Zero Hora
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A nova face do inferno

Sobre o filme O diabo veste prada, moda e fé

A trama de “O diabo veste Prada” é bem simples: jovem jornalista inteligente desce ao inferno do mundo da moda, fascina-se com suas tentações, o diabo a seduz com ofertas de poder e beleza, mas ela resiste a vender sua alma.

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18/10/06 |
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A outra FIFA

Sobre os que não gostam de futebol

Fui incumbida de uma tarefa, embora constrangedora, necessária e de utilidade pública. Trata-se duma revelação: a da existência da FIFA, não a conhecida, mas outra. A Federação dos Indiferentes ao Futebol Anônimos. Reunimo-nos na sala ao lado dos grupos que lutam contra seus vícios, pois, não pense o leitor, que somos resignados à nossa limitação.

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31/05/06 |
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A praga do casamento indissolúvel

Sobre a condenação do divórcio pelo Vaticano

Fique claro que não advogo em defesa pessoal, pois excentricamente mantenho-me casada com o mesmo marido. Mesmo assim fiquei pasma com a declaração do Vaticano, visando orientar os fiéis (sic), de que o segundo casamento é uma praga.

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21/03/07 |
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A última viagem do Professor

sobre Monsieur Roche e a arte de ensinar uma língua estrangeira

Banido de sua Hungria natal pelo nazismo, meu pai não cessou de viajar até a aposentadoria. Nunca se aquietou de fato, enquanto o corpo permitiu seu armário era uma mala. Quando ficou velho e teve que parar fiquei preocupada: podia ficar horas lendo, mas eu sabia que para mantê-lo bem ele teria que seguir viajando. Então o apresentei aos cursos do Professor Alexandre Roche. Ele ensinava francês no instituto que leva seu nome, mas fazia isso contando histórias, levando seus alunos para jornadas históricas e literárias. Nascido em Alexandria, de pais franceses, estudou história na França. No Brasil, ensinava a língua de Voltaire com muito mais do que verbos e pronomes. Por vários anos, ele conduziu meu pai em suas últimas viagens, que não foram menos divertidas do que as que fazia de avião.

Recebi a triste notícia de que Monsieur Roche, como o chamávamos, também partiu. Gostaria de acreditar que eles se encontraram em algum lugar e estão botando a conversa em dia. Estes dois velhos se foram deixando-nos uma lição inesquecível: um professor e um aluno nunca se aposentam, ensinar e aprender pode ser um prazer que dure a vida inteira.

Uma língua é mais que um acervo de palavras, um decantado das culturas nela se expressa, carrega sentimentos, convicções, conta histórias. Idiomas são musicais, falar a língua em que se nasceu e cresceu é reproduzir a entonação e o ritmo do discurso amoroso que nos fez ser o que somos. A língua materna é a do acalanto, dos sonhos, é a que usamos para praguejar secretamente e contar quando estamos distraídos.

Aprender uma outra língua sempre será uma traição à original. Traindo a língua mãe produzimos diferentes versões de nós mesmos, experimentamos liberdades, mas também vivemos um exílio, a alma sente-se em viagem. Quando aprendemos um idioma depois de adultos conservaremos restos de sotaque que são nosso certificado de origem. Meu pai falava sete línguas com sotaque húngaro, língua em que encontrava poucos parceiros com quem conversar após os 17 anos.

Várias vezes estrangeiro, Roche sabia disso e não escondia seus erres arrastados em português. Mas para ensinar francês, fazia o possível para que seus alunos se sentissem em casa. Como um ancestral emprestado, oferecia as histórias de uma tradição aos que nunca serão nativos nela. Falava da França, do Egito, de literatura, política. Seu ensino era acima de tudo uma experiência de hospitalidade. Monsieur Roche, desta vez partiu numa viagem sem malas. Obstinado como um gaulês, deve estar ensinando francês para os anjos.

04/01/12 |
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A vaca, dez anos depois

Sobre o filme “Um conto chinês”e os dez anos do 11/09.


Coisas impossíveis acontecem: na China uma vaca caiu do céu sobre um barco. Isso não é fantasia, foi um fato. Assim como quando, há dez anos atrás, dois aviões de passageiros se estraçalharam sobre as torres gêmeas, destruindo um ícone da confiança do império americano.

Eu estava no consultório, na mensagem da secretária eletrônica meu marido avisava que caso alguém me contasse tal estapafúrdia notícia, não pensasse em internar o relator por insanidade: ocorrera, de fato, um atentado terrorista, macabro espetáculo filmado em tempo real. A vaca voadora e o desastre americano eram igualmente improváveis. O imprevisível nos deixa inquietos. É sobre essa base que se estrutura o delicado filme argentino “Um conto chinês”. Em espanhol, a expressão “cuento chino” define a lorota, história improvável, embuste. Serve também para descrever essas situações absurdas nas quais alguém morre quando estava tão vivo, tão seguro, nas quais tendemos a dizer: “não pode ser”.

Roberto, o dono da loja de ferragens, personagem do filme argentino vivido por Ricardo Darin, levava uma vida previsível, obsessivamente estruturada. Mas seu lazer apontava para o avesso: colecionava notícias de jornal com eventos que provavam a força do imprevisível, principalmente em seu aspecto trágico. Histórias como a da vaca que caiu do céu eram sua fonte de fantasia. Na vida real cultivava certezas, dormia sempre à mesma hora, comia o mesmo cardápio, visitava o túmulo dos pais aos domingos, seus cenários e personagens mudavam o mínimo possível. Até que irrompeu em sua vida um chinês perdido, vítima de um assalto, que não falava uma palavra de espanhol, do qual se compadeceu. A jornada do personagem do filme é na direção da vitalidade: desafiado pela presença em sua casa do estrangeiro desamparado vai perdendo a rigidez. Paro por aqui para não estragar o prazer da história.

Para quem perdeu um ser querido é muito difícil acreditar que aquela pessoa simplesmente sumiu. Tantas coisas que se diria, ou mesmo se silenciaria num pacto de conivência mútua, ficarão para sempre suspensas. A morte sempre vem incompreensível, incontrolável como uma vaca ou uma torre que caem e não existe defesa. É impossível fugir da catástrofe final: evitar vínculos, apostas, antecipar fracassos, só amortece a aventura de viver. Essa conduta não deixa de ser outra forma de morte, pois quem tanto tenta controlar o destino acaba minimizando a própria existência.

Também faz dez anos que escrevo neste espaço (Jornal Zero Hora, Segundo Caderno), inaugurado com uma reflexão sobre o pânico do atentado. Sobrevivemos, veja só.

A vida em cinza

Uma Cinderela com boas pitadas de erótica feminina, as prateleiras exibem o produto perfeito. O encontro de 50 tons de cinza com as consumidoras da paixão sem ambiguidades.

Imagine que você fabrique um produto qualquer: uma esponja de aço, por exemplo. Seu sonho de empresário seria tornar-se Bombril, que em nossa língua é sinônimo desse objeto. Agora imagine que os amantes almejassem o mesmo: ser tão perfeitos um para o outro que suprimissem a concorrência. Esse é o segredo de Christian Grey e Anastasia Steele, protagonistas de um amor absoluto em “50 tons de cinza”, escrito pela norte-americana Erika Leonard James.

Respeitosos às leis do mercado, os amantes da história reúnem-se em torno de uma mesa de negociações para acertar detalhes de seu contrato. Não se trata de um casamento, mas sim de um código de comportamento sexual, submissão e domínio. O acordo não é pacífico, há escaramuças e desentendimentos, como em qualquer novela romântica, mas é para apimentar o final feliz, que se dá ao cabo de três volumes e filmes.

Numa cartada só, a Sra. James conseguiu suprimir a maior parte das interrogações e tormentos  que nos preenchem e ocupam. Gastamos a existência a indagar qual nosso valor e o que gostaríamos de conquistar, o que é ser um homem e o que é ser uma mulher. Além disso, atrapalham-nos para amar as lembranças infantis do prazer e do terror de ser subjugados e protegidos. Para Christian e Anastasia está quase tudo resolvido.

Eles são virgens, ela de corpo e ele de coração. Ele é riquíssimo, jovem e  belo. Sim, os príncipes ainda existem. E como as Cinderelas também, esse cobiçado solteiro fica mesmerizado quando pousa os olhos na desmilinguida universitária que aparece para entrevistá-lo para um jornalzinho de faculdade. O que ocorre entre os dois é um desejo incontrolável à primeira vista, que logo se transforma em juras de amor.

Rapidamente a relação torna-se o negócio mais importante para ele e o projeto de vida prioritário para ela. Ele quer subjugar-lhe o corpo, mas acaba entregando-lhe a alma. Ela cobiça possuir a alma dele, mas entrega seu corpo com um prazer minuciosamente descrito. Apesar dos chicotes, cintos e palmatórias próprios da cena sadomasoquista, o livro difere das clássicas publicações do gênero ao dedicar grande espaço à exploração do corpo e dos prazeres femininos, dos quais Anastasia goza amarrada e amordaçada.

Pense bem nas suas dúvidas: você nunca sabe direito o que quer nem o que precisa para ser desejável. Além disso, sente-se ambivalente quanto aos prazeres da carne, nos quais sempre fantasia um tanto a mais do que realiza. Como as mulheres nunca tiveram um destino em aberto, o recato era imprescindível e as escolhas restritas, o leque dessas vacilações era para elas menos explícito. Com a liberdade, ganharam o benefício e o inferno das dúvidas. E. L. James tem a resposta para todos esses males: não enxergue cores, atenha-se ao cinza e viva uma vida Bombril.

A volta do ano perdido

Sobre o aumento de um ano na duração do ensino fundamental

No final de 1971, já tinha estudado o ano todo para fazer meu exame de admissão, pois disso dependia a vaga numa boa escola ginasial pública, quando tudo mudou. A educação fundamental foi reduzida em um ano, meu Grupo Escolar criou mais séries, e fiquei ali mesmo. Essa brilhante idéia me permitiu escolher um destino e entrar na universidade com ridículos e insuficientes 17 anos, um ano mais imatura e confusa do que poderia ser. Cabe lembrar que um ano a mais durante a juventude, vale por uns cinco na vida adulta. Os primeiros tempos da vida são anos de formação, a vida é consumida com avidez, tudo se metaboliza, transforma, marca.

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07/03/07 |
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Abortos

Sobre a legalização do aborto

Engravidar pode ser conseqüência de uma concepção planejada e buscada pelo casal, ou o resultado de um acidente, causado por falta de informação, pela falha de um método anticoncepcional ou por uma cilada do corpo.

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09/03/05 |
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Adultos vorazes

sobre o livro-filme “Jogos Vorazes”e o interesse dos jovens pelo tema do totalitarismo

Crianças, no futuro toda essa selva será sua! Não parece atraente, mas é o patrimônio que temos a oferecer aos jovens. O lado de fora do lar é sempre a perigosa floresta, já alertavam os contos de fadas. A vida social é uma arena e os jovens são como gladiadores, cuja vida e prestígio pedem um sacrifício à sociedade do espetáculo. Esses elementos encontraram uma ótima síntese em “Jogos Vorazes”, primeiro volume da trilogia juvenil de Suzanne Collins (Ed. Rocco), agora no cinema. O livro re-atualiza o mito do Minotauro, colocando jovens a serem entregues à morte, como tributos. Desta vez, são sacrificados a outro tipo de monstro: a voracidade do público de um Reality Show.

Na maior parte do Ocidente vivemos num clima democrático e escarnecemos das primitivas ditaduras remanescentes. É fato, mas os jovens e suas fantasias prediletas insistem no tema do totalitarismo: os magos perversos de Tolkien, os Comensais da Morte de Harry Potter, a repressão em V de Vingança, entre tantos outros. Aqui isso se repete, por que será?

Nessa série, em um mundo distópico, um poder central, situado na “Capital”, submete 12 distritos à miséria e controle absolutos. Uma rebelião ocorrida no passado é lembrada anualmente com uma punição exemplar: cada um dos distritos deve oferecer dois jovens (um casal) todo ano para disputar uma luta terminal, que ocorre numa floresta, da qual somente um dos 24 pode sair vivo. Claro, câmeras espalhadas mostram a carnificina em detalhes. Um deles, Katniss, a personagem principal, vai construir sua trajetória heróica em confronto com o poder da Capital. Ela já era uma caçadora clandestina, independente, mas responsável. Nos jogos, torna-se guerreira.

Os jovens cultivam essas histórias porque não se deixam enganar pela paz aparente. A luta por poder e prestígio, a fogueira das vaidades, segue fazendo vítimas. Não há lugar no mundo para todos e nessa dança das cadeiras sobram muitos de pé, eliminados. Mesmo sem guerras para mandá-los, das quais voltarão vitoriosos ou mortos, eles continuam sendo selecionados. Por isso crescem armados, desconfiados e preparados para a vida na selva. Hoje como ontem, não lhes perdoamos o viço que os mais velhos já perdemos, a necessidade que eles têm de revolta, a independência que precisa nos derrubar. Como pais, exigimos tributos pelo que lhes demos, reverência às nossas conquistas e crenças. No fundo, adultos sempre serão totalitários, crescer sempre será uma guerra e o mundo uma selva. Nossa parentalidade culposa, gagejante e omissa não os engana. O adulto é o lobo do jovem.

Publicado em ZH em 11.04.2012

Anexo em novembro de 2015:

Na ocasião da estréia dos filmes de “Jogos Vorazes” escrevi esta coluna cujas palavras ainda endosso. O episódio final, do qual não vou colocar aqui nenhum spoiler, dá muito o que pensar. Nele fica claro o que fizemos para semear tanta desesperança. “A esperança”, terceiro e último livro da série que é verdadeira paixão para uma geração de jovens, aponta para pistas de onde buscá-la. Afinal, deve haver muita coisa no meio entre as duas formas extremas de alienação: a retração narcisista dos indivíduos e a entrega a um fascismo grupal messiânico. Precisamos encontrar onde fica a esperança, minhas pistas dizem para buscá-la entre os jovens.

Água com Açúcar e Sangue

Sobre a série Crepúsculo

Cada fenômeno editorial fala de seu tempo. Se um livro vende mais de 55 milhões de exemplares, provoca furor entre adolescentes e, outros mais crescidos, convém investigar-lhe os segredos, certamente revelam algo nosso.

A série de romances da americana Stephenie Meyer, iniciada com Crepúsculo, estendida ao longo dos quatro gordos volumes já publicados, reencontra um ávido público leitor da mesma faixa etária que aclamou Harry Potter uma década atrás. Enquanto Rowling resgatou o valor da magia, o sucesso desta série nos revela overdoses de romantismo. Continue lendo…

30/11/09 |
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