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A pergunta errada

Texto a respeito do suicídio

Uma das razões para o silêncio em torno do tema do suicídio é por que tememos a pergunta radical que é colocada pelos que desistem: por que mesmo vale a pena viver? Agimos como se soubéssemos muita bem a resposta, mas engasgamos se nos perguntam isso a queima-roupa. Nunca houve uma resposta fácil, se assim fosse, as religiões não teriam ameaçado tanto os suicidas com o pior dos castigos quando chegassem no outro lado.

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26/05/08 |
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Ações do Forte Apache

O tesouro da infância só vale se passado adiante.

Eu entendo o Eike Batista, sei do seu sofrimento. Como ele, já fui muito rico e perdi propriedades. Era negócio de família, eu e meu irmão. Possuíamos um Forte Apache, uma tribo de uma nação indígena (Sioux), uma granja e uma pequena vila. Vocês não imaginam o que dava de trabalho para gerenciar essa gente toda. Tínhamos ainda um conflito étnico, a maioria dos índios era comprada e colorida, mas havia os que vinham de brinde nas embalagens de Toddy que eram monocromáticos. Houve problemas de aceitação, foi um desafio assimilá-los. Acrescente a isso o desequilíbrio nas proporções sexuais, praticamente uma mulher para cem homens. Gastávamos muita energia para deixar essa engrenagem social funcionando.

Éramos felizes, afortunados, mas não ricos. Um dia a sorte grande chegou. Um vizinho arranjou uma namorada e resolveu queimar as pontes com sua infância. Para nosso benefício fomos brindados com mais um Forte Apache e um novo contingente indígena (Navajo). Graças a nossa experiência administrativa conseguimos assentar os novos imigrantes sem aumentar o território. Nossos pais, insensíveis ao problema, não disponibilizaram um quarto extra.

Dois fortes e duas nações indígenas multiplicaram os arranjos bélicos. Foram muitos massacres, mas ao contrário da história, como em nosso quarto tentávamos equilibrar o mundo, os indígenas levavam a melhor e havia um acordo de poupar os cavalos. A reconstrução era trabalhosa, mas uma nova configuração política sempre rebrotava dos escombros.

O tempo passa e novas ocupações nos tiraram do foco dessa empreitada. Para o bem desse povo resolvemos passar o domínio a um primo. Inacreditavelmente, sozinho ele deu conta. Anos depois o conjunto retorna. Minha tia diligentemente guardou tudo e devolveu quando minhas filhas eram pequenas. Descobri, junto com as meninas, que o plástico tem vida curta. Soldados calejados que passaram por tudo agora perdiam a perna apenas montando a cavalo. Sem tiros de canhões os corpos se despedaçavam, nada parava em pé. Com tristeza despachamos para reciclagem, mas os soldados e os índios entenderam que a sua missão fora cumprida.

Conto a história com um propósito: façam uma limpeza em suas casas, desentoquem os velhos brinquedos. A missão de um brinquedo é ser destruído, ele só será feliz se for usado à exaustão, se uma criança lhe tirar o suco. Infeliz do brinquedo guardado intocados na caixa original. Lembre-se: pode estar ao seu alcance fazer uma criança ser milionária.

06/04/14 |
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Admirável mundo teen

Reflexões sobre adolescência e paternidade

Vivemos uma época do pós conflito de gerações. Muitos de nós, mas certamente a geração de quem hoje está próximo dos cinqüenta anos (os nascidos nas décadas de 40, 50), viveu um sério conflito de gerações. Essas pessoas tiveram conflitos com seus pais por pensarem a vida de modo bem diferente, outros valores surgiam e se opunham aos de seus pais. Muito devemos a essa geração heróica, ela nos abriu caminhos.

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08/08/96 |
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Ainda o Dr. House

Análise desse personagem da série de TV homônima

Duas semanas atrás, a jornalista Cris Gutkoski escreveu sobre o seriado House neste caderno. Não é réplica nem espero tréplica, é apenas continuação. Gostei do artigo, gosto da série, então emendo umas linhas que espero estejam à altura dele. Não tenho o mesmo entusiasmo de fã com a série que a Cris, mas, como ela, penso que o seriado dá mesmo o que falar.

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12/12/09 |
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Andarilhos, mendigos e loucos

Reflexões sobre a subjetividade dos andarilhos e mendigos

Jairo Sette, 41 anos, ex-bailarino, vagueia há seis anos pelas cidades de São Paulo, sem lugar fixo, vivendo como mendigo. Não tinha uma vida fácil, não é fácil viver da dança; mas para quem é fácil a vida? Um dia saiu dizendo que ia viajar e nunca mais foi visto. A família, posteriormente, o localizou vivendo como mendigo nas ruas de São Paulo mas ele rejeitou a aproximação. Outras pessoas também tentaram, mas ele rejeita qualquer aproximação, diz que abraçou a miséria e tem que continuar assim.

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30/04/98 |

Apressados

Se não sabes onde vais, por que teimas em correr?

Quando estou apressado lembro de um conselho de meu avô: “estás com pressa? Então faz devagar, pois só farás uma vez!” O conselho é bom, tentando ser rápidos atropelamos as maneiras corretas de proceder e o preço é refazer ou desgastar a experiência. Premidos pelo horário engolimos a comida. Como fica sem gosto, comemos em dobro. Correndo não vemos a paisagem nem o carrossel de pedestres. Afobados não escutamos os outros. Mesmo os ruídos internos são abafados, nos distanciamos até de nós mesmos. A pressa é angustia maquiada.

A marca da nossa época é a velocidade. A indústria revolucionou a maneira de fazer objetos e a forma de encarar o tempo. A ordem é: mais produção em menos tempo. O trem, o automóvel e o avião encurtaram o mundo e a internet o fez ainda mais próximo. Isso tudo é bem-vindo, mas é bom lembrar que esse é o modo de funcionar da máquina, não o nosso. Intimamente nada mudou, para pensar e sentir ainda somos os mesmos. Para aprender e assimilar os golpes da vida, o tempo cobra o mesmo preço. O mundo nos exige a velocidade da máquina, mas às vezes somos nós que nos espelhamos em nossa criação e queremos ser como ela: rápida, eficiente e sem sentimentos.

Existe um fado onde Amália Rodrigues canta: “se não sabes onde vais, porque teimas em correr.” A sutileza do verso capta outra dimensão da pressa: ela coloca sentido onde não há. Quem não sabe para onde vai, corre a modo de formatar o caminho. O apressado parece ocupado, sério, um trabalhador orgulhoso de sua missão. Nove entre dez vezes, é apenas um desorganizado, atabalhoado, querendo nos fazer crer o contrário. Mascara com velocidade o vazio de sua missão, quando não, dele mesmo.

O novo DSM-5, a bíblia da psiquiatra americana, recém saído do forno, estipula em duas semanas o prazo para avaliar a passagem do luto normal ao patológico. Veja só, uma vida inteira ao lado de alguém e ficar arrasados por mais de quinze dias nos deixa sob suspeita. A dor de perder os pais, um filho, um amigo, agora funciona na lógica da legislação trabalhista. Pelo jeito a pressa, contingência de nossa época, subproduto da ordem industrial de conceber o mundo, virou parâmetro de normalidade. Pessoalmente creio que nos pedem um coração de lata, só assim para se despedir tão rápido.

13/06/13 |
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As bandeiras que nos restam ou Até a pé nos iremos pela glória do desporto regional

Sobre os impasses da identidade gaúcha refletidos no futebol

Os gaúchos andam ultimamente muito ouriçados pelo futebol. Creio que mais do que de costume. Não é à toa, recentemente a dupla gre-nal têm produzido feitos realmente significativos, responderia prontamente qualquer um. O Internacional saiu do seu marasmo e abocanhou três títulos internacionais. O Grêmio, depois de naufragar na segunda divisão, ressurge das cinzas e é grande candidato à Libertadores com um time “peleador”, exatamente como nosso povo acha que deve ser.

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10/06/07 |
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As mãos e os pés

No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho.
No mundo do avesso do futebol, são os pés que mandam!

Quem quiser saber por que o futebol se tornou o esporte mais popular do planeta terá que rebolar. Certamente a causa é multifatorial, mas arrisco uma teoria: o futebol é o reverso do mundo do trabalho. É o território do ócio, do esforço não produtivo, da competição brincalhona. No mundo prático quem governa são as mãos, e elas são o símbolo do trabalho. Não dizemos: mão de obra, dar uma mão, botar a mão na graxa? A mão é produção e nobreza. É ela que escreve, opera máquinas e aperta botões. Os pés nos levam de um lado a outro, mas são meros coadjuvantes, estão a serviço das artes das mãos.

No mundo do avesso são os pés que mandam, são eles que dançam, que jogam bola. No campo a mão não vale, não entra no jogo, a não ser a de Deus, como naquele dia em que, entre tantos dos seus nomes, Ele resolveu usar Diego. Pudessem tirá-la, os demais jogadores o fariam, elas estão ali só para dar graça e harmonia à corrida. Para não dizer que são completamente inúteis só servem para saída lateral, a cobrança mais rasa e insignificante do futebol. Quem pode usá-las é o goleiro, mas ele é a exceção e é o masoquista do time. Ele é o mediador entre esses mundos, é o único que não pode correr pelo campo, está fixo como um trabalhador no seu setor. Brinca mas não tanto, está no pior lugar. Indispensável, mas excêntrico ao grupo.

No fim de semana as mãos tiram folga e quem entra em campo são os pés. Nesse momento eles são valorizados e podem mostrar sua força, sua pontaria, sua destreza. Enquanto a motricidade das mãos é essencial para qualquer diligência prática, a dos pés nunca é treinada. Mão é cultura, pé é natureza. Poderíamos ter duas pernas esquerdas que ninguém perceberia. Já no futebol, é a inteligência motora dos pés que vale. O pé, como parte mais baixa do corpo, está ligado à terra, e recebe seus encantos pela sua condição animal, sua força indomada. No campo os pés estão livres para chutar, para correr, driblar, mostrar ao mundo e às mãos seu valor.

As mãos quase falam, os pés são mudos. As mãos são imperialistas, não basta trabalharem são elas que afagam, que selam pactos. São elas que deslizam pelo corpo do ser amado. Os pés querem sua parte, seu quinhão de importância, para isso ganharam os gramados de domingo.

A cabeça encontra razão motora apenas no futebol, na vida não damos cabeçadas. Usamos a cabeça para pensar a vida, mas ela fica quieta sobre os ombros e no máximo segura um chapéu e ganha um afago. Só no futebol ela pode ser animal e desferir um golpe fatal no inimigo. Com o futebol, e o uso lúdico dos pés e da cabeça, a democracia corporal se estabelece, o corpo se integra e vive a felicidade de um feriado com sol.

19/06/14 |
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Barbie: usos e abusos

Na Boneca Barbie brinca-se com a ilusão de que existiria um jeito certo de ser mulher.

Estima-se que a população de Barbies já chegaria a um bilhão. Perde apenas para a população da China e da India, e, com esse número, poderia pleitear um assento no conselho de segurança permanente da ONU. Esse grande número, e uma cultura, ainda que não profunda mas vasta, não intimidou Fernanda Roveri em sua incursão ao mundo da Barbie. Saiu recentemente seu livro Barbie na educação das meninas: do rosa ao choque. (Annablume editora, 2012). O trabalho é sobre a boneca, em primeiro plano, mas se abre para o questionar o sexismo radical dos brinquedos que estão em oferta para nossos pequenos.

A autora nos fornece um panorama da origem e evolução desse brinquedo, desde os impasses de sua criação, até as estratégias de venda que a tornaram a mais importante boneca já concebida. Na apreensão do problema a autora não se restringe aos efeitos culturais: vasculha dados sobre sua produção, a toxidade dos materiais, os chineses quase escravos que as fabricam, além das brigas nos tribunais, em inúmeras querelas jurídicas. Revela os bastidores da indústria de brinquedos, a qual nada têm nada da magia que seu produto final tenta encarnar. É a mesma estratégia agressiva dos outros setores, com seus golpes abaixo da cintura, mas que nos é vendida como ousadia, criatividade e competitividade. Depois do livro é difícil ver a Barbie com os mesmos olhos: com a lupa que o livro nos empresta, o brinquedo da Mattel ganha uma aura sinistra.

Quanto à alma do produto, pois os brinquedos nos chegam hoje acompanhados de um universo simbólico, como nos lembra a autora, mais que uma boneca, Barbie é um modelo de feminilidade. Porém trata-se de uma versão rebaixada, estereotipada, uma boneca do século XX com personalidade do século XIX. Ela não entende de matemática e gasta quase todo seu cérebro para vestir-se e adquirir acessórios. Bom, na verdade, seria extraordinário se não fosse assim, a Mattel não é uma escola nem tem finalidades educativas, apenas re-transmite os valores contemporâneos mais tradicionais.

Tendo a discordar do livro apenas em um ponto: quanto à maneira como concebe a transmissão dos valores sociais para as crianças, como se fosse sem mediação. Ou seja, como se um objeto falasse por si e a criança reproduzisse esse discurso ou o tomasse sem filtros. Na verdade, mesmo que esteja carregado de significados e mensagens, nenhum objeto em si tem tanto poder. As crianças têm muito a nos ensinar sobre a relação com os objetos, pelo menos aquelas que são saudáveis o suficiente para brincar no sentido pleno da palavra. Brincar é criar, é corromper o brinquedo ao sabor de sua imaginação. Somente crianças muito isoladas, com parcos recursos intelectuais, e ou com transtornos de saúde mental, tomam os brinquedos e mensagens culturais de forma direta.

Entre a criança e o brinquedo existem muitos mediadores e os pais são fundamentais nesse cálculo. As crianças não têm orçamento próprio, há sempre um adulto entre ela e seu brinquedo. Portanto, mesmo que o pedido venha do pequeno consumidor, a compra é um aval para que esse objeto faça parte da vida da criança. A pergunta que se impõe nesse caso é: como podemos dar tal boneca às nossas filhas? Será que desejamos que elas tenham horizontes tão estreitos? É uma aposta em sua futilidade? Revela nossa visão verdadeiramente retrógrada da condição feminina?

A resposta não é difícil: a boneca Barbie pode servir para estabelecer parâmetros externos sobre aparência das mulheres, portanto transmite valores estéticos, que servem para calar as inquietações dos pais a respeito da formação da identidade de gênero. Embora hoje os gêneros estejam entrelaçados como nunca, tanto no papel desempenhado no mundo, quanto na aparência, ainda nos sentimos muito inquietos relativo a isso. Existe um apego aos indícios que caracterizam um gênero ou outro, já que nos restam tão poucas certezas sobre a identidade que queremos, podemos e devemos ter. Parecer mulher ou homem é ainda um valor fácil de adquirir e ostentar. Os pais contemporâneos sentem-se inseguros de conseguir transmitir aos filhos o suficiente para que eles sejam “maravilhosos” e “vencedores”, tão perfeitos na realidade quanto na sua fantasia. Se os filhos se parecerem em gênero ao sexo em que nasceram, os pais se tranqüilizam, missão cumprida, pelo menos nesse quesito.

Os brinquedos marcadamente femininos ou masculinos (ou seja, a maioria deles) cumprem essa função de assegurar aos pais do destino “correto” de seus filhos. A tolerância às ambiguidades sexuais, quando ela existe, funciona com os filhos dos outros. Quanto aos próprios, só os extremos bem marcados são bem vindos, por isso os pais são cúmplices da industria de brinquedos. Pais que compram Barbie sabem o que fazem, e pagam, concordando ou não se importando, com o efeito colateral de uma identidade feminina superficial e vazia que acompanha o brinquedo. A Mattel trafica valores discutíveis, é uma indústria carente de qualquer de ética, concordo. Porém, o consumidor, assim como a criança, não é tão tolo: pagamos caro pela ilusão de uma certeza, a de que existiria um jeito certo de ser mulher.

Por sorte, as mulheres, com suas inúmeras revoltas e conquistas, apesar de brincarem com bonecas tão fúteis, estão cada vez menos Barbies.

Publicado na Revista Carta Fundamental – Edição de maio de 2012

Cabeça aberta

Quem defende a legalização não é ingênuo quanto ao efeito nocivo das drogas.

Uma das dificuldades de quem luta pela descriminalização das drogas é o raciocínio simplista do outro lado, que nos acusa de desconhecer o poder mortífero, a capacidade de desagregação, que elas podem causar. Infelizmente, conheço e de todas as formas: profissionalmente em maior grau, mas também por problemas com amigos e desastres nas famílias. Os raios caem em todos os lugares. Quem defende a descriminalização não é ingênuo, apenas quer a luz do dia para tratar um problema que habita a sombra, enriquece o crime organizado e mantém quem precisa de ajuda longe dos serviços de saúde.

Esses dias o jornalista Paulo Germano fez o que me parece a atitude mais correta e corajosa para desestimular a glamourização que a maconha anda recebendo agora que se pensa em sua legalização. Ele nos conta sobre sua trajetória de usuário que, se não é tão típica, tampouco é incomum. Para ele, tudo começou muito bem, uma explosão de criatividade e energia, mas logo desenvolveu uma ideação paranoide, acreditava que todos o observavam. Depois disso foi inundado por uma apatia e lentidão de pensamento que durou algum tempo. Em resumo, travou sua vida.

Como qualquer droga, legal e ilegal, o efeito da maconha corresponde a um espectro, não existe uma maneira única do corpo recebê-la. Uma minoria desenvolve essa paranoia tão bem contada por Paulo, mas na maior parte dos casos ela funciona como ansiolítico, por isso seu uso é tão popular. Também é típico o desenvolvimento de quadros de síndrome do pânico ou até o desencadeamento de graves crises psicóticas. Atenção, ela não cria uma psicose, a fragilidade já estava ali, apenas a droga solta os tênues fios que mantinham o sujeito ligado à terra. O que se produz já provem de nós, apenas encontra frestas mais abertas para sair e nos desestruturar.

O que realmente prende a maioria dos usuários à maconha é seu poder de baixar a ansiedade, pois ela relaxa. Quem não quer ser acalmado, baixar o giro da angústia de viver? Há adultos que mantiveram seu uso desde a juventude para fins recreativos e quando isso é feito ocasionalmente não traz prejuízo mensurável, já quando o uso é diário e contínuo, paralisa a vida. A questão é simples: a ansiedade nos perturba, nos desacomoda, mas ao mesmo tempo ela pode ser o motor de mudanças, nem toda ansiedade é ruim. Quando usamos uma droga que corta a chave geral da angústia, ela suprime também a inquietude de onde provém a força necessária para ir adiante. Por isso a maconha estaciona o sujeito. Essa parada pode ser de uns dias, uns meses, uns anos, décadas… A menos que alguém acredite que essa fuga do mundo é a melhor forma de existência. A situação não é muito diferente do uso legalizado e compulsivo de medicamentos calmantes, tristemente comum hoje em dia.

Mas existe outro modo insidioso da maconha prejudicar, que é quando atinge a cognição. A droga age como se devolvesse o olhar infantil de assombro que perdemos: uma certa aura de magia que só as crianças encontram no mundo. Como ela rebaixa a cognição para estágios anteriores, infantis, sentimo-nos inteligentes em perceber como “realmente” as coisas funcionam. A maconha permite grandes sacações do óbvio, e graças a esses insights “geniais”, parecemos, aos nossos próprios olhos, como mais espertos do que antes. Que alguém possa divertir-se com essa condição tudo bem, mas achar que está fazendo uma viagem descobridora e brilhante é outro passo. Basta ver as anotações feitas durante o barato, no outro dia se revelam pueris.

A criatividade é algo extremante valorizado e alguns usuários defendem que o uso os deixa com a cabeça aberta para pensar o novo. De fato, ela faz com que abandonemos a lógica habitual e possamos trilhar uma via associativa. Para inventar esse seria o bom caminho. Porém, com o uso contínuo essa forma de pensamento torna-se o próprio modo de pensar. O raciocínio afetado pela maconha, em certos momentos, faz ligações meramente associativas como se fossem conexões lógicas, e as toma como parte integrante de um fio de sentido.          Nada tenho contra a associação, é exatamente isso o que peço para meus pacientes fazerem  no divã, porém na expectativa de que eles estejam com a mente desperta para colher os resultados dessa viagem. Já para entender o mundo, elaborar as relações entre as pessoas, o pensamento associativo não passa de errância mental. Quando o uso é abusivo a maconha emburrece. Ela induz a um déficit de atenção em pessoas que não padecem dele e quem já tem dificuldades nesse campo fica mais atrapalhado. A criatividade é fruto de grande esforço, perseverança, trabalho e não de grandes ideias que surgem repentinamente na cabeça, mas esse é um mito difícil de desmontar.

O prazer que se ganha com a vida em ordem e o dever cumprido é ralo. Há uma espécie de lógica de loteria que cerca os mistérios da felicidade. O usuário de droga intui isso, ele quer esse “a mais” que supõe que a droga lhe daria, ele disporia de um atalho para um gozo maior. A droga fornece esse brinde da vida que é a felicidade, mas só no começo. A longo prazo essa é uma promessa que não se cumpre e deixa os usuários nos desvãos, ignorantes do rumo da vida.

Um dos motes do texto do Paulo foi o anúncio da pop star Rihanna orgulhando-se de lançar sua futura marca de maconha. Uma celebridade ligada a esse produto me lembra as antigas propagandas de cigarro totalmente sem noção: “Mais Médicos fumam Camel do que outro cigarro”. Mas fazer o que, vivemos numa sociedade que permite propaganda de cerveja, que ainda por cima é sexista. Só o tempo vai nos permitir ver que estrago faz associar figuras de prestígio ao proselitismo do uso de drogas, lícitas e ilícitas.

Se você quer abrir sua cabeça não tente a maconha, tente estudar, uma leitura, ouvir uma música, conversar com gente que pensa diferente… Cabeça aberta é cabeça desperta.

14/12/15 |
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