Comportamento
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Cabeça aberta

Quem defende a legalização não é ingênuo quanto ao efeito nocivo das drogas.

Uma das dificuldades de quem luta pela descriminalização das drogas é o raciocínio simplista do outro lado, que nos acusa de desconhecer o poder mortífero, a capacidade de desagregação, que elas podem causar. Infelizmente, conheço e de todas as formas: profissionalmente em maior grau, mas também por problemas com amigos e desastres nas famílias. Os raios caem em todos os lugares. Quem defende a descriminalização não é ingênuo, apenas quer a luz do dia para tratar um problema que habita a sombra, enriquece o crime organizado e mantém quem precisa de ajuda longe dos serviços de saúde.

Esses dias o jornalista Paulo Germano fez o que me parece a atitude mais correta e corajosa para desestimular a glamourização que a maconha anda recebendo agora que se pensa em sua legalização. Ele nos conta sobre sua trajetória de usuário que, se não é tão típica, tampouco é incomum. Para ele, tudo começou muito bem, uma explosão de criatividade e energia, mas logo desenvolveu uma ideação paranoide, acreditava que todos o observavam. Depois disso foi inundado por uma apatia e lentidão de pensamento que durou algum tempo. Em resumo, travou sua vida.

Como qualquer droga, legal e ilegal, o efeito da maconha corresponde a um espectro, não existe uma maneira única do corpo recebê-la. Uma minoria desenvolve essa paranoia tão bem contada por Paulo, mas na maior parte dos casos ela funciona como ansiolítico, por isso seu uso é tão popular. Também é típico o desenvolvimento de quadros de síndrome do pânico ou até o desencadeamento de graves crises psicóticas. Atenção, ela não cria uma psicose, a fragilidade já estava ali, apenas a droga solta os tênues fios que mantinham o sujeito ligado à terra. O que se produz já provem de nós, apenas encontra frestas mais abertas para sair e nos desestruturar.

O que realmente prende a maioria dos usuários à maconha é seu poder de baixar a ansiedade, pois ela relaxa. Quem não quer ser acalmado, baixar o giro da angústia de viver? Há adultos que mantiveram seu uso desde a juventude para fins recreativos e quando isso é feito ocasionalmente não traz prejuízo mensurável, já quando o uso é diário e contínuo, paralisa a vida. A questão é simples: a ansiedade nos perturba, nos desacomoda, mas ao mesmo tempo ela pode ser o motor de mudanças, nem toda ansiedade é ruim. Quando usamos uma droga que corta a chave geral da angústia, ela suprime também a inquietude de onde provém a força necessária para ir adiante. Por isso a maconha estaciona o sujeito. Essa parada pode ser de uns dias, uns meses, uns anos, décadas… A menos que alguém acredite que essa fuga do mundo é a melhor forma de existência. A situação não é muito diferente do uso legalizado e compulsivo de medicamentos calmantes, tristemente comum hoje em dia.

Mas existe outro modo insidioso da maconha prejudicar, que é quando atinge a cognição. A droga age como se devolvesse o olhar infantil de assombro que perdemos: uma certa aura de magia que só as crianças encontram no mundo. Como ela rebaixa a cognição para estágios anteriores, infantis, sentimo-nos inteligentes em perceber como “realmente” as coisas funcionam. A maconha permite grandes sacações do óbvio, e graças a esses insights “geniais”, parecemos, aos nossos próprios olhos, como mais espertos do que antes. Que alguém possa divertir-se com essa condição tudo bem, mas achar que está fazendo uma viagem descobridora e brilhante é outro passo. Basta ver as anotações feitas durante o barato, no outro dia se revelam pueris.

A criatividade é algo extremante valorizado e alguns usuários defendem que o uso os deixa com a cabeça aberta para pensar o novo. De fato, ela faz com que abandonemos a lógica habitual e possamos trilhar uma via associativa. Para inventar esse seria o bom caminho. Porém, com o uso contínuo essa forma de pensamento torna-se o próprio modo de pensar. O raciocínio afetado pela maconha, em certos momentos, faz ligações meramente associativas como se fossem conexões lógicas, e as toma como parte integrante de um fio de sentido.          Nada tenho contra a associação, é exatamente isso o que peço para meus pacientes fazerem  no divã, porém na expectativa de que eles estejam com a mente desperta para colher os resultados dessa viagem. Já para entender o mundo, elaborar as relações entre as pessoas, o pensamento associativo não passa de errância mental. Quando o uso é abusivo a maconha emburrece. Ela induz a um déficit de atenção em pessoas que não padecem dele e quem já tem dificuldades nesse campo fica mais atrapalhado. A criatividade é fruto de grande esforço, perseverança, trabalho e não de grandes ideias que surgem repentinamente na cabeça, mas esse é um mito difícil de desmontar.

O prazer que se ganha com a vida em ordem e o dever cumprido é ralo. Há uma espécie de lógica de loteria que cerca os mistérios da felicidade. O usuário de droga intui isso, ele quer esse “a mais” que supõe que a droga lhe daria, ele disporia de um atalho para um gozo maior. A droga fornece esse brinde da vida que é a felicidade, mas só no começo. A longo prazo essa é uma promessa que não se cumpre e deixa os usuários nos desvãos, ignorantes do rumo da vida.

Um dos motes do texto do Paulo foi o anúncio da pop star Rihanna orgulhando-se de lançar sua futura marca de maconha. Uma celebridade ligada a esse produto me lembra as antigas propagandas de cigarro totalmente sem noção: “Mais Médicos fumam Camel do que outro cigarro”. Mas fazer o que, vivemos numa sociedade que permite propaganda de cerveja, que ainda por cima é sexista. Só o tempo vai nos permitir ver que estrago faz associar figuras de prestígio ao proselitismo do uso de drogas, lícitas e ilícitas.

Se você quer abrir sua cabeça não tente a maconha, tente estudar, uma leitura, ouvir uma música, conversar com gente que pensa diferente… Cabeça aberta é cabeça desperta.

14/12/15 |
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Cada criança tem seu Monstro-da-Guarda

Sobre fobia infantil

A conexão é inegável: infância e monstros andam juntos. Basta lembrar das letras das cantigas de ninar, ou olhar para os brinquedos, assistir a um pouco de TV, ler algumas histórias infantis. Lá estarão eles com suas caras feias e sua pele escamosa, rugindo, vomitando fogo ou raios cósmicos. É de pequeno que se conhece o medo, mas ele não ocorre por obra de adultos malvados que assustam as crianças para se prevalecer: os monstros comparecem ao chamado delas. A questão é discernir quando eles vêm para ajudá-las, das vezes em que o susto é fonte de sofrimento.

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19/11/05 |
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Câmeras na escola

Com o olhar onipresente da família não se cresce.

Entrei na escola com cinco anos. Fui sempre o mais novo da turma, tinha entre um e dois anos menos que os colegas. O físico tampouco ajudava, franzino e míope. Não venham me ensinar o que é bullying, sei o que é ir para a aula e enfrentar o pátio. Isso me tornou sensível a propostas que tentam diminuir o mal-estar na vida escolar. A discussão sobre o uso de câmeras nas escolas me tocou.

As câmeras de vigilância estão em todos os lugares. No começo, a novidade incomodava, evocava um mundo controlado, totalitário. Mas logo nos demos conta que elas inibem e esclarecem crimes, ajudam em coisas prosaicas como controlar o trânsito. É uma vigilância barata, segura, muitas mais virão.

Porém, a presença de câmeras na escola coloca outras questões. O objetivo seria o mesmo, proteger e prevenir. As intenções são louváveis, mas elas esquecem um fator fundamental: a escola é a primeira socialização não controlada pelos pais e é necessário que assim seja. Com o olhar vigilante e onipresente da família não se cresce. Crescemos quando resolvemos sozinhos nossos problemas, quando administramos entre os colegas as querelas nem sempre fáceis. Entre as crianças, inúmeras de rusgas se resolvem sozinhas, os pais nem ficam sabendo, e é ótimo que assim seja.

O bullying deve ser combatido, mas não dessa forma. O preço a pagar pela suposta segurança compromete a essência de uma das funções da escola, que é aprender a viver em sociedade sem os pais e a sua proteção, evocada pela presença da câmera.

Na sala de aula e no pátio da escola cada um vale por si. É preciso aprender a respeitar e ser respeitado. Nós todos já passamos por isso e sabemos como era difícil. Não existe outra forma, é isso ou a infantilização perpétua. A transição da casa para a escola nunca vai ser amena.

Essa proposta de vigilância não se ancora em razões pedagógicas e sim na angústia dos pais em controlar seus filhos. Não creio que seja a escola que reivindicam câmeras, mas quem a paga. São os pais inseguros que querem estender seu olhar para onde não devem. Existe uma correlação forte entre pais controladores e filhos imaturos, adolescentes eternos que demoram para assumir responsabilidades. É possível cuidar dos nossos filhos mesmo permitindo a eles experiências longe dos nossos olhos. A escola é deles, esse é o seu espaço e seu desafio. A escola ajuda seus filhos a crescer e eles não estão sozinhos, os professores estão lá, acredite neles. Puxe da memória, muito do que somos foi por ter enfrentado o pátio, comigo foi assim.

05/06/13 |
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Carecas

O modo como os homens lidam como a decadência dos cabelos os revela.

Meu amigo caminhava na Borges, ladeava o Parque Marinha quando passa um ônibus de excursão de colégio. Entre a algazarra escuta algo particular: - e aí careca! Olha para os lados numa derradeira esperança, mas não resta dúvida, não há mais ninguém, o careca é ele. O ônibus da juventude passou e ele não estava dentro.

Ele já sabia. Acompanhava triste as partidas cotidianas, o travesseiro lhe fazia confidências, a limpeza do ralo era uma tortura. Porém nunca tinha ouvido a maldita palavra e isso faz toda a diferença. Seu antigo cabelo cacheado, que já não consistia, ganhara uma tesourada verbal.

Este foi o último dia de seu lamento, rapou o cabelo. Ao não esconder nada, recuperou a felicidade e a autoestima. Insiste que a única atitude digna de um homem é assumir, pouco importa a idade em que venha o infortúnio. Segundo ele não se trata de colocar de lado a vaidade e a elegância, mas cabelo é projeção de uma atitude masculina por excelência.

A experiência lhe fez adotar uma filosofia: julga os homens a partir de como tratam a decadência de seus cabelos. Diz que ali moram informações valiosas sobre o caráter masculino. Afirma que já não se engana com eles, e acredita que se as mulheres prestassem atenção nesse detalhe evitariam muitos dissabores.

Para as mulheres, que talvez não nos entendam, falamos da mesma desordem cósmica que afligem os seios e seus problemas com a gravidade, ou a gramática psicótica que cerca o drama da celulite.

Todo homem um dia se depara com esse pequeno caos. As entradas, que são o preâmbulo do suplício, só perdem em desespero para o aparecimento da tonsura, o pesadelo cristalizado. É a fase em que os homens entram na dança dos malabarismos capilares, penteados esdrúxulos que passam de cá para lá, de baixo para cima, na tentativa vã de esconder o impossível. Recorremos a tudo, desde o corte melancólico que é o careca com rabinho, até o  desespero alucinado: a peruca. Todas variações de uma enganação patética que não engana ninguém.

A verdade é que o complexo de Sansão nos pega a todos. Nossos cabelos são identificados à potência da juventude, sua queda é prenúncio do outono da vida. Despedir-se deles é duríssimo. Tenho que concordar com meu amigo: a maneira como envelhecemos diz muito de nós.

18/04/14 |
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Cordialidades

A cordialidade, palavra simpática, é a cilada da cultura brasileira.

Cordialidades

A qual restaurante você voltaria?

O primeiro é honesto, pontual, tem o preço justo e a qualidade irrepreensível, mas é impessoal, o garçom não mostra os dentes. Mesmo que você retorne, ninguém demonstra te conhecer, apenas te servem. Você é mais um entre tantos clientes.

No segundo, tanto o garçom quanto o dono te recebem com sorrisos. A qualidade é boa, mas nem sempre. Nada grave, atrasos e erros aqui e ali. Porém, a cortesia do garçom reconhecendo a falha desarma qualquer reclamação. Todos te chamam pelo nome, perguntam pela família e sabem teu time.

Se você descarta o primeiro por ser gelado e sente-se melhor no segundo, perdoando certas falhas, você é bem brasileiro. Era isso que Sérgio Buarque de Holanda, retomando o termo de outros pensadores, definia como a “cordialidade” brasileira. Ele escreveu que no Brasil os laços pessoais se sobrepõem aos mecanismos de eficácia. Nesse exemplo, o brasileiro quer algo além da refeição, ser bem recebido pode ser mais importante do que a comida. Já um estrangeiro vai a um restaurante querendo comer bem e não considera prioritário que o garçom goste dele, afinal, é uma relação comercial. Se o funcionário for simpático melhor, mas o importante é o serviço.

Para compreender o conceito de Holanda, transporte esse mecanismo para os outros cenários da vida: a relação com a trabalhadora doméstica, com o médico, com o advogado. Todos querem sentir-se íntimos daqueles com os quais têm, de fato, apenas um laço de prestação de serviços. Essa aversão à impessoalidade instaura uma proximidade nem sempre viável, que pode inclusive atrapalhar, mas o brasileiro está disposto a ceder um pouco da qualidade em troca de uma manifestação que o faça sentir-se próximo. Para dar-se bem aqui, é preciso investir na relação com o cliente, priorizando isso sobre a eficiência. Os estrangeiros que desembarcam aqui para negócios ficam pasmos ao descobrir que, para ganhar um cliente, às vezes é necessário fazer um amigo. O brasileiro resiste ao anonimato natural do capitalismo.

Por tocar de ouvido, sem ler o conceito, a maioria de nós entendeu a ideia de cordialidade como sendo uma peculiar amorosidade, uma tendência à gentileza. Seríamos, nesse caso, um povo afetuoso. Lembro desse conceito, tão mal compreendido, porque o Brasil anda particularmente violento e muitos dizem que não somos mais cordiais. A questão é que somos cordiais e, por isso mesmo, violentos. Cordialidade vem do latim corda, coração. No caso, significa reagir emocionalmente frente a algo que poderia ser respondido com a cabeça. A violência é a suspensão da razão, é o extravasamento da emoção. Por isso, infelizmente, ao contrário do que pareceria, ela está mais próxima da cordialidade do que da frieza, da indiferença. O coração não é bom governante.

(coluna publicada em Zero Hora em 22 de outubro 2015, interino de Luís Fernando Veríssimo)

Crenças e ilusões do fim do século XX

Reflexões sobre o mal estar contemporâneo

Curiosamente esse fim de século concebe-se como tendo deixado todas as ilusões para trás. Depois de séculos de religiões e superstições o homem estaria percebendo o mundo sem máscaras, assim como com as ideologias e utopias saindo de cena estaríamos mais perto de uma realidade última. 

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30/12/00 |
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De volta à querência

Ah, é complicado ser gaúcho!

Como os outros brasileiros veem os gaúchos é uma questão. Como nós nos vemos é outra. Uma terceira, seria como entendem nosso estado aqueles de nós que percorreram caminhos mais largos no mundo. Eu prefiro a última. Afinal, é alguém que nos conhece e sabe do mundo. Como é daqui, gosta desse pago e não joga contra por jogar. Em suma, é um de nós com a dádiva de um olhar deslocado pela experiência estrangeira.

E o que dizem de nós os gaúchos que voltaram? Ouvi muitos relatos desses que têm esse olhar ao mesmo tempo forasteiro e crioulo, até que esses dias escutei um mais aguçado: do Walter Lidio Nunes, um gestor de empresa interessado em questões sociais. A fala dele precipitou um entendimento que já me perseguia. Ele diz que um pouco da crise pela qual nosso estado passa deve-se a nossa peculiar mentalidade conservadora.

Não entenda conservador como uma maneira mais lenta de assimilar o novo, trata-se de uma resistência à novidade, mesmo que ela seja melhor. E isso em qualquer setor, por exemplo: um engenheiro propõe uma maneira mais barata, mais eficaz e mais ecológica. Razões mais do que justas, mas a resposta é: mas nós sempre fizemos assim, por que mudar?

A novidade é vista aqui com desconfiança por ser sentida como estrangeira. O gaúcho parte do princípio de que o outro estaria querendo lhe tirar algo, logo, o que vem de fora é potencialmente prejudicial.

Já estamos acostumados com o conservadorismo de domingo, ao modo do MTG, a questão que interessa nesse caso é essa inflexibilidade nos dias de semana, que compromete os avanços do estado em várias áreas. Walter comenta que somos conhecidos pelas bipolaridades irreconciliáveis, praticamente não mudamos de opinião. Achamos que mudar é falta de caráter, preferimos seguir no engano, mostrando uma coerência com a história pessoal e não com a realidade fática. Capturados em reafirmar as pequenas diferenças, esquecemos as enormes convergências. Não nos interessa se a ideia é boa ou ruim, mas de quem ela veio, e a discordância é sempre em bloco, sem nuances. Transformamos a saudável discussão política em paixão clubista. Ou seja, facilmente atolamos pela incapacidade de atuar juntos. Em suas palavras: nosso estado se guia pelo retrovisor e não olha para frente.

São teses duras que infelizmente me fazem eco. Espero, pelo bem do estado, que estejamos enganados e que nos desmintam, que mostrem existir áreas em que ponteamos, em que somos inovadores. Mas por favor, com fatos, não com ufanismo, por que isso já é a inflação que acusa uma falha no valor. O orgulho exacerbado de ser gaúcho é uma resposta à queda de nossa importância politica e econômica no quadro do Brasil.

Deuses e astronautas

A fé e os discos voadores

Lido aos 16 anos, Eram os deuses astronautas, de Erich von Däniken, marcou minha adolescência. Hoje discordo de suas teses, na época encaradas com seriedade. Jung dizia que a fé e os discos voadores funcionam como uma gangorra. Por isso, quando a religião perdeu seu prestígio, surgiram os extraterrestres, a contribuição magna do século XX para o menu de seres fantásticos que nos assombram.

Este livro era uma resposta aos sempre presentes enigmas da origem. Segundo Däniken, o que nos tornou humanos e nos fez chegar onde chegamos, foi-nos oferecido por visitantes espaciais. Eles teriam feito parte do nosso passado, mas nossos tolinhos antepassados os tomaram como deuses. Apesar do acerto em pescar as questões quentes sobre a humanidade, a saída proposta resvala na superficialidade, confunde história e mito, e não resiste a uma crítica dos pontos de vista da arqueologia, história e antropologia. Enfim, uma simpática maluquice bem articulada.

Quando vejo o surgimento de novos mitos, lembro da minha relação com essas teorias mirabolantes, que foram presentes em um momento da vida cheio de inquietações. São teorias pseudocientíficas, conspiratórias, mitologia rala, vendidas como revelação, frente às quais tenho um certo incômodo e ao mesmo tempo empatia, já fui usuário.

A internet não as inventou, mas potencializa uma série delas, como a farsa da viagem à lua, vacinas que causam autismo, a AIDS que fora criada em laboratório, entre tantas. História e ciência levam muito tempo para serem entendidas, mais trabalhoso ainda é a coragem para enfrentar o desamparo de viver sem pensamentos mágicos. Infelizmente, a ciência não substitui bem a religião no item conforto espiritual.

Já a maioria das teorias conspiratórias, mesmo que tornem o mundo e o universo mais assustadores, podem ser repousantes. Paradoxalmente, é pior suportar o aleatório, o incompreensível, a sensação de ser apenas poeira cósmica. Levar fantasias a sério economiza estudo, pensamento, biblioteca e principalmente angústia. Ainda por cima elas somam o charme do secreto e transgressivo: seriam uma verdade da qual os poderosos estariam mantendo-nos alienados, mas nós enxergamos além. Supor que somos enganados é tentador, pois contém a ideia de que tudo têm explicação, apenas estamos alijados dela. Qualquer teoria, mesmo capenga, é preferível ao vazio de sentido com que podemos nos deparar.

O céu ainda me causa assombro, mas meu firmamento, para meu azar, ficou menos povoado. Sobrevivo sem deuses, anjos e astronautas, a fantasia teve que procurar outras moradas, mas eles me fazem uma falta!

Estatísticas abusadas

Um lapso numérico que diz muito de nós.

Esses tempos vi uma camiseta com os dizeres: 95% de todas as estatísticas são inventadas, 70% das pessoas sabem disso. Essa piada é teste para nerd, se você riu é um deles. Se não acha graça, bom, é piada nerd. Lembrei desse paradoxo jocoso, que faz uma afirmação onde a negação é implícita, a propósito dos dois vexames da semana passada.

Primeiro foi o IPEA que inverteu um resultado de pesquisa causando uma comoção. Ele nos fez acreditar que dois terços dos brasileiros concordam que as mulheres estupradas fazem por merecer, ou por estarem usando pouca roupa, ou de alguma forma sendo provocativas. Vexame dois: ninguém se tocou que os números não batem com a realidade. Ao contrário, houve quem disse sentir isso na pele, e que os dados só confirmam sua intuição prévia.

E como fica agora que é o oposto? Corrigidas as tabelas, sabemos que é um quarto dos brasileiros que pensa semelhante disparate. Embora o número ainda seja problemático, é desproporcional com o anterior quase na razão de três para um. Ou seja, segue sendo um resultado ruim, mas não tão absurdamente ruim como antes. Não é um número que nos faz parecer talibãs, é a realidade dura da América Latina machista. Como fica então a intuição? Ou só nos prova que a intuição pode ser o pântano dos nossos preconceitos, caminho para enganos?

Maldosamente, é o momento de lembrar das piadas sobre estatística, aquela ciência que diz que se eu comi um frango e meu vizinho nada, estatisticamente cada um de nós comeu a metade. Ou como se diz: ela é que nem biquíni, mostra tudo menos o essencial. Mas a questão não é a estatística, ela é só uma ferramenta. O que fica claro é que temos um fetiche com números. Eles, por si sós, parecem revestir os fatos de ciência anunciado uma verdade. As ciências sociais carecem do charme da certeza que a ciência dura diz ter. Quando alguém chega analisando a fluidez da nossa subjetividade com números e tabelas tendemos a uma aceitação sem a salutar desconfiança.

Mas um erro pode nos mostrar uma verdade, nesse caso duas. A primeira é que a sensação de medo que o estupro move, e a bestialidade que seu ato encerra, nos remete a um pensamento superlativo. Talvez o aceite do exagero seja proporcional ao absurdo, tanto do ato como do pensamento que culpa a vítima.

Segundo, parece ser que a camada pensante não conhece bem a sociedade brasileira. Basta chegarem dados que falem mal de nós, que não só acreditamos, como emendamos outros impropérios sobre o nosso atraso e falência moral. Quando julgamos nosso país somos dotados de um pessimismo trágico, tenazmente arraigado. Por alguma razão, nos apraz ver-nos piores do que somos. Já que estamos falando de abusos, não seria também um abuso pensar tão mal de nós mesmos?

09/04/14 |
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Estranho na minha alma

Separações com e como finais felizes, por que não?

Fim do dia, das forças. O amigo liga chamando para um chope. Chegando lá, agradável surpresa: na mesa estava sua ex-mulher! Inevitável não fantasiar uma retomada, a separação sempre deixa uma ferida mal fechada, uma vontade de colar o que quebrou. Sempre gostei dela, do casal que eles faziam, mas eu sabia que aquele amor acabou. Havia escutado meu amigo o suficiente para saber que seu coração tomara outros rumos. Quere-los juntos novamente era egoísmo. Apesar disso, a conversa foi deliciosa como costumava ser no passado, estávamos relaxados, contentes. Depois, cada um foi pacificamente para seu lado, sem ressentimentos visíveis.

Amigos também ficam sequelados com os divórcios, sofre-se junto. A pior partilha, quando um amor acaba ou colapsa, é a dos afetos. Os que estão de fora do relacionamento descobrem-se desagradavelmente dentro: são disputados, junto com livros discos e algum patrimônio. Os amigos raras vezes conseguem transitar igualmente entre ambos, sem ter que escolher. A posição é similar, embora menos grave, à dos filhos. Estes, no entanto, não podem, nem devem, nem querem se posicionar, precisam manter o equilíbrio.

Quando a separação é tinta fresca, os ex-amantes estão loucos. Afogados em ressentimentos, reprisam incessantemente as mesmas histórias. Exigem paciência budista. Descontam a perda em tudo o que passar pela frente, seja filho, amigo, parente ou mascote. O filhos, com o coração sem lar, precisam acolher a dupla de desequilibrados que substituiu seus pais. Os amigos sofrem mal menor, mas a costumeira intimidade agradável transforma-se no muro das lamentações.

Fico triste, mas não desaprovo separações. Já entendi que vínculos terminais devem ser eutanasiados. Relações destruídas ou destrutivas podem consumir os envolvidos até o fim. Vi muita gente florescer após um recomeço, por vezes em um novo amor, outras em importante romance consigo mesmo. Mas sei o alto preço disso. Das separações que vivi, minhas ou alheias, impossível esquecer o desgarramento, a devastação, o vazio, o sem sentido que restou. Dói, destrói. Conviver com um amigo separado é reviver esse luto, essa perda. Nessa hora, o amor fraterno é imprescindível, mas impotente, nossa presença não tapa o furo.

Aquele entardecer, na presença de uma ferida cicatrizada, me encheu de energia. “Estranha no meu peito. Estranha na minha alma. Agora eu tenho calma. Não te desejo mais. Podemos ser
amigos simplesmente. Amigos, simplesmente. E nada mais.” A letra de Fernando Lobo, na música “Chuvas de verão” traduzia o encontro. O final feliz, por vezes, não é o dos contos de fadas, o casamento, pode ser também uma separação que finalmente aconteceu. Por que não?