos que parecem anormais são corriqueiros. Ela nos deixa menos sós, não somos os únicos a sofrer de angústia sem explicação, há outros que se sentem perdidos e sem rumo, que fazem besteiras sem saber a razão. A boa literatura é o único espelho dos abissais que são a diversidade e complexidade humanas e sua tênue fronteira com a loucura. Ela ajuda a pensar certos comportamentos, fornece novas palavras para sensações enigmáticas, renova a linguagem corrompida pela fala materialista e burocrática da política e da propaganda, funda mundos imaginários para descansarmos do presente. A riqueza de um texto tem o dom de recriar a linguagem envenenada pela banalidade do pensamento obscurantista daqueles que sabem o que é bom para os outros. Ela não necessariamente nos salva, mas fornece boas pistas para achar o fim do labirinto da adolescência.

A literatura adoraria ter tanto poder formativo como acreditam seus censores. Especialmente no sexo, é bom esclarecer que ela não cria fantasias sexuais, apenas fornece cenários que enriquecem e polemizam certas questões. Ninguém vai se tornar pervertido por saber que isso ou aquilo se faz. As fantasias que comandam a vida sexual já estão construídas num adolescente, apenas ele não as explicitou, não as explorou. Confunde-se a descoberta da própria sexualidade com a sua formatação que vem da infância. Não é sem influência, mas é como colorir um desenho que já está feito.

Na mesma linha de raciocínio: recorte algo que existe na realidade e todos conhecemos, coloque isso num lugar público visível e está feita confusão. Pode ser um beijo gay, o sexo mais banal de um casal, um adolescente fumando maconha, enfim, desejos e comportamentos nem tão incomuns ou obscuros. No julgamento de quem censura, tudo deveria permanecer oculto, como se a exposição do já existente justificasse e legitimasse esse fato.

Os pensamento censor acredita que a literatura, a propaganda, a novela não são amostras das várias formas de ser, pensam nelas como autorização e convocação à imitação. Na verdade só cumprem a função provocativa que abre portas para discutir o assunto. A questão é: quem tem medo de uma discussão? A reposta é óbvia: quem não tem argumentos senão escudado na suposta autoridade dos que pretendem nos livrar da perdição. Esses mesmos que veem o público como uns desmiolados que só esperam um exemplo para seguir.

Com o acesso à internet, hoje disponível na maioria dos lares, qualquer jovem encontra pornografia, apologia às drogas, incentivo ao suicídio, e qualquer outra bestialidade imaginável. Mas o detalhe: ali ele está sozinho, sem um adulto, sem um guia que o ajude a discriminar o que serve do que é lixo, do que destrói sua sensibilidade e embota sua inteligência.

A adolescência é um momento sem bússola. Longe de seus antigos pais protetores, que com o fim da infância perderam seus poderes, melhor deixar que eles ao menos estejam perto de alguém que já tenha mais estrada na vida. Os mestres e seus livros podem ajudar a lidar com o peso das exigências do sexo. Confie nos professores de literatura ou nos professores e orientadores que não fogem dessas discussões em aula. Talvez eles não tenham a mesma opinião que você, mas é um adulto tentando uma ponte para ajudar neófitos a discernir o sublime do vulgar no açougue que o sexo pode vir a ser para nosso adolescente. Se evitarmos as obras sobre sexualidade e erotismo nos currículos, vamos deixar que o único professor de nossos filhos na educação sexual seja a pornografia.

A maconha e o demônio

confrontando teses paranóicas de que um jornal só se posicionaria pela descriminalização por interesses comerciais.

Se você não acredita em meu Deus deve acreditar em meu demônio. Em síntese, essa é a lógica  binária e pueril que infelizmente domina hoje muitas discussões, negando que o mundo tem muitos outros tons.

Fiquei contente com a posição da Zero Hora sobre a maconha porque rompe com esse simplismo. Ela coloca-se como muitos clínicos que também enfrentam esse problema: não endossando o consumo, mas sendo favorável a liberação. O que queremos é tirar o problemas da sombra do delito para melhor enfrentá-lo. Sabemos dos perigos da legalização mas conhecemos muito bem os graves tormentos da ilegalidade.

A repressão nunca conseguiu diminuir o consumo da maconha e as ações educativas, num ambientes de proibição, tendem apenas envolvê-la numa bruma que exagera seu perigo e a torna atraente por ser pretensamente transgressiva. Acreditamos que jogar às claras e desmistifica-la é o melhor caminho.

Essa posição, que aliás é uma tendência mundial, parte de um fato simples: existe um contingente enorme de consumidores que não estão dispostos a abrir mão de seu hábito e agem com desdém aos conselhos dos profissionais de saúde. Resta-nos muda nossa abordagem para estar perto deles. Se quisermos nos aproximar desse contingente, a primeira coisa é sair da posição de verdade, da postura arrogante de quem se julga com o monopólio do saber sobre o que é bom para os outros. Essa clínica que só consegue apontar a abstinência como estratégia não funciona mais. Não podemos seguir infantilizando e subestimamos o consumidor. E mais, qualquer droga, quando afunda alguém, nunca é só ela. Ela apenas é um atalho para o pior, mas é um sofrimento, uma desesperança, uma tristeza uma depressão que realmente levam a isso.

O campo da clínica é duro porque é sempre perpassado por dúvidas, raramente somos taxativos. Mas quando vejo nossos colegas, adversários dessa posição de maior tolerância, ao invés de argumentos, sacar teorias conspiratórias, reduzindo o complexo problema das drogas à futuros lucros publicitários, disso tiro uma certeza: o que está em questão é o esgotamento teórico do paradigma repressivo.

(publicado em Zero Hora em 12/03/2015)

Fabrício e a vaia

Um jogador destemperado e uma torcida mimada.

A vaia é o vestibular do mundo adulto. Se você já recebeu e matou no peito é porque deixou a infância onde tudo eram afagos e elogios. A vida adulta é trabalho e critica, e a forma mais dura da cobrança é a vaia. Pessoalmente não acredito na sua eficácia. Ela fala mais da impotência e da falta de educação de quem a produz do que da performance de quem a recebe. Ela por si mesma não tem uma força educadora, construtiva, mas ela está aí, cada dia mais.
Fabrício anteontem não matou a vaia no peito. Ele tem o preparo para ser jogador, mas não para ator, para encenar uma personagem que o ultrapassa. Não compreendeu que as vaias fazem parte do contrato que assinou e que o futebol é também um espetáculo catártico, um catalisador de emoções, um lugar onde buscamos um sentido épico que a vida nos nega. Temos gladiadores modernos que deixamos que saiam vivos da arena, mas nem por isso cobramos menos sangue. Fabricio escutou isso do modo errado e voluntariamente abriu suas veias para nós. Seu destempero o afundou e gozamos de sua falência moral. A torcida o derrotou.
Fabricio recebia vaias pelo conjunto da obra, deixou o time na mão várias vezes com expulsões desnecessárias, comprava brigas tolas, se excedia de todas as formas. Existem jogadores que derrotam as vaias. Valdomiro usou-as para se aperfeiçoar. Trabalhou mais e mais até ser o melhor cobrador que já pisou no Beira-Rio. Não acreditava na predestinação e no talento, mas sim no trabalho exaustivo que deve ser aliado ao dom natural. Fabrício queria uma admiração sem contrapartida, um incentivo mesmo no erro. Ele não lapidou seu talento, não domou sua fúria, permaneceu como uma criança mimada e birrenta. Não entendeu que existe um outro mais mimado em campo, a torcida.
O Internacional tem uma torcida maravilhosa. Quantas vezes juntou o time do chão e o empurrou para a vitória. Mas nessa quarta feira, sem querer, deu um tiro no pé. Posou de consumidor exigente e criou mais um problema para um time ainda em montagem. Creio que o momento é de guardar as vaias para desestabilizar os adversários.
Dizem que o treinador Rubens Minelli preparava o time para enfrentar 12 adversários. Os 11 da equipe adversária e o juiz. Insistia: o juiz não é nosso amigo, ele não vai nos compreender nem nos perdoar. Ele é mais um pedra na nossa chuteira. Espero que os treinadores do Internacional não precisem dizer que temos que enfrentar 13 adversários, como o juiz, a torcida também não é nossa amiga, não vai nos compreender nem nos perdoar.

Kutasi

Dos tempos em que o futebol era uma aventura e não um negócio.

Quem teve um tio meio biruta sabe seu valor. Quem não tem, nem faz idéia do que perdeu. A minha sogra teve um de dar inveja. Chamava-se Henry Kupferstein e nasceu junto com o século em Budapest. Boníssima pessoa, mas, ou por isso mesmo, gazeteiro, boêmio, vivia de encrenca em encrenca, sua vida era a rua. Foram tantas que aprontou que branqueou os cabelos de seu pai. Entre seus inúmeros vícios havia um que era secreto: o futebol. Para não desgostar ainda mais seus amados pais arranjou um apelido: Kutasi (pronúncia-se Kútachi)

Com esse nome era conhecido em Budapest. Era mencionado nos jornais, nas rádios, mas ninguém ligava Henry a Kutasi. Só quem sabia, por ser cúmplice, era seu primo Bandi Kerekes. O primo o acobertava nos fins de semana em que sumiam com as mais variadas desculpas. Com o passar do tempo outros parentes souberam da vida dupla, mas pouparam os pais. Os dois falecerem sem conhecer a infâmia de ter um filho jogador de futebol. Henry sabia que seus pais já tinham perdoado tanta coisa, não perdoariam o ponta esquerda Kutasi.

Outros tempos, outros pais. Futebol, então, era coisa de periferia, de ralé. Mas ao menso tempo, na Hungria, o futebol começava a encantar multidões e a ser paixão nacional. Porém os jogadores ainda não ganhavam bem e eram mal vistos. Henry sofria com a discriminação e com o segredo. Para piorar, o amor pelo futebol só crescia, cada dia ele era mais Kutasi e menos Henry.

Quando a situação ficou difícil para os judeus na Hungria seu irmão Luis, avô da minha esposa, e o primo Bandi vieram para a América. Ele não quis, já tinha driblado tanta coisa na vida, achava que livrava mais essa. Mal sabia ele que o nazismo era um zagueiro maldoso, desleal, quebrador de perna. Esse foi o drible que ele não deu. Kutasi e Henry morreram juntos em Auschwitz em 1944. Já não usava a camisa 11, era um número mais longo tatuado no braço.
(publicado na Zero Hora de 25/02/2015)

26/02/15 |
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Interceptei a mensagem de um E.T.

vistos de fora, somos no mínimo engraçados!

Primeiro informe ao planeta Zorg.

Estou muito animado no meu primeiro dia no planeta Terra. Orgulhoso de ter sido escolhido para a missão de reconhecimento dessa curiosa civilização semi-inteligente.

Já posso dizer, num primeiro relance, caso queiramos entrar em contato e trazer presentes: o que eles mais precisam é de gás carbônico. Cada grande cidade possui enormes usinas fixas de produção de CO2 com gigantescas chaminés. Como isso não é suficiente, uma manobra coletiva permite uma distribuição mais eficiente a partir de pequenas usinas móveis.

Existe um ritual de solidariedade que possibilita tornar a atmosfera mais compatível com a espécie que domina o planeta. Logo que sai o sol, cada família que tem posses, pega o seu produtor móvel de CO2 e sai distribuindo fumaça em rotas aparentemente aleatórias. A solidariedade se repete perto do meio-dia e ao redor do entardecer. Os mais prestativos fazem isso em outros horários e inclusive à noite. Isso possibilita cobrir toda a extensão das cidades com uma atmosfera amigável.

É um povo de uma persistência admirável, entopem as vias e quase não saem do lugar por horas. Exceção das micro usinas, de apenas duas rodas, talvez usadas também para transporte, afinal, essas circulam.

Sem esse gás creio que eles não vivem. Por essa razão existem poucas pessoas vivendo em áreas verdes. Creio que a concentração de oxigênio lhes seja prejudicial. Talvez somente indivíduos particularmente robustos possam sobreviver em tais condições. Motivo pelo qual, eles se esforçam para derrubar as florestas produtoras de oxigênio e umidade.

Mesmo assim, com todo esse empenho, alguns precisam usar CO2 concentrado. Existe um dispositivo bem inteligente que permite uma dose direta. É um canudo fino, branco, que ao ser aceso em uma das extremidades, garante um suprimento para os mais débeis. Evidentemente, quem está em volta aproveita um pouco da fumaça.

Fora a necessidade extrema de gás carbônico, nada mais poderia explicar a audácia em usar tais dispositivos móveis. É visível um contraste extremamente desigual entre as usinas móveis, todas em metal rígido – apenas as rodas são macias – e a fragilidade dos humanos. Eles possuem corpos sem exoesqueleto, são constituídos basicamente de carbono e água, e o cerne é de uma quebradiça estrutura de cálcio.

O exercício da solidariedade da fumaça é perigosíssimo. Muitos perdem a vida pois a usinas são bólidos primitivos que, não raro, colidem entre si ou atropelam humanos e animais, causando danos irreversíveis. É de um absurdo “custo humano”, para usar o vocabulário local.

Não fosse CO2 o gás da vida, diria que nem entre as civilizações semi-inteligentes poderíamos classificar os terráqueos.

Vida interior

Perdido em pensamentos, na missa…

Devo à formação católica grande parte da minha vida interior. Sem as missas, não sei se teria desenvolvido a imaginação. Logo que comecei a frequentar a igreja, as celebrações mudaram do latim para o português, mas bem poderiam ter continuado assim, para mim seguiu soando grego. Como não entendia o ritual, as rezas prosseguiam alheias. Só restava me entreter com as janelas e os pensamentos.

Não sei se meu órgão da fé é avariado ou a se ideia de um deus zangado, ressentido e exigindo adoração nunca me fez sentido. O fato é que sempre estava na missa dividido. Tentava me conectar com aquela solenidade e não conseguia, então devaneava.

Experimentei várias fases de distração: a matemática, quando contava as pessoas multiplicando o número de bancos pela média dos ocupantes, ou calculava quantas lajotas havia no piso, ou ainda buscava descobrir a altura do teto comparando com animais de que conhecia o tamanho. A fase artística era difícil, pois sempre achei a iconografia das igrejas católicas com um pé no sinistro.

Exceção feita às poucas missas a que fui na catedral de Santa Maria, de belíssima decoração. Minha alma volúvel se deslumbrava com as pinturas de Locatelli e ali fui o mais próximo do bom católico, vencido não pela fé, e sim pela estética.

Tive também a fase da pura viagem, tédio total: nessa, simplesmente inventava histórias, conduzia as fantasias aleatórias para filmes mentais. Antecipava os cowboys justiceiros que me aguardavam na matinê, ou os piratas na sua procura obstinada por tesouros.

Mas por que ia à missa se resistia a ela? Porque me mandavam e eu obedecia, seguia os passos dos pais. Minha mãe dentro da igreja junto comigo e meu pai no fundo, às vezes saindo para fumar. Ficava no meio-termo, dentro como minha mãe e com a cabeça lá fora como meu pai.

Da cerimônia, gostava apenas da hora do Pai Nosso, a única oração que conhecia de cor e minha deixa para entrar de verdade na missa, sabendo que já estava agradavelmente no fim. As missas a que assistia com as minhas avós transmitiam uma sensação diferente. A fé delas parecia mais genuína e contagiante e transformava minha eventual companhia em alta e nobre missão. De qualquer forma, mesmo sem elas, nunca achei que perdia meu tempo. Afinal, aquela era a minha religião, ainda que pela metade. Eu não acreditava, só que a missa fazia parte fundamental do mundo dos meus sonhos.

Saía da igreja de alma leve, como quem tira botas apertadas, como quem lava e seca seus pecados logo cedo e a perspectiva da próxima só em uma semana. A luz forte da manhã de domingo prometia um dia livre e feliz. Havia uma inexplicável alegria extra, vá que Deus fosse tão generoso que abençoasse até os ateus distraídos.

19/01/15 |
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O silêncio dos automóveis

Se eles falassem, revelariam nosso desalmado coração.

Como seria se nossos carros pudessem falar? Dizer como foram companheiros e possibilitaram muitas das nossas aventuras. Mas não é assim, eles não falam. Porém não falam por que não podem ou por que não queremos ouvir suas histórias tristes? Eu sou mais pela segunda opinião. Os carros sofrem demais, sua conversa não é animadora.

Tudo começou em 1982, quando uma Caravan bordô saiu de São Bernardo e veio para Porto Alegre. Não ficou dois dias na concessionária. Saiu de lá carregada, a família inteira veio buscá-la. Estava orgulhosa com o seu casal jovem e dois meninos. Moravam na praça Japão e tomava banho toda semana. Um aranhão leve na lataria era sanado imediatamente. Sentia que tinha encontrado seu lugar no mundo.

Mas essa vida de viagens à praia e buscar as crianças na escola durou pouco. Sem aviso, um dia qualquer, foi levada de volta a concessionária. Nunca soube por que nem pelo que foi trocada.

Sua vida mudou. Seus novos e sucessivos donos reclamavam que ela bebia muita gasolina e ia sendo passada para frente. Mal se acostumava a uma nova garagem e já estava noutra. Nem dava tempo de se apegar. Conheceu bairros mais pobres e a periferia. Seus novos donos mal trocavam o óleo. Esqueceu o que é um tanque cheio. Autorizada nunca mais, vivia de peças usadas e improvisadas. As viagens à passeio acabaram, de madrugada fazia compras na Ceasa de dia entregava ranchos.

A maior tortura era quando uma diligência pedia ir ao aeroporto. Ficava sempre perplexa, eram muitas camionetas novas, marcas e modelos que nem suspeitava que existissem. Se sentia envergonhada por estar sem calotas. As vezes imaginava que elas quisessem saber do seu passado, da sua experiência, mas estavam todas entretidas entre si e ela nunca conseguia entrar na conversa. Notava nelas uma ponta de vergonha por serem vistas falando com uma velha.

Seu atual dono, um serralheiro, soldou na capota uma espécie de gaiola de ferro para transportar os portões que conserta e entrega. Era como uma coroa, mas significava o avesso. Para seu desespero uma dessas encomendas foi na rua em que passou seus melhores dias. Podia ver dali a casa onde um dia se sentiu tão amada.

Rezava para que o serviço terminasse. Não queria ver nem ser vista. Como sempre, quanto tememos um encontro ele acontece. Sua antiga família passou numa camionete novíssima. Menos mal que não a reconheceram. Queria morrer, mas não ali. Mal conseguiu arrastar os pneus até sua casa antes de fundir o motor.

Quando fores reclamar da brevidade da nossa existência pense nos nossos amigos automóveis, esses sim tem uma vida curta e conhecem a decadência muito rápido.

(publicado em ZH, 06.01.2014, interino do Fabricio Carpinejar)

05/01/15 |
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