Regionalismo
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GPS Gaudério

Nos caminhos do Rio Grande, o Fagundes, GPS Gaudério, te leva a qualquer lugar!

Adoro novidades. Sabendo disso uns amigos que desenvolvem aplicativos me deram para testar o GPS Gaudério. Para quem ainda não sabe, GPS é um aparelho, parecido a um telefone celular, ou instalado em um, que fornece a rota por onde passamos. Além da tela com o mapa, ele fala avisando as manobras que temos que fazer para chegar a um objetivo.

O GPS gaudério é mais que um aparelho e uma ajuda, é uma presença dentro do carro. A Gabriela, minha antiga voz, era uma copilota xoxa, tinha o entusiasmo de um tropeiro de lesma. Já o Fagundes, como ele se apresenta, tem uma voz que me lembra o saudoso Noel Guarany. Soa forte, decidido, é quase um comando onde deveria ser uma sugestão.

­Afrouxa o trote que tem pardal a menos de légua ­– é ele falar e já vamos tirando o pé do acelerador. Para quem não é do campo ele pode soar rude. Esses tempos fiz dois erros em sequência e ele me saiu com: Vou ter que recalcular a rota de novo animal! Para pra tomar um mate. Tu tá dormindo? É duro, grosso, mas alerta o índio sonolento e evita o pior.

Claro, eu programei uma fala para homem, se programares o Fagundes para uma mulher dirigir é outra fineza. A minha filha fez o mesmo e ele disse: Oh guria! Assim vamos dá mais volta que bolacha em boca de velho!

As vantagens são inúmeras, qual outro aparelho que indica postos que têm água quente para reabastecer a térmica? Não só aponta todas as churrascarias por onde passamos como até palpita, às vezes um pouco preconceituosamente, é verdade, mas com argumento. Exemplo: Esta diz que é churrascaria, mas serve pizza também, sei não…

Dentro da cidade é perfeito. Apenas tem que se acostumar que ele toca o hino rio-grandense quando passa na frente do Laçador, do monumento ao Bento Goncalves e perto do parque Harmonia. Às vezes, de inopino, num engarrafamento, declama uns versos do Jayme Caetano Braun pra modo de não perdermos a paciência com as agruras duma paisagem sem campo, sem verde, sem horizonte.

Sempre tem bons conselhos, quando sente que estamos muito rápidos nos pergunta: Que apuro é esse cuera? Esses tempo buzinei forte na frente de um hospital e ele me saiu com essa: Cem cavalos no motor e um na direção!

O que teria que ser corrigido é uma certa fixação por Uruguaiana. Cada manhã eu ligo o carro e ouço: Tu estás a 624 quilômetros de Uruguaiana. Parece que o destino primordial, o marco zero no qual esse GPS se baseia é o obelisco de Uruguaiana.

Esses dias indo para Garopaba, indiquei o nome da cidade e ele setou Uruguaiana. Corrigi, ele desconfigurou e me remeteu de novo para Uruguaiana. Na terceira desliguei o xirú. Sei a estrada, era pelas dicas. Não é que quando estou sobre a ponte do Mampituba o GPS se liga sozinho e me diz com voz preocupada: Tu tá saindo do país, tchê!

01/11/14 |
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De volta à querência

Ah, é complicado ser gaúcho!

Como os outros brasileiros veem os gaúchos é uma questão. Como nós nos vemos é outra. Uma terceira, seria como entendem nosso estado aqueles de nós que percorreram caminhos mais largos no mundo. Eu prefiro a última. Afinal, é alguém que nos conhece e sabe do mundo. Como é daqui, gosta desse pago e não joga contra por jogar. Em suma, é um de nós com a dádiva de um olhar deslocado pela experiência estrangeira.

E o que dizem de nós os gaúchos que voltaram? Ouvi muitos relatos desses que têm esse olhar ao mesmo tempo forasteiro e crioulo, até que esses dias escutei um mais aguçado: do Walter Lidio Nunes, um gestor de empresa interessado em questões sociais. A fala dele precipitou um entendimento que já me perseguia. Ele diz que um pouco da crise pela qual nosso estado passa deve-se a nossa peculiar mentalidade conservadora.

Não entenda conservador como uma maneira mais lenta de assimilar o novo, trata-se de uma resistência à novidade, mesmo que ela seja melhor. E isso em qualquer setor, por exemplo: um engenheiro propõe uma maneira mais barata, mais eficaz e mais ecológica. Razões mais do que justas, mas a resposta é: mas nós sempre fizemos assim, por que mudar?

A novidade é vista aqui com desconfiança por ser sentida como estrangeira. O gaúcho parte do princípio de que o outro estaria querendo lhe tirar algo, logo, o que vem de fora é potencialmente prejudicial.

Já estamos acostumados com o conservadorismo de domingo, ao modo do MTG, a questão que interessa nesse caso é essa inflexibilidade nos dias de semana, que compromete os avanços do estado em várias áreas. Walter comenta que somos conhecidos pelas bipolaridades irreconciliáveis, praticamente não mudamos de opinião. Achamos que mudar é falta de caráter, preferimos seguir no engano, mostrando uma coerência com a história pessoal e não com a realidade fática. Capturados em reafirmar as pequenas diferenças, esquecemos as enormes convergências. Não nos interessa se a ideia é boa ou ruim, mas de quem ela veio, e a discordância é sempre em bloco, sem nuances. Transformamos a saudável discussão política em paixão clubista. Ou seja, facilmente atolamos pela incapacidade de atuar juntos. Em suas palavras: nosso estado se guia pelo retrovisor e não olha para frente.

São teses duras que infelizmente me fazem eco. Espero, pelo bem do estado, que estejamos enganados e que nos desmintam, que mostrem existir áreas em que ponteamos, em que somos inovadores. Mas por favor, com fatos, não com ufanismo, por que isso já é a inflação que acusa uma falha no valor. O orgulho exacerbado de ser gaúcho é uma resposta à queda de nossa importância politica e econômica no quadro do Brasil.

A bombacha e o kilt

No mundo moderno o mito adquiriu uma forma de congelar a história para não pensar. Portanto, o mito do gaudério nos distancia de nós mesmos.

A história não poderia ser mais triste. No distante século XIII, o príncipe Llywelyn sai de casa e deixa seu filho pequeno sozinho. Por sorte seu cachorro Gelert cuida da casa. Voltando não encontra o filho. Apavorado observa que o cachorro está com a boca, o focinho e o pelo empapados de sangue. Num impulso de raiva mato o cão assassino. Pouco depois encontra o filho que estava escondido e, a seguir, um lobo morto. Desolado se dá conta que entendeu tudo ao avesso. Matou o fiel cão que salvara a vida de seu filho. Cheio de remorsos, enterrou com honras o cão para reparar seu erro. Quem visita o condado de Caernarvon no País de Gales ainda pode ver o marco funerário.

A história é boa, nos ensina a pensar sempre com calma, não se deixar levar pelas aparências. O único problema dessa história é que, com pequenas variações, é conhecida por

vários povos do mundo todo, e claro, sempre contada como verdadeira, com local e personagens definidos. Essa coincidência nos coloca uma pulga sobre a autenticidade do relato. De fato, a placa existe, mas a história é mito. A lápide foi feita por um hoteleiro proprietário do Royal Goat Hotel em Beddgelert e dizem que a lenda (adaptada) também seria de sua autoria. Os turistas adoraram a história que ganhou até um poema famoso onde se conta o incidente. Esse fato diz muito de nós, sempre tendemos a acreditar mais nos mitos, que são mais ricos, mais sábios, mais elevados, do que na triste e pálida história. Entre o mito e a histórias tendemos a preferimos o mito.

Creio que qualquer pessoa medianamente informada já sabe que ontem, dia 20 de setembro, a data gaúcha por excelência, celebramos um mito que inventamos para nosso deleite. Saudamos uma revolução que não foi revolução, cantamos uma vitória que foi uma derrota (forçando muito, um empate em casa), e assim por diante. Criamos uma mitologia gaudéria com elementos díspares, geralmente com pouco contato com a realidade vivida. Mas qual seria o problema? Afinal, tantos povos fazem isso, o folclore é sempre uma criação a posteriori que edita para melhor nas nossas mazelas históricas.

E existem micos maiores, Eric Hobsbawm no seu livro A Invenção da Tradição demostra, com exaustiva pesquisa histórica, que o Kilt, o saiote escocês que é o símbolo da identidade escocesa, nunca fora usado antes de ser “descoberto” como o traje típico. Toda aquela arenga de cada tecido (tartan) lembrando um clã é pura farofa. Portanto, o que perderíamos cultivando a nossa pequena pátria imaginária, que pelo menos usa bombacha para tapar as pernas? Há quem vá mais longe nesse argumento do mal menor, ou do fato inofensivo, quando lembra do imaginário caipira atual do interior de São Paulo. Lá se copia o pior dos cowboy texanos. Logo, dizem, poderíamos estar pior, tendo que aturar rodeio com chapéu de vaqueiro americano. Isso sim seria o fim da picada.

Portanto, mito por mito, melhor contar com algo feito em casa, certo? O problema é que a questão é um pouco mais complexa. Não vivemos sem um relato histórico, tanto que se não o temos, inventamos. Precisamos de origem, de pais fundadores, de raízes que não nos deixem soltos no rio da história. Aqui entra o gaúcho, como nosso ancestral primitivo, simples, franco, rude, mas leal e honrado.

Na sociedade tradicional o mito era o horizonte do pensamento. Mais do que uma coleção de histórias, como hoje nos chega, o mito era uma forma de interpretar o mundo, portanto uma forma de pensar e de processar informações. No mundo moderno o mito adquiriu a função oposta: ele é uma forma de congelar a história para não pensar. Portanto, o mito do gaudério nos distancia de nós mesmos. Impede que possamos ver o nosso passado diferente das formas fixas que os tradicionalistas elegeram.

Se o mito fosse só para dias festivos não haveria problema algum. Assim é o Carnaval e o20 de setembro tem algo dele, mas aqui com a fantasia única e regrada. Não uso Carnaval como metáfora, mas como conceito mesmo: como um tempo em que se suspende o presente para que se possa viver uma fantasia, e que se dilua, ao longo de seus festejos, a hierarquia social. No Carnaval cada um vive seu personagem e adquire o valor que imagina que tem ou que gostaria de ter. Um tempo de exceção para sonhar em voz alta e esquecer a estreita e pálida realidade.

O problema, no nosso caso, é que nossa fantasia de origem gaudéria se desborda para o ano inteiro. O que seria uma festa, um mito fundador, torna-se ideologia. Usamos o mito para criar auto-estima, mas também para pensar os fatos que se nos apresentam hoje. Mas fica a questão: como uma fantasia pastoril do século XX, idealizando o XIX, pode nos fornecer chaves para entender a complexidade do XXI? Tentamos, mas o fato de usar bombacha e idealizar nosso passado não nos poupa dos dilemas do nosso tempo. A aceleração da história nos coloca desafios constantes, o novo nos invade e pede que o decifremos para não sermos engolidos. Não temos opção de não viver nossa época. Todos esses movimentos de criação de identidades regionais fazem parte duma tentativa de barrar a globalização, de se defender do novo. São reafirmações do local frente ao global, e do passado frente ao presente.

A questão não é abrir as portas do Rio Grande ao que vem de fora de modo a perder a identidade regional. Penso o contrário: em como fazermos nossa própria versão de modo a responder ao que a ocasião nos pede. Nesse sentido, a ideologia gaudéria não soma, na verdade nos deixa mais frágeis. Como todo mito, ideologia ou religião, seu aparato conceitual faz uma leitura simplória do mundo. Oferece boas soluções para um mundo que já desapareceu e não ajuda a enxergar melhor o presente multifacetado que é o nosso verdadeiro desafio.

O gaúcho pilchado e a cavalo faz uma figura elegante, o pala o protege do minuano, mas não dos ventos inclementes da história atual. Essa ideologia não nos ajuda, serve apenas como barreira imaginária ao que vem de fora, e nos fornece apenas armas ilusórias para uma batalha real, que é fazer desse estado um lugar realmente melhor.

As bandeiras que nos restam ou Até a pé nos iremos pela glória do desporto regional

Sobre os impasses da identidade gaúcha refletidos no futebol

Os gaúchos andam ultimamente muito ouriçados pelo futebol. Creio que mais do que de costume. Não é à toa, recentemente a dupla gre-nal têm produzido feitos realmente significativos, responderia prontamente qualquer um. O Internacional saiu do seu marasmo e abocanhou três títulos internacionais. O Grêmio, depois de naufragar na segunda divisão, ressurge das cinzas e é grande candidato à Libertadores com um time “peleador”, exatamente como nosso povo acha que deve ser.

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10/06/07 |
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O Orgulho gaúcho

Reflexão sobre a auto imagem do gaúcho

Um conhecido meu ficou muito rico comprando argentinos pelo que eles valem e revendendo pelo o que eles acham que valem. Se você riu dessa história é porque não sabe que ele está pensando em diversificar e fazer o mesmo negociando gaúchos. E pior, ele acha que vai ganhar mais dinheiro ainda.

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16/09/06 |
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Tinha que ser o Mário!

Prefácio para um livro do Santiago

O Santiago todos conhecem. Aprendemos a identificar seu traço e seus personagens que nos aproximam do gaúcho que um dia fomos, nem que seja nos pagos da imaginação. Nesse livro, o seu lado de folclorista é que se agranda. Disfarçado de bom humor, o autor faz um apanhado sério, quase um dicionário de empulhas, essas perguntas e respostas chistosas de conteúdo quase sempre sexual.

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19/01/06 |
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O lacaniano de Passo Fundo

Entrevista com o Lacaniano de Passo Fundo, eminente psicanalista gaudério

O psicanalista Mário Corso entrevista, para o Cultura, Taurino Netto, conhecido como o lacaniano de Passo Fundo, patrão e fundador do Centro de Tradições Psicanalíticas Gaúchas – Proseando nos pelego

Mário Corso: O Sr foi analisado pelo Analista de Bagé, como discípulo dele, considera que a teoria do joelhaço segue válida?

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14/01/06 |
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O sonho Piratini e a identidade gaúcha

Hipóteses sobre a problemática da identidade gaúcha versus a brasileira

Existe uma fantasia que embriaga muitos de nós: o Rio Grande do Sul seria uma pátria dentro de outra pátria. A experiência farroupilha teria deixado resíduos de uma nação que, se não a fizemos de fato, ainda viveria nos pagos da nossa imaginação. Como nunca foi construída, sendo só um sonho, podemos projetar na República Piratini todo nosso anseio por uma pátria melhor: uma nação de liberdade e fraternidade. Sozinhos, livres do Brasil, teríamos feito um belo país.

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19/09/02 |
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Para onde vai o macho gaúcho?

Reflexões sobre identidade gaúcha e homossexualidade

O gaúcho e sua condição pampeana, criou para o país uma imagem de um centauro guerreiro defendendo a mais disputada fronteira do país. Um lugar rude e viril, onde as disputas eram levadas a ponta de faca. Enfim, se o Brasil teve o seu faroeste aqui foi um dos palcos.

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23/06/01 |
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