Festival de Besteiras

O Festival de Besteiras continua assolando o país

Nos anos sessenta Stanislaw Ponte Preta lançou três coletâneas de fatos que eram piadas prontas. Registrava o surto de burrice protagonizado pela ditadura no poder. Os livros chamavam-se FEBEAPÁ, sigla de: Festival de Besteiras que Assola o País. Lembro disso porque, novamente, uma parte do Brasil sente que vivemos uma época de piadas de mau gosto.

Muita gente se juntou às passeatas, mas o motor delas, o gatilho do movimento, são jovens urbanos, bem informados, conectados às redes sociais. São pessoas mais sensíveis a pautas sobre comportamento, ecologia e estilo de vida. Para eles certos fatos beiram o irreal e lhes dão a ideia de que o país está emburrecendo. As mais óbvias, que dispensam comentários, são a cura gay e a bolsa estupro, mas existem outras. A política de combate às drogas é falha, e recentemente foram aprovadas medidas que aprofundam os equívocos anteriores, nos atrelando ao modelo americano que não dá certo nem lá.

É esse mesmo pessoal que pede mais bicicletas e menos automóveis nas ruas, vê com tristeza árvores sendo derrubadas para alargar engarrafamentos. Se irrita com o crédito fácil para carros novos enquanto se usam os mesmos ônibus sucateados. Não percebe nada de novo para os velhos problemas de mobilidade urbana. Jaime Lerner disse que o carro é o cigarro do futuro e para essas pessoas esse futuro já chegou. Não enxergam o carro como charme, mas como incômodo.

Esse mesmo pessoal quer sair da caricatura do Brasil como país do samba e do futebol, por isso não sente a copa como sua. Ainda não sabem o que os representaria como o novo caráter nacional, por enquanto apenas recusam a velha marca. Pelo humor dos cartazes eles não rejeitam a alegria do carnaval nem o coletivo do futebol. Apenas querem ser outra coisa.

É claro que a crise se dá por uma questão de credibilidade, ninguém se sente representado por nada. Ela é mais que contra o governo, é contra o estado brasileiro, que se mostra surdo e corruptor. Mas esses movimentos também representam o choque do novo contra o velho. O país urbano, jovem, laico, sonhador, querendo inovar, contra o Brasil periférico, religioso, conservador e resignado. De um lado uma tentativa de crescer em harmonia com a natureza, do outro o progresso a qualquer preço que sempre foi praticado. Qual o seu lado?

26/06/13 |
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4 Comentários
  1. Robson permalink

    Comentário oportuno. Recorta perfil da maioria dos jovens que foram às ruas e aponta seu desejo. Também identifica o conflito novo x conservadorismo.
    Ah, sem esquecer que o Febeapá que assola o país vem de todos os lados, tb daqueles que apostavam no conformismo da “nova classe média”, ou de que bens materiais seriam suficientes para garantir que ninguém mais iria se manifestar por uma causa “imaterial”.
    O inquietante é o crescimento de velhas receitas vindas dos jovens ou dos velhos.

  2. Thiago permalink

    Muito bom o ponto de vista. Eu só discordo de uma coisa: a política de combate às drogas norte-americana funciona lá sim. E poderia funcionar aqui, desde que nós a adotássemos direito. Tolerância zero total para o porte, seja para tráfico, seja para consumo. Assim como a política uruguaia e holandesa também funciona: desde que se a adote por inteiro: libera-se o uso, controla-se a distribuição para o uso, criminaliza-se e pune-se o tráfico. Obviamente, é mais fácil fazer em países pequenos e de populações minúsculas do que no Brasil. O que vale salientar é o seguintes: modelos totalmente extremistas (repressores como o chinês ou o indonésio, ou permissivos como o uruguaio) podem funcionar, desde que aplicados corretamente. O problema do Brasil não é a política de combate às drogas, o problema do Brasil é o não-combate.

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