Andarilhos, mendigos e loucos

Reflexões sobre a subjetividade dos andarilhos e mendigos

Jairo Sette, 41 anos, ex-bailarino, vagueia há seis anos pelas cidades de São Paulo, sem lugar fixo, vivendo como mendigo. Não tinha uma vida fácil, não é fácil viver da dança; mas para quem é fácil a vida? Um dia saiu dizendo que ia viajar e nunca mais foi visto. A família, posteriormente, o localizou vivendo como mendigo nas ruas de São Paulo mas ele rejeitou a aproximação. Outras pessoas também tentaram, mas ele rejeita qualquer aproximação, diz que abraçou a miséria e tem que continuar assim.

Trata-se, embora o cenário seja paulista, de um gaúcho que, desde menino, foi criado em São Paulo. Foi bailarino e coreógrafo de talento, reverenciado por críticos e colegas. Em 1979 ganhou o prêmio de bailarino revelação. Atuou no Balé Cidade de São Paulo, um dos corpos estáveis do Teatro Municipal. Fez cursos Alvin Ailey American Theatre, New York, onde estudou raízes negras da dança. Passou pelo Ballet du Grand Théatre de Genève. Antes da dança foi esportista, é formado em educação física na USP. Foi jogador de vôlei, onde ganhou dois títulos nacionais, como infantil e depois como juvenil, ambos defendendo a seleção paulista.

Decididamente não é o perfil de alguém que possamos chamar de perdedor. Ao contrário, nós nos contentaríamos com algumas de seus bons momentos ou experiências. Por esse caminho, o caminho do sucesso pessoal, não vamos muito longe no entendimento de sua atitude.

Sem este exemplo corro o risco de ser mal entendido desde o princípio. Começo por essa história para dar a idéia do que quero abordar. Embora seja uma história que já saiu nos jornais* ela me foi confirmada e recontada por uma pessoa que o conheceu antes dessa fase, o conheceu como bailarino.

Essa trajetória nos mostra uma modalidade de loucura? Até pode ser, mas o que interessa não é isso e sim a opção feita por ele. Trata-se de uma opção por sair dos referenciais pelos quais nos pautamos, sair do referencial fálico, em linguagem lacaniana.

Claro que ele é um caso paradigmático, nem todos são tão escancarados, nesse fica muito claro que Jairo não foi impelido pela necessidade. Os casos que encontramos cotidianamente são muito mais delicados, a fronteira onde começa a necessidade e onde situa-se alguma escolha fica nebulosa.

Gostaria de usar esse caso como paradigma do raciocínio que vou fazer: essa pessoa está na rua e não precisava estar. Entenda-se, não precisa estar do ponto de vista da necessidade, ele tinha um lugar fora da rua. É claro que não sabemos muito dele, dos meandros de sua subjetividade, mas sabemos que ele renunciou à sociedade. Ele desistiu de nós. Desistiu de viver como estava vivendo, não é um suicida, não desistiu da vida, desistiu de levar a vida na correnteza comum.

Nós psicanalistas, somos acusados, amiúde, de psicologizar casos sociais e bem sabemos como tal acusação não é sem procedência. Estamos em uma dessas fronteiras imprecisas, que tendem à armadilha entre pensar a gênese como individual ou social. É necessário esclarecer essas diferenças, pois as conseqüências advirão de como as concebemos. Corremos o risco de psiquiatzisar alguma escolha de vida ou, num outro extremo, de não ajudar alguém que está numa deriva da qual não sairá sem auxílio.

Existem muitos habitantes das ruas, muitos miseráveis extraviados, mas estou interessado nos que estão sempre em movimento, nos que não estão buscando um lugar para se fixar. Nesses que não criam relações de troca nem de dependência. Talvez até por estarem em movimento incomodem menos, afinal estão só de passagem e não são um problema de ninguém já que não tem uma pertença. Talvez até por isso sejam menos hostilizados, basta que os ajudemos a passar e já são um problema do vizinho. Os andarilhos, aos quais estou me referindo, são os que estão na rua em busca de um sentido. Escutei uma definição, fazem muitos anos, de um andarilho que refletia sobre suas caminhadas: “O andarilho está numa procura de algo ou de alguém e sua forma de procurar é andando”.

É necessário também não confundir mendigos com andarilhos. Creio que esta bem possa ser uma subclasse dos miseráveis, mas que tem uma atitude diferente dentro da miséria. Estou me referindo mais aos sem-teto, aos errantes que habitam as ruas.

Os andarilhos e outros desocupados são freqüentemente confundidos com os loucos. E não é de hoje, é um preconceito que tem uma história secular. Eles estão juntos na grande categoria dos segregados. Foram internados juntos em tantos lugares, tantas vezes, que ganharam uma falsa identidade.

Eu acredito que a confusão vem de que tanto o andarilho como o louco negam, mas de maneiras distintas, o modo de funcionamento das trocas na nossa sociedade. Negam muito mais do que a sociedade de consumo, é a maneira de circulação dos objetos que é negada. É a economia tomada em seu sentido mais amplo, em que estão em jogo todas as trocas.

Mas a questão é: que negação é essa? E qual a negação de cada um?

O andarilho está à margem das trocas, à margem da circulação de objetos. Ou melhor, ele vive das sobras desta circulação. Ele não tem lugar no mundo laboral e produtivo, tanto como não tem do lado do consumo; a não ser esporadicamente, tangencialmente. E talvez, para muitos, fazer parte dessa circulação não seja um projeto. Não é uma idéia tão simples, pois nós sempre os vemos como excluídos do sistema, de um sistema que não dá a mínima para eles, como aliás, eles tampouco dão a mínima para o sistema. É claro que não estou falando de todos e nem estou dizendo que estão debaixo da ponte por opção.

A questão é que, engessados por um pensamento tradicional riscamos das possibilidades uma opção pela não participação nas trocas assim como elas estão dadas. Convenhamos, não é muito difícil perceber como as nossas normas sociais são absurdas. A maneira como o mundo se organiza, suas regras, sua hierarquia, só são suportáveis na medida em que não pensarmos muito sobre elas. Então, que alguém resolva dizer que não quer mais participar, que não quer mais continuar o jogo, pois não concorda com as regras, não parece tão estranho. Cá entre nós, a sociedade de consumo é um pesadelo, sempre estamos em falta, não importa o quão ricos sejamos. No modelo em que estamos somos todos pobres, porque nunca vamos alcançar o número de bens ideais. Eu não acho estranho que alguém tome esse caminho, estranho sim é que mais pessoas não façam o mesmo.

Resumindo, estou tentando uma diferenciação entre a grande massa dos excluídos do nosso sistema de trocas e os menos numerosos, auto-exilados desse sistema. É óbvio que qualquer projeto de saída está fadado ao fracasso, não há a saída perfeita, mesmo porque não há saída, eles estão circulando num mundo onde perderam a guerra. O sistema não é o deles, mas estão aí. Observem que não é uma escolha eremita. Essa seria uma outra opção que, quiçá exista e não tenhamos dados para pensá-la. Esta é uma escolha de circulação.

Alguns de vocês devem estar de cabelos em pé com o termo escolha. De fato não é uma boa palavra, ainda mais vindo de alguém que tem a psicanálise em grande conta e que, como sabemos, é fortemente determinista. Sempre pensamos esses casos dentro de uma idéia de suportabilidade, o sujeito não suportou, então, saiu. O sistema teria sido demasiado duro com ele e o quebrou. No máximo usamos a lógica da desistência, que dá mais margem para uma escolha do sujeito, mas vem associada a uma derrota. A questão é por que não pensamos esses casos também numa perspectiva de margem de escolha? Vivemos criticando o mundo, mas aceitamos mal uma crítica realmente radical. Uma escolha dessas pode ser uma crítica em ato, uma crítica, portanto, não discursiva, no sentido corriqueiro.

O mais importante é, para pensar esses casos, conseguir pensar um pouco mais além das categorias que sempre usamos. Estamos imersos num grande paradigma econômico que explica quase tudo. Fruto de uma maneira marxista, vulgarizada diga-se de passagem (Marx era um pouco mais fino), onde se acredita que, no final das contas quase todos problemas são de origem econômica. E não é só a esquerda que pensa assim, isso está disseminado por todo o discurso social e político contemporâneo. É a crença de que, se nossa economia engrenasse, ou desde o começo estivesse engrenada, não haveriam andarilhos e miseráveis. Eles seriam hoje nada mais que um subproduto da nossa miséria. Sim e não. É evidente que, se tudo andasse às mil maravilhas, seria mais fácil de perceber quem está na rua porque ali encontrou um lugar, uma significação, visto que ninguém estaria por necessidade.

Temos que lembrar que existe uma larga tradição cultural de escolhas por um funcionamento à margem do sistema de trocas. Estou falando de algumas ordens ou seitas religiosas que, se hoje estão institucionalizadas é bom lembrar que nem sempre o foram. Bem ou mal essas comunidades estão em um lugar de, pelo menos, desconfiança sobre quais são os objetos e os valores aos quais devemos nos curvar. Geralmente, além de uma regulação diferente frente a uma posição de acumulação de bens, há também uma economia particular frente às exigências do sexo.

Para a psicanálise é muito claro, sabemos como facilmente podemos ser escravos de nossos bens. Que alguém atire tudo para cima, a priori não há problema. É preciso ter cuidado, esse pode ser um processo depressivo, mas pode ser também libertador. Nesse sentido que o despojamento causa um certo fascínio, justamente, porque sabemos o peso de possuirmos um sem número de objetos.

A idéia da liberdade que os andarilhos teriam, por não terem amarras sociais, nos fascina. Em décadas passadas essa idéia seduziu alguns intelectuais, chegaram a idealizar o lumpensinato enquanto modo de vida e até seriam eles quem substituiria o proletariado na vanguarda dos processos revolucionários. Isto se dá no mesmo momento de uma contestação global, que foi o movimento de contracultura dos anos sessenta, quando grande parte da crítica ao sistema era o excesso de significação que damos aos objetos, essa fetichização do objeto a ser consumido. Este movimento também tentou criar comunidades alternativas ao modo social dominante (o movimento hippie) e ainda faz certo eco.

Poderíamos ir mais longe em hipóteses metapsicológicas do agir do andarilho, ele lembra uma certa anorexia do falo, ele exerce sua recusa, ele passeia por todos os lugares mostrando o seu estar fora. Quem nos garante que seus andrajos não são o inverso de um Armani, um olhar convocado para dizer que ele está “do outro lado”?

Muito bem, mas a loucura, como é que entra nesse raciocínio. Qual é o paralelo? Tudo o que falamos até aqui apontava a loucura como uma forma de organização subjetiva particular em que a vigência das normas formais coletivas não valem.

Popularmente se diz que louco é quem rasga dinheiro. Pois bem, nossa missão é desfazer preconceitos, mas creio que há uma leitura desse dito popular em que ele se revela um saber pertinente à natureza da loucura. O louco rasga dinheiro, ou melhor, ele não respeita o padrão de valor estabelecido. Ora, o dinheiro é um padrão de valor estabelecido, é o padrão por excelência. O psicótico diz não a isso, vem nos lembrar do caráter arbitrário de nosso código de valores.

Tudo que temos dito até hoje sobre a loucura é que ela não se pauta pelas nossas regras. Por opção ou por impossibilidade o louco tem as suas regras próprias, a sua própria lógica, a sua própria cosmovisão. A construção do mundo que ele refaz é a sua própria possibilidade de sustentação subjetiva e não lhe servem as maneiras coletivas, as mitologias coletivas, ele faz a sua. O psicótico é um ser fora do mundo, tal qual o andarilho, só que no plano espiritual, às vezes também nas condutas, se o delírio que o sustenta assim o necessitar.

Talvez no que o psicótico, como o andarilho, possam nos ajudar é que a sua postura serve de denúncia ao negado caráter simbólico das trocas. Nós vivemos numa sociedade que insiste no caráter real das trocas, bem como na sua possível mensuração.

Quanto ao psicótico não podemos falar em escolha, pois ao contrário do andarilho, seria uma escolha sem volta, os navios foram queimados no porto. Não há como voltar, não há possibilidade simbólica para isso. A psicose é a impossibilidade de transitar no universo dos valores dominantes, tal como nos é dado. Não quer dizer que não hajam psicóticos que até se dão bem em nosso mundo, mas estão bem porque arranjaram uma forma particular de recriar o mundo a sua maneira.

O paralelo é que ambos estão fora. Fora das regras, fora do reconhecimento de qual hierarquia é a que vale, fora do consenso sobre quais os objetos ideais. Os dois estão na contracorrente do consenso social. Você pode estar marginalizado e estar de acordo. Por exemplo, o delinqüente é um dos que mais reconhece o valor dos objetos, o valor social atribuído aos objetos, ele está marginalizado por que escolhe chegar aos objetos por atalhos, mas de fato, está de acordo sobre qual é o objeto que vale.

Mas atenção, por estarem fora não constituem uma comunidade, eles não fazem um conjunto. Talvez até os andarilhos possam fazer um ou mais conjuntos, mas a psicose é sempre ímpar. Os psicóticos existem um a um, por mais que possam externamente parecer-se.

É aqui que se estabelece toda a confusão fenomenologicamente os dois são parecidos. Estão, desse modo, grosseiramente dizendo, na oposição social de tudo que é estabelecido. Por isso os dois são simpáticos, principalmente para quem tem uma sensibilidade mais aguçada quanto ao embuste social Por isso o pensamento de esquerda tem alguma identidade com eles e não raro os idealiza. Mas atenção, nenhum dos dois faz um discurso político, nossa leitura é que os politiza. O andarilho, raras vezes creio, pensa ou recobre suas escolhas com um sentido político, no máximo um discurso reivindicatório difuso. O psicótico nem isso. Claro que alguns se inclinam para um discurso político mas considerando a totalidade da população psicótica, não temos uma proporção diferente dos outros segmentos.

Para finalizar: a caminhada do andarilho é sem rumo, a vida do psicótico é sem rumo. O andarilho faz no espaço, na geografia, aquilo que muitos psicóticos fazem no terreno discursivo. Ou então, o louco procura nas palavras o caminho que o andarilho trilha.

**Conforme notícia da Folha de São Paulo em 27 do 12 de 1996, 40 Caderno, página 1

Trabalho apresentado no congresso sobre o Valor Social do Trabalho
30/04/98 |
11 Comentários
  1. bruno soad permalink

    parabens pelo texto, muito bom!

  2. Robson Szymaciek permalink

    .. ” O individuo supersocializado entra em um cabresto psicóligo e trilha os caminhos que a sociedade inventou pare ele”.. – Theodeore Kackzinski (Unabomber, Matemático, Eremita, Esquizofrenico e Serial killer) ..

  3. sergio permalink

    Nossa sociedade é falsa e hipocrita ,as pessoas sensiveis acabam as vezes sucumbindo a isso atraves de vicios ou fugas mais radicais como viver nas ruas ,vagar e aceitar a miseria como forma de vida ,a falta d amor fraternal , midia manipuladora ,os padrões ,a corrupção ,tudo isso é aceito placidamente pela sociedade ,asim como a violencia e todas as mazelas que vemos diariamente ,porém se jogar numa miseria maior pode não ser a melhor saida ,talvez procurar o seu espaço interior seja melhor ,quem vive pelas ruas tende a loucura patologica informal ,assim como o sistema induz a loucura contida ,formal ,as duas subvertem a natureza humana ,a inversão de valore tanto de um como o de outro não podem ser o melhor caminho ,um é aceitação do insuportavel outro é a fuga que tb tornarse-a insuportavel .

    • Parabéns pela análise. Super equilibrada! Fui andarilho e de fato o ser humano tende a um outro extremo da loucura social quando esquiva-se radicalmente do meio social convencional!

  4. Estou prestes a fazer o que fez o bailarino. Mas como cunho revolucionário, que acredito ser também o dele. Uma forma de no mínimo externar a resistência de me enganchar às máquinas sociais – Estatal, econômica, política, etc. Bom seria se houvesse segurança para tal, pois o Estado mesmo pode aniquilar aquele que não quer se submeter às suas máquinas – e aí indivíduos como eu podem facilmente desaparecer, sob o pretexto de ser usuário de drogas e danoso à sociedade.

  5. Eu tenho um texto que se chama a figura do mendigo, está no meu blog, tece um pouco essa relação que você tentou esquadrinhar aí. Mas ele é anterior às minhas pesquisas de Deleuze e Guattari, portanto um tanto simplista e pessoal de mais.

  6. thiago permalink

    A cada dia mais penso em virar um andarilho
    . As pessoas nao acreditam e quando acreditam dizem que estou ficando louco, sei lá, ja nao vejo mais saida para mim….nao tenho coragem de me matar nem acho quem o faça ….entao vou para as estradas……Nos encontramos pelo mundo afora se Deus quiser !

  7. MARIO MELO DE SOUZA permalink

    Concordo com a sensibilidade do escritor.
    Eu já estou quase me tornando um andarilho.
    Quando a gente começa a importunar as pessoas, não consegue satisfazer ninguem, só ouve reclamação por diversos motivos além de enes problemas da familia da parceira, aí e´o fim.
    Trabalho a 40 anos, sou aposentado e ainda tenho forças para trabalhar.
    Só que cansa . Vou cair no mundo, que deverá me cobrar bem menos.

    Nos encontraremos pelo caminho.

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