Dificuldades inerentes ao tratamento da psicose

Inventário dos problemas enfrentados por quem atende psicóticos

O título pode não ser muito feliz nem muito poético, mas é transparente, é sincero, é exatamente o que quero desenvolver, ou seja, o que faz resistência à direção da cura na psicose. Tanto no cotidiano clínico quanto os aspectos sociais envolvidos num tratamento.

Mas antes gostaria de falar dos que se aventuram na clínica da psicose. Gostaria de falar dessa coletividade, na qual me incluo. Qual é a nossa? Por que nos interessamos por esses humanos insólitos que são os psicóticos? O que temos em comum? Duvido que haja uma resposta comum, cada um se engajou por uma via particular, seja por altruísmo, por neurose, por masoquismo sei lá, cada um pode depois pensar. Mas acredito que de alguma forma fazemos um conjunto. Uma coisa é certa não roemos a corda quando o assunto é psicose. Isso já é um conjunto, além de ser um ponto a mais na lista de nossas virtudes.

A verdade é que encontramos poucos profissionais, entre os que são capacitados, dispostos a atender pacientes psicóticos. É muito difícil conviver com a alteridade que a loucura provoca, por isso existem poucas pessoas dispostas a isso, e menos ainda são as capacitadas para um convívio construtivo. Nisso estamos então de parabéns.

Não somos super-heróis, existem outras escutas, outros tipos de pacientes, que fazem resistências brutais e põem muitos profissionais em fuga. Algumas fantasias sexuais particulares não conseguem ser suportadas por qualquer um. Quantos de nós não agüentam trabalhar com depressivos. Lidar com o fantasma da morte por perto também não encoraja ninguém, lembrem-se do que é acompanhar pacientes terminais. Clinicar com pessoas com deficiências físicas e comprometimentos neurológicos onde a fantasia de cura quase não pode-se instalar requer um empenho muito grande. É preciso uma paciência zen para suportar quadros que não melhoram nunca, ou quadros degenerativos quando o que se acompanha é o agravamento. Querem ver algo bem singelo mas que também pode ser insuportável: a infância, o contato com alguns aspectos do infantil é o suficiente para que alguns profissionais recuem.

A questão é que como nem todos agüentamos qualquer demanda conviria de antemão não fazer um juízo negativo dos que resolveram cair fora do atendimento aos psicóticos. Se temos uma sensibilidade ou uma vocação para isso talvez nos assustássemos com outras coisas. Eu particularmente não cobro isso de ninguém e entendo a cautela. O que temos em mãos é realmente uma tarefa insólita e muito difícil.

A única observação que faria aos que não querem saber dos psicóticos é a falha na formação: se há algo que revoluciona nossa concepção de sujeito, mesmo a do sujeito neurótico, é a experiência com a psicose. É errado pensar que trabalhar com psicóticos nos dá apenas uma escuta especializada, é uma meia verdade, creio que se aprende muitíssimo. É como se pudéssemos ver a neurose pelo avesso, dito de uma maneira bruta, pois a psicose não é esse avesso. Acredito que aos analistas, para a formação, é necessario ao menos ter tido pelo menos um paciente psicótico.

Transparência & Narcisismo clínico
 

 

O paciente psicótico é sinônimo de incomodação na certa. E aqui o narcisismo da reputação clínica entra em jogo. Não estou falando da incomodação clínica afinal esse é nosso metier, falo da incomodação para a respeitabilidade. A clínica de cada terapeuta ganha uma transparência no atendimento a psicóticos. Na esmagadora maioria dos casos a transparência, o que aparece publicamente, são os fatos que fazem pensar que o profissional não tem as rédeas do processo em curso.

Trabalhar com psicóticos envolve pais, parentes, amigos, comunidade, escola, instituição, etc por isso é mais voltada para fora, mais pública, por isso mais se demonstra um estilo. Mais do que nunca vamos ser chamados a dar conta por um ou outro ato ou intervenção. Dá muito mais trabalho, e o trabalho aparece, e principalmente os erros aparecem. Os acertos geralmente só tem o terapeuta por testemunha. Quando conseguimos que um paciente fique cinco anos sem crise isso não é creditado como acerto, é no máximo um empate. E quando entra em crise o que aparece é que erramos. É cruel mas é assim.

São pacientes com muito mais risco de uma passagem ao ato, de atos extremos, de tentativas de suicídio, de suicídios de fato. Quem trabalha um tempo com psicóticos já não é virgem de tentativas de suicídio logradas ou não.

Certamente existem ainda outros motivos que examinaremos, mas o fato é que entre os profissionais de saúde mental também existe preconceito e recusa ao atendimento a psicóticos. Na verdade em muitos casos não se trata de preconceito, pois a escolha se dá por saber muito bem que conceitos estão em jogo. É uma retirada estratégica bem calculada.

Sem falar nas responsabilidades que a família nos delega, que as instituições nos pedem. Faça algo com fulano, é isso que ouvimos o tempo todo. Somos colocados muitas vezes em lugar de avalistas desses pacientes, a família se desobriga e joga as questões no nosso colo. As famílias não se reconhecem no problema da doença de um membro. Raramente acontece de um verdadeiro engajamento em buscar no terapeuta um aliado para um problema comum, na prática a família terceiriza o problema. É administrativo, somos contratados para resolver o problema. E enquanto não está resolvido muitas vezes é um problema nosso. Os psicóticos são muitas vezes trazidos como se trazem as crianças, elas não encaixam no ideal que lhes foi pensado, então é necessário fazer ajustes, não no ideal, é claro.

Na clínica com neuróticos não nos positivamos quase nunca. Podemos até querer o bem de nossos pacientes, não somos indiferentes às melhoras. Porém sabemos que se procurarmos esse bem, se vacilarmos em pegar um atalho, quer seja preocupar-se com a melhora imediata, o trabalho clínico vai ser obscurecido e podemos escorregar facilmente para diretores de consciência. Na psicose não é bem assim, muitas vezes somos colocados contra a parede e temos que assumir determinadas posições. É uma clínica muito mais ativa, e isso incomoda os puristas. Nós sabemos perfeitamente que em alguns casos graves, se não houver alguém desejando uma cura não vai haver mudança de quadro nunca.

Quem já trabalhou em instituição psiquiátrica sabe do que estou falando, já deve conhecer algum caso que encontrou um terapeuta teimoso e foi essa obstinação que mudou o quadro quando não produziu uma alta. Quem está acostumado só com o universo da clínica da neurose estranha. Já quem vem de uma clínica só com psicóticos (ainda mais se for numa instituição) pode até pensar que é sempre assim. Tampouco é uma regra, existem muitos casos onde a possibilidade de tratamento é justamente uma postura de não intervenção extrema, de ficar em uma posição onde nada é pedido do sujeito.

Mas de qualquer modo somos uma presença que lembra um pouco a análises de crianças, onde figuramos como uma das ativas personagens da sua história e formação.

Dificuldades transferenciais
 

 

O desconforto que o psicótico proporciona é por que ele nos evoca a fragilidade de nossa própria significação. Se somos mais bem sucedidos em ter uma significação, não quer dizer que por isso seja muito sólido o que nos sustenta. A psicose porta uma função de verdade que é corrosiva para quem se atreve a sustentar uma transferência. A psicose vem nos lembrar do não sentido original que preside o que nos dá sustentação subjetiva. É sempre bom lembrar que somos órfãos dos deuses, que carecemos de uma significação que estaria livre de qualquer dúvida, de qualquer questionamento. A vida não tem nenhum sentido apriori, do real não se extrai tampouco nenhum sentido. É sobre esse fundo de não sentido que a duras penas construímos um sentido para nossa existência. O caminho da cura na psicose passa por isso, pela busca de uma significação, ou o que possa substituí-la, um delírio viável.

Como então enfrentar um sujeito que vem justamente pedir que o acompanhemos a encontrar algum sentido que torne a sua vida tolerável sem ficarmos confrontados com o nada, sem nos depararmos com o ponto zero de significação que a duras penas recalcamos. Pensando assim podemos entender nossos colegas que recuam, como podemos entender como a clínica tradicional é defensiva em relação a psicose.

Cada um de nós, cada neurótico, guarda para sí a verdade desse ser nada que recalcamos não sem muito esforço. O horror que acompanha esse segredo é que nos defronta com a possibilidade de ser reduzido à condição de objeto, à condição de coisa, de puro corpo. A pergunta de “quem sou eu?” vai remeter a uma resposta unívoca: “eu sou para o outro”. Ora, a subjetivação de cada um vai depender de ultrapassar essa vivência de um colamento a um Outro materno. É justamente isso que ninguém está disposto a lembrar. Nosso terror enquanto neuróticos é ficar desprotegidos, expostos enquanto objeto à mercê do Outro.

Ninguém quer saber do encontro com a psicose. Ninguém quer escutar o psicótico, não há ouvidos para seu discurso. Ou partimos dessa triste constatação, ou não entendemos mais nada. Vamos sempre ser minoria e nunca vamos ser muito populares. Tudo o que gira em torno da psicose é e vai continuar sendo contaminado por esse mesmo sentimento de prevenção à psicose. Não consigo vislumbrar um horizonte onde haja uma tolerância maior para com a psicose. Mais do que nunca gostaria, sinceramente, de estar errado. Não é um pessimismo sobre o avanço na humanização do trato social com o louco nem com as possibilidades de cura, estas avançam devagar e a duras penas mas avançam e nós somos testemunhas desse processo. A desesperança é por que acredito que trata-se um defeito na estrutura, sempre vai ser algo como conviver com um nervo exposto.

É necessário ter isso claro para não deslizar num queixume e num pedido, que pode ser patético, para que todos se sensibilizem com o drama da psicose. Estamos sós e é difícil que deixemos de ser poucos. Talvez por isso sejamos tão barulhentos e acompanha-me a sensação de que somos algo quixotescos ao mesmo tempo que nossa tarefa tem algo de épico, de grandioso. Mas o que eu gostaria de dizer é que o barulho que temos que continuar fazendo não pode ter como eixo a queixa nem a culpa.

Crenças sobre a psicose
 

 

Não confundir, por favor, a simpatia pela causa com a idealização da loucura. Esta última traz mais confusão do que ajuda, trata-se de um preconceito às avessas. O psicótico, não é politicamente correto dizer, mas é verdade, é um embaraço para os seus e para todos que com ele convivem. Fora raras e honrosas exceções, eles são um peso. Ao invés de se admitir, para poder contornar, essa rejeição básica a estratégia de alguns foi criar crenças compensatórias.

A equação fica assim: está bem ele é louco, mas compensa com… Pensando bem é compreensível dado o lugar em que a loucura ficou colocada em nossa sociedade. Na tentativa de resgatar alguma dignidade ao louco, acabou se valorizando a própia loucura.

Essa idealização tem raízes mais fundas, numa sociedade cada dia mais individualista como a nossa, que tem por conseqüência dessa ideologia o fazer-se por si mesmo, o recalque da tradição, não há como não idealizar aquele que é sem amarras, sem pai. O louco é a caricatura do sonho do individualismo moderno de ser livre. Ele sim é livre. Não é um dos ideais mais prezados da nossa época ser livre? Pois muito bem, aqui está o mais bem acabado exemplar da liberdade. O psicótico não tem a âncora paterna da qual tanto nos queixamos.

Lacan lembrava que o indivíduo contemporâneo, inconsciente de todas as sobre determinações na qual está imerso, num processo ativo de não querer saber delas acredita-se como um indivíduo livre e que faz escolhas, que exerce a liberdade. Lacan era radical nesse aspecto, para ele isso não passa de um delírio, o único ao qual o neurótico teria acesso. Como temos esse ideal de liberdade acabamos intuindo que a psicose tem essa “vantagem” e a valorizamos.

Não acredito que esse senso comum sobre a loucura ainda esteja impregnado em nós terapeutas, mas temos que as enfrentar na comunidade. É necessário estar atento pois essas crenças compensatórias tem uma estrutura interessante, geralmente desvendam as nossas crenças neuróticas. E, repito nós temos que dar conta publicamente de nossas intervenções por isso é provável que vamos trombar também com essas crenças românticas.

Outras dessas crenças compensatórias seria da genialidade. Fora dos estreitos caminhos da razão o louco seria mais inteligente mais sensível para o novo, mais criativo. O olhar sobre o mundo de um estrangeiro sempre é mais revelador, ora a psicose pode ser uma forma de estrangeiridade. Uma vez que referimos um estar fora do que é a referência dominante, não é improvável que um olhar mais arguto brote daí. Seria como ver nossa civilização de fora. Há um pouco de verdade nessa crença, mas está longe de ser generalizada e de que o sujeito psicótico comum possa fazer algo com isso.

Uma das mais difundidas crenças dentro da idealização da psicose certamente é a que fala da questão do gozo, o psicótico viveria num mundo aparte, livre das mazelas e dúvidas cotidianas, e na certeza de seu delírio seria alguém feliz. Isto não resiste ao menor contato com a realidade: poucos sofrem tanto como o psicótico. A resistência do psicótico em melhorar, em vir ao nosso mundo seria abrir mão de tal paraíso. Apontam um lucro secundário na doença tal como encontramos na neurose. Tenho encontrado muito tal crença em famílias de psicóticos. Nada mais incorreto, pessoalmente, se há algo que quase me fez recuar dessa clínica, é o grau de dilaceramento subjetivo e o sofrimento quase sem esperança de muitos quadros. O inferno de Dante é Cancun perto de alguns casos que conheci, e aposto que qualquer um de nós apontaria vários. Sinceramente é um assunto onde me faltam palavras, nunca consegui falar dando a magnitude do testemunho de certos sofrimentos. Certos casos quando chegam dão a sensação que o sujeito não tem saída, você olha para trás e é um deserto, para frente outro deserto e aí temos que fazer algo.

Uma crença simpática mas perniciosa é de que a loucura não existiria. Geralmente vem pela negativa: a sociedade é que seria louca e o sujeito apenas seria frágil para a empreitada social. Logo, a loucura seria social e não pessoal e não deveríamos encaixar os loucos numa sociedade louca. É certo que não estamos no melhor dos mundos e também é verdade que a loucura é social e vai ser sempre assim se definirmos a loucura como uma impossibilidade de conviver com os sintomas dominantes. Mas o problema não é esse, essa crença embora parcialmente correta tira de foco a história pessoal de cada indivíduo, e é só pela história pessoal é que poderemos inventar uma nova significação possível para este sujeito.

Crenças científicas
 

 

Mas todas essas crenças são o senso comum de nosso tempo sobre a psicose, não é o pior. O que resulta mais difícil certamente são as crenças científicas inabaláveis. Duas valem a pena mencionar: psicótico enquanto deficitário e o psicótico como infantil.

Existe a crença que algo falta ao psicótico, é preciso ter cuidado senão nós mesmos vamos acreditar que ao psicótico falta o nome-do-pai, que falta a referência fálica central. A estruturação psicótica não deve nada a ninguém, é assim e pronto. É certo que as coisas não vão bem mas não porque lhe falte algo, por que não tenha acedido a neurose. A psicose é uma forma de subjetivação, não é melhor nem pior que a nossa. Eles se dão mal por que o sintoma dominante, as referências dominantes são neuróticas, eles perderam a guerra. Em outro meio quem sabe como iriam ser? A etnopsiquiatria ainda tem muito a nos ensinar sobre como a psicose (ou casos em que nós chamamos de psicose) poderiam ser simplesmente uma perda brutal de referências simbólicas e que poderia haver cura desde que se volte as referências originais. Conhecemos casos assim, de indivíduos que migram e adoecem, voltam as suas origens e melhoram.

Quanto ao psicótico como infantil é bem difícil sair dessa crença, e a psicanálise não é sem culpa nessa história. Boa parte das teorias sobre a psicose batem na tecla da não maturação psíquica, o psicótico é alguém que ficou no meio do caminho. Não haveria evoluído como deveria, partem da idéia de uma evolução normal ou natural que por desajustes de uma história pessoal ficou fixado em uma fase. Enfim, o indivíduo seria imaturo, aliás bem imaturo, pois estaria fixado na fase oral… e por aí vai, seria alguém psiquicamente primitivo. Evidente que, partindo dessas premissas, as estratégicas clínicas irão ser maturativas. E isso nem é o pior, nessa compreensão, o psicótico não sofreria com o complexo de Édipo, afinal ele não chegou lá. Isso explica a surdez da clínica tradicional, boa parte do dilema da psicose é com a sexuação e com a filiação, mas se insistimos que eles não chegaram lá…

Na verdade estou lembrando disso para pensar com vocês algo que me escandaliza. Por que a sociedade está de acordo em que para o atendimento de neuróticos é necessário ter passado antes por uma análise, ou por qualquer outra terapêutica, ou seja quem quer ministrar alguma cura vai ter que passar antes pela experiência que acredita. Ora para os pacientes psicóticos não. Parece que não são necessárias credenciais particulares para enfrentar justamente quadros de maior risco e seguramente mais difíceis. O que está em jogo aqui é isso de que falava, se o psicótico é uma criança grande, um ser de idade mental inferior basta ser adulto e pronto você está em condições de lidar com ele. Afinal basta bom senso para com as crianças. O mesmo raciocínio vale para o déficit, ora se o psicótico é alguém que lhe falta algo que eu tenho não há problema de dar conta do recado. Então não é necessário passar por tratamento nenhum, basta ter bom senso.

Credenciais para o atendimento a psicóticos
 

 

Acredito que é necessário muito mais do que um tratamento. Não é fácil acompanhar a busca de uma significação de um psicótico, dito em outras palavras não é fácil acompanhar a busca de um delírio viável. Além dos motivos que já expusemos se sobrepõe outro, como não há vias principais para a caminhada, como qualquer caminho é caminho e então qualquer caminho vale, é muito fácil se perder. Quem quer que seja que se aventure a essa jornada vai ter que ser um curioso nato. Vai ter que ser alguém disposto a transitar por todos os tipos de saberes.

O ideal do terapeuta de psicóticos é um enciclopedista, só assim poderá ser um guia seguro pelos descaminhos de saberes que será necessário trilhar. Calligaris advertia que quem se aventurasse a acompanhar uma busca de significação de um psicótico sem ter uma certa estatura no campo das humanidades, sem ter um background intelectual mínimo não seria mais do que um funcionário do horror. Advertia ainda que os neuróticos tem muito mais paciência com a nossa ignorância, que um psicótico não toleraria uma indigência intelectual.

Acontece que pela natureza própria a esse trabalho é necessário uma paixão pela variedade das significações humanas, e sem um trânsito por essa variedade não temos nenhuma chance. Isso coloca a questão que, de algum modo, a clínica da psicose é para quem tem vocação. Não basta apenas suportar o encontro sempre difícil com a transferência do psicótico é preciso credencial de guia turístico pelas constelações dos saberes humanos. Nunca se sabe por onde vamos andar, hoje podem ser aspectos da ética budista, amanhã o saber técnico da apicultura pode ser relevante. Vamos ser inquiridos sobre nossas preferências quanto ao campeonato de futebol italiano ou as escolas de samba do Rio. Por mais que pareça caótico o problema é que vai se tratar sempre de uma possibilidade de construção de uma significação, então vai ser sempre muito sério. O psicótico joga muito menos conversa fora do que o neurótico, a conversa é sempre séria e decisiva, mais do que nunca todas nossas palavras devem ser pensadas e muito bem pesadas.

É necessário uma alma de antropólogo pelas mesmas razões acima descritas. É preciso uma posição muito delicada relativo aos valores sociais em jogo. Uma das melhores intenções para com os psicóticos é o empenho de algumas orientações terapêuticas em achar um lugar para social o louco. Seja um trabalho, um lugar na comunidade, resituá-lo em seu grupo, enfim, tudo isso que almejamos para nós: lugares de reconhecimento. É tudo que um neurótico quer, só que com a psicose a questão é diferente. É bem difícil para qualquer um de nós não cair na tentação de que o caminho é esse. O problema é que para uma boa parte dos psicóticos o desencadeante é justamente o pedido social para ocupar tal ou qual lugar. Um dos paradoxos da psicose é que muitas vezes eles fracassam (entram em crise) justamente onde o neurótico triunfa. É preciso um descentramento em relação aos nossos valores para não cair nessa armadilha, por isso faço um paralelo com a antropologia, nós temos que estar em guarda o tempo todo com os valores de nossa época.

Então resumindo, as credenciais para atender psicóticos, além de ter se analisado, é necessário ser um curioso enciclopedista , um antropólogo amador e acreditar em moinhos de vento.

Falta de unidade das teorias
 

 

Uma das fontes do preconceito à psicose, e do senso comum sobre a psicose é que não há uma teoria consensual sobre a psicose. Ou seja, nós não ajudamos muito. Como que poderia ser diferente, se nós que somos profissionais não estamos de acordo entre nós sobre o que é a psicose e quais os caminhos da cura. Essa deficiência de uma unidade teórica não é sem conseqüências sobre as práticas e sobre a respeitabilidade social. Convenhamos, uma das poucas unidade de consenso são quadros fenomenológicos descritivos. O campo teórico das psicoses é uma Babel como poucas.

As vezes penso o quanto a sociedade é condescendente para conosco, não chegamos a um acordo entre nós sobre nosso objeto, quase não produzimos curas e administramos bastante mal os casos em que admitimos não saber como curar. Não é extraordinário que ainda nos levem a sério? O que é a transferência…

E isso abre a porta para toda e qualquer proposta de prática, seja ela empírica esotérica, até artística. Muitas vezes nos irritamos com a mídia por dar um ar de seriedade para qualquer novidade medicamentosa ou nova e milagrosa intervenção clínica, ela está só preenchendo um espaço que nós mesmos deixamos vazio. O homem comum quer entender o fenômeno da loucura, se ele não está diretamente envolvido sempre lhe resta a fantasia de poder enlouquecer. A ciência tem promessas para tudo, assistimos uma época que revoluciona-se tecnologicamente, por que não poderíamos ter a idéia de controlar a loucura se a natureza a cada dia a dominamos mais? Não é de se admirar que todo mundo queira vir dar o seu palpite se nós fracassamos tanto.

Reforma: crítica rápida de sua limitação
 

 

Dadas as necessidades do movimento de reforma psiquiátrica agimos pragmaticamente com um consenso que não existe, digo de um modo geral. Mas é certo que por significarem as novas regras um avanço tão grande, politicamente é bom não dividir, é bom aparentar uma coesão, mas até quando eu não tenho a resposta. Até que ponto seria importante avançar na discussão de alguns pontos que se apresentam como avanços e da qual sei que muitos colegas, como eu também, torcem o nariz. Vou apontar os dois que me parecem mais problemáticos.

Primeiro, não estou nada convencido de que seja bom abrir leitos em hospitais gerais. Quem conhece hospitais sabe que eles já tem problemas suficientes, já lidam com o fantasma da morte e não sabem lidar com o da loucura. Será que não vamos medicalizar ainda mais a psicose? Concordo que dizer que se passou pelo Hospital Conceição tem um peso distinto de dizer que andou uns dias no São Pedro. Mas será que isso compensa?

A experiência de quem tem trabalhado em hospitais gerais e já trabalhou em instituições especializadas diz que é um avanço. Eu não discordo do avanço o que aponto é que assim seguimos empurrando a psicose para o campo da medicina, da doença e do orgânico.

Que a psicose esteja no campo da medicina é uma contingência da história do ocidente, não é algo intrínseco por essência a seu campo. Vamos fazer um exercício de ficção. Digamos tivesse havido um grande moralista do século XVII e ele houvesse elaborado uma obra para classificar os indivíduos que não fossem passíveis de educação, que fossem refratários aos bons costumes e boa a conduta por terem alguma deficiência na capacidade de aprender. Esses indivíduos necessitariam de uma escola especial de onde só sairiam quando aprendessem a lição. O mundo se dividiria em sujeito educáveis e os ineducáveis ou de difícil cognição. Uma outra subdivisão entre os educáveis intelectualmente, mas não moralmente. É natural que apartássemos os renitentemente não educáveis em colégios fechados visto que seu desregramento é um mau exemplo para a educação do conjunto.

Ao invés de hospital psiquiátrico teríamos escolas fechadas de reeducação. Poderia ter sido esses o destino do trato com da loucura. Não estou dizendo que seria melhor mas poderia ser diferente. A questão é que por enquanto a questão da autoridade médica tem sido pouco questionada dentro do espírito da reforma psiquiátrica. Fazemos a reforma com o mesmo time e o mesmo treinador que perdeu o campeonato nos últimos cem anos…

O outro ponto não menos importante mas gritantemente mais urgente diz respeito à questão da inimputabilidade. Para proteger o louco o alienamos de seus atos extremos. A maneira pela qual a psicose vai responder a seus atos é distinta das dos outros cidadãos. A reforma psiquiátrica não pronuncia-se sobre isso e segue com essa concepção antiga de proteger o louco. Parece que faz todo o sentido do mundo, mas como se fazer valer por atos que não valem? Alguns atos são uma tentativa de simbolização, são a tentativa de encontrar um rumo, um sentido.

A inimputabilidade na prática cria a punibilidade eterna. Não há pena, não acaba nunca a dívida que tal sujeito teria para com a sociedade. Qualquer criminoso comum sabe que um dia, mesmo longínquo, ele pode se desvencilhar civilmente de seu ato. O psicótico muito mais dificilmente pode ter esta esperança. Não creio que deva ser exatamente os mesmos critérios para qualquer sujeito em qualquer circunstância, mas acredito que pode haver um modo de enfrentar a justiça que não deixe de engajar o sujeito em seus atos.

Não se trata de punir os psicóticos por seus atos extremos, mas reconhecer neles uma importância social, e socialmente uma repreensão. Não precisa e não deve ser a mesma dos criminosos, mas que possa fazer um gancho para posterior simbolização.

Medicação ou do óbvio ululante
 

 

Vou abordar a coisa mais óbvia do mundo, mas será necessário por que nós temos uma certa filiação, de alguma maneira ainda somos aparentados com a anti-psiquiatria e temos uma aversão pelas teorias que reduzem a psicose ao campo orgânico. Tenho notado entre meus pares, principalmente nos não médicos, uma grande desconfiança com a medicação. Falei que iria falar das dificuldades, a medicação é um auxilio mas a resistência a ela é uma dificuldade.

A medicação causou uma revolução no tratamento da loucura, mas atenção, não na concepção da loucura, pode até ter atrasado, ajudado a quem pensa que ela não se situa no campo do humano. Esse é o paradoxo da medicação uma ajuda prática e um retrocesso teórico. Na verdade não é um retrocesso teórico, mas joga água no moinho do biologicismo. A medicação em si não possui teoria nenhuma, nem a revolução por ela operada tampouco. O que acontece é que pela fresta da falta de uma unidade teórica mínima a resposta a tal ou qual medicação acaba constituindo quadros.

A psicose tal qual a entendemos é o limite do humano. Há quem pense que o recurso à medicação compromete tal postura, que o recurso a medicação é capitular frente a concepção da psicose. Não é assim de maneira nenhuma. A medicação é de grande ajuda e remedia (já que é um remédio) possibilitando muitas vezes um tratamento. Quando mal usada, ou se usada para calar a boca do psicótico, impede tudo, não só o tratamento como a tentativa espontânea de cura. É o alcance da medicação é que vale a pena pensar, a medicação é sempre acessória, possibilitadora, nunca vai suprir um tratamento.

O fulcro do drama da psicose é um rasgo no tecido simbólico a psicose é um fato dentro do campo da linguagem, nunca nenhuma medicação, dentro do que temos experiência hoje, vai resolver isso. A questão é não fazer da medicação uma panacéia como faz a psiquiatria biologicista. Além de tudo a medicação é barata frente a outros programas que demandam material humano. No descaso em que os loucos são tratados quanto menos custo melhor. Podem apostar, as medicações vão ter um papel ainda mais decisivo por que avançam, são pesquisadas, aperfeiçoam-se e prometem uma cura higiênica, sem escuta e tudo o mais que desespera o neurótico comum frente a transferência da psicose.

Além do mais, não é um raciocínio para desenvolver agora, mas vivemos numa sociedade cada vez mais toxicômana, numa sociedade que tem uma esperança muito grande de que um objeto químico possa resolver os transtornos do nosso gozo.

Acredito que a salutar desconfiança com a medicação é mais um dos pontos da nossa herança do romantismo anti-psiquiátrico. Afinal a medicação pode ser usada como uma camisa de força moderna, sem chocar tanto. Bem ou mal, sem e herança da anti-psiquiatria e sem a sua ousadia não estaríamos fazendo progressos hoje.

Essa texto origina-se duma palestra que foi ministrada no seminário, Convivendo com a Loucura. Foi uma parceria da APPOA com a Secretaria da Saúde do Município de Porto Alegre.

Publicado no “Correio da APPOA” número 77, ano IX
10/01/00 |
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2 Comentários
  1. Lilian Strithorst permalink

    Trabalho numa comunidade terapêutica aqui em Colombo\Pr achei bacana e mto prestativo o que li ..tenho atendido mtos pacientes com alucinações …além da doença da toxicomania são portadores de problemas mentais . Obrigada

  2. vilma ap pereira permalink

    e a primeira vez q vejo um artigo tao duro mas real infelizmente …

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