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É isto um jovem?

Após a era nuclear, há uma vacância na posição dos adultos, que se abstém como referência. Aos jovens, resta o preconceito, a inveja, são objeto de pensamentos apocalípticos. O livro de Rose Gurski questiona essas posições.

(Este texto é o prefácio do livro: “Três Ensaios sobre Juventude e Violência”, de Rose Gurski, Ed. Escuta)

Depois de ter visto e vivido o inominável, o escritor Primo Levi estruturou sua mais famosa narrativa da vivência como prisioneiro nos campos de concentração a partir da pergunta: “é isto um homem?”. Inconformado com a banalidade do mal, ele buscou os restos de humanidade dos envolvidos nessa experiência limítrofe: eles restavam nos pequenos gestos de solidariedade e cumplicidade. Foi também na própria capacidade de narrar sua jornada pelo horror que esse escritor, um judeu italiano, reencontrou-se, tentando recuperar os danos da sua dignidade usurpada.

Não surpreende que Rose Gurski faça eco a essa pergunta, ao interrogar qual é a humanidade que resta em certos jovens contemporâneos, capazes de matar e agredir friamente. Ela arrola vários desses casos que constituem uma realidade assustadoramente próxima da alegoria de Laranja Mecânica, de Kubrick, que estuda junto a filmes, muitos deles num território limítrofe entre a ficção e o documentário. Os casos e obras analisados pela autora não a conduzem a uma visão apocalíptica, ela não se une à vozes que caracteriza como tomadas de “pânico moral”, identificando a juventude com problema social.

A demonização dos jovens, tantas vezes considerados sem qualidades e portadores de todas as leviandades que seus críticos conseguirem arrolar, caminha junto com a incapacidade dos adultos de nosso tempo para se compreender e questionar. A tradição acabou sendo associada com um peso que os adultos não estão em condições de carregar, o passado dos contemporâneos parece estar povoado de vergonhas e fracassos. Curioso, pois estamos aterrizando do século XX, e nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo. Mas nem só de maravilhas da ciência e comportamentos liberados, que são ganhos indiscutíveis, vive nosso passado recente. Temos muita vergonha a carregar, principalmente a guerra e os massacres. Além do holocausto, já mencionado, a bomba atômica liquidou com chave de ouro a segunda grande guerra, onde provamos a enorme extensão da nossa capacidade destrutiva. E ainda assombra tanto que adolescentes sejam cruéis? Além disso, as maravilhas científicas, a saúde e o bem estar que elas proporcionam, continuam convivendo sem aparentes contradições com a extrema miséria. Seria, então, tão dissonante que jovens desmiolados agridam um mendigo?

Entre os filmes mencionados neste livro, gostaria de focar nossa atenção sobre Rebel without a cause, no qual há uma cena que muito pode nos ensinar. O clássico de 1955, traduzido entre nós por Juventude transviada, faz parte da iconografia fundadora do mito do adolescente contemporâneo. James Dean, faz o papel de um jovem inquieto que busca valores e interlocutores até na polícia. Ele quer revelar a virilidade oculta sob o manto da covardia do próprio pai e alguma qualidade no vínculo entre seus pares, entregues à mediocridade das disputas de reconhecimento. Em suas caras de escárnio, melancolia e desamparo, na sua jaqueta vermelha e topete inspirou-se uma era de futuros adultos, que hoje são pais e avós.

A cena em questão, é um diálogo baseado num equívoco em torno da palavra inglesa “age”, que é cheio de pistas para esta nossa reflexão. “Age” serve tanto para uma época da vida, uma idade, quanto para uma era, um tempo da humanidade. Nele, a moça vivida pela atriz Natalie Wood, futura namorada do herói, aproxima-se de seu pai durante uma refeição familiar e tenta beijá-lo na bochecha, como fazia quando criança. Este a rejeita, resmungando que aos dezesseis anos ela já não deve ter esse comportamento (ele diz: “girls your age don’t do things like that!”). A filha protesta a perda do amor paterno, como se este tivesse que ser abandonado com a infância. Depois que ela sai batendo a porta, dizendo que essa não é mais sua casa, a mãe consola o pai atônito com a frase: “she’ll outgrow it, dear, is just de age!”, ou seja, que ele fique tranqüilo, a filha vai superar essa crise, trata-se apenas de uma idade, uma etapa, uma loucura temporária. O irmão menor da personagem estava por ali, brincando com uma arma espacial de plástico e arremeda, enquanto atira para cima: “yeah, it’s the atomic age!” (“sim, é a era atômica!). Na seqüência, a mãe segue o diálogo com o marido e acrescenta: “It’s just the age where nothing fits” (“é bem a época em que nada serve”).

O pequeno, tal qual uma voz de coro de teatro grego, informou o que os adultos estavam falando sem saber: a juventude da irmã transcorria nos escombros psíquicos de um trauma recente. Os pais dos Estados Unidos pós-guerra, mesmo na condição de membros da nação vitoriosa, não sabiam o que fazer com os filhos quando estes atingiam a idade dos antigos combatentes. A família da personagem de Dean, optava por manter o filho protegido, tratando-o como criança, enquanto a da moça tentava ignorar a fase em que a que a filha deixara de ser criança e não era ainda uma adulta, como se fosse um mal passageiro.

Embora os jovens pareçam bastante perdidos e principalmente tristes, a adolescência é neste filme um notório incômodo para os adultos. Os jovens ainda tão respeitosos e cerimoniosos dessa história já antiga, mesmo assim eram caso de polícia para essa sociedade de baby-boomers, tanto que um deles acaba morrendo. Trata-se de um crime estúpido, cometido por um policial estabanado, que extermina a vida de um garoto solitário e desajustado que só queria um pouco de atenção. Bem nos lembra Rose que os estudantes rebeldes do maio de 68 francês reivindicavam: “não nos mandem polícia, eduquem-nos!”.

Essa “era atômica” de que falava o garotinho, transcorrida nos anos da Guerra Fria, encontrou pulverizados todos os valores pelos quais seus protagonistas lutaram. Os heróis desse tempo eram mais traumatizados que orgulhosos, a reconstrução da Europa bombardeada desenterrava cadáveres de traição e indignidade. Quando os jovens de um mundo pacificado, voltado para o bem estar, começam a questionar o sentido da vida, esses pais encaram a melancolia juvenil como ingratidão: eles deveriam apenas aceitar a boa sorte e aproveitar as oportunidades de segurança que seus antepassados não tiveram. Ao contrário disso, os garotos do filme travam duelos letais com carros e canivetes, reproduzem em pequena escala a passagem do jovem pela guerra, e a experiência da proximidade da morte para fazer-se homens.

Jim Stark, personagem de Dean, reclama constantemente da covardia do pai, um marido submetido pela autoridade da mulher e da sogra, e lança-se num duelo em defesa da honra, após ser chamado de “chicken”. Mais uma vez, os jovens encenam em pequena escala os esqueletos no armário de seu tempo: a paz em que eles viviam era uma fina casquinha sobre a constante ameaça de um confronto terminal, a guerra atômica. Como queriam que aqueles garotos seguissem adiante, como gado, ignorando o conflito silencioso e totalizante, sobre o qual se estruturava a falsa calmaria? A quem queriam enganar aqueles adultos, exigindo que os jovens não se colocassem as questões terminais que seus pais, graças à guerra, puderam formular? Para que viver? Em nome de que lutar? Quais são os verdadeiros amores, os vínculos autênticos, capazes de sobreviver à adversidade?

Num instigante percurso teórico por autores como Hannah Arendt, Walter Benjamin, Giorgio Agamben, Maria Rita Kehl, Eric Hobsbawn, Jacques Lacan, Ana Costa, Contardo Calligaris, entre tantos outros, costurado pela análise de filmes como Aos treze (2003), Cama de gato (2002), Alpha dog (2006) e Os sonhadores (2003), este livro nos conduz a interrogações profundas. Simplesmente horrorizar-se com os jovens cruéis e transgressores, ou mesmo ignorá-los, esperando que seja um desajuste temporário, seria reproduzir as condutas dos adultos do filme. Pais, educadores e policiais em torno de Jim, fizeram de tudo para abafar a atitude adolescente enquanto uma forma, direta ou velada, de questionar.

A juventude está intrinsecamente associada ao tema do novo, onde aqueles que estão se tornando grandes de tamanho, embora ainda pequenos de experiências, inventariam seu legado, decidem o que levarão adiante e o que deixarão pelo caminho. Mas, lembra-nos a autora: “não é o jovem que ainda é pobre em experiência, é a sociedade que é pobre na capacidade de transmiti-la”. É sobre a diferença traçada pro Benjamin entre “vivência” e “experiência” que ela baseia suas reflexões, sendo a primeira apenas a memória de uma série de atos e acontecimentos que só podem ser assumidos e incorporados pelo sujeito mediante a transformação na segunda, Benjamin, ensina Rose, coloca a narrativa enquanto catalisador, instrumento de elaboração, tal como fez Primo Levi. Mas não se conte com os mais velhos para conduzir ou propiciar esse discurso, essa reflexão! Os jovens contemporâneos são filhos de gente que cresceu e envelheceu incapaz de tornar-se um adulto, determinados a jamais deixarem-se superar pelos mais jovens.

Não importando a idade, os que se sentem privados da própria juventude são incapazes de assumir a posição dos que, em vários aspectos, já tiveram sua vez. Já gastaram algumas fichas, mas mantêm os olhos postos apenas no que ainda gulosamente querem viver, sempre mais e muito. Como se a era atômica tivesse nos legado uma vida imediatista, sem passado nem futuro, numa eterna véspera de fim de mundo que o desarmamento nuclear não desbaratou.

Numa cultura onde a vaga de adolescente é disputada por gente de todas as idades, ficando essa época da vida associada a um imaginário (dos adultos) de oportunidades e prazeres (nada mais distante da realidade), resta pouco lugar para questionar. Alem disso, questionar a quem?

No filme Aos treze (também estudado por Rose) por exemplo, todos os personagens estão em busca de alguma razão de ser, mas enquanto os mais velhos se anestesiam com drogas e álcool, os mais jovens lançam mão à aparência, aos objetos, etiquetas e marcas. Não há nenhum adulto no filme, já que os mais velhos são visivelmente fascinados pelas promessas de gozo que atribuem à juventude. A mãe assiste a mutação da menina com alguma preocupação, mas ao mesmo tempo mostra-se paralisada, hipnotizada pelo personagem que surge daí: seu patinho feio tornando-se cisne, a mulher bela e sem limites. Mas quem não ficaria seduzida pela invocação destes poderes? Não é apenas um filme sobre uma adolescência difícil, é sobre os revezes de crescer num tempo em que poucos têm coragem de ser adultos.

Trata-se do fenômeno, caracterizado pela autora deste livro como de “erosão da adultez”, onde para os mais velhos que hoje trajam a fantasia da juventude eterna a reflexão é impossível. Como estes não permitem que o verdadeiro jovem os olhe como diferentes, nunca se estabelece a distância necessária para ver melhor, enxergar de fora.

Exatamente como nos afastamos de um objeto para lhe conhecer melhor as formas, os jovens precisam distanciar-se dos adultos para compreende-los melhor, decifrá-los e com isso conhecer-se. Analisando seus familiares, governantes, educadores, artistas, enfim, todos aqueles que teriam que ter algo a dizer ou mostrar a partir das escolhas que fizeram na vida, os novatos poderiam conhecer melhor suas possibilidades, ponderar sobre os erros que não querem repetir e os sucessos que gostariam de imitar. Dessa forma, seria possível aprender algo com a experiência dos mais velhos, que teriam transformado suas vivências em experiências, caso isso tenha ocorrido. Para tanto, é preciso dar uns passos para trás, estabelecer um espaço, uma diferença entre maduros e jovens, a qual não vem sendo permitida. Nesse sentido, a autora teoriza com Lacan que a agressividade, contida nessa violência juvenil que tanto assusta, é diretamente proporcional à necessidade do sujeito de demarcar seus limites, estabelecer seu território nem que seja a dentadas, como os animais.

A juventude é época agoniada, de impotência, de covardia, onde nada nos prova que seremos capazes de fazer alguma coisa, quanto mais algo que seja melhor do que já está. No entanto, esse é o desafio, pois se não tivéssemos a expectativa de superar, transcender o estabelecido, fazer algo novo, nem valeria a pena começar. Talvez por isso vê-se tanta gente moça desanimada, já que não há um ponto de onde começar, uma referência. É como se os adultos fizessem eco àquela frase jocosa de para-choque de caminhão: “não me siga, também estou perdido”.

A partir da modernidade uma existência tem se fazer valer, deixar sua marca na vida, pois o céu deixou de ser uma meta atraente e a manutenção da tradição não é um objetivo plausível. Arendt já questionava o que se lega aos descendentes, quando os ideais são engajados na esteira da ruptura, da revolução, nunca na manutenção do estabelecido. Rose Gurski aposta na narrativa, que ocorre nos momentos em que o adolescente é escutado, por exemplo. Nessa experiência discursiva torna-se possível equacionar uma relação com a herança recebida, sobre a qual eles possam então criar o novo, fazer suas revoluções, sempre bem vindas. Ela acredita no poder de um verdadeiro olhar adulto que não se negue a enxergar o sofrimento do adolescente. Estes são, enfim, três ensaios sobre a cegueira dos adultos e um chamado a abrir os olhos. O que temos a ver é doloroso mas belo, pois ao mesmo tempo em que nos sabemos passageiros, descobrimo-nos fonte de inúmeros tesouros, nossa herança para ser deixada tem que ter seu valor reconhecido. Afinal, o holocausto nuclear acabou (ainda?) não acontecendo. Há esperança.

É sempre virtual

Sobre o filme Mary & Max

Durante a adolescência, invejava os amigos que mantinham correspondência regular com alguma pessoa em outra parte do mundo, com a qual geralmente nunca se encontravam, e ainda em inglês ou francês, muito chique. Apesar do amigo por correspondência ser um hábito antigo, quando começou a grande onda da internet havia muita inquietude, por parte dos não usuários, relativa aos diálogos virtuais com objetivo de amor, amizade e divertimento. Continue lendo…

31/10/10 |
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Eduardo Coutinho, o cineasta psicanalista.

A arte de perguntar, no cinema de Eduardo Coutinho e na psicanálise.

O psicanalista é um anfitrião que recebe pessoas para conversar. Sua arte consiste em colocar as perguntas certas, essas que levarão o assunto para um território novo, de preferencia surpreendente para o paciente. Mas é muito difícil compreender o que faz um psicanalista sem submeter-se à experiência de uma análise. Há livros técnicos, assim como literatura onde pacientes e analistas são personagens, onde pode se matar um pouco da curiosidade. Para tentar entender esse ofício, pelo menos aproximativamente, recomendo assistir “Edifício Master: um filme sobre pessoas como você e eu” (2002).

Este janeiro cheio de perdas deixou-nos sem um poeta do documentário: Eduardo Coutinho, autor desse filme. O Master é um prédio em Copacabana: 276 pequenos apartamentos, onde vivem aproximadamente quinhentas pessoas. A equipe foi visitando os moradores e colhendo suas histórias, das quais Coutinho selecionou algumas para compor o documentário. Estruturalmente idênticos, abrem para uma maravilhosa diversidade quando a equipe bate à porta. O cineasta não é invasivo, mas faz perguntas difíceis, sempre atento aos pontos delicados da conversa, centro de seu interesse.

Os entrevistados abrem o coração, choram, cantam, recitam, gargalham, se queixam, lembram glórias, contam grandes histórias sobre pequenas coisas e, inevitavelmente, fazem um balanço da sua vida. Muitos são velhos, mas há alguns jovens e todos têm uma trajetória para contar. Uma moça que morava sozinha e lamentava a perda do zelo dos pais e avós, conta a história de uma voz de criança que ela escutava através do respirador. Embora curiosa, não conseguia tomar a iniciativa de descobrir o rosto daquela pequena, cuja vida espreitava. Provavelmente essa voz representava a criança que ela estava deixando de ser.

Emoldurada pela câmera toda vida torna-se grande. Aliás, é exatamente isso que fazem os escritores: transformar o prosaico em poético, a vida comum em evento literário. Meu espaço, o consultório, também é sempre idêntico. Ambiente invariável, como são os apartamentos do Master. O que muda são as vidas que passam: relatos de minúcias, queixas, ressentimentos, bravatas, vergonhas, sonhos noturnos e diurnos. Através das histórias que escolhe para contar, ao longo do dia cada um que entra vai ocupando meu espaço a seu modo. A escuta do analista é atenta aos momentos sensíveis do relato. Por vezes é a história de um trauma, um acontecimento marcante, por outras, a vida encontra suas encruzilhadas em sutilezas, como a voz de uma criança no respirador. O cenário pode ser fixo, variadas são as pessoas.

O documentário é uma arte na fronteira entre a ficção e a realidade e Coutinho dedicou-se acima de tudo aos relatos, por vezes longe dos fatos. Pouco importa: sofremos menos dos fatos e muito mais dos pontos de vista, da forma como narramos a realidade. No cinema de Coutinho, assim como no consultório do psicanalista, realidade e ficção são indissociáveis.

Filhos da máquina de sonhos

Sobre o filme “A invenção de Hugo Cabret” e a herança enquanto um enigma.

Por que na ficção os mestres se expressam por enigmas? Quando Harry Potter está com a vida a prêmio, o prof. Dumbledore em vez de dizer o que ele tem que fazer, lança uma charada que deve ser decifrada em meio às correrias. Mas por que não ajudar os meninos, não vê o velho mestre que a situação está preta?

Só que o enigma é o encanto da aventura! Decifrar a frase misteriosa faz com que eles cresçam com a missão. Tornados detetives acabam entendendo no que estão metidos e seu papel na trama. Do contrário, seriam como soldados no front, a quem cabem estreitos heroísmos. Hoje não admiramos a alienação, a obediência; o engajamento deve ser ativo, original, inteligente.

Cada um de nós é, de certa forma, portador de um enigma. Afinal, não teríamos vindo ao mundo à toa. Carecemos imaginar uma sofisticada engrenagem da qual supomos ser peça imprescindível. Esse é o raciocínio do menino Hugo, protagonista do filme “A invenção de Hugo Cabret” de Scorsese. Somos parte de um mecanismo, pensa ele, cada um tem utilidade peculiar. Cabe-nos desvendar o mistério de seu funcionamento, consertar seus estragos.

Ele é aprendiz de relojoeiro, trabalhava com o pai nesse ofício até a morte trágica deste. Ambos dedicavam-se ao conserto de uma espécie de boneco robot, que havia sido encontrado abandonado. Hugo, que já havia perdido a mãe, torna-se órfão e é levado por um tio imprestável a habitar os corredores internos, as entranhas, da estação de trem, onde fazia a manutenção dos relógios. Abandonado ali, vivia clandestino, tendo por companhia apenas o boneco estragado. Se descoberto, seria colocado num orfanato, mas preservava sua liberdade para viver consagrado à tarefa de completar a obra do pai. Estava convicto de que esse boneco, ao funcionar, revelaria alguma mensagem paterna, dando um sentido à perda e à sua vida. Enquanto esgueira-se e realiza pequenos roubos, principalmente das peças necessárias para refazer o robô, seu destino se cruza com o de um velho senhor que se torna parte da charada.

A descoberta final de Hugo é surpreendente: mais que fatos, verdades, há sonhos que são sempre enigmáticos. A herança que recebemos é composta das fantasias dos que nos precederam. Crescer é terminar e recriar o boneco que os pais sonharam. Apesar do valor que nossos ancestrais possam ter provado, seu maior legado foram seus devaneios. Por isso o filme é uma homenagem aos fundadores do cinema, aos artistas, trabalhadores da fantasia. Somos, afinal, uma engrenagem da incansável máquina de sonhos dos homens. Espero que imprescindível.

Frankenstein on drugs

Sobre o filme “Legado Bourne” e o vício em extrapolar limites

O cara não se sente à altura do cargo, teve a sorte de ser selecionado, mas se acha infra-dotado. O trabalho é insano, seus colegas também estão alucinados, todos fazem coisas além das suas capacidades, superar limites é o mínimo que se espera. Conhecem-se pouco, para a organização são números, importante é o sucesso da missão. Só há um jeito de garantir a eficiência: drogas. Consumidas garantem um desempenho perfeito. Os outros também usam, todos temem a abstinência, sem elas nada feito.

O discurso acima serviria para o mundo dos negócios, do entretenimento, da vida social, mas no caso trata-se de um filme, no qual agentes americanos, a serviço de missões secretas, são submetidos à manipulação bio-química. É Legado Bourne, o quarto filme da série inspirada nos livros de Robert Ludlum, agora sem o charme de Matt Damon, mas ainda divertido. A novidade desse episódio é a conexão das capacidades superlativas do herói com as substâncias que lhe são administradas, o que o torna um dependente químico. A corrida toda, que é a luta da criatura contra o criador, característica dos episódios anteriores, agora circula em torno desses remédios. O herói atual sonha em libertar-se deles, mas não sem antes garantir o efeito permanente dos poderes que lhe emprestam.

Os filmes sobre o agente Jason Bourne são variações sobre o tema da história de Frankenstein. Desde o monstro de Mary Shelley (1818), surgiram muitas versões dessa criatura.Todos eles, a exemplo dos Replicantes de “Blade Runner”, são fruto de um sonho transformado em pesadelo. O enfrentamento entre cientista e sua obra, a criatura, é sempre terminal e o arrependimento pela empreitada determina a eliminação da experiência. Victor Frankenstein recriou a vida, reanimou tecidos mortos e horrorizou-se com seu ato no mesmo momento em que seu monstro abriu os olhos. No caso dos Replicantes, de vários robôs da ficção e destes agentes secretos turbinados, produzem-se seres de potência incontrolável, que pecam por ganhar autonomia e desobedecer. Mas o importante nesta série de reaparições do mito, é investigar as novas formas que ele assume.

Neste caso, o que a criatura quer é eficiência. Para tanto, precisa das drogas da eficiência, legais ou ilegais, que fazem parte da nossa cultura. Na missão de vencer, distração é pecado, os outros são inimigos ou rivais, limites são para os fracos. Se falhar, a fila anda, você está morto. Hora de reler Frankenstein, pois a história começa com um aviso: a obsessão por ignorar os limites torna-nos seres assustadores, irreconhecíveis aos próprios olhos.

Hakuna matata! Ou a adolescência segundo Disney

Texto sobre a imagem da adolescência transmitida no filme Rei Leão

 Hakuna matata!  Para os não iniciados em Disney, estas são as palavras de ordem que definem a adolescência no filme O Rei Leão. 

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17/01/95 |
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homens livro

Sobre Fahrenheit 451

Há muitos anos espero a oportunidade de rever um dos meus filmes mais queridos que acaba de chegar às locadoras. É “Fahrenheit 451” (François Truffaut, 1966), baseado no clássico de Ray Bradbury, escrito em 1953. O título alude à temperatura na qual os livros entram em combustão.

             Bradbury projetou, para um futuro não muito distante, uma sociedade alienada, onde a população idiotizada era mantida distante de qualquer coisa que pudesse gerar angústias, dúvidas ou tristezas. Uma sociedade de semi-analfabetos, alimentados cotidianamente pela ilusão de participar de uma programação televisiva simplória e realista. Contentavam-se com metas medíocres, como a aquisição de objetos da moda, o aumento da capacidade de consumo, o cuidado com a auto-imagem. Também se dedicavam à vida social, baseada em conversas fúteis, principalmente sobre TV. Para garantir um estado de espírito compatível com essa rotina bovina tomavam remédios regularmente. Sentimentos e emoções eram proibidos, nenhuma manifestação artística era suportável. Os livros, remanescentes clandestinos de um passado recente, Continue lendo…

Insanidades do destino

É possível criar uma Psicopatologia à la “Mynority Report”?

O recente episódio do copiloto que precipitou (propositalmente, até onde se sabe) o avião nos Alpes pode trazer um perigoso efeito colateral. Temo uma onda de preconceito contra qualquer abalo psíquico constatado. Não somente diagnósticos podem gerar perseguições, como creio que muitos possam evitar procurar ajuda temendo ser estigmatizados.

Quando a loucura ronda nossa vida, a sanidade revela seus limites. Quem teve um parente que se perdeu em delírios tem pânico de carregar dentro de si essa predisposição. Quem vê um amigo começar a ter pensamentos bizarros sente de perto a fragilidade da razão. Pode, afinal, explodir tal descontrole com qualquer um? A mente é como um campo minado? Não creio, sempre há um lento processo, em geral bastante visível, e é raro que seja completamente silencioso. Os agudos sofrimentos da alma devem ser acompanhados e os perigos podem ser reduzidos, mas nem por isso podemos prever tudo, como sugerido no filme Minority Report (Steven Spielberg, 2002).
Almejamos o conforto da lógica, negando que a loucura e a morte nem sempre são “justas” e previsíveis. É com certo alívio mórbido que descobrimos uma imperícia da vítima entre as causas de um acontecimento trágico ou triste. Se teve câncer, é porque fumava; se sofreu um ataque cardíaco, é porque era obeso; o acidente deveu-se ao álcool, a violência ocorreu porque a vítima se expôs. Nesses casos, parece que basta ser cauteloso e seguir as recomendações de saúde para estar a salvo. Quem dera.
Não conheço o caso do moço e sei que tudo o que lhe diz respeito será arrolado no cortejo das causas que tornariam previsível seu ato. O mesmo acontece em casos de suicídio e de atiradores de escola. Presume-se que alguém falhou na decifração das pistas que o sujeito foi deixando escapar. Porém, para cada suicida ou assassino em série, há milhares de pessoas que perdem a esperança de viver ou que nutrem graves mágoas e ressentimentos contra alguém ou contra todos, mas nada fazem. A maior parte dessas pessoas apenas rumina coisas que lhes intoxicam a alma nos momentos de angústia, tristeza e melancolia. Outras, poucas, vão enlouquecer de fato, ficar agressivas com os familiares, ouvir vozes. Raras, em número ainda menor, provocam tragédias. Para diferenciar um caso do outro, o melhor é proporcionar a todos os que sofrem oportunidades de receber acolhida e escuta.
Infelizmente, não temos uma previsão exata das consequências de determinados pensamentos e sentimentos. Dirigir com cuidado e viver saudavelmente contribuem para diminuir os riscos, mas não impedem as maldades do destino. Não podemos isolar e maltratar qualquer um que não se sinta psiquicamente bem como se ele fosse atirar um avião no chão. Cuidado com nossas fantasias onipotentes, a morte sempre ri por último.

Kryptonita

O passado sempre continua nos apedrejando

Tive todas as oportunidades de emburrecer com a babá eletrônica. Fui uma criança apaixonada pela telinha pequena e imprecisa, em preto e branco. Ansiava muito pela hora da tevê começar e me sentia miserável ao término da programação. Dessas extensas jornadas televisivas restam muitas memórias, mas uma evocação é insistente: a Kryptonita, proveniente dos desenhos animados do Superman.

Trata-se de uma arma que era usada contra seus super-poderes pelos inimigos, a única que o colocava fora de jogo. Aproximar dele um fragmento dessa pedra, um mineral verde luminoso, deixava-o fraco, indefeso. O mais enigmático é que a Kryptonita era uma das raras coisas provenientes do planeta natal do herói, Krypton. Do mesmo lugar de onde se originaram os poderes veio o calcanhar de Aquiles. O fragmento de ficção, e da pedra, sobreviveu na memória por portar uma verdade e um alerta: há um lugar, nossa origem, que determina o que somos, mas é também de onde nossa derrota pode se insinuar.

Não posso omitir a cilada do meu inconsciente: meus dois sobrenomes, tanto materno como paterno, contém a palavra “stein” (pedra, em alemão), ou seja, meu passado é uma “pedreira”. Mas não só o meu, também o seu, o de todos. A infância, quando os outros são grandes e nós pequenos, é lugar de proteção, mas também de submissão, passividade, medos. O mundo dos pequenos é uma massa escura que não enfrentamos sem uma mão para segurar. Não é fácil lembrar disso. Tornamo-nos fortes e grandes graças ao exílio desse planeta natal da fragilidade. Só ficamos “super” porque crescemos.

Ao voltar à casa dos pais, mesmo velhinhos, sentimos a sinistra sensação de que lá o tempo congelou. Perdemos os bons modos, catamos no prato, distraímo-nos ao som da voz da mãe, testamos a força do pai, ficamos irritadiços, por vezes irreconhecíveis. Os lugares do passado são magnéticos, atraem à superfície fragmentos, cacos sobreviventes de outras eras. Atravessar a porta familiar dessa casa é como a queda de Alice no assustador País das Maravilhas. Não é porta, é portal, do outro lado esperam memórias que nos tomam de assalto. Assombrados pelos nossos outros “eus” do passado, descobrimo-nos, como Alice, viajantes surpresos num país de pesadelos, dentro de um corpo que encolhe, espicha e nunca nos abriga direito.

Faz toda a diferença como encaramos e como nos contamos as experiências que vivemos, a mesma história pode ser enquadrada por diversas lentes. Diferentes visões produzem novos efeitos. Mas nem tudo pode ser posteriormente resgatado, sempre há restos, alguma pedrinha nociva que incomoda ou obstrui. O passado é esse planeta natal, fonte de nossa força e vulnerabilidade.

Mãelévola

Amai-vos umas às outras, esse é o novo feitiço da ficção infantil!

“Fujam da enlouquecida paixão, lembrai-vos como os homens vos têm por frágeis, frívolas, facilmente manejáveis e na caça amorosa estendem armadilhas para prender-vos em suas redes como animais selvagens.” Essas palavras de alerta foram escritas em 1405, por Christine de Pizán, na pré-história do feminismo.

A nova vítima dessa sedução é surpreendente: a própria Malévola, a terrível bruxa da história de Bela Adormecida, caiu nessa cilada, apaixonou-se e pediu a seu amado que “fosse suas asas”. Até agora ela era apenas uma figura poderosa e desagradável do reino mágico, responsável pela maldição de sono da princesa.

Os Estúdios Disney fizeram em 1959 uma versão desse conto que emprestou uma imagem definitiva para esta personagem, transformada numa atraente vilã, de aparência gótica e olhos irresistíveis. No recém lançado Malévola, um lindo filme, eles bancam uma virada na história clássica: agora a bruxa é soberana das fadas, reina em harmonia com a natureza, sem hierarquia nem autoritarismo. A descoberta do amor a fragiliza e, sem escutar o alerta de Pizán, encontra a destruição nos mesmos braços em que pretendia repousar. O ressentimento amoroso é o motivo da maldição, pois a princesa é a filha daquele que literalmente lhe cortou as asas.

Em Malévola os homens não prestam: são abjetos, beligerantes e traidores, quando bons são servis ou insignificantes. Pelo que vemos, a ficção infantil caiu aos pés dos encantos femininos. O grande desafio desta história é, como sempre, um encontro amoroso, mas esqueça o príncipe: amai-vos umas às outras, essa é a ideia. É a mesma inovação que começou comValente e segue com Frozen, neste caso entre duas irmãs.

A disputa entre as mulheres pelo amor do pai, assim como por ser escolhida a mais bela entre as mulheres, faz parte da tradição dos contos de fadas. A entrega, seu único destino, alimentou essa competição, tantas vezes desleal. De fato, para mães, assim como para os pais, é uma derrota fenecer enquanto o sucessor floresce. Mas há algo a legar e o orgulho dessa herança compensa pelas perdas. Sem valor social, às mulheres essa contrapartida até agora estava vedada.

Através da vilã, embelezada por Angelina Jolie, somos levados a supor que a maldição é o romantismo que enfraquece, corta-nos as asas e leva-nos à vilania. Livres dele, seríamos portadoras de uma visão de mundo mais justa e harmônica do que a que foi alimentada pelo machismo. Essa promessa é uma novidade nos novos contos de fadas. Neles as mulheres resgatam o apreço pelas antepassadas e umas pelas outras, o que ainda é um feitiço necessário.