Comportamento
Exibir por:

Ladrões de cavalos

Todo mundo foi nobre no passado, mas Luiz Corso sabia desmontar essa pretensão com muita graça.

Poucas coisas divertiam mais meu pai do que falar talian, o dialeto vêneto que se sobrepôs aos outros dialetos tornando-se uma língua comum aos nossos ítalo-descendentes. Sempre que podia encontrava com os conhecidos para gastar a nostalgia da sua língua mãe. Como tantos, aprendeu português na escola. Meu avô no fim da vida esqueceu o português e só falava talian, azar de quem não entendesse. Uma das minhas bisavós jamais aprendeu o português, todos que lhe interessavam falavam talian, para que falar outra coisa? Uma densa pátria cultural e afetiva comum unia essa comunidade.

Nessas tantas rodas de fala, sempre alegres, descontraídas, havia apenas um momento em que a conversa tomava um rumo que desagradava meu pai. Não lembro se ele nomeava esse fato de alguma maneira, eu hoje chamo de “nobreza retroativa”. O fato é que, vez que outra, lá pelas tantas, alguém puxava o assunto: o que tua família fazia na Itália? E então eram lembradas tradições, profissões, terras e uma pompa tal, que de forma alguma combinavam com os imigrantes que aqui aportaram. Mal comparando, sabe aquele papo de reencarnação, em que todos foram nobres ou distintos na outra vida e ninguém foi escravo nem camponês?

Ora, a esmagadora maioria de quem veio para este, na época, fim de mundo, era pobre. Não tinham terras nem posses, só esperança, às vezes um ofício e força para trabalhar. Vieram lutar contra a miséria e foram vencedores. A meu pai soava falso esconder a pobreza dos antepassados. A dureza da chegada na América fora heróica e terrível, muito sofrimento e trabalho duro. Na opinião dele, dessa epopéia deveríamos nos orgulhar, não da pátria perdida onde não tínhamos lugar, onde a crise despejou os mais vulneráveis.

Quando chegava a vez do meu pai falar da sua família na Europa, fazia um anticlímax dizendo que se perdia nos séculos desde quando, de geração em geração os Corso seguiam no mesmo negócio, todos aprendiam com os pais os segredos do ofício e de como essa tradição os unia e identificava a família na comunidade. Mas “esquecia” de falar a profissão dos antepassados, ao que um da roda insistia: mas afinal, o que faziam? A resposta era seca: “Roubávamos cavalos!” A piada desmontava o clima da nostalgia pela perda de uma Itália de fantasia.

Eu montando a cavalo sinto falta do mouse, dos botões, do retrovisor, dos pedais. Decididamente não fomos feitos um para o outro, minha intimidade com eles é pouca. Mas como nunca soube o que realmente fazíamos na Itália, meu pai era lacônico a respeito, tenho receio de que possa não ser piada. Peço então que não me convidem para conhecer seus cavalos. Tenho medo de ser assaltado por uma força atávica e, mesmo que desajeitado, sumir com a tropa. Afinal, é tradição de família!

13/12/14 |
(0)

Livros impróprios ou pais censores?

A literatura nunca é perigosa, muito pior é o silêncio censor.

Pergunte a um professor de literatura do ensino médio qual é o seu maior dilema em aula e a resposta provavelmente será: quais livros devo sugerir para serem lidos e debatidos. Mas atenção, a questão não é que o professor não tenha suas escolhas e preferências, seus livros de estimação, o ponto é como não ferir suscetibilidades, principalmente dos pais da garotada e raramente dos seus alunos. Se o assunto é sexo o campo é sempre minado. O resultado é que os professores se autocensuram e escolhem obras menos polêmicas, enquanto os jovens precisam buscar informação sobre sexo em outros lugares. Geralmente em becos bem mais escuros e a sós.

Saber é poder e no que toca ao sexo, nessa idade, vale como nunca, por isso os adolescentes são tão ávidos por obras que lhes forneçam alguma informação. O desafio de sua vida nesse momento é fazer laços afetivos entre seus pares que os ajudem a se desgrudar do amor dos pais. Ora, sexo, erotismo e amor se confundem na cabeça do nosso jovem, ele está a mercê de uma certa fascinação e da supervalorizada expectativa que temos sobre a questão. Seria útil se houvesse um manual de instruções, ainda que fosse vago, impreciso, imperfeito. A questão é que, por sorte, os manuais não funcionam, seu alcance é limitado.

A leitura poderia ajudar, existem obras da literatura que não fogem da raia, que tratam da questão. Como essas raramente são adotadas, os jovens as descobrem sozinhos, ou no boca boca e as leem sem discussão, ou então só com o entusiasmo dos amigos. A literatura tenta ensinar aquilo que nem os pais nem a escola conseguem. Ela mostra como a vida é complicada, como nossos pensamentos que parecem anormais são corriqueiros. Ela nos deixa menos sós, não somos os únicos a sofrer de angústia sem explicação, há outros que se sentem perdidos e sem rumo, que fazem besteiras sem saber a razão. A boa literatura é o único espelho dos abissais que são a diversidade e complexidade humanas e sua tênue fronteira com a loucura. Ela ajuda a pensar certos comportamentos, fornece novas palavras para sensações enigmáticas, renova a linguagem corrompida pela fala materialista e burocrática da política e da propaganda, funda mundos imaginários para descansarmos do presente. A riqueza de um texto tem o dom de recriar a linguagem envenenada pela banalidade do pensamento obscurantista daqueles que sabem o que é bom para os outros. Ela não necessariamente nos salva, mas fornece boas pistas para achar o fim do labirinto da adolescência.

A literatura adoraria ter tanto poder formativo como acreditam seus censores. Especialmente no sexo, é bom esclarecer que ela não cria fantasias sexuais, apenas fornece cenários que enriquecem e polemizam certas questões. Ninguém vai se tornar pervertido por saber que isso ou aquilo se faz. As fantasias que comandam a vida sexual já estão construídas num adolescente, apenas ele não as explicitou, não as explorou. Confunde-se a descoberta da própria sexualidade com a sua formatação que vem da infância. Não é sem influência, mas é como colorir um desenho que já está feito.

Na mesma linha de raciocínio: recorte algo que existe na realidade e todos conhecemos, coloque isso num lugar público visível e está feita confusão. Pode ser um beijo gay, o sexo mais banal de um casal, um adolescente fumando maconha, enfim, desejos e comportamentos nem tão incomuns ou obscuros. No julgamento de quem censura, tudo deveria permanecer oculto, como se a exposição do já existente justificasse e legitimasse esse fato.

Os pensamento censor acredita que a literatura, a propaganda, a novela não são amostras das várias formas de ser, pensam nelas como autorização e convocação à imitação. Na verdade só cumprem a função provocativa que abre portas para discutir o assunto. A questão é: quem tem medo de uma discussão? A reposta é óbvia: quem não tem argumentos senão escudado na suposta autoridade dos que pretendem nos livrar da perdição. Esses mesmos que veem o público como uns desmiolados que só esperam um exemplo para seguir.

Com o acesso à internet, hoje disponível na maioria dos lares, qualquer jovem encontra pornografia, apologia às drogas, incentivo ao suicídio, e qualquer outra bestialidade imaginável. Mas o detalhe: ali ele está sozinho, sem um adulto, sem um guia que o ajude a discriminar o que serve do que é lixo, do que destrói sua sensibilidade e embota sua inteligência.

A adolescência é um momento sem bússola. Longe de seus antigos pais protetores, que com o fim da infância perderam seus poderes, melhor deixar que eles ao menos estejam perto de alguém que já tenha mais estrada na vida. Os mestres e seus livros podem ajudar a lidar com o peso das exigências do sexo. Confie nos professores de literatura ou nos professores e orientadores que não fogem dessas discussões em aula. Talvez eles não tenham a mesma opinião que você, mas é um adulto tentando uma ponte para ajudar neófitos a discernir o sublime do vulgar no açougue que o sexo pode vir a ser para nosso adolescente. Se evitarmos as obras sobre sexualidade e erotismo nos currículos, vamos deixar que o único professor de nossos filhos na educação sexual seja a pornografia.

Machismo na cozinha

Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a escravas de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos!

Valentina é uma menina que ganhou notoriedade pelo programa MasterChef Júnior. Ela tem a aparência de sua idade, 12 anos. Veste-se de forma adequada, sua fala e expressões são as de uma púbere comum. É graciosa, como  muitas meninas nessa fase. Mas o protagonismo que ganhou deve-se a manifestações agressivas de cunho sexual de que foi vítima na internet. A questão é: o que a fez uma garota, participante de um programa de culinária, ser alvo dessas agressões? Se alguém conseguiu ver nela qualquer tipo de insinuação, essa pessoa é um prodígio de desconhecimento de si, afinal, toma como de fora o que lhe brota de dentro.

Certos homens, por uma insegurança básica de sua masculinidade, acreditam que toda e qualquer exposição feminina que existe, ou que eles supõem que exista, como nesse caso, é para lhes provocar. Como se elas estivessem apenas esperando o seu olhar. Uma vez que se acreditaram provocados, devem agir, demostrar sua macheza, mostrar de que falta de fibra são feitos. É uma típica atitude erotomaníaca, no sentido de projetar seu desejo e suas fantasias no outro. Frente a esse tipo de atitude, de sentirem-se convocados a uma cena que não lhes diz respeito, temos duas possibilidades: os primeiros não necessariamente são abusadores reais, ficam fantasiando e agindo nas sombras, na internet, por exemplo. As redes sociais são o paraíso para os covardes, desse e de todos os tipos, lá não há uma responsabilização direta sobre as agressões. E no espaço virtual começa e termina sua ação constrangedora. Seu dano não é pequeno porque cria uma atmosfera de violência sexual, uma cultura do abuso.

Mas vamos aos piores, o abusadores, os pedófilos. Eles não fazem proselitismo, não latem, eles mordem, por isso são quietos. O que apreciam é a ingenuidade da vítima. Seu gozo necessita dessa assimetria de posições, não é só de força física e de idade, mas principalmente de experiência. Eles querem sentir-se como mestres, iniciadores, a inocência e a surpresa da vítima aumentam-lhes o efeito prazeroso: quanto mais frágil seu objeto, maior o gozo. Arriscam, em termos legais, para não arriscar-se onde sentem-se realmente frágeis: na entrega erótica, não têm peito de enfrentar alguém em pé de igualdade. A escolha de objeto diz muito de nós, pois há uma certa identificação com o parceiro. Por isso pode-se dizer que o abusador procura parceiros onde parou sua maturidade sexual. A sexualidade adulta põem a maioria dos pedófilos a correr, sem um poder tão grande, como ele consegue com uma criança, eles ficam sendo os fracos e impotentes que sua equação sexual particular requer.

A lógica da proteção de que se Valentina não estivesse na TV nada disso aconteceria é a lógica da burca. Esse tipo de cerceamento da circulação social de meninas e mulheres pressupõe que sua presença produz uma inevitável e incontrolável mobilização do desejo masculino. Na sua selvageria auto-complacente, eles exigem que as mulheres fiquem presas para não serem perturbados. Promovem o exibicionismo da macheza por temor dos efeitos impactantes que o corpo feminino lhes produz. Esse tipo de agressor tem medo das mulheres e reage com a violência das feras acuadas.

Talvez a televisão, assim como a internet, sejam uma forma de exposição forte para alguém pequeno, porém, as crianças gostam de ver-se protagonistas de suas atrações. Seria triste se a televisão só mostrasse adultos. É claro que os critérios têm que ser rigorosos, mas já tivemos muitas experiências de exposição erótica de adolescentes no passado da TV e MasterChef Júnior está longe de ser uma delas.

O programa de que Valentina participa não é como os realities shows da versão adulta, onde a humilhação e a concorrência ao estilo dedo no olho parece ser parte integrante do show. A versão mirim é adequada à infância, com mais carinho e elogios do que outras coisas. Não classificaria o programa como educativo, mas que ele coloca questões sobre como criamos nossos filhos. A ideia de proteção da infância é correta, mas muitas vezes exageramos na dose, deixando as crianças fora das experiências da vida, meros espectadores do mundo adulto.

Crianças na cozinha, sempre que supervisionados, me parece uma grande ideia. A comida deixa de ser mágica, elas descobrem o trabalho que qualquer coisa dá, o esforço requerido. A arte culinária pede uma boa dose de concentração, uma sincronização da inteligência motora com a intuição, com a percepção sensorial, é preciso pensar quantidades e tempos de preparo, enfim, não é uma ciência fácil. E deve ser bem mais fácil ensinar química, física e biologia para quem já pilotou um laboratório simples, que é uma cozinha, do que para quem nunca entrou nela.

A culinária entrou na moda quando a classe média, incluindo os homens, tiveram que cozinhar. Enquanto isso era coisa de empregados e mulheres era algo menor. Só que agora as mulheres abandonaram a vocação unívoca para as panelas e, por causa das legislações trabalhistas, este ofício tornou-se oneroso. A consequência, ótima aliás, é que a alienação culinária é menor até entre os adultos mais abastados, como todos têm que se virar um pouco no fogão, cozinhar tornou-se chique.

Na ocupação da cozinha por homens e crianças encontramos a inversa do machismo que confina a feminilidade à vida privada. Elas saíram, eles entraram. As crianças, por sua vez, conscientizadas de que a alimentação é algo no qual se pode ser ativo, deixam de comer como quem mama, o que se lhe puser na boca. Assim a obesidade e as doenças decorrentes da alienação do ato de comer certamente diminuirão. Essas condutas incivilizadas não conseguirão reconduzir as mulheres a serem uma escrava de cama e mesa, nem as crianças a seres amedrontados e passivos. Vivemos um momento de reação a essas conquistas, mas elas são irreversíveis.

Maníaco por calçada

A calçada é o limite entre o espaço privado e o público, encontro eloquente dessa difícil relação.

Poucas coisas me desacomodam tanto como as pessoas que caminham pelo meio da rua, evitando as calçadas, quando estas lhes oferecem sem custo um andar mais seguro. Não se sentem à vontade nelas, provavelmente pensam que invadem algo. Não pegam o conceito do que seja uma calçada. Concebem apenas o espaço privado e o público, dentro e fora, sem margens intermediárias.

Esses caminhantes fora de lugar me deixam inquieto porque as calçadas são minha parte preferida nas cidades. Andar por elas sem compromisso, traçando meu próprio labirinto, é meu ideal de passatempo. Ir a esmo por Porto Alegre é como perder-se dentro de casa, surpreender-se com a extensão de um velho corredor, descobrir um ângulo inusitado no ambiente ora saturado de certezas. É ocasião para enxergar o que os olhos cansados já deixaram de ver. Vagueio tanto pelo gosto como por tentar decifrar um novo lugar. Até aqui muitos me acompanham, não há nada de especial nesse hábito prosaico. A questão é que nessas andanças faço das calçadas meu termômetro particular para medir a civilidade de cada local.

Cada um tem sua forma peculiar, por vezes torta e reducionista como essa minha, de julgar o mundo. A conservação das calçadas e o respeito ao pedestre me diz muito. Sou um maníaco por calçada assumido. Atribuo quixotescamente notas de moral cívica imaginárias a quem não pediu. Para minha sorte, e integridade física, guardo no íntimo esse espírito de fiscal voluntário da prefeitura.

É nesse espaço exíguo que o público e o privado se encontram, é a beira do mar dessas contingências. Um buraco na rua é problema da prefeitura, um buraco na calçada é problema nosso. A calçada é, e não é, nossa. Somos os responsáveis, porém não os donos. Calçada mal conservada, suja, obstruída, privatizada, ou a ausência dela, dá a nota da cidadania de cada local. Porque nesse caso não se trata de invocar o estado faltante, nossa desculpa mais corriqueira, quem falha aqui é o cidadão.

Como sou matutino, me comovo vendo o esforço de muitos para lavar ou varrer o seu pedaço de mundo compartilhado. Arrumam com carinho a passarela de todos. Há uma generosidade nesse gesto que lubrifica a possibilidade de vivermos juntos. A calçada é o que nos protege do nervosismo da rua, quanto melhor, quanto maior, mais é ferrolho, mais vamos tranqüilos. A frente das casas pode emprestar aos passantes um gesto de aconchego. É uma espécie de sala de estar pública, onde os desconhecidos, os passantes fortuitos, receberiam a hospitalidade dos locais.

Um dos dramas contemporâneos é a perda gradativa dos espaços públicos de convivência. Creio que o caminhante que evita a calçada encarna meu pesadelo de perder esse espaço que me é tão caro. Ele seria o grau zero da conquista civilizatória magna (na minha bizarra filosofia) que é essa estreita faixa de sociabilidade pedestre. O privado e o publico têm nele um encontro seco, um choque abrupto, sem embreagem. É meu medo de ficarmos reduzidos aos espaços pragmáticos, de perder a gratuidade dos encontros casuais, o prazer de se sentir seguro e à vontade longe de casa.

17/10/13 |
(0)

Melancolia natalina

Hipótese sobre a depressão que muitos sentem na época do natal

O natal produz muitos efeitos, menos, a indiferença. O natal tem seus adeptos e seus desafetos. Em outras palavras, poderíamos dividir os humanos em natalfílicos e natalfóbicos, se me permitem os neologismos. Os demais, que possuem uma distância neutra e uma postura equilibrada frente ao espírito de natal são estatisticamente insignificantes.

Continue lendo…

01/12/98 |
(3)

Mobbing

Retratamos a natureza à nossa (pior) imagem e semelhança.

Nas madrugadas insones assisto documentários sobre vida selvagem. Creio que seja herança da coleção Os Bichos da Editora Abril. Os programas me relançam na mesma magia que era receber os fascículos durante a infância, reavivam o entusiasmo com a diversidade da vida animal.

Passeio na savanas africanas, nos desertos da Mongólia, no gelo da Groelândia. Aprendo superficialmente sobre focas, mustelídeos, formigas carnívoras. Eu sei o que é um Ocapi, algo entre a zebra e a girafa, e você o conhece? Assisto pequenos dramas animais de sobrevivência, a briga dura pela comida da cada dia, o perigo que espreita em cada passo. Enfim, é coisa para corações fortes, destemidos.

Esses programas estão mais para romantismo naturalista do que para biologia. De qualquer forma, mesmo com toda essa plêiade de animais e seus comportamentos, é raro trazerem episódios de mobbing, tanto mais por que andando nos campos e nas nossas estradas gaúchas, é o que eu mais vejo. Já explico: trata-se de um termo da etologia, proveniente da ornitologia, por ser onde mais se verifica, mas que é usado para todos os animais. Diz-se de quando animais menores se unem para atacar animais maiores, geralmente seus predadores. Seres menos preparados para o embate, fazem valer seu número ou destreza para atacar, cercar, intimidar e afastar adversários mais fortes.

Aqui no sul é comum ver falconídeos serem bicados por pássaros que têm nem metade do seu tamanho. Qualquer vaqueano acostumado às lides do campo conhece esse mecanismo de sindicalismo animal. Nem precisa ser um gado nelore, mais tinhoso, mesmo as raças flor de mansas podem pregar peças em quem entra em seus domínios desavisado, a pé, ou sem um cachorro ativo. O gado encara e pode vir a cercar o invasor, especialmente se houver cria.

Mas voltando aos programas de TV, porque comportamentos de mobbing aparecem tão pouco? Geralmente vemos felinos caçar suas presas, águias capturando coelhos, o bote da cobra no sapo, e é claro, isso é a natureza, mas isso não é toda a natureza. A natureza é seca, selvagem, o encanto está só nos nossos olhos, mas nós a fazemos falar se editarmos as cenas. Creio que esses documentários dizem mais da nossa sociedade, onde o pequeno e o fraco não tem vez, do que da natureza em si.

Nos identificamos e fascinamos com os predadores porque assim procedemos com a natureza: somos o lobo do homem e do planeta. Assistimos aos programas para nos convencer e justificar que esse é o inevitável ciclo da vida e que não haveria escolha. Bom, se fosse para isso, não teria sido necessário descer das árvores, seguiríamos como macacos. Se fizemos uma civilização, certamente não foi para incensar os predadores, mas é o que mais temos visto.

Não fale com ela

a insônia decifrada por uma vítima experiente

Após muitas pesquisas científicas pode se afirmar: os vampiros estão extintos. O que sobrou deles, depois de milênios de convivência, são apenas fiapos ralos de DNA contaminado, desigualmente distribuídos, entre a população normal. A sede de sangue praticamente não se manifesta, mas o chamado da noite se revela em muitos. Esses semi amaldiçoados, entre os quais me incluo, são os insones. Por sorte já não causamos dano senão a nós mesmos.

Queres mesmo ajudar um insone? Vá dormir e deixe-nos com nossa solidão. Se alguém precisa de uma mão amiga para segurar, não se trata de insônia, nesse caso já foi ultrapassada a fronteira do território do pânico. A insônia é um pânico júnior, modalidade menor, peso pena das ansiedades, mas nem por isso menos daninha. O insone experiente sabe que a boa vontade alheia de nada adianta, e a boa alma será mais um zumbi no dia seguinte. Ciente da impotência, resigna-se e dispensa acompanhantes.

O problema maior são as primeiras manifestações, quando ainda não dominamos os mecanismos da herança funesta, e acreditamos que a insônia nos sussura segredos benéficos. O neófito imagina viver uma hiperlucidez, finalmente teria entendido seus problemas. Que nada, a insônia é um estado terceiro, nem acordado nem desperto, mas guarda um pouco dos dois: a lógica aguçada da vigília, e o exagero alucinado dos sonhos temperado com angústia dos pesadelos. Toda experiência com ela nos parece maior, desesperada, grandiloqüente. Mas tão logo a madrugada desponta, os fantasmas se dissipam.

Claro que é necessário pensar sobre o que nos ocorre quando estamos insones, mas nunca enquanto acontece. Devemos trata-la como o mofo, examiná-la sob a luz bactericida do sol.

Por sua natureza híbrida é impossível fazer algo útil, para tanto seria preciso estar desperto. Na essência, a insônia é desperdício: impossível fazer qualquer coisa, impossível descansar. Ela é totalitarista, quer que tenhamos olhos só para ela, não nos partilha. Para melhor nos possuir, sádica que é, ela quer que pensemos nela quando não temos cérebro para tanto, o que nos arrasta para um descaminho de tormentos.

A forma de combate-la é o descrédito. É saber que nada do que pensamos enquanto ela dança conosco tem o tamanho que vemos. Não estamos diante de verdades e revelações. Se não caímos na armadilha de filosofar sobre a vida nesse estado alterado e enfraquecido de consciência seus poderes diminuem. Em resumo: não faça DR com a insônia.

Um última dica, embora saiba que é indelicado negar qualquer coisa a uma dama: ela pedirá álcool, cigarros e café, e vai insistir. Seja firme, negue categoricamente. Se você resistir, ela irá embora antes para saciar seu vício em outra freguesia.

24/10/13 |
(0)

Nosso futuro é vegetariano

Talvez os carnívoros estejam em extinção, a começar pelo autor!

Uma maneira rápida de afundar uma reputação é fazer previsões. Só as cartomantes e assemelhados podem errar sistematicamente e seguir sendo ouvidos. Quem se calça na ciência é cobrado. Porém, como minha previsão é a longo prazo, meu risco é com meus netos. Poderei um dia ouvir: não é de hoje que o vovô diz bobagem!

Embora saibamos que a futurologia é o caminho do descrédito ela segue nos fascinando. Poucas coisas magnetizam tanto quanto tentar adivinhar o que nos está reservado. Na mitologia clássica os deuses tinham duas prerrogativas que não nos eram concedidas: a imortalidade e a antevisão do futuro. Por isso as profecias são acompanhadas de uma neblina misteriosa, afinal, como entramos em seara divina, seu obscuro e impalpável simbolismo surgem.

Mas vamos à minha investida nessa concorrida profissão de profeta: acredito que rumamos para um mundo vegetariano. Não creio que a escolha por essa modalidade de alimentação, vez mais frequente entre os jovens, seja um modismo. Penso que veio para ficar, vai ser uma transição lenta, duas gerações ao menos, mas já está acontecendo. Não teremos um mundo vegano, como quer a esquerda radical da tendência. Acredito numa vitória da ala socialdemocrata, numa aceitação de leite e ovos e talvez do consumo discreto, esporádico, de animais criados livres.

De onde tirei tal disparate, vão me perguntar meus conterrâneos de Passo Fundo, enquanto preparam um costelão. Simples, essa nova geração possui uma sensibilidade mais aguçada relativa aos animais e também é menos prisioneira da razão instrumental, pragmática, que imperou no século XX. Eles não admitem mais que os fins justifiquem os meios.

Conversando com os recém conversos vejo que seguem uma lógica: não querem compactuar com esse sistema movido à força do sofrimento animal. Seu protesto em ato é não comer carne. Muitos aderiram depois de ver vídeos que denunciam os maus tratos impingidos aos animais durante seu crescimento e de como são mortos. Admiro quem não abre mão de dialogar com sua consciência e toma decisões morais a partir disso. Creio que o primeiro embate deles será contra os animais criados confinados. Nas palavras deles, criamos Auschwitzs para o mundo animal. Para os vegetarianos a alimentação é um dilema ético.

Como que eu fico nessa? Ora, eu sou um vegetariano em processo. Já me ganharam na argumentação, mas a adaptação ao novo modelo vai demorar um tempo. Estou me acostumando. Lembro da piada do sujeito que toma seu uísque sem gelo dizendo ser ordens médicas. Interrogado pelo absurdo ele emenda: o doutor me proibiu de beber, mas resolvi começar aos poucos, já cortei o gelo!

18/04/14 |
(1)

O Caso do Professor

Uma história clínica, publicado na revista Norte

Nós psicanalistas somos de poucas palavras sobre nossos pacientes. A discrição sobre as vidas envolvidas pede isso. Porém a morte dos protagonistas envolvidos permite que eu possa contar uma experiência clínica ímpar. Um dos mais enigmáticos casos com que me deparei, que até hoje me faz pensar, e sigo sem respostas satisfatórias.

Continue lendo…

19/06/09 |
(1)

o crime de Woody Allen

Na leitura crítica e na fuição estética, vale a obra e não a biografia… mas algumas biografias acabam dando o que pensar, a de Allen é uma.

Nenhuma editora quer publicar a autobiografia de Woody Allen. Este é mais um capítulo de um processo de isolamento do diretor. Ele está em litígio com a Amazon, por esta ter encomendado um trabalho e desistido após as acusações de sua filha voltarem aos noticiários. De qualquer forma, tampouco algum ator iria quer trabalhar com ele. O cerco se fechou.
Para quem não lembra, o diretor foi denunciado por abusar da filha em 1992, quando ela tinha apenas sete anos. Na época, dois processos de investigação paralelos foram abertos e ambos desacreditaram a denúncia. Na idade adulta Dylan Farrow volta a acusar o pai, sem efeitos legais, apenas morais, e conseguiu derrubá-lo.
A melhor versão sobre o caso é do filho Moses Farrow. Adulto, tornou-se terapeuta e por isso consegue descrever com mais riqueza os dramas de uma família dividida e com ódios não cicatrizados. Ele foi testemunha contra o pai e, quando adulto, conta suas razões: como foi coagido pela mãe a mentir.
Mas então, se não houve abuso, segundo vários peritos e segundo Moses, que insiste na impossibilidade de isso ter acontecido – ele estava lá na ocasião da alegado abuso – como alguém leva Dylan a sério? A questão é que ela acredita e isso a torna convincente. Ela alucinou um abuso e a vida dela marcha como se fosse real, sendo os efeitos quase tão danosos quanto se tivesse acontecido.
Mas por que ela fantasiou, e por que tantos acreditam nisso, passando por cima das evidências? A razão é simples: Woody Allen casou com a irmã dela, filha adotiva da sua mãe, do relacionamento anterior. Tecnicamente não há incesto, mas simbolicamente sim. Houve um embaralhamento das gerações e dos laços de parentesco.
A questão clínica que coloco: Dylan teria fantasiado a cena de abuso, com essa certeza psicótica, sem o relacionamento de Allen com Soon-Yi? Estamos no território da ficção, mas eu apostaria que não. Imaginem a cabeça de uma criança: ele transou com a minha irmã, por que não faria isso comigo?
E no pensamento das pessoas que hoje o condenam, será que o execrariam se não tivesse casado com a enteada? Ora, se ele não respeitou esta regra basilar, ele poderia não respeitar outras, então o abuso seria possível. Para meu juízo, ele está sendo condenado, não pelo motivo alegado, mas pela trama criada.
Legalmente falando, Allen é inocente, mas foi moralmente incestuoso. Mia, como qualquer mãe que casa-se novamente, tendo filhos do relacionamento anterior, precisa confiar em que o padrasto veja as enteadas com as mesmas reservas que um pai tem para com seus filhos.
Um dos dramas do gênios é acreditarem-se acima da lei. Já fomos mais tolerantes com estas faltas, Allen está tendo que lidar com novos tempos. Agora, boicotar sua obra, parece um castigo mais para nós do que para ele.