Maradona e a Argentina

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos [...]

Toda regra tem exceção. O difícil é quando se é a exceção. Todo Brasileiro menos um torce contra a seleção Argentina. O drama é que o menos um sou eu. Só peço ao leitor que antes de atirar a pedra leia até o fim.
Eu tenho um sobrinho argentino fanático pelo Boca Junior. Nós nos encontramos pouco, mas nos gostamos muito e por isso fizemos um pacto. Ele torceria pelo Inter sempre, menos contra o Boca, e eu seria Boca, menos, é claro, contra o Inter. Depois acertamos o mesmo entre as seleções. Foi difícil, sabia que me custaria muito, mas fiz pela nossa amizade, torci minha alma para torcer por eles.

Não pensem que isso me faz vacilar quando estamos contra eles. Eu estava em Buenos Aires naqueles três a zero em julho de 2007 e foi um dia que não esqueço.

Quando o Maradona assumiu, eu cantei a pedra. Disse que ele foi sublime em campo, mas fora dele só fez melda, e que a possibilidade de voltar a fazer era quase certo. Não me deu ouvidos, disse que eu estava erradíssimo e eles seriam campeões. Outros argentinos me disseram o mesmo: Maradona era a solução.

Hoje eles estão num brete, talvez até consigam ir à copa na repescagem, mas vamos combinar, é humilhante. Eu torço para irem, a copa sem los hermanos perde em charme. Não consigo conceber uma copa sem as grandes seleções, imaginem uma copa sem a Itália, sem a Alemanha. É como um campeonato gaúcho sem Grenal, o gosto não é o mesmo.

Mas a questão é que um país se expressa na sua seleção: a convocação de um herói do passado para salvar a pátria é o mesmo que os argentinos têm feito na política. Eles não renovam, tiram o pó das velhas bandeiras peronistas já sem cor e olham para o passado e não para o presente. Quando a coisa aperta convocam os mitos.

O que é o Maradona hoje? Uma mistura de Dom Quixote no corpo de Sancho Pança, uma combinação de arrogância com falta de qualquer percepção da realidade. Seus pés mágicos se foram e deixaram uma cabeça tonta que gasta quase toda sua energia para (mal) controlar seus vícios. Maradona foi um rei no futebol e um bufão na vida. A única coisa que se pode fazer com ele hoje é um tango.

Convocá-lo para técnico foi uma oferta dos argentinos para que ele se redima, e com isso redima a todos eles. A aposta saiu ao contrário, afundaram os dois. Um jogador pode administrar dons que compreende mal, pode deixar-se tomar pela competência mesmo sem ter nenhuma consciência de onde vem e como funciona. Já um técnico tem que ser ou alguém com visão estratégica e capacidade de administrar recursos humanos ou pode ser um líder nato, coisa que Maradona não é. Ele foi um craque nato, ser um ídolo e um exemplo de desempenho em campo não quer dizer que ele tem algum dom para a liderança. Nossos vizinhos apostaram no poder do mito, como se a presença xamânica do craque fosse hipnotizar a equipe, que aliás tem bom potencial.

Os argentinos são um povo que nunca diz basta para a saudades, a cada tanto andam de costas, tapados de mágoas antigas e idealizações extemporâneas. Por isso o populismo entre eles é tão entranhado, dificilmente abrem mão de lamentar o caudilho deposto, a primeira dama carismática, o amor perdido. Êta povo melancólico!

Pobre Argentina, e a seleção nem é o pior do que eles têm que aturar. A seleção só mostra o impasse que eles mesmos estão, eles têm craques, mas não sabem usar, eles são um povo culto e preparado, mas não se entendem para agir. E meu sobrinho no meio disso…

Postado nos sites Rolo Compressor e Terra do Nunca em setembro 2009

19/09/09 |
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