Os perigos da floresta

O brasileiro urbano vive suas florestas como um fundo de quintal psíquico, aquele lugar que nunca vamos mas sabemos que está lá e de alguma forma nos pertence e nos define. O Brasil é verde no mapa e na mitologia nacional. Mesmo sem conhecê-las, sem nunca ter ido até elas, nossas matas estarão presentes quando [...]

O brasileiro urbano vive suas florestas como um fundo de quintal psíquico, aquele lugar que nunca vamos mas sabemos que está lá e de alguma forma nos pertence e nos define. O Brasil é verde no mapa e na mitologia nacional. Mesmo sem conhecê-las, sem nunca ter ido até elas, nossas matas estarão presentes quando quisermos descrever nosso país. Nem todos os povos se definem pelo seu território, mas nós sim: para o brasileiro a história conta menos que a geografia para formar o imaginário nacional.

Felizmente agora floresta é representada de um modo positivo, depois de séculos de exploração, quando progredir significava avançar sobre seus domínios, crescer era colocá-la abaixo para que a nossa civilização a sobrepujasse. Hoje ser civilizado é querê-la virgem, preservada, desenvolvimento sim, mas de mão com a floresta.

Já para quem se aventura em suas entranhas a simpatia sofre um golpe, tudo nela resiste ao corpo estranho que a penetra. A floresta parece querer dissolver o intruso, o calor e a umidade destroem os sapatos e as roupas e  abatem o ânimo, se os insetos não o fizerem antes. Chove muito e nos sentimos como numa neblina corrosiva, tudo que não é vivo apodrece, enferruja e mofa rapidamente. Nosso senso de orientação é desativado, nossa mente cartesiana se confunde, pensamos com retas, mas na selva tudo é curvo. Os poucos ruídos que quebram o grande silêncio parecem vir de qualquer lugar. Na sua penumbra todas as direções são iguais, a diversidade é imensa, nada se destaca para que possamos orientar-nos. Para nossos olhos destreinados a selva é um labirinto. O Minotauro não virá, porém uma onça e animais peçonhentos de todos os tamanhos podem estar à espreita.

Quando finalmente algo faz diferença na paisagem é um curso d’água, mas as suas margens não se mostram mais dóceis. Terrenos alagadiços, igarapés, bloqueiam o caminho que já é por natureza sinuoso. Se as cobras já eram assustadoras em terra firme, na água são ainda mais ágeis, jacarés estão por toda  as partes e na falta deles as piranhas estarão a postos. Porém, para quem perseverar o resultado é maravilhoso, vale o sacrifício. Viver uns dias na floresta e transpô-la é uma experiência inesquecível, nunca mais seremos os mesmos.

Estamos falando da selva real, mas também existe a imaginária. O manto mágico com o qual a fantasia de índios e caboclos recobriu essa inóspita geografia talvez seja ainda mais assustador. Dentro dessa densa massa úmida e verde, já naturalmente rica em criaturas de todas as espécies, eles ainda adicionaram um sem número de seres fantásticos, tão terríficos quanto os piores perigos naturais.

Entre esses monstros folclóricos, o mais temido é o Anhangá. Ele não tem uma forma definida, pois é um espírito da floresta, porém pode tomar qualquer uma para fazer valer suas vinganças. Basicamente é um ser regulador, sua missão é punir os excessos, castigar o caçador que matar além da cota, só por diversão, ou caçar uma fêmea prenha ou ainda filhotes. O Anhangá vinga-se de várias maneiras, uma me parece especialmente cruel: cria uma miragem em que um ente querido do caçador assume a aparência de uma caça; o caçador vê e atira, só depois do dardo atingir o alvo o encanto é desfeito, e eis que ele se dá conta que involuntariamente matou um dos seus.

Criatura similar é o Caipora, um ser com essas mesmas funções. Ele é um protetor da caça e ninguém tem sucesso no mato sem sua ajuda, portanto, é melhor não tê-lo como inimigo. O Curupira, esse pequeno duende também é um guarda-florestal avant la lettre. Além dos animais, ele se preocupa com as árvores. O Boitatá é uma cobra de fogo que entre outras atribuições, pune quem faz queimada, numa lógica de ferir com fogo quem com fogo feriu. A Tapiora parece uma inofensiva anta, o caçador incauto se aproxima mas é ela que dá o bote, é um ser híbrido com onça e possui a ferocidade do felino. Graças a que ela possui um cheiro de podre fortíssimo, isso serve como alerta para sua presença e ela só ataca quem desrespeita a natureza.

Por sorte esses monstros ao menos possuem uma lógica, eles contra-atacam. Porém temos a turma dos ataques gratuitos, bastando ter o azar de cruzar seu caminho. Muito antes do Chupa-cabra migrar desde a América Central até aqui, nossos índios já conheciam o Capelobo, uma espécie de vampiro antropomórfico, com cabeça aparentada à do tamanduá, e que usa desse bico para chupar o cérebro e o sangue de suas vítimas. O Mapinguari vive no fundo da floresta amazônica, tem o tamanho de um urso e possui uma boca vertical que vai do nariz até o umbigo. Come a cabeça de quem encontra e não adianta flecha nem bala, ele não sente. Não o enfrente, fuja! Espero que você nunca encontre a Onça-boi, uma onça ímpar. Ela tem os pés de boi, mas na ferocidade assemelha-se à onça e não o boi. Claro que com essas patas ela não sobre em árvore, mas não adianta subir numa, ela cava as raízes até derrubar a árvore com a vítima, ou então espera embaixo até que o infeliz caia fatigado, como ela caça em pares, uma sempre estará de plantão esperando. Os ogros gigantescos e antropófagos estão por todos os lados. Qual é o mais temido? O Gorjala, ou o Labatut?

Esses seres são masculinos, mas não espere dos femininos melhor acolhida. Para nossos índios tudo tem uma mãe, que é, ao mesmo tempo, a origem e o espírito protetor de todo e qualquer ser, tanto vivo com inanimado. Por exemplo, a seringueira tem uma mãe, é a Mãe da Seringueira e, é claro, vai se vingar se você derrubou sem razão um de seus filhos. Logo, qualquer agressão à floresta, mesmo ao menor de seus seres, pode ser vingada, por isso use-a com parcimônia!

Na água não estaremos mais protegidos. Fora o Boto, um Dom Juan amazônico, os demais seres encantados aquáticos são maus. A mais simpática é a Iara, versão nacional da sereia. Essa beldade seduz os incautos, que a partir desse encontro nunca mais serão vistos. Ela promete amor, mas traz a morte. Medonho mesmo é o seu ancestral, o Ipupiara, que não é exatamente um ser, mas um povo que habita o fundo das águas e só vem à tona para atazanar os povos ribeirinhos. Alguns dizem que são parecidos aos humanos, outros dizem que são monstruosos, mas não dão detalhes da sua aparência. Quando podem matam os humanos e comem as partes externas, dedos, olhos, orelhas, o nariz e abandonam o resto do corpo à correnteza. A Cobra-grande ou Boiúna aterroriza a todos, é uma cobra de proporções gigantescas, pode engolir canoas com todos seus ocupantes de uma vez. Além disso possui o poder da metamorfose, transforma-se por exemplo num barco, chega perto duma aldeia que acode para negociar combustível e comida com a tripulação, ela deixa que subam a bordo então submerge levando a todos.

É claro, essa divisão, entre o que é encantado e real, é nossa. Os habitantes da floresta a compreendem num só plano, onde o mágico é natural. Com essa concepção aprenderam a ocupá-la e estão lá há milênios, num equilíbrio harmônico. A dificuldade persiste para aqueles que, como nós, precisam se equilibrar entre o pensamento mágico e a razão e entre a natureza e a cultura. Não sabendo como transitar por essas fronteiras, abolimos a diferença: quer seja asfaltando a floresta, ou compreendendo-a como uma fonte bens naturais. Através desse pragmatismo, afastamo-nos de sua maior contribuição, que é a de ser a fonte de mistérios de que tanto necessitamos. As personagens dos contos de fadas sempre desapareciam para dentro de alguma mitológica floresta para lá realizar sua jornada de iniciação. Nossa cultura preservou esses cacos ancestrais através das narrativas folclóricas, onde a natureza ainda é mãe da magia com a qual precisamos recobrir o que nos é desconhecido e incompreensível. Por sorte ainda podemos brincar na floresta enquanto seu lobo não vem.

O Brazil desconhece o Brasil, por isso sub utiliza seu folclore. Quando penso em como preservar nossas florestas, uma das idéias é seguir esse caminho: aproximarmo-nos de seus mistérios, vendê-las como mágicas. Concebê-las não só como reserva de oxigênio e biodiversidade, mas como reserva ecológica de monstros e encantamentos. Fazer acreditar, por exemplo, que num relance poderíamos avistar um Saci. Funciona, todos temos dentro uma criança que só espera uma chance para acreditar em fadas.

Em 2007

19/11/07 |
(2)
2 Comentários
  1. amanda permalink

    muito insinativo

  2. Rejane Dockhorn permalink

    Maravilhoso texto, parabéns Mário & Diana Corso. O Brazil desconhece o Brasil entre tantas outras joias neste texto. Só fui ler agora, antes tarde do que mais tarde. Viva nossas florestas, nossos monstros (Curupira e Iara, entre meus preferidos e dos meus filhos também), nosso folclore, nossos medos e nossas belezas! Transitar entre a mágica e a razão, entre a natureza e a cultura, exige muita sabedoria. que bom que vocês contribuem com este olhar.

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