A cena primária do psicanalista

Hipótese sobre se existiria uma cena primária que predisporia alguém a ser um analista

O que faz alguém querer ser psicanalista? Essa sempre foi uma pergunta difícil, e certamente sem uma resposta padrão, provavelmente teríamos que tomar a questão de forma individual, um a um. Mas uma pergunta que poderíamos nos colocar é: existiria algum fator especial que predisporia alguém, além duma neurose tenaz é claro, a ser psicanalista?

Uma vez Contardo Calligaris, colega e mestre, que tenho em mais alta estima, sugeriu que existiria uma cena primária do psicanalista. Funcionaria assim: um psicanalista seria fruto duma cena forte à qual foi confrontado e ficou sem resposta. Ou seja, um encontro particular com uma encruzilhada enigmática, onde alguém seria tomado numa situação de radical falta de sentido, a qual teria a possibilidade de lhe inclinar à psicanálise, num momento posterior. Em outras palavras, a busca por resolver um enigma inaugural o encaminha a essa hermenêutica particular que é a psicanálise. Digamos que a cena é o problema e a psicanálise é a busca pela resposta.

A Cena Primária nunca se constituiu num conceito psicanalítico propriamente dito, ela pertence mais ao território da literatura psicanalítica, onde habitam as situações exemplares que Freud usa para ilustrar seu pensamento. Trata-se da criança surpreendendo-se ao topar com a relação sexual parental. O caráter traumático da visão dever-se-ia ao fato dela não ter condições de decodificar o que observa e ser levada a interpretar o evento como sendo de caráter violento ou agressivo. Traumático aqui equivale a ser incompreensível, enquanto a suposição de que haja violência na cena já é uma atribuição de sentido, portanto um alívio.

A mais clássica destas cenas pertence à história clínica do Homem dos Lobos, sendo que a insistência de Freud em demonstrar sua realidade vale mais como um contraponto à tese de Jung que a remetia a um inconsciente coletivo. Para o fundador da psicanálise era importante frisar o caráter pessoal e histórico da fantasia, ela só tinha sentido em para e na vida de determinado paciente. Por isso, podemos pensar que se um psicanalista tiver sua cena primária que engendraria seu futuro ofício, ela será um híbrido de algo que resulta da sua história particular e ao mesmo tempo introduz um hiato em sua linha do tempo: ali aconteceu algo muito grande que não pôde interpretar. Por isso a cena primária de um psicanalista não é necessariamente um coito, mas talvez seja o primeiro ou o mais traumático encontro com a incompreensão.

E vale a metáfora também pela cristalização de lugares que a visão de cena primária coloca. Mais do que uma visão, ela seria um organizador de posições, seria uma base sobre a qual a subjetividade e particularmente seu mais recôndito eixo, o fantasma, encontraria uma espécie de fonte, lugar de origem. A criança que olha se pergunta: como eu me incluo nisso que vejo, não compreendo, mas me concerne? A resposta estranha para essa pergunta maluca seria seu fantasma. Ou seja, a cena não é sem conseqüências sobre os caminhos que suas fantasias sexuais irão tomar.

O caso é que Contardo colocou isso num momento em que, não lembro por que cargas d’água, eu acabara de contar uma passagem densa que vivenciei na infância. Se essa seria a minha “Cena Primária do Psicanalista”, não tenho bem claro. Mas acho que acabou sendo, principalmente graças a sua sugestão de que essa experiência teria contribuído para que eu me tornasse psicanalista. Embora estivéssemos num bar, lugar não muito sério para reflexões psicanalíticas, vale como teoria, e como ele mesmo diria: se non è vero, è bene trovato.

A cena ocorreu numa ocasião que minha cidade estava chocada. Um acidente matara um homem, não tão conhecido, mas nem por isso menos querido, um jovem imigrante japonês chegado a não muito tempo na cidade. As circunstâncias do acidente eram especialmente sinistras, pois pareciam insinuar que a morte era requerida. Durante a noite sua camionete se desgovernou e caiu dum viaduto situado a poucos quilômetros do centro. Ninguém percebeu o acidente. Como o viaduto é bastante alto, isso já seria o suficiente para morrer, mas o carro tombou sobre os trilhos do trem, que na madrugada arrastou o carro por muitos metros. Especulava-se se ele estava morto ou não quando o impacto com trem selou qualquer possibilidade de salvar-se que porventura existisse.

Até aí tudo bem, ou tudo mal, mas no dia seguinte ao acidente surgiram no laboratório de análises clínicas da minha mãe três japonesas. As três juntas não falavam uma dúzia de palavras em português e elas pediam algo. A muito custo, entre mímicas e esforços de ambas as partes, minha mãe conseguiu descobrir o que elas queriam: que ela retirasse certa quantidade de sangue de uma delas. Até aí ela entendeu, mas quanto e para o que? Na cabeça de um bioquímico a questão é: usar ou não anti-coagulante? Qual o tamanho da seringa? Não sei bem como, talvez movida por uma empatia que só funciona nesses momentos, minha mãe fez a coisa certa. Retirou então uns 20 ml de sangue dessa estranha cliente. Nesse ponto, pelo desespero do trio, já suspeitávamos que a japonesa do pedido era a recém viúva. Quando ela enfim conseguiu a porção de seu sangue, abriu uma faixa branca no chão da sala de espera e com destreza, colocou seu sangue num pote e o usou como tinta. Antes que o sangue coagulasse, escreveu uma longa mensagem no pano. Não lembro como ficamos sabendo que essa faixa seria enterrada junta ou ornaria o túmulo do seu recém falecido marido. Após o ritual ela partiria de volta para o Japão.

Terminado a faixa ela queria pagar, se minha mãe soubesse o que é on*, a noção de dívida na cultura japonesa, cobraria qualquer coisa e estaria tudo acabado, aliás, o que era seu desejo, pois estava desconcertada. Mas ela não queria cobrar, pois o episódio não constituía, como vamos dizer, um serviço habitual, lhe parecia mais uma ajuda, um favor, desses que não faz sentido cobrar. Afinal, seria a sua singela maneira de ajudar a alguém, que estava de fato precisando, e esse pequeno procedimento poderia figurar como a expressão do nosso pesar, até por que a diferença de língua não permitia que proferíssemos nossas condolências de outra maneira. Isso retardou a o término da cena, que só foi acabar mesmo, quando ela voltou no dia seguinte, trazendo um presente.

A cena pode até não ser tão tocante agora. Mas na ocasião eu tinha uns seis anos e meu maior orgulho era ser um dos primeiros a aprender a ler da minha turma, porém aquelas letras vermelhas que eu a vi desenhar não faziam nenhum sentido para mim, elas me devolviam ao meu analfabetismo. Ela também não parava de falar uma cantilena incompreensível, mas triste, visivelmente muito triste. Ainda agora, a lembrança do desamparo daquela jovem mulher ainda me comove. O destino lhe retirou, num só golpe, um marido, um lar e uma pátria e, como se não bastasse, para reatar o fio de sua vida teria que partir para o outro lado do mundo.

Se a dita cena primária de psicanalista existir, aqui estaria a minha: um cruzamento de amor, morte, desespero, crueldade do destino, sofrimento, luto, incompreensão, tudo narrado numa língua e numa gestualidade incompreensível para mim, só duplicando a falta de sentido que o fato em si já me infligia.

Uma cena traumática geralmente nos quebra as duas pernas, por um lado somos incapazes de entender o que está posto por falta de software adequado, por outro lado estamos suficientemente emocionalmente envolvidos, como para não querer saber o que se passou. A cena acima, embora fosse forte e me fizesse sofrer, tanto por empatia como por impotência, me permitia uma certa distância, até mesmo graças às diferenças culturais, que obstruíam as identificações mais óbvias. Portanto, a visão não necessitava de recalque, ou pelo menos um recalque com a mesma força de um trauma pessoal.

O impacto mais forte era de desconcerto, eu queria saber o que se passava, qual seria aquela dor de perder um amado. Nesse sentido é uma espécie de anti-cena primária, se tomarmos o sentido inicial, pois não se trata de união de amantes, mas de separação. Ao mesmo tempo, como o uso do corpo, pelo sangue, estava presente, testemunhei um outro tipo de comunhão, aquela pela qual a humanidade sempre imaginou que seus pactos mais sérios deveriam ser selados: a assinatura com sangue. Ou seja, tem um caráter de trauma, na medida em que foi demais para meus parcos decodificadores de mundo, mas por outro lado fui apenas um observador no fundo duma cena, ela aconteceria com ou sem a minha presença. Coube-me ver apenas um pedaço dum drama que estava quase no epílogo.

Um observador poderia dizer que a cena poderia muito bem ter fundado um antropólogo, pois comportava um não sentido produzido por um ritual não compreendido. Quem sabe também se os antropólogos não teriam também a sua cena inaugural, que os captura para o enigma da diversidade das culturas. Quem sabe…

O resto desse episódio em mim acabou num concurso íntimo cujo resultado ninguém soube. Creditei à bandeira japonesa um primeiro lugar entre todas as bandeiras. No meu solilóquio usava argumentos sobre o design moderno, onde a beleza provém da concisão. Essa bandeira é de uma simplicidade ab soluta: redondo sobre quadrado, vermelho sobre branco e evoca a força do sol. Considerava-a a bandeira das bandeiras, invejava o povo que vivia sob tal símbolo. Já hoje penso que o sangue sobre fundo branco, signo inicial para mim de como o acaso me apresentou o Japão, prejudica emocionalmente meu julgamento estético. Já não sei se ela é tão bela ou representa minha bandeira privada do dia em que descobri que o mundo era muito complicado.

* Para maiores explicações sobre on, ver um dos meus livros de cabeceira, O Crisântemo e a Espada, de Ruth Benedict, Editora Perspectiva, 1988. De maneira resumida: é uma noção de dívida a qual eles sentem em relação a pessoas não próximas que por um acaso lhes prestou um favor, isso pode ser um pequeno pesadelo, pois não pode não ser paga. Por exemplo, Benedict explica assim a certa passividade dos transeuntes no caso de um acidente, qualquer um deles sabe que ajudar vai causar um constrangimento ao ajudado.
Publicado no Correio da Appoa, revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, número 133
18/03/05 |
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2 Comentários
  1. Moacir Lourenço permalink

    Não creio que exista uma cena e sim várias cenas das quais poderíamos ou não nos apropriar e quem sabe vir a tornar-se psicanalista, engenheiro, advogado, etc. Me parece um tanto de exaltação para a profissão da qual pouco importa se é cena primária, secundária ou mesmo se existe alguma cena, pois o que vale aqui dentro do texto é mais o você faz neste momento como psicanalista, caso contrário tendemos acreditar na causalidade e neste caso não sei o quanto se aplica.
    De qualquer forma provocou uma reflexão e isto é muito bom.

  2. Ricardo Rodolfo de Rezende Prado permalink

    Olá Mario. São meus primeiros contatos com o seu site e seus textos. São extremamente bem escritos, de modo a produzir o mesmo prazer que a ficção costuma me dar, sobretudo ao ler Ítalo Calvino. Quanto a esse A cena primária do psicanalista, além do tal prazer, despertou-me para algo em que nunca pensara, ao menos nestes termos: já o havia pensado enquanto quais as causas da aptidão por uma ou outra área de interesse e profissão. Ocorreu-me que, da cena primária, ao lado do enigma como fundamento do desejo “interrogante” há de haver um desejo de certeza como reação ao que de vazio fica do enigma, haja visto o modo como certos analistas se posicionam frente as teorias que dizem ser suas referências: fazem-nas, tanto quanto seus inventores, funcionar como funcionam sistemas religiosos e seus respectivos gurus.

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