Cultura Infanto-Juvenil
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Eu me inscrevo, me descrevo: escrevendo em mim

Sobre tatuagens e outras marcas corporais

O hábito de enfeitar o próprio corpo com cicatrizes e pigmentos é trans-cultural e milenar, e agora é moda juvenil no mundo globalizado. As tatuagens, que costumavam ser de uso eventual na população em geral, e de uso massivo apenas em grupos marginais e de instituições fechadas, ganharam um novo e amplo público nessas últimas duas décadas. Os piercings acompanharam a tendência, e em menor escala, mas nessa mesma direção, as escarificações para fins decorativos e os implantes subcutâneos.

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Mafalda

Trecho do livro “Fadas no divã” sobre a personagem. Uma homenagem à partida de Quino.

MAFALDA

Mafalda é uma menina petulante, uma fonte inesgotável de perguntas sem respostas. Sem ser seu objetivo, cria constrangimentos para seus despreparados pais com questionamentos inusitados e agudas observações sobre o mundo. Ela é o personagem principal de tiras humorísticas, publicadas na Argentina desde 29 de setembro de 1964 até 25 de junho de 1973. Quando terminou sua temporada nos jornais, sobreviveu nas décadas seguintes graças às compilações em livros, a bordo dos quais chegou às gerações posteriores e a vários países. Os livros de Mafalda foram traduzidos para seis línguas e alcançaram sucesso tanto na Europa quanto na América Latina. Além disso, o personagem se popularizou em objetos como pôsteres, camisetas.
Filha do humor inclemente de Quino, ou Joaquín Salvador Lavado, nascido em Mendoza, no ano de 1932, ela se permite questionar tudo. Apesar de seus cinco ou seis anos de vida, não pára de pensar nos descaminhos da humanidade, na beligerância dos povos, no poder dos militares – os golpes pipocavam na América Latina da época –, nos problemas do terceiro mundo, na ampliação dos horizontes femininos e na podridão dos políticos de plantão. Ela gosta de brincar de governo, escuta notícias no rádio e filosofa sobre um globo terrestre, que é seu brinquedo predileto. Como vemos, tudo muito engajado.

Uma infância politizada

Mafalda é tudo o que na verdade as crianças não são. Elas podem até ser observadoras e fazer perguntas sobre política, mas isso somente ocorrerá no caso desse ser um tema corrente e relevante dentro da família. Na infância, a rua é secundária à casa e são os pais e os irmãos, acrescidos de alguns parentes mais próximos, que ocuparão o centro das atenções. Mesmo os pequenos que freqüentarem creches ou escolas ficarão esse tempo entre outras crianças, aprenderão a diferenciar ambientes diversos e as regras que lhes são próprias, mas continuarão ligados à família em termos emocionais. O que ocorre na escola geralmente é conseqüência da vida doméstica, é raro que um drama se origine no sentido inverso.
Na infância, é possível questionar-se sobre grandes temas, como a morte e o sexo, mas será decorrente de observações e impasses domésticos, e esses pensamentos se expressarão principalmente através de brincadeiras e conversas meio enigmáticas, nas quais se nota nitidamente que a criança está abordando algo que está além de sua compreensão. Seguidamente as vemos fazer perguntas e afirmações que mostram que estão envolvidas com alguma questão transcendental, mas os diálogos são curtos, estranhos, e a criança se recolhe contente com alguma resposta parcial, deixando o adulto desconcertado. Se algo importante acontece na rua, como catástrofes naturais ou sociais, abalos ou vitórias políticas, problemas como o desemprego e a carestia, será através das reações dos membros de sua família frente a esses fenômenos que as crianças os acessarão e compreenderão. A criança não é ainda um cidadão constituído, seus pais é que são, sua sociabilidade está ainda em construção.
Os personagens de Quino são ainda mais distantes do mundo infantil que a turma de Charlie Brown, cujas vidas contém dramas de auto-estima e relativos ao convívio com seu grupo de amigos, que não são ausentes da infância. Apesar disso, é necessário esclarecer que a ambientação e a rotina de Mafalda e de seus amigos é tão típica da infância quanto a dos Peanuts, poderíamos dizer que até mais, na medida em que Quino inclui o relacionamento dos personagens com seus pais.
O que é menos próprio da infância, neste caso, são os dramas enfocados, pois até quando se revolta contra a imposição familiar de tomar sopa, Mafalda o faz com um tom filosófico ou politizado. Como a subjetividade das crianças dessas tiras se aproxima pouco da realidade da infância, acreditamos que para Quino elas representariam uma espécie de utopia ética nesse mundo confuso e problemático. Restaria à infância um lugar de alteridade à mediocridade da vida, ao absurdo que reside na crueldade, na desigualdade e na beligerância da nossa organização social. Pensando nessa direção, só o olhar infantil nos revelaria o ridículo que nos cerca. Estaria nas crianças a possibilidade de esperar algo melhor dos humanos, já que elas ainda não foram corrompidas pelo tempo e pela sociedade. Não pensamos que Quino acredite numa teoria rousseauniana, que atribuiria uma pureza essencial à infância, mas é a mensagem que acaba decantando quando se coloca tanta crítica social na boca de personagens tão jovens.
Aliás, nem todas as crianças desempenham esse papel nas tiras de Mafalda. Os personagens que contracenam com a protagonista também mostram em sua personalidade os adultos problemáticos que um dia serão. Em alguns deles é visível o potencial de liberdade de pensamento e qualidade ética que se gostaria que crescesse junto com as crianças, mas também há personagens que trazem dentro de si o embrião do contrário. É de pequenino que se torce o pepino, por isso entre eles há personagens embotados e preconceituosos. Através desses protótipos caricaturais de Mafalda e alguns de seus amigos, torna-se possível revelar os pontos de fratura do mundo capitalista e das famílias de classe média em que eles estão crescendo.

Pequena gente grande

Mafalda é simplesmente alguém que pensa; sua peculiar sensibilidade pode ser encontrada em qualquer idade salvo, ou pelo menos em raríssimas exceções, na infância. O importante desse personagem, e seu toque de humor, é sua capacidade de levantar questões relevantes a partir de partículas do cotidiano que estão dentro da casa e da vida de qualquer um. O contato com o mundo é feito através de um rádio, sua representação é um globo terrestre, um banquinho serve para brincar de governo, o armazém onde se compra a comida da casa abre uma janela para as questões econômicas e o jeito das pessoas que passam pela rua é uma ponte para falar de grandes temas humanos, como a felicidade, a bondade e o envelhecimento.
A vida desfila inteira pela calçada ou pela pracinha de Mafalda e pode ser conjugada inteiramente dentro das paredes de sua casa. Quino parece dizer que só não pensa quem não quer, não importa quão pequeno se é e quão estreitos são seus horizontes. Mas nem só de problemas do mundo vive Mafalda, também existem fatos de infância propriamente ditos: sua ojeriza a sopas, seu ciúmes pela chegada do irmão, a curiosidade pelo hobby do pai de cultivar plantas de interior, assim como o gosto por se alienar na televisão. Apesar dos assuntos infantis e domésticos, a reação de Mafalda é de elevada reflexão ou de linguajar adulto. Por exemplo, quando expressa seu temor de perder o lugar no amor dos pais em função do nascimento do irmãozinho, ela diz que sente como se o coração deles tivesse aberto uma filial; quando canta no banho, ela diz que é a única maneira de superar essa imensa e branca solidão da banheira.
A graça das tiras de Mafalda parece ser similar à que referíamos relativo aos Peanuts: a de colocar a sabedoria de gente grande para interpretar a vida de gente pequena. Não se trata apenas de injetar a maturidade futura no passado pueril da infância, a operação seria também a de mesclar a pureza infantil na capacidade adulta de criticar a sociedade e a própria vida. Essa combinação de inocência infantil com uma crítica adulta aguçada, além do efeito de humor, empresta um sopro de esperança mesmo ao mais trágico pessimista. Afinal, se temos trabalhado tão diligentemente para destruir e estragar o mundo, quem sabe os que virão não o consertem?
Em suma, como nos Peanuts, temos em Mafalda os personagens crianças-adulto. Um universo onde a precocidade das crianças revela as mazelas adultas. O que distancia as crianças de Schulz das de Quino é a inclusão dos problemas do mundo na trama das tiras. Para Mafalda, esses problemas são quase um personagem, se lembrarmos um globo terrestre e um rádio com os quais ela praticamente conversa. Enquanto a obra do americano deixa as crianças numa bolha, que as circunscreve à casa e à escola, o argentino as coloca no mapa. Como dizíamos, os cenários são os mesmos, varia o ponto de vista. Para Schulz, no cotidiano pequeno da infância é possível encenar a comédia humana do indivíduo; em Quino, além desses, são também enfocados os dramas sociais.
Mafalda colocou toda uma geração a pensar sobre a miséria do seu cotidiano, mas sem se desligar da premência de questionar o momento histórico em que viviam. O mundo dela retrata especialmente a América Latina, dos anos 60-70, com suas esperanças e pesadelos. Mas não se pense que ela é uma militante política obcecada pelos grandes temas apenas, por exemplo, uma das questões constantes é a paixão dessa menina pelos Beatles, uma escolha estética que ela defende com unhas e dentes, frente a seu amigo Manolito, que a acusa de gostar de uma música cuja letra não entende. Ela também tem questões sobre a felicidade, interroga-se porque alguns são tão amargos e outros não, sobre o amor e o casamento.
Porém Mafalda é uma menina, e tanta sensibilidade política não lhe serve muito quando o assunto são seus pais: ela não esconde uma certa decepção pelo pouco que eles conseguiram ser na vida, o pai lhe parece mais um coitado que é sugado pelo mundo do trabalho, a mãe uma medíocre que não sabe nem se importa com nada fora das lides domésticas. Esta é a mais alfinetada pela crítica da pequena feminista empedernida que ela tem em casa. Num dos quadrinhos, Mafalda observa a mãe trabalhando, estafada com as lides domésticas, e pergunta, assustada, se a capacidade para triunfar ou fracassar seria algo hereditário. Noutro, frente a esse mesmo quadro, a menina lhe pergunta: – o que gostarias de ser se vivesses?
Essa esperta menina parece não esperar que seus pais lhe transmitam algo, um conhecimento sobre o mundo, é ela que detém a sabedoria. Quando não compreende algo, perguntar a seus pais revela-se inútil, é só para deixá-los perplexos e ou constrangidos. A fonte da sabedoria nestas tiras é o dicionário, ela o consulta constantemente e discute suas respostas furiosamente. Junto com o globo e o rádio, o dicionário completa o tripé de objetos que representam o mundo nas tiras.
Apesar de freqüentar a escola, essas crianças parecem aprender sozinhas, com a ajuda de alguns instrumentos. Os pais até fornecem elementos, como certa ocasião em que o pai de Mafalda lhe presenteou com um pôster que mostrava ruínas gregas, dizendo-lhe ser esse o berço da nossa civilização. Bem, bastou o pôster e a frase, para que fossem disparadas um sem número de reflexões sobre o fato de uma imagem de destruição e ruína ser a de nossa origem. Portanto, temos uma síntese entre um ambiente estimulante e uma liberdade de pensamento, que se processa em mentes puras e não viciadas. É este nosso ideal de aquisição de conhecimento. Queremos proporcionar aos mais jovens muitas fontes, mas desejamos que tirem suas próprias conclusões, porque confiamos muito pouco nas nossas e esperamos muito das deles. As crianças de Quino são também representantes das nossas mais acalentadas ilusões pedagógicas.
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A troupe

Não são muitos os personagens que acompanham Mafalda, são seus vizinhos dum bairro da classe média portenha. Susanita é o protótipo da mulher que não quer saber de nada fora sua estreita vida doméstica, seus planos de ascensão social e seus futuros filhos. Manolito só pensa em dinheiro, uma atividade, convenhamos, para lá de adulta. Os personagens que teriam características mais infantis são o angustiado Felipe, com sua pertinaz procrastinação de tarefas, e Miguelito, que se perde em fantasias megalomaníacas, embora essas características sejam encontráveis na maioria dos mortais em todas as idades
Felipe, ou Felipito, é um neurótico, mas seu acento está mais na angústia do que no fracasso. A caminho do colégio, ele se paralisa de pânico, supondo que esqueceu o tema de botânica em casa, abre a pasta, para constatar que estava lá, alguns metros depois, é tomado pela dolorosa possibilidade de ter esquecido o compasso para a aula de geometria, com o coração explodindo, abre a pasta para também concluir que estava com ele. É aí que ele faz a pergunta que poderia ser a da maioria de nós: – Justo a mim tinha que ter me acontecido ser como eu?
Esse personagem deixa para fazer os deveres de casa no último momento, mas passa a tarde toda martirizando-se porque deveria estar fazendo-os. Não faz suas tarefas, mas está irremediavelmente preso a elas. Quando enfim tenta encarar uma tarefa mais difícil, sentado à mesa fica devaneando com seu herói preferido, El Llanero Solitário, uma espécie de cowboy justiceiro. Apesar de ser um menino esperto e um pouco mais velho, ele não possui a inteligência nem a precocidade de Mafalda, mas é com ele que ela se sente mais perto de ser entendida.
Se na mãe da menina e no personagem de Susanita são veiculadas críticas à mediocridade das mulheres, através de Felipito, Quino expõe a fragilidade e a dependência dos homens, pois a amiga está sempre tentando tirar este menino dos labirintos neuróticos e sofridos em que ele se mete. Com certeza as angústias de Felipe não são absolutamente próprias de um gênero ou outro, elas apenas se revelam masculinas pelo fato de que despertam em Mafalda um certo zelo maternal, denotando essa eterna vocação para filhos que os homens carregam pela vida afora. O pai de Mafalda também se desespera, frente às perguntas irrespondíveis da sua pequena ou até frente à invasão de formigas em seu jardim de apartamento, aí é a mãe dela que vai cumprir essa missão de dar colo para um homem fragilizado.
As constantes críticas à mediocridade da mãe levam à valorização de uma vida de maior inserção social para as mulheres, motivo pelo qual devíamos classificar Mafalda como uma feminista. Mas, na verdade, esses questionamentos também transcendem uma questão de gênero, visam mais do que nada situar que os pais já não servem de exemplo, e os novos humanos deverão crescer apoiados em suas próprias convicções. As mulheres terão de se mostrar maternais em casa, mas também guerreiras na rua. São tempos confusos e misturados para os gêneros, e a turma de Mafalda parece ilustrar isso bastante bem. Por outro lado, como a visão de Quino é de esperança, certamente trata-se de uma aposta otimista em que homens e mulheres possam se beneficiar do fato de que seus destinos se tornaram mais complexos e abertos.
A outra menina do grupo, Susanita, é o oposto de Mafalda e vai na contramão dessa tendência de ampliação dos papéis masculino e feminino, é um contraponto ilustrativo, que serve para ressaltar a posição do personagem principal. Enquanto Mafalda tem olhos para o mundo e seus problemas, Susanita vive sonhando com seus futuros filhos e um lar abastado, o marido parece lhe importar menos nos seus planos, um mero instrumento para atingir seus objetivos. Por isso não podemos afirmar que ela é romântica e pueril, pelo contrário, seu personagem concentra os piores e mais antigos preconceitos contra as mulheres: ela é calculista, fofoqueira e egoísta, sua paixão pelos filhos bem sucedidos que terá (conforme ela, seu filho será um doutor muito famoso e rico) é uma ilustração da glória obtida através da maternidade. Ela vive cometendo gafes, hoje diríamos politicamente incorretas, que só mostram o seu anacronismo. Até quando está tentando ser simpática e entender o ponto de vista dos outros se revela ignorante e inadequada. Por exemplo, certa ocasião comenta com Mafalda que, já que ela era tão anti-racista, talvez o irmão que sua mãe estava esperando viesse a ser uma criança negra e isso seria lindo, pois combinaria com o discurso de sua amiga.
O oposto político de Mafalda, e seu personagem masculino para representar a mesquinhez humana, é Manolito. Esse menino é filho de um gallego dono de armazém que, aliás, já trabalha com seu pai, fazendo entregas e às vezes atendendo no balcão. Ele é um devoto desse pequeno negócio, fica sonhando com campanhas publicitárias mirabolantes para tocar o futuro grande empreendimento comercial que sonha um dia construir. Na atmosfera política da época dessas histórias, o maior palavrão político para acusar alguém era taxá-lo de pequeno burguês. Fruto de um marxismo mal digerido, essa palavra vendida como classificação teórica servia para adjetivar o que de pior se imaginava haver em termos de reacionarismo político e estreiteza de pensamento. Pois bem, é nesse contexto que nasce Manolito, um menino que só tem olhos para os negócios, mas tão pequeno é seu foco do mundo que pequeno torna-se seu ser. Manolito é limitado e burro, tanto no que diz respeito aos questionamentos que seus amigos fazem, que em geral não acompanha, quanto na escola, onde é o pior aluno da classe. Quino não esconde o que para ele é a inteligência, deve estar relacionada com a imaginação e a capacidade de criticar o mundo, e a burrice, associada ao pragmatismo, a uma mente dinheirista e pobre de espírito.
Miguelito talvez seja o único personagem do grupo que é um pouco mais infantil, é também o mais traquina de todos, bate nas campainhas e sai correndo, grita coisas atrás de um tapume para assustar os passantes. Claro, depois faz uma reflexão, um tanto quanto adulta, de como essa é a faceta mais sórdida da sua personalidade e acusa-se de covardia. Também é adulta sua consciência de que a culpa de pouco ajuda para prevenir novas travessuras.
Para representar a infância propriamente dita e poder fazer piadas com a lógica infantil foi preciso nascer Guille, o irmão caçula de Mafalda, esse sim transita dentro dum universo de papai, mamãe e chupeta. Guille é uma gracinha, faz artes de criança pequena, e é sua irmã e seus amigos que dão discursos defendendo sua liberdade de expressão, ou seja, seus direitos de correr pelado e desenhar nas paredes da casa.
Mais tarde, junta-se ao grupo uma voz ainda mais politizada que a de Mafalda, chama-se Libertad. Embora o novo personagem tenha a mesma idade que Mafalda, é muito pequena na estatura, o que contrasta com a sua enorme capacidade de se expressar. Libertad é pequena como a liberdade que havia na época dessas tiras e fica irritada quando as pessoas tiram a óbvia conclusão sobre a relação entre seu tamanho e nome. Sua fala acaba sendo uma radicalização do discurso de Mafalda sobre as mazelas do mundo e a asfixia de pensamento. A metáfora não poderia ser mais direta, mas apesar disso a voz dessa esperta pequena encontra a mesma amplitude que uns poucos corajosos conseguiram ter para combater os anos de chumbo que maltrataram a América Latina. São os grandes perfumes nos pequenos frascos.

Nárnia: crônicas da infância em tempos de guerra

Sobre o filme As Crônicas de Nárnia, intersecção entre fantasia e história

Estamos na Segunda Guerra, Londres é intensamente bombardeada, não há casa segura. O governo tenta minimizar as perdas humanas evacuando as crianças para as áreas rurais. Especialistas são convocados para saber qual a idade mínima para afastar mãe e filho sem danos irreversíveis. Os psicanalistas Winnicott e Bowlby acreditam que até os dois anos de idade é melhor expor-se aos bombardeios do que se separar da mãe. O resto das crianças vai para o interior, mesmo que em situações improvisadas. Dos males o menor. Esse é o pano de fundo do primeiro movimento do filme As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa dos Estúdios Disney, que conta o primeiro livro do universo de C. S. Lewis.

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O que nos maravilha em Alice?

Sonho e infância para todas as idades

Alice, seu País das Maravilhas e suas aventuras Através do Espelho, seguem angariado legiões de fãs e estudiosos. Eles encontram em suas linhas todo tipo de sabedoria e maluquice: desde complexos enigmas matemáticos até não menos cabeludas patologias psíquicas. Discutem-se essas inferências praticamente desde sua publicação, em 1865. É inútil colocar mais lenha nessa fogueira, que deve ser deixada aos cuidados dos ativos membros das diferentes Lewis Carroll Society distribuídos ao redor do mundo todo, especialistas na matéria. A pergunta que nos colocamos aqui é bem mais simples do que as que inquietam esses nobres estudiosos: o que faz essa personagem ser tão tocante para tantos, por tanto tempo?

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Por que as crianças precisam de histórias?

Revista Mente&Cérebro, ano XVI, número 197

Fantasiada, com todas as cores que capta lendo e vendo,

a criança entra no meio de uma mascarada e também participa dela.[1]

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Por que tantos peregrinaram ao ônibus da história “Na natureza selvagem”?

Qual o fascínio para os adolescentes da jornada de Chris ao Alaska?

O ônibus de “Na natureza selvagem” não está mais na natureza selvagem.
Recentemente, um helicóptero da Guarda Nacional do Exército do Alasca removeu o lendário ônibus onde Christopher McCandless encontrou o triste fim da sua jornada de filosofias e aventuras. O local tornara-se meca de perigosas peregrinações, de pessoas identificadas com sua história. Foram tantos os extraviados, resgatados com dificuldade, tendo havido inclusive casos de óbito, que as autoridades tiveram que remover esse “monumento”. O que foram tantos procurar em meio à inóspita paisagem alasquiana? Em nosso livro, “Adolescência em cartaz” dedicamos um capítulo a esse personagem, que existiu na realidade e tornou-se uma das grandes fantasias sobre a juventude. Abaixo, alguns excertos:

“Os alasquianos habitam um território no extremo dos Estados Unidos que, pela sua beleza e natureza hostil, desperta a imaginação de pessoas de outras regiões. Eles estão habituados à aparição de peregrinos e Christopher McCandless, um rapaz de 24 anos, oriundo de uma família classe média alta de Annandale, Virginia, foi mais um deles. Eles os vêm com certo desprezo, como assombrações que insistem em passar por ali, impulsionados por fantasias a respeito de si e do lugar e assim os descrevem: ‘jovens idealistas, cheios de energia, que se superestimaram, subestimaram a região e acabaram em dificuldade (…) há um bocado desses tipos perambulando pelo estado, tão parecidos que são quase um clichê coletivo.’”(…)

A região atrai todo tipo de aventureiro, em geral jovens, submetendo-se à rudeza da experiência como rito de passagem. A fibra necessária para enfrentar tal provação, os sofrimentos físicos e a superação dos medos, a solidão em que em geral essas viagens são feitas, se justificam na expectativa de consolidar uma identidade e de corroborar um valor que eles próprios possam acreditar que têm. (…)

“Vale questionar-se sobre as razões de por que a trajetória desse rapaz tenha se tornado livro, filme, motivo de debates acalorados, assim como inspirador de identificação entre aqueles que sequer gostam de aventuras na natureza radicais na natureza. Apesar de seus desejos eremitas, o autonomeado Alex era um entusiasta contador de sua própria história e de seus ideais, deixou suas andanças documentadas, além de comentários sobre as fontes literárias em que fundamentava suas crenças. A última aventura, por ser desastrada e dramática, tomou o centro da narrativa e o ângulo pelo qual o enxergamos, mas ele foi muito mais do que isso. Sua morte trágica, por inanição no Alasca, nos legou uma coleção de enigmas. Enigmais e pistas a respeito de como teria sido o encontro do jovem com a natureza e a morte. Sua tragédia real, fortemente inspirada na literatura avizinhou-se da poesia. Por isso os escritor Krakauer, o cineasta Sean Pen e neste momento nós também, assim como tantos outros, seguimos ocupando-nos dessa história, que se tornou mítica.
São poucos os que têm coragem de fazer a experiência radical de largar a vida comum e sair ao encontro da aventura, principalmente hoje, em que há uma enorme adesão a uma vida reclusa onde pode-se viver experiências meramente virtuais. Muitos desses jovens acomodados sonham com os verdadeiros riscos e as genuínas vivências de quem abriu mão de todas as comodidades e da segurança por opção, e não em nome de uma causa ou missão, ou ainda por ter sido convocado.
O sucesso do livro não é outra coisa que combustível para essa fantasia – e isso nos revela o desejo de fuga como uma das dimensões da adolescência. Na prática pode ser a migração para outra geografia, para outra cultura, mas, em muitos casos, como neste, para fora da cultura propriamente dita, como se a natureza o fosse purificar da sua história, como se ela fosse a única alteridade respeitável. Esta é a dramática história de um jovem buscando refundar-se com o mínimo apoio possível, longe de tudo e de todos.” (…)
“O interessante em estar na estrada é viver sem rumo, o que importa é o meio não o fim, não se vai a lugar algum, apenas se vai. Talvez possa ser lido como uma colocação em ato de uma das grandes questões dessa fase: como não sabem para onde ir, o caminho se faz ao andar. Assim vivem um eterno presente, esquivando-se da pergunta que ronda: o que vais fazer da tua vida? A pergunta é simples, singela, mas para muitos ela abre uma porta de pavor, sentem-se incapazes de responder e, imaturos demais para as exigências do mundo. Fogem da questão e de quem eles supõe que a fariam.
A tarefa de tornar-se alguém começa com uma incontornável alienação à história familiar, mesmo que os pais tentem ser democráticos. Subjetivação e sujeição se confundem, parecem o mesmo movimento. Tomar nas próprias mãos o resultado do que fizeram conosco e fazer algo peculiar, é a tarefa que cabe à adolescência desde que o individualismo tornou-se dominante. A revolta contra essa marca primeira de dependência, que tinge-se de uma espécie de mágoa por ter sido submetido a eles, volta com toda força nessa idade. Na verdade, eis a fonte daquilo que os adultos estão sempre denunciando como uma ingratidão dos mais jovens: deveriam reconhecer que quando eram desamparados seus cuidadores lhes dispensaram tudo o que precisaram para crescer. Porém, infelizmente, a gratidão nesse caso viria com o preço de continuar preso dentro de casa, agora pagando a conta. É por isso que os adolescentes não sentem como legítimos os pilares em que se sustentam, precisam relativizá-los, questioná-los e fantasiar uma espécie de auto-fundação.
Sua questão é como trocar os próprios fundamentos sem que a casa venha abaixo. É uma operação complexa, que exige livrar-se dos pais da infância, na tentativa de abafar suas reais ou supostas exigências. É preciso matá-los simbolicamente e sair vivo da empreitada. Fugir de casa ou partir e deixar de dar e receber notícias é uma das tantas maneiras de desfazer-se dos pais. Essa é a escolha de Alex. Por isso, no caso dele, como no de tantas outras fugas de casa, o sofrimento dos pais não é considerado. É quase como se eles nunca tivessem existido, o propósito é exatamente esse. Com a maior parte das pessoas que Alex interage durante suas andanças repete o ciclo, encontra, faz um vínculo forte e parte sem dar adeus, sem que o outro possa proferir sequer uma palavra de despedida. Mais que ir embora, ele sumia, essa era sua marca.”(…)
“Antes de pensar o que o pôs a correr de seu habitat de origem, convém entendermos melhor em que direção apontava seu desejo. O andarilho Alex foi admirado não somente pela ousadia do seu desprendimento, mas sim pelo fato de que durante aqueles dois anos construiu uma existência coerente com seu pensamento romântico radical e morreu em consequência disso. Ele é visto como se fosse o herói de uma guerra pessoal, capaz de sacrificar-se pela sua crença.
Mas examinemos seu pensamento, de modo em que ele revele o que haveria de admirável para aqueles que leram sobre sua história: afinal o que um jovem buscaria na natureza? Percebemos que ela representa para ele uma alteridade radical, algo a ser conquistado, vencido. Mas por que a experiência frente a seus rigores seria capaz de funcionar como uma prova convincente? E de que valor? E para quem?
Os pais podem até ser muito generosos, mas querem ser recompensados pelos seus investimentos amorosos. Ser filho de alguém é carregar o peso da aposta que se fez em nosso nome. De alguma forma sempre vem a mensagem de que devemos pagar pelo lugar simbólico que ocupamos em uma linhagem. A força das marcas familiares que fundaram o sujeito é sentida particularmente na adolescência, é o fim do jantar e o momento de receber a conta. A cultura dos pais, seus sonhos e projetos, seus erros e acertos vão impor-se ao ser que eles criaram, querem que ele se realize nos termos dos seus valores. Muitas vezes o desejo parental pode não ser de continuidade, não é nada incomum que seja até de rompimento: vá além, faça o que não consegui, enfrente o que me derrotou, escolha melhor do que eu fiz. Outras, é de mera continuidade, mas não importa o tom, sempre soará opressivo e, quanto maiores os recursos psíquicos do jovem, menos pesada será a consciência e a desilusão de concluir que o amor dos pais nunca foi incondicional.
Já a natureza, embora na prática suas exigências possam ser cruéis, parece ser equânime e desinteressada. Estar sozinho em lugares extremos pode produzir momentos de euforia, numa comunhão íntima com a beleza da paisagem, muitos dos quais foram relatados por Alex. Isso se você estiver disposto às agruras necessárias para chegar e permanecer ali. Os que conseguem sentem-se vitoriosos, mas trata-se de uma conquista em que não se cedeu ao desejo de ninguém, não exigiu troca de favores, não se negociaram crenças nem houve medições de prestígio. As exigências de uma montanha, um deserto, uma grande onda, a imensidão do oceano, de uma floresta cheia de ciladas, serão iguais para todos os que ingressarem nelas. O que muda são os recursos com os quais cada um entra na cena. Por isso era fundamental para Alex não possuir nada que diminuísse os riscos, que amenizasse as exigências do lugar, era uma forma de aumentar a magnitude de uma experiência que ele considerava pura e essencial.
Acreditamos que, pela semelhança das experiências a que se lançaram o “personagem” McCandless e o escritor Krakauer (autor do livro responsável pelo resgate do personagem), podemos tomá-los, para efeito de reflexão, como duas vozes de pensamentos similares. A pesquisa do jornalista o levou a citar trechos dos autores preferidos do seu personagem e, entre eles, temos a seguinte passagem de Caninos Brancos, publicado em 1906 por Jack London:
“A própria terra era uma desolação sem vida, sem movimento, tão solitária e fria que seu espírito não era nem mesmo o da tristeza. (…) Era a imperiosa e incomunicável sabedoria da eternidade rindo da futilidade da vida e do esforço de viver. Era a Natureza, a selvagem, a de coração gélido, a Natureza das Terras do Norte.”
O livro de London contrasta o heroísmo natural das criaturas selvagens, assim como do valor intrínseco da beleza da paisagem do Alasca, com a mesquinhez, a incompreensão dos homens corrompidos em nome do ouro. Estes últimos, segundo as críticas que Chris dirigia a seus pais e seu modo de vida, são representantes do sistema de valores erguido em torno do dinheiro. Seus pais se sacrificaram muito para subir na vida e, como acontece em todas as famílias, não deixavam de adular o valor de suas conquistas, no caso em termos de poder aquisitivo. O filho negou-se a ganhar dinheiro, insistia em que o ouro não media nem provava o valor de ninguém. Já a natureza, esta sim pareceria uma juíza legítima e a ela ele se entregou.”

Quem tem medo de Disney World?

Estudo psicanalítico do imaginário Disney

Com o passar dos anos, precisamos adaptar o olhar de modo a perceber que a literatura e a mitologia talvez não tenham perdido espaço, acreditamos que elas buscam outros caminhos para manter sua eficácia, este texto é uma tentativa de seguir uma destas trilhas.  Podemos muito bem alardear o simples desaparecimento das formas tradicionais de transmissão cultural e lamentar o vazio deixado pela falta das narrativas orais, do convívio com a família extensa, etc.,  e não estaremos equivocados. Porém, pensamos que devemos buscar os atos de preservação do acervo discursivo da nossa cultura lá onde se encontram  hoje, sob pena de dizermos que desapareceu algo que apenas mudou de lugar.         

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TODA FAMÍLIA É UMA ILHA (trechos do Capítulo II do livro “Psicanálise na Terra do Nunca: ensaios sobre a fantasia)

Em tempos de bem vinda ressurreição do saudoso (para estes autores) seriado “Perdidos no Espaço”, disponibilizamos um trecho do livro “Psicanálise na Terra do Nunca” (Ed. Artmed, 2010) escritos sobre ele. Porque sentimo-nos náufragos, toda família sonha ser uma ilha.

Na intimidade de um casal, ao longo de uma relação, ocorrem inúmeros e mutantes sentimentos de amor e ódio, indiferença e abnegação, tanto entre eles quanto em relação aos filhos que compartilham. Os filhos, por sua vez, também amam e odeiam àqueles que foram tudo para eles no início da vida, resultando em uma pesada carga de sentimentos tão ambíguos quanto fortes. Por isso a família contemporânea é dramática, intensa e complexa, como toda relação baseada no amor.
O hábito de fantasiar com a família que gostaríamos de ter tido, serve também para acusar a nossa pelas insuficiências que possui. É dessa fonte que bebem uma série de fantasias nostálgicas, onde são retratadas famílias de épocas passadas, nas quais encontramos toda a harmonia de que a realidade nos privaria. Provavelmente a crise e a queixa sobre a família é um fenômeno tão antigo quanto a própria família nuclear.
Fenômenos típicos dessa ficção nostálgica são duas famílias isoladas, ilhadas frente a um meio hostil, ambas inspiradas no relato do náufrago Robinson Crusoe (escrito por Daniel Defoe, em1719): são os Robinson Suíços, de um livro de Johan David Wyss, em 1812, e uma família de Robinson futuristas, do seriado americano Perdidos no Espaço, de 1965. Ambas as famílias reproduzem o isolamento e a luta do pioneiro de Defoe, abandonado pela civilização, administrando seus destroços e conhecimentos com perseverança e sabedoria. Na verdade, analisaremos neste ensaio histórias de três famílias ficcionais, a terceira é de um seriado americano muito popular na década de 1970, chamado Os Waltons, cujos episódios variam em torno da vida cotidiana de uma família interiorana da década de 1930. Embora esta jamais tenha se autointitulado uma família “Robinson”, como no caso das anteriores, consideramos que pode ser uma espécie de elo encontrado entre aquelas histórias de náufragos, factualmente isolados e a família nuclear contemporânea. A família dos Waltons era integrada na comunidade, mas fechada enquanto núcleo de resistência afetiva. Essas histórias são fantasias que se alimentam da nossa relação queixosa com a família possível, aquela que realmente constituímos e nos constituiu.

I – A Família Robinson: Robinsons Suiços

Relato de um Náufrago: o primeiro Robinson

A vida e as estranhas e surpreendentes aventuras de Robinson Crusoe, de York, marinheiro: que viveu vinte e oito anos totalmente só em uma ilha não habitada na costa da América, próximo à embocadura do grande rio Orenoco; e que foi lançado à praia em virtude de um naufrágio, em que todos os homens pereceram exceto ele mesmo. Seguido de um relato sobre como ao final foi estranhamente libertado por piratas. Escrito por ele mesmo. Foi com esse longo nome de batismo que a história de Robinson Crusoe chegou ao público, abrindo novos caminhos para a literatura.
O romance de Daniel Defoe relata em detalhes obsessivos, que ele assegura terem sido extraídos da vida real, a sobrevivência prática do náufrago: como construiu sua moradia, o que ele comia, seu sistema de defesa, caçadas, problemas de saúde, religiosidade. A aventura mesmo, as viradas na história, ficam congeladas por décadas, pois o primeiro evento empolgante é o surgimento de Sexta-feira, companheiro tardio de desventuras. O resgate não chega e tudo depende do protagonista, que sequer é verdadeiramente heroico, pois sua força não lhe traz outra glória além da oportunidade de sobreviver.
A novidade literária de Defoe foi elevar a perseverança humana à condição de destino heroico, assim como de considerar relevantes para o leitor as miudezas e mazelas da vida cotidiana. Crusoe narrou o ato de comer, dormir, sua higiene e cuidados de saúde. Definitivamente, revelou-se possível fabricar um mito com material prosaico, uma história tão simples que conquistou inusitada popularidade e rivalizou com os relatos mágicos e fantásticos, cheios de atos de bravura, paixões ou traição, das narrativas míticas ou folclóricas até aquela data. O homem só e sua determinação conquistaram seu lugar na arte, como o náufrago fez com sua ilha, por isso Crusoe é considerado por certos autores como primeiro herói do romance moderno e do individualismo.
Tenhamos ou não frequentado as páginas de Defoe, todos conhecemos essa história. Ela provavelmente se confunde com todas suas versões e a obra dilui-se em corruptelas, citações e adaptações infanto-juvenis. Hoje não é improvável que a narrativa de Defoe se misture com imagem de Tom Hanks e sua bola de basquete, na versão cinematográfica de Náufrago. Histórias oportunas sempre se afastam de sua versão original e geram uma rede imaginária que as amplia e esparge.

A família Stark

Um século depois, Johann David Wyss, um pastor suíço, criou uma história para distrair e instruir seus quatro filhos. Era uma adaptação da história de Crusoe, na qual uma família assumia o papel do náufrago. Fora essa modificação, o relato dos Robinson Suíços repete a fórmula da personagem de Defoe, na narrativa de cada detalhe da organização da vida na ilha. A história familiar foi tornada livro vários anos depois, quando um destes meninos, Johann Rudolf Wyss, já homem, concluiu e editou o manuscrito inacabado do pai. Dali em diante, vários tradutores foram ampliando e adaptando essa história para diversos públicos, incluindo uma versão cinematográfica dos estúdios Disney.
Esta história acabou sendo a soma de todas as suas versões, por isso convém tratá-la como um mito que se recria, adapta e transforma mantendo um núcleo comum, um cerne, uma essência que o torna reconhecível. A história da família suíça que naufraga em uma ilha tropical e de como eles se organizam para sobreviver, possui pouca ou nenhuma relevância em função de seu estilo literário, ao contrário da obra de Defoe, que lança a pedra fundamental de uma tendência ficcional. Considerado literatura infanto-juvenil, o texto é fraco, mesmo porque entre tantas versões ele quase se perde. Importante mesmo é a fórmula que inventa: a colocação de um grupo familiar restrito, composto apenas pelos pais e filhos, na condição de náufragos solitários, a vitória dessa família isolada do mundo sobre os revezes da natureza, ou seja, agora a família é a personagem principal. Se a partir da obra de Defoe podíamos pensar na metáfora de que todo homem é uma ilha, a partir do relato de Johann Wyss consideramos que toda família também o é.
Não se trata de um isolamento possível, mas sim fantasiado, como parte de um voto de autonomia, tão caro à sociedade que se desenvolveu a partir dos tempos modernos. Essa fantasia só tornou-se possível à medida que se rompeu com a univocidade com que a tradição fazia o homem: dificilmente, em tempos antigos ou medievais, alguém buscaria um destino que rompesse com seus antepassados ou transcendesse sua cultura de origem.
O ideal do self made man, que acredita ter vencido sozinho, apesar de suas origens, como se fosse possível partir de lugar nenhum, é uma marca do individualismo triunfante. Não há como negar: ilhar-se é impossível, todos temos ponto de origem, assim como nosso destino é ligado ao de todos. Porém, prezamos acima de tudo a fantasia de pensar-nos isolados, senhores de nossas escolhas, independentes de um meio que poderíamos domesticar para nosso uso, embora nos seja hostil.
O livro do filho do pastor Wyss é também um libelo pedagógico (em seus ideais, comparável a Emile, de 1762, de Rousseau), é o relato ficcional de uma experiência de formação. O naufrágio retira as crianças do contexto social e as coloca em contato com a natureza e as exigências de lidar com os desafios práticos de uma vida mais rudimentar. Orientadas pela figura de um pai-tutor compreensivo e culto, elas poderão desenvolver suas capacidades naturais, longe das deformações da sociedade e suas dubiedades morais. O isolamento da família, assim como a forte presença das reflexões teológico-pedagógicas do pai, oportunizam o diálogo entre o pupilo que desabrocha e a figura paterna que o auxilia a elaborar experiências, transformando-as em lições.
A experiência da paternidade é uma gestão cada vez mais socialmente controlada: partindo do poder quase absoluto que já teve, onde a autoridade paterna podia equivaler à lei em diversas situações, encaminhamo-nos para a realidade contemporânea, na qual não somente o pai precisa de reconhecimento legal para sê-lo, como ainda é vigiado pelo estado, pelos profissionais de saúde e educação, assim como criticado pelas mulheres. Nesse contexto, o sonho do pastor Wyss, de um pai livre dessa pressão social para incumbir-se da condução dos filhos, não soa estranho. Embora datado do início do Século XIX, trata-se de um pai contemporâneo, pois se ocupa pessoalmente da educação dos filhos, enquanto retém a liberdade do pai do passado, já que a vigilância externa fica suprimida pelo isolamento dos náufragos. Essa é outra característica que serve de estímulo a essa fantasia de família insular: a volta da autonomia dos pais, hoje tão criticados e vigiados por todos.
Do livro original, com suas enfadonhas lições de otimismo protestante, como resultado de um lento e contínuo processo de transformação, os tradutores foram inclinando a história para um relato mais pragmático de aventuras, nas quais a ênfase acabou colocada no contraponto entre a adversidade do meio e a eficiência do grupo familiar para enfrentá-las. O enfoque original na força da fé e nos ensinamentos paternos foi dando lugar a outra aposta: na família enquanto grupo de referência e abrigo, equipe vencedora no combate contra a natureza selvagem. Versões posteriores incluíram até homens maus, como os piratas, cuja presença ameaçadora servia para realçar a integridade moral dos Stark (que era o nome de família dos Robinson Suíços).
A liberdade tomada por múltiplos tradutores, adaptadores e diretores de cinema para transformar essa história ao seu bel prazer é surpreendente. É isso o que empresta a essa trama a característica de fantasia compartilhada, espécie de mito contemporâneo, flexível para ser reescrito de diversas formas. Cabe-nos detectar qual é o núcleo comum, a parte dessa trama que, a partir do relato do pastor Wyss, vai dando lugar às variações posteriores.
A família Stark é levada a emigrar para a Nova Zelândia, fugindo de complicações político-econômicas da Europa pós Revolução Francesa, ou conforme a versão para os Estados Unidos, em busca de uma herança. Ela é composta por Joe Stark, um pacato cidadão de Berna, sua esposa Elisabeth, uma mulher fabril e inteligente, e quatro filhos homens, meninos de boa índole, criativos, travessos, mas dóceis. Pouco ficamos sabendo sobre a vida que levavam na Suíça, dos outros passageiros ou tripulantes do barco naufragado, o foco é apenas na fé e na harmonia familiar. O resto do mundo sucumbe da mesma forma como a grande tempestade liquidou com os outros viajantes do navio.
Não acompanhamos maiores conflitos nem questionamentos dos membros da família Stark sobre a eminente transposição ao novo mundo, a respeito do qual deveriam certamente nutrir fantasias, ou mesmo saudades da Suíça perdida. Talvez algum comentário, uma breve inquietação, à qual logo se acrescenta imediatamente um rápido consolo e um momento de confraternização familiar agradável. Mais ainda, o convívio com uma ilha tropical, cuja natureza exuberante é capaz de impactar qualquer um, é rapidamente assimilado pela família. Surpreendentemente eles parecem saber identificar os alimentos e animais. Tudo o que encontram é facilmente classificado em comestível, cultivável ou utilizável para construir. Os animais são para caça, de criação ou domesticados. A família relaciona-se com a natureza de forma pragmática.
Os meninos, cheios de saúde e energia, até cometem algumas irreverências, preocupando pais e irmãos quando ousam partir em uma excursão arriscada e não previamente autorizada, mas a família jamais os repreende, pelo contrário, suas ousadias sempre redundam em algum tipo de descoberta que enriquece o grupo. É uma família tão boa que teria tudo para matar o leitor de tédio.
É intrigante como um relato construído a partir de personagens tão planos pode tornar-se um clássico. Mas o tédio não acontece e o livro seguiu fazendo carreira através da infância e puberdade de inúmeras gerações, sua história incorporou-se ao acervo comum das referências culturais. Esse sucesso decorre do acerto da fantasia, que apresenta sob forma de ficção todas as qualidades desse ideal, que se inaugura e consagra ao longo do Século XIX: o “casamento de companheirismo” fundador de uma família que funciona como uma “fortaleza emocional”.
É importante lembrar que algumas coisas que parecem óbvias para nosso tempo eram impensáveis em épocas não tão remotas. Por exemplo, supor que o casal possa ter uma relação fraterna e que a formação moral dos novos cristãos esteja aos cuidados de uma dupla de leigos, um dos quais é uma mulher. Mais difícil ainda é conceber que essa esposa seja instruída e conselheira nos assuntos mundanos que preocupam seu marido. Seria inacreditável que ele admitisse publicamente essa influência feminina e ainda que encontre na família apoio emocional em momentos de fraqueza, que eles sejam do conhecimento da esposa e filhos, chegando ao ponto de supor que haja amor e até desejo em relação à mulher oficial, mãe dos herdeiros. Em termos de vida doméstica essas novidades não possuem nem 200 anos.
Essa forma de organização familiar caracteriza-se pela educação das crianças por uma mãe instruída, capaz de prepará-las para representar a família em um mundo cada vez mais competitivo. A esposa do Século XIX já se beneficia com a incorporação das conquistas das primeiras feministas, mesmo que nunca tivesse ouvido falar das ideias delas, ou até discordasse radicalmente. A posição das mulheres se valorizou graças aos debates e reivindicações de igualdade, liberdade e fraternidade da Revolução Francesa aplicados também à desigualdade entre os sexos, conduzidos por visionárias como Olympe de Gouges e Mary Wollstonecraft .
A luta feminista foi absorvida pela instituição familiar, ao invés de ajudar as mulheres a romper com ela, como se supunha que poderia ocorrer. Dentro do casamento, elas passaram a ter uma importância social maior, que se encontra muito bem retratada na dinâmica da família Stark. A voz de Elisabeth é sempre um exemplo de sabedoria e ponderação, é também dela que partem muitas das boas ideias que solucionarão os problemas do grupo, assim como exigências em termos de segurança e higiene, cuja importância sempre é confirmada. Como diria a historiadora Michelle Perrot, o feminismo age por uma sucessão de ondas, de tal forma que há os momentos de ruptura, cujas novidades, na sequência, são incorporadas na vida das pessoas comuns.

Freud, conflitos no lugar da ilusão

A família retratada por Wyss também ilustra o isolamento do núcleo composto apenas por pais e filhos, cada vez mais distanciado de avós, tios e primos. É a vitória do modelo de família nuclear sobre o da família extensiva. A psicanálise, inventada no final do século vivido pelos náufragos de Wyss, já toma como estabelecida a ideia de uma família centrada no cotidiano íntimo e cálido de pais e filhos convivendo como célula individualizada do contexto social.
Mas nem tudo é harmonia como quer Wyss; dentro desse caldo de cultura Freud constatou que germinavam as tramas amorosas, as neuroses e complexos que faziam sofrer seus participantes. Convém lembrar quão recente era esse núcleo diagnosticado por ele, quão rapidamente a harmonia proclamada pelos náufragos suíços revelou-se uma complicada rede de encontros e desentendimentos amorosos.
Pelo jeito, a família nuclear já nasceu complexa, talvez por isso a história de Wyss tenha feito tanto e duradouro sucesso, por propor uma família onde os vínculos amorosos e as identificações necessárias para crescer fluíam sem obstruções, problemas, ruídos ou sofrimentos. Afinal, cada nova família constituída baseia-se na esperança de que tudo vai dar certo, de que está se fundando um grupo capaz de enfrentar os piores contratempos, capaz de sobreviver por seus próprios meios, mesmo quando abandonado, esquecido e ameaçado pelo mundo externo. Esse grupo autossustentável, cujos membros só nutririam boa vontade uns com os outros, é o ideal de família de cada um de nós, é a intenção de cada casal que encomenda seu primeiro rebento, é o sonho de cada filho que se queixa dos seus pais, e destes quando criticam seus filhos.
Toda família gostaria de ser como os Stark, embora, na prática, pouco nos aproximamos disso. Essa foi a dolorosa descoberta da psicanálise quando encontrou no destino de Édipo, da tragédia escrita por Sófocles, uma boa metáfora para a família nuclear. A tragédia grega não reflete a vida real de família alguma, porém revela, como em um raio-X, o esqueleto das ligações amorosas e perigosas, que são tão inadmissíveis quanto fundamentais, principalmente os desejos incestuosos e letais que circulam entre pais e filhos.
Através de Édipo e Jocasta, nessa descrição psicanalítica de uma família literária cujo destino era a catástrofe, Freud realiza a antítese de Wyss, ao descrever o naufrágio dos vínculos. Após a psicanálise, passamos a ver a família de forma menos pueril: refletida também no aspecto insuportável do convívio, nos desejos proibidos e inadmissíveis que ele suscita, no necessário rompimento entre as gerações e nas previsíveis mágoas remanescentes da relação entre pais, filhos e irmãos. Crescer passa, a partir de então, a ser compreendido como parte da elaboração de uma complexa relação amorosa e uma ruidosa separação. Porém, mesmo que pareça complicado demais crescer, procriar e viver, ainda enfrentar os conflitos é a melhor solução. Evitá-los, permanecer “na ilha”, atrelado aos vínculos originais, tentando manter um idílio primitivo que na prática é ilusório, equivale a sofrer dolorosas consequências: sintomas neuróticos que encenam conflitos que tentamos manter afastados da consciência nos pregam peças, assim como as inibições para amar e trabalhar nos acometem; e isso nas melhores saídas, pois para os filhos que nunca crescem, que não constituem alguma autonomia psíquica e ou física, a vida pode ser bem hostil e impossível de ser enfrentada.
O relato das aventuras da família Stark tornou-se uma espécie de mito, que sintetiza a ilusão de uma família autossuficiente, encerrada sobre si mesma, isenta de conflitos, na qual os filhos jamais se afastam e ninguém nem nada chega para resgatá-los da prisão familiar. Assim é a família fantasiada pelos casais durante a gestação e relativamente preservada pelos pais de bebês ou de crianças muito pequenas. Nos primórdios da experiência parental, eles sabem ser o centro do mundo de seus bebês, fonte de todo o bem estar, causa de todos os problemas e até protagonistas dos conflitos que possam surgir.
De certa forma, ao colocar o amor incestuoso entre pais e filhos no coração dos complexos que expressam o conteúdo inconsciente, Freud realiza, nem que seja negativamente, esse sentimento dos pais de ser o centro, influência indelével, na vida dos filhos. Diz o ditado popular: “falem mal de mim, mas falem”, ressaltando essa necessidade de estar no centro das atenções a qualquer custo. O mesmo ocorre com os pais, quer seja como tutores geniais, guias espirituais ou dedicados cuidadores, quer seja como opressivos, descuidados ou incapazes de compreender os filhos, esperam que, por bem ou por mal, sejam centrais na vida dos filhos.
Versões contemporâneas dos Robinson Suíços já incluem a partida de alguns dos filhos, um pouco mais crescidos, assim como a formação de um casal entre o filho mais velho com uma jovem náufraga órfã, providencialmente encontrada em uma excursão pela ilha. A versão da tradutora suíça Isabelle de Montolieu para o francês praticamente reescreveu a obra. Ela inclui a necessidade de sucessão de gerações até entre os animais, pois os dois cães encontrados no barco originalmente eram machos, como os filhos dos Stark, e a partir dessa versão tornam-se um casal e têm filhotes. Dessa forma, essa história adapta-se enquanto fantasia coletiva, introduzindo algumas amenizações no confinamento dos Robinson Suíços. Mesmo refletindo a situação das famílias de crianças pequenas que inicialmente crescem restritas aos cuidados e referências dos pais, foi necessária para os leitores a garantia de que se tratava de uma família e não de um labirinto sem saída.

O pequeno reino da família nuclear

Chegada à ilha, a família Stark adaptou-se ao ambiente e transformou-o para seu uso, utilizando para isso todos os conhecimentos e instrumentos que traziam e puderam salvar dos destroços do navio. Foram por isso gratos a Deus, a quem atribuíam a dádiva da salvação, e à instrução que tiveram, que lhes permitia construir casas, pontes, barcos, armadilhas, reconhecer animais e plantas, saber criá-los e prepará-los como alimento. Eles traziam toda a bagagem que o velho mundo podia lhes dar: a fé, a ética e a formação, assim como alguns de seus objetos, mas utilizaram tudo isso para fundar um novo mundo, desbravaram e ocuparam a ilha, construíram sua cidade particular como os colonos que fundaram a América, mas, diferente deles, ao invés de fundar uma nação, usufruíam da supressão de qualquer vínculo social. Como Crusoe, mais do que esperar dos outros humanos a salvação, estes representavam o perigo que materializou-se sob a forma dos piratas. Em algumas traduções-versões dessa história, o destino do navio naufragado que havia sido imaginado originalmente por Wyss como sendo a Austrália, tornou-se os Estados Unidos. Em ambos os casos, tratava-se de colônias, mas a América do Norte foi sonhada e fundada, mais do as outras, como um novo mundo.
A ideia dos pioneiros, fundadores de um novo mundo, é um modo de vida que funciona de forma absolutamente inversa à da sociedade europeia pré-iluminista, organizada através de sucessões hereditárias, com suas hierarquias rígidas e castas medievais. Nascer em uma posição era praticamente um destino, morrer-se-ia nela. Após a era das revoluções (a Industrial e a Francesa), cada ser humano pode tentar constituir sua fortuna, seu pensamento, seu modo de vida, enfim, seu próprio reino particular. A reprodução, antigamente destinada a manter, preservar, dar continuidade a uma tradição, um patrimônio, passa a dar origem a um voto de refundação. Cada nova família carrega em si o sonho de fundar algo novo, sua pequena dinastia, nem que ela dure apenas uma geração, até que o sonho de cada um de seus filhos a suplante. A ilha da família Stark engloba o reino de uma só família.
Hoje ainda nos debatemos com a fantasia em que cada núcleo familiar pode e deve constituir-se em um pequeno reino de curta duração. As histórias folclóricas de reis e rainhas, que refletiam uma nobreza que ainda existia nos tempos em que elas se transmitiam por relato oral, passaram a ser dedicadas às crianças e deram lugar a uma identificação imediata destas com os príncipes e princesas, dos pais com os monarcas e de sua casa com o castelo real.
Tal expectativa de constituir um reino autônomo e de ocupar posição tão poderosa e elevada só serve para frustrar os pais, que no máximo possuem alguns aspectos da sua personalidade ou feitos da sua vida que são apreciados pelos filhos, graças aos quais ocupam um lugar de identificação para eles. Frustração também para estes últimos, que jamais herdam grande coisa, fora cálidas lembranças de infância e algumas lições de vida, quando muito. Nada que se pareça a um reino ou um título de nobreza.
A fantasia chamada por Freud de Romance familiar do neurótico lida justamente com essa distância entre o tanto que se espera e o pouco que se consegue na relação entre pais e filhos. Nela, temos um devaneio no qual imaginamos que na verdade somos filhos adotivos daqueles que sempre consideramos como nossos pais. Para nosso grande alívio, fantasiamos que descobrimos que na verdade seríamos herdeiros de gente de melhor estirpe, que apareceria para nos resgatar do contexto medíocre que a vida nos reservou. Para não dizer que essa é uma fantasia fora de moda, é justamente a base do milionário sucesso de Harry Potter, o qual no fim de uma infância miserável descobre ser famoso, pertencente a uma importante linhagem de bruxos, rico e pode distanciar-se da vida simplória dos parentes entre os quais cresceu.
Hoje, a prática mais disseminada das adoções, principalmente as internacionais, nas quais famílias de lugares mais prósperos resgatam crianças dos diversos infernos que a humanidade mantém sobre a terra, provavelmente está transformando essa fantasia. Se Freud reescrevesse seu texto e atualizasse essa fantasia, provavelmente a família idealizada viria sob a forma do desejo de que alguma celebridade tivesse retirado do ostracismo o filho queixoso da família que lhe tocou. Nossa nobreza agora é outra, formada por ídolos pop, mas, independente dessa mudança aparente, as famílias continuam parecendo pequenas para abrigar os sonhos de grandeza e sucesso dos indivíduos contemporâneos.

Patriarca diplomático

Nossa família ideal é liderada por um pai não mais despótico, agora ele é um diplomata. Esse pai ideal entra no Século XXI como um companheiro exemplar, cujos atributos devem incluir paciência, sensibilidade, senso de justiça, enfim, quase um monge, tão perfeito e equilibrado que não parece humano. Ele mostra-se capaz de administrar a tendência à super-proteção materna, compreende que seus rebentos são frágeis e precisam sentir-se seguros, mas ajuda a mulher a ter força para empurrá-los para fora do ninho quando precisam aprender a voar. Ele também se angustia, como a mãe, mas transmite segurança, impõe limites, é o mediador entre o colo materno e o mundo externo.
Esse pai confia pouco na força dos seus próprios ensinamentos, já que os recebeu de sua família de origem, e sabe que foram insuficientes. Frente a um mundo que vive mudanças vertiginosas na tecnologia e nos costumes, ele acredita que os parâmetros, conhecimentos e experiências de uma geração não servem tão bem assim para a seguinte. Por isso não raro sente-se incapaz para a paternidade, assim como sente medo pela incapacidade dos filhos de se sobrepor aos riscos da vida e não sabe muito bem como ajudá-los a crescer.
Essas incertezas são superadas através de uma renovada confiança nos vínculos, na riqueza das crianças, sempre consideradas inteligentíssimas pelos seus pais. Graças a esses incríveis dons que atribuem aos filhos, aliado à pouca estima das capacidades e pensamento dos pais, conclui-se que caberia aos adultos mais pastorear do que inculcar ou reprimir, como acreditava-se anteriormente. O pai não dá mais sermões, ele explica, quase suplica que levem em conta suas opiniões. Quanto menos seguros para criar seus filhos as famílias se sentem, mais elas apostam na própria criança, na sua suposta boa natureza e em intenções e projetos pedagógicos que possam administrar esses potenciais. A educação familiar vai tornando-se cada vez mais nivelada e socrática.
De certa forma, esse era o ideal já apontado pelos Robinson Suíços, por isso eles representaram uma fantasia que acompanhou as crianças e jovens dos séculos seguintes. Por mais que a história seja pueril na forma, ela acertou no conteúdo: o retrato dessa nova família era adequado. Os casais que tentam formar suas famílias tendem a essa fórmula, pois, o mundo lá fora, seja uma sociedade capitalista competitiva ou uma ilha tropical, é visto como um meio hostil a ser conquistado e dominado pelo grupo, para tanto, nada como uma boa equipe familiar.

Readmitidos no paraíso

Adão e Eva, os pais primordiais, foram banidos do paraíso quando expressaram seu descontentamento com os horizontes oferecidos pelo senhor. A família Stark faz o movimento contrário, do grande mundo passam ao reduzido e solitário espaço de uma ilha desabitada. Ao invés de voltar-se para a possibilidade do resgate, de tentar construir algum meio que os transportasse de volta à civilização da qual se perderam, eles investem toda sua energia na construção de espaços para a adaptação mútua entre a família e o ambiente.
Entre todas essas versões, permanece comum e sempre presente a resignação religiosa e bem-humorada dos membros da família, que jamais se revoltam contra o destino, quando sonham é com coisas que a ilha oferece, como uma casa na árvore, pérolas ou aventuras no local. As saudades do mundo perdido praticamente não lhes assombram a alma, apenas como temores a serem reconfortados com fé e aconchego familiar. Parece que Adão e Eva se acomodaram no paraíso e que o inferno ficou para trás.
Quando constataram que o naufrágio era inevitável, os marinheiros conclamaram a tripulação e passageiros aos botes, gritando “estamos perdidos”. Os membros da família Robinson estavam de fato perdidos do resto, em parte pelas ondas que jogavam o pai, que saíra para verificar o que se passava, de um lado para o outro, em parte porque os outros estavam isolados na cabine rezando. Perdidos da própria tripulação, mas encontrados entre si, em família, os Stark tornaram-se os náufragos escolhidos pelo Senhor para sobreviver. Ao contrário do resto das pessoas do navio que embarcaram nos botes e foram engolidas pela tempestade, eles encontraram a paz daquele que reza e espera a salvação.
Eles acreditaram que Deus ouviu suas preces, tal qual o fez ao escolher Noé. Só que na história bíblica, Noé foi designado para uma refundação, uma purificação dos homens cuja má índole tornou necessária uma seleção divina. No caso de Noé é também uma família, núcleo fundador do novo rebanho do Senhor. Os outros sucumbem nas águas, mas a família escolhida se salva e recomeça o trabalho de domesticação da natureza. Já os Stark salvam-se, mas sua missão não transcende os horizontes da própria família, ilhada em seus objetivos particulares de sobrevivência. Enquanto Noé e os seus significam um princípio, uma confiança retirada da mão dos homens corruptos e recolocada em uma família de justos, na nossa história não há transcendências nem utopias: os objetivos são pessoais, restritos ao usufruto grupal.
Em relação aos recursos naturais da ilha tropical, os Robinson não cessam de se surpreender e de festejar cada descoberta de um novo animal ou alimento, dos quais se servem com a tranquilidade dos protegidos do Senhor. A família enfim torna-se obediente, satisfeita com os recursos da ilha, nomeando criaturas e lugares do dadivoso paraíso insular. Por isso, quando o resgate por fim chega, somente querem partir alguns dos filhos mais velhos, pois os pais e as crianças não concebem lugar melhor do que esse. Por serem todos crentes, construtivos e essencialmente bons, os Robinson Suíços possuíam um forte aliado no céu. Mesmo que a ilha apresentasse alguns desafios e hostilidades, nenhum deles morre ou se machuca, há somente alguns sustos e o alívio posterior.
A autoria proveniente de um pastor protestante, assim como a época revoltosa do mundo em que foi concebida, tornam essa história boa representante do reflexo na vida privada das novas liberdades conquistadas na vida pública. As turbulências políticas demoveram qualquer certeza de que o ponto de origem de alguém selasse seu destino, pois quem nasceu para soberano havia sido decapitado por aqueles cuja função seria servi-lo eternamente, valendo o contrário, quando um imperador podia fazer-se do nada. Nesse mesmo espírito de abalo das estruturas, ocorreu que a fé, face às dissidências luteranas que corroeram o império católico, mudou-se das catedrais para os ritos despojados, ficando Deus ao alcance dos homens comuns e as virtudes do trabalho acabaram ocupando o lugar no altar que outrora era dos bem-nascidos.
A partir da era das revoluções, o poder passou a resultar de uma complicada conjuntura política e econômica, diferente das disputas e alianças entre nobres, assim como o lugar no céu já não estava tão fácil de comprar com oferendas econômicas ou de favores aos sacerdotes de plantão. A fé, pós-protestantismo, passa a ser o resultado de um acordo pessoal, que ocorre na consciência de cada um, entre seus desejos, atos e crenças; a vida eterna, portanto, é o fruto dessa negociação.
O próprio livro de Defoe, escrito no início da revolução industrial, situa-se no sentido contrário das relações de produção que ali nasciam e se consagrariam nos séculos seguintes. A vida atarefada e o ambiente estruturado no qual Robinson Crusoe planta, caça, estoca e organiza o fruto de seus esforços é o oposto do trabalho alienado e fragmentado da linha de produção industrial. Crusoe se regozija com todas as fases da produção de seus bens e alimentos, possui os instrumentos, as terras e armazena os produtos resultantes desse sistema que ele controla em todas suas etapas.
O mundo de Crusoe na ilha reflete uma realidade econômica idealizada, justamente porque está em extinção. Como sempre que algo se torna uma história a ser contada é porque já é passado, ou ainda é futuro, pois as fantasias ilustram melhor os sonhos do que a realidade. Mesmo quando somos realistas em nossos relatos, não é a realidade que retratamos na ficção, não é a veracidade dos fatos, mas sim a de nossos desejos, principalmente os que nos são mais inadmissíveis e incompreendidos, que aparecerá retratada. Fantasiar é uma forma de pensar o que ainda não se compreendeu.
Embora seja um escrito aparentemente pouco fantasioso em seu estilo, quase um relatório minucioso da rotina de sobrevivência do náufrago, é sobre uma relação já perdida com o produto de seu trabalho que Defoe escreve, o universo de Crusoe é pura fantasia, um sonho literário. O mesmo se aplica à família, que antes dos ideais iluministas que trocaram tudo de lugar, tendia a viver restrita a um espaço geográfico, fabricando os produtos para atender suas necessidades, unida em torno de um destino comum, por mais miserável que ele fosse. Nesse sentido, a história dos Robinson Suíços embora quase centenária é também nostálgica.
O pastor Wyss encabeça um núcleo que bem serve às famílias contemporâneas, representando as fantasias compensatórias à dissolução e ao desencontro que o regime de trabalho exigente e a pressa em que se vive lhes impõem. Uma família é hoje um grupo mantido unido também através da exaltação do ideal familiar, da idealização dessa missão e da resistência à realidade que já era tão mutante no Século XIX. Desde então, cada família que se cria e mantém, o faz em contraposição à realidade externa, que separa seus membros, os afasta do convívio comum, os leva a trabalhar em processos alienantes. Uma criança hoje não somente passa o dia longe de seus pais, como também tampouco saberia dizer exatamente onde eles estão, nem o que estão fazendo.
Quanto mais nossa vida real for distante da ilha onde a família vive e produz unida, mais essa história sobrevive como um conto de fadas: “era uma vez” um grupo familiar onde todos viviam sempre juntos, em harmonia entre si e com a natureza em seu redor. Os Robinson Suíços vencem as adversidades do naufrágio, provando a suficiência do grupo familiar, assim como a necessidade, agora subjetiva, de afastamento de influências e tentações que fizessem qualquer um de seus membros diferenciarem-se do resto, que o levassem a sonhar além dos paradigmas conhecidos pelos progenitores. Quanto mais frágil é a realidade da família, mais exigiremos do mito, quanto mais pobre a realidade, mais a fantasia será convocada e necessariamente será suntuosa.

II – Ilhados no cosmos: Perdidos nos espaço

Em 1965 é a vez de outra família Robinson naufragar. Desta vez trata-se de uma série de televisão e a família é de norte-americanos que estão Perdidos no Espaço (Lost in Space, de Irwin Allen, chegou a ter 83 episódios). Trata-se de uma missão americana de colonização de um planeta na constelação de Alfa Centauro, ambientada em um futuro que naquela época parecia longínquo: 1997. Conforme a projeção dos anos de 60, não havia muitas dúvidas de que no final do Século XX vestiríamos malhas prateadas e habitaríamos casas servidas por robôs, em um ambiente que agradaria aos Jetsons . Além disso, dominaríamos as viagens espaciais tripuladas, e com isso resolveríamos nosso problema de superpopulação colonizando o universo.
O casal John e Maureen Robinson parte nessa jornada, acompanhado das filhas Judy, Penny e do caçula Will, menino de uns 10 anos, cuja curiosidade e travessuras propiciam as tramas de muitos episódios. Com eles viaja também um piloto, Don West, rapaz charmoso, destinado a namorar a loirinha Judy. Mas a fonte de toda a confusão, que transforma uma missão de colonização em um naufrágio, repousa em uma personagem nada familiar: um espião, provavelmente russo…
O culpado era Zachary Smith, ou Doutor Smith, como ficou conhecido, protagonizado por Jonathan Harris. Esse vilão saído da guerra fria embarca sorrateiramente com o objetivo de sabotar a missão, reprogramando o robô para destruir a nave, saindo antes da partida. Tudo dá errado: o robô entra em pane e a decolagem acaba ocorrendo com Smith a bordo. Todos esses contratempos provocam o descontrole da nave, que sai da rota prevista e passa a navegar à deriva no espaço sideral.
Na maior parte dos episódios eles encontram-se ilhados em um ou outro planeta, todos inóspitos, envolvidos na tarefa de reparar a nave e sobreviver. Ou ainda navegam perdidos no espaço, na tentativa de voltar à missão original. Não há dúvidas neste seriado quanto à existência de vida lá fora: o espaço sideral possui inúmeros habitantes bizarros, a maior parte deles humanóides, dotados de poderes, tecnologias e índoles quase sempre malignas. Na melhor das hipóteses, o extraterrestre será apenas estranho e a confusão se gerará a partir de um mal-entendido, mas neste e em outros casos, não há dúvida das constantes más intenções do Dr. Smith.
A ilha da família suíça era abençoada por Deus, mas após duas guerras mundiais, bombas nucleares e milhões de mortos que incluem os horrores do holocausto, já não é mais possível tanto otimismo. O universo onde navegam os Robinson americanos é perigoso, quando lhes fornece provisões é a contragosto, e os encontros com outras criaturas raramente são amistosos. Por outro lado, apesar do ambiente externo hostil, seria impensável nessa trama que os problemas tivessem origem endógena. A família para esses astronautas é sinônima de abrigo, o encrenqueiro é um estrangeiro, pois o elemento que rompe a harmonia deve vir de fora.
A nave, que poderia ser sua ilha segura, vive estragando e descontrolando-se, é um frágil barquinho a mercê em um mar furioso. Mas esses são riscos com os quais os tripulantes a bordo estão prontos para lidar. Já as sabotagens provenientes das armações do Dr. Smith, sempre tramando contra seus companheiros de viagem em troca de tesouros, ou da promessa de transporte de volta à terra, envolvem perigos maiores, situações que ameaçam a integridade de todos e da nave. Seu companheiro de confusões, que escapa ao controle dos adultos, é o menino Will e em segundo plano sua irmã Penny. Juntos, o espião sabotador e o menino curioso e aventureiro fragilizam a segurança da família.
Os filhos dos Robinsons Suíços também davam suas escapadas, excursionavam por lugares proibidos, passavam a noite fora, causavam preocupação a seus pais. Jovens e crianças são assim mesmo: cheios de iniciativas e inconscientes dos riscos que correm. Porém, na história dos náufragos do Século XIX, a força da figura paterna e da onipresença divina era tão grande, que as travessuras dos garotos somente acarretavam preocupação, no máximo uma noite maldormida, e eram em geral coroadas por alguma novidade que beneficiava a família. Por mais ameaçadora que fosse a situação, o leitor sente-se partilhando com o pastor que escreveu a obra a confiança na proteção divina. Todos os contratempos naquela história, mesmo os originários do indomável espírito aventureiro dos jovens, acabavam somando para a família em bens, conhecimento do lugar ou experiência. Na ilha dos náufragos suíços, tudo termina em um belo jantar, onde a Sra. Stark preparava pratos exóticos com as iguarias da ilha.
O mesmo ocorre com Will e Penny. A menina é uma personagem mais apagada, cujas travessuras são provocadas principalmente devido à compaixão e sensibilidade femininas, aliadas à sua ingenuidade. Vê-se bem que na década de 1960 as meninas não tinham um lobby tão forte. Hoje seria impensável que não houvesse uma aventureira menina, tão ou mais ousada e inteligente que seu irmão. As travessuras de Will são perigosas, mas como as dos rapazes suíços, não poucas vezes resultam em descobertas importantes para o grupo. O que surpreende em ambas as famílias é sua capacidade de neutralizar qualquer fonte de conflito: tudo é compreensível, não há lugar para mágoas nem desconfianças, jamais pensam mal uns dos outros. Às vezes até parece que a subjetividade do robô seria mais sofisticada que a dos humanos.
Para nossa sorte, a família possui um inimigo a bordo: Dr. Smith, o espião astuto, mas trapalhão, um peso morto, que não partilha da faina diária de manutenção da nave, da subsistência e busca de rumo. Enquanto a família e o major viviam de forma parecida com os suíços na ilha, trabalhando e inventando soluções e melhorias para o grupo, Dr. Smith é um preguiçoso, um inútil, egoísta e desleal.
Esse tipo de inimigo é consonante com o clima paranoico, próprio da guerra fria, no qual a prosperidade americana pós-guerra se desenvolveu. A família suíça se fecha em uma experiência de autossuficiência do grupo, que unido na sua fé compartilhada, em um ambiente fabril e de mútua colaboração poderia vencer a natureza indomada. Por sua vez, os Robinsons americanos se deixam envolver pela fantasia de pertencer a um grupo ideal, em oposição a um inimigo externo bem delineado que para seu país eram os comunistas. Dificilmente um sistema de crenças mantém-se sem situar um opositor bem visível. Neste caso, trata-se de um contraponto ao american way of life, cujo oponente encarnado por uma personagem tão detestável como Dr. Smith, certamente tornaria a visão de mundo dos náufragos americanos muito mais atraente. O problema do homem, a origem do naufrágio, são agora os “homens maus” do outro lado da cortina de ferro, os que pensam um mundo diferente. À natureza não cabe mais o papel nem de vilã, nem de provedora.
Os americanos perdidos no espaço constituíram o canto do cisne da harmonia familiar, os últimos Robinson. Depois deles houve outras tentativas, outros enredos envolvendo famílias tentaram mostrar a força do seu vínculo, porém já abrigavam dentro de si o conflito de gerações.
As crianças dos anos de 1960, contemporâneas à série, viviam rodeadas de recém criadas geringonças automáticas que facilitavam a vida cotidiana. Os carros espaçosos e coloridos consumiam litros de petróleo no ir e vir das famílias que prosperavam. A oferta de todo tipo de máquinas domésticas para cozinhar, triturar, encerar, lavar, limpar ou cortar grama, tornava o consumo a grande meta da vida cotidiana. A televisão, cada vez com mais canais, foi se constituindo em um membro da família, se não o mais importante, certamente o mais “ouvido”. Com a prosperidade industrial conquistada após a segunda guerra, descobertas científicas transformaram-se maciçamente em recursos tecnológicos voltados para o bem-estar dos mais favorecidos. Esse fascínio tecnológico encontra-se sintetizado na figura do robô, cuja presença protagonizava todos os episódios, opinando e derramando sabedoria “científica” como a televisão faz até hoje.

O filho e o traidor

A partir da segunda metade do século passado, as famílias sentiam-se inseguras para preparar seus filhos para um mundo que as fascinava e assustava. O mundo evolui demasiado rápido, os adultos “sucateiam” com a mesma velocidade das máquinas, cada geração torna-se rapidamente um modelo superado, inferior aos novos lançamentos, dotados de novos recursos: as crianças e os adolescentes. O menino Will é travesso, mas também é excepcionalmente inteligente e frequentemente pensa soluções criativas que salvam o grupo. Era com ele que os telespectadores se identificavam. As outras personagens parecem figurantes perto da riqueza da dupla de encrenqueiros, Will e Smith, que anima o programa.
O Doutor Smith é mais complexo do que a simples figura do traidor, pois ele é companheiro constante do menino, o único que realmente sabe onde ele está e no que está metido. Em geral, ambos são designados para cuidar da mesma tarefa ou mesmo vigiar um ao outro. Há inclusive episódios nos quais Smith revela uma particular sensibilidade para os anseios do menino: ele é o único que percebe quando Will passa por uma crise pré-adolescente e que dialoga com seus questionamentos. Seria difícil compreender semelhante modulação em um seriado de personagens tão simplórias, como bem cabe ao papel de mais uma estereotipada família de náufragos fabris e otimistas.
Provavelmente, Will e Smith são personagens mais próximas entre si e mais identificados um com o outro do que parece. Em termos de convívio, é fato que o menino passa mais tempo com o ardiloso trapaceiro do que com seus simpáticos familiares. O espião mais se assemelha a um avô meio maligno: ele é de fato mais velho, queixa-se de dores nas costas e cansa-se rapidamente. Por essa condição de velho, além de preguiçoso, não se ocupa da faina diária da família e fica disponível para a criança curiosa, que não se resigna a ficar encerrada dentro do acampamento familiar. Nas suas aventuras enfrenta perigos dos quais sua família não fica nem sabendo, ou só descobre quando a confusão já é grande.
O que faz do Dr. Smith um potencial companheiro de aventuras para Will é justamente sua posição externa e avessa à família. Ele é um velho, por isso pode ser ridículo e fraco, a personagem bufão colocada como oposto aos adultos mocinhos. Porém, por ser um traidor, torna-se uma figura ativa e encontra energias para buscar no mundo lá fora formas de satisfazer suas ambições de enriquecer e voltar à terra. Cheia de possibilidades, a figura de Smith mistura-se bem com a “traição” que o jovem precisa cometer para desejar além dos horizontes do quintal familiar.
Enquanto todos os adultos responsáveis estão envolvidos com as coisas necessárias da sobrevivência, Will, por ser criança, Penny, por ser uma jovem sensível, e Smith, por ser traidor, ocupam-se de desbravar os planetas em que sua nave pousa ou outras dimensões às quais são jogados. Graças a isso, podem conhecer alienígenas, encontrar máquinas e lugares surpreendentes e muitos monstros assustadores, além de piratas, donos de circo, mercadores, princesas, cavalheiros, inventores malucos e todo tipo de personagem que a imaginação possa invocar. Na maioria das vezes, os adultos são convocados na última hora para salvar a situação e reverter a confusão. Graças a isso, participam também das aventuras e ficam sabendo por onde andaram seus travessos rebentos. Na verdade, o fator de risco e emoção, a fonte da aventura, para esta família está colocado do lado de fora da sua missão de retorno e sobrevivência, reside na irresponsabilidade e ingenuidade das crianças, na ganância do velho traidor, no desconhecido a ser desbravado pelos membros não responsáveis do grupo.
Embora o seriado hoje pareça ridículo, com seus cenários de papel, seus risíveis monstros de látex e ritmo arrastado, a temática é extremamente contemporânea. A globalização e a agilidade das descobertas tecnológicas propiciam às crianças e aos jovens explorar um mundo que transcende totalmente a circunferência da nave familiar. Os pais estão muito ocupados em sobreviver e subsistir e facilmente tornam-se defasados. As crianças e os jovens, que poderiam ser considerados “traidores” como Smith e Will, abandonam, rompem e fazem com que os adultos sintam-se frágeis, desconectados e insuficientes para educá-los.
Mais do que alienígenas e viagens interplanetárias, hoje é a internet, que captura a atenção desses jovens traidores. A família nuclear, ninho idealizado, sede das fantasias românticas que se materializam em frustrações e queixas, tenta resistir, sobreviver, enquanto, em seu próprio seio, em uma inocente tela, o estrangeiro se materializa. Não há mais como prender aos mais jovens em uma rede de referências familiares, uma teia muito maior espera para capturá-los. Sempre se disse que os filhos não são dos pais, são do mundo, serão um dia abduzidos por ele. Hoje poderíamos dizer que eles já nascem em um mundo no qual os pais podem até reinar nos primórdios, mas em breve tornar-se-ão alienígenas. Sobra, incólume, a eterna fantasia da família insular, como uma miragem, um oásis virtual. Isso vale na hora de engajar-se na aventura de viver, é dali que vem os desafios, mas a família não resiste enquanto ideal à toa: ela ainda é um refúgio, um lugar último, o único que deveria nos receber nos momentos de fraqueza. Muitos grupos familiares passam longe dessas atribuições, neles seus membros em vez de acolherem somam-se às hostilidades que a vida já reserva para todos: não se cuidam quando doentes, não se consolam quando tristes, não se valorizam uns aos outros. Qualquer família, por mais dedicada que seja, deixará a desejar nesses itens, porque um ideal está aí justamente para empalidecer a realidade com seu brilho e a idealização da família surpreendentemente tem sobrevivido a todas as intempéries.

Turma da Mônica: um por todos e todos em um

Sobre os 40 anos da personagem Mônica, aspectos psi

Partimos de uma certeza: a Turma da Mônica é onipresente entre as crianças brasileiras e já está fazendo sua segunda geração de leitores mirins. Os pais que hoje compram as revistas para seus filhos leram a Mônica quando crianças. Gibi é para ler e para olhar, por isso não há uma idade definida para se familiarizar com suas histórias, pode se começar bem cedo. Muitos firmam a alfabetização justamente nos quadrinhos e por muitos anos seus personagens vão acompanhá-los. Para os adultos que não os leram quando crianças fica uma leitura chata, os personagens são muito simples, cada um tem uma ou duas características e toda a ação gira ao redor disso.

Para quem não sabe, os personagens centrais são Mônica, Cebolinha, Magali e Cascão. A Mônica tem uma força descomunal mas não a usa para o mal, está sempre acompanhada de um coelho de pelúcia chamado Sansão, que, segurado pelas orelhas e lançado, é sua principal arma contra os meninos que a incomodam. Essa força lhe confere certa liderança, a torna potencialmente “dona da rua”.

Cebolinha é um rapaz esperto, mas não consegue falar os “erres”, tem uma idéia fixa de que o mundo está ao revés com uma menina mandando e quer derrotá-la, embora ele seja seu amigo.

Magali é a melhor amiga da Mônica e só pensa em comer, é uma papona sem limites. Por último, o Cascão. Ele vive em função de sua fobia de água, razão pela qual é um sujinho. Todos têm a mesma idade, seis ou sete anos, ainda não vão à escola e vivem o cotidiano comum das crianças urbanas. 

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Yabba – Dabba – Doo, os Simpsons chegaram!

Sobre o filme Os Simpsons e sobre a família do século XXI

Imagine algo que passe a seguinte mensagem: os norte-americanos são ignorantes; não passam de um povo consumista e impulsivo; sua polícia é idiota e truculenta; os políticos são despreparados, corruptos e oportunistas; o judiciário perde-se em questões irrelevantes; o ensino é deficiente; a população é mal-educada e grosseira; a religião é de fachada e retrógrada; os executivos só pensam em lucro e são os verdadeiros donos do poder; a hipocrisia é a tônica das relações sociais, além disso se alimentam como porcos, bebem demais e estão poluindo descaradamente o planeta. De quem é esse discurso?

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