É isto um jovem?

Após a era nuclear, há uma vacância na posição dos adultos, que se abstém como referência. Aos jovens, resta o preconceito, a inveja, são objeto de pensamentos apocalípticos. O livro de Rose Gurski questiona essas posições.

(Este texto é o prefácio do livro: “Três Ensaios sobre Juventude e Violência”, de Rose Gurski, Ed. Escuta)

Depois de ter visto e vivido o inominável, o escritor Primo Levi estruturou sua mais famosa narrativa da vivência como prisioneiro nos campos de concentração a partir da pergunta: “é isto um homem?”. Inconformado com a banalidade do mal, ele buscou os restos de humanidade dos envolvidos nessa experiência limítrofe: eles restavam nos pequenos gestos de solidariedade e cumplicidade. Foi também na própria capacidade de narrar sua jornada pelo horror que esse escritor, um judeu italiano, reencontrou-se, tentando recuperar os danos da sua dignidade usurpada.

Não surpreende que Rose Gurski faça eco a essa pergunta, ao interrogar qual é a humanidade que resta em certos jovens contemporâneos, capazes de matar e agredir friamente. Ela arrola vários desses casos que constituem uma realidade assustadoramente próxima da alegoria de Laranja Mecânica, de Kubrick, que estuda junto a filmes, muitos deles num território limítrofe entre a ficção e o documentário. Os casos e obras analisados pela autora não a conduzem a uma visão apocalíptica, ela não se une à vozes que caracteriza como tomadas de “pânico moral”, identificando a juventude com problema social.

A demonização dos jovens, tantas vezes considerados sem qualidades e portadores de todas as leviandades que seus críticos conseguirem arrolar, caminha junto com a incapacidade dos adultos de nosso tempo para se compreender e questionar. A tradição acabou sendo associada com um peso que os adultos não estão em condições de carregar, o passado dos contemporâneos parece estar povoado de vergonhas e fracassos. Curioso, pois estamos aterrizando do século XX, e nunca aconteceu tanto em tão pouco tempo. Mas nem só de maravilhas da ciência e comportamentos liberados, que são ganhos indiscutíveis, vive nosso passado recente. Temos muita vergonha a carregar, principalmente a guerra e os massacres. Além do holocausto, já mencionado, a bomba atômica liquidou com chave de ouro a segunda grande guerra, onde provamos a enorme extensão da nossa capacidade destrutiva. E ainda assombra tanto que adolescentes sejam cruéis? Além disso, as maravilhas científicas, a saúde e o bem estar que elas proporcionam, continuam convivendo sem aparentes contradições com a extrema miséria. Seria, então, tão dissonante que jovens desmiolados agridam um mendigo?

Entre os filmes mencionados neste livro, gostaria de focar nossa atenção sobre Rebel without a cause, no qual há uma cena que muito pode nos ensinar. O clássico de 1955, traduzido entre nós por Juventude transviada, faz parte da iconografia fundadora do mito do adolescente contemporâneo. James Dean, faz o papel de um jovem inquieto que busca valores e interlocutores até na polícia. Ele quer revelar a virilidade oculta sob o manto da covardia do próprio pai e alguma qualidade no vínculo entre seus pares, entregues à mediocridade das disputas de reconhecimento. Em suas caras de escárnio, melancolia e desamparo, na sua jaqueta vermelha e topete inspirou-se uma era de futuros adultos, que hoje são pais e avós.

A cena em questão, é um diálogo baseado num equívoco em torno da palavra inglesa “age”, que é cheio de pistas para esta nossa reflexão. “Age” serve tanto para uma época da vida, uma idade, quanto para uma era, um tempo da humanidade. Nele, a moça vivida pela atriz Natalie Wood, futura namorada do herói, aproxima-se de seu pai durante uma refeição familiar e tenta beijá-lo na bochecha, como fazia quando criança. Este a rejeita, resmungando que aos dezesseis anos ela já não deve ter esse comportamento (ele diz: “girls your age don’t do things like that!”). A filha protesta a perda do amor paterno, como se este tivesse que ser abandonado com a infância. Depois que ela sai batendo a porta, dizendo que essa não é mais sua casa, a mãe consola o pai atônito com a frase: “she’ll outgrow it, dear, is just de age!”, ou seja, que ele fique tranqüilo, a filha vai superar essa crise, trata-se apenas de uma idade, uma etapa, uma loucura temporária. O irmão menor da personagem estava por ali, brincando com uma arma espacial de plástico e arremeda, enquanto atira para cima: “yeah, it’s the atomic age!” (“sim, é a era atômica!). Na seqüência, a mãe segue o diálogo com o marido e acrescenta: “It’s just the age where nothing fits” (“é bem a época em que nada serve”).

O pequeno, tal qual uma voz de coro de teatro grego, informou o que os adultos estavam falando sem saber: a juventude da irmã transcorria nos escombros psíquicos de um trauma recente. Os pais dos Estados Unidos pós-guerra, mesmo na condição de membros da nação vitoriosa, não sabiam o que fazer com os filhos quando estes atingiam a idade dos antigos combatentes. A família da personagem de Dean, optava por manter o filho protegido, tratando-o como criança, enquanto a da moça tentava ignorar a fase em que a que a filha deixara de ser criança e não era ainda uma adulta, como se fosse um mal passageiro.

Embora os jovens pareçam bastante perdidos e principalmente tristes, a adolescência é neste filme um notório incômodo para os adultos. Os jovens ainda tão respeitosos e cerimoniosos dessa história já antiga, mesmo assim eram caso de polícia para essa sociedade de baby-boomers, tanto que um deles acaba morrendo. Trata-se de um crime estúpido, cometido por um policial estabanado, que extermina a vida de um garoto solitário e desajustado que só queria um pouco de atenção. Bem nos lembra Rose que os estudantes rebeldes do maio de 68 francês reivindicavam: “não nos mandem polícia, eduquem-nos!”.

Essa “era atômica” de que falava o garotinho, transcorrida nos anos da Guerra Fria, encontrou pulverizados todos os valores pelos quais seus protagonistas lutaram. Os heróis desse tempo eram mais traumatizados que orgulhosos, a reconstrução da Europa bombardeada desenterrava cadáveres de traição e indignidade. Quando os jovens de um mundo pacificado, voltado para o bem estar, começam a questionar o sentido da vida, esses pais encaram a melancolia juvenil como ingratidão: eles deveriam apenas aceitar a boa sorte e aproveitar as oportunidades de segurança que seus antepassados não tiveram. Ao contrário disso, os garotos do filme travam duelos letais com carros e canivetes, reproduzem em pequena escala a passagem do jovem pela guerra, e a experiência da proximidade da morte para fazer-se homens.

Jim Stark, personagem de Dean, reclama constantemente da covardia do pai, um marido submetido pela autoridade da mulher e da sogra, e lança-se num duelo em defesa da honra, após ser chamado de “chicken”. Mais uma vez, os jovens encenam em pequena escala os esqueletos no armário de seu tempo: a paz em que eles viviam era uma fina casquinha sobre a constante ameaça de um confronto terminal, a guerra atômica. Como queriam que aqueles garotos seguissem adiante, como gado, ignorando o conflito silencioso e totalizante, sobre o qual se estruturava a falsa calmaria? A quem queriam enganar aqueles adultos, exigindo que os jovens não se colocassem as questões terminais que seus pais, graças à guerra, puderam formular? Para que viver? Em nome de que lutar? Quais são os verdadeiros amores, os vínculos autênticos, capazes de sobreviver à adversidade?

Num instigante percurso teórico por autores como Hannah Arendt, Walter Benjamin, Giorgio Agamben, Maria Rita Kehl, Eric Hobsbawn, Jacques Lacan, Ana Costa, Contardo Calligaris, entre tantos outros, costurado pela análise de filmes como Aos treze (2003), Cama de gato (2002), Alpha dog (2006) e Os sonhadores (2003), este livro nos conduz a interrogações profundas. Simplesmente horrorizar-se com os jovens cruéis e transgressores, ou mesmo ignorá-los, esperando que seja um desajuste temporário, seria reproduzir as condutas dos adultos do filme. Pais, educadores e policiais em torno de Jim, fizeram de tudo para abafar a atitude adolescente enquanto uma forma, direta ou velada, de questionar.

A juventude está intrinsecamente associada ao tema do novo, onde aqueles que estão se tornando grandes de tamanho, embora ainda pequenos de experiências, inventariam seu legado, decidem o que levarão adiante e o que deixarão pelo caminho. Mas, lembra-nos a autora: “não é o jovem que ainda é pobre em experiência, é a sociedade que é pobre na capacidade de transmiti-la”. É sobre a diferença traçada pro Benjamin entre “vivência” e “experiência” que ela baseia suas reflexões, sendo a primeira apenas a memória de uma série de atos e acontecimentos que só podem ser assumidos e incorporados pelo sujeito mediante a transformação na segunda, Benjamin, ensina Rose, coloca a narrativa enquanto catalisador, instrumento de elaboração, tal como fez Primo Levi. Mas não se conte com os mais velhos para conduzir ou propiciar esse discurso, essa reflexão! Os jovens contemporâneos são filhos de gente que cresceu e envelheceu incapaz de tornar-se um adulto, determinados a jamais deixarem-se superar pelos mais jovens.

Não importando a idade, os que se sentem privados da própria juventude são incapazes de assumir a posição dos que, em vários aspectos, já tiveram sua vez. Já gastaram algumas fichas, mas mantêm os olhos postos apenas no que ainda gulosamente querem viver, sempre mais e muito. Como se a era atômica tivesse nos legado uma vida imediatista, sem passado nem futuro, numa eterna véspera de fim de mundo que o desarmamento nuclear não desbaratou.

Numa cultura onde a vaga de adolescente é disputada por gente de todas as idades, ficando essa época da vida associada a um imaginário (dos adultos) de oportunidades e prazeres (nada mais distante da realidade), resta pouco lugar para questionar. Alem disso, questionar a quem?

No filme Aos treze (também estudado por Rose) por exemplo, todos os personagens estão em busca de alguma razão de ser, mas enquanto os mais velhos se anestesiam com drogas e álcool, os mais jovens lançam mão à aparência, aos objetos, etiquetas e marcas. Não há nenhum adulto no filme, já que os mais velhos são visivelmente fascinados pelas promessas de gozo que atribuem à juventude. A mãe assiste a mutação da menina com alguma preocupação, mas ao mesmo tempo mostra-se paralisada, hipnotizada pelo personagem que surge daí: seu patinho feio tornando-se cisne, a mulher bela e sem limites. Mas quem não ficaria seduzida pela invocação destes poderes? Não é apenas um filme sobre uma adolescência difícil, é sobre os revezes de crescer num tempo em que poucos têm coragem de ser adultos.

Trata-se do fenômeno, caracterizado pela autora deste livro como de “erosão da adultez”, onde para os mais velhos que hoje trajam a fantasia da juventude eterna a reflexão é impossível. Como estes não permitem que o verdadeiro jovem os olhe como diferentes, nunca se estabelece a distância necessária para ver melhor, enxergar de fora.

Exatamente como nos afastamos de um objeto para lhe conhecer melhor as formas, os jovens precisam distanciar-se dos adultos para compreende-los melhor, decifrá-los e com isso conhecer-se. Analisando seus familiares, governantes, educadores, artistas, enfim, todos aqueles que teriam que ter algo a dizer ou mostrar a partir das escolhas que fizeram na vida, os novatos poderiam conhecer melhor suas possibilidades, ponderar sobre os erros que não querem repetir e os sucessos que gostariam de imitar. Dessa forma, seria possível aprender algo com a experiência dos mais velhos, que teriam transformado suas vivências em experiências, caso isso tenha ocorrido. Para tanto, é preciso dar uns passos para trás, estabelecer um espaço, uma diferença entre maduros e jovens, a qual não vem sendo permitida. Nesse sentido, a autora teoriza com Lacan que a agressividade, contida nessa violência juvenil que tanto assusta, é diretamente proporcional à necessidade do sujeito de demarcar seus limites, estabelecer seu território nem que seja a dentadas, como os animais.

A juventude é época agoniada, de impotência, de covardia, onde nada nos prova que seremos capazes de fazer alguma coisa, quanto mais algo que seja melhor do que já está. No entanto, esse é o desafio, pois se não tivéssemos a expectativa de superar, transcender o estabelecido, fazer algo novo, nem valeria a pena começar. Talvez por isso vê-se tanta gente moça desanimada, já que não há um ponto de onde começar, uma referência. É como se os adultos fizessem eco àquela frase jocosa de para-choque de caminhão: “não me siga, também estou perdido”.

A partir da modernidade uma existência tem se fazer valer, deixar sua marca na vida, pois o céu deixou de ser uma meta atraente e a manutenção da tradição não é um objetivo plausível. Arendt já questionava o que se lega aos descendentes, quando os ideais são engajados na esteira da ruptura, da revolução, nunca na manutenção do estabelecido. Rose Gurski aposta na narrativa, que ocorre nos momentos em que o adolescente é escutado, por exemplo. Nessa experiência discursiva torna-se possível equacionar uma relação com a herança recebida, sobre a qual eles possam então criar o novo, fazer suas revoluções, sempre bem vindas. Ela acredita no poder de um verdadeiro olhar adulto que não se negue a enxergar o sofrimento do adolescente. Estes são, enfim, três ensaios sobre a cegueira dos adultos e um chamado a abrir os olhos. O que temos a ver é doloroso mas belo, pois ao mesmo tempo em que nos sabemos passageiros, descobrimo-nos fonte de inúmeros tesouros, nossa herança para ser deixada tem que ter seu valor reconhecido. Afinal, o holocausto nuclear acabou (ainda?) não acontecendo. Há esperança.

Nenhum Comentário Ainda.

Comente este Post

Nota: Seu e-mail não será publicado.

Siga os comentários via RSS.