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Cabeça aberta

Quem defende a legalização não é ingênuo quanto ao efeito nocivo das drogas.

Uma das dificuldades de quem luta pela descriminalização das drogas é o raciocínio simplista do outro lado, que nos acusa de desconhecer o poder mortífero, a capacidade de desagregação, que elas podem causar. Infelizmente, conheço e de todas as formas: profissionalmente em maior grau, mas também por problemas com amigos e desastres nas famílias. Os raios caem em todos os lugares. Quem defende a descriminalização não é ingênuo, apenas quer a luz do dia para tratar um problema que habita a sombra, enriquece o crime organizado e mantém quem precisa de ajuda longe dos serviços de saúde.

Esses dias o jornalista Paulo Germano fez o que me parece a atitude mais correta e corajosa para desestimular a glamourização que a maconha anda recebendo agora que se pensa em sua legalização. Ele nos conta sobre sua trajetória de usuário que, se não é tão típica, tampouco é incomum. Para ele, tudo começou muito bem, uma explosão de criatividade e energia, mas logo desenvolveu uma ideação paranoide, acreditava que todos o observavam. Depois disso foi inundado por uma apatia e lentidão de pensamento que durou algum tempo. Em resumo, travou sua vida.

Como qualquer droga, legal e ilegal, o efeito da maconha corresponde a um espectro, não existe uma maneira única do corpo recebê-la. Uma minoria desenvolve essa paranoia tão bem contada por Paulo, mas na maior parte dos casos ela funciona como ansiolítico, por isso seu uso é tão popular. Também é típico o desenvolvimento de quadros de síndrome do pânico ou até o desencadeamento de graves crises psicóticas. Atenção, ela não cria uma psicose, a fragilidade já estava ali, apenas a droga solta os tênues fios que mantinham o sujeito ligado à terra. O que se produz já provem de nós, apenas encontra frestas mais abertas para sair e nos desestruturar.

O que realmente prende a maioria dos usuários à maconha é seu poder de baixar a ansiedade, pois ela relaxa. Quem não quer ser acalmado, baixar o giro da angústia de viver? Há adultos que mantiveram seu uso desde a juventude para fins recreativos e quando isso é feito ocasionalmente não traz prejuízo mensurável, já quando o uso é diário e contínuo, paralisa a vida. A questão é simples: a ansiedade nos perturba, nos desacomoda, mas ao mesmo tempo ela pode ser o motor de mudanças, nem toda ansiedade é ruim. Quando usamos uma droga que corta a chave geral da angústia, ela suprime também a inquietude de onde provém a força necessária para ir adiante. Por isso a maconha estaciona o sujeito. Essa parada pode ser de uns dias, uns meses, uns anos, décadas… A menos que alguém acredite que essa fuga do mundo é a melhor forma de existência. A situação não é muito diferente do uso legalizado e compulsivo de medicamentos calmantes, tristemente comum hoje em dia.

Mas existe outro modo insidioso da maconha prejudicar, que é quando atinge a cognição. A droga age como se devolvesse o olhar infantil de assombro que perdemos: uma certa aura de magia que só as crianças encontram no mundo. Como ela rebaixa a cognição para estágios anteriores, infantis, sentimo-nos inteligentes em perceber como “realmente” as coisas funcionam. A maconha permite grandes sacações do óbvio, e graças a esses insights “geniais”, parecemos, aos nossos próprios olhos, como mais espertos do que antes. Que alguém possa divertir-se com essa condição tudo bem, mas achar que está fazendo uma viagem descobridora e brilhante é outro passo. Basta ver as anotações feitas durante o barato, no outro dia se revelam pueris.

A criatividade é algo extremante valorizado e alguns usuários defendem que o uso os deixa com a cabeça aberta para pensar o novo. De fato, ela faz com que abandonemos a lógica habitual e possamos trilhar uma via associativa. Para inventar esse seria o bom caminho. Porém, com o uso contínuo essa forma de pensamento torna-se o próprio modo de pensar. O raciocínio afetado pela maconha, em certos momentos, faz ligações meramente associativas como se fossem conexões lógicas, e as toma como parte integrante de um fio de sentido.          Nada tenho contra a associação, é exatamente isso o que peço para meus pacientes fazerem  no divã, porém na expectativa de que eles estejam com a mente desperta para colher os resultados dessa viagem. Já para entender o mundo, elaborar as relações entre as pessoas, o pensamento associativo não passa de errância mental. Quando o uso é abusivo a maconha emburrece. Ela induz a um déficit de atenção em pessoas que não padecem dele e quem já tem dificuldades nesse campo fica mais atrapalhado. A criatividade é fruto de grande esforço, perseverança, trabalho e não de grandes ideias que surgem repentinamente na cabeça, mas esse é um mito difícil de desmontar.

O prazer que se ganha com a vida em ordem e o dever cumprido é ralo. Há uma espécie de lógica de loteria que cerca os mistérios da felicidade. O usuário de droga intui isso, ele quer esse “a mais” que supõe que a droga lhe daria, ele disporia de um atalho para um gozo maior. A droga fornece esse brinde da vida que é a felicidade, mas só no começo. A longo prazo essa é uma promessa que não se cumpre e deixa os usuários nos desvãos, ignorantes do rumo da vida.

Um dos motes do texto do Paulo foi o anúncio da pop star Rihanna orgulhando-se de lançar sua futura marca de maconha. Uma celebridade ligada a esse produto me lembra as antigas propagandas de cigarro totalmente sem noção: “Mais Médicos fumam Camel do que outro cigarro”. Mas fazer o que, vivemos numa sociedade que permite propaganda de cerveja, que ainda por cima é sexista. Só o tempo vai nos permitir ver que estrago faz associar figuras de prestígio ao proselitismo do uso de drogas, lícitas e ilícitas.

Se você quer abrir sua cabeça não tente a maconha, tente estudar, uma leitura, ouvir uma música, conversar com gente que pensa diferente… Cabeça aberta é cabeça desperta.

14/12/15 |
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Quero uma penseira

A esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Prezado Papai Noel:

Provavelmente não mereço, mas queria pedir um presente, ou melhor, um presentão. Não fui boa menina: pratiquei poucos exercícios, estudei pouco, comi muito, encontrei menos minhas pessoas queridas do que considero importante, queixei-me da situação política e econômica mais do que ajudei a debelá-la. Mas, mesmo assim, vou lhe dizer o que desejo.

Queria muito uma “penseira”. Como talvez o senhor não seja leitor de Harry Potter, lhe explico do que se trata o objeto cobiçado. O jovem bruxo desta saga estuda numa escola chamada Hogwarts, na qual seu diretor, Alvo Dumbledore, é um ancião muito sábio e sobrecarregado de preocupações. Estou eu também tornando-me uma senhora madura cheia de preocupações, embora a sabedoria seja questionável. Pois bem, para administrar a sobrecarga de pensamentos importantes, Dumbledore dispõe de uma penseira em seus aposentos.

Trata-se de uma bacia de pedra rasa, contendo em seu interior uma substância leitosa-prateada sempre em movimento. O diretor encosta sua varinha na têmpora e retira alguns dos pensamentos dos quais não necessita no momento. Eles saem sob a forma de uma espécie de raio e são depositados na penseira, onde ficam disponíveis para serem consultados quando necessário.

Pessoas dos cinquenta em diante, como eu, tendem a fiscalizar sua memória com a atenção de um cão pastor e o pânico de um animal acuado. Qualquer falha liga o alarme das fantasias do envelhecimento e da demência. Por outro lado, a esta altura, estamos sobrecarregados de um enorme acervo de rostos, vozes, eventos, ideias e fantasias. É muita gente e muita coisa para manter vivo na memória, óbvio que algumas delas terão que descansar em algum tipo de bastidor leitoso e prateado.

Quando não conseguimos lembar algo, mesmo que seja o nome de um ator coadjuvante de um filme dos anos setenta, entramos em pânico: é o Alzheimer batendo! Por isso, penso que se tivesse uma penseira saberia onde está tudo aquilo que não consigo evocar imediatamente quando preciso. Assim, poderia tranquilamente revolver a penseira com a varinha e resgatar a memória fugidia, considerando natural de que ela esteja lá e não dentro de mim. Teria certamente a calma que me falta quando começo a procurar a memória que não se apresenta à consciência com prontidão. Qualquer um sabe que aquilo que buscamos com angústia tem a teimosia de se esconder.

Na verdade, na falta de um objeto mágico desses, desenvolvi a paixão por cadernos, caderninhos e cadernões. Os tenho para todos os fins: anotações de leituras, horários, sonhos, pautas para colunas, finanças, planejamentos variados. Adoro essas minhas memórias auxiliares e os consulto o tempo todo. Portanto, caro Papai Noel, se não encontrares penseira no mercado vou precisar de mais caderninhos…

Cicerone do nosso passado (prefácio ao livro de Cláudio Moreno)

O encanto presente de textos de trinta séculos.

Poucos consensos são tão unânimes: uma segunda língua é fundamental. Os argumentos geralmente são práticos: os bilíngues conseguem melhores empregos e ganham mais, ou conseguem melhor conexão com o mundo globalizado. Certo. Mas isso fica muito aquém das vantagens cognitivas que o habitar outro universo linguístico nos proporciona.

Quando nos aprofundamos em outra língua, descobrimos o intraduzível. Damo-nos conta de que o quadro da realidade feito por outra língua é distinto. Às vezes isso é visível em coisas prosaicas, como a maneira que vemos as cores, ou em coisas mais complexas, como o modo que cada uma dá conta de sensações, ou a expressão de conceitos de um modo que não nos ocorria.

O desafio de traduzir instala uma questão essencial, nem sempre há correspondência, e esse é o melhor ensinamento da tradução. Ou seja, não existem conceitos abstratos partilhados universalmente, o que existe é a história de uma comunidade linguística e sua particular experiência de circunscrever o real. Cada uma delas faz isso à sua maneira, cada qual lê o mundo de uma perspectiva própria.

Essa mesma experiência amplifica-se ainda mais quando estudamos outra cultura e sua história. Só com a imersão em outra forma de entender o mundo, de como é ou foi viver nela os pequenos e grandes sonhos, podemos de fato olhar para a nossa modalidade e não tomá-la como natural. Cada grupamento humano tem o seu jeito de hierarquizar valores, de pensar a moralidade e os costumes.

Enquanto permanecemos monoculturais tendemos a ver nossa experiência como a única e óbvia, ainda que imperfeita, maneira de enxergar a vida e de nos conduzirmos nela. Apenas o estudo ou a experiência de uma cultura distinta da nossa possibilita chacoalhar o senso comum e desvelar a limitação da nossa compreensão. A ideia de que possa existir um único ideal para todos os homens, ou uma forma certa de levar a vida, ou ainda verdades gerais para conduzir a humanidade, tudo isso fica sem sentido quando múltiplas experiências humanas são confrontadas. O mundo deixa de ser um vetor evolutivo e torna-se um mosaico complexo.

Já nos primeiros mergulhos percebemos que para conhecer outra cultura é necessário coragem intelectual, suspendemos nossas convicções e vemos nosso chão de certezas ficar instável. Mas o aprendizado é inestimável, vale a pena a vertigem, pois é a única vacina segura contra o fundamentalismo, o extremismo, a arrogância intelectual, e a contagiosa tolice do nosso mundo, tão cheio de si, que confunde domínio técnico com sabedoria. Em síntese: conhecer bem uma segunda cultura também é fundamental.

A cultura da Grécia Antiga é a mais estudada do Ocidente, a que mais dispõe de fontes históricas e, ao meu ver, o seu estudo é o que oferece mais retorno intelectual e, ao mesmo tempo, como um brinde, mais encanto. Embora tenhamos todos uma porção grega, já que uma das nossas mais influentes raízes é helênica, a cultura da Grécia Antiga é muito distinta de tudo que nos tornamos. Suficientemente distinta para ser esse espelho invertido que nos proporciona um olhar para o presente que semeia dúvidas sobre nossas verdades; suficientemente próxima para um texto de trinta séculos nos comover com paixões que são como as nossas.

Nunca lembro exatamente quando me descobri grego. Coloco como marco arbitrário a leitura de As Histórias de Heródoto. Vivi esse livro como se fosse pessoal. Era a minha luta contra os persas, estava em cada batalha, lamentando as perdas, enterrando os mortos, vibrando com as vitórias. Sabia que ali fundava-se algo decisivo para a nossas civilização ser o que é. Nunca mais parei, creio que são uns 30 anos de dedicação a causa da Grécia. Li os clássicos e comentadores e tive a sorte, que aqui compartilho com vocês, de ter um amigo que nunca me deixa sem respostas para os detalhes e passagens obscuras desse universo fascinante.

Se você fizer como eu, escolher a cultura grega como sua pátria imaginária para se descentrar do nosso tempo e, só assim, perceber algumas das mais importantes tramas invisíveis que nos norteiam, aqui está um excelente guia desse labirinto. Poucos enfrentarão com sucesso os dez séculos gregos clássicos, sua longa e complexa história e sua ainda mais rica mitologia sem um cicerone erudito, e curioso. O professor Claudio Moreno há muitos anos vem ensinando com generosidade os mais importantes passos para quem se lança na odisseia de conhecer a magia da Grécia mítica.

A experiência deste livro e dos outros do autor, é mergulhar na Grécia antiga e nos seus comentadores. Ele se debruça sobre o passado para tentar descobrir quais as perguntas que os homens sempre se fizeram e como eles as responderam. O professor Moreno já passou por muitas das perguntas da vida e já se curou da arrogância dos que acreditam que existam as respostas certas, mas sabe que existe uma história dessas respostas, e é nessa sua variedade de experiências que encontramos a farta sabedoria que pode nos ajudar a construir a nossa própria conclusão. Em resumo, ele resgata no passado os fios que nos oferece para que possamos costurar as dúvidas que temos no presente. O resultado é que saímos de suas páginas com um olhar mais acurado sobre o nosso tempo, os nossos semelhantes e sobre nós mesmos.

Como o autor nos avisa, existe uma Grécia alemã, uma francesa, cada povo, cada comentador, faz a sua imersão e resgata as joias que lhe parecem melhores. Eu percorri muitas, algumas eruditas, outras populares, em poucas achei um tom tão didático sem perder o rigor e erudito mantendo o encantamento. Essa é a Grécia do professor Moreno!

PS: eu só fiz o prefácio em troca da promessa que depois de ter contado a Ilíada, no seu monumental Tróia, iria nos brindar com sua versão da Odisséia, Esperemos.

21/11/15 |
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Quem criou a selfie?

Isso de prestar contas de tudo o que se faz, não pode ser coisa de gente grande…

Conversava com minha filha sobre as modas das selfies (a foto de autorretrato) e essas outras fotos que estão na moda, como, por exemplo, fotografar o que se come. As fotos antes disso supunham um olhar sobre nós, ou seja, alguém parou para nos registrar. Nas de agora, o olhar externo é posterior. De certa forma essas fotos são o pedido de um olhar.

Dizia a ela que isso era uma forma de egolatria desenfreada. Mas Júlia propôs outra abordagem. O problema, diz ela, é que não fazemos as perguntas certas: quem realmente se interessa pelo teu sorriso? Quem quer saber com qual roupa estás, se é bem abrigada e decente para a ocasião, se estás penteado ou despenteado? Quem quer saber com quem estás saindo e se são boas pessoas? Quem quer saber o que estás comendo? Especialmente isso, pensa bem, quem mais se interessaria pelo que tem no teu prato?

Acho que o leitor agora já começa a perceber a resposta que eu também pensei: mamãe! Sim, só ela sempre tem olhos para nós e nossas gracinhas. Quem mais neste planeta vai querer ver se tem ou não brócolis no prato fotografado? Se ele é equilibrado ou estamos comendo porcarias?
Definitivamente, essas fotos foram criadas e desenvolvidas para discretamente alimentar as mães de informação. Elas não comentam para que você se iluda de que elas não sabem. Algumas até têm um discurso de que não dominam a tecnologia e depois são flagradas manejando laptos e tablets de última geração, com arquivos bem classificados com todas as fotos por dia e local.

A verdadeira questão é saber qual foi a organização materna que lançou e desenvolveu a ideia das selfies para poder melhor exercer seu controle. Sei que muitos de vocês estão pensando que só pode ser coisa do setor de inteligência das Iidiches Mames, as mães judias organizadas. Elas estão na primeira linha das suspeitas. Mas não esqueçam da força e organização da Mamma Mia, a associação secreta das mães italianas, a única instituição na Itália que até a máfia respeita. Ela é séria candidata a ter sido o cérebro.

Como a tecnologia é americana, fica a suspeita se não seria algo da Mother Hen, ligada à CIA, ou da Helicopter Mom, mais próxima do FBI. Por outro lado, desde que a Merkel chegou ao poder, a DGM (Deutschen Glucken-Mütter) ganhou muita força política, pode ser dela. Há quem diga que é coisa maior, da OMU, braço secreto da ONU que congrega as mães do mundo inteiro.

* Mário Corso substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias em 05.11.2015.

Machismo na cozinha

Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a escravas de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos!

Valentina é uma menina que ganhou notoriedade pelo programa MasterChef Júnior. Ela tem a aparência de sua idade, 12 anos. Veste-se de forma adequada, sua fala e expressões são as de uma púbere comum. É graciosa, como  muitas meninas nessa fase. Mas o protagonismo que ganhou deve-se a manifestações agressivas de cunho sexual de que foi vítima na internet. A questão é: o que a fez uma garota, participante de um programa de culinária, ser alvo dessas agressões? Se alguém conseguiu ver nela qualquer tipo de insinuação, essa pessoa é um prodígio de desconhecimento de si, afinal, toma como de fora o que lhe brota de dentro.

Certos homens, por uma insegurança básica de sua masculinidade, acreditam que toda e qualquer exposição feminina que existe, ou que eles supõem que exista, como nesse caso, é para lhes provocar. Como se elas estivessem apenas esperando o seu olhar. Uma vez que se acreditaram provocados, devem agir, demostrar sua macheza, mostrar de que falta de fibra são feitos. É uma típica atitude erotomaníaca, no sentido de projetar seu desejo e suas fantasias no outro. Frente a esse tipo de atitude, de sentirem-se convocados a uma cena que não lhes diz respeito, temos duas possibilidades: os primeiros não necessariamente são abusadores reais, ficam fantasiando e agindo nas sombras, na internet, por exemplo. As redes sociais são o paraíso para os covardes, desse e de todos os tipos, lá não há uma responsabilização direta sobre as agressões. E no espaço virtual começa e termina sua ação constrangedora. Seu dano não é pequeno porque cria uma atmosfera de violência sexual, uma cultura do abuso.

Mas vamos aos piores, o abusadores, os pedófilos. Eles não fazem proselitismo, não latem, eles mordem, por isso são quietos. O que apreciam é a ingenuidade da vítima. Seu gozo necessita dessa assimetria de posições, não é só de força física e de idade, mas principalmente de experiência. Eles querem sentir-se como mestres, iniciadores, a inocência e a surpresa da vítima aumentam-lhes o efeito prazeroso: quanto mais frágil seu objeto, maior o gozo. Arriscam, em termos legais, para não arriscar-se onde sentem-se realmente frágeis: na entrega erótica, não têm peito de enfrentar alguém em pé de igualdade. A escolha de objeto diz muito de nós, pois há uma certa identificação com o parceiro. Por isso pode-se dizer que o abusador procura parceiros onde parou sua maturidade sexual. A sexualidade adulta põem a maioria dos pedófilos a correr, sem um poder tão grande, como ele consegue com uma criança, eles ficam sendo os fracos e impotentes que sua equação sexual particular requer.

A lógica da proteção de que se Valentina não estivesse na TV nada disso aconteceria é a lógica da burca. Esse tipo de cerceamento da circulação social de meninas e mulheres pressupõe que sua presença produz uma inevitável e incontrolável mobilização do desejo masculino. Na sua selvageria auto-complacente, eles exigem que as mulheres fiquem presas para não serem perturbados. Promovem o exibicionismo da macheza por temor dos efeitos impactantes que o corpo feminino lhes produz. Esse tipo de agressor tem medo das mulheres e reage com a violência das feras acuadas.

Talvez a televisão, assim como a internet, sejam uma forma de exposição forte para alguém pequeno, porém, as crianças gostam de ver-se protagonistas de suas atrações. Seria triste se a televisão só mostrasse adultos. É claro que os critérios têm que ser rigorosos, mas já tivemos muitas experiências de exposição erótica de adolescentes no passado da TV e MasterChef Júnior está longe de ser uma delas.

O programa de que Valentina participa não é como os realities shows da versão adulta, onde a humilhação e a concorrência ao estilo dedo no olho parece ser parte integrante do show. A versão mirim é adequada à infância, com mais carinho e elogios do que outras coisas. Não classificaria o programa como educativo, mas que ele coloca questões sobre como criamos nossos filhos. A ideia de proteção da infância é correta, mas muitas vezes exageramos na dose, deixando as crianças fora das experiências da vida, meros espectadores do mundo adulto.

Crianças na cozinha, sempre que supervisionados, me parece uma grande ideia. A comida deixa de ser mágica, elas descobrem o trabalho que qualquer coisa dá, o esforço requerido. A arte culinária pede uma boa dose de concentração, uma sincronização da inteligência motora com a intuição, com a percepção sensorial, é preciso pensar quantidades e tempos de preparo, enfim, não é uma ciência fácil. E deve ser bem mais fácil ensinar química, física e biologia para quem já pilotou um laboratório simples, que é uma cozinha, do que para quem nunca entrou nela.

A culinária entrou na moda quando a classe média, incluindo os homens, tiveram que cozinhar. Enquanto isso era coisa de empregados e mulheres era algo menor. Só que agora as mulheres abandonaram a vocação unívoca para as panelas e, por causa das legislações trabalhistas, este ofício tornou-se oneroso. A consequência, ótima aliás, é que a alienação culinária é menor até entre os adultos mais abastados, como todos têm que se virar um pouco no fogão, cozinhar tornou-se chique.

Na ocupação da cozinha por homens e crianças encontramos a inversa do machismo que confina a feminilidade à vida privada. Elas saíram, eles entraram. As crianças, por sua vez, conscientizadas de que a alimentação é algo no qual se pode ser ativo, deixam de comer como quem mama, o que se lhe puser na boca. Assim a obesidade e as doenças decorrentes da alienação do ato de comer certamente diminuirão. Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a serem uma escrava de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos. Vivemos um momento de reação a essas conquistas, mas elas são irreversíveis.

Vaidades

Quanto mais tentamos reter, mais perdemos. As perdas precisam ser aceitas.

Quando os irmãos se dão, vão se entender toda a vida, quando se odeiam, nunca encontrarão a paz. Está é a triste sina, os meios-termos raramente comparecem. César e Augusto eram do primeiro grupo. Herdaram o nome do avô paterno, cada um a metade, e seguiram juntos como fossem um só nome, um só destino. No princípio, a idade não ajudou, tinham seis anos de diferença. Não brincaram na infância um com o outro, mas foi a única coisa que não partilharam. No colégio, César cuidava do caçula Augusto e cuidou dele até o fim da vida.

Reergueram a empresa familiar, casaram-se e tiveram filhos. Tudo seria feliz se os desmandos da vida não interviessem. Na meia-idade, um câncer arrancou César de Augusto. O caçula pensou que não pudesse seguir vivendo. Pela primeira vez, sentiu-se só. Perderam os pais, sofreram juntos e não fora fácil, mas agora, quem seria seu ombro?

No dia do velório, estava com a viúva e as sobrinhas. Ajudou a escolher o derradeiro terno. Na frente do guarda-roupa, foi tomado por uma sovinice. Sempre compartilharam roupas, os empréstimos de casacos, ternos e sapatos às vezes não voltavam ao dono original. Fazia parte da cumplicidade esse uso comum de roupas, tinham o mesmo tamanho e, de certa forma, era como se o partilhar lhes assegurasse uma proximidade que nunca estaria ausente.

Escolheu para sudário do irmão um terno que fora um erro. Era mal cortado, cor chamativa, fora de moda, enfim, aquela roupa que fica quadrada em qualquer um. Nunca entendeu como seu irmão, tão cioso da aparência, não se desfizera daquela porcaria. Mas, pensava ele pragmaticamente, pelo menos para isso serve. Sabia que nada do irmão herdaria senão as roupas. Perdera seu parceiro, mas esses objetos do falecido seriam seu consolo. Uma franja de amarga felicidade lhe percorreu quando pensou no seu armário duplicado.

O mais duro nos espólios são as roupas, difícil imaginá-las sem o corpo que se foi. Mas suspeito que preenchê-las teria sido a intenção de Augusto, fazer algo do irmão sobreviver através de suas vestes para retê-lo um pouco mais.

Na noite seguinte ao enterro, Augusto teve um pesadelo. Seu irmão lhe apareceu vestindo o terno horroroso e lhe disse: “Você me fez passar a eternidade dessa forma?”. Augusto entendeu seu erro imediatamente. Fora fiel ao irmão a vida inteira, mas por vaidade vacilou na última hora. Sem saber o que fazer, se desfez de todas as roupas, as do irmão e as suas. Começou a vestir-se despojadamente. Só usava roupas e sapatos informais e baratos. O mais humilde dos seus funcionários se vestia melhor. Disse que no começo foi duro, mas depois uma espécie de libertação. Só assim se sentia em paz com César.

Quando Augusto me contou sua história, a primeira frase foi de uma sabedoria que não devemos esquecer: “Nem a morte desativa a vaidade, melhor livrar-se dela em vida”.

* Mário Corso substitui Luis Fernando Verissimo, que está em férias em 29/10/2015.


Cordialidades

A cordialidade, palavra simpática, é a cilada da cultura brasileira.

Cordialidades

A qual restaurante você voltaria?

O primeiro é honesto, pontual, tem o preço justo e a qualidade irrepreensível, mas é impessoal, o garçom não mostra os dentes. Mesmo que você retorne, ninguém demonstra te conhecer, apenas te servem. Você é mais um entre tantos clientes.

No segundo, tanto o garçom quanto o dono te recebem com sorrisos. A qualidade é boa, mas nem sempre. Nada grave, atrasos e erros aqui e ali. Porém, a cortesia do garçom reconhecendo a falha desarma qualquer reclamação. Todos te chamam pelo nome, perguntam pela família e sabem teu time.

Se você descarta o primeiro por ser gelado e sente-se melhor no segundo, perdoando certas falhas, você é bem brasileiro. Era isso que Sérgio Buarque de Holanda, retomando o termo de outros pensadores, definia como a “cordialidade” brasileira. Ele escreveu que no Brasil os laços pessoais se sobrepõem aos mecanismos de eficácia. Nesse exemplo, o brasileiro quer algo além da refeição, ser bem recebido pode ser mais importante do que a comida. Já um estrangeiro vai a um restaurante querendo comer bem e não considera prioritário que o garçom goste dele, afinal, é uma relação comercial. Se o funcionário for simpático melhor, mas o importante é o serviço.

Para compreender o conceito de Holanda, transporte esse mecanismo para os outros cenários da vida: a relação com a trabalhadora doméstica, com o médico, com o advogado. Todos querem sentir-se íntimos daqueles com os quais têm, de fato, apenas um laço de prestação de serviços. Essa aversão à impessoalidade instaura uma proximidade nem sempre viável, que pode inclusive atrapalhar, mas o brasileiro está disposto a ceder um pouco da qualidade em troca de uma manifestação que o faça sentir-se próximo. Para dar-se bem aqui, é preciso investir na relação com o cliente, priorizando isso sobre a eficiência. Os estrangeiros que desembarcam aqui para negócios ficam pasmos ao descobrir que, para ganhar um cliente, às vezes é necessário fazer um amigo. O brasileiro resiste ao anonimato natural do capitalismo.

Por tocar de ouvido, sem ler o conceito, a maioria de nós entendeu a ideia de cordialidade como sendo uma peculiar amorosidade, uma tendência à gentileza. Seríamos, nesse caso, um povo afetuoso. Lembro desse conceito, tão mal compreendido, porque o Brasil anda particularmente violento e muitos dizem que não somos mais cordiais. A questão é que somos cordiais e, por isso mesmo, violentos. Cordialidade vem do latim corda, coração. No caso, significa reagir emocionalmente frente a algo que poderia ser respondido com a cabeça. A violência é a suspensão da razão, é o extravasamento da emoção. Por isso, infelizmente, ao contrário do que pareceria, ela está mais próxima da cordialidade do que da frieza, da indiferença. O coração não é bom governante.

(coluna publicada em Zero Hora em 22 de outubro 2015, interino de Luís Fernando Veríssimo)

O futebol e as mulheres

(perguntas de Camila Gonzatto para o site do Instituto Goethe)
1-O que essa paixão do brasileiro pelo futebol, enraizada tanto dentro quanto fora do país, pode nos dizer sobre nossa cultura?
Sinceramente, muito pouco. O futebol não foi criado aqui nem somos os únicos mesmerizados por ele. Claro, criamos uma maneira de jogar [...]

(perguntas de Camila Gonzatto para o site do Instituto Goethe)

1-O que essa paixão do brasileiro pelo futebol, enraizada tanto dentro quanto fora do país, pode nos dizer sobre nossa cultura?

Sinceramente, muito pouco. O futebol não foi criado aqui nem somos os únicos mesmerizados por ele. Claro, criamos uma maneira de jogar que talvez diga de nós. Jogamos com menos disciplina e aplicação que outros lugares, nosso futebol tem menos matemática e mais improviso. Nosso futebol é do desconcerto, da jogada inesperada, do improviso, da ginga, da enganação. Gostamos de nos ver como um Pedro Malazarte, um malandro enganador. Sem força nem meios, que tem que vencer pela malandragem, nosso futebol é assim, ou pelo menos quer se ver assim.

2-O imaginário do futebol sempre foi construído em torno do homem. Como fica a mulher nessa história?

O mundo foi construído ao redor do homem, apenas no século XX que isso começa a mudar. O futebol é apenas mais um espaço masculino. Alguns esportes coletivos são simulacros de guerra e o futebol se encaixa nisso, uma guerra benigna, sublimada, mas um combate. Mais uma razão para a mulher estar de fora, afinal, guerreiros eram os homens.

As mulheres vieram para o futebol como para todas as outras coisas. Como a mulher deve ser agora que tem liberdade de escolher seus caminhos? Deve criar uma maneira nova ou ocupar o território dos homens? Na verdade as duas coisas não são excludentes, e no futebol elas vieram conferir o que é que nos enfeitiça, qual a nossa paixão. Eu acredito que elas não deveriam vir. Nada contra, são bem-vindas, mas não acho que seja uma boa ideia, já basta nós homens nos idiotizarmos por uma paixão inútil.

Torcer por um time é uma experiência totêmica, pertencer a algo, carregar uma bandeira. Quando nossas insígnias de filiação a coisas mais sérias, como as políticas religiosas, nacionais enfraqueceram, as parasérias (se é que a palavra existe) ganharam relevância. O futebol é a mais importante das coisas irrelevantes. Embora haja gente tão destituída de referencias que precise levá-lo a sério. Então, por que as mulheres viriam para cá, já chega metade do planeta perdendo tempo com uma disputa que no fundo é infantil. No fundo o “meu time contra o teu time” é herdeiro da bravata infantil onde se diz: “o meu pai é melhor que o teu”.

3-Mesmo com tantas mudanças sociais e identitárias nas últimas décadas, o futebol segue sendo um assunto de homem. Como podemos pensar nos “excluídos” nesse contexto – mulheres que gostam de futebol e homens que não gostam?

Segue assunto de homem porque as mulheres que vieram se dão conta do vazio e vão embora. Algumas ficam, afinal, rende assunto, ou pegam gosto mesmo pelo precário show que é mostrado.

Não creio que eles sejam excluídas, não me faz sentido pensar assim. Ninguém as manda embora, se quiserem tem lugar para todos. A verdadeira questão é que não tem nenhum pote de ouro no fim desse arco-íris, as mulheres não perdem nada não vindo, por isso não há sentido em falar de exclusão. Não acredito que o futebol e seu entorno enriqueça alguém culturalmente, ver uma partida não é como ler um livro, como assistir uma peça, como ver um balé. O futebol pode ter uma graça e uma empolgação, mas não deixa traços maiores em cada um. Ele tenta construir uma épica num mundo chato, mas consegue muito mal, muito precariamente.

Já homens que não gostam de futebol são discriminados. É como se faltasse algo neles, como se não fossem bem homens ou não totalmente homens. Não é uma discriminação forte, mas algo parecido com um desprezo misturado com um desconcerto. A identidade de torcedor tem raízes tão fundas que quem as tem não consegue acreditar que os outros não a tenham, é como os religiosos quando estão na frente de um ateu. Estamos sempre tentando enquadrar os outros com nossa maneira de funcionar, nos projetamos no outro e tentamos entende-lo a partir disso, por isso entendemos tão pouco e tão mal a diferença.

4-Em um dos seus textos você afirma que o torcedor fanático, quando faz parte da massa e é capaz de atos de violência e amor incondicional a um time, seria a imagem do ocaso do macho tradicional?

Uma das vantagens da experiência de torcer, de ir ao estádio, de sair as ruas comemorar é sentir-se parte de algo maior. Pertencer a um coletivo e sair com ele para uma comemoração ou sair só para torcer quebra com o mundo individualista que vivemos. Naquele momento o que pulsa é outra coisa, é deixar de ser um. Ora, ser nós mesmos nos cansa, pode ser umas férias de si mesmo. Isso pode ser lúdico ou pode abrir o caminho ao pior. A massa nos dá uma energia extra mas regula nossas qualidades pelo mínimo múltiplo comum, nos rebaixa moralmente, eticamente, espiritualmente, enfim, em todas modalidades possíveis. Em conjunto, em grupo, podemos fazer coisas que jamais faríamos sozinhos. O mesmo vale para as gangues, ali ficamos diluídos e assujeitados a um humor que pode não ser o nosso.

Falo em ocaso do macho pois a questão da violência sempre definiu o homem, o arquétipo da masculinidade é o guerreiro, o soldado. Hoje os caminhos para ser homem são menos óbvios, mais pessoais, sem rituais claros. Ora, quem tem uma imagem frágil da questão masculina pode se refugiar na massa do futebol para arranjar encrenca e exercer uma violência que lhe devolveria um protagonismo viril que ele não sente que tem no resto de sua vida. Nesse sentido ser um torcedor fanático e brigão fornece uma consistência imaginária de ser homem, de ser poderoso.

5-E existem torcedoras fanáticas com essas características?

Creio que não, justamente por que uma mulher, mesmo que ame muito um time, não fica convocada a sair batendo nos outros para reafirmar qualquer coisa. Pelo menos não conheço amazonas-torcedoras. As mulheres decididamente pegam mais leve na paixão clubística. Tanto que não é incomum uma mulher trocar de time porque tem um namorado ou marido fanático e querem compartilhar com ele essa experiência. Isso agora acontece menos, as mulheres de hoje não são tão volúveis com seus times, mas segue acontecendo. Um homem jamais troca de clube, ele é fiel e é para sempre. Um homem pode trocar de profissão, de convicções políticas, até de orientação sexual, mas nunca abandonará a camiseta do seu clube. O casamento com o clube é para sempre. Para muitos existe também o time Nêmesis, o time mais odiado, o antagonista principal, aquele que ele odeia com todas as suas forças, com uma paixão quase tão grande como seu amor primordial. Eventualmente ele pode ter suas amantes distantes, uns flertes com times de longe, que eventualmente tenham as mesmas cores, ou que lembrem seu time, mas não é nada sério. O torcedor é o último fiel.

6-Você acha que já é permitido, quiçá bem visto, socialmente uma mulher gostar de futebol?

Sim, ninguém acha estranho uma mulher torcer, vestir uma camiseta e gritar desesperada. Eu acho apenas mais uma alma perdida para a falta de bom senso, mas, que posso dizer, eu gosto de futebol. Talvez eu esperasse que elas viessem a denunciar nossa paixão idiota, nossa babaquice de carregar insígnias paternas sem sentido.

7-Como é esse universo feminino do futebol, em termos de imaginário e comportamento?

Tenho uma amiga que gosta muito de futebol, vai a campo, torce, sabe de tudo. Mas o legal é que ela pega muito mais leve com isso, parece um homem no saber sobre o futebol, mas tem uma leveza que nós não temos. Como se para ela fosse mesmo uma grande brincadeira, que de fato é, mas que nem todos conseguem ver dessa maneira. Se as mulheres trouxerem, como ela, para o futebol, essa ideia de carnaval e não de embate acho que seria muito bem vindo.

Mário Corso é psicanalista e torce para o Sport Club Internacional de Porto Alegre, vulgo Colorado. Não se emociona com outros times fora o Botafogo do Rio de Janeiro (namoro discreto), e o Fussball-Club Bayer Munchen, apenas porque ganhou, de seu pai, e nem sabe de onde saiu, uma camiseta desse time quando era criança, e, é claro, o uniforme também é vermelho.

Perguntas de Camila Gonzatto

é roteirista e diretora de cinema e TV e cursa doutorado em Teoria da Literatura na PUC-RS.

24/08/15 |
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O ódio na internet

num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros

Quando usamos a palavra nazista para quem chutou um cachorro em um dia de fúria, que palavra vamos usar para quem comete regularmente crimes hediondos contra a humanidade? Mas a grande questão não é o desgaste semântico e o julgamento sumário. A pergunta mais procedente é: a internet revela a agressividade que está latente em nós ou é ela mesma que propicia um comportamento um tom acima do que já usamos?

Acredito na segunda hipótese, porque somos a primeira geração que massivamente usa a internet. Ainda não temos uma cultura de convívio, uma etiqueta peculiar para esse espaço. Recém chegados e broncos, ainda escarramos no chão e não sabemos nos comportar. Somos os inventores e as cobaias dessa nova experiência de convívio.

Agregue a isso a ausência física do interlocutor, não há corpos presentes. Quando a distância do outro aumenta, seu olhar não é visível, todas as ovelhas viram lobos e a bravata toma conta. Acrescente ainda o imediatismo, a rapidez da rede que permite fazer sem pensar. Escrever uma carta dispendia tempo, até manda-la tínhamos refletido melhor. Agora usamos o calor do momento, que é péssimo conselheiro.

As redes sociais são um meio quase de mão única: muita exposição e pouco retorno. Somos narcisistas, mas acima disso somos carentes, queremos é ser notados, admirados. Para tanto, num lugar onde todos falam ao mesmo tempo e ninguém escuta, é natural que falemos aos berros. Tendemos ao exagero, ao insólito, ao bizarro para nos destacar da massa.

Talvez a causa mais importante seja a sensação de irrelevância política dominante. O cidadão médio considera-se impotente perante a realidade. Não se sente representado por ninguém, as grandes discussões são complexas e ele pouco entende. A rede é porosa para o desabafo do seu mal estar. Acredita que pode fazer política, ainda que minúscula, com suas investidas indignadas contra tudo e todos. O efeito é apenas catártico, uma caricatura de intervenção social. Não passa de ressentimento destilado, mas alivia.

Talvez nosso olhar viciado coloque o termômetro em lugares errados. Por duas razões: o que é bom não dá manchete, e compartilhamos uma ideia difusa de que vivemos um momento de declínio moral e espiritual. Alardeamos que o tempo da utopia acabou, viveríamos a época das distopias. Acalentamos, sem nenhuma base na realidade, a crença de que enquanto civilização estaríamos, como nunca anteriormente, rumando em direção à barbárie. Procuramos indícios do mito da decadência para referendar essa tese e, para isso, nada melhor do que as besteiras ditas sem pensar na internet.

De qualquer forma, se o ministério do bom senso existisse, advertiria: aprecie as redes sociais com moderação.

Farofa

Farofa, um amor duradouro que vem da infância

Tenho amigos apiedados de uma confraria que se esforçam em melhorar meu paladar. Querem me resgatar da simplicidade culinária. Sabem que meu cérebro pode fazer algumas ligações menos óbvias, dizer algo engraçado, coerente, ou mesmo original, mas meu estômago é unidimensional e primitivo. Cevado a prato feito da Borges e a bandejão do RU.

Por instinto gosto de comida de restaurante de estrada, de boteco. Gosto de galinha com farofa, de carreteiro, de feijoada, de dobradinha com vinho de garrafão, polenta com molho vermelho, costela gorda com salada de batata. Claro, com variações gourmet. Por exemplo, o melhor carreteiro é o feito com as sobras do churrasco, desde que tenha sobrado também linguiça, esse é o segredo.

Com meus amigos provei quitutes requintadíssimos com nomes improváveis. Adorei, repetiria outra vez, especialmente a companhia, mas nem ao menos lembro exatamente o que era e muito menos como eles o chamavam. Um dos últimos pratos dessa empreitada civilizatória fraterna levou dias de esmerada preparação e me deixou recordações fugazes. Era uma papa-fina francesa que eu comeria outra vez, lambendo os beiços, mas, e essa é a questão: com o mesmo entusiasmo com que enfiaria os dentes numa galinha de televisão de cachorro bem tostadinha. Eu sou daqueles que pode ser feliz comendo em pé um x-tudo de trailer sem esboçar qualquer medo da maionese.

Não levo jeito para chique, meu negócio é farofa. E, é claro, farofa pede acompanhamento. A feijoada, por exemplo, não é exatamente um prato. Na minha particular filosofia culinária ela é a melhor maneira de comer farofa. O feijão tem que ser maravilhoso para sublinhar meu astro principal: a farofa.

Considero a farofa a contribuição culinária do Brasil ao mundo. Ela deveria ser tombada como patrimônio da humanidade. Imagino os estrangeiros como aqueles coitados que não conhecem suas benesses. A única outra profissão que considerei foi de faroffalier, o sommelier das farofas. Mas ao mesmo tempo uma preocupação: imagine se o mundo descobrisse essa preciosidade, a que preço ela chegaria? Como seria um mercado negro da farinha de mandioca?

Estou preso a um um gosto infantil e interiorano, acorrentado afetivamente ao fogão à lenha das minha avós. Em tantas coisa rompi com o passado, mas na mesa sigo sendo uma criança. Resta assumir o cardápio infantil e jeca, invejando os amigos que ultrapassaram meu horizonte de sanduiche de mortadela com margarina. Devem enxergar mais longe, perceber sutilezas do mundo que me escapam.

Para você que é como eu: não adianta insistir, desista. Estômago que nasceu para farofa nunca chegará a apreciar um bom frufru de pripripri. Nem ao menos distinguir um bom quiqui de bonjour de um bonsoir de creuset.

27/07/15 |
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