Jornalismo-Arte

Sobre o livro de Eliane Brum, A vida que ninguém vê

Já foi notícia a vida real de anti-heróis absolutos, antônimo dos famosos insossos que dão as Caras pra gente olhar. Nas colunas publicadas ao longo de vários sábados de 1999, neste jornal, a jornalista Eliane Brum foi desvelando “vidas próprias, desacontecimentos, não fatos, antinotícias, anonimatos”, fazendo exatamente o inverso do que se solicita que os jornalistas façam: manter-nos a par do que é importante e imprescindível de saber. Você pode reencontrar a beleza desses textos no livro “A Vida que Ninguém Vê” (Arquipélago Editorial, lançado ontem).

Eliane pinçou a lucidez delirante de mais de um louco folclórico, achou pequenos miseráveis capazes de um desejo ou uma solução inusitados. Admirada, ressaltou a pertinácia  daqueles que tiveram que lutar contra seu próprio corpo avariado. Curiosa, contou histórias como a de uma coleção de lixos preciosos, de um álbum de fotos abandonado. Surpreendente, revelou bastidores de vidas como a do lindo velhinho dos comerciais cuja verdadeira identidade é dum sobrevivente do holocausto, ou do carregador de malas de aeroporto que nunca voou. Não são histórias trágicas ou catárticas, ela não derrama desgraças, invés disso ressalta soluções, muitas artesanais ou inusitadas, para vidas que pareceriam inexeqüíveis. Os retratados não foram resgatados da miséria real ou desprovidos de suas tristezas, a alguns ela conseguiu tornar grandes aos próprios olhos, a todos aos nossos.

É preciso lembrar, as histórias que Eliane contou são reais, os personagens são fotografados, entrevistados. Além disso, muitos deles foram descobertos e revelados a ela pelos leitores, que logo perceberam que também podiam garimpar a poesia contida nas vidas que ninguém quer ver e lhe enviavam cartas, mails e objetos. Um jornalista, conclui-se, é não somente aquele que informa, mas também que pode e deve educar (ou reeducar) a percepção do leitor. Pena que em geral, nas páginas dos grandes jornais, só no futebol encontramos esse envolvimento com os personagens.

Freqüentemente, quando um paciente observa que está sem nenhuma novidade para contar eu brinco que não sou jornal, não preciso de notícias, gosto de velharias repetidas várias vezes, eventos aparentemente insignificantes. Por isso não me foi difícil entender e admirar essa narrativa, de jornal, que se constrói no fio da navalha entre a realidade e a ficção.O relato da história de uma vida em andamento é uma forma de questionar o destino, o próprio e o dos contemporâneos.

Em tempos em que vidas privadas de mentira dos famosos são expostas na imprensa com as falsas tintas de realidade maquiada, é um antídoto esse exercício em que vidas privadas de verdade são contadas com as cores da literatura. É um “milagre de gente”, como diz Eliane.

23/08/06 |
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