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Sherlock Holmes das grandes causas

De detetive excêntrico a super-herói: as transformações de um personagem que foi convocado a salvar o mundo.

As crianças gostam de contos de fada pois eles lhe transmitem uma confiança no mundo: tranquiliza-as a certeza de que no fim tudo que descarrilhou voltará ao normal. Não importa o quanto o herói sofra, quantas perdas tenha, haverá uma reviravolta que colocará tudo outra vez em equilíbrio. Crescemos e seguimos pedindo à ficção garantias que a justiça triunfará, que os bons serão recompensados e os maus pagarão suas faltas. No romance policial o mal é rasteado, esquadrinhado, compreendido e finalmente vencido. Como já não temos o olhar onisciente de um deus sobre nossas faltas, criamos a ideia de que a ciência e seus métodos, aliados a homens especialmente inteligentes, descobrirão tudo. O que nos amedronta virá a luz e será eliminado. Graças a essa linhagem de homens brilhantes e implacáveis seria impossível esconder um crime, assim como era enganar os deuses. O romance policial é o conto de fada dos adultos e o detetive é seu deus decaído. Essa ficção cria um cosmo onde os fatos no princípio não fazem sentido, mas que um olhar esperto juntas as pontas soltas, desvela a maldade e a domina. Não sabemos bem qual é a face do mal, nem o número seus demônios, mas ele é vencível. E mais, o mundo não é caótico, não é som e fúria gratuita, sabendo ler os fatos ele teria um sentido.

Consideramos Edgar Alan Poe o criador do romance policial, mas o maior detetive, arquétipo de todos os que seguiram, nos foi dado por Conan Doyle com seu impagável Sherlock Holmes. Esse detetive transcendeu seu criador e a obra que o originou. Como outras personagens que se tornaram ícones, ganhou contornos de um mito contemporâneo. Por isso muitos se apropriam dele para lhe atribuir novas aventuras. Um mito é um instrumento que ajuda a pensar, uma fantasia a serviço da subjetividade de cada época. Ele muda ao sabor das transformações dos modos de ser e de conceber o mundo e revela um pouco de nós mesmos, de nossos anseios e angústias.

Por ser o melhor, Holmes possui todas as características que distinguem e definem o detetive. Além das óbvias, como inteligência aguda, rapidez de raciocínio, conhecimento enciclopédico, excentricidades aleatórias, eles tendem a ser assexuados. Os grandes detetives não têm família, não se envolvem com namoradas, ou então são passageiros seus affairs. Possuem uma misoginia difusa, tudo indica que as mulheres atrapalham a concentração, essa atitude retoma na modernidade a antiga ideia que sexo e pensamento sério não andam juntos. As mulheres seriam mundanas demais e por isso atrapalham os voos mais altos do pensamento. Como na antigas religiões, é preciso estar puro para ascender ao sagrado e a verdade.

Um dado que pouco nos damos conta é a revolução do pensamento que Conan Doyle nos propõe, e talvez essa seja uma das razões não explícitas de seu sucesso. O modo de pensar comum na virada do século XIX para o XX era partir do todo e então deduzir o particular. Doyle pega no ar a mudança em curso de paradigma e nos demonstra, de forma acessível, a possibilidade de chegar à verdade através de pequenos indícios, pistas infinitesimais em que antes não reparávamos. Hoje é fácil, depois do DNA, acreditar que as pequenas coisas têm assinatura, no começo do século passado era apenas uma intuição.

Mas o que a última versão de Sherlock, os dois filmes de Guy Ritchie, mantêm do original? Ainda é o nosso Holmes? Creio que sim, as características da sua personalidade foram mais mantidas que as do gênero policial. Os filmes estão mais próximos dos romances de aventura. No romance policial o crime já está dado, basta decifrá-lo, enquanto na aventura o mal está em curso e cabe ao herói alterar seu curso. Além disso, o Holmes de nossa época pede um equilíbrio maior entre corpo e cérebro. Hoje um herói de poltrona, sem músculos e agilidade seria impensável. O mesmo se dá em relação a Watson que passa a ser mais esperto e participativo, nosso tempo anti-aristocrático não suporta parcerias tão assimétricas.

Quanto aos objetivos, Holmes alargou seu horizontes: agora as grandes causas lhe interessam. Ao invés de assassinos pérfidos isolados, roubos e intrigas, na sua versão atual a meta é a estabilidade política da Inglaterra e evitar a primeira guerra mundial. Repaginado, ele sai da esfera policial e chega na política, agora é um herói mais elevado e politicamente correto. Sua inteligência está a serviço do bem de todos, portanto, podemos dormir mais sossegados.

publicado na revista Carta na Escola, março de 2012

18/04/12 |
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Torcida na platéia: Nada vai nos separar

Postado por mário

Ontem, sexta-feira, dia 21 de agosto estreou o filme: Nada vai nos separar – Os cem anos do S. C. Internacional. Tive a sorte e o prazer de ver na pré-estréia (mais sorte ainda de sentar atrás do Valdomiro).
Fui bem recomendado para levar lenços para as lágrimas. Não levei e nem foi necessário, eu me seguro (mas se você é do tipo que chora em casamentos, filme de animais e propaganda de margarina leve, uma toalha de banho), porém meu coração parecia num eletrocardiograma de esforço. Colorados cardíacos devem evitar o filme.

Basicamente temos a história sucinta do time, na boca de historiadores e depois de torcedores e jogadores que marcaram época. Entremeado, é claro, nos gols e momentos decisivos. Simples, mas a genialidade foi em como juntar tudo isso. A quantidade de informação é extraordinária, é um primor de montagem. São inúmeros planos e o espectador não se perde, o filme vai deixando esperas para reatá-as logo em seguida. O acerto está no equilíbrio, na concepção de clube que a equipe que fez o filme tem, ou seja, mostrou a história da interação do clube e do time com a sua torcida. É a história de uma paixão centenária, o resto é decorrência.

Você já tentou escutar um desses discos que são um apanhado dos clássicos mais famosos, uma espécie de pizza 24 sabores de música só com o recorte dos allegros de cada peça. É um saco! A música sem os andantes e os adágios não funciona. O Fischer, o roteirista, sabe que nada seria mais enjoado e raso do que uma coleção ufanista de gols, por isso as conquistas e os gols estão no contexto do momento. Eles não nos pouparam dos momentos duros do time, da década perdida (anos 90), das grandes derrotas, mas só nos recordam para preparar o clima, para revivermos os últimos títulos praticamente com a emoção engasgada que estávamos naquele momento.

Mas a comparação do filme com uma sinfonia não é por acaso, as músicas escolhidas, o hino tocado em vários arranjos, de diversas formas, ajuda na construção do clima. Dois dias depois e a trilha sonora não me sai da cabeça.
Vá com a bandeira, a emoção é de fim de campeonato.

Postado nos blogs Rolo Compressor e Terra do Nunca em agosto de 2009

19/08/09 |
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